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  rico Verssimo

  O tempo e o vento

 O arquiplago (Volume I)

    BIBLIOTECA PBLICA DO PARAN
    NO DANIFIQUE ESTA ETIQUETA
    30 254 788

    CIRCULO DO LIVRO LTDA.
    Caixa postal 7413
    01065-970 So Paulo, Brasil

  Edio integral

  Copyright (c) 1961 Mafalda Volpe Verssimo, Clarissa Verssimo Jaffe
e Lus Fernando Verssimo

  Capa: Ana Suely Dobon

  Licena editorial para o Crculo do Livro por cortesia da Editora Globo S.A. mediante acordo com os herdeiros
  Venda permitida apenas aos scios do Crculo

  Composio: Crculo do Livro Impresso e acabamento: Grfica Crculo

  ISBN 85-332-0789-1

  Sumrio

  Reunio de famlia  I - 7
  Caderno de pauta simples - 81
  O deputado - 87
  Reunio de famlia - II - 249
 Caderno de pauta simples - 305
  Leno encarnado - 315
  Reunio de famlia - III - 477
  Caderno de pauta simples - 507
  Um certo major Torbio - 517


  Reunio de famlia - I

  25 de novembro de 1945

  ...onde estou? ...alcova-tmulo escuro sem ar... o sapo-boi latejando entre as pernas... fole viscoso esguichando um lquido negro... pregado  cama morturia...
o sangue se esvaindo pelos poros do animal... incha e desincha... incha e desincha... a coisa lhe sobe sufocante no peito. a menininha com saiote de bailarina flor
vermelha no sexo manipula o brinquedo de mola. .. ele quer gritar que no!... mas a voz no sai... o sapo-fole atravessado na garganta... a menininha acaricia o
monstro... no sabe que ele esguicha veneno... minha filha v buscar socorro... que venham acalmar o animal... mas cuidado no me machuquem o peito... a menininha
no sabe... aperta com os dedos o brinquedo proibido... no v que assim vai matar o Sumo Pontfice?... o remdio  cuspir fora o sapo... tossir fora o bicho-fole-msculo...
tossir fora...
  Poucos minutos depois das duas da madrugada, Rodrigo Cambar desperta de repente, soergue-se na cama, arquejante",
e atravs da nvoa e do confuso horror do pesadelo,
sente na penumbra do quarto uma presena inimiga... Quem ? - exclama mentalmente, pensando em pegar o revlver, que est na gaveta da mesinha-de-cabeceira. Quem
? Silncio e sombra. Uma ccega aflitiva na garganta provoca-lhe um acesso de tosse curta e espasmdica... E ele toma ento conscincia do peso no peito, da falta
de ar... Ergue a mo para desabotoar o casaco do pijama e leva alguns segundos para perceber que est de torso nu. Um suor viscoso e frio umedece-lhe a pele. Vem-lhe
de sbito o vapor de um novo ataque... Espalma ambas as mos sobre o peito e, agora sentado na cama,
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  meio encurvado, fica imvel esperando a dor da angina. Santo Deus! Decerto  o fim... Em cima da mesinha, a ampola de nitrito... Na gaveta, o revlver... Quebrar
a ampola e lev-la s narinas... Encostar o cano da arma ao ouvido, puxar o gatilho, estourar os miolos, terminar a agonia... Talvez uma morte rpida seja prefervel
 dor brutal que mais de uma vez lhe lancetou o peito... Mas ele quer viver... Viver! Se ao menos pudesse cessar de tossir, ficar imvel como uma esttua... Sente
o surdo pulsar do corao, a respirao estertorosa... Mas a dor lancinante no vem, louvado seja Deus! S continua a opresso no peito, esta dificuldade no respirar...
  Com o esprito ainda embaciado pelo sono, pensa: Estou me afogando. E num relmpago lhe passa pela mente
uma cena da infncia: perdeu o p no poo da cascata, afundou,
a gua entroulhe pela boca e pelas ventas, sufocando-o... Agora compreende: Est morrendo afogado! Torbio! - quer gritar. Mas em vez do nome do irmo morto, o que
lhe sai da boca  um lquido. . . baba? espuma? sangue?
  A sensao de asfixia  agora to intensa, que ele se ergue da cama, caminha estonteado at a janela, numa busca de ar, de alvio. Apoia as mos no peitoril e 
ali
fica a ofegar, de boca aberta, olhando, embora sem ver, a praa deserta e a noite, mas consciente duma fria sensao de abandono e solido. Por que no me socorrem?
Onde est a gente da casa? O enfermeiro? Vo me deixar morrer sozinho? Faz meia-volta e, sempre tossindo e expectorando, d alguns passos cegos, derruba a cadeira
que lhe barra o caminho, busca a porta, em pnico... "Dinda!" - consegue gritar. A porta se abre, enquadrando um vulto: Maria Valria com uma vela acesa na mo.
Rodrigo aproxima-se da velha, segura-lhe ambos os braos, mas recua soltando um ai, pois a chama da vela lhe chamusca os cabelos do peito.
  - Estou morrendo, Dinda! Chamem o Dante!
  A velha, os olhos velados pela catarata, sai pelo corredor como um sino de alarma a despertar a gente do Sobrado - Floriano! - o castial treme-lhe na mo - Slvia!
- as pupilas esbranquiadas continuam imveis, fitas em parte nenhuma - Eduardo! - e sua voz seca e spera raspa o silncio do casaro.
  
  Floriano precipita-se escada abaixo, na direo da porta da rua. Felizmente - pensa - o Dante Camerino mora do outro lado da praa, que ele atravessa a correr. 
O
mdico no tarda em atender s suas batidas frenticas na porta. E quando ele assoma  janela, Floriano grita:
  - Depressa! O Velho teve outro ataque.
  Um minuto depois ambos se encaminham para o Sobrado em marcha acelerada. O dr. Camerino vestiu um roupo de banho por cima do pijama, e leva na mo uma maleta 
de
emergncia.
  Um cachorro uiva em uma rua distante. Vaga-lumes pingam a noite com sua luz verde.
  - Aos quarenta e cinco anos a gente fica meio pesadote - diz o mdico, j ofegante. - Tu enfim s um jogador de tnis...
  - Era.
  - Seja como for, tens onze anos menos que eu...
  Noite morna de ar parado. O galo do cata-vento, no alto da torre da matriz, de to negro e ntido parece desenhado no cu, a nanquim.
  Floriano finalmente faz a pergunta que vem reprimindo desde que viu o amigo:
  - Ser um novo infarto?
  - Pode ser...
  Da Padaria Estrela-d'Alva vem um cheiro de po recm-sado do forno. A figueira grande da praa parece um paquiderme adormecido.
  - Que providncia tomou o enfermeiro?
  - Que enfermeiro? O Velho despediu-o ontem ao anoitecer.
  - Esse teu pai  um homem impossvel!
  - Ontem  noite fez uma das suas. Saiu s oito com o Neco Rosa e s voltou l pelas onze...
  - Madona! Sabes aonde ele foi?
  - Desconfio...
  - Desconfias coisa nenhuma! Est claro como gua. Foi dormir com a amante.
  Toda Santa F sabe que Snia Fraga, a "amiguinha" de Rodrigo Cambar, chegou h dois dias do Rio e est hospedada no Hotel da Serra.
  Muitas das janelas do Sobrado esto agora iluminadas. Dante Camerino segura com fora o brao de Floriano.
  - O dr. Rodrigo merecia ser capado... - diz, com a voz entrecortada pelo cansao. E, numa irritao mesclada de ternura, acrescenta: - E capado de volta!
  Entram ambos no casaro. Camerino sobe imediatamente ao quarto do doente. Floriano, entretanto, permanece no vestbulo, hesitante. Sempre detestou as situaes 
dramticas
e mrbidas da vida real, embora sinta por elas um estranho fascnio, quando projetadas no plano da arte. Sabe que seu dever  subir para ajudar o mdico a socorrer
o Velho, mas o corpo inteiro lhe grita que fique, que fuja... Uma leve sensao de nusea comea a esfriar-lhe o estmago.
  A mulata Laurinda assoma a uma das portas do vestbulo, e em seus olhos gelatinosos de peixe Floriano l uma interrogao assustada.
  - No  nada - diz ele. - V aquentar a gua para um cafezinho.
  A velha faz meia-volta e afasta-se rumo da cozinha, com seus passos arrastados de reumtica.
  Floriano est j com o p no primeiro degrau quando lhe chega s narinas um aroma inconfundvel. Bond Street. Volta a cabea e v o "marido" de Bibi. Marcos Sandoval
est metido no seu robe de chambre de seda cor de vinho, presente - assim ele no perde ocasio de proclamar - de seu amigo, o prncipe dom Joo de Orleans e Bragana.
  - Posso ajudar em alguma coisa, meu velho? - pergunta ele com sua voz bem modulada e cheia dum envolvente encanto ao qual Floriano procura sempre opor suas resistncias
de Terra, pois seu lado Cambar tende a simpatizar com o patife.
  Sente gana de gritar-lhe: "Volte para o quarto! No se meta onde no  chamado. No compreende que isto  um assunto de famlia?"
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  Mas domina-se e, sem olhar para o outro, murmura apenas: "No. Obrigado".
  grado seu, Floriano identifica a irm com a amante do pai, e isto o deixa de tal modo constrangido, que ele no tem coragem de encar-la, como se a rapariga tivesse
realmente acabado de cometer um incesto.
  Bibi desce apressada e, ao passar entre o irmo e o marido, murmura: "Vou buscar um prato fundo para a sangria".
  A palavra sangria golpeia Floriano em pleno peito. Mas ele sobe a escada s pressas, fugindo paradoxalmente na direo da coisa que o atemoriza.
  L em cima no corredor sombrio encontra Slvia. Por alguns segundos ficam parados um  frente do outro, em silncio. Floriano sente-se tomado de um trmulo, terno 
desejo de estreitar a cunhada contra o peito, beijar-lhe as faces, os olhos, os cabelos, e sussurrarlhe ao ouvido palavras de amor. Estonteia-o a confusa impresso 
de que no s o Velho, mas ele tambm, est em perigo de vida, e talvez esta seja a ltima oportunidade para a grande e temida confisso... Mas censura-se e despreza-se 
por causa destes sentimentos. Slvia  a mulher legtima de seu irmo... E a poucos passos dali seu pai talvez esteja em agonia...
  Sem dizer palavra, precipita-se para o quarto do doente.
  Rodrigo est sentado na cama, a face de uma lividez ciantica, o peito arfante, a boca semi-aberta numa ansiada busca de ar - o rosto, os braos, o torso reluzentes 
de suor... Pelas comissuras dos lbios arroxeados escorre-lhe uma secreo rosada. Inclinada sobre o marido, Flora de quando em quando limpa-lhe a boca e o queixo 
com um leno.
  Bibi - que o irmo percebe obliquamente apenas como uma mancha vermelha - entra agora, trazendo um prato fundo, que depe em cima da mesinha-de-cabeceira .
  Floriano aproxima-se do leito. Rodrigo fita nele o olhar amortecido e dirige-lhe um plido sorriso, como o de um menino que procura provar que no est amedrontado. 
Floriano"passa 
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  timidamente a mo pelos cabelos do pai, numa carcia desajeitada, e nesse momento seu eu se divide em dois: o que faz a carcia e o Outro, que o observa de longe, 
com 
olho crtico, achando o gesto feminino, alm de melodramtico. Ele odeia ento o seu Doppelgnger, e esse dio acaba caindo inteiro sobre si mesmo. Inibido, interrompe 
a carcia, deixa o brao tombar ao longo do corpo.
  O silncio do quarto  arranhado apenas pelo som estertoroso da respirao de Rodrigo. Floriano contempla o rosto do pai e se v nele como num espelho. A parecena 
fsica entre ambos, segundo a opinio geral e a sua prpria,  extraordinria. Por um instante, sua identificao com o enfermo  to aguda, que Floriano chega a 
sentir tambm uma angstia de afogado, e olha automaticamente para as janelas, numa esperana de mais ar...
  Postada aos ps da cama, ereta, Maria Valria conserva ainda na mo a vela acesa; seus olhos vazios parecem focados no crucifixo negro que pende da parede fronteira.
  Com o estetoscpio ajustado aos ouvidos, o dr. Camerino por alguns segundos detm-se a auscultar o corao e os pulmes do paciente. Trabalha num silncio concentrado, 
o cenho franzido, evitando o olhar das pessoas que o cercam, como se temesse qualquer interpelao. Terminada a auscultao, volta as costas ao doente e por espao 
de um minuto fica a preparar a seringa que esteve a ferver no estojo, sobre a chama de lcool. Depois torna a acercar-se de Rodrigo, dizendo: "Vou lhe dar uma morfina. 
Tenha pacincia, o alvio no tarda".
  Floriano desvia o olhar do brao do pai que o mdico vai picar. Um cheiro ativo de ter espalha-se no ar, misturando-se com a desmaiada fragrncia das madressilvas, 
que entra no quarto com o hlito morno da noite.
  Bibi aproxima-se de Maria Valria e, inclinando-se sobre o castial, apaga a vela com um sopro.
  Desde que entrou, Floriano tem evitado encarar Flora, mas h um momento em que os olhos de ambos se encontram por um rpido instante. "Ela sabe de tudo" - conclui 
ele.
  Rodrigo ergue o brao, sua mo procura a da esposa. Floriano teme que a me no queira compreender o gesto. Flora, porm,
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  segura a mo do marido, que volta para ela um olhar no qual o filho julga ver um mudo, pattico pedido de perdo. A cena deixa-o to embaraado, que ele volta 
a 
cabea e s ento d pela presena de Slvia, a um canto do quarto, as mos espalmadas sobre o rosto, os ombros sacudidos por soluos mal contidos.
  No momento em que o dr. Camerino mede a presso arterial do doente, Floriano olha para o manmetro e, alarmado, v o ponteiro oscilar sobre o nmero 240.
  - Quanto? - balbucia Rodrigo.
  O mdico no responde. Agora seus movimentos se fazem mais rpidos e decididos.
  - Vou lhe fazer uma sangria. Isso lhe dar um alvio completo.
  Ao ouvirem a palavra sangria, Flora, Bibi e Slvia, uma aps outra, retiram-se do quarto nas pontas dos ps. Maria Valria, porm, continua imvel.
  O dr. Camerino garroteia o brao de Rodrigo, coloca o prato na posio conveniente, tira da maleta um bisturi e flamba-o.
  - Segura o brao do teu pai.
  Floriano obedece. O mdico passa um chumao de algodo embebido em ter sobre a prega do cotovelo do paciente.
  - Agora fique quieto...
  Rodrigo cerra os olhos. O dr. Camerino faz uma inciso na veia mais saliente. Um sangue escuro comea a manar do talho, escorrendo para dentro do prato.
  Floriano tem conscincia duma perturbadora mescla de cheiros - o suor do pai, Tabac Blond, ter e sangue. A imagem de seu tio Torbio se lhe desenha na mente, 
de 
mistura com a melodia obsessiva duma marcha de carnaval. Por um instante assombra-lhe a memria todo o confuso horror daquela remota e trgica noite de ano-bom... 
Um suor lgido comea a umedecer-lhe o rosto e os membros, ao mesmo tempo que uma sensao de enfraquecimento lhe quebranta o corpo, como se ele tambm estivesse 
sendo sangrado.
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  Seu olhar segue agora, vago, o vo dum vaga-lume que entra lucilando no quarto, pousa por uma frao de segundo no espelho do guarda-roupa e depois se escapa por 
uma das janelas.
  - Ento, como se sente? - pergunta Camerino. - Diminuiu a dispnia?
  Rodrigo abre os olhos e sorri. Sua respirao agora est mais lenta e regular. A transpirao diminui. A cor natural comea a voltar-lhe ao rosto.
  O mdico trata de verificar-lhe o pulso, ao mesmo tempo que lhe conta os movimentos respiratrios.
  - Pronto!- exclama, ao cabo de algum tempo, com um sorriso um pouco forado. - Dona Maria Valria, o nosso homem est novo!
  Tampona com um chumao de gaze a veia aberta e pouco depois fecha-a com um agrafo.
  Floriano apanha o prato cheio de sangue e no momento em que o coloca em cima da mesinha-de-cabeceira, sente uma sbita nsia de vmito. Precipita-se para o quarto 
de banho, inclina-se sobre o vaso sanitrio e ali despeja espasmodicamente a sua angstia. Aliviado, mas ainda amolentado e trmulo, mira-se no espelho e fica meio 
alarmado ante a prpria lividez. Abre a torneira, junta gua no cncavo da mo, sorve-a, enxagua a boca, gargareja - repete a operao muitas vezes, at fazer desaparecer 
o amargor da blis. Depois lava o rosto e as mos com sabonete, enxuga-se lento, sem a menor pressa de tornar ao quarto, vagamente envergonhado de sua fraqueza. 
Quando volta, minutos depois, encontra o pai semideitado na cama, apoiado em travesseiros altos. O dr. Camerino acabou de injetar-lhe um cardiotnico na veia e agora 
est de novo a auscult-lo.
  Sentindo a presena de Floriano a seu lado, Maria Valria lhe diz:
  - V tomar um ch de erva-doce, menino.  bom para o estmago.
  Rodrigo esfora-se ainda por manter os olhos abertos.
  - No lute mais - murmura o mdico. - A morfina  mais forte que o senhor. Entregue-se. Est tudo bem.
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  Sua grande mo cabeluda toca o ombro do paciente, que diz qualquer coisa em voz to baixa, que nenhum dos outros dois homens consegue entender. O dr. Camerino 
inclina-se 
sobre a cama e pergunta:
  - Que foi? Rodrigo balbucia:
  - Que merda!
  E cai no sono. Maria Valria sorri. Floriano enlaa-lhe a cintura:
  - Vamos, Dinda, o seu mimoso est dormindo.
  - Quem  que vai passar o resto da noite com ele? - pergunta a velha. - Decidiremos isso l embaixo - responde o mdico.
  Apaga a luz do lustre, deixando acesa apenas a lmpada de abajur verde, ao p da cama.
  Fora do quarto, no corredor, Maria Valria pra e fica um instante a escutar, como para se certificar de que ningum mais a pode ouvir, alm dos dois homens que 
a acompanham. Depois, em voz baixa, diz:
  - Vocs pensam que no sei de tudo?
  Camerino acende um cigarro, solta uma baforada de fumaa
  e sorri:
  - Que  que a senhora sabe?
  - O que voc tambm sabe.
  - E que  que eu sei?
  - Ora no se faa de tolo!
  O mdico pisca um olho para Floriano:
  - Sua tia est atirando verdes para colher maduros...
  A velha pe-se a quebrar com a unha a cera que incrusta a base do castial. Aps uma breve pausa, cicia:
  - A amsia do Rodrigo est na terra. Esta noite, l pelas oito, ele saiu com aquele alcagete sem-vergonha do Neco, e s voltaram depois dumas trs horas. No 
 
preciso ser muito ladino para adivinhar aonde foram...
  Floriano e Camerino entreolham-se.
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  - Dona Flora sabe? - pergunta o mdico.
  - Se sabe - responde a velha - no fui eu quem contou. Floriano toma-lhe o brao:
  - Agora a senhora v direitinho para a cama.
  - No estou com sono.
  - Mas v assim mesmo.
  - No me amole, menino!
  Floriano conduz a velha at a porta do quarto dela.
  - Vamos, Dinda, entre. Se houver alguma novidade ns lhe avisaremos...
  Os dois amigos descem para o andar inferior e encontram as outras pessoas da casa reunidas na sala de visitas. Cena final do segundo ato duma comdia dramtica 
- 
pensa Floriano, censurando-se a si mesmo por no ter podido (ou querido?) evitar a comparao. O pano de boca acaba de erguer-se - continua a refletir, desgostoso 
consigo mesmo... ou com os outros?... ou com os acontecimentos? As personagens encontram-se nos seus devidos lugares. O cenrio est de acordo com as determinaes 
do autor. Sala de visitas no velho sobrado duma famlia abastada numa cidade do interior do Rio Grande do Sul. Mveis antigos, escuros e pesados. Um tapete persa 
em tons avermelhados (imitao, indstria paulista) cobre parte do soalho. Um pomposo lustro de vidrilhos, de lmpadas acesas, pende do teto, refletindo-se festivamente 
no grande espelho avoengo de moldura dourada que adorna uma das paredes, pouco acima dum consolo sobre o qual repousa um vaso azul com algumas rosas amarelas meio 
murchas. A um dos cantos da sala, num cavalete, v-se uma grande tela: o retrato a leo, de corpo inteiro, dum homem de seus vinte e cinco anos, vestido de acordo 
com a moda do princpio do sculo.
  Flora est sentada numa cadeira de jacarand lavrado, de respaldo alto. Tem as mos pousadas no regao, e em seus olhos tresnoitados Floriano julga ler uma expresso 
de nsia mesclada de constrangimento. De p ao lado da cadeira, Slvia fita nos recm-chegados um olhar tmido e assustado que parece gritar: "Por amor de Deus, 
no 
me digam que ele est desenganado!" Junto a uma
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  das janelas que se abrem para a praa, Bibi, os olhos meio exorbitados, fuma nervosamente, agitando os braos em movimentos bruscos (Bette Davis interpretando 
o 
papel de uma jovem neurtica). De costas para o espelho, perfilado e correto, colorido como um modelo de moda masculina do Esquire - revista que ele assina s para 
ver as figuras, pois no sabe ingls -, Marcos Sandoval fuma placidamente, aromatizando o ar com a fragrncia de guaco da fumaa de seu cachimbo. S lhe falta ter 
na mo um copo para ser a imitao perfeita do man ofdhtinction dos anncios do usque Schenley.
  Todas estas reflexes passam pelo esprito de Floriano nos curtos segundos de silncio decorridos entre sua entrada na sala e o momento em que Flora, dirigindo-se 
ao mdico, pergunta:
  - Como est ele?
  Ocorre agora a Floriano que nestes ltimos anos nunca ouviu a me pronunciar uma vez sequer o nome do marido. Quando fala com qualquer dos filhos, refere-se a 
ele 
como "teu pai". Para os criados Rodrigo  sempre "o doutor".
  - O acidente foi superado - responde Camerino. - Com a morfina, o nosso homem vai dormir toda a noite. Deixem que amanh ele acorde espontaneamente. Ah!  indispensvel 
que permanea na cama, no mais absoluto repouso. E nada de visitas, por enquanto
  - E a alimentao? - indaga Slvia.
  - Se ao despertar ele tiver fome, dem-lhe um ch com torradas e um copo de caldo de frutas. Durante as prximas quarenta e oito horas ter de fazer uma dieta 
rigorosa. 
- Passa as mos pelos cabelos revoltos, ao mesmo tempo que abafa um bocejo. Depois pergunta: - Quem  que vai passar a noite com ele?
  - Eu - Slvia apressa-se a dizer.
  - Est bem. Se houver alguma novidade, mandem me chamar. Mas acho que no vai haver nenhuma. De qualquer modo, voltarei amanh, l pelas oito...
  - Foi um novo infarto, doutor? - pergunta Sandoval.
  O marido de Bibi - reflete Floriano - no tem nenhuma estima real pelo sogro... Consciente ou inconscientemente deve estar
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  interessado numa soluo rpida da crise. Morto Rodrigo, faz-se o inventrio e a partilha de seus bens; Bibi exigir sua parte em dinheiro e ambos podero voltar 
para o Rio, para o tipo de vida que tanto amam... Mas ao pensar estas coisas Floriano sente, perturbado, que no est agredindo apenas a Sandoval, mas tambm a si 
mesmo.
  - No - esclarece o mdico - desta vez foi um edema agudo de pulmo...
  E cala-se, sem coragem - imagina Floriano - para explicar a gravidade do acidente. H ento um silncio embaraoso de expectativa, e a pergunta que ningum faz 
fica 
pesando no ar. O dr. Camerino depe a maleta em cima de uma cadeira, apaga o cigarro contra o fundo de um cinzeiro, desata e torna a atar os cordes do roupo ao 
redor da cintura, e a seguir olha para Floriano como a perguntar-lhe: "Devo falar franco? Valer a pena alarmar esta gente?"
  Laurinda alivia a tenso do ambiente ao entrar trazendo seis xcaras de caf numa bandeja. Todos se servem, com a exceo de Flora e Slvia. Camerino lana um 
olhar 
afetuoso para o retrato de Rodrigo, pintado em 1910 por don Jos Garcia, um artista bomio natural da Espanha.
  - No tempo em que don Pepe pintou esse quadro - diz o mdico, dirigindo-se a Sandoval - eu devia ter uns dez anos. Dona Flora decerto se lembra... Meu pai era 
dono 
da Funilaria Vesvio, onde eu tinha a minha "banca de engraxate". O dr. Rodrigo era um dos meus melhores fregueses. Sentava-se na cadeira e ia logo dizendo: "Dante, 
quero que meus sapatos fiquem como espelhos".
  Faz uma pausa para tomar um gole de caf, e depois continua:
  - Conversava muito comigo. "Que  que tu vais ser quando ficares grande?" Eu respondia, mais que depressa: "Doutor de curar gente". O dr. Rodrigo soltava a sua 
bela 
risada, passava a mo pela minha cabea, e cantarolava: "Dante Camerino, bello bambino, bravo piccolino, futuro dottorino ".
  Todos agora miram o Retrato, menos Flora, que tem os olhos baixos, e Floriano, que observa as reaes dos outros s palavras do mdico. Julga perceber uma expresso 
de ironia na face de Sandoval;
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  uma impaciente indiferena na de Bibi; um misto de simpatia e piedade na de Slvia. Quanto  me, Floriano nota que ela mal consegue disfarar seu mal-estar.
  O mdico depe sua xcara sobre o consolo e, pondo na voz uma doura de canoneta napolitana, prossegue:
  - Pois agora aqui est o dr. Camerino, trinta e cinco anos depois. - Segura o ventre com ambas as mos e sorri tristemente para Sandoval. - No mais bambino nem 
piccolino, nem bello nem bravo. E se consegui ficar dottorino foi graas ao dr. Rodrigo, que custeou todo o meu curso, do ginsio  Faculdade de Medicina. - Solta 
um suspiro, torna a olhar para o Retrato e conclui: - Por mais que eu faa por esse homem, jamais conseguirei pagar a minha dvida.
  Faz-se um silncio difcil. O canastro terminou o seu monlogo, a sua pice de rsistance; mas ningum o aplaudiu. Por que tudo isto continua a me parecer teatro? 
- pensa Floriano, irritado consigo mesmo e ansioso por tirar Camerino da sala, antes que o sentimentalo desate o pranto. Ali est ele com um surrado roupo de banho 
por cima do pijama zebrado, os ps nus metidos em chinelos. Com seus cabelos encaracolados, o rosto redondo, rseo e fornido (sombreado agora pela barba de um dia), 
a boca pequena mas polpuda e vermelha, os olhos escuros e inocentes - o filho do funileiro calabrs mais que nunca lembra a Floriano um querubim de Botticelli que 
tivesse crescido e atingido a meia-idade.
  - Vamos, Dante - convida Floriano, puxando o outro pelo brao. - Eu te acompanho at tua casa. Estou sem sono.
  Camerino apanha a maleta, despede-se e sai com o amigo.
  Atravessam lentamente a rua. A boca ainda amarga, as mos um pouco trmulas, Floriano caminha com a sensao de que seu corpo flutua no ar, sem'peso, como em certos 
sonhos da infncia.
  Fazem uma pausa na calada da praa. Dante aponta para uma casa acachapada fronteira ao Sobrado, e em cuja fachada branca, pouco abaixo da platibanda, se destacam 
letras negras e gradas, num arremedo de gtico: Armadora Pitombo. Pompas Fnebres.
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  - Ests vendo? - observa Camerino. - Luz no quarto de Pitombo.
  Floriano sorri:
  - O nosso defunteiro nestas ltimas semanas tem estado em "prontido" rigorosa, esperando a qualquer momento a morte do Velho. Decerto viu as luzes acesas l em 
casa e ficou alerta...
  Camerino acende outro cigarro e, puxando o amigo pelo brao, diz-lhe:
  - Sabes o que se murmura na cidade? Que o Z Pitombo tem j pronto um caixo finssimo nas dimenses de teu pai. Cachorro!
  Do alguns passos em silncio. Na praa deserta os vaga-lumes continuam o seu bailado.
  - Dante - murmura Floriano - aqui para ns... qual  mesmo a situao do Velho? Essa coisa que ele teve  muito sria, no?
  Camerino passa a mo pelos cabelos, num gesto meio perdido.
  - Um edema agudo de pulmo por si s  algo de gravssimo. Quando sobrevm depois de trs infartos, ento o negcio fica ainda mais preto. E melhor vocs no alimentarem 
nenhuma iluso.
  Floriano, que temia e de certo modo esperava estas palavras, sente agravar-se subitamente a sua sensao de fraqueza e o estranho frio que quase lhe anestesia 
os 
membros, apesar da tepidez da noite. E vem-lhe agora a impresso de que nada lhe confortaria melhor o estmago vazio que comer um po quente recm-sado do forno 
da Estrela-d'Alva.
  Passam em silncio ao longo dum canteiro de relva, no centro do qual se empina um pequeno obelisco de granito rosado. Quando menino, Floriano costumava repetir 
de 
cor e com orgulho os dizeres gravados na placa de bronze, na base do monumento:
  Durante o terrvel surto de influenza espanhola que em 1918 vitimou tantos santa-fezenses, um cidado houve que, embora atacado do mal e ardendo em febre, manteve-se 
de f para cumprir sua misso de mdico, atendendo a ricos e pobres com o mesmo carinho e dedicao:
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  o dr. Rodrigo Terra Cambar. Que o bronze diga aos psteros desse herico e nobre feito.
  Camerino pousa o brao sobre os ombros de Floriano e murmura:
  - Eu me sinto responsvel pelo que aconteceu ao teu pai.
  - Ora... por qu?
  - Ele estava to bem, que lhe dei licena para sair da cama... E ontem nem fui v-lo. Se tivesse ido, talvez essa coisa toda...
  - Qual! - interrompe-o Floriano. - Tu conheces bem o Velho. Quando ele desembesta no h ningum que consiga agarr-lo...
  Camerino ergue a cabea e por um instante fica a mirar as estrelas. Como passam agora debaixo dum combustor, Floriano vislumbra um brilho de lgrimas nos olhos 
do 
amigo.
  - E se a gente fosse sentar um pouco debaixo da figueira? Camerino funga, passa nos olhos a manga do roupo e murmura:
  - Boa idia.
  Sentam-se  sombra da grande rvore. Camerino inclina o busto, apoia os cotovelos nos joelhos e fica a olhar fixamente para o cho.
  - Como  essa mulher? - pergunta, depois dum silncio.
  - Uns vinte e trs ou vinte e quatro anos, morena, bem-feita de corpo, bonita de cara...
  - Que tipo de mentalidade?
  - No tenho a menor idia.
  O mdico endireita o busto e volta-se para o amigo:
  - A simples presena dessa menina na cidade  um perigo danado. Precisamos evitar que o Velho torne a encontrar-se com ela. A coisa  muito sria, Floriano. Perdoa 
a franqueza, mas o dr. Rodrigo pode morrer na cama com a rapariga... e isso seria um horror. Pensa no escndalo, na tua me...
  - Mas ele pode morrer em casa, na prpria cama... e sozinho, no pode?
  21
  O mdico sacode a cabea numa lenta, relutante afirmativa.
  - A triste verdade - murmura -  que teu pai est condenado... - Sua voz se quebra de repente, como que prestes a transformar-se num soluo. - O futuro do Velho 
 sombrio, por melhor que seu estado de sade possa parecer nos prximos dias ou semanas... Ele pode marchar para uma insuficincia cardaca, de durao mais ou 
menos longa... tudo dependendo da maneira como seu organismo reagir  medicao... Sim, e tambm do seu comportamento como paciente...
  - Paciente  uma palavra que jamais se poder aplicar com propriedade a um homem como meu pai...
  -  o diabo - suspira Camerino. - Se ele no evitar emoes, se cometer mais alguma loucura, algum excesso, s poder apressar o fim...
  Floriano no tem coragem de dar voz  pergunta que se lhe forma na mente. Mas o mdico como que lhe adivinha o pensamento:
  - H outra hiptese... Ele pode morrer de repente.
  Estas palavras produzem em Floriano uma instantnea sensao de medrosa, agourenta expectativa, uma espcie de mancha no peito semelhante  que ele costumava sentir 
quando menino, na vspera e na hora dos exames escolares. Com os olhos enevoados fica a contemplar o Sobrado.
  - Portanto - conclui o outro - vocs devem estar preparados...
  A triste e fria verdade - pensa Floriano -  que todos ns, em maior ou menor grau, estamos sempre preparados para aceitar a morte dos outros.
  Camerino levanta-se e, num gesto frentico, desamarra e torna a amarrar os cordes do roupo.
  - E havia de me acontecer essa! - exclama, sacudindo os braos. - O meu protetor, o meu segundo pai, o meu melhor amigo... vir morrer nas minhas mos!
  Pe-se a andar dum lado para outro na frente de Floriano, o cigarro preso e meio esquecido entre os lbios, as mos tranadas
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  s costas. Ao cabo de alguns instantes, aparentemente mais calmo,
  torna a sentar-se.
  Tu sabes, Floriano, no gosto de me meter na vida de
  ningum. Mas que diabo! Me considero um pouco da tua famlia. Acho que tenho o direito de fazer certas perguntas...
  - Claro, homem. De que se trata?
  - H uma coisa que ainda no entendi nem tive coragem de pedir ao dr. Rodrigo que me explicasse...
  Pousa a mo no ombro de Floriano e pergunta:
  - Por que foi que, logo depois da queda do Getlio, teu pai se precipitou para c com toda a famlia, assim como quem est fugindo de alguma coisa? Me explica. 
Eu 
sei que o dr. Rodrigo era, como se diz, homem "de copa e cozinha" do ditador, figura de influncia no governo... Est bem. Mas por que essa pressa em vir para c, 
essa corrida dramtica? At agora, que eu saiba, no houve nenhuma represlia contra os getulistas, nenhuma priso...
  - Bom - diz Floriano, cruzando as pernas e recostando-se no respaldo do banco. - A minha interpretao  a seguinte: durante esses quinze anos de residncia no 
Rio, 
papai continuou sendo um homem do Rio Grande, apesar de todas as aparncias em contrrio. No havia ano em que no viesse a Santa F, pelo menos uma vez, nas frias 
de vero. Esta  a sua cidadela, a sua base, o seu cho... Para ele a querncia  por assim dizer uma espcie de regao materno, um lugar de refgio, de reconforto, 
de proteo... No  natural que num momento de decepo, de perigo real ou imaginado, de aflio, de dvida ou de insegurana ele corra de volta para os braos 
da me?
  Camerino faz uma careta de incredulidade.
  - A tua explicao, perdoa que te diga,  um tanto rebuscada. No me convence.
  - Est bem. Vou te dar ento as razes de superfcie, se preferes. De todos os amigos do Getlio, papai foi o que menos se conformou com a situao. Queria barulho. 
Achava que deviam reunir e armar as foras do queremismo e reagir.
  - Mas reagir como? Floriano encolhe os ombros.
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  - Sabes o que ele fez quando teve notcia de que os generais haviam obrigado o Getlio a renunciar? Correu para a casa do general Rubim, que ele conheceu como 
tenente 
aqui em Santa F, e disse-lhe horrores. "Seu canalha, seu crpula! Voc jantou anteontem comigo, sabia j de toda essa conspirao indecente e no me contou nada!" 
O Gois Monteiro, que estava presente, quis intervir. Papai se voltou para ele e gritou: "E voc, seu sargento borracho? Voc que deve ao presidente tudo que , 
voc..." Enfim, disse-lhe o diabo. O Gois ergueu a bengala e o Velho j estava com a mo no revlver quando amigos civis e militares intervieram e carregaram o nosso 
caudilho para fora... Depois dessa cena, algumas pessoas chegadas acharam que papai devia vir para c o quanto antes, para evitar conflitos mais srios.
  Camerino sacode a cabea lentamente.
  - Bom, essa explicao acho boa. A coisa agora me parece mais clara.
  - O dr.  Rodrigo aceitou a idia e, como bom patriarca, insistiu em trazer toda a famlia, inclusive a preciosidade do "genro". E este seu filho, que no tem nada 
com o peixe.
  Ocorre-lhe que esta  uma boa autodefinio: "O que no tem nada com o peixe". Sente, ento, mais que nunca, o que h de falso, vazio e absurdo na sua posio.
  -  por isso que aqui estamos todos - conclui - para alegria dos mexeriqueiros municipais.
  O outro cruza os braos e por alguns instantes fica a assobiar por entre os dentes, repetindo, distrado e desafinado, as seis primeiras notas de La donna e mobile, 
Floriano tem a impresso de que quem est a seu lado  um gurizo que gazeou a aula e, com medo de voltar para a casa, veio refugiar-se debaixo da figueira.
  - No vi o Eduardo - diz Camerino. - Onde se meteu ele?
  - Foi dirigir um comcio em Garibaldina.
  - Ser que os comunistas esperam eleger seu ridculo candidato de ltima hora?
  - O candidato do PSD no  l muito sublime...
  - Tu sabes que eu vou votar no brigadeiro.
  24
  - No contes isso ao Velho.
  - Ora, no creio que um homem como o dr. Rodrigo possa ter qualquer entusiasmo pelo general Dutra...
  - Est claro que no tem. Diz para quem quiser ouvir que o ex-ministro da Guerra no passa dum respeitvel sangento. Mas acontece que o dr. Getlio vai dar o 
seu 
apoio ao general.
  - Ao homem que ajudou a dep-lo? O diabo queira entender o Baixinho !
  - O Joo Neves  um homem muito inteligente e persuasivo...
  Camerino olha para o Sobrado, cujas janelas se vo aos poucos apagando. Depois de alguns segundos de silncio, pergunta:
  - E tu como te sentes nessa engrenagem toda?
  - Como uma pea solta.
  - Se permites que mais uma vez eu meta o bedelho na vida da tua famlia, te direi que na minha opinio o Sobrado no  mais o que era no tempo do velho Licurgo.
  Uma vaca entra num canteiro de relva, a poucos metros da figueira, e pe-se a pastar. Um vaga-lume pousa-lhe no lombo negro e ali fica a cintilar como uma jia.
  De sbito Floriano sente-se tentado a fazer confidncias.. Gosta de Camerino e h nas relaes entre ambos uma circunstncia que o diverte e at certo ponto enternece. 
Quando ele, Floriano, foi batizado, seu pai convidou Dante, que tinha ento onze anos, para ser o "padrinho de apresentao".
  Lembrando-se agora disso, sorri, toca no brao do amigo e diz:
  - Meu padrinho, prepare-se, pois estou em veia confidencial. Camerino encara-o, surpreendido.
  - No acredito...
  - Tens que acreditar. Ests assistindo a um fenmeno portentoso. O caramujo procura deixar sua concha. No ria da nudez do bicho...
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  Cala-se. Sabe que a sombra da figueira lhe propicia esta disposio de esprito. No fundo o que vai fazer  pensar, como de costume, em voz alta, s que desta 
vez 
na presena de outra pessoa.
  - Desde que cheguei tenho me analisado a mim mesmo e  gente do Sobrado.
  Ergue-se, enfia as mos nos bolsos. Camerino acende outro cigarro.
  - No  nenhum segredo - prossegue Floriano - que papai e mame h muito esto separados, embora vivam na mesma casa e mantenham as aparncias. Devo dizer que 
a 
conduta da Velha tem sido irrepreensvel. Nada fez que pudesse prejudicar, de leve que fosse, a carreira do marido. Quando foram para o Rio, a coisa j no andava 
muito boa. L em cima tudo piorou. Tu sabes, mame no perdoa ao Velho por suas infidelidades. E no vejo por que deva perdoar, uma vez que foi educada dentro dos 
princpios rgidos dos Quadros. E o mais extraordinrio  que ela nunca permitiu, nem aos parentes mais chegados, que criticassem o marido na sua presena. Mais 
que isso, nunca consentiu que o problema do casal fosse discutido ou sequer mencionado. E agora que papai est doente e politicamente derrotado, agora que podia 
haver uma esperana, por mais remota que fosse, de reconciliao, o dr. Rodrigo teve a infeliz idia de mandar buscar essa rapariga...
  Camerino escuta-o em silncio, sacudindo lentamente a cabea.
  - Mame no se abre com ningum. Posso bem imaginar seu sofrimento. Desde que percebeu que havia perdido o marido, tenho a impresso de que se voltou para os filhos 
em busca duma compensao... Agora vamos examinar esses filhos. Tomemos primeiro o Eduardo. Na sua fria de "cristo-novo" o rapaz, que v tudo e todos pelo prisma 
marxista, est procurando mostrar a seus companheiros de partido que no  por ser filho dum latifundirio e figuro do Estado Novo que ele vai deixar de ser um 
bom comunista. E qual  a melhor maneira de provar isso seno renegando em pblico, e com violncia, esse pai "comprometedor"?
  - No fundo deve adorar o Velho.
  - Pode ser. Mas vamos ao Jango.  um Quadros, um Terra, um homem do campo, digamos: um gacho ortodoxo. Se o Eduardo
  26
   deseja com uma paixo de templrio a reforma agrria, Jango com a mesma paixo quer no s conservar o Angico como tambm aumentar a estncia, adquirindo mais 
campo, mais gado...
  - J assisti a uma discusso do Jango com o Eduardo. Saiu fasca. Pensei que iam se atracar a bofetadas.
  - O curioso  que o Jango no fundo no leva o irmo muito a srio. E o Eduardo classifica o Jango como um primrio, um reacionrio e encerra o assunto. J observei 
tambm que o nosso marxista acha que, embora errado, Jango  alguma coisa, tem uma tbua de valores fixa, acredita em princpios que defender com unhas e dentes, 
enquanto eu, para o nosso "comissrio", no passo dum indeciso, dum comodista, dum intelectual pequeno-burgus.  por isso que ele tem menos pacincia comigo do 
que com o Jango.
  - No vais negar que o Jango  teu amigo.
  - Talvez, mas me olha com uma mistura de incompreenso e desprezo.
  - Por que desprezo?
  - Porque no gosto da vida campeira, nunca usei bombacha e no sei andar a cavalo. Para um gacho da tmpera de Jango, no saber andar a cavalo  defeito quase 
to 
grave como ser pederasta.
  - Ests exagerando.
  - Mas vamos adiante. O Eduardo ataca o pai nos seus discursos em praa pblica. Mas o Jango, esse jamais critica o Velho, nem mesmo na intimidade. Apesar de libertador 
e antigetulista nunca ousou exprimir suas idias polticas na presena do pai.
  -  Floriano! Quem te ouve dizer isso pode pensar que o dr. Rodrigo  um monstro de intolerncia...
  Sem tomar conhecimento da interrupo, Floriano continua:
  - Agora, a nossa irm. s vezes me divirto a fazer uma autpsia" surrealista da Bibi.  E sabes o que encontro dentro
  daquele crebro? Um pouco da areia de Copacabana, letras de samba, umas fichas de roleta,
uma garrafa de old Parr e um vidro de Chanel n 5-
  27
  Floriano sente que Camerino no compreendeu sua fantasia. Mas prossegue:
  - Se eu te disser que nestes ltimos dez anos nunca, mas nunca mesmo, cheguei a conversar com a minha irm durante mais de dez minutos a fio, tu no vais acreditar...
  - De quem foi a culpa?
  - De ningum. Temos dez anos de diferena de idade, e interesses quase opostos. Nesses quinze anos que passamos no Rio, apenas nos avistvamos. Quase nunca nos 
encontrvamos 
s horas das refeies. A famlia raramente se reunia inteira ao redor da mesma mesa. O Velho em geral almoava no Jockey Club com algum amigo, e freqentemente 
tinha convites para jantar fora com diplomatas, capites de indstria, polticos...  Bibi vivia nas suas festas e no concebia sequer a idia de passar uma noite 
sem ir a um cassino danar e jogar. Tu sabes, teve um casamento que no deu certo e acabou em desquite. Por fim pescou esse Sandoval, que ningum l em casa conhecia. 
S se sabia que o homem era simptico, trajava bem, freqentava o Cassino da Urca, costumava jogar na terceira dzia e gabava-se de tutear o Bejo Vargas...
  Camerino solta uma risada. No parece o mesmo homem que h pouco tinha lgrimas nos olhos.
  - Quanto a mim, tenho sido apenas um turista dentro da famlia, a qual por sua vez me considera uma espcie de bicho raro. Um homem que escreve livros...
  - No podes negar que teu pai tem orgulho de ti, de teus escritos...
  - Olha, no sei... Ele nunca me perdoou por eu no me haver formado em alguma coisa. Nunca compreendeu que eu no me interessasse por uma carreira poltica, profissional 
ou diplomtica.
  - Ah! Mas se v que ele tem um fraco por ti.
  - Narcisismo. Ele ama em mim o seu prprio fsico.
  - Tu complicas demais as coisas.
  - J sei o que queres dizer: vejo tudo como um intelectual, no ? Mas, voltando ao Edu... Quem herdou o temperamento esquentado do Velho foi ele. Parece uma contradio, 
mas esse
  28
  citador de Marx, Lnin e Stlin, esse campeo do proletariado e da Nova Humanidade no fundo  um caudilhote.
  Camerino sorri, sacudindo afirmativamente a cabea.
  Acho que nesse ponto tens razo.
  Como Pinheiro Machado, o Eduardo anda com um punhal
  na cava do colete...(A nica diferena  que o nosso comunista no usa colete.) Tu sabes,  aquele velho punhal com cabo de prata que pertenceu ao nosso bisav 
Florncio 
e que depois passou para o tio Torbio... Dizem que est na famlia h quase dois sculos
  Floriano torna a sentar-se, estendendo as pernas e atirando a cabea para trs. A sensao de fraqueza continua, mas o amargor desapareceu-lhe da boca. Uma frase 
se lhe forma espontnea na mente: De sbito a noite se tornou ntima.
  - Mas continuemos com a nossa anlise - prossegue. - L est o Velho agora, seriamente doente, reduzido a uma imobilidade, a uma invalidez que  a maior desgraa 
que podia acontecer a um homem de seu temperamento. O presidente Vargas caiu e o dr. Rodrigo Cambar est sem saber que rumo tomar. Seu mundo de facilidades, prazeres, 
honrarias e prestgio de repente se desfez em pedaos.  possvel que o Velho esteja agora examinando os cacos, tentando reuni-los... Mas tu sabes, um Cambar no 
 homem de juntar cacos. Para ele  mais fcil reduzir pessoas e coisas a cacos. Reunir cacos  trabalho de mulher. A Dinda nestas ltimas semanas no tem feito 
outra coisa seno tentar juntar os cacos da nossa famlia...
  - Outro exagero - murmurou Camerino - mas continua...
  - Esse descanso vai dar ao meu pai tempo para pensar em muita coisa, e no creio que todas as suas lembranas sejam agradveis. Ele pode continuar dizendo da boca 
para fora que o Estado Novo beneficiou o pas, que o Getlio  o maior estadista que o Brasil j produziu, o Pai dos Pobres, etc... etc... Mas se for sincero consigo 
mesmo ter agora uma conscincia aguda dos aspectos negativos da Revoluo de 30: a corrida para os empregos, as negociatas indecentes, a ditadura, a censura da 
imprensa, as crueldades da polcia carioca, a desagregao moral dos nossos homens de governo...
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  Camerino coou a cabea, num gesto de indeciso.
  - Um udenista como eu ser a ltima pessoa do mundo a fazer a defesa do Estado Novo. Mas acho que  uma injustia atirar para cima dos ombros do dr. Rodrigo qualquer 
parcela de culpa...
  - Mas no! - interrompe-o Floriano. - No estou acusando nem julgando o Velho. Quem sou eu? Estou tentando me meter na pele dele, imaginar com simpatia humana 
o 
que ele est pensando, sentindo, sofrendo...  impossvel que ele no veja que esses anos de Rio de Janeiro desagregaram nossa famlia. Mame sempre criticava a 
vida que Bibi levava, e isso acabou indispondo uma com a outra, a ponto de passarem dias sem se falarem. At hoje h entre ambas uma animosidade surda. Os trs filhos 
homens tm conflitos de temperamento, de interesses, de opinies.  possvel que o Velho tenha engolido o "genro" novo que Bibi lhe arranjou: engoliu mas estou certo 
de que no digeriu. Pe em cima de tudo isso a presena da outra mulher em Santa F e ters um quadro quase completo desta "reunio de famlia".
  Faz uma pausa e depois exclama, desta vez sorridente:
  - Ah! Esqueci uma grande figura... a velha Maria Valria. Essa  a vestal do Sobrado, que mantm acesa a chama sagrada de sua vela...  uma espcie de farol em 
cima 
dum rochedo, batido pelo vento e pelo tempo...  Uma espcie de conscincia viva de todos ns.
  Comea a assobiar, sem sentir, a melodia da cano que Dinda cantava para faz-lo adormecer, quando ele era criana.
  - Deixaste uma personagem fora do quadro - murmura Camerino ao cabo de uma pausa.
  Floriano tem uma sbita sensao de mal-estar.
  - Qual? pergunta automaticamente, embora sabendo a
  quem o outro se refere.
  - A Slvia.
  - Ah! Mas  que no a conheo to bem quanto aos outros... - comea, sentindo a falsidade das prprias palavras.
  Camerino traa riscos no cho com a ponta do chinelo.
  - Deves ter notado pelo menos que ela e o marido no so felizes...
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  Floriano por alguns segundos permanece calado. Deve admitir ou negar que sabe do estado das relaes entre Jango e Slvia?
  - No notei nada. 
  - Esse casamento foi a maior surpresa da minha vida. Que o rapaz andava louco pela menina, todo o mundo via. Mas Slvia fugia dele, e levou um tempo para se decidir.
  Floriano est ansioso por mudar o rumo da conversa. Conclui que sua melhor defesa ser o silncio. No. Talvez o silncio tambm possa incrimin-lo...
  - Esse assunto  delicado demais - balbucia, arrependendo-se de ter dito estas palavras, pois percebe imediatamente que elas criam uma contradio.
  - No  mais delicado que o das relaes entre o teu pai e a tua me...
  Floriano toma outro rumo:
  - Est bem. Eu explico o casamento assim. Slvia podia no estar apaixonada pelo Jango, mas uma coisa era certa: a sua fascinao pelo Sobrado, desde menininha. 
O Jango fazia a sua carga cerrada, tia Maria Valria o protegia, queria v-los casados. Papai chegou a escrever uma carta  Slvia, dizendo claramente que ficaria 
muito feliz se ela, alm de sua afilhada, viesse a ser tambm sua nora. Ante todas essas presses, a Slvia acabou cedendo...
  Camerino sacode a cabea.
  - Sim, mas te asseguro que a coisa no deu certo. Tu sabes, diferenas de temperamento. Dum lado uma moa sensvel, com a sua ilustraozinha, os seus sonhos, 
e 
do outro (perdoa a minha franqueza)  um homem bom, decente mas um pouco rude, um "casca-grossa", como se costuma dizer. - Faz uma pausa, hesitante, como que temendo 
entrar em maiores intimidades. - H outra dificuldade ainda, alm da incompatibilidade de gnios. Como sabes, o sonho dourado do Jango  ter um filho. H uns cinco 
anos a Slvia engravidou, mas perdeu a criana no terceiro ms... Teu irmo ficou inconsolvel. Dois anos depois a Slvia tornou a apresentar sinais de gravidez. 
Novas esperanas... Mas tudo no passou dum rebate falso. E por mais absurdo que parea, o Jango procede como se a mulher fosse culpada de todos esses insucessos...
  31
  - O que ele quer  um filho macho para levar o nome de Cambar e tomar conta do Angico - diz Floriano com um surdo rancor pelo irmo. - Mesmo que isso custe a 
vida 
da mulher.
  - Tenho muita pena dessa menina.  uma flor... mas  a companheira errada para o teu irmo. O que ele precisava era uma fmea forte como uma gua normanda, boa 
parideira... 
e que soubesse tirar leite, fazer queijo, cozinhar... tomar conta da criadagem. A Slvia no nasceu para mulher de estancieiro. Depois, no morre de amores pelo 
Angico. E o Jango, coitado!, no se conforma com a situao.
  Floriano ergue-se com uma impacincia que no consegue reprimir, e pergunta:
  - Mas que  que eu posso fazer?
  No ouve o que o outro diz, pois est escutando apenas a resposta que ele mesmo se d mentalmente: "Lev-la daqui comigo, o quanto antes... no importa como nem 
para onde!" Pensa isto sem verdadeira convico, j com um antecipado sentimento de culpa.
  Camerino risca um fsforo e alumia o mostrador do seu relgio-pulseira.
  - Opa! - exclama, pondo-se de p. - Cinco para as quatro. Quero ver se posso dormir pelo menos umas trs horas. Amanh tenho de estar no hospital s sete e meia...
  Pe a mo no ombro do amigo.
  - Bueno, Floriano, se houver alguma novidade, gritem por mim. Boa noite.
  Pega na maleta e se vai. Floriano permanece por alguns minutos  sombra da figueira, com um vago medo de voltar para casa.
  Entra no Sobrado e vai direito ao quarto do pai. Abre a porta devagarinho. A lmpada de luz verde est apagada, e na penumbra brilha agora a chama duma lamparina, 
sobre a mesinha-de-cabeceira. Maria Valria est sentada ao p do leito, na cadeira de balano que pertenceu  velha Bibiana.
  Floriano aproxima-se dela e sussurra-lhe ao ouvido:
  - Como vai ele?
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  - Dormindo como um anjo.
  - E a Slvia, por que no ficou aqui como estava combinado?
  - Mandei ela dormir. Gente moa carece de sono. Velho
  no.
  Por alguns instantes Floriano queda-se a observar o pai, cuja respirao lhe parece normal. Os cabelos de Rodrigo Cambar, ainda fartos e negros, estriados aqui 
e ali de fios prateados, esto em desordem, como que agitados pelo mesmo vento imaginrio que don Pepe Garcia tentou sugerir no retrato que pintou do senhor do Sobrado. 
H neste rosto agora em repouso uma surpreendente expresso de mocidade e vigor. Um estranho que o observasse aqui nesta meia-luz dificilmente acreditaria que, entre 
o dia em que o artista terminou o quadro e este momento, se passaram quase trinta e cinco anos.
  - Se precisar de alguma coisa, me chame, Dinda. Maria Valria limita-se a fazer um sinal afirmativo com a cabea. Floriano sai do quarto na ponta dos ps.
  De to cansado, nem teve nimo para despir-se e enfiar o pijama. Tirou apenas os sapatos. ("Tire os coturnos, relaxado!" - gritou-lhe a Dinda do fundo do poo 
da 
infncia.) De calas e em mangas de camisa como estava, apagou a luz e estendeu-se na cama, na esperana de afundar no sono imediatamente. Mas qual! Aqui est agora 
a revolver-se de um lado para outro. Sente o corpo meio anestesiado, mas o crebro - frentico contnuo - trabalha implacavelmente, E a imaginao, como uma 
aranha industriosa e maligna, tece fantasias em torno das duas figuras obsessivas que no se lhe apagam da mente, por mais que ele procure no pensar nelas: o pai, 
que pode morrer duma hora para outra, e Slvia; que ele ama e deseja... e que neste momento est dormindo sozinha no seu quarto, ali no fundo do corredor...
  Pe-se de bruos, apertando a parte superior do peito contra o travesseiro. Um dia estou sentado na cama do Velho e de repente ele comea a afogar-se em sangue, 
a cara lvida, a respirao um ronco medonho... Seus olhos me suplicam que faa alguma coisa... Quero sair correndo em busca de socorro, mas ele me agarra pelos 
ombros com fora e acaba morrendo nos meus braos.
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  Floriano pensa vagamente em tomar um comprimido de Seconal. Basta virar-se, estender o brao para a mesinha-de-cabeceira e apanhar o frasco... Mas o temor de habituar-se 
ao uso de barbitricos (no fosse ele um Quadros e um Terra) lhe tranca o gesto.
  Por um instante fica a escutar - com uma sombra do medo que o perturbava quando fazia isso em menino - as batidas do prprio corao. Se esta coisa pra de repente? 
E o corao do velho Rodrigo... estar ainda batendo?  curioso - reflete -, de dia sou um homem lcido que sorri para os seus fantasmas. A noite  que me traz estes 
pensamentos mrbidos. Por que no imaginar coisas mais alegres?
  Slvia agora lhe aparece tal como a viu ontem,  tardinha, a regar com a gua duma mangueira as plantas do quintal. Seu vestido  da cor das flores das alamandas. 
Sua sombra projeta-se azulada no cho de terra batida. Os pessegueiros esto pesados de frutos. E ento eu deso, aproximo-me dela por trs, enlao-lhe a cintura, 
puxo-a contra meu corpo, beijo-lhe o lbulo da orelha, minhas mos sobem e cobrem-lhe os seios... e ela se encolhe arrepiada e se volta, e sua boca entreaberta  
rocura a minha... Mas no! Slvia  a mulher de Jango. Est tudo errado. O melhor  dormir.
  Revira-se, fica em decbito dorsal, as pernas abertas, o corpo agora desperto e aquecido de desejo. Para fugir de Slvia, pensa no pai.
  Rodrigo Cambar morreu. Seu esquife entre quatro crios acesos reflete-se no espelho grande da sala. Um leno cobre o rosto do morto. Seus dedos tranados sobre 
o ventre tem quase a cor das mos de cera que o Pitombo expe na sua vitrina... Meus psames! Murmrios. Choro abafado. Condolncias! Abraos. Caras compungidas. 
Ah! o adocicado e nauseante cheiro dos velrios! E ele, Floriano, prisioneiro da cmara morturia, sentindo uma vergonha de homem e, ao mesmo tempo, um terror de 
menino diante de todo aquele cerimonial... Roque Bandeira sopra-lhe ao ouvido: "Morrer  a coisa mais vulgar deste mundo. Qualquer cretino pode dum minuto para outro 
virar defunto. Um homem como teu pai devia evaporar-se no ar, para seu corpo no ficar sujeito a toda esta comdia macabra".
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  Floriano soergue-se na cama, despe a camisa num gesto brusco e atira-a para cima duma cadeira. Deita-se de novo e, de olhos fechados, fica a passar a mo pelo 
trax 
mido de suor. Vem-lhe um desejo repentino de fugir de tudo isto, do que j  e principalmente do que poder vir a ser. Mas no! Basta de fugas.
  Quanto a meu pai - pensa - no h nada que eu possa fazer. No caso de Slvia, tudo vai depender de mim, exclusivamente de mim. Sinto, sei, tenho a certeza de que 
ela jamais tomar qualquer iniciativa... " uma questo de tempo" - disse-lhe h pouco Camerino, referindo-se  morte do Velho. Sim, tudo na vida - a prpria vida, 
e as nossas angstias -, tudo  uma questo de tempo. E o tempo me ajudar a esquecer Slvia... O diabo  que agora se trata duma questo de espao. Faz um clculo: 
quatro passos daqui  porta... mais seis at o quarto dela... Ali! Se tudo fosse apenas um problema de geometria!
  Ponho a mo na maaneta... O corao bate acelerado.... expectativa e medo. Boca seca. Um aperto na garganta. Abro a porta devagarinho como um ladro (ou um assassino?). 
A penumbra do quarto. Com o corpo numa tremedeira, fico a olhar para a cama onde Slvia est deitada. Depois me aproximo... E se ela me repelir? Se ela gritar? Mas 
no. Sinto que est acordada, que me espera.. . Rolamos abraados sobre os lenis, ofegantes... A porta do quarto se abre, a Dinda aparece com uma vela acesa na 
mo e grita: Porcos!
  Num pincho, como que impelido pela voz da velha, Floriano atira as pernas para fora da cama e pe-se de p. Aproxima-se da pia, abre a torneira e comea a molhar 
o rosto, os braos, o pescoo, a cabea, como se quisesse lavar-se das idias lbricas. Depois, ainda gotejante, acerca-se da janela e fica a olhar para o quintal, 
mas sem prestar ateno no que v.
  Como posso pensar coisas assim? Quando amanhecer o bom senso me voltar, serei o sujeito policiado que sempre fui e acharei absurdas e at ridculas estas fantasias 
noturnas de adolescente. Slvia  tabu. Est liquidado o assunto.
  Olha para o vidro de Seconal. No. Prefiro atravessar a noite em claro com todos os meus espectros. Sorri para si mesmo. Nada disto  grave. Nada... a no ser 
a 
situao do Velho.
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  Pega uma toalha, enxuga-se com gestos distrados. Torna a deitar-se e comea a assobiar baixinho uma frase do quinteto para clarineta e cordas de Brahms. Sente-se 
imediatamente transportado para aquela noite, na pera de San Francisco da Califrnia... Escutava o quinteto procurando fazer a abstrao do ambiente (o cavalheiro 
calvo que mascava chicl,  sua frente, a dama gorda a seu lado, recendente a Old Spice), queria apreciar a msica na sua pureza essencial, sem verbalizaes. Fechou 
os olhos E teve a impresso de que a melodia, como uma lanterna mgica, lhe projetava contra o fundo escuro das plpebras a imagem de Slvia. Foi nesse instante 
que teve a doce e pungente certeza de que ainda a amava...
  Uma tbua do soalho estala. Floriano, que estava prestes a adormecer, soergue-se num sobressalto e fica  escuta. Passos no corredor. Seu corao dispara, como 
que 
compreendendo primeiro que o crebro o perigo que se aproxima. Perigo? Sim, pode ser Slvia... A possibilidade o alarma e excita. Acredita e deseja com o corpo inteiro 
que seja Slvia, enquanto sua cabea tenta repelir a idia.
  Mesmo que seja Slvia - raciocina - isso no quer dizer que venha bater  minha porta. Mas por que no? Ela ainda me ama. Eu sei, eu sinto. O silncio da noite 
quente, 
a solido, a idia de que a morte ronda o casaro - tudo isso pode t-la impelido para mim... Sim,  Slvia.
  Continua a escutar, tenso. O corpo inteiro lhe di de desejo e medo. O rudo de passos cessa... Decerto Slvia est parada  frente da porta... Ter coragem de 
entrar?
  Duas batidas leves. Floriano pe-se de p.
  A porta abre-se devagarinho e Flora Cambar entra. Decepcionado e ao mesmo tempo aliviado, Floriano solta um suspiro, agarra a toalha num gesto automtico e pe-se 
a enxugar o torso, por onde o suor escorre em bagas.
  Flora acende a luz e o filho tem uma sbita e constrangedora sensao de desmascaramento e nudez, como se todos os desejos e maus pensamentos da noite lhe estivessem 
visveis na face. Apanha a camisa e veste-a.
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  Percebe agora que a me tem numa das mos um prato com um copo de leite e um pedao de bolo. Vem me amamentar, pensa, com uma mescla de impacincia e ternura.
  - Faz muito tempo que chegaste, meu filho?
  - Uns trinta ou trinta e cinco minutos...
  - No te vi entrar. Estava j preocupada.
  - Ora, no havia motivo.
  - Por que demoraste tanto?
  - Fiquei conversando com o Dante, debaixo da figueira. Ela lhe entrega o prato.
  - Vamos,  toma o leite.  Est morninho.  Vai  te ajudar a dormir.
  - Est bem. Mas no quero o bolo.
  Segura o copo e comea a beber, sem o menor entusiasmo, com o olhar fito na me. A serena tristeza destes olhos escuros e limpos sempre o enterneceu. H no entanto 
uma coisa com que ainda no conseguiu habituar-se: a mocidade da me. Aos cinqenta e cinco anos, aparenta pouco mais de quarenta. Nenhum fio de cabelo branco na 
cabea bem-cuidada. No rosto ovalado, dum tom mate e cetinoso, nenhuma ruga. Tem ainda algo de adolescente no porte frgil, na cintura fina, nos seios midos. Maria 
Valria costuma dizer que  difcil acreditar que trs "marmanjos" e mais a Bibi tenham sado de dentro deste corpo de menina.
  - E o teu irmo, por que ainda no voltou?
  - Acho que o comcio acabou muito tarde e ele resolveu passar a noite em Garibaldina.
  Ela franze a testa, deixa escapar um suspiro.
  - O Eduardo me preocupa... - murmura. - Falar contra o prprio pai em praa pblica no  coisa que se faa.
  Floriano depe o prato em cima da cmoda, segura Flora afetuosamente pelos ombros, beija-lhe de leve a testa, e depois estreita-a contra o peito. Mas arrepende-se 
imediatamente do gesto, pois ela desata a chorar de mansinho. Ele no sabe que dizer, murmura apenas - ora... ora... -, passa a mo pelos cabelos da me. Jamais 
a viu chorar, sempre admirou seu autodomnio, a coragem com que enfrenta todos os problemas - os domsticos e os outros
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  - a discrio com que se comportou sempre, e que tornou tudo to mais fcil para todos. Chorar agora por causa da doena do marido? Ou por causa da desagregao 
da famlia? Ou estar apenas - como disse h pouco - preocupada com o Eduardo? Floriano acha conveniente fingir que aceita a ltima hiptese. No quer tocar nem 
de leve na ferida maior.
  - No pense nisso, mame. O Edu  um impulsivo, faz as coisas sem pensar e depois se arrepende. No fundo tem paixo pelo Velho.
  Flora aparta-se do filho e comea a enxugar os olhos.
  - Que bobagem a minha, chorar deste jeito como uma criana! Afinal, j devia estar acostumada com todas essas coisas...
  A que coisas se refere ela? s aventuras amorosas do marido? Aos pronunciamentos agressivos de Eduardo? Quando d acordo de si, Floriano est metido no assunto 
mesmo 
que tanto queria evitar:
  - Afinal de contas o papai e o Eduardo se parecem muito de gnio. Nenhum deles tem papas na lngua. No pensam nunca em quem podem ferir quando dizem ou fazem 
as 
coisas...  So donos do mundo.
  - Seja como for, ele  pai de vocs. Um filho no deve nunca criticar o pai.
  Bonito! Aqui est um artigo do cdigo dos Quadros, que  idntico ao dos Cambars. Certo ou errado, bom ou mau, pai  pai. O filho deve sempre baixar a cabea 
diante 
do chefe do cl.
  - Termine o leite.
  - Ora, mame...
  Floriano sente que voltou aos cinco anos na maneira com que quase choramingou estas ltimas palavras. Sorri e devolve a Flora o prato com o copo e o bolo.
  - Por amor de Deus, no me obrigue a tomar o resto.
  - Est bem. Agora durma. Beija o filho na testa e se vai.
  Pela manh, ao voltar ao Sobrado, o dr. Camerino encontra Rodrigo acordado e Maria Valria ainda de guarda ao p do leito.
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  - Bom dia! - exclama, procurando dar  voz um tom jovial. - Como vai o nosso doente?
  Sentado na cama, recostado em travesseiros, Rodrigo responde com voz dbil:
  - Estou como aquele velho gacho de Uruguaiana "peleando em retirada e com pouca munio".
  - Qual nada! - replica o mdico. - Munio  o que no lhe falta.
  - O que ele no tem  vergonha - diz a velha. Rodrigo sorri e pisca um olho para Camerino, que acaba de
  sentar-se na cama.
  - E a respirao?
  - Regular pra campanha.
  - Alguma dor ou opresso? Rodrigo faz um sinal negativo.
  - Estou  meio bombardeado, a cabea pesada, o estmago embrulhado.
  -  da morfina.
  Camerino segura o pulso do amigo e durante meio minuto fica a olhar para o mostrador do relgio.
  - Pulso bom.
  A seguir mede-lhe a presso arterial.
  - Quanto?
  - Est bem.
  - Mas quanto?
  - S lhe digo que est melhor que ontem. Pe-se agora a auscult-lo e leva nisso algum tempo.
  - Quantos dias de vida me ds?
  O mdico ergue-se, repe o estetoscpio dentro da maleta e, como se no tivesse ouvido a pergunta, diz:
  - Vou lhe mandar uma cama de hospital.  mais cmodo. E precisamos arranjar o quanto antes outro enfermeiro. O senhor no devia ter despachado o rapaz... Viu a 
falta 
que ele fez?
  - Mas vocs me mandaram um fresco! Eu j nem podia mais olhar para ele, me dava vontade de pular da cama e encher-lhe a cara de tapas. Por que no trazem logo 
uma 
mulher?
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  - Essa  que no! - reage Maria Valria, rpida.
  - Por falar em mulher... - sorri o doente. - Preciso fazer a barba. Mande chamar o Neco Rosa, titia.
  Maria Valria inteiria o busto, como se lhe tivessem dado uma agulhada. - Se esse alcagete ordinrio tivesse vergonha na cara, no entrava mais no Sobrado. No 
pense que eu no sei aonde ele levou voc ontem...
  Rodrigo volta-se para a tia, agressivo:
  - Enquanto eu estiver vivo ningum me leva a parte alguma. Quando vou aos lugares  de livre e espontnea vontade. No culpe o homem.
  - Sua mulher sabe - replica a velha. - Todo mundo sabe.
  - Pois se sabem, que faam bom proveito. Maria Valria levanta-se.
  - Maroto!
  Retira-se do quarto. Apesar da cegueira da catarata, caminha sem hesitaes, conhece o Sobrado palmo a palmo. Seus passos soam duros no corredor.
  Rodrigo sorri.
  - Ela volta, Dante. Tem uma paixo danada por mim, uma paixo antiga. E sabes aonde ela foi? Foi mandar chamar o Neco. Aposto!
  Camerino acende um cigarro, no qual os olhos de Rodrigo se fixam com intenso interesse.
  - Eu no podia fumar um cigarrinho? S a metade...
  - Hoje no.
  - Pois ento apaga esse pito, a no ser que tenhas a inteno de me torturar. Sabes quantos cigarros costumo fumar por dia? Mais de quarenta. Sem contar os charutos...
  Camerino aproxima-se da janela, d trs tragadas rpidas e joga fora o cigarro.
  - Preciso urgentemente dum banho.
  - Hoje no.
  - Mas suei como um animal a noite passada, no agento o meu prprio fedor.
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  - Mude o pijama. Quando o enfermeiro vier, mande o homem lhe passar uma gua-de-colnia no corpo. Banho no. O senhor tem que ficar quietinho na cama.
  Rodrigo faz um gesto de irritao. Camerino torna a sentar-se ao lado do paciente.
  - Olhe, dr. Rodrigo, precisamos ter uma conversa muito
  sria...
  - Sei o que vais me dizer, Dante. Quero te poupar o sermo. No devo repetir o que fiz ontem no Hotel da Serra seno morro, no  isso?
  - Isso e mais alguma coisa...
  - Tu conheces o ditado que corre na famlia: "Cambar macho no morre na cama". - Rodrigo segura com fora o pulso do amigo. - E se eu morrer numa cama, mas em 
cima 
duma fmea, dr. Camerino, no se poder considerar isso "morrer em ao"? Eh,
  dottore, eh?
  Dante sorri amarelo. Este homem, que ele estima e admira, sempre o desconcerta com seus sarcasmos.
  - Dr. Rodrigo, estou falando srio.
  - Eu tambm. Nunca falei to srio em toda a minha vida. Uma sbita canseira estampa-se no rosto do doente, que se
  cala, ofegante, cerrando os olhos e atirando a cabea para trs.
  - Viu? - diz o mdico. - Excitou-se e o resultado a est... Tira do bolso um vidro de digital:
  - O senhor sabe to bem quanto eu que, se tomar regularmente este remdio...
  Rodrigo interrompe-o com um gesto de enfado.
  - Perdes o teu tempo. No esqueci tanto a medicina que no saiba que estou liquidado. Primeiro os infartos... e agora esta porcaria do edema.  o fim do ltimo 
ato.
  Camerino abre o vidro, tira dele um comprimido e, entregando-o ao paciente com um copo d'gua, murmura:
  - Tome um agora. E depois, cada vinte e quatro horas. Rodrigo obedece.
  - Tu me conheces, Dante. Um homem de meu temperamento fechado num quarto, deitado numa cama, como uma velha
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  achacada...  pior que a morte. s vezes chego a pensar se no seria melhor meter uma bala nos miolos e acabar com tudo de uma vez...
  Dr.Camerino lana um olhar enviesado para a mesinha-de-cabeceira em cuja gaveta ele sabe que Rodrigo guarda o revlver.
  - Para que vou me privar das coisas que me do prazer? Para viver mais seis meses, um ano que seja, nesta vida de invlido? No, Dante, tu sabes que eu no sou 
homem 
para aceitar as coisas pela metade. Comigo  tudo ou nada.
  Camerino escuta-o em silncio. Sabe que as palavras do amigo tm uma sinceridade apenas de superfcie.
  Neste instante abre-se a porta, Eduardo entra e aproxima-se do leito.
  - S agora fiquei sabendo... - murmura, sem poder disfarar o embarao que esta situao lhe causa. - Acabo de chegar de Garibaldina.
  Rodrigo mira-o de alto a baixo, com um olhar quase terno.  a cara da me - pensa.
  Camerino est um pouco inquieto, pois h poucos dias pai e filho tiveram uma altercao feia por causa de poltica.
  - Como foi o comcio? - pergunta Rodrigo.
  - Fraco.
  - Era o que eu esperava. A colnia vota sempre com o governo. Dos trs candidatos, o que mais cheira (ou fede) a oficial  o Dutra. Os colonos vo votar no general.
  Eduardo sacode a cabea lentamente. Tem as faces sombreadas por uma barba de dois dias, traja uma roupa de linho claro, muito amarrotada, e est sem gravata.
  Rodrigo sorri com paternal ironia:
  - No comcio de ontem tornaste a atacar este teu pai latifundirio, flor do reacionarismo, lacaio do capital colonizador?
  Eduardo continua srio.
  - No atacamos pessoas - diz -, discutimos princpios, combatemos erros.
  -  o que afirmam tambm os catlicos. Atacar as idias mas respeitar as pessoas. No entanto, vocs, diferentes dos catlicos,
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  de vez em quando acham que o meio mais simples de combater uma idia  liquidar fisicamente o seu portador.
  - Era isso que fazia a polcia do "seu" Estado Novo! As narinas de Rodrigo palpitam.
  - Se a nossa polcia era to criminosa como vocs comunistas propalam, como explicas que teu patro, o Prestes, a primeira coisa que fez ao sair da cadeia foi 
prestigiar 
o dr. Getlio?
  - No vim aqui para discutir poltica e sim para saber como est o senhor.
  - Estou bem, muito obrigado. E tu?
  Desta vez quem sorri  o rapaz. Volta a cabea para Camerino e diz:
  - Ests vendo? Ele quer discusso, mas a esta hora da manh no topo provocaes. - E, tornando a olhar para o pai, acrescenta: - Ando tresnoitado.
  - Ento vai dormir. Precisas refazer as foras. Porque vai ser muito custoso vocs convencerem o eleitorado, at mesmo o comunista, a votar nesse raqutico candidato 
feito nas coxas.
  Sem dizer palavra, Eduardo volta as costas para o pai e encaminha-se para a porta.
  - Faz essa barba! - grita-lhe Rodrigo. - Muda essa roupa! No precisas levar to a srio o teu papel de representante das massas oprimidas...
  Depois que o rapaz sai, Rodrigo olha para Camerino:
  - E essa? Eu com um filho comunista!
  - Doutor, o senhor est conversando demais.
  - Como se explica sarem do mesmo pai, da mesma me trs filhos machos to diferentes um do outro?
  Muda de tom:
  - Mandaram chamar o Jango?
  - No achei necessrio.
  - E Floriano, por que no me apareceu?
  - Deve estar ainda na cama. Dona Flora me disse que ele s dormiu ao clarear do dia.
  Rodrigo parece hesitar antes de fazer a prxima pergunta.
  - Ele sabe... dessa minha histria?
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  Quem hesita agora - mas apenas por um segundo -  Camerino.
  - Sabe. Tivemos uma longa conversa ontem  noite, debaixo
  da figueira.
  - Naturalmente est contra mim...
  - Quem foi que lhe disse?
  - Imagino. Apesar de se parecer fisicamente comigo o Floriano em matria de temperamento  mais Quadros que Cambar...
  - Pois est enganado. O Floriano no o censura. Compreende a situao.
  Entra agora uma das crias da casa, uma caboclinha de quinze anos, de pernas finas, seios pontudos e olhos xucros. Traz uma bandeja, que Camerino manda pr em cima 
da mesinha, ao lado do paciente.
  - Est bem, Jacira - diz o mdico. - Podes ir. A rapariga hesita.
  - Como vai o doutor? - pergunta, sem olhar para o doente.
  - Agora vai melhor.
  Rodrigo detm a rapariga com pst que a faz estremecer.
  - Diga  Laurinda que ainda estou vivo. E que ela me prepare uma feijoada completa, com caldo bem grosso, bastante toucinho, lingia, repolho e batata-doce. Ah! 
E um assado de costela bem gordo!
  Depois que a criada se vai, Camerino volta-se para o amigo.
  - Um pouco de fantasia nunca fez mal a doente nenhum. Pense nos quitutes que quiser, nas comidas mais gostosas, fortes e indigestas. Mas coma apenas em pensamento.
  Rodrigo olha com repugnncia para o contedo da bandeja: uma xcara de ch com torradas e um copo com suco de ameixa.
  - S isso?
  - Depois de quarenta e oito horas vou lhe dar licena de comer quase tudo... menos gorduras e condimentos fortes, est claro.
  Rodrigo apanha o copo e com uma careta de repugnncia bebe alguns goles de caldo de ameixa.
  - Muito bem. Agora tome o ch e coma as torradas.
  - Por que no um cafezinho?
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  Hoje no. Amanh.
  Amanh! Sempre amanh! E quem me garante que para
  mim vai haver um amanh?
  O mdico apanha a maleta.
  - Preciso ir ao hospital ver um doente que o Carbone operou e que est com uma febre muito suspeita. Bem. Pouco antes do meio-dia venho ver como vo as coisas 
por 
aqui.
  Rodrigo segura-lhe o brao.
  - Escuta, Dante, no sei se vais acreditar. Mas quero te dizer que no fui eu quem mandou buscar essa menina, palavra de honra. Ela veio de livre e espontnea 
vontade.
  Camerino sacode a cabea afirmativamente. Vejo que no ests acreditando...
  - Estou, sim senhor.
  - No sou to irresponsvel que, no meu estado de sade, e morando num burgo como este, eu mandasse buscar a minha amante para a instalar logo naquela espelunca...
  - Eu sei.
  Mentira. Tu, o Floriano, todos os outros acham que deixei
  tudo combinado com ela antes de sair do Rio. Confessa!
  - O senhor est enganado. No pensei nada disso. Mas tome
  o ch.
  A bandeja oscila num equilbrio instvel sobre os joelhos do
  paciente.
  - Pois . Ela veio porque quis, porque estava preocupada
  com a minha sade... porque sentia falta de mim.
  Trinca uma torrada e comea a mastig-la com uma fria miudinha e gulosa de roedor.
  - A menina me quer bem, Dante, e  isso que tem tornado essa coisa toda to difcil. Se fosse uma dessas putinhas que andam atrs de dinheiro, o problema no seria 
to complicado. No nego que tenho um rabicho por ela. Tenho, e forte. A Snia  diferente, uma moa de boa famlia...  Era datilgrafa numa dessas autarquias...
  - O senhor no me deve nenhuma explicao.
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  No devo mas quero dar. Alm de meu mdico s meu
  amigo.
  Rodrigo toma um gole de ch e apanha outra torrada.
  - Esta droga tem gosto de papelo!
  - At logo - diz Camerino alguns segundos depois.
  - Espera, homem. Vem c. Me olha bem nos olhos... Estou liquidado, no estou?
  - Ora, doutor, no diga isso.
  - No sabes mentir.
  - Dou-lhe a minha palavra de honra...
  - Pois, como diz don Pepe, me cago na tua palavra de honra. Podes ir! Encalistrado, Dante Camerino faz meia-volta e se vai.
  26 de novembro de 1945
  Neco Rosa, proprietrio da Barbearia Elite, ensaboa o rosto de seu velho amigo Rodrigo Cambar.
  - Eu te disse, aquele negcio no ia acabar bem...
  - Cala a boca, Neco, o que passou, passou.
  - Mas  que tua tia me botou a boca quando entrei. Me conheceu pelos passos ou pelo cheiro, no sei...
  - No fundo ela te quer bem. Eu disse  velha que a culpa no foi tua.
  - No tive nem coragem de olhar dona Flora de frente.
  - E tu pensas que eu tenho? - Rodrigo suspira. - Se eu pudesse passar minha vida a limpo, Neco, palavra de honra...
  Fica a olhar para o teto, com um ar de devaneio. No fundo no est muito convencido de que poderia levar uma vida diferente, se lhe fosse dado recomear. Ah! mas 
o que daria agora para poder recuperar a estima e o respeito da mulher!
  Neco tira uma navalha de dentro de sua velha bolsa ensebada, e fica a passar a lmina num assentador.
  - Me d um cigarro - pede Rodrigo.
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  O barbeiro leva a mo ao bolso, num gesto automtico, mas, de repente, lembrando-se, exclama:
  - Ah, essa  que no! O doutor proibiu...
  - Me d um cigarro, animal! - insiste Rodrigo, tentando enfiar os dedos no bolso do barbeiro.
  Neco recua com a navalha numa das mos e o assentador na outra, como para repelir uma agresso fsica.
  - No quero ser responsvel pela tua morte. Sou teu amigo.
  - Pois ento me d uma prova dessa amizade. Me degola, corno, me liquida duma vez. Acaba com este suplcio. Mas afia bem essa navalha. Para um bandido como tu, 
a 
coisa mais fcil do mundo  matar um homem. Me passa esse cigarro duma vez!
  Neco hesita, olhando inquieto para os lados.
  - Bom, vou te dar um cigarro, mas tens de me prometer que fumas s a metade. Feito?
  - Passa a chave na porta.
  Neco obedece.  Depois,  aproximando-se de novo da cama, mete um cigarro entre os lbios do amigo e acende-o.
  - s um sujeito custoso - murmura, sacudindo a cabea. E continua a passar a navalha no assentador.
  Com a cabea atirada para trs, contra um dos travesseiros, Rodrigo sopra a fumaa para o ar, com delcia.
  - Vamos duma vez com essa barba!
  Neco faz a navalha cantar sua musiquinha familiar na face do
  amigo.
  - Podem at me fechar pra sempre as portas do Sobrado... - queixa-se ele. - Vo acabar me culpando da tua morte.
  Rodrigo fuma e sorri, os olhos cerrados.
  - Onde se meteu o Chiru? - pergunta.
  - Ele queria vir te ver hoje, mas o mdico proibiu. Diz que s podes comear a receber visitas de amanh em diante, e assim mesmo poucas e curtas.
  - O Dante  um exagerado.
  Por alguns instantes s se ouve no quarto o rascar da navalha no rosto de Rodrigo, e a respirao forte e sibilante do barbeiro.
  - Neco, vou te pedir um grande favor...
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  O outro pe-se na defensiva.
  - Se  alguma coisa que vai te prejudicar...
  - Escuta. Quero que procures a Snia hoje, logo que sares daqui...
  - Sim...
  - ...e contes a ela o que me aconteceu. Diz que estou bem agora, que no se aflija. E que mando perguntar se est precisando de alguma coisa. E que tenha o maior 
cuidado, no se exponha muito.
  - Est bem - murmura o Neco com gravidade.
  - Naturalmente ela deve ir a um cineminha de vez em quando, mas que no puxe conversa com ningum, porque todo o mundo sabe quem ela  e o que veio fazer. Pode 
haver 
exploraes. Tu sabes, tenho inimigos... Hoje mais que nunca.
  Neco torna a ensaboar a cara do amigo.
  - Queres que eu te escanhoe?
  - Claro, homem. Mas, ouviste o que te pedi?
  - Ouvi. E se ela perguntar quando  que vai te ver outra vez, que  que eu digo?
  Rodrigo solta um suspiro de impacincia, que lhe sai com uma baforada de fumaa.
  - A  que est o problema. Se essa menina tivesse ficado no Rio, eu estava aqui com saudade dela mas sabia que no havia outro remdio seno agentar. Mas pensar 
que ela est em Santa F, a sete quadras do Sobrado, e no poder nem sequer ver a carinha dela...  duro.
  - Agora cala a boca que eu quero te raspar o bigode.
  Agora cala. a boca.  o cmulo! Ele, Rodrigo Cambar, o homem a quem senadores e ministros pediam favores, o amigo de Getlio Vargas aqui est ouvindo este "agora 
cala a boca", pronunciado com a maior naturalidade por Neco Rosa, barbeiro, seresteiro, chineiro e desordeiro. O mundo est mesmo de patas para o ar.
  Terminado o servio, Neco repe os petrechos na bolsa, fecha-a e senta-se ao lado da cama. Rodrigo passa a mo pelas faces e pelo queixo.
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  O mesmo Neco de sempre. O pior barbeiro do mundo.
  - A verdade  que vais, vens e acabas nas minhas garras. Mas me d esse toco de cigarro, que eu vou esconder.
  Tira a bagana da boca do amigo, apaga-a com as pontas dos dedos amarelados de nicotina e mete-a no bolso.
  - Vou te fazer outro pedido - diz Rodrigo em voz baixa , desses que um homem s faz a um amigo de confiana.
  Neco vai acender outro cigarro, mas contm-se para no agoniar o enfermo.
  - Que ?
  Por um instante Rodrigo fica como quem no sabe por onde comear.
  - Tu sabes como  este nosso pessoal... Vem uma menina bonita sozinha num hotel e j imaginam que  mulher da vida, e toca a dar em cima dela. Existem aqui uns 
rapazes impossveis como o   Macedinho,   o   Teixeirinha   e   outros.   No   podem   enxergar mulher...
  Neco sacode a cabea, compreendendo aonde o outro quer chegar.
  - O que vou te pedir no  fcil, eu sei. Mas faze o que puderes. Me d uma olhadinha na Snia de vez em quando. s a nica pessoa a quem posso fazer este pedido 
com o esprito tranqilo. Sei que no vais faltar com o respeito  menina.
  - No sou santo, mas mulher de amigo pra mim  homem.
  - Acho que a soluo  mandar a Snia embora.
  - Tambm acho.
  - Se ao menos eu estivesse em condies de sair deste quarto...
  - No contes comigo para outra visita como aquela. Deus me livre!
  - No te preocupes. Na prxima vez vou sozinho... se  que vai haver uma prxima vez.
  Neco ergue-se.
  - Bom, vou cantar noutra freguesia.
  - Quanto te devo?
  - Ora vai amolar o boi!
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  No momento em que o amigo lhe estende a grande mo ossuda, riscada de veias salientes dum azul esverdeado, ocorre a Rodrigo uma idia.
  - Espera, acho melhor escrever um bilhetinho  Snia. Neco velho, tem pacincia, me traz ali da cmoda papel e caneta...
  O barbeiro faz o que o amigo lhe pede. E resmunga:
  - Era s o que me faltava! Virar alcoviteiro depois de velho... E fica esperando que Rodrigo escreva o bilhete.
  A tardinha, ao sair para um passeio ocioso pela cidade, Floriano encontra Pepe Garcia na sala de visitas do Sobrado, sentado diante do Retrato.
  Trata de pisar com cautela para no produzir o menor rudo, pois sabe o que ter de agentar se o pintor lhe deitar as garras.
   uma histria a um tempo comovente e grotesca. O artista aparece periodicamente no Sobrado e fica a contemplar durante horas a fio este quadro que todos, e ele 
tambm, consideram a obra mxima de sua vida. O retrato de corpo inteiro de Rodrigo Cambar no s revela o artista no auge de seu poder criador como tambm em plena 
posse de sua maturidade e de seu vigor fsico.
  O degrau range. Pepe volta a cabea e, avistando Floriano, grita:
  - Vem c, chico!
  Floriano no tem outro remdio seno aproximar-se. Pousa o brao sobre os ombros do espanhol, que continua sentado, e ficam ambos a mirar a tela.
  - Agora me diga se esse que a vs na fora da juventude, da sade e da beleza  o mesmo que est l em cima...
  - Ora Pepe! - sorri Floriano. - No sejas exagerado. Meu pai est conservadssimo para um quase sessento...
  O pintor sacode a cabea numa negativa.
  - No, no e no! - Ergue os olhos para o amigo, bafeja-lhe o rosto com seu hlito de cachaa. - Don Pepe sabe o que diz. Esse Rodrigo do Retrato no existe mais!
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  Depois de trinta e cinco anos no Brasil, fala portugus com fluncia, mas com um sotaque que por assim dizer lhe embacia as
  palavras.
  - Por que no sobes para conversar com o Velho?
  - Jamais!
  - Faz quase um ms que ele chegou e ainda no o visitaste.
  - Eu sei.
  - No s mais amigo dele?
  - Amigo? Eu adoro teu pai. E exatamente por essa razo que no vou. Quero guardar dentro de mim a lembrana do Outro. Desse que ali est na tela, por obra de meu 
gnio, cofio!
  Aos setenta e um anos Pepe Garcia parece um Quixote de captulo final. Tem um rosto longo e emaciado, um par de olhos escuros e ardentes, no fundo de rbitas ossudas; 
os bigodes de guias longas caem-lhe pelos cantos da boca, e a agudez do queixo acentua-se na pra grisalha e malcuidada. Veste uma velha roupa de sarja cor de chumbo, 
de gola ensebada; manchas de sopa e molhos de almoos e jantares imemoriais deixaram-lhe nas lapelas desenhos indecifrveis. Seus ps longos e magros esto metidos 
em alpargatas de pano pardo.
  - Bom, Pepe velho, tenho que sair...
  Como se no o tivesse ouvido, o outro murmura:
  - Eu devia amar-te tambm, porque te pareces com teu papai. Mas qual! No passas duma imitao barata do Rodrigo autntico que conheci...
  Floriano sai, com a impresso - que ao mesmo tempo o diverte e enfada - de que o castelhano acaba de dizer uma verdade.
  Atravessa a praa diagonalmente, em passadas lentas. Seis da tarde. A luz do sol tem uma tonalidade de mbar. O galo do cata-vento da matriz est imvel na quietude 
morna do ar. No coreto, perto da pista circular de patinao crianas brincam em algazarra. Mocinhas que do a impresso de que acabam de sair do banho passeiam 
em bandos pelas caladas, algumas acompanhadas de rapazes. Em muitas das casas que do para a praa, senhoras gordas de ar plcido, debruadas nas suas janelas, 
contemplam a
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  tarde e a parada dos namorados. Tudo seria duma doura quase buclica no fossem os alto-falantes da Rdio Anunciadora, que despejam por suas gorjas de metal msicas 
estrdulas, entremeadas de propaganda comercial e poltica. Quando a msica cessa, a voz do locutor, cheia de erres vibrantes, proclama alternadamente a qualidade 
e os preos dos artigos da Casa Sol, os milagres dum sabonete desodorante e a necessidade da volta de Getlio Vargas.
  Aos sons de um frevo frentico encaminha-se para a rua principal. Sabe o que o espera neste passeio. Ter de parar mil vezes para abraar conhecidos e - o que 
 
pior - pessoas que no conseguir reconhecer. Sempre teve uma conscincia muito viva de sua timidez e de sua preguia de responder s perguntas que lhe fazem, de 
mostrar-se simptico, atencioso, bom moo. Lembra-se de Ravengar, um heri de sua meninice, personagem de um romance-folhetim e de um filme seriado, inventor de 
um manto que tinha a virtude de torn-lo invisvel. Floriano lamenta no estar agora envolto na capa de Ravengar. Mas no! Est decidido a queimar, destruir para 
sempre esse manto mgico, pois quer fazer-se visvel como nunca, estar presente, participar... Vai ser duro, ah!, isso vai, mas est resolvido a levar a experincia 
at o fim.
  Avista Cuca Lopes e imediatamente seu esprito se transforma em teatro duma luta. Uma parte do seu eu lhe grita em pnico que se esconda. A outra quer arrast-lo 
na direo do mexeriqueiro municipal. E como esta ltima sente que vai perder a partida, lana mo dum recurso desesperado, criando o "caso consumado".
  - Cuca! Como vai essa vida, homem?
  O oficial de justia precipita-se a seu encontro, de braos abertos.
  - Menino, eu estava com uma vontade louca de te ver. Onde tens te metido?
  Abraam-se. Cuca tresanda a suor novo e antigo de mistura com o sarro das baganas que costuma guardar nos bolsos.  pequeno, rolio, rodopiante como uma piorra. 
Gordurinhas meio indecentes acumulam-se-lhe no ventre e nas ndegas.
  - Como vai o teu pai?
  - Melhor, obrigado.
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  - Tu no imaginas - diz Cuca, cheirando a ponta dos dedos -, todo o mundo est pesaroso. Que perda, se o dr.  Rodrigo morresse!  o que digo sempre. Um amigao 
e 
tanto, o pai da pobreza, todo o mundo gosta dele. Eu que diga!
  Floriano tenta despedir-se, seguir seu caminho, mas o outro o detm, segurando-o pela manga do casaco.
  - Escuta aqui, Floriano, me disseram que teu pai trasantontem foi visto de noite no Hotel da Serra com o Neco Rosa. 
  verdade?
  - No sei, no ando espiando o meu pai.
  - Ah! Logo vi que era mentira. Pois se o Rodrigo estava de resguardo por causa do incardo do mio... infarto do miocrdio, digo, como  que ia j andar caminhando? 
E logo no Hotel da Serra, de noite... S se foi algum amigo que chegou do Rio, digo...
  - Sinto muito, Cuca, mas no posso te esclarecer o assunto.
  At logo.
  Faz meia-volta e continua a andar.
  O frevo terminou. O locutor d os caractersticos da estao. Ouve-se um rascar de agulha em disco, e a seguir uma voz bemempostada e solene: "Brasileiros! Patriotas 
de Santa F! Ele voltar! Venham todos ao comcio queremista desta noite na praa Ipiranga. Falaro vrios oradores". Uma pausa dramtica, e depois: "Ele voltar!"
  A rua do Comrcio! Floriano lembra-se dos tempos da adolescncia, e do titilante prazer com que, depois do banho da tarde, todo enfatiotado e recendente a sabonete, 
descia aquela rua, rumo da outra praa, alvorotado  idia de que em algum lugar ia encontrar a namorada (amores de estudante em frias), ansioso pelo momento de 
passar por ela e, a garganta apertada, as orelhas em fogo, lanar-lhe um olhar comprido... Marina, Isaura, Roslia, Dalva... por onde andais?
  Floriano lana olhares dissimulados para as fachadas de certas casas, como se temesse ser interpelado por elas. A arquitetura de sua terra natal sempre o deixou 
intrigado. No  nada, no significa nada. Certo, existem em Santa F algumas casas como o Sobrado
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  e mais trs ou quatro outras, que conservam algo do casaro senhoril portugus. Sim, e ele sente uma simpatia especial - que nada tem a ver com arquitetura ou 
esttica 
- por estas meias-guas pobres de fachadas caiadas, cobertas de telha-v, com janelas de caixilhos tortos, rodos pela intemprie e pelo cupim. No tolera, porm, 
os chamados palacetes com compoteiras sobre as platibandas, esculturas em alto-relevo nas fachadas. Nestes ltimos dez anos surgiu na cidade a voga das casas cor 
de chumbo, cintilantes de mica. E um pretenso moderno, pardia ridcula das inovaes arquitetnicas de L Corbusier, e que Roque Bandeira classifica como "estilo 
de mictrio".
  O fato de o cho de Santa F ser de terra vermelha explica o ar rosado e encardido das paredes, muros e at de certas pessoas. Floriano lembra-se de sua irritao 
de adolescente nos dias em que soprava o vento norte, com seu bafo quente, arrepiando-lhe a epiderme, sacudindo as rvores, erguendo a poeira do cho, e dando ao 
ar uma qualidade spera de lixa.
  Avista agora a Casa Sol, toda pintada dum azul de anil, com suas numerosas portas e vitrinas. A sua frente acha-se reunido, como sempre a esta hora, um grupo de 
pessoas que ali ficam a trocar mexericos ou a discutir poltica e futebol. A Casa Sol  conhecida como um foco antigetulista. Ao passar por ela, na calada oposta, 
Floriano no pode deixar de envolver-se psicologicamente no manto de Ravengar. (Se eles me avistam e me chamam, estou frito...) Passa de rosto voltado, e tem a sorte 
de no ser visto.
  Ali est agora a matriz da firma de Jose_Kern. Esse teuto-brasileiro comeou sua carreira no interior do Estado, como mascate; teve depois em Nova Pomernia um 
pequeno 
negcio que, com o passar do tempo, cresceu de tal maneira, que o homem acabou transferindo suas atividades comerciais para a sede do municpio. Este casaro - observa 
Floriano - tem uma pesada arrogncia germnica, temperada aqui e ali por ingenuidades nova-pomeranianas. Sempre que se refere a Kern, A Voz da. Serra lhe chama "o 
nosso magnata", pois  ele proprietrio de vrias fbricas - conservas, sabo, malas, artefatos de couro - e nestes ltimos cinco anos tem andado metido em grandes 
negcios de loteamento de
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  terrenos e na construo de prdios de apartamentos. Jos Kern sempre teve ambies polticas: entre 1934 e 1940, foi ardoroso partidrio da sustica e do sigma. 
Agora, candidato a deputado pelo Partido de Representao Popular, mandou colar nas paredes e muros da cidade centenas de cartazes com seu retrato e suas promessas
  eleitoreiras.
  Floriano continua a caminhar. Duas quadras adiante l numa placa oval de lato: Escritrios Centrais da Empresa Madeireira de Spielvogel & Filhos. Ao velho Spielvogel 
o dirio local chama "o rei da madeira". Os Kern e os Spielvogel, bem como os Kunz, os Schultz e muitas outras famlias de origem alem, hoje em muito slida situao 
econmica e financeira, comearam pauprrimos a vida no Rio Grande abrindo picadas no mato, h mais de cem anos. Seus antepassados vieram do Vaterland entre 1833 
e 1848, estabelecendo-se no interior do municpio.
  Um auto estaca junto do meio-fio da calada, e de dentro dele salta um homem alto e corpulento, que envolve Floriano num abrao sufocante.
  - Santo Cristo! Quase no te conheci!
   Marco .Lunardi, contemporneo de Rodrigo, um talo-brasileiro de cara aberta e aliciante, pele cor de tijolo, olhos dum verdecinza. Suas manoplas seguram os 
ombros 
de Floriano, sacudindo-os.
  - E teu pai? Melhorou? Graas a Deus! Ainda no apareci l porque o dr. Camerino me disse que o dr. Rodrigo no pode ainda receber visitas. Mas penso nele o dia 
inteiro. Quando ele sarar, vou mandar rezar uma missa em ao de graas. Sabes duma coisa? Fiz uma promessa a Nossa Senhora da Conceio. Se teu pai ficar bom, vou 
distribuir mantimentos para a pobreza de Santa F e dar dez mil cruzeiros para a igreja. J avisei o padre Josu.
  Lunardi mira afetuosamente o filho do amigo.
  - Ests cada vez mais parecido com o teu pai - diz com sua voz apertada de vneto, com esses levemente chiados. - Tudo que sou devo ao dr. Rodrigo. Se no fosse 
ele, nem sei o que ia ser de mim. Os homens como teu pai esto acabando, hoje tudo  interesse, s se pensa em ganhar dinheiro, futricar o prximo, uma porca misria!
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  Floriano escuta-o, sorrindo, em silncio.
  - Precisas ir ver a minha firma. Tenho uma fbrica de massas alimentcias, padaria, moinho de trigo, confeitaria... Quero que conheas a patroa, os filhos e os 
bacuris. 
Tenho cinco netinhos.
  Tira do bolso uma coleo de instantneos de crianas e mostra-os.
  - V s quanto gringuinho... Floriano faz um esforo e diz:
  - Muito lindos. Parabns!
  Quando Lunardi o deixa, depois de outro abrao apertado, ele fica a pensar nas histrias que ouviu a respeito de famlias tradicionais de Santa F que, abastadas 
e influentes h vinte ou trinta anos, foram decaindo, ao passo que imigrantes italianos, alemes, srios e judeus prosperavam. Os Teixeiras perderam quase toda a 
fortuna. Dos vastos campos dos Amarais, pouca coisa hoje resta em poder da famlia...
  E ali naquela janela - pensa Floriano, de novo quase em pnico - est um smbolo vivo da decadncia da nossa aristocracia rural.  Mariquinhas Matqs, filha de 
estancieiro, 
que foi j "moa prendada" e considerada um dos melhores partidos da cidade. Hoje, cinqentona e solteira, vive solitria nesta casa quase em runas, em meio de 
retratos de antepassados, tendo guardada numa arca a rica baixela de prata que nunca usa e, em velhos escrnios, jias de famlia que recusa vender, apesar de sofrer 
aperturas financeiras.
  Floriano pensa em mudar de calada para evitar o encontro. Tarde demais! A mulher, que o avistou, prepara para ele o famoso sorriso que lhe valeu na mocidade o 
cognome 
de Mona Lisa, e j est com o brao estendido para fora da janela. Floriano apressa o passo e aperta a mo magra, de pele pregueada e sarapintada de manchas pardas.
  - Bem-vindo! - exclama ela. - Bem-vindo seja o filho prdigo  casa paterna!
   ledora de novelas romnticas, toca piano e adora Chopin. Um pescoo longo sustenta o crnio mido. Seu perfil adunco de ave de rapina foi descrito em 1920 como 
grego, por um cronista local. Est como sempre exageradamente pintada, as plpebras 
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  lambuzadas de bistre, uma rosa de ruge em cada face. Com os cotovelos fincados numa almofada e ambas as mos erguidas, prende a gola da blusa para esconder a pelanca 
frouxa do pescoo e ao mesmo tempo firmar a da papada.
  - Como vai o papai?
  - Melhor, muito obrigado.
  Dois gatos - dos sete que o folclore local atribui  casa de Mariquinhas Matos - saltam quase ao mesmo tempo para o peitoril da janela, um negro e o outro fulvo, 
e ficam ambos a ronronar e a esfregar-se nos braos da dona, com uma sensualidade fria e asmtica. O bafio de mofo que vem de dentro da casa, misturado com um cheiro 
de excremento de gato, chega s narinas de Floriano tamisado pela fragrncia de Tricfero de Barry que se evola dos cabelos da Gioconda.
  - Que  que tem achado de nossa cidade? - pergunta ela com sua voz abemolada.
  Certas pessoas - reflete Floriano -, para mostrarem que so educadas, erguem o dedo mnimo quando seguram as asas das xcaras de ch. H um tom de voz que corresponde 
exatamente a esse erguer do dedinho social. E foi com essa voz que Mariquinhas fez a pergunta.
  - Parece que tem progredido muito - responde ele, achando o dilogo ridculo, pois o Outro no participa dele, est afastado,  beira da calada, a observar a 
cena 
com olhos crticos e antipticos como os dos gatos. Floriano vislumbra nas paredes da sala velhos retratos avoengos, nas suas molduras douradas: a um canto um piano 
de cauda sobre cuja tampa se adivinham bibels, guardanapos de croch e bzios.  De vez em quando atravessam a penumbra desse interior vultos esquivos de outros 
gatos, os olhos a fuzilarem.. A isto est reduzida a nica descendente viva do baro de So Martinho! Contam-se dela as histrias mais doidas. Dizem que em certos 
dias da semana, Mariquinhas Matos, vestida de branco da cabea aos ps, freqenta o nico terreiro da linha branca de umbanda que existe em Santa F e que, no raro, 
durante a sesso, baixa sobre ela o esprito dum "caboclo" e - o rosto contorcido, o corpo convulsionado - ela comea a balbuciar palavras da lngua
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  guarani, pede um copo de cachaa e um charuto, e se pe a beber e a fumar como uma desesperada.
  - Ento - pergunta a Mona Lisa com um trejeito faceiro de boca. - Quem  a felizarda?
  Floriano sabe o que ela quer dizer, mas pergunta:
  - Quem?
  - Ora, a namorada...
  - Ah, no sei...
  - Aposto como as meninas da terra esto alvorotadas com a sua chegada. - No creio.
  Floriano no resiste por mais tempo o olhar dos bichos, que o miram com uma fixidez desconcertante, como que compreendendo o grotesco da situao. Os olhos de 
Mariquinhas 
tambm no o deixam. O cheiro da casa comea a provocar-lhe nuseas.
  - Bom, com licena.
  Ela lhe aperta longamente a mo.
  - Foi um prazer imenso rev-lo! Recomendaes  famlia! Floriano retoma a marcha. Pobre Mona Lisa! A fachada de
  sua casa est fendida de alto a baixo. Crescem ervas no telhado. E aquela solido... e os gatos, os fantasmas... e as possveis ressacas depois das noitadas de 
charuto 
e cachaa!
  No chega a dar dez passos quando uma figura lhe barra o caminho.
  - Alto l!
  Pra. Quem ser? Tem diante de si um velho franzino e encurvado, de cara murcha, os olhos lacrimejantes, os dentes enegrecidos. A fisionomia do homem lhe  vagamente 
familiar.
  - No ests me conhecendo, alarife!
     - Claro que estou - mente Floriano.
  - No ests!
  - Quem foi que lhe disse?
  Como ltimo recurso avana para o homem e aperta-o contra o peito, com uma cordialidade exagerada.
  - Logo vi que ias me conhecer! Pois eu te peguei no colo quando eras pequeno, safardana! Mas como vai a vida? E o Velho? Ento teve uma recada, hein? Mas Cambar 
 bicho duro. No
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  h de ser nada. E como vai a mame? E a velha Valria? - No d ao outro tempo para responder. - Gente boa, aquela do Sobrado! Gente antiga, dessas que no vm 
mais. 
Tu sabias que a pobre da Lilica morreu?
  Floriano tenta uma pardia de surpresa e pena: franze a testa, sacode lentamente a cabea.
  - No diga!
  Mas no tem a menor idia de quem seja ou tenha sido a Lilica.
  O desconhecido prende-o ainda por alguns minutos para falar de poltica ( federalista dos quatro costados), do tempo (este novembro trouxe uma seca braba) e do 
prefeito ( burro e ainda por cima ladro).
  Floriano atravessa a rua para no passar muito perto da Farmcia Humanidade, onde h quase sempre uma roda de chimarro a esta hora. E nos prximos minutos cruzam 
por ele vrias pessoas que o miram com curiosidade. Alguns o cumprimentam hesitantes, outros erguem o brao e gritam: "Ento como vai a coisa?" Ele sacode a cabea 
afirmativamente, sorri, gesticula, dando a entender que a coisa vai muito bem.
  De sbito ouve um grasnar de pato. Quac! Quac! Quac!  o alemo Jlio Schnitzler, que sai de dentro da sua confeitaria e, no meio da calada, agacha-se, grasna 
outra 
vez e finge tirar de baixo do traseiro o ovo de gesso que tinha escondido na mo. Pe-se por fim de p, abraa Floriano e pergunta:
  - Te lembras? Tu eras pequeno e gostavas de ver o Jlio fazer esta brincadeira da pata
  - Continuas ento a botar ovo?
  - Achl A pata agora est muito velha. Mas ds que chegaste ando com este "ovo" no bolso para te fazer a brincadeira uma vez.
  Puxa o amigo para dentro da confeitaria. Floriano sente-se envolvido por uma atmosfera nostlgica. Estes cheiros alemes de molho de manteiga, caf com leite e 
Apfelstrdel 
fazem parte das melhores recordaes de sua infncia. Quando menino ele os associava aos contos de fadas em que havia aldeias bvaras, com gordos
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  e joviais burgomestres, limpadores de chamins e invernos com neve e trens
  - Como est o papai? - pergunta Schnitzler.
  - Fora de perigo por enquanto
  - Ach! Graas a Deus. Que homem bom!
  Frau Schnitzler aparece, enxugando as mos no avental, e beija o filho de Rodrigo Cambar em ambas as faces. Floriano lembra-se dos saborosos sanduches que ela 
fazia: entre duas grossas fatias de po de centeio generosamente barradas com manteiga de nata doce, apertavam-se tiras de presunto cru e rodelas de salame, mortadela 
e pepino... E a sua cuca de mel? E o seu bolo ingls bem tostado, polvilhado de acar? (Um dia de inverno - nos arredores de Baltimore, olhando para um barranco 
de terra parda coroado de neve, Floriano se surpreendeu a evocar e a desejar comer os bolos de Frau Schnitzler.)
  Agora do fundo da confeitaria surge uma mulher monstruosamente gorda com uma cara lunar intumescida a ponto de no ter mais feies. Seus braos so grossos como 
coxas. Os seios caem abundantes e disformes sobre a primeira das inmeras pregas do estmago e do ventre. A cada passo que d penosamente com as pernas de paquiderme, 
as adiposidades da barriga e das ndegas danam pesadas, puxando o resto do corpo ora para um lado ora para outro, o que lhe dificulta ainda mais a marcha. O boneco 
de propaganda dos pneumticos Michelin! - exclama Floriano interiormente. Franze a testa, procurando reconhecer esta criatura que se aproxima dele com os braos 
abertos.
  - No se lembra mais da Marta? - pergunta ela, abraando-o e beijando-o tambm nas faces.
  Agora a Marta dos vinte anos volta  mente de Floriano - fresca, bonita, com suas pernas apetitosas que ele tanto gostava de namorar. Santo Deus! Como uma criatura 
pode mudar!
  S agora Floriano presta ateno em Jlio Schnitzler. A lembrana que guardava dele era de um homem atltico, de porte marcial - um dos melhores ginastas do Turnverein 
local, onde era campeo de halteres. Neste velho que est agora na sua frente - calvo, emurchecido e meio encurvado - pouco resta do antigo
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  Jlio. S se salvaram os olhos, que guardam a lmpida inocncia de antigamente.
  - Toma alguma coisa? - convida o confeiteiro. Floriano agradece. No quer nada, est prxima a hora do
  jantar. Tem de ir andando... Sai. As mulheres tornam a beij-lo. A "pata" torna a grasnar, mas desta vez de mansinho, j num tom nostlgico de despedida.
  A rua est cheia dos sons embaladores duma valsa.
  Esmeralda Pinto, dona da lngua mais temida da cidade, encontra-se como sempre  sua janela, a pescar passeantes para prosear. Floriano cai-lhe inadvertidamente 
na rede.
  - Ento, no conhece mais os amigos?
  - Dona Esmeralda!
  Aperta-lhe a mo. Ela se inclina, dando-lhe uma batidinha no ombro. Est pintada com o mesmo exagero da Mona Lisa.
  - Eu queria muito falar contigo.
  Nem sequer pede notcias da gente do Sobrado.
  - Escuta, menino, e essa histria da amante do teu pai, hein? Floriano conhece a fora da interlocutora, mas no esperava
  que ela entrasse to sofregamente no assunto.
  - Que histria? - desconversa.
  Esmeralda leva o indicador ao olho direito para dar a entender que no dorme, que enxerga as coisas.
  - Olha, esta aqui ningum engana, ouviste? Podem dizer tudo de mim, que sou faladeira, edecetra, mas duma coisa ningum me chama.  de hipcrita. Porque no sou.
  - Claro que no.
  - Pois ento desembucha. Queres entrar?
  - No, obrigado.
  - Sei que o nome dela  Snia, tem vinte e poucos anos e trasantontem teu pai visitou ela no hotel... por sinal foi l com aquele cafajeste do Neco Rosa, e ficou 
no quarto da rapariga umas duas ou trs horas. Foi por isso que ele teve o novo ataque, no foi?
  - A senhora est muito bem informada.
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  - Pois . Aqui desta janela controlo toda a cidade. Comigo ningum banca o santinho. Sei os podres de todo o mundo.
  Floriano sorri amarelo.
  - Conta alguma coisa, rapaz!
  - Que  que vou contar?
  - Tua me sabe da histria?
  - No perguntei.
  - Pois se no sabe  de boba. Em Santa F no se fala noutra coisa. At as pedras da rua sabem.
  - Que  que a senhora quer que eu faa? Esmeralda lana-lhe um olhar enviesado.
  - Floriano, tu tens outro por dentro. Te conheo muito bem. Queres fingir que no sabes de nada, no? - Mostra-lhe o dedo mnimo: - Morde aqui...
  - Bom, com licena...
  Esmeralda sorri, os dentes postios aparecem, sua face se pregueia.
  - Vais ver a rapariga?
  - Que rapariga?
  - A amsia de teu pai, u!
  Ele se pe em movimento, sem responder.
  - Aproveita, bobo! O Velho est pagando!
  Ao ler numa fachada um letreiro evocativo - A Lanterna de Digenes - Floriano atravessa a rua. Era nesta livraria que, quando menino, uma vez por semana ele vinha 
alvoroado buscar o seu nmero de assinatura d'O Tico-Tico, ansioso por saber das novas aventuras de Chiquinho e Jaguno e da famlia de Z Macaco e Faustina. Foi 
tambm nesta pequena casa de duas portas e uma vitrina que ele comprou as novelas que lhe encantaram a meninice e a adolescncia.
  Entra. Olha em torno. Pouca coisa aqui mudou nestes ltimos vinte e cinco anos. O mesmo balco lustroso, as mesmas prateleiras sem vidros, cheias de livros, em 
sua 
maioria brochuras. O mesmo cheiro seco de papel de jornal e de madeira de lpis recm-apontado. A mquina registradora National (o fregus ver no mostrador
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  a importncia de sua compra) parece tambm ser a mesma. Ao lado dela, sobre o balco, algumas dezena.-, 1e folhas de papel de seda de vrias cores. (Por que cus 
andaro as pandorgas da infncia?) S falta aqui o velho Gonzaga, o antigo proprietrio, que passava os dias com o chapu na cabea, atrs do balco, decifrando 
charadas ou escrevendo quadrinhas, com um cigarro num canto da boca e um pau de fsforo no outro. Morreu h uns dez anos, deixando a livraria para um filho que, 
em vez de cuidar do negcio, passa as tardes no clube, jogando pife-pafe.
  Floriano lembra-se de um dia assinalado de sua vida. Tinha nove anos e a professora dona Revocata Assuno lhe dissera em plena aula: "Seu Floriano, agora que 
o 
senhor sabe escrever, pode comprar um caderno de pauta simples". Finalmente! Aquele era um de seus grandes sonhos: escrever sobre linhas simples, como a professora, 
como papai, como os grandes! Munido de dinheiro, enaminhou-se para A Lanterna de Digenes, pisando duro, sentindo-se homem, orgulhoso de fazer aquela compra sozinho. 
Tudo na pequena livraria o encantava, a principiar pelo dono, que costumava brincar com ele, propondo-lhe charadas e adivinhaes. "Deves ser um menino inteligente. 
Filho de tigre sai pintado." Ele gostava de ouvir aquilo. Era filho de tigre. Os Cambars eram tigres. O nome da livraria tambm lhe estimulava a fantasia. Papai 
lhe explicara um dia que Digenes tinha sido um filsofo da Grcia antiga que andava pelas ruas de Atenas com uma lanterna acesa, e quando lhe perguntavam: "Que 
buscas?" ele respondia: "Um homem". Para o menino Floriano, porm, a palavra lanterna evocava a fantasmagoria da lanterna mgica com seus filmes coloridos como a 
Dana dos sete vus e a Viagem  Lua... Digenes, portanto, era antes de tudo um mgico.
  Floriano olha agora, distrado, para as velhas prateleiras, quando ouve uma voz:
  - Que  que o senhor deseja?
  Quem lhe faz a pergunta  uma mulherzinha plida que acaba de sair de trs duma cortina de pano verde. Responde automaticamente:
  - Um caderno de pauta simples.
  - Cinqenta ou cem pginas?
  - Cem.
  A empregada embrulha o caderno. Floriano paga, apanha o pacote e sai, sorrindo. A cena lhe parece to extraordinria que ele no quer coment-la nem consigo mesmo.
  Volta para o Sobrado por uma rua menos movimentada.
  Caminha alguns passos, de olhos baixos, absorto em seus pensamentos. Quando ergue a cabea, v a pequena distncia um homem em mangas de camisa, a tomar chimarro 
sentado numa cadeira na calada,  frente de sua casa. O Roque Bandeira!  uma das poucas pessoas de Santa F cuja companhia Floriano realmente preza. A opinio 
popular a respeito dele na cidade  unnime: um bomio, um excntrico, um doido. Trs coisas o tornam notvel aos olhos da populao: sua fealdade, sua grande erudio 
e seu completo desprezo pela opinio pblica. Floriano, que o conhece desde menino, considera-o um homem inteligente e muito bem informado. Suas opinies cnicas 
sobre a vida e os homens o divertem. Seu humor sarcstico o fascina e ao mesmo tempo alarma.
  Floriano acelera o passo.
  - Bandido! - exclama. - Que  feito de ti? H quase uma semana que no apareces l em casa!
  Com sua pachorra habitual, Bandeira ergue-se e estende a mo para o amigo, como se o tivesse visto na vspera.
  - Pois aqui estou... - diz.
   um homem de meia-idade, baixo e malproporcionado. Sua cabeorra, que tanto lembra um capacete de escafandro, parece no pertencer a este corpo de ombros estreitos 
e pernas finas. Toda a gordura se lhe acumulou na cara e no ventre. Seus olhos cor de malva brilham, pcaros e meio exorbitados, protegidos por plpebras arroxeadas, 
e permanentemente empapuados. Floriano sempre se impressionou com a espessura do pescoo do Bandeira ou, melhor, com a ausncia de pescoo no amigo, j que a papada 
lhe cai sobre os ombros e o peito. O homem a qualquer momento pode estourar ou morrer asfixiado.
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  Roque Bandeira no ignora que na cidade  conhecido como o Batrquio, o Cabeudo, o Sapo-Boi... De todas as alcunhas que lhe puseram, uma h que lhe  grata ao 
corao, 
e que ele aceita como uma espcie de ttulo honorfico. Floriano tinha nove anos e testemunhou a cena em que o cognome nasceu. Foi em 1920, quando Bandeira comeava 
a freqentar o Sobrado. Numa noite de inverno,  hora em que as crianas diziam "boa noite" s visitas, antes de subirem para os seus quartos, Bandeira estendeu 
os braos para Jango e convidou: "Venha com o titio". Sem pestanejar Maria Valria exclamou: "V com o tio Bicho!" A frase pareceu escapar-lhe espontnea da boca, 
como se a velha tivesse pensado em voz alta. Fez-se um silncio de constrangimento. Rodrigo fechou a cara e lanou um olhar de censura para a tia. Roque Bandeira, 
porm, desatou a rir: "Mas  um grande achado! - disse. - Fao questo de que daqui por diante estes meninos me chamem tio Bicho!"
  - Que tens feito? - pergunta Floriano.
  - Nada, como sempre.
  Deve ser mentira. Tio Bicho passa o dia lendo, estudando, e escrevendo coisas que jamais mostra aos outros. Poliglota, est ao corrente do que se publica de importante 
no mundo, em alemo, francs, italiano, espanhol e ingls. Gasta quase tudo que ganha - produto do arrendamento de um campo herdado do pai - com livros, revistas 
de cultura e peixes vivos. Sua paixo  a oceanografia: tudo quanto diga respeito  fauna,  flora,  vida e  histria martimas lhe desperta o maior interesse. 
Costuma explicar que seu fascnio pelos peixes no  apenas cientfico, mas tambm potico. E diverte-o lembrar aos outros que ele talvez seja o nico oceangrafo 
do mundo que no conhece nenhum oceano. De fato, nunca viu o mar. Por qu? Ora, comodista, homem de hbitos fixos, detesta viajar, e mesmo nunca lhe sobra dinheiro 
para isso. Quanto  oceanografia, contenta-se com o riacho do Bugre Morto e seus lambaris.
  - Como vai a tua antologia? - pergunta Floriano.
  - Marchando devagarinho.
  H anos que Bandeira vem preparando uma antologia de versos sobre peixes, em cinco lnguas.
  65
  - Ainda ontem - contou - descobri um haicai japons que conta a histria dum peixe prateado que se apaixonou pela lua. No preciso te dizer que  um caso de amor 
mal correspondido. Mas... queres entrar? No repares, que a minha casa est uma anarquia dos diabos. Tomas um mate? Ah! No me lembrava que no s homem de chimarro.
  Floriano tem uma idia:
  - Vamos at o Sobrado olhar o pr-do-sol da janela da gua-furtada!
  Tio Bicho hesita por um momento.
  - Bom, espera um minuto. Vou enfiar o palet.
  Entra. Vive sozinho nesta casa branca que mandou construir inspirado na fotografia duma residncia rabe de Oran, que encontrou num magazine francs. A singeleza 
da fachada - costuma dizer - representa seu protesto mudo mais slido contra o que ele chama de "barroco santa-fezense", de que so exemplos berrantes o edifcio 
da Prefeitura Municipal e o palacete dos Prates.
  Quando Bandeira torna a aparecer, de casaco e chapu, Floriano no consegue reprimir um sorriso.
  - s o nico habitante de Santa F que ainda usa palheta... ou "picareta", como se diz no Rio Grande.
  Tio Bicho d de ombros.
  - Sou conservador.
  Outra inverdade. Est sempre aberto s ideias novas, sempre disposto a reexaminar as antigas. Sua "especialidade" no momento so uns filsofos alemes modernos 
de 
que ningum ainda ouviu falar em Santa F, talvez nem mesmo o dr. Terncio Prates, outro bibliomanaco.
  - Como vai o morgado? - indaga Bandeira, quando ambos sobem a rua lado a lado.
  - No sabes da ltima? Teve ontem um edema agudo de pulmo.
  - Esse edema s podia ser agudo. Teu pai  o homem dos extremos.
  Bandeira caminha devagar, com cautela, como se tivesse de equilibrar a pesada cabea sobre os ombros. Floriano lana-lhe olhares
  66
   de soslaio. O amigo tem na maneira de andar algo que lembra a imagem dum santo quando carregada em procisso. Tio Bicho  atacado dum acesso de tosse bronqutica, 
que o pe vermelho e com lgrimas nos olhos.
  - Eu devia deixar o cigarro.  o que o Camerino vive me dizendo.
  No momento exato em que chegam  porta do Sobrado, um automvel empoeirado pra junto da calada e Jango salta de dentro dele. Est em mangas de camisa, veste 
bombachas 
de riscado com botas de fole, e traz na cabea um chapu de abas largas, com barbicacho. Uma barba de dois dias escurece-lhe o rosto longo e moreno. A primeira coisa 
que pergunta, depois de abraar o irmo e o amigo, :
  - E o Velho como vai?
  Tem uma voz grave e meio pastosa, de tom autoritrio.
  - No soubeste? Teve ontem uma crise muito sria - informa-lhe Floriano. - Agora est melhor.
  Jango franze o cenho, entrecerra os olhos.
  - Andou comendo alguma coisa que no devia?
  - Andou - responde Floriano, sorrindo. Tio Bicho pe-se a rir, a papada treme-lhe como gelatina. Jango olha de um para outro, srio e intrigado.
  - Por que no mandaram me chamar? - pergunta, olhando para o irmo, que se limita a encolher os ombros.
  Jango entra em casa e galga as escadas, rumo do quarto do pai. Tio Bicho resolve fazer uma pausa e senta-se, antes de enfrentar os trinta degraus que levam  gua-furtada. 
O dr. Camerino vem descendo agora, terminada a sua visita da tardinha ao enfermo.
  - Vocs perderam um grande espetculo - diz ele aos amigos. - O encontro de don Pepe com o dr. Rodrigo...
  Tio Bicho passa o leno pela carantonha suada. O mdico, baixando a voz, conta:
  - Encontrei o pintor aqui embaixo, contemplando sua obraprima. Quando me viu, perguntou se podia visitar o amigo... Respondi que, se ele prometesse portar-se bem 
e no fazer drama, eu no me oporia  visita. Subimos juntos. Imaginem a cena. O dr.
  67
  Rodrigo na cama, exclamando "Pepe velho de guerra! Entra, homem. Ento abandonaste o teu amigo dos bons tempos?"... e o espanhol, trgico, parado  porta, com 
a 
mo no trinco, assim como quem no sabe se deve ou no entrar... De repente os beios de don Pepe comeam a tremer, seus olhos se enchem de lgrimas e ele se precipita 
para a cama, ajoelha-se, abraa o amigo, planta-se a beijar-lhe a testa e acaba desatando numa choradeira danada, com soluos e tudo. Eu nessa altura j estava arrependido 
de ter consentido na visita, porque o dr. Rodrigo no deve se emocionar... Tio Bicho volta-se para Floriano:
  - A tens uma cena de romance. Camerino acende um cigarro e continua:
  - Por fim o castelhano se acalmou e os dois ficaram recordando coisas... Te lembras disto? Te lembras daquilo? E o nosso jornal poltico? E aquela serenata em 
tal 
e tal noite? Que fim levou Fulano? E Fulana? E que  que ests fazendo agora, Pepito? Foi a conta. O espanhol fechou a cara e respondeu: "Pinto cartazes para o cinema 
desse hijo de puta do Calgembrino, que me paga uma misria". E caiu em nova crise de pranto, "porque sou um miservel, tra a minha arte, no sou mais digno da obra 
que est l embaixo..." Para encurtar o caso: o dr. Rodrigo pegou uma pelega de quinhentos cruzeiros e quis met-la no bolso do Pepe. Pois olhem! O castelhano virou 
bicho. Ergueu-se com dignidade e disse: "Me insultas, Rodrigo!" No houve jeito de aceitar o dinheiro. Virou as costas e caminhou para a porta. O dr. Rodrigo gritou: 
"Vem c, homem, no sejas teimoso! Por mais dinheiro que eu te d jamais chegarei a pagar aquele retrato!" Ele no tinha terminado a frase e don Pepe j estava na 
escada...
  - Mas no aceitou mesmo o dinheiro? - pergunta Floriano. -  incrvel. O pobre homem vive na misria.
  Os olhos do Roque Bandeira fixam-se no amigo.
  - Toma nota, romancista. As pessoas no so assim to simples como a gente imagina... ou deseja.
  Camerino despede-se e sai. Floriano e Roque sobem para a gua-furtada.
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  Quando pequeno, Floriano costumava designar a gua-furtada pelo nome que seu pai e seu tio Torbio lhe davam quando tambm meninos: o Castelo. Mas, adolescente, 
num perodo em que andava a ler enlevado novelas romnticas que se passavam na Paris do sculo XIX, decidiu chamar a esta parte do Sobrado "A Mansarda". Esto aqui 
reunidos, como num congresso de aposentados, um velho div, uma prateleira com brochuras desbeiadas, um velho gramofone de campnula, com uma coleo de discos 
antigos, uma pequena mesa de vime e algumas cadeiras - coisas estas retiradas do servio ativo da casa, nos andares inferiores.
  Roque Bandeira est ofegante da subida e s agora, arrependido, Floriano compreende que no devia ter convidado o amigo para vir at aqui.
  - Esqueces que sou mais velho que o sculo - diz tio Bicho
  - e que subir uma escada a pique como esta no  brincadeira. Da minha casa eu podia ver o mesmo espetculo... de graa.
  Floriano sorri, desembrulhando o caderno que comprou h pouco, e atirando-o em cima da mesinha.
  - Pois este cubculo, Roque, foi sempre uma espcie de cu para mim... um refgio, como havia sido antes para meu pai e tio Torbio, quando rapazes.
  Tio Bicho senta-se no div e comea a abanar-se com a palheta
  - pois esta  a pea mais quente da casa - e a passar o leno pelo rosto lavado de suor.
  - No - diz - h uma grande diferena entre o menino Floriano e os meninos Torbio e Rodrigo. Uma diferena abismal, com o perdo da m palavra. Teu pai e teu 
tio 
sempre foram homens de ao. Para eles o verdadeiro cu era o mundo  real, palpvel, que eles gozavam com os cinco sentidos, voluptuosamente. Talvez viessem at 
aqui para lerem s escondidas novelas pornogrficas ou para fazerem bandalheiras com alguma criadinha. Mas tu, tu te fechavas aqui para sonhar. Este era o teu mundo 
do faz-deconta. Certo ou errado?
  - Certssimo. Este quartinho para mim j foi tudo... O Nautilus do capito Nemo... a mansarda dum pintor tsico em Paris... a barraca dum chefe pele-vermelha, 
a 
manso dos Baskervilles onde
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  muitas vezes esperei, apavorado, o aparecimento do mastim fantasma...
  - Aposto como ests esquecendo uma das funes mais importantes deste sto.
  Os olhos do Batrquio fitam o interlocutor com uma expresso pcara. Floriano hesita por alguns segundos, mas acaba capitulando:
  - Tens razo. Era tambm o meu harm, o meu bordel imaginrio. Aqui eu recebia a visita das mais belas estrelas de cinema da poca... Pearl White era a minha favorita.
  Roque solta o seu lento riso gutural.
  - Eu sou do tempo da Francesca Bertini. Foi o meu maior amor. Tua gerao no a conheceu, nem  Bela Hespria ou  Pina Menichelli. Creio que quando comeaste 
a 
ir a cinema, as fitas italianas j haviam desaparecido do mercado...
  - Mas eu me lembro do Maciste!
  - A tua gerao perdeu grandes filmes como Cabria e Quo vadis? Tu, miservel, pertences  era ianque do cinema.
  - Te lembras das fotografias de artistas de cinema de coxas  mostra que as revistas como o  Eu Sei  Tudo e a  Cena Muda publicavam? Marie Prvost... Rene Adore... 
Clara Bow... as banhistas de Mack Sennett... Amei todas elas nesse div.
  - Pois nessa poca eu j tinha mulheres de verdade... Ergue-se, segura com fora as lapelas do casaco do amigo, e,
  cara a cara, pergunta, com uma seriedade cmica:
  - Agora confessa: alguma mulher de carne e osso, sangue e nervos te deu um prazer fsico mais intenso que o que te proporcionaram essas figurinhas de revista? 
Fala 
com sinceridade.
  - Ora, Roque, ests insinuando um absurdo.
  - Pois eu te juro que o artigo autntico foi para mim uma decepo!
  Torna a sentar-se.
  - Bom, contigo deve ter sido diferente... - continua. - Tens bom fsico, encontraste fmeas de verdade que te amaram ou pelo menos se entregaram a ti por desejo... 
Mas olha para esta cara, para este corpo... Achas que alguma mulher de bom gosto pode ir
  70
  para a cama comigo por desejo? No precisas responder. Tens receio de ferir as pessoas. s uma verdadeira irm Paula. Mas no fiques a com essa cara. Esta feira 
me tem trazido tambm algumas vantagens. Por exemplo: impediu que alguma mulher quisesse casar comigo. Assim, pude conservar a minha liberdade.
  Floriano no ignora que Roque Bandeira costuma fazer comentrios humorsticos sobre o prprio fsico, e isso sem que se lhe note na voz o menor tom de ressentimento 
ou de auto
  comiserao
  - Mas e esse famoso pr-do-sol? - reclama tio Bicho. O outro aproxima-se da janela e olha para o poente.
  - Podes vir. O "astro rei", como diz o Pitombo, entrou em
  agonia
  
  Bandeira d alguns passos e posta-se atrs de Floriano, que diz: 
  - Parece que no vai ser dos melhores. Poucas nuvens.
  - No sou exigente, compadre.
  O disco esbraseado do sol desce por trs de nuvens rosadas, na forma de esguios zepelins de comprimento vrio, com contornos luminosos. A barra carmesim que comea 
no ponto em que cu e terra se encontram degrada-se em rosa, ouro e malva para se transformar num gelo esverdeado, que acaba por fundir-se na abbada de gua-marinha 
que  o resto do cu.
  - Olha s aquele verde... - murmura Floriano. - No encontrei esse tom em nenhum dos cus estrangeiros que vi nas minhas viagens. Me lembro dum pr-do-sol fantstico 
no Jardim dos Deuses, no Colorado: os penhascos rosados, o vermelho do horizonte, a relva amarela... tudo assim com um vago ar de incndio... Um azul inesquecvel 
 o do cu dos Andes. De vez em quando me voltam  lembrana os horizontes de Quito, ou aquele cu plido e luminoso que cobre a meseta central do Mxico. Queres 
um cu para a noite? O das Antilhas. Mas cu como este do Rio Grande, palavra, no vi outro. Repara bem naquela zona verde... Parece um desses lagos vulcnicos, 
frio, transparente, insondvel...
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  Em presena de que outra pessoa - pensa Floriano - poderia ele entregar-se despreocupado a estes devaneios em voz alta? Tio Bicho sempre teve sobre ele uma influncia 
catrtica...
  - Olha s a estrelinha no fundo do lago - murmura Bandeira.
  - Como um peixe...
  - Por que no?  quase um haicai. Te lembras do verso do Eugnio de Castro em que os peixes na piscina "tm relmpagos de jia"? Hoje em dia  de mau gosto citar 
Eugnio de Castro. Retiro a citao.
  A ltima luz do sol aprofunda-se o verde das coxilhas que cercam a cidade, e seus capes so agora manchas dum negro arroxeado.
  Com o olhar ainda no horizonte, Floriano pensa em Slvia. Jango chegou. Mais uma presena perturbadora no Sobrado... Esta noite marido e mulher dormiro na mesma 
cama. Jango tomar Slvia nos braos,  sua maneira brusca e patronal, sem sequer tratar de saber das disposies dela. Crescer sobre a criaturinha como um garanho 
sobre uma gua. Deve amar a esposa, sem dvida alguma, mas por outro lado parece consider-la como um objeto de uso pessoal. Talvez se deite sem barbear-se nem tomar 
banho. Levar para a cama o cheiro do prprio suor misturado com o do ltimo cavalo que montou...  possvel que seus toscos dedos que vo acariciar o corpo de Slvia 
recendam ainda  creolina com que curaram a ltima bicheira.  tambm provvel que esta noite ele possua a esposa com a esperana de deixar-lhe no tero o germe 
dum machinho. Por todas estas coisas Floriano sente uma fria e repentina malquerena pelo irmo, mas censura-se por se ter deixado arrastar nessa corrente de pensamentos 
mesquinhos. Ter ele coragem de confessar sentimentos como esse, se um dia vier a escrever algo de autobiogrfico? E agora, como lhe vem  mente uma das personagens 
de seu ltimo romance, pergunta:
  - Roque, te lembras da carta que me escreveste a respeito de meu ltimo livro?
  - Claro.
  - Disseste que era "um romance aguado".
  - Isso faz uns trs anos. No esqueceste, hein?
  - Confesso que a coisa me irritou, embora eu estivesse e ainda esteja certo da validade de tua crtica...
  - Espera l! Ests fazendo uma injustia a mim e a ti mesmo. Eu reconheci qualidades no livro. Escrevi que ele tinha uma grande fora potica, e se no me falha 
a memria, disse tambm que o leitor que comeasse a ler a tua histria, iria at o fim...
  Sempre com os olhos no horizonte, Floriano completa a frase da carta:
  - "...apesar de convencido da sua falta de autenticidade", no foi isso?
  Tio Bicho limita-se a soltar um grunhido. Floriano aponta para o caderno de capa azul, sobre a mesa, e conta o que se passou n'A Lanterna de Digenes,
  - Parece que estou ouvindo minha professora dizer com sua voz de homem: "Seu Floriano, agora que o senhor sabe escrever, pode comprar um caderno de pauta simples". 
Pois, Roque, vinte e cinco anos depois dessa frase histrica, em que pese ao ofcio que escolhi, ainda no aprendi a escrever.
  - Mas quem  que sabe mesmo escrever nesta poca apressada e neste pas imaturo?
  - Tu compreendes o que quero dizer.
  Bandeira continua tambm com os olhos postos no sol, que comea a desaparecer na linha do horizonte.
  - Queres que te fale com franqueza? O que me desagrada nos teus romances ... vamos dizer... a posio de turista que assumes. Entendes? O homem que ao visitar 
um 
pas se interessa apenas pelos pontos pitorescos, evitando tudo quanto possa significar dificuldade... No metes a mo no barro da vida.
  Floriano tem a quase dolorosa conscincia de que o amigo est com a razo. Ele prprio j chegou  concluso de que deve tornar-se "residente" no mundo ou pelo 
menos, 
na sua terra, entre sua gente: erguer uma casa em solo nativo. Mas replica:
  - No estars simplificando o problema por amor a uma metfora?
  73
  - Talvez. Mas espera. Entras na histria como um leo, prometes grandes coisas, o leitor mentalmente esfrega as mos numa antecipao feliz... Mas l pela metade 
do livro o leo vira cordeiro, a promessa no se cumpre, tudo se dilui numa vaga atmosfera potica, nesse esprito que em ingls (perdoa a erudio e a m pronncia) 
se chama wishful thinking...
  - Desgraadamente estou inclinado a concordar contigo.
  - No concordes demais, seno ser impossvel continuarmos a discutir. Ningum gosta de bater num homem deitado.
  Floriano escuta. Tudo isto lhe  desagradvel mas necessrio. Tio Bicho acende um cigarro, d uma tragada e expele a fumaa pelo nariz, como costumava fazer h 
vinte 
anos nos seres do Sobrado, para divertir os meninos.
  - Em suma - diz Floriano - meus romances so ainda masturbatrios.
  Deseja que o outro no concorde. Bandeira solta um suspiro:
  - At certo ponto so mesmo.
  Novas cores surgem no cu: pinceladas de roxo, cinza, pardo, vermelho-queimado... O lago verde agora adquire um tom de turquesa. As nuvens se dissiparam. Ao cabo 
de um curto silncio, pondo a mo pequena e gorda no ombro do amigo, tio Bicho torna a falar.
  - Presta bem ateno. Suponhamos que a vida  um touro que todos temos de enfrentar. Como procederia, por exemplo, o teu av Licurgo Cambar, homem prtico e despido 
de fantasia? Montaria a cavalo e, com auxlio de um peo, simplesmente trataria de laar o animal. Agora, qual  a atitude de seu neto Floriano Cambar? Tu saltas 
para a frente do touro com uma capa vermelha e comeas a provoc-lo. De vez em quando fincas no lombo do bicho umas farpas coloridas... Mas quando o touro investe, 
tu te atemorizas, foges, trepas na cerca e de l continuas a manejar a capa, para dar aos outros e a ti mesmo a impresso de ainda estar na luta... E uma atitude 
um tanto esquizofrnica, com grande contedo de fantasia. Certo? Bom. Toma agora o teu tio Torbio... Qual seria a atitude dele?
  - Pegaria o touro a unha.
  74
  - Exatamente. Levaria a loucura e a fantasia at suas ltimas conseqncias !
  - Aonde queres chegar com tua parbola?
  - O que quero dizer  o seguinte. Se num romancista predomina a atitude do velho Licurgo, isto , o senso comum, corremos o risco de ter histrias chatas como 
a 
de certos autores ingleses cujas personagens passam o tempo tomando ch, jogando cricket ou falando no tempo. Queres um exemplo? Galsworthy. Ora, tu sabes que eu 
seria o ltimo homem no mundo a negar a importncia e a beleza do teu bailado de toureiro para qualquer tipo de arte... H at uma certa literatura que no passa 
duma srie de jogos de capa e bandarilhas. Mas o que d a um romance a sua grandeza no  nem o seu contedo de verdade cotidiana nem o seu tempero de fantasia, 
mas o momento supremo em que o autor agarra o touro pelas aspas e derruba o bicho. Se queres um exemplo de romancista que primeiro faz vernicas audaciosas e depois 
agarra o animal a unha, eu te citarei Dostoivski. E se me vieres com a alegao de que o homem era um psicopata, eu te darei ento Tolsti. E se ainda achares que 
o velho tambm no era l muito bom da bola, te direi que um homem realmente so de esprito no tem necessidade de escrever romances. E se depois desta conversa 
me quiseres mandar quele lugar, ests no teu direito. Mas mantenho a minha opinio. O que te falta como romancista, e tambm como homem,  agarrar o touro a unha...
  Como se tivesse sentido de repente que havia levado longe demais a franqueza, tio Bicho toca o amigo no brao, faz com a cabeorra um sinal na direo do horizonte 
e, mudando de tom, diz:
  - Olha s o velho sol... No parece ensangentado e ferido de morte, prestes a tombar na arena?
  - Franqueza di, Roque, mas estou precisando mais que nunca dum tratamento de choque... Continua.
  - Acho que agora quem deve falar s tu. O simples fato de teres puxado o assunto indica que o problema te preocupa e que andas em busca duma soluo.
  - Isso! No fundo no foi por outra razo que aceitei a idia de acompanhar a famlia nesta viagem. Cheguei  concluso de que no podia continuar onde estava... 
ou onde estou. - Sorri. - Nem sei se devo dizer estava ou estou.
  - Isso  l contigo...
  - Deves ter compreendido que pouco ou nada tenho a ver com a minha gente e a minha terra. E essa situao, que antes me parecia to sem importncia, nestes ltimos 
l
cinco anos me tem preocupado. E...
  Mordendo o cigarro, a voz apertada, o Batrquio interrompe-o:
  - Puseste o dedo no ponto nevrlgico da questo. s um homem sem razes. Repara na pobreza da obra dos escritores exilados. No creio que um romancista como tu 
assim 
desligado da sua-querncia e de seu povo possa fazer obra de substncia. Tuas histrias se passam num vcuo. Tuas personagens psicologicamente no tm passaporte. 
 muito bonito dizer que tal ou tal tipo no tem ptria porque  universal. Mas nenhuma personagem da literatura se torna universal sem primeiro ter pertencido especificamente 
a alguma terra, a alguma cultura.
  Cala-se. 'Ambos olham para o poente, de onde o sol acaba de desaparecer.
  - Perdoa, Floriano, se s vezes fico um pouco solene ou dogmtico. No  do meu feitio. Mas o assunto leva a gente para esse lado. Acho que deves dar o teu primeiro 
passo na direo do "touro" reconciliando-te com o Rio Grande, com os Terras, os Quadros, os Cambars. Bem ou mal, foi aqui que nasceste, aqui esto as tuas vivncias...
  -  curioso, mas ests repetindo exatamente o que tenho dito a mim mesmo nestes ltimos anos, principalmente nos que passei no estrangeiro...
  Tio Bicho atira o toco de cigarro em cima do telhado.
  - Maeterlinck escreveu muita besteira, mas aquela histria do pssaro azul, digam o que disserem,  um belo smbolo apesar do que possa ter de elementar.  uma 
idiotice 
a gente sair pelo mundo em busca do pssaro azul quando ele est mesmo no nosso quintal.
  76
  Floriano volta-se para o amigo.
  - Mas o curioso, Roque,  que quando estamos em casa vemos nosso pssaro azul apenas como uma pobre galinha magra e arrepiada.
  O Batrquio sorri.
  - A  que est a coisa - diz, metendo a mo por dentro das calas e pondo-se a coar distraidamente o ventre. -  tambm possvel escrever grandes pginas sobre 
galinhas magras, arrepiadas e cinzentas. O importante  que os bichos sejam autnticos.
  Desata o seu lento riso gutural. Depois ajunta:
  - Talvez o princpio da tua salvao (se me permites usar esta palavra) esteja nas galinhas do Sobrado ou do Angico.
  Agora  noite nos campos, na cidade e na mansarda.
  - E se descssemos? - pergunta Bandeira.
  Floriano no responde nem se move. Quer continuar a conversa aqui na penumbra. Teme que no se apresente outra oportunidade para discutir o problema.
  - Preciso tambm fazer as pazes com meu pai. Tu compreendes o que quero dizer... Chegar a um ajuste de contas, nos termos mais francos e leais... E principalmente 
cordiais.
  - Acho que tens razo.
  - Sempre julguei o Velho pela tbua de valores morais dos Quadros, o que  um absurdo, pois intelectualmente no aceito essa tbua. Mas tu sabes, na casa dos vinte 
a gente ainda acredita um pouco no mundo de homens perfeitos que nos prometia na escola a Seleta em prosa e verso.
  Aps uma pausa, Floriano prossegue:
  - Agora me ocorre uma coisa curiosa.  Sempre que estou escrevendo uma cena de romance, imagino a contragosto que minha me est a meu lado, lendo o que escrevo 
por 
cima do meu ombro... lendo e reprovando, escandalizada.
  - E te repreendendo! Essa censura interna, compadre,  pior que a do falecido DIP, talvez pior que a da Gestapo. Uma censura que vem de fora pode ser iludida, 
h 
meios... Mas a outra...
  - E  em parte por causa dessa censura que sempre escrevo cheio de temores, de inibies... Porque fica feio... ou porque   no
  77
  se deve"... porque vou ferir tal pessoa... ou tal instituio. Como resultado de tudo isto, fiquei na superfcie das criaturas e dos fatos, sem jamais tocar no 
nervo 
da vida. Sempre me movimentei num mundo de meias verdades. Espero que no imagines que eu tinha conscincia clara dessas coisas, que eu sabia que estavam acontecendo. 
Estou fazendo uma crtica post mortem. Uma necropsia. O termo  exato, porque considero defuntos todos os livros que escrevi at agora.
  - O essencial, rapaz,  que tu ests vivo. Mas se agentas mais uma impertinncia deste teu velho amigo, te direi, j que trouxeste tua me para a conversa, que 
em teus romances noto, digamos, uma "atmosfera placentria".
  - E extraordinrio que digas isso, pois desde que cheguei tenho estado a me convencer a mim mesmo que se voltei a Santa F foi para "acabar de nascer". Se me perguntares 
como  que se consegue tal coisa, te direi que estou aprendendo aos poucos...
  - Acabars fazendo isso por instinto, espontaneamente, como um pinto que quebra com o bico a casca do ovo que o contm. O essencial  sentir necessidade de nascer. 
- Bandeira faz uma pausa, inclina a cabea para um lado, e depois diz: - Mas existem milhes de criaturas que morrem na casca... ou que continuam a viver na casca, 
o que me parece pior...
  Passos na escada. A porta se abre e um vulto aparece.  Jacira. Vem anunciar que o jantar est servido.
  - Jantas conosco, Roque?
  - No, obrigado. Preciso voltar para a toca.
  - Para dar comida aos peixinhos?
  - Seja!  uma razo to boa como qualquer outra. Descem lentamente a escada mal-alumiada por uma lmpada
  eltrica nua. Roque Bandeira, agarrado ao corrimo, sopra forte e geme, a palheta debaixo do brao, o suor a escorrer-lhe pelo rosto.
  - Diz a teu pai que, quando o Dante me der a luz verde, eu vou prosear com ele.
  Floriano pensa, apreensivo, no que o espera  mesa do jantar. Ter de enfrentar a famlia inteira. Vo ser momentos de 
  78
  constrangimento, de conversa difcil. Talvez salve a situao o "traquejo social", a loquacidade de Marcos Sandoval, que estar no lugar de costume, penteado, 
perfumado 
e metido numa roupa branca imaculada.
  Que show estar agora no Cassino da Urca? E a Fulana? Ter j subido para Petrpolis? E o Sicrano? Ter voltado para Nova York? Bibi, que detesta Santa F, no 
far 
o menor esforo para esconder a sua revolta ante o fato de ter sido obrigada a acompanhar a famlia nesta viagem precipitada e estpida. Jango, homem de poucas palavras, 
no abrir a boca seno para comer; no ocultar sua antipatia pelo pelintra que est sentado  sua frente, e no lhe dirigir sequer o mais rpido olhar. O lugar 
de Eduardo, como de costume, estar vazio. Slvia evitar os olhos dele, Floriano, que por sua vez tudo far para no se perder na contemplao da cunhada. Flora 
estar sentada a uma das extremidades da mesa, e seu rosto ter uma expresso de resignada e meio constrangida melancolia. Maria Valria,  outra cabeceira, dar 
ordens s criadas, os olhos parados e vazios de expresso; e, apesar da catarata, enxergar certas coisas melhor que os outros.
  E durante todo o jantar talvez ningum se atreva a pronunciar o nome de Rodrigo.
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  Caderno de pauta simples
  Quem guiou meus passos para dentro da Lanterna de Digenes foi o Menino que ainda habita em mim.
  A Fora por trs do homem.
  A Eminncia Azul.
  Foi ele quem pela minha boca pediu este caderno. Comeo a compreender a insinuao do sutil ditador.
  l
  O universo do Menino era uma pirmide de absolutos:
  DEUS
  no Cu
  O dr. Borges
  no governo do Estado
  No Sobrado Papai, Mame, Vov e a Dinda
  Dona Revocata na Escola. - Laurinda na cozinha
  Eddie Polo na nossa defesa contra os ndios e os mexicanos
  E o brioso Exrcito Nacional em caso de guerra com a Argentina
  A sociologia do menino era cristalina:
  Os ricos moravam nas ruas e praas principais
  Os remediados nas ruas transversais
  Os pobres no Barro Preto, na Sibria e no Purgatrio
  Os negros conheciam seu lugar.
  As coisas tinham sido, eram e sempre seriam assim
  Porque essa era a vontade de Deus.
  Amm!
  81
   manhs da infncia!
  Caf com leite
  po
  mel
  mistrio.
  A escola recendia a giz, verniz e alunos sem banho. Guris viciados escondiam baganas nos bolsos. No inverno as menininhas ficavam de pernas roxas. E a presena 
da 
Professora, no seu trono em cima do estrado, aumentava o frio das manhs.
  As vezes a Mestra lia em voz alta seus versos favoritos:
  Contnuos exerccios e o descanso
  Sobre grosseira cama, A refeio frugal, concisa a frase,
  Assim se comportavam Os meninos de Esparta: pois Licurgo,
  o legislador prudente, Viu que a fama do pas estava
  na militar grandeza: E, querendo guerreiros, fez soldados
  os filhos da Repblica.
  Pedro Alvares Cabral tinha descoberto o Brasil por puro acaso. Mas agora estava tudo bem, e os livros ensinavam o orgulho de ser brasileiro.
  Nosso era o caudaloso Amazonas o fenmeno das pororocas a ilha de Maraj a cachoeira de Paulo Afonso a baa de Guanabara o couraado Minas Gerais a inteligncia 
de Rui Barbosa e as riquezas naturais.
  82
  Bartolomeu de Gusmo inventou o balo
  (Rimava e era verdade)
  Santos Dumont o aeroplano.
  E a Europa mais uma vez
  se curvou ante o Brasil.
  E como se tudo isso no bastasse
  nossos bosques tinham mais vida
  e nossa vida em teu seio mais amores
   Ptria amada, idolatrada, salvei salve!
  Nosso era tambm o mais belo Hino do mundo. E o auriverde pendo. Que outra Histria haveria mais sublime que a do Brasil?
  Estado de S morto por uma flecha envenenada
  defendendo o Rio de Janeiro
  o Zumbi dos Palmares preferindo a morte  escravido
  Tiradentes na forca, impvido e de camisolo
  E mais o grito do Ipiranga
  a Guerra do Paraguai etectera e tal.
  As folhas speras do livro davam arrepios no Menino. Mas ele gostava de encher com lpis de cor os retratos lineares de condes, viscondes, duques, bares, ministros, 
generais, reis e vice-reis. Pintou de vermelho a cara de Filipe Camaro. Ps uns bigodes de mandarim no Patriarca da nossa Independncia.
  Os heris eram homens diferentes do comum dos mortais: no comiam nem bebiam no riam nem dormiam no tinham sexo nem tripas. Sustentavam-se de glrias medalhas 
e clarinadas tinham nascido pra bustos esttuas eqestres em bronze patronos de centros cvicos citaes em discursos e assuntos de cantoria.
  83
  Por mais esforo que fizesse (e esforo mesmo no fazia) o Menino no conseguia acreditar na improvvel realidade daquelas figuras de papel, tinta e palavras.
  Para ele mais vida tinham o Negrinha do Pastoreio o baro de Mnchhausen o Heri de Quinze Anos Dom Quixote de la Mancha Os Trs Mosqueteiros e Malasarte, o empulhador.
  
  O Menino debatia-se em dvida entre as muitas cincias de seu mundo.
  O Vigrio afirmava a existncia de Deus num universo arrumadinho, com Cu, Purgatrio e Inferno, prmios e castigos, e uma contabilidade celestial: cada alma com 
sua conta corrente - Deve  Haver, boas e ms aes - tudo sempre em dia,  espera do Balano Final.
  Dona Revocata jurava (em nome de quem?) que Deus no existia. E desafiava o raio nos dias de tempestade.
  O coronel Borralho - corneteiro dos Voluntrios da Ptria - certa vez lhe falou no Supremo Arquiteto do Universo.
  Consultado sobre o assunto, tio Bicho disse sorrindo:
  Deus pode existir. Deus pode no existir. Quem vai decidir a questo  voc mesmo, quando crescer.
  
  Mas para o Menino toda a sabedoria da vida concentrava-se em duas mulheres: a Dinda e a Laurinda. Tinham a ltima palavra em
  84
  matria de Teologia, Cosmogonia, Meteorologia, Astronomia e outros ias    e enigmas.
  Dona Revocata fazia doutos discursos para descrever o cu, com o Sol, a Lua e as estrelas. A Dinda resumia o mapa celestial numa quadrinha.
  Campo grande Gado mido Moa formosa Homem carrancudo.
  Remdio para azia? Papai receitava bicarbonato- Mas Laurinda mandava o paciente repetir trs vezes:
  Santa Sofia tinha trs fia uma cosia outra bordava
  e a outra curava
  mal de azia.
  Porque a Dinda e a Laurinda eram mais sbias que o califa de Bagdad, da Seleta em prosa e verso. Mais astuciosa que o dervixe que inventou o xadrez. Suas mximas 
continham mais verdades que as do marqus de Maric.
  Dizia a Laurinda:
  No presta matar gato: atrasa a vida Nem sapo: traz chuva Quem cospe no fogo fica tsico Borboleta preta dentro de casa: morte na
Certa.    E a Dinda:
  Boa casa, boa brasa
  85
Quem tem rabo no se senta
  Menino que brinca com fogo mija na cama
  Criana que ri dormindo est conversando com os anjos.
  Sentada ao p do fogo, pitando um crioulo e comendo pinho, Laurinda propunha adivinhaes s crianas da casa.
  Pergunta: Que  que antes de ser j era? Resposta: Deus.
  So duas moas faceiras que nunca saem das janelas reparam em todo o mundo e o mundo no fala delas.
  Resposta: As meninas dos olhos.
  Diga, diga se  capaz: o Lus tem na frente mas a Raquel tem atrs as solteiras tm no meio e as vivas no tm mais.
  Laurinda ria e dizia:
  No  o que tu est pensando, bandalho.  a letra L.
  
  Mas entre todos os ditados da Dinda, um havia que deixava o Menino pensativo.
  Cada qual enterra seu pai como pode.
   noites da infncia!
  quarto escuro
  fantasmas
  sonhos
  mistrio.
  86
  O deputado
  Em fins de outubro de 1922, ao voltar com Flora do Rio de Janeiro, aonde tinham ido ver a Exposio Nacional do Centenrio, Rodrigo Cambar encontrou o pai num 
estado 
de esprito que oscilava entre a irascibilidade e a depresso. O velho Licurgo estava apaixonadamente ferido, como um homem que tivesse sido enganado pela mulher 
amada, com a qual vivera boa parte de sua vida, e na qual depositava a mais serena das confianas. Havia pouco o dr. Borges de Medeiros pronunciara-se definitivamente 
sobre a antiga questo que dividia em dois grupos os republicanos de Santa F, dando seu apoio irrestrito ao coronel Ciraco Madruga, intendente municipal e inimigo 
pessoal de Licurgo Cambar.
  J na estao Rodrigo notara que algo havia de anormal. O pai abraara-o com ar meio distrado, o cigarro apagado entre os dentes. Pigarreava com uma freqncia 
nervosa e a plpebra de um dos olhos de quando em quando tremia. Ao chegarem ao Sobrado, mal deu a Rodrigo tempo de abraar a tia e beijar os filhos: levou-o para 
o escritrio, fechou a porta e, com voz apertada, contou-lhe toda a histria.
  -  o preo que estou pagando - concluiu - por ser um homem independente. O dr. Borges ainda no aprendeu a diferenar um amigo de verdade dum capacho.
  - Eu no lhe disse? O presidente no  mais o mesmo homem. Ningum pode ficar anos e anos fechado num palcio, como um fara no seu tmulo, sem perder contato 
com 
a sua terra e o
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  seu povo. O homem vive cercado de aduladores que lhe escondem a realidade...
  Licurgo olhava fixamente para a escarradeira esmaltada, ao p da escrivaninha.
  - J que as coisas tomaram esse rumo, papai, vou lhe falar com toda a franqueza. Nunca morri de amores pelo dr. Borges... No nego que seja um homem direito, de 
mos limpas. Mas  autoritrio, egocntrico e opinitico. Imagine o senhor, no dia em que a Assemblia iniciou seus trabalhos, ns, os da bancada republicana, fomos 
incorporados visitar o homem no palcio. Recebeunos como um rei num trono, imperturbvel, a cabea erguida, o olhar frio. Deu-nos a pontinha dos dedos, disse o que 
esperava de ns e dez minutos depois ficou assim com o ar de quem queria dizer: "Bom, que  que esto esperando? A audincia est terminada". Ora, vamos e venhamos, 
isso no  maneira de receber correligionrios. Um deputado no  um criado nem um moo de recados.
  Licurgo cuspiu o cigarro na escarradeira, tirou do bolso e mostrou ao filho a cpia do telegrama que passara ao dr. Borges de Medeiros, comunicando-lhe que no 
s 
se considerava afastado do Partido como tambm iria votar no dr. Assis Brasil e trabalhar pela sua candidatura no municpio de Santa F.
  - Parece mentira - murmurou - mas vamos ter de votar
  outra vez com os maragatos.
  - No h de ser nada. Digam o que disserem, nosso candidato  um republicano histrico.
  - Sim, mas desse jeito o Partido vai se esfacelar, e quem lucra so os federalistas.
  Tirou duma gaveta da escrivaninha um cigarro de palha j feito e acendeu-o. Aos sessenta e sete anos era um homem ainda desempenado, de constituio robusta. Tinha 
a cabeleira abundante com raros fios brancos, mas o bigode grisalho e os fundos sulcos no rosto tostado revelavam-lhe a idade. Nos olhos inditicos havia uma permanente 
expresso de preguiosa melancolia, algo de morno e fosco. A voz, pobre de inflexes - pois Licurgo detestava
  88
  tudo quanto pudesse sugerir, ainda que de leve, artificialidade teatral -, tinha um tom que lembrava batidas de martelo em madeira.
  -  uma pena que o senhor tenha demorado tanto no Rio de Janeiro - disse ele, olhando obliquamente para o filho. - Estamos nas portas das eleies, temos pouco 
mais 
dum ms e ainda no fizemos quase nada. O Madruga j se movimentou, anda ameaando Deus e todo o mundo com seus capangas. .. . o senhor demorou demais.
  - Eu sei, eu sei - replicou Rodrigo, contendo a impacincia.
  - Mas um ms basta pra gente agitar o municpio. A causa  boa.
  - Se o senhor tivesse voltado umas duas semanas mais cedo
  - insistiu Licurgo - teria podido falar com o dr. Assis Brasil. Ele veio me visitar aqui no Sobrado.
  - Sinto muito, mas no h de faltar ocasio para conhecer o homem pessoalmente.
  Segurou afetuosamente o brao do pai e disse-lhe que as crianas estavam aflitas por verem os presentes que ele lhes trouxera do Rio. "Se o senhor me d licena..."
  Licurgo sacudiu a cabea numa lenta afirmativa e Rodrigo retirou-se. Antes, porm, de fechar a porta notou que faltava alguma coisa no escritrio. Era o retrato 
do dr. Borges de Medeiros que por muitos anos ali estivera ao lado da imagem do Patriarca. No seu lugar via-se apenas um quadriltero duma cor mais clara que a do 
resto da parede.
  Os filhos o esperavam na sala de jantar. Maria Valria tinha nos braos Bibi, a mais moa de todos. O rostinho redondo, o nariz curto e meio arrebitado, dois dentinhos 
midos e salientes, os olhinhos enviesados e ariscos - tudo isso dava  criana um ar de cozinho pequins. Junto da velha, agarrando-lhe as saias, Eduardo lanava 
para o pai olhares furtivos, as faces e as orelhas afogueadas; e, para disfarar o embarao, batia com o calcanhar no soalho, como um potrilho a escarvar o cho. 
Tinha quatro anos, era rijo
  89
  e fornido de carnes, e desde que seu tio Torbio o convencera de que ele era um touro, punha em constante perigo as compoteiras, vasos, vidros e louas da casa, 
com suas corridas impetuosas: as mos nas fontes, os indicadores enristados  guisa de aspas. Sempre que via Torbio, fosse onde fosse, investia contra ele, mugindo 
e soprando, e dava-lhe tremendas cabeadas. Torbio nunca se negava a seguir as regras do jogo: caa de costas, ficava estendido no soalho, de braos abertos, enquanto 
o tourinho tripudiava sobre seu corpo fazendo de conta que o furava a guampaos.
  Ao lado de Eduardo, Jango, magro e esgalgado, estava a cavoucar o nariz com o indicador, numa fria distrada. Sempre que lhe perguntavam que queria ser quando 
ficasse 
grande, respondia: "Tropeiro, como o v Babalo".
  Referindo-se ao aspecto fsico dos filhos, Rodrigo costumava dizer que se Jango, o de rosto oblongo, lembrava uma figura de El Greco, e Bibi, Eduardo e Floriano 
pareciam infantes sados duma tela de Velzquez - Alicinha s podia ter sido pintada por Fra Anglico.
  A menina que ali estava, calada e sria ao lado da me, era mesmo duma beleza de anjo florentino. Seu rosto oval, de feies delicadas - os olhos um pouco tristes, 
como os dos Terras -, chegava a ter s vezes, sob certas luzes, uma translucidez de porcelana. Aos dez anos parecia uma moa em miniatura tanto no fsico como nos 
gestos e na maneira de falar. " uma princesa!" dizia o pai. Flora, se no o acompanhava nesses exageros, tambm no o contrariava. Maria Valria, entretanto, no 
perdia a oportunidade de critic-los: "Vocs do tanto mimo pra essa menina, que ela vai acabar pensando mesmo que  filha do imperador".
  Floriano, o mais velho dos irmos, no se encontrava, como os outros, ao lado do pai. Deixara-se ficar a um canto da sala, como se no fizesse parte da famlia. 
Era um menino calado, tmido, arredio. Quando no estava na escola, passava a maior parte das horas fechado na gua-furtada, com seus livros e revistas. De todos 
os Cambars era o nico que no gostava do Angico. Enquanto Jango procurava gozar a estncia como podia - banhos na sanga,
  90
  leite morno, bebido na mangueira ao p da vaca, excurses aos capes para apanhar sete-capotes, passeios a cavalo pelas invernadas
  Floriano ficava em casa e (dizia Flora) era de cortar o corao
  v-lo sentado na soleira da porta a olhar tristonho o pr-do-sol. Certas noites, principalmente quando ventava, acordava alarmado e saa a caminhar pelo corredor 
como um sonmbulo, "com uma coisa no peito" - murmurava, depois de muito insistirem para que contasse o que sentia. "Vai ser poeta" - dizia Rodrigo, com uma mistura 
de orgulho e piedade. Mas Torbio, sacudindo a cabea, aconselhava: "Se esse molenga fosse meu filho eu botava ele no lombo dum cavalo, soltava ele no campo. Vocs 
esto mas  criando um sombra. Afinal, o Floriano j est com onze anos, no  nenhum nen..."
  Rodrigo contemplava a prole com um orgulho de patriarca. Houve um momento em que seus olhos se voltaram para Flora e mais uma vez ele teve a voluptuosa certeza 
de 
que a companheira havia atingido a sua plenitude. Aqueles trinta e dois anos sentavam-lhe muito bem. Perdera o ar de menina para se fazer mulher por completo. At 
havia pouco, era uma fruta quase madura, mas com partes ainda verdes e cidas, dessas que nos fazem apertar os olhos quando as trincamos. Sim, Flora era uma nspera 
que chegara  mais completa maturao. A hora de sabore-la  agora - pensou ele, sorrindo. Com-la com casca e tudo. Deu alguns passos na direo da esposa, abraou-a 
e beijou-a na boca.
  - Rodrigo! - repreendeu ela. E, num murmrio: - Olha as crianas...
  - A esta altura dos acontecimentos acho que eles j descobriram que somos casados - replicou ele em voz alta.
  Floriano recebeu estas palavras como uma bofetada. Desviou o olhar das figuras do pai e da me e, perturbado, ficou a acompanhar os movimentos do pndulo do relgio 
grande. Jango sorriu. Alicinha, de olhos baixos, brincava com a fmbria da saia. Edu ps-se a bufar, a escarvar o cho e de sbito rompeu numa corrida e cravou as 
"aspas" nas pernas do pai, que o ergueu nos braos, rindo e exclamando: "Meu tourito! Meu tourito brabo!"
  91
  - Que venham esses presentes duma vez! - exigiu Maria Valria. - As crianas esto aqui para isso e no para verem essa fita de cinema.
  - Traga os presentes, Laurinda - ordenou Rodrigo, pondo Eduardo no cho.
  A mulata entrou com uma braada de pacotes, que depositou sobre a mesa. Flora abriu a menor das caixas.
  - O presentinho da Bibi!
  Entregou  filha um palhao de macaco bicolor, com um prato de folha em cada mo. Quando lhe apertavam a barriga, o boneco soltava um guincho, seus braos se 
uniam 
e os pratos se chocavam e tiniam.
  Depois de alguma relutncia, Bibi agarrou o presente. Rodrigo desembrulhou outro pacote.
  - Este  para o nosso capataz...
  Era um cinturo com um par de pistolas de estanho, com cabos de madeira. Jango arrebatou o presente das mos do pai, cingiu o cinturo e, de pistolas em punho, 
ps-se 
a andar ao redor da mesa, ao trote dum cavalo imaginrio, dando tiros de espoleta.
  Floriano pegou os presentes que a me lhe entregou. Dois livros: A ilha do tesouro e Cinco semanas em um balo em edies ilustradas.
  - Agora - disse Rodrigo - nosso tourito xucro vai ganhar... adivinhem qu?
  - Um faco! - gritou Edu.
  Era um tambor. O menino mostpu sua decepo fechando a carranca, baixando a cabea e olhando enviesado para o pai. Rodrigo rufava no tambor, cantarolando: "Marcha 
soldado, cabea de papel! Marcha soldado, direito pr quartel!"
  - Mas eu no sou soldado - protestou o menino.
  - Que  que o filhinho ? - perguntou Flora, ajoelhando-se ao p da criana e tomando-a nos braos.
  - Um petio zaino.
  Flora pendurou o tambor ao pescoo de Edu, pelo cordo auriverde, e entregou-lhe as baquetas.
  - Toque.
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  Ele fazia que no, sacudindo obstinadamente a cabea. Maria Valria olhava a cena com olhos crticos.
  - Deixe o menino em paz - aconselhou. - Se voc no l der ateno ele acaba gostando do presente.
  Rodrigo comeou a desfazer o maior dos embrulhos.
  - Agora, respeitvel pblico - disse - chegamos  parte mais importante de nosso programa: a entrega do presente da srta. Alice Quadros Cambar, a menina mais 
linda 
de Santa F!
  Alicinha esperava, as mos tranadas contra o peito, os olhos parados e ansiosos. E quando o pai tirou o presente da caixa, ouviu-se um ah! geral de surpresa e 
admirao. 
Era uma boneca que tinha exatamente a altura de Eduardo: cara redonda, com faces como mas maduras, olhos muito azuis parecidos com bolinhas de gude. Estava vestida 
de tarlatana cor-de-rosa, com um chapu verde na cabea de cabelos cor de ruibarbo.
  Alice parecia paralisada. Rodrigo teve a impresso de que a filha empalidecera. Lgrimas brotaram-lhe nos olhos, escorrendolhe pelas faces. Edu atirou o tambor 
e 
as baquetas no cho. Jango meteu as pistolas no coldre e ambos se aproximaram da boneca. Eduardo mirava-a com um ar entre desconfiado e hostil. Jango acocorou-se 
ao p dela, cheio de admirao, apertou-lhe primeiro os tornozelos, os braos, depois passou-lhe um dedo cauteloso e terno pelas faces e cabelos.
  - Parece gente - murmurou.
  - E fala - acrescentou Rodrigo, sem tirar os olhos da filha. - Diz mame. Vejam.
  Fez uma presso nas costas da boneca, que soltou um vagido. Eduardo fechou os olhos, apertando as plpebras. Jango sorriu, mostrando todos os dentes. Floriano 
lutava 
com uma confuso de sentimentos: admirava a boneca, armava j fantasias em torno dela, mas achava que um rapaz da sua idade no podia mostrar interesse por um brinquedo 
de menina sem correr o risco de parecer um maricas. Por outro lado estava ferido de cime e despeito. Claro, gostara dos livros, mas por que o presente melhor e 
mais bonito era sempre para Alicinha? Por que papai preferia Alicinha aos outros filhos? Pensando e sentindo essas coisas, o rapaz mantinha-se 
  93
  distante do grupo, esforando-se por parecer indiferente. Por fim, aproveitando um momento em que quase todos estavam de costas voltadas para ele, esgueirou-se 
para 
fora da sala e subiu para a gua-furtada.
  - Vamos, Alicinha - disse Flora - o brinquedo  teu. Alicinha abraou a boneca e desatou num choro convulsivo,
  enquanto o pai, comovido, passava-lhe a mo pelos cabelos, cobri-a-lhe o rosto de beijos, murmurando palavras de carinho e consolo. Eduardo agora batia desesperadamente 
no tambor. Jango sara em novos galopes pela casa, alvejando inimigos invisveis. Bibi olhava muito intrigada para seu palhao de macaco azul e vermelho e cada 
vez que lhe apertava a barriga os pratos tiniam e ela fechava os olhos, assustada.
  - Que nome vais botar na boneca? - perguntou Rodrigo  filha.
  - Aurora - respondeu Alicinha sem hesitar.
  Marido e mulher se entreolharam, alarmados, como se ambos de repente tivessem sido bafejados pelo sobrenatural. Porque Aurora era o nome que ia receber a irm 
de 
Rodrigo que nascera morta no inverno de 1895, em plena guerra civil, quando o Sobrado estava sitiado pelos maragatos.
  Aquela manh Rodrigo e Torbio saram juntos de casa logo aps o caf. O sueste de primavera soprava rijo sob um cu limpo e rtilo, produzindo nas folhas das 
rvores 
da praa um movimento de onda e um som de mar.
  De longe os irmos saudaram com um aceno de mo o Jos Pitombo, que l estava na sua casa de pompas fnebres, atrs dum balco envidraado, contra um fundo agourento 
de negros atades com enfeites cor de ouro e prata.
  - No deixa de ser "animador" - sorriu Rodrigo - ter assim to perto de casa esse tipo de comrcio...
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  - E a cara do Pitombo - ajuntou Torbio - mais fnebre
  que o resto.
  - Se houvesse um jeito eu tirava o defunteiro da. No preciso ter todos os dias nas ventas esse lembrete da morte.
  Ao passarem pela Padaria Estrela-d'Alva entraram para cumprimentar o Chico Po que, como de costume, se queixou duma "pontada nas costas que responde no peito". 
Ser alguma umidade que peguei, doutor? - No  nada, Chico, essas coisas assim como aparecem, desaparecem... Decerto so gases.
  Rodrigo ainda no conseguira descobrir se os cabelos do padeiro, cortados  escovinha, estavam brancos de idade ou de farinha de trigo. Seus olhos, permanentemente 
injetados de sangue, enchiam-se de lgrimas toda a vez que sua casa recebia a visita dos "guris do Sobrado". Explicava que Rodrigo e Torbio lhe davam saudade dos 
bons tempos em que, meninos, todas as noites s dez horas, fizesse bom ou mau tempo, pulavam a cerca que separava o casaro da padaria e vinham buscar po quente 
para comerem com rapadura.
  Estava o padeiro de tal maneira excitado pela visita, que no cessava de fazer perguntas. Como iam todos em casa? Rodrigo e Flora tinham andado no bondinho do 
Po 
de Acar? Era verdade que o Exrcito nacional no ia deixar o dr. Artur Bernardes tomar posse? Que cara tinha o presidente de Portugal?
  Rodrigo ia comear a contar o que vira e fizera no Rio de Janeiro quando Torbio, puxando-o pelo brao, arrastou-o para fora da padaria. Chico Po acompanhou-os 
at a porta, fazendo seus habituais protestos de amizade e gratido para com toda a famlia
  Cambar.
  - Agora, safardana - disse Bio, enquanto caminhavam na direo da farmcia de Rodrigo -, quero que me contes a parte secreta da tua viagem.
  O outro fez alto.
  - Que parte secreta?
  - Ora, no te faas de bobo. Quantas?
  - Quantas qu?
  95
  - Hipcrita. Tu sabes o que eu quero dizer. Quantas mulheres comeste no Rio?
  Rodrigo deu um piparote na palheta, que lhe caiu sobre a nuca. Coou a testa, sorriu e disse:
  - Olha, menino, foi um negcio muito srio. Tu sabes, com a Flora sempre a meu lado, no foi fcil...
  - Quantas?
  - Te preocupa a quantidade ou a qualidade?
  - As duas coisas.
  - Bagualo!
  Retomaram a marcha. Rodrigo contou que namorara uma morena no hotel em que se hospedara, e que um dia, pretextando uma visita ao Senado, deixara Flora com um casal 
amigo e fora a um encontro marcado com a morocha no Alvear.
  - A bruaquinha estava com fitas... - disse. - No princpio quis dar a entender que nunca tinha feito aquilo. Pois sim. Conheo bem a minha freguesia. Tu sabes, 
no 
Rio de Janeiro a coisa  um pouco diferente. A gente tem de mandar flores, presentinhos, marcar encontros, dizer galanteios, fazer um cerco em regra. Ah! Mas no 
tive dvida: agarrei a bichinha a unha.
  - Onde? Como? Conta logo.
  - O primeiro encontro no rendeu nada, ela disse que era casada e o marido estava em Minas Gerais. Mas o namoro continuou...
  - Ento ela era mesmo famlia?
  - Espera. Uma noite nos recolhemos cedo ao hotel, Flora se preparou para dormir mas eu no me despi. Fiquei por ali, embromando, e quando ela se deitou eu disse: 
"Meu bem, vou comprar uns cigarros e dar uma voltinha. Estou sem sono". Sa e fui direito ao quarto da morena, que ficava no andar logo abaixo do nosso. Bati. Quem 
? Sou eu. Eu quem? Disse o nome. Ela entreabriu a porta, espiou... Fui entrando sem pedir licena. A diabinha comeou a protestar, mas tapei-lhe a boca com um beijo 
e, sem dizer mais nada, fui empurrando a bicha pra cama...
  - E depois?
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  - Na cama ela tirou a mscara. Fez o diabo, revelou-se uma verdadeira profissional.
  - Valeu a pena?
  - Ah! Valeu.
  - Voltaste?
  - Umas quatro ou cinco vezes.
  - Pagaste muito? Rodrigo pareceu hesitar.
  - Dei-lhe um colar de presente... e paguei-lhe a conta do hotel.
  - Burro velho!
  - A histria do marido naturalmente era inventada. Ela estava "fazendo a praa" no Rio de Janeiro. Mas tinha classe, isso tinha...
  Entraram na farmcia. Gabriel, o prtico, veio ao encontro de Rodrigo e abraou-o timidamente. Era um moo simplrio, de origem italiana, e adorava o patro. Agora 
mesmo lanava-lhe olhares cheios de afetuosa admirao, examinando-o de alto a baixo.
  - Alguma novidade, Gabriel?
  - Nenhuma, doutor. Tudo bem.
  Tinha uma voz fluida como pomada, e olhos caninos que refletiam uma bondade ingnua.
  - E a Casa de Sade?
  - De vento em popa. Enquanto o senhor esteve fora, tivemos duas hrnias, uma cesariana e uma operao de rins. Tudo uma beleza!
  - O "aougue" est rendendo - murmurou Torbio, folheando distrado um nmero do Almanaque de Ayer que encontrara em cima do balco.
  - O dr. Carbone tem mo de ouro.  capaz de operar at no escuro.
  Rodrigo levou o irmo para o consultrio, fechou a porta, pendurou o chapu no cabide e sentou-se atrs da escrivaninha.
  - Amigo Bio, estou numa encruzilhada, no sei que rumo tomar...
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  Olhou em torno. Viu os instrumentos cirrgicos, duros, polidos e frios dentro do armrio de vidro; o div coberto de oleado negro; o revrbero sobre cuja chama 
costumava 
ferver no s agulhas e seringas como tambm gua para o cafezinho da tarde. O nico quadro que pendia daquelas paredes caiadas, alm duma oleogravura convencional, 
era o clssico desenho em que um mdico, vestido de branco como um cirurgio, ampara em seus braos uma mulher nua, que a Morte, representada por um esqueleto ajoelhado, 
lhe quer arrebatar.
  A nobre profisso! Quantas mulheres nuas tive eu em cima daquele div? E quantas a Morte me levou?
  - Para te falar a verdade - disse em voz alta - estou comeando a enjoar a clnica. At o cheiro deste consultrio me d nusea...
  - Quem sabe ests grvido?
  - Espera, homem, estou falando srio.
  Torbio tinha uma palha de milho entre os dentes, e com uma faca picava fumo, parecendo mais interessado no preparo do cigarro do que nos problemas do irmo.
  - Erraste a profisso - murmurou, sem descerrar os dentes.
  - Sem a menor dvida! O que me tem aliviado o tdio  essa deputao, os meses que todos os anos tenho de passar em Porto Alegre... Nossa capital  ainda uma aldeia 
grande, mas l j se vive. Precisavas conhecer o Clube dos Caadores.
  Olhou para Torbio que ali estava na sua frente, em mangas de camisa, bombachas de riscado, os ps nus metidos em chinelos, o chapu de abas largas ainda na cabea. 
Um homem sem problemas! Passava a maior parte do tempo no Angico, campereando, feliz. Tinha suas chinas nas invernadas, de quando em quando ia  colnia alem ou 
 italiana "pra variar de tipo", e quando a coisa se tornava um pouco montona na estncia, em assunto de mulher, vinha para a cidade, metia-se em penses e entregava-se 
a orgias homricas que s vezes duravam dias. Nessas ocasies, Rodrigo tinha de fazer o impossvel para evitar que as histrias das farras de Bio chegassem aos ouvidos 
do velho Licurgo.
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  - E que vais fazer agora? - perguntou Torbio, despejando no cncavo da palha as esqurolas de fumo que acabara de amaciar.
  Rodrigo ergueu-se, acendeu um cigarro e ps-se a andar dum lado para outro.
  - No sei. Essa viagem ao Rio de Janeiro me descentrou um pouco, me convenceu de que isto no  vida.
  - Te candidata ento a deputado federal. Rodrigo sacudiu a cabea com veemncia.
  - Acho que a minha carreira poltica est encerrada... O rompimento do papai com o dr. Borges me obriga a renunciar  deputao.
  - E se o dr. Assis Brasil for eleito?
  - No te iludas. A corrida nas urnas est perdida para ns. Torbio bateu a pedra do isqueiro, prendeu fogo no pavio,
  aproximou a chama da ponta do cigarro.
  - Mas podemos tirar o Borjoca do governo a grito e a pelego - disse, soltando fumaa de mistura com as palavras.
  - Falas em revoluo como duma brincadeira de crianas.
  - Afinal de contas... que  que queres?
  - Quero viajar, homem! Desde que cheguei formado nesta terra, l vo doze anos, ando sonhando com uma viagem a Paris. Mas sempre acontece alguma coisa e a viagem 
no sai. Tu sabes, o Velho foi sempre contra a idia. Para ele, como para a Dinda, ir ao estrangeiro  uma coisa vagamente indecente, alm de intil. Quando consegui 
convencer o papai de que uma viagem  Europa ia me fazer um grande bem, veio essa histria da deputao, a campanha, a eleio, a novidade do cargo, tu sabes, e 
eu fui ficando...
  Torbio saboreava com delcia o seu cigarro.
  - E que  que te ataca agora, rapaz? Vai a Paris e mata esse desejo.
  -  fcil dizer "vai a Paris". Se o Velho me repreendeu por eu ter demorado demais no Rio, como  que posso pensar numa viagem longa? E com a situao da pecuria, 
essa maldita crise que a est... e mais o que teremos de gastar para fazer oposio ao Chimango, quem  que pode pensar em viagens?
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  Torbio coava agora distrado o dedo do p.
  - E depois - ajuntou Rodrigo - est tudo numa confuso dos diabos. A situao do pas  crtica. Fala-se abertamente em revoluo. Ningum faz negcio esperando 
"os acontecimentos". E essa coisa vai longe. Primeiro vo esperar para ver se o Bernardes toma ou no toma posse. Depois querem ver os resultados das eleies estaduais 
e a posse do candidato eleito. E nessa dana vamos passar todo o ano que vem.
  - Pois acho que j est na hora de rebentar uma boa revoluo - murmurou Torbio - pra sacudir este pas de merda. No se deve passar tanto tempo sem pelear. No 
brigamos desde 93.
  Ergueu-se.
  - J pensaste que ns, tu, eu, os da nossa gerao, ainda estamos virgens de guerra? - perguntou. - No tivemos ainda o batismo de fogo. Se a situao continua, 
vamos acabar uns calasfrouxas sem serventia. Palavra de honra, acho que est na hora da gente ir para a coxilha.
  - Pode ser que tenhas razo. Mas eu preferia que a ordem no fosse perturbada.
  - Mas se for?
  - Se for, no h outro remdio seno brigar.
  - Pois ento vai azeitando a pistola e limpando a espada. Porque a revoluo vem agora, antes da posse do Bernardes, ou depois das nossas eleies. No h por 
onde 
escapar.
  Fez-se uma pausa em que ambos ficaram fumando e ouvindo os rudos da farmcia e da rua: vozes, tinidos de vidros, o som de gua jorrando duma torneira, um prego 
- "Olha a lenha boa!" - o ploc-ploc das ferraduras dum cavalo nas pedras do calamento da rua.
  - Falaste com o dr. Assis Brasil? - perguntou Rodrigo.
  - Falei.
  - Qual foi a tua impresso? Torbio fez uma careta de dvida:
  100
  - Pois olha... O homem  simptico, limpinho, bem-educado, instrudo e parece que bem-intencionado. Mas, pra te falar com franqueza, tem umas coisas que no me 
agradam...
  - Por exemplo...
  - Uns fumos de aristocrata. E me parece um pouco vaidoso, desses que no perdem ocasio de mostrar o que sabem. Ficou no Sobrado menos de uma hora e teve tempo 
de 
falar em poltica, de criticar o nosso sistema de criao e plantao no Angico e de nos dar lies de agricultura e pecuria... Enfim, fez um sermo que ningum 
encomendou. Viu o Floriano apontando um lpis, tirou o canivete e o lpis das mos do menino e disse, como um mestre-escola: "No  assim que se aponta um lpis. 
Preste ateno no que vou fazer". Contou depois que tinha inventado uma porteira especial, muito prtica, que todo o estancieiro devia usar. No me lembro por qu, 
falei em cachorro e o homem me corrigiu, dizendo que eu devia dizer co, pois cachorro  qualquer cria de leo ou ona, quando pequena. Imagina, eu dizendo co!
  Rodrigo sorriu.
  - Ests exagerando. O homem  progressista, inteligente e culto. No negars que nossa agricultura muito deve aos seus ensinamentos. E depois, Bio, compara esse 
estadista que correu praticamente o mundo inteiro, esse homem fino e civilizado, com aquela mmia que est no Palcio do Governo em Porto Alegre, empapado de positivismo.
  - Mas j viste um gacho legtimo morar em castelo de pedra, como esses de romance, e falar ingls com a famlia na hora da comida?
  Rodrigo encarou o irmo em silncio e, ao cabo de alguns segundos, exclamou:
  - Ora, vai te lixar!
  Naquele sbado Rodrigo voltou do consultrio s cinco da tarde e comunicou a Flora que havia convidado um grupo de 
  101
  amigos a vir  noite ao Sobrado para comer, beber e prosear. Flora levou as mos  cabea. Maria Valria, que entreouvira as palavras do sobrinho, perguntou:
  - Comer o qu?
  - Ora, titia, uns croquetes, uns pastis.
  - Mas que croquetes? Que pastis? Voc sempre nos avisa  ltima hora.
  - No temos bebidas em casa - alegou Flora.
  - So cinco horas. Mandem buscar no armazm o que falta. Subiu assobiando para o quarto e de l para o banho da tarde.
  As mulheres puseram-se imediatamente em atividade, resmungando contra a mania de Rodrigo (aquela no era a primeira vez nem seria a ltima) de fazer convites para 
reunies no Sobrado sem antes consult-las.
  E quando ele j estava no quarto de banho, cantarolando rias de pera dentro do banheiro cheio de gua tpida, esfregando os braos e os ombros com vaidosa volpia, 
a tia bateu  porta e gritou:
  - Quer ao menos me dizer quantas pessoas convidou?
  - Uns seis ou sete amigos, nada mais.
  - Pois ento vou preparar comida pra vinte.
  Sabia que esses seis ou sete  ltima hora "davam cria", multiplicando-se por trs.
  O velho Licurgo no gostou da idia:
  - No estamos em tempo de festa - resmungou. - A situao do pas est cada vez mais preta.
  Fresco do banho, recendendo a gua-de-colnia, Rodrigo reagiu:
  - No vejo motivo para a gente assumir uma atitude fnebre... E, depois, convidei o Juquinha Macedo e o coronel Cacique. Podemos aproveitar a ocasio para discutir 
o plano da nossa campanha eleitoral.
  Licurgo cuspiu na escarradeira. Rodrigo jamais se habituara  presena daquelas "coisas" de loua, espalhadas pela casa. Achava brbaro e repugnante aquele ostensivo 
clarear de peito e aquele
  102
  contnuo cuspir que para muitos gachos era uma prova de hornbridade.
  - Discutir a campanha? - repetiu Licurgo. - Isso no  coisa que se faa em festa.
  - Mas no se trata de festa.  uma pequena reunio de amigos, quase todos gente de casa.
  Durante a hora de jantar Licurgo manteve-se calado a maior parte do tempo, prestando uma ateno precria ao que Flora e Rodrigo contavam da viagem ao Rio. Terminada 
a refeio, o Velho subiu para o quarto, onde permaneceu por alguns minutos. Depois desceu e, como era seu costume havia muitos anos, resmoneou: "Vou dar uma volta". 
E saiu.
  De uma das janelas do casaro, Rodrigo e Torbio acompanharam o pai com o olhar e viram-no dobrar a esquina da rua dos Farrapos e entrar na dos Voluntrios da 
Ptria. 
Entreolharam-se e sorriram. Aquilo acontecia todas as noites, desde que eles eram meninos. Licurgo Cambar ia visitar a amante, continuando fielmente uma ligao 
que comeara antes de seu casamento com Alice Terra. A mulher chamava-se Ismlia Car e nos tempos de moa fora uma cabocla bonita, morena, de grandes olhos esverdeados. 
Mesmo agora, j na casa dos cinqenta, conservava um corpo esbelto, uma face quase sem rugas e aquela tez cor de canela com acar. Licurgo tivera com ela um nico 
filho, que hoje estava casado e j tambm pai de famlia.
  - Rabicho como esse - murmurou Rodrigo - no conheo outro.
  - Pobre do Velho... - cochichou Torbio. - Na idade dele o mais que pode fazer  prosear com a amsia...
  - Olha, a gente nunca sabe. Tu conheces a fora dos Cambars em matria de virilidade.
  Como se portaria o pai na casa da amante? Menos calado e casmurro do que no Sobrado? Sorriria alguma vez? Teria para com o filho e os netos bastardos ternuras 
que 
no demonstrara nunca para com os legtimos? Eram perguntas que Rodrigo mais de uma
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  vez fizera a si mesmo, mas sem muita curiosidade, sem genuno interesse.
  Torbio enfiou o casaco. S ento  que Rodrigo percebeu que o irmo trajava a sua roupa domingueira de casimira azul-marinho, e - milagre! - estava de gravata.
  - Aonde vais nessa estica, homem?
  - A um baile de mulatas no Purgatrio.
  - Ests falando srio?
  - U?
  - Queres botar um pouco de extrato no leno?
  - No sejas besta.
  - Pois ento, bom proveito - Rodrigo estava curioso. - Que tipo de baile  esse?
  - Aniversrio da Sociedade Filhos da Aurora, de "morenos". Sou amigo ntimo do presidente.
  Rodrigo segurou o irmo pelas lapelas do casaco.
  - Cuidado, Bio, so mulatinhas de famlia.
  - Eu tambm sou de famlia.
  - Havia de ter graa que te metessem uma bala no corpo e morresse ridiculamente numa baica do Purgatrio.
  - Ainda no fabricaram essa bala.
  O primeiro a chegar ao Sobrado aquela noite foi o promotor pblico, dr. Miguel Ruas, natural do Distrito Federal. Muitas coisas o tornavam especialmente notado 
em 
Santa F. Aos trinta e seis anos era ainda solteiro - apesar de viver em bailarecos e festas familiares sempre s voltas com as mais belas moas do lugar. Tocava 
piano muito bem, manicurava as unhas e era o nico homem na cidade que trajava rigorosamente de acordo com a moda.
  Vestia naquela noite uma roupa cor de chumbo com listas claras. O casaco, exageradamente cinturado, de um boto s, era to comprido que lhe ia at o meio das 
coxas 
apertadas em calas que desciam, afuniladas, at os tornozelos e que, de to justas s
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  pernas, chegavam a parecer perneiras. Os sapatos bicolores de bicos agudos tinham solas de borracha Neolin - o que dava ao promotor um caminhar leve de bailarino. 
Alto e magro, o dr. Ruas - como observara Rodrigo - parecia ponto de admirao que freqentemente se transformava em ponto de interrogao, quando o promotor se 
dobrava em curvaturas diante das damas, cujas mos beijava ou, melhor, esfrolava com os lbios. Tinha o rosto fino e longo, duma palidez que o p-de-arroz acentuava. 
Sua voz, no entanto, era grave e mscula, coisa inesperada naquele ser de gestos e aspecto to efeminados.
  Ao receb-lo no alto da escadinha do vestbulo, Rodrigo no resistiu  tentao de perguntar: "Como vai o nosso almofadinha?"
  O outro, um pouco desconcertado, murmurou:
  - Ora, no diga isso, dr. Cambar.
  Na sala inclinou-se diante de Flora - "Meus respeitos, madame!" - e beijou-lhe respeitoso as pontas dos dedos. Quis fazer o mesmo com Maria Valria, mas a velha 
retirou bruscamente a mo que o promotor tentava erguer aos lbios, rosnou um "boa noite" seco e ficou a olhar intrigada para a cara do recm-chegado, exclamando 
mentalmente: "Credo!"
  Os sogros de Rodrigo entraram pouco depois, Aderbal Quadros, com o cigarro de palha entre os dentes, na sua marcha de boi lerdo, seguido da mulher, dona Laurentina, 
de olhos inditicos e cara angulosa. Flora levou-os at o andar superior, onde as crianas se preparavam para dormir.
  Chiru Mena no tardou a chegar, todo de preto, com muita brilhantina na juba loura, assim com o ar dum "cnsul alemo natural duma cidade hansetica", como lhe 
disse 
Rodrigo, ao abra-lo.
  - Ainda bem - folgou Chiru. - s vezes me chamas de maitre-d'hteL.. ou de porteiro de cabar.
  - Por que no trouxeste tua mulher, cretino?
  - Ora, tu sabes, a Norata sempre com suas enxaquecas...
  e os...
  No terminou a frase: foi direito ao prato de pastis que avistou em cima da mesa da sala de jantar.
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  Roque Bandeira e Aro Stein chegaram juntos. Estava o primeiro no princpio da casa dos trinta e o segundo no meio da dos vinte. Viviam ambos s voltas com livros, 
jornais e revistas, preocupados com saber o que se fazia, pensava e escrevia no resto do pas e do mundo. Roque Bandeira era filho dum antigo tropeiro, agora proprietrio 
de uma fazendola de gado no terceiro distrito de Santa F. Detestava, entretanto, a vida do campo. Fizera os preparatrios com certo brilho em Porto Alegre, e cursava 
j o segundo ano de engenharia quando, sentindo um sbito enfaramento de tudo aquilo - da capital, da escola, da matemtica, dos colegas -, decidira voltar para 
a querncia e levar a vida com que sempre sonhara: livre de estudos formais, de obrigaes a horas certas, dono, em suma, de seu tempo. O pai dava-lhe uma mesada. 
Bandeira no precisava de muito dinheiro para viver. Rodrigo franqueara-lhe a sua biblioteca. Que mais podia desejar? Na cidade era considerado "um filsofo", porque 
no se preocupava com roupas nem com dinheiro: passava horas nos cafs discutindo poltica e literatura; era sempre visto com livros debaixo do brao. Por todas 
essas razes as melhores famlias do lugar o miravam com uma desconfiana quase irritada. Pareciam sentir a liberdade e o cio do rapaz como um insulto.
  Aro Stein era filho dum imigrante judeu russo, que chegara a Santa F em princpio do sculo, estabelecendo-se na rua do Imprio com um ferro-velho. Era Abrao 
Stein um homem corpulento, ruivo e melanclico, de fala engrolada e choro fcil. Costumava contar ttricas histrias dos pogroms que presenciara na Rssia e durante 
os quais vira parentes e amigos estripados pelas lanas e sabres dos cossacos. Sofria de reumatismo e Rodrigo, que se apiedara do homem, tratara dele sem lhe cobrar 
vintm, fornecendo-lhe tambm gratuitamente todos os remdios necessrios. Quando fazia suas visitas de mdico  casa do judeu - que gemia em cima de uma cama de 
ferro, em meio de molambos, enquanto a esposa, dona Sara, alva e gorda, fazia perguntas aflitas ao "dotr" -, Rodrigo gostava de conversar com o filho nico do casal, 
o Aro, que andava sempre com o nariz metido em livros. Era um menino inteligente e srio, que tinha a paixo do saber. Terrvel pergunrador,
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   suas curiosidades no mais das vezes deixavam Rodrigo desnor teado. Por que o mar  salgado? A Revoluo Francesa foi um bem ou um mal para a Humanidade? Deus 
tem a forma humana? "Claio - respondeu Rodrigo dessa vez - o homem foi feito  imagem de seu Criador..." "Mas ento, doutor, Deus tem fgado, prstata, tripas? Deus 
come e urina?" Rodrigo no teve outro remdio seno sorrir, procurando demonstrar uma superioridade que na realidade no sentia. E um dia, num assomo de entusiasmada 
generosidade, disse: "Seu Stein, fique tranqilo. Quem vai educar esse menino sou eu. De hoje em diante dou-lhe tudo: livros, cadernos, lpis, roupas... o que for 
preciso. Quando ele terminar o primrio, vai fazer os preparatrios em Porto Alegre por minha conta". Os olhos de Aro brilharam. Os do pai encheram-se de lgrimas. 
Dona Sara beijou com lbios trmulos as mos do doutor, e se foi a choramingar para o fundo da casa, arrastando as pernas deformadas pela elefantase. (Maria Valria 
costumava dizer que o casal Stein "sofria dos cascos".) Rodrigo cumpriu a promessa at o fim. Durante quatro anos escolares, enquanto Aro em Porto Alegre atormentava 
os padres do Ginsio Anchieta com perguntas que se faziam cada vez mais complexas e tomavam uma colorao cada vez mais materialista, Rodrigo tivera de agentar 
a choradeira do casal, que no se conformava com a ausncia do filho. E quando, em 1918, a gripe espanhola levou o velho Stein "para o seio de Abrao" - conforme 
a expresso usada pelo redator de A Voz da Serra, encarregado da seo intitulada "Vida necrolgica" - Aro, que ia cursar o primeiro ano de Medicina, abandonou 
os estudos, sob os protestos indignados de seu protetor, e voltou para Santa F, a fim de tomar conta da me e do ferro-velho.
  - Foi uma burrada, rapaz - repreendeu-o Rodrigo. - Podias ter levado tua me contigo para Porto Alegre e continuado os estudos. Eu te garantia todas as despesas, 
at o dia da formatura.
  Aro sacudiu a cabea.
  - No,  doutor,  isso seria demais.  Eu nunca lhe  poderia pagar...
  - Mas quem  que falou em pagar? Quando eu disse ao teu pai que me encarregaria da tua educao, no estava fazendo 
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  nenhuma transao comercial. Todo mundo sabe que no sou homem de negcios. Poderias ter terminado o curso com o Dante Camerino, cujos estudos tambm estou custeando, 
como sabes.
  Aro Stein mantinha os olhos baixos, como um ru. Tinha na mo uma brochura: Crime e castigo.
  - E agora, que pretendes fazer? - perguntou Rodrigo, esforando-se por falar sem rispidez. - Vais passar o resto da vida atrs dum balco de ferro-velho?
  - Talvez seja esse o meu destino - murmurou o rapaz, com uma dignidade triste.
  Era a imagem viva da desgraa. Rodrigo compreendeu que Stein no podia passar sem a sua dose de drama, to essencial  sua vida espiritual quanto o alimento ao 
corpo. 
Talvez tivesse prazer em imaginar-se personagem de Dostoivski - o jovem estudante pobre que abandona seus ideais de cultura porque precisa ganhar o po de cada 
dia em uma srdida loja de objetos usados.
  - Pois fica sabendo - sentenciou Rodrigo - que ns  que fazemos o nosso destino.
  Ele prprio no sabia se estava ou no de acordo com o que acabara de dizer. A coisa lhe viera assim de repente, e a idia lhe parecia boa. Ps a mo no ombro 
do 
rapaz.
  - Tu sabes, em caso de aperto, conta comigo, em qualquer tempo. A minha biblioteca est  tua disposio. Podes entrar no Sobrado  hora que entenderes e levar 
para 
a tua casa os livros que quiseres.
  Aro ficou por um momento calado. Depois murmurou:
  - Mas ns pertencemos a classes diferentes, dr. Rodrigo.
  - Deixa-te de bobagens! Classes, ora essa! Minha bisav era ndia e foi agarrada a boleadeiras, no campo - inventou ele, deliciando-se com a improvisao.
  Passaram-se os anos e Aro Stein - a princpio com alguma relutncia e sempre com acanhamento - passou a viver na rbita do Sobrado. Como dona Sara tomasse conta 
da loja, revelando-se uma comerciante mais realista que ele, o rapaz tinha vagares para seus estudos e leituras. E agora sonhava com um projeto: comprar uma caixa 
de tipos e uma pequena mquina impressora, e 
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  estabelecer-se com uma tipografia. (Sabia que Rodrigo tinha ambas essas coisas atiradas e esquecidas no poro do Sobrado... mas no tivera ainda coragem de fazer-lhe 
nenhuma 
proposta.) Pretendia manter a oficina imprimindo convites para enterro, cartes de visita e programas de cinema. Mas seu verdadeiro objetivo era publicar um semanrio 
de idias e, de quando em quando, um panfleto. Comearia com o Manifesto comunista. Venderia o folheto clandestinamente por um preo nfimo, correspondente apenas 
ao custo do papel. O importante era pr ao alcance do povo esse grande documento social. Para conseguir essa finalidade, economizava o que podia. E era por causa 
dessa economia que andava to mal vestido, quase sempre com o cabelo crescido e a barba por fazer.
  Quando aquela noite entrou no Sobrado e foi direito a Maria Valria, esta o recebeu muito sria, com as palavras de costume: "A vem o Joo Felpudo".
  As "felpas" de Stein eram da cor da barba de milho. Sua pele, de poros muito abertos e duma brancura de requeijo, esticava-se sobre a face ossuda, de malares 
salientes 
e feies ntidas. A testa era alta e os olhos dum cinzento esverdeado. ("Se esse menino se cuidasse" - dissera uma vez Maria Valria - "podia at fazer figura bonita 
com as moas.")
  Agora quem apertava a mo da velha era Roque Bandeira.
  - Voc est gordo que nem porco - disse ela.
  Tio Bicho limitou-se a sorrir.
  Flora mandou servir cerveja. O dr. Ruas recusou com um gesto polido. Preferia gasosa. Abstmio? No, explicou, sua moral era apenas heptica.
  O prximo convidado a chegar foi o coronel Melquades Barbalho, comandante da guarnio federal de Santa F. Era um homem alto e grisalho, fortemente moreno, de 
lbios arroxeados, olhos um tanto exorbitados e porte desempenado de ginasta. Falava
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  com abundncia de esses chiados e uma entonao carioca com a qual Maria Valria e Licurgo tinham muito pouca ou nenhuma pacincia.
  Rodrigo apertou efusivamente a mo do recm-chegado.
  - Por que no trouxe a senhora?
  - Ora, meu caro, a Margarida  escrava dos filhos. Eles no dormem sem que primeiro a me lhes cante a berceuse de Jocelyn.
  - Ah! Mas ela precisa vir cantar aqui para ns umas rias de pera, coronel.
  A sra. Barbalho era soprano dramtico e, no fazia muitos anos, cantara a Norma no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, num espetculo de caridade.
  - No faltar ocasio - murmurou o militar, sorridente. E afastou-se para beijar a mo das damas.
  A negrinha Leocdia, de avental branco e sapatos de tnis, circulava em passo de bailado entre os convidados, conduzindo uma bandeja com pratos de pastis e croquetes. 
Aderbal Quadros soltava na cara do dr. Ruas a fumaa do seu cigarro de cheiro ativo, que se misturava com a aura de Narcise Noir que envolvia o promotor. O sogro 
de Rodrigo examinava o "almofadinha" com uma insistncia desconcertante.
  - Mas como  - perguntou - como  que o senhor consegue enfiar essas calas?...
  - Ora, coronel,  muito simples. Calo os sapatos depois...
  - E, ainda que mal pergunte, esse colarinho no l afoga? A camisa de tricoline tricolor do carioca tinha um colarinho
  to alto que lhe dificultava os movimentos de cabea.
  - O senhor est mangando comigo, sr. Aderbal...
  A face do velho tropeiro estava impassvel, mas seus olhinhos sorriam. E algum mais naquele instante observava Miguel Ruas com algum interesse. Era Aro Stein, 
que mastigava um croquete. Tocou com o cotovelo Roque Bandeira, que a seu lado empinava o segundo copo de cerveja.
  - Que me dizes daquele tipo?
  O outro passou o leno pelos lbios e olhou.
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  - O promotor? Um bom sujeito. A gente primeiro precisa se acostumar com as roupas e o p-de-arroz... No fim acaba gostando dele. No  tolo, tem boas leituras...
  - O que eu quero saber  se  homem mesmo. Roque Bandeira tornou a encher o copo.
  - A est uma pergunta gacha que eu jamais esperava ouvir da boca dum marxista.
  Aro Stein encolheu os ombros.
  - Pra mim o tipo no passa dum produto srdido do sistema capitalista. Um parasita.
  - Questo de ponto de vista... e de nomenclatura.
  Naquele instante entrou no Sobrado Juquinha Macedo. Depois da morte do coronel Macedo, Juquinha, como filho mais velho, se tornara chefe da numerosa famlia. Tinham 
os Macedos muitas lguas de bom campo bem povoadas, alm de casas na cidade e aplices do Banco Pelotense. Eram todos federalistas e famosos pelo esprito de cl. 
Corria um ditado segundo o qual "onde tem Macedo no morre Macedo".
  Era Juquinha um quarento alto e corpulento, de rica cabeleira negra, sempre bem penteada e reluzente, que a Rodrigo lembrava a de certos cantores de tango da 
Boca, 
que vira em sua ltima viagem a Buenos Aires. Tinha o rosto grado e redondo, curtido de sol e vento, uns bons dentes de comedor de carne e uma voz ressonante de 
tom entre brincalho e autoritrio. Justificava em gestos, palavras e aes a reputao, de que gozava entre amigos, de ser um "gacho buenacho".
  Tirou do bolso o leno vermelho de maragato, agitou-o no ar e exclamou:
  - Viva o dr. Assis Brasil! E se tem algum chimango por a, que puxe a adaga, porque vamos brigar. - Voltou-se para o comandante da praa e no mesmo tom disse: 
- 
Desculpe a brincadeira, coronel!
  Apertaram-se as mos. Algum naquele momento pediu ao promotor que tocasse alguma coisa. O dr. Ruas imediatamente encaminhou-se para o piano que Rodrigo comprara 
para as lies da Alicinha. De todos os lados vieram pedidos. Toque um samba! Um
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  chorinho! No, um foxtrote! O promotor ergueu a tampa do piano, estendeu sobre o teclado as mos plidas, em um de cujos dedos faiscava um rubi, e, com certa solenidade 
de virtuoso, tirou alguns acordes. Rompeu depois a tocar O p de anjo com a bravura com que os concertistas geralmente tocam a Polonaise militar de Chopin. Passou 
da marcha para um choro e do choro para um foxtrote. Maria Valria, sentada a um canto da sala de jantar, murmurou ao ouvido de dona Laurentina: "Depois que esse 
moo comea a tocar, nem Deus Padre faz ele parar..."
  Aro Stein que, contra seu costume, havia bebido j dois copos de cerveja, olhava para o pianista com hostilidade. Com aquele pelintra tocando de maneira to desesperada, 
era impossvel conversar em paz.
  Foi ao som do Smiling through que o coronel Cacique Fagundes fez sua entrada no Sobrado, acompanhado de Quinota, a nica de suas cinco filhas que ainda permanecia 
solteira. Subiu lenta e penosamente os degraus que levavam do portal at o vestbulo, no tanto por causa da idade, pois no passara ainda dos sessenta, mas sim 
por causa do peso do corpo. Era gordo, baixo, ventrudo, de pernas curtas e arqueadas. O rosto tostado e largo era ampliado caricaturalmente por uma papada flcida 
que lhe triplicava o queixo e lhe dava o ar lustroso e sonolento de um buda.
  Roque Bandeira, curioso em assuntos de antropologia, costumava dizer que o coronel Cacique era a prova viva do parentesco entre os ndios brasileiros e as tribos 
asiticas.
  Quinota segurava o brao do pai. Era morena, retaca, peituda, e um buo cerrado sombreava-lhe o lbio superior.
  - Ora viva! - exclamou Rodrigo. - Pensei que no viessem mais.
  Cacique Fagundes tirou o chapu, fez um sinal na direo da filha:
  - A culpa  dessa bruaquinha que demorou pra se vestir. S botando p-de-arroz na cara levou um tempo.
  - Ora, papai!
  Rodrigo abraou a rapariga com ar paternal, mas aproveitou a oportunidade para roar-lhe o seio com a ponta dos dedos. E
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  quando Flora levou Quinota para a sala, ele ficou um instante com o pai da moa, que lhe cochichou:
  - Preciso me aliviar dum peso...
  Desafivelou o cinturo no qual trazia o revlver e entregou-o a Rodrigo.
  - Acho que daqui por diante - murmurou - no se pode mais andar desarmado na rua. - Segurou a ponta do leno que lhe envolvia o pescoo. - Chimango  como touro: 
no pode enxergar pano encarnado...
  Soltou sua risada de garganta, um h-h-h convulsivo e rachado, que mais parecia uma tosse bronqutica. E enquanto Rodrigo guardava o revlver no armrio debaixo 
da escada grande, o coronel Fagundes acendeu um crioulo.
  - Que  que o promotor est tocando? - perguntou ele.
  - Uma msica moderna, o foxtrote. Em ingls quer dizer trote de raposa.  a ltima moda em assunto de dana. Vem da Amrica do Norte.
  Cacique focou os olhinhos pcaros nas costas do pianista, que se requebrava ao ritmo da melodia, e disse:
  - Esse moo se remexe mais que biscoito em boca de velho! E saiu rindo, com o cigarro entre os dentes, na direo do
  sogro de Rodrigo. Abraaram-se e ficaram a conversar sobre o touro Polled angus que Cacique acabara de receber da Esccia, e que ele insistia em chamar de Polango.
  Maria Valria puxou a saia de Leocdia, que passava, e gritou:
  - Pra de te requebrar, rapariga!
  O promotor ergueu-se do piano. Ouviram-se algumas palmas. Miguel Ruas passou o leno pelo rosto e apanhou um copo de limonada da bandeja que naquele instante a 
negrinha 
lhe apresentava.
  7
  O coronel Barbalho conversava a um canto com Stein e Bandeira. Tinham naquele ltimo quarto de hora - gritando para se
  113
  fazerem ouvidos - discutido a Liga das Naes e os Princpios de Wilson. Roque Bandeira conseguira trazer a conversa para seu terreno. Andava fascinado por assuntos 
de oceanografia, a mais recente de suas paixes do esprito. Vocs j pensaram no que o mar representa para a vida da terra? Sabem que no dia em que se esgotarem 
os alimentos na superfcie do globo, os oceanos podero nos fornecer toda a comida de que necessitamos?
  - Imaginem esta cena - disse, mastigando um pastel. - A coisa aconteceu h alguns milhes, talvez bilhes de anos... O primeiro ser vivo sai do mar, aventura-se 
na terra. Tem a forma dum peixe. Depois as barbatanas atravs dos sculos se transformam em pernas, as guelras em pulmes.  o primeiro anfbio. O primeiro passo 
rumo ao Homo sapiens...  por isso que sempre olho para os peixes com um encanto misturado de venerao...
  Aro Stein, que escutava o amigo com visvel impacincia, tomando largos goles de cerveja, disse:
  - Est bem, est bem. Tudo isso j foi estudado. Saber essas coisas  muito bom e bonito. Mas sejamos lgicos. A evoluo j se processou e nada podemos fazer 
agora 
para modificar esse processo. Aqui estamos como um resultado disso, ns, os macacos superiores, e o que importa agora, na minha opinio,  modificar, melhorar as 
condies do mundo em que vivemos.
  O coronel sorriu:
  - Que  que o meu amigo quer dizer com isso?
  - Quero dizer que chegou a hora de destruir o sistema social vigente, responsvel pelas guerras e pelas desigualdades e injustias da sociedade humana e substitu-lo 
por outro que seja capaz de eliminar as classes e promover o bem-estar geral.
  - O  senhor se  refere  ao  maxismo?  - perguntou  o militar.
  - Exatamente... se prefere usar esse termo.
  O comandante da praa sorriu com superioridade.
  - O senhor  muito moo. No se iluda com novidades. Esse novo regime russo no pode durar... Dou-lhe mais um ano, quando muito.
  114
  Stein recuou um passo, como se o outro tivesse tentado esbofete-lo.
  - As foras mercenrias que a burguesia atirou contra a ptria do socialismo nada puderam, foram derrotadas! Os dados esto lanados e a derrocada do sistema capitalista 
j comeou.
  O coronel Barbalho delicadamente insinuou que era impossvel compreender a Histria e a vida sem uma slida base filosfica, e que para adquirir essa base um homem 
precisava de pelo menos trinta anos de estudos. Que idade tinha o jovem amigo?
  Os olhos de Stein relampaguearam.
  - Saiba o senhor que um dos objetivos do marxismo  acabar com a atitude filosfica desinteressada, porque ela nada significa para a existncia humana. At agora 
os filsofos nada mais fizeram que interpretar o mundo. O que o marxismo pretende  transform-lo!
  No meio do salo Chiru Mena bateu palmas e bradou:
  - Ateno, damas e cavalheiros! Fez-se o silncio pedido e ele continuou:
  - Agora o nosso amigo dr. Ruas vai fazer com a Quinota Fagundes uma demonstrao dessa dana moderna, o tal de fquestrote. Rodrigo, onde est aquele disco novo 
que trouxeste do Rio de Janeiro?
  O anfitrio abriu uma das gavetas do armrio em forma de pirmide sobre o qual estava o fongrafo e tirou de dentro dela um disco, que colocou no prato. Enquanto 
dava manivela no aparelho, explicou:
  - Este foxtrote  o ltimo grito na Amrica do Norte. Chama-se Smiles.
  - Que quer dizer isso em lngua de cristo? - perguntou Cacique Fagundes.
  - Sorrisos.
  Na cara do caboclo havia uma expresso de perplexidade.
  - Ah!
  Laurentina e Maria Valria entreolharam-se. Para ambas estrangeiro era "bicho louco".
  115
  Ouviu-se primeiro um chiado forte, depois a msica comeou: uma melodia sincopada, que  maioria dos convivas pareceu dissonante. O dr. Ruas enlaou a cintura 
de 
Quinota, tomou-lhe da mo e saiu a danar.
  - Mas isso  passo de urubu malandro! - exclamou o velho Babalo, soltando a sua clara risada em a.
  Quinota, embaraada, olhava para o teto, procurando seguir os passos do promotor. Este pisava com a ponta dos ps, requebrando os quadris e os ombros. Tentou uma 
nova figura: dois passinhos para a esquerda, depois mais dois para a direita. Ouviram-se risos e aplausos.
  Aro Stein murmurou ao ouvido de Roque Bandeira:
  - Foi pra acabar nisso que aquele bichinho arriscou-se a sair do mar?
  Agora do gramofone vinha uma voz grave e melodiosa, cantando um estribilho.
  - Eta lngua braba! - exclamou Juquinha Macedo. Acendendo um novo crioulo, Aderbal Quadros sacudiu a cabea e murmurou:
  - A humanidade est mesmo perdida.
  Depois daquela guerra brbara que incendiara quase o mundo inteiro, s se podia esperar aquela msica, aquela dana, aquelas roupas amaricadas do promotor pblico!
  Cessou a msica. O dr. Ruas fez alto e curvou-se diante do par. Novos aplausos.
  Rodrigo levou para o escritrio o comandante da praa, o sogro, o coronel Cacique e Juquinha Macedo. Fechou a porta e disse:
  - Sentem-se, fiquem  vontade. Acho que chega de msica moderna e de loucuras norte-americanas. Vocs sabem que sou da Frana e da valsa.
  116
  Cacique repoltreou-se numa poltrona de couro, soltando um suspiro de alvio. Desabotoou o colete, tirou as botinas de elstico, murmurando: "No reparem, estou 
com 
os cascos meio carunchados".
  O velho Babalo olhava com olho malicioso para o quadrado esbranquiado, na parede.
  - Est muito bom aquele retrato do Borjoca... - ironizou. Rodrigo explicou aos outros:
  - O papai retirou da parede a fotografia do seu ex-chefe... Juquinha Macedo fanfarroneou:
  - E ns vamos retirar o homem do Palcio do Governo.
  - No conte muito com o resultado da eleio - disse Aderbal, cptico. - Eles vo ganhar como sempre no bico da pena.
  - Pois se ganharem a eleio na fraude - replicou Macedo - decidimos a coisa na coxilha a bala, com licena aqui do coronel.
  O comandante da praa esboou um sorriso de neutralidade benevolente.
  Rodrigo serviu conhaque. Babalo e Cacique recusaram, declarando que eram do leite.
  Rodrigo tirou da gaveta da escrivaninha uma fotografia e, antes de mostr-la aos amigos, disse:
  - Tenho aqui uma preciosidade.  um instantneo que ficar na nossa Histria. Algumas revistas e jornais j o reproduziram, mas esta  uma cpia do original. Me 
custou um dinheiro. Vou mandar emoldurar e pendurar na parede. Merece. Vejam...
  Fez a fotografia andar a roda.  Era o famoso flagrante dos dezoito heris do Forte de Copacabana, na sua marcha para a morte. A porta abriu-se e a cabeorra de 
Chiru 
apontou.
  -  segredo?
  - No - respondeu Rodrigo. - Entra, homem, mas fecha essa porta.
  Chiru Mena entrou e, vendo a fotografia, exclamou:
  - Coisas como essa fazem a gente acreditar que nem tudo est perdido neste pas.
  Chamou Rodrigo a um canto do escritrio e cochichou:
  - Tenho uma idia pra gente ganhar muito dinheiro.
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  - No me digas que ainda ests pensando no tesouro dos jesutas...
  - Qual nada! O negcio  outro, e muito mais certo. Vamos comprar marcos alemes. Compramos na baixa, vendemos na alta e ganhamos uma fortuna.
  - Quem  que te meteu essa idia na cabea?
  - Li nos jornais.
  - Pois no Rio de Janeiro j andam vendendo marcos em plena rua. No acredito nisso.
  Chiru descansou ambas as manoplas nos ombros do amigo.
  - Tu entras com uma parte do capital e eu com a outra, e me encarrego da compra. Que dizes?
  - No contes comigo. Tu sabes, os negcios de gado andam malparados. O preo do boi baixou. O dinheiro anda curto.
  - Mas Rodrigo,  coisa certa: tiro e queda. Tu conheces a fora dos alemes. Digam o que disserem, so o povo mais inteligente e trabalhador do mundo. A Alemanha 
vai se reerguer e dentro de muito pouco tempo o marco estar mais cotado que a libra e o dlar.
  Rodrigo sacudia a cabea negativamente. Chiru recuou um passo, olhou-o bem nos olhos e disse:
  - Vais te arrepender.
  Com o clice de conhaque na mo, o coronel Barbalho examinava os livros de Rodrigo, que se enfileiravam nas prateleiras de dois grandes armrios com portas envidraadas. 
De quando em quando soltava uma exclamao em surdina. A obra completa de Ea de Queirs... Balzac, sim senhor. Taine! Renan! Nietzsche! Upa! Que biblioteca!
  Rodrigo aproximou-se dele, segurou-lhe o brao.
  - Sirva-se,  sua.
  No meio da sala Chiru agora exaltava os revolucionrios de 5 de julho e atacava Epitcio Pessoa. Rodrigo voltou-se para o amigo e exclamou:
  - Espera, Chiru! Tu sabes que simpatizei com o movimento revolucionrio e que votei no Nilo Peanha. No sou nenhum epitacista, mas, vamos e venhamos, temos de 
reconhecer 
que esse 
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  paraibano tem caracu. Sem querer ofender aqui o nosso amigo, o coronel Barbalho, o dr. Epitcio manteve no Brasil o prestgio do poder civil.
  - Mas no  s com caracu que se governa - interveio Juquinha Macedo, metendo os grossos dedos entre as melenas. - Faa um balano na administrao desse nortista 
e me diga o que foi que ele fez.
  Rodrigo deu dois passos  frente.
  - E as obras contra as secas do Nordeste?
  - Bolas! - bradou Chiru, tirando do bolso o leno vermelho e passando-o pela cara. - Governar no  fazer audes. E depois, Rodrigo, o pas gasta demais com essas 
secas. Que  que o Norte produz? Quase nada.  um peso morto. Devamos cortar o Brasil do Rio de Janeiro pra cima e entregar o Norte para os cabeaschatas. Que se 
arranjem! Mas o melhor mesmo era fazer do nosso Rio Grande um pas  parte, porque...
  - Cala a boca, idiota! - interrompeu-o Rodrigo. - Ests dizendo uma heresia. S unido  que o Brasil pode ser forte, grande e glorioso. Que conheces tu do Norte 
para falares dessa maneira?
  Por alguns instantes Chiru ficou a justificar seu ideal separatista. Rodrigo, porm, discordava com veemncia. Contou o que vira na Exposio do Centenrio. No 
compreendia o cretino do Chiru que o Brasil estava s portas da industrializao, e que uma vez industrializado precisaria antes de tudo de mercados internos, dum 
nmero cada vez maior de consumidores? Cortar as amarras que nos prendiam to fraternal e historicamente ao Norte seria jogar fora futuros mercados, isso para mencionar 
uma razo utilitria, pois as ideolgicas eram muitas e bvias. Quanto pensava ele que o Brasil havia exportado no ano que se seguira ao do fim da guerra? Cento 
e trinta milhes de esterlinos, cavalo!
  - E pensas que todos os produtos exportados saram do Rio Grande do Sul? Sabes o que representa hoje So Paulo na vida econmica do pas? E Minas Gerais? Ora, 
vai 
primeiro estudar os problemas para depois falares com alguma autoridade.
  Chiru, porm, no queria entregar-se. Voltou  carga.
  - Sabes muito bem que o resto do Brasil no gosta de ns.
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  O coronel Barbalho interveio:
  - Intrigas, sr. Mena, intrigas...
  - Quantos anos tem esta repblica de borra? - perguntou Chiru, abrindo os braos. - Trinta e trs. Quantos presidentes gachos tivemos at hoje? Nenhum.
  - A vida poltica do pas  dominada pela camorra de So Paulo e Minas Gerais. Agora preferiram esse mineiro safado ao nosso grande Nilo Peanha.  o fim do mundo. 
Mas um consolo eu tenho: o Bernardes no toma posse.
  Cacique Fagundes soltou a sua risadinha estertorosa.
  - Toma - disse. - Toma e governa at o fim.
  - Pois se tomar - replicou Chiru dramtico - a honra do Exrcito nacional est comprometida. Apelo aqui para o coronel Barbalho...
  O comandante da praa aproximou-se dele.
  - No apele. No sou poltico, mas militar, e como militar cumpro ordens superiores.
  Chiru fez um gesto de desalento.
  - Mas o senhor acredita ou no acredita na autenticidade das cartas do Bernardes? - perguntou Juquinha Macedo.
  O militar encolheu os ombros.
  - Confesso que no tenho opinio no assunto.
  - Pois eu - interveio Rodrigo - no acredito.
  - Baseado em qu? - quis saber Chiru.
  - Muito simples. Bernardes  mineiro, e como tal cauteloso e cheio de manhas. Um mineiro jamais escreveria coisas assim to comprometedoras, principalmente em 
tempo 
de campanha eleitoral.
  - E que foi que ouviste falar no Rio?
  Rodrigo confirmou a notcia que corria no pas, de que o presidente Epitcio Pessoa reunira no Catete o ministro da Guerra e o da Marinha, o vice-presidente do 
Senado 
e alguns polticos de Minas Gerais e So Paulo, para lhes manifestar sua apreenso quanto  gravidade da crise poltica nacional.
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  - Posso garantir a vocs que o dr. Epitcio chegou a sugerir at a renncia do Bernardes e a escolha dum terceiro nome, para evitar a guerra civil.
  - Um absurdo - disse o comandante da praa. - No acredito que o dr. Bernardes aceite...
  - Tambm sei que o presidente disse ao Raul Soares, lder da poltica mineira, estas palavras textuais: "Estou convencido de que o dr. Artur Bernardes no se agentar 
vinte e quatro horas no Catete".
  - Agenta... - rosnou Cacique Fagundes, bocejando.
  - A morte do senador Pinheiro - disse Rodrigo - sob certos aspectos foi desastrosa para o pas. A poltica nacional ficou sem um chefe, sem a sua figura central...
  Juquinha Macedo interrompeu-o:
  - Qual! A morte do Pinheiro foi a melhor coisa que podia ter acontecido a este Brasil desgraado. A poca do caciquismo poltico tem de acabar. Que  que estamos 
fazendo aqui no Rio Grande seno tentando acabar com o nosso cacique guasca?
  - Respeitem ao menos o meu nome! - exclamou o coronel Fagundes.
  Da sala de visitas vinham os sons do gramofone, de mistura com exclamaes e risadas.
  Sempre enlaando Quinota pela cintura, o promotor agora parecia deslizar pela sala como se patinasse sobre gelo. Fazia uma demonstrao de one-step. A uma rabanada 
dos danarinos, a saia da Quinota esvoaou e seus joelhos apareceram. Maria Valria inclinou-se sobre Laurentina e murmurou:
  - A senhora no acha que este mundo velho est mesmo ficando louco? A outra sacudiu lentamente a cabea, concordando.
  Sentados a um canto da sala, Stein e Bandeira bebiam e continuavam uma discusso crnica. Quando o primeiro terminou de encher o copo de cerveja, o segundo observou:
  121
  - Devagar com o andor, Aro. Ests ficando bbado.
  - Tu tambm ests bebendo demais. Pensas que sou Cego?
  -  diferente. Estou acostumado. Sou duro na bebida. Posso enxugar dez garrafas e sair caminhando firme. Mas tu
  O outro fez uma careta e retomou o fio da discusso-
  - Est bem, tu dizes que Lnin no  eterno.   Concordo. Todos os homens so mortais; Lnin  homem  -  Lnin  mortal.
  - Estou dizendo que ests bbedo. O judeu ergueu a mo:
  - Espera. Lnin morre mas a revoluo Proletria continua. Na Rssia Sovitica no h mais personalismos.
  - Mas algum tem de substituir Lnin.
  - Trtski, sem a menor dvida!  a maior Cabea da Revoluo, depois do Velho, naturalmente. E c pra
ns    que ningum nos oua, em muitas coisas acho Trtski
superior
a
Lnin.   Tio Bicho bebia, imperturbvel. Tornou a pachorra, com um cuidado tal, que parecia um laboratrio com substncias explosivas.
  Fez-se um silncio, ao cabo do qual Bandeira perguntou-
  - Tens lido alguma coisa sobre essa Semana de Arte Moderna em So Paulo?
  - Naturalmente. Como pode um cidado responsvel deixar de se interessar pelo que se passa na sua terra e no
resto do mundo?
- No achas tudo isso uma baboseira inconsequente? Aro Stein sacudiu a cabea com
- veemncia.
  - No acho.
  Rodrigo, que se aproximara deles naquele  Momento pousou uma mo paternal no ombro de Stein e quis saber
  - Que  que no achas? Bandeira lhe disse de que se tratava.
  - Uma grandessssima bobagem! - exclamou Rodrigo  _ Coisa de meninos irresponsveis.
  Aro continuava a sacudir a cabea numa negativa obstinada A msica havia cessado. No meio da pea, o dr. Miguel sorria a frente de Quinota, enxugava o rosto suado, 
enquanto Chiru que voltara
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   sala e procurava um novo disco, anunciava, como um imponente mestre-de-cerimnias:
  - Agora quem vai danar com a Quinota sou eu. Mas uma valsa. Onde se viu um bagual danar essas danas modernas?
  Ps o gramofone de novo a funcionar, e a melodia do Pavilho das rosas encheu a sala. Uma flauta chorava contra um fundo de violes gemebundos.
  - Que  que querem esses "modernistas"? - perguntou Rodrigo. - Chamar a ateno sobre si mesmos, atirando pedras nas figuras mais respeitveis da nossa literatura. 
Dizem-se nacionalistas mas esto encharcados de influncias estrangeiras. Nenhum desses meninos insubordinados vale o dedo minguinho de homens como Coelho Neto, 
que eles pretendem destruir.
  Aro Stein tomou um largo sorvo de cerveja, ergueu-se, pegou com grande intimidade na lapela do casaco de Rodrigo, ante a divertida surpresa deste - que o sabia 
tmido e respeitoso - e com voz arrastada, disse:
  - Um momento, doutor, um momento Essa revoluo artstica e literria no  apenas artstica e literria, no senhor.
  Rodrigo escutava, sorrindo com benevolncia. Nunca vira seu protegido assim to desembaraado e eloquente. Parecia um deputado da oposio.
  - O movimento , no fundo, poltico.
  - Ora!
  - Attendez, mon cher docteur! O movimento modernista de So Paulo  o protesto brasileiro contra o sistema capitalista,  mais um ataque contra a burguesia, desta 
vez pelo flanco da arte e da literatura.
  Voltou a cabea para Bandeira e apontou para ele um dedo acusador:
  - Esse anarquista  burro, no compreende, mas o senhor, dr. Rodrigo, vai me entender, apesar de ser um esteio da aristocracia rural latifundiria com fortes cara... 
cara.. - hesitou um instante mas finalmente conseguiu pronunciar a palavra - caractersticas feudais...
  Com o indicador enristado bateu no peito de Rodrigo.
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  - Seu corao generoso, no fundo, bate pelo proletariado, pela fraternidade universal, mas o senhor est preso pelo hbito, pela educao  e por laos econmicos 
profundos  ao  patriciado rural...
  - Ests desviando o rumo da discusso, Stein - observou Bandeira. - Prova a tua tese, volta ao movimento modernista.
  - Cala a boca, dinamitador, cala a boca. J me explico. Quem  Coelho Neto? Um escritor da burguesia. Seus valores intelectuais, morais e econmicos so os da 
classe 
dominante. Escreve sobre burgueses e para burgueses, jamais fez uma histria sobre proletrios, fez? Pois . No fez. Sua mentalidade  burguesa, seu estilo cheio 
de flores de retrica, de jias, de ouro,  cara... ca-ra-que-teris-ti-ca-men-te burgus.
  - Para mim - sentenciou Rodrigo - tudo isso  brincadeira. E se fosse coisa sria, eu a classificaria de parania.
  Aro Stein ps-se a recitar um poema de Mrio de Andrade:
  Eu insulto o burgus! O burgus-nquel O burgus-burgus! A digesto bem-feita de So Paulo! O homem-curva! o homem-ndeas!
  O
  O homem que sendo francs, brasileiro, italiano  sempre um cauteloso pouco a pouco.
  Rodrigo interrompeu-o:
  - Vocs querem que um leitor de Victor Hugo e Olavo Bilac como eu leve a srio essas maluquices?
  Sem dar-lhe ouvidos, Stein continuou:
  Ai, filha, que te darei pelos teus anos? - Um colar... - Conto e quinhentos!!! Mas ns morremos de fome.
  Rodrigo olhou para Chiru, que valsava com Quinota, sorriu e deu dois passos na direo dele. Stein, porm, segurou-lhe a manga do casaco.
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  - Un moment, docteur... Meu pai era um homem rude mas tinha a sabedoria do sofrimento. Ele costumava dizer: "Aro, meu filho, nunca deixes nenhum trabalho pela 
metade". 
Eu quero terminar a minha tese.
  Rodrigo sentou-se, lanando um olhar significativo para Bandeira. Stein fez um sinal na direo da sala:
  - Aproxime-se, mon colonel!
  O comandante da praa franziu o sobrolho, como se no tivesse a certeza de que era a ele que o rapaz se dirigia. Rodrigo acenou-lhe com a cabea:
  - Venha ouvir uma pregao revolucionria.
  O coronel Barbalho aproximou-se e ficou de p, muito perfilado, olhando com estranheza para o judeu. Rodrigo p-lo ao corrente do que discutiam. O militar nem 
sequer 
tinha ouvido falar na Semana de Arte Moderna.
  - Sem a Guerra Europia - prosseguiu Stein, com um fogo frio nas pupilas - no teria sido possvel o nascimento duma indstria no Brasil nem esse movimento renovador 
da nossa literatura.
  - O senhor, ento - interrompeu-o o militar -,  mesmo materialista, no?
  - Sou. E o senhor?
  - Eu reconheo antes de tudo os valores espirituais.
  - Pois se reconhece, errou a profisso. O Exrcito no passa dum instrumento  de opresso  que o capitalismo  usa contra as massas!
  O coronel Barbalho ficou subitamente purpreo. Olhou para Rodrigo como a perguntar se devia esbofetear o menino insolente ou apenas virar-lhe as costas.
  - Que  isso, Aro? - repreendeu Rodrigo. - No sabes expor tuas idias sem ofender as pessoas que no participam delas? Pede desculpas imediatamente ao coronel. 
No admito que um convidado meu seja desrespeitado na minha casa.
  Aro Stein espalmou a mo sobre o peito e fez uma curvatura, numa pardia de retratao, murmurando:
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  - Excusez-moi, mon colonel   No leve a mal o que lhe disse. No tome a coisa pelo lado pessoal. Detesto o personalismo burgus. Acredito nas solues coletivas.
  Tio Bicho, que at ento nada mais fizera seno soltar seu risinho de garganta, observou:
  - O que o nosso marxista   quer dizer, coronel,  que no quis insultar o senhor, que  uma  pessoa, e sim o Exrcito, que  uma coletividade.
  Rodrigo lanou para Bandeira um olhar duro de reprovao.
  - Vamos deixar estes "gnios" sozinhos, coronel - convidou ele.
  Mas o militar sacudiu negativamente a cabea, declarando que queria ficar e ouvir o que o moo tinha a dizer. Rodrigo ciciou-lhe ao ouvido:
  - No faa caso. O rapaz est meio tonto.
  O coronel Barbalho sentou-se, cruzou as pernas e esperou. Aro Stein sorriu e, dessa vez sem. ironia, estendeu a mo, que o militar apertou.
  - Agora, senhores, escutem.  Estou bbedo, mas no to bbedo que no saiba que estou bbedo, compreendem? Peo desculpas generalizadas. Mas o caso  lquido como 
gua. O Estado  uma mquina montada para manter o domnio duma classe sobre as outras. Quem disse isso foi um tal Vladmir Ulianov, mais conhecido como Lnin.
  - ...da Silva - terminou Bandeira, cerrando os olhos com fingida solenidade.
  - No princpio no havia governo - continuou Stein -, o homem primitivo levava uma vida rude e elementar, e para sobreviver portava-se de maneira no muito diferente 
da dos animais de presa. Com a diviso da sociedade em classes, nasceu o Estado escravagista que mais tarde, com o desenvolvimento das formas de explorao, se transformou 
em Estado feudal, o que j foi um "progresso", pois o escravo, que no tinha nenhum direito e nem mesmo chegava a ser considerado uma pessoa humana, agora no feudalismo 
trabalhava a terra alheia, vivia de seus frutos, embora a parte do leo ficasse sempre com o senhor feudal... A explorao do homem
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  pelo homem no s continuava como tambm se aperfeioava. Os servos no tinham nenhum direito poltico...
  Rodrigo e o coronel entreolhavam-se. O dono da casa estava inquieto. O promotor tinha voltado ao piano e tocava agora um ragtime, enquanto Chiru ensaiava passos, 
desajeitado. Flora andava dum lado para outro, servindo comidas e bebidas. Havia poucos minutos, lanara um olhar intrigado na direo de Stein. Sumira-se por alguns 
instantes e voltava agora trazendo numa bandeja quatro xcaras pequenas com caf preto. Aproximou-se do grupo. Grande mulher! - refletiu Rodrigo. Compreendera o 
estado em que se encontrava Stein e vinha socorr-lo. Teve a habilidade de primeiro dirigir-se ao militar.
  - Um cafezinho, coronel. Recm-passado.
  Barbalho serviu-se. Rodrigo e Bandeira fizeram o mesmo.
  - E tu, Aro? - perguntou ela com ar casual.
  Stein ergueu-se, curvou-se, murmurou madame, e pegou a ltima xcara. Quando quis servir-se de acar, Flora voltou o rosto com o ar mais natural deste mundo, 
e 
afastou-se. Stein tomou todo o caf dum sorvo s e depois perguntou:
  - Onde  que eu estava mesmo? - perguntou.
  - No feudalismo - esclareceu Bandeira.
  - Ah! O comrcio se desenvolveu, e com ele o sistema de troca de mercadorias. E qual foi o resultado desse progresso? O nascimento da classe capitalista. Isso 
aconteceu 
l pelo fim da Idade Mdia. Sua Majestade o Ouro e Sua Majestade a Prata passaram ento a governar o mundo.
  Fez uma pausa curta, enfiou as mos no bolso, e depois prosseguiu:
  - E nasceu com o capitalismo a idia da igualdade. No havia mais escravos e senhores, nem servos e bares. Agora todos eram iguais perante a lei, tinham os mesmos 
direitos polticos, a mesma liberdade. Aha! Direitos? Liberdade? Lorotas! Potocas! Continuava a ntida diviso de classes, e as leis eram feitas pelos representantes 
da burguesia de acordo com os interesses da classe dominante. Sua finalidade principal era evitar que as massas tivessem acesso ao poder e aos meios de produo.
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  O coronel tinha ainda na mo a sua xcara. Olhou firme para Stein e disse:
  - O senhor deu pulos enormes por cima de pocas histricas inteiras.
  Sem dar ateno ao que o militar dissera, Stein continuou:
  - Foi ento que Karl Marx entrou em cena com o seu  Kapital.
  - O livro mais citado e menos lido do mundo - atalhou Bandeira.
  - Cala a boca! Marx descobriu as contradies que solapavam a sociedade capitalista e concluiu que elas s podiam ser resolvidas pela socializao dos meios de 
produo...
  Rodrigo ergueu-se, impaciente:
  - Mas que  que a Semana de Arte Moderna tem a ver com tudo isso?
  Aro Stein ficou por alguns segundos como que perdido e estonteado, num vcuo. Por fim fez um largo gesto, soltou um aah! sonoro e contente de quem finalmente 
acha 
o que procurava:
  - Ns no Brasil repetimos todo esse processo histrico que acabo de resumir. No princpio era a lei da selva, o mais forte oprimia o mais fraco e o dilema era 
comer 
ou ser comido. Vejam o caso do bispo Sardinha... Com a vinda dos primeiros povoadores tivemos o regime escravagista. O ndio e mais tarde o negro suaram e sofreram 
nas plantaes de cana-de-acar e nos engenhos do Norte. O ouro que se extraiu das Minas Gerais no sculo XVIII serviu de base para a criao da lavoura cafeeira 
de So Paulo. Evolumos do Estado escravagista para o feudal, embora a escravido propriamente dita s tivesse sido abolida em 1888. Criou-se e fortaleceu-se a nossa 
aristocracia rural. Quem eram os pr-homens do Imprio seno os representantes dos fazendeiros? As leis que votavam tinham por fim primordial defender os interesses 
da classe que eles representavam. O Imprio amparou o caf. A Repblica continuou a proteo mas comeou a dar ateno ao comrcio,  burguesia nacional, que aos 
poucos se formava. S agora, nestes ltimos anos,  que, sem esquecer Sua Majestade o Caf, nossos governos comeam a interessar-se pela indstria. A Guerra Europia
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  abriu as portas duma nova era para ns: a industrial. Essa revolta de 5 de julho e mais a Semana de Arte Moderna so sintomas dessa mudana. Aqui  que eu queria 
chegar. Outras revolues viro, est claro, mas dentro ainda do esprito burgus: quarteladas, assaltos ao poder. Mas toda essa gente est sendo instrumento da 
Histria. Nosso destino est traado. A industrializao criar um proletariado e esse proletariado nos levar  revoluo social.
  - Graas  estupidez da burguesia - acrescentou tio Bicho. Stein sentou-se, pegou a garrafa e tornou a encher o copo. O
  coronel remexeu-se na cadeira.
  - Sua interpretao - disse ele -  demasiadamente simplista. O senhor esquece os imponderveis da Histria.
  - Que  que o senhor chama de "imponderveis"? As verdadeiras causas dessa guerra mundial monstruosa provocada pelos interesses dos donos do petrleo, do ferro 
e 
do ao, pelos fabricantes de armas e munies e pelos banqueiros internacionais?
  - J ests com as tuas novelas - interrompeu Rodrigo.
  - Novelas? Novelesca, romntica  a sua interpretao da guerra, dr. Rodrigo: o herosmo dos aliados dum lado e a barbrie alem do outro... a resistncia de Verdun, 
ils ne pctsseront ps, a Marselhesa e no sei mais qu. Eu encaro a guerra por outro lado: penso nos mortos, nos mutilados, nas cidades destrudas, na peste, na 
fome, na loucura, na flor da mocidade que foi sacrificada para que os trustes e monoplios tivessem mais lucros. Faz quatro anos que a guerra acabou e j se pode 
ver com clareza o seu resultado. Dum lado, milhes de cruzes a mais nos cemitrios e nas valas comuns, milhares de homens com os pulmes rodos pelos gases asfixiantes, 
outros milhares de loucos nos hospcios... e mulheres prostitudas, e rfos, e vivas... Do outro, os banqueiros que engordaram com essa sangueira... os novos-ricos, 
os especuladores, os industriais que ganharam dinheiro vendendo canhes e munies tanto para os alemes como para os aliados, porque o capitalista na verdade no 
tem ptria. Acende uma vela a Deus e outra ao Diabo.
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  Stein tinha erguido a voz e agora gritava, enquanto o promotor batia no piano com toda a fora. Era de novo O p de anjo. Chiru rodopiava na sala, enlaando a 
filha 
de Cacique Fagundes.
  Rodrigo deteve a mo de Stein que ia agarrar outra vez a garrafa de cerveja.
  - Bom, Aro, agora chega. J bebeste demais. Sossega.
  - Pardon, monsieur. Ainda no terminei.
  - Est bem, est bem. Depois conversaremos...
  - Eu no estou bbedo, doutor. Sei o que estou dizendo e o que estou dizendo est certo.
  - Muito bem, mas no vais beber mais porque eu no quero, ests ouvindo?
  O coronel retirou-se discretamente e foi conversar com Flora. Naquele instante Aderbal Quadros e a esposa fizeram suas despedidas e retiraram-se.
  10
  Roque Bandeira ergueu-se. Rodrigo voltou-se para ele e pediu:
  - Leva o Aro direitinho pra casa. Como esto tuas pernas?
  - Firmes.
  - E a cabea?
  - Lcida.
  Stein, que agora tinha cado em profunda depresso, murmurou:
  - Lcida nada! Vocs todos tm uma cerrao nos miolos. No vem a verdade. Pensam que vo resolver o problema da Humanidade votando no Assis Brasil. A coisa  
mais 
sria. Muito mais sria... Juro que ! Juro!
  - Por So Lnin? - perguntou Roque Bandeira.
  - No sejas besta.
  Roque tomou fraternalmente do brao do amigo e empurrou-o na direo da porta da rua, murmurando: "Que porre, me, Santo Deus!"
  Rodrigo aproximou-se do comandante da praa.
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  - Coronel, apresento-lhe as minhas desculpas. No quero que faa mau juzo do Stein.  um excelente menino, estudioso e srio
  - A verdade  que no disse nenhuma asneira. Dentro de suas convices raciocinou com clareza. Repetiu tudo quanto costuma dizer quando est sbrio. A bebida s 
lhe deu mais mpeto e eloqncia.
  - Diga-me uma coisa, confidencialmente, dr. Rodrigo. Esse moo ser mesmo comunista militante?
  - No creio. Por qu?
  - Se , arrisca-se muito falando dessa maneira. Ele no deve ignorar que temos em pleno vigor desde o ano passado uma lei federal que probe a propaganda comunista 
em territrio nacional...
  - E o senhor sabe melhor que eu como so essas leis de represso. No conseguem reprimir nada e sim dar uma aura romntica de coisa proibida s idias que querem 
combater.
  - Pode ser. Mas tome nota do que lhe digo. Esse moo ainda vai se incomodar...
  - Qual! Ningum leva esse "revolucionrio de caf" a srio. Comunismo no Brasil? Nem daqui a cem anos. No creio em contos da carochinha.
  Pouco depois que o coronel Barbalho se retirou, Licurgo chegou de volta ao Sobrado. Foi direito ao escritrio, onde Rodrigo discutia com o coronel Cacique e o 
Juquinha 
Macedo um plano de campanha eleitoral para ser levado a cabo durante os prximos trinta dias. Pretendia mandar imprimir e distribuir em todo o municpio boletins 
de propaganda do candidato da Aliana Libertadora. Sairia com caravanas pelos distritos e colnias, a fazer discursos onde quer que houvesse mais de dois eleitores 
para ouvi-lo. Pensava tambm em publicar um jornal de emergncia - quatro pginas apenas - para esclarecer a opinio pblica e desfazer as mentiras e calnias d'A 
Voz da Serra.
  131
  Licurgo pitava em silncio, os olhos no cho. Quando o filho terminou sua exposio e Juquinha Macedo pediu a opinio do senhor do Sobrado, este disse:
  - Temos que fazer tudo isso, mas acho que vai ser um desperdcio de tempo e de dinheiro. Estou convencido que ningum pode com a mquina do governo.
  - Mas papai - avanou Rodrigo - temos a obrigao cvica de acreditar no sistema democrtico.  o mnimo que podemos fazer. E se os recursos legais nos falharem, 
s nos restar a soluo que o senhor sabe...
  -- Por mim, eu comeava a preparar a revoluo desde hoje... - disse Juquinha Macedo. - Teu irmo Torbio  da mesma opinio.
  - Qual nada! - exclamou o coronel Cacique. - Estou muito velho e escangalhado. S brigo se tiver muita necessidade.
  Rodrigo sentou-se na mesa e ficou olhando para os amigos. Houve um curto silncio.
  - Quando vais reassumir teu cargo? - perguntou Macedo.
  - A est outro problema. Qual  a sua opinio neste assunto, papai?
  Licurgo no hesitou:
  - A minha eu j lhe dei. O senhor tem que renunciar o quanto antes. Como  que um deputado republicano vai fazer propaganda poltica contra o candidato de seu 
partido? 
No  direito. Passe amanh mesmo um telegrama ao dr. Borges, pondo seu cargo nas mos dele.
  Na sala de visitas agora cantavam em coro. Era uma cano antibernardista que tivera grande voga no ltimo carnaval. E as vozes, entre as quais predominava a do 
Chiru, retumbante e desafinada, chegavam at o escritrio:
  Ai, Seu Me! Ai, Me, Me! L no Palcio das guias, ol! No hs de pr o p!
  132
  Rodrigo ficou por alguns instantes a escutar a marchinha. De sbito saltou para o cho e disse:
  - Sim, tenho de renunciar, mas vou fazer isso duma maneira que sirva a nossa causa.
  Fez uma pausa dramtica para dar a algum dos amigos a oportunidade de perguntar: "Como?" Trs pares de olhos estavam postos nele, mas nenhum dos homens falou.
  - Vou a Porto Alegre, reassumo o posto, inscrevo-me para falar, ataco o velho Borges e o borgismo num discurso arrasador, e, perante meus pares e a opinio pblica, 
renuncio ao meu mandato de deputado e declaro que vou lutar pela Aliana Libertadora.
  - A Ia fresca! - exclamou Cacique, remexendo as ndegas na poltrona.
  - Isso! - aprovou Juquinha Macedo. - Isso mesmo!
  O rosto de Licurgo permanecia impassvel. E como os outros o interrogassem com o olhar, ele disse:
  - Por mim a coisa se fazia por telegrama, e j.
  Rodrigo entesou o busto e, com a voz um tanto alterada, disse:
  - Sinto muito, papai, mas discordo do senhor. Vou fazer exatamente o que acabo de dizer.
  Licurgo soltou uma baforada de fumaa e murmurou, triste:
  - Faa o que entender. O senhor  dono do seu nariz.
  11
  Rodrigo Cambar provou que era mesmo dono de seu nariz. Embarcou dois dias depois para Porto Alegre, reassumiu seu mandato na Assemblia e fez o discurso mais 
sensacional 
e acidentado de sua vida de homem pblico. Como quisesse dar  sua orao no s a fora destruidora como tambm esse elemento de surpresa chocante da bomba que 
explode, teve o cuidado de no contar antes a ningum, nem mesmo aos colegas da oposio, o que pretendia fazer. Descobrira tambm uma maneira insuspeita de fazer 
que estivessem presentes no grande momento alguns jornalistas seus 
  133
amigos do Correio do Povo e da Ultima Hora, e que ele sabia capazes de tirar o mximo proveito publicitrio do escndalo.
  Sua voz vibrante, a que a comoo dos primeiros momentos dava um tom seco e fosco, encheu a sala do plenrio do velho edifcio da Assembleia dos Representantes. 
Comeou o discurso fazendo um breve histrico do Partido Republicano para exaltar a personalidade do dr. Jlio de Castilhos e ter a oportunidade de referir-se a 
ele como a "esse varo de Plutarco, esse estadista sem par, cuja estatura intelectual e moral cresce  medida em que o tempo passa e muitos de seus correligionrios 
e discpulos se apequenam e amesquinham". No fim da frase fez uma pausa e sentiu que a atmosfera aos poucos se carregava de eletricidade. Alguns dos colegas que 
pareciam escut-lo com indiferena mexeram-se nos seus lugares e o encararam com intensidade. Chico Flores - a quem Gaspar Saldanha, deputado da oposio, chamara 
com rara felicidade "Leo de tapete" - sacudiu inquieto a juba. O prprio presidente da Casa, o general Barreto Viana, fitou no orador um olhar quase alarmado. Naquela 
pausa de menos de meio minuto Rodrigo pde sentir que seu discurso comeava a produzir os efeitos que desejava.
  Continuou a orao - a voz agora com a tonalidade natural - enumerando os servios prestados por seu pai "desde a primeira hora" ao partido de Jlio de Castilhos. 
Reportando-se aos dias sombrios de 93, descreveu em cores dramticas o cerco do Sobrado pelos federalistas.
  "Tinha eu, senhor presidente e meus colegas, tinha eu nessa poca apenas nove anos de idade e, no meu espanto de criana, no podia compreender por que razo aqueles 
compatriotas diferentes de ns apenas na cor do leno cercavam nossa casa e atiravam contra ns. Mais tarde, homem feito, compreendi que no se tratava duma luta 
de dios pessoais, mas dum embate de ideias e ideais. Criado e educado que fui, dentro dos princpios republicanos, sabia ento como sei agora que, embora em campos 
opostos e rivais, politicamente falando, republicanos e maragatos tinham um sentimento em comum: o amor ao Rio Grande e ao Brasil, e o culto da democracia!"
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  Neste ponto um deputado da oposio soltou um "Apoiado!" Rodrigo prosseguiu:
  "Fosse qual fosse a cor do leno, ramos todos democratas! E nessa confortadora certeza viveram os homens da minha gerao que se haviam alimentado no leite generoso 
das ideias de Igualdade, Liberdade e Humanidade! Em nome desses ideais maravilhosos, milhares de gachos valorosos, atravs dos tempos, sacrificaram seu bem-estar 
e o de suas famlias, perderam seus bens e at suas vidas, lutando, matando e morrendo em guerras muitas vezes fratricidas!"
  Nova pausa. Os olhos de Rodrigo dirigiram-se para Getlio Vargas. O deputado por So Borja l estava no seu lugar, como sempre vestido com apuro, as faces escanhoadas, 
o bigode negro com as pontas retorcidas para cima. Sua expresso era de impassibilidade. Parecia pouco interessado no que o orador dizia.
  "Mas qual foi - continuou Rodrigo - o resultado de tantos sacrifcios e renncias, de tanto sangue generoso derramado, de tantas belas promessas e palavras?" - 
Neste 
ponto inclinou o busto, fez avanar a cabea, cerrou os punhos e, escandindo bem as slabas para que no ficasse dvida quanto ao que dizia, respondeu  prpria 
pergunta: - "O resultado, senhores, foi esse espetculo degradante que estamos hoje presenciando de um homem que se apega ao poder e quer fazer-se reeleger, custe 
o que custar, doa a quem doer!"
  Da bancada oposicionista partiram gritos "Apoiado!", "Muito bem!". Joo Neves da Fontoura, deputado situacionista, ergueu-se e bradou: - "Vossa Excelncia est 
traindo 
seu mandato, seu partido e seus correligionrios!" - Comeou o tumulto. Cruzaram-se apartes violentos. Das galerias agitadas vieram aplausos. O presidente batia 
repetidamente no tmpano e pedia ordem, ordem! - e ameaava mandar evacuar as galerias.
  Rodrigo, perfilado, fazendo o possvel para manter-se calmo, passava o leno pelo rosto, sorrindo. E quando finalmente a ordem foi restabelecida, continuou:
  "O homem que nos governa h tantos anos vive fechado no seu palcio, cercado de ulicos, cada vez mais distanciado do povo do Rio Grande e dos princpios do seu 
partido. Egocntrico, 
  135
  vaidoso e prepotente, no suporta a franqueza e a crtica, e est sempre disposto a relegar ao ostracismo os seus amigos mais leais em favor daqueles que estiverem 
dispostos a servir-lhe de capacho, a obedecer-lhe s ordens sem discuti-las".
  Com voz engasgada Chico Flores gritou: "Senhor presidente, isso  uma infmia!"
  Rodrigo aproveitou a deixa:
  "Estou de acordo com o meu nobre colega. Essa situao  realmente uma infmia, e  contra essa infmia que o Rio Grande agora se levanta! Que espcie de governante 
 esse que, para justificar seus ridculos pendores ditatoriais, invoca uma filosofia estranha  nossa gente e s nossas tradies?"
  Com seu sorriso malicioso, Vasconcelos Pinto aparteou: "Vossa Excelncia no pensava assim quando aceitou sua indicao para a cadeira que agora ocupa e deslustra!"
  Sem dar ateno ao aparte, Rodrigo prosseguiu:
  "Essa filosofia diz basear-se na Ordem e ter por fim o Progresso. No entanto ela gera a desordem e o desmando e faz que o nosso Estado se arraste com passos de 
tartaruga 
na senda do progresso. Essa filosofia vive a proclamar seus fins humanitrios mas o que tem feito entre ns  acobertar o banditismo, encorajar a arbitrariedade 
e premiar a fraude! No Rio Grande do Sul espancase, mata-se e degola-se em nome de Augusto Comte!"
  Risadas nas galerias. Protestos apaixonados de vrios deputados governistas. O presidente chamou a ateno do orador para a sua linguagem virulenta e ameaou cassar-lhe 
a palavra.
  "Cassar-me a palavra, senhor presidente? Em nome de quem? De Augusto Comte ou de Clotilde de Vaux?"
  Novas risadas e aplausos. Novo tumulto. A polcia interveio nas galerias e um jovem que trazia no bolso superior do casaco um leno vermelho foi levado para fora 
do edifcio, aos trancos.
  Rodrigo apontou para o alto com um dedo acusador e exclamou:
  "Os beleguins do ditador no perdem tempo. Apressam-se a provar com atos o que estou afirmando nesta tribuna com palavras!"
  136
  Quando por fim a calma voltou ao plenrio, Rodrigo analisou a mquina eleitoral governista, e declarou que ela precisava ser desmantelada, destruda, a fim de 
que 
voltasse a reinar no Rio Grande a moral democrtica e as eleies pudessem ser na realidade a expresso da vontade popular.
  Lindolfo Collor aparteou, calmo:
  - Vossa Excelncia serviu essa mquina at o presente momento.
  Rodrigo mediu o auditrio com o olhar e declarou:
  " por tudo isso, senhor presidente e meus colegas, que venho hoje aqui renunciar publicamente ao meu mandato de deputado pelo Partido Republicano Rio-Grandense 
e dizer, em alto e bom som, que vou sair por aquela porta, de viseira erguida, exonerado de qualquer compromisso para com essa agremiao poltica, sair como um 
homem 
livre, senhor de seu corpo e de seu destino. E quero tambm declarar perante a opinio pblica de meu Estado que vou colocar-me por inteiro, inteligncia, fortuna, 
experincia, entusiasmo, a servio da causa democrtica, neste momento to gloriosamente encarnada na figura egrgia desse republicano histrico que  o dr. Joaquim 
Francisco de Assis Brasil! Tenho dito".
  Sentou-se, alagado de suor. Saldanha da Gama deixou seu banco e veio abra-lo, comovido. Das galerias partiram gritos e aplausos misturados com um princpio de 
vaia. A polcia teve de intervir novamente. O presidente levou algum tempo para restabelecer o silncio, para que o prximo orador inscrito pudesse comear seu discurso.
  Rodrigo saiu do plenrio cercado de jornalistas. Ao aproximar-se da escada pareceu-lhe ouvir algum murmurar: "...vira-casaca". Parou, vermelho, olhou em torno 
e 
rosnou: "Quem foi o canalha?" Os amigos, porm, o arrastaram para a sala do caf. Disse um deles: "No faa caso, doutor.  algum despeitado". Rodrigo deu, ento, 
uma entrevista coletiva  imprensa. Terminada esta, bebia ele seu cafezinho, quando Roque Callage, um jornalista combativo da oposio e que vivia martelando o governo 
com seus artigos, aproximou-se dele e, com o cigarrinho de palha apertado
  137
  nos dentes, murmurou-lhe manso ao ouvido: "Sabe duma coisa engraada? Durante todo o seu discurso o senhor no pronunciou uma vez sequer o nome do dr. Borges de 
Medeiros". Rodrigo voltou para ele o olhar perplexo. "Foi mesmo?" E soltou uma risada.
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  De volta a seu quarto no Grande Hotel, meteu-se num banho morno. Ensaboando distraidamente o peito e os braos, ficou a completar em voz alta o discurso da manh, 
enamorado da prpria voz, que a boa acstica do quarto de banho arredondava e amplificava. Dizia agora o que no havia dito na Assemblia por causa do decoro do 
mandato. Ao referir-se  gente que cercava Borges de Medeiros devia ter dito, alm de ulicos, eunucos. "Eunucos - berrou -, eunucos com suas vozes moralmente efeminadas 
a dizerem amm a todas as palavras e ordens de seu senhor e mestre! Outra coisa no quer o soba positivista seno a submisso absoluta! No tem amigos, mas escravos! 
No quer conselheiros, mas capangas!" Repetiu muitas vezes a palavra capangas em vrios tons de voz e de repente rompeu a cantar em falsete uma ria de soprano da 
Tosca.
  Saiu do quarto de banho enrolado numa toalha felpuda e ps-se a caminhar no quarto, dum lado para outro, empenhado num dilogo imaginrio com Getlio Vargas. De 
todos os companheiros de bancada, era o que ele menos compreendia... Um enigma. O Chico Flores era um caudilho de fronteira, como seu pitoresco irmo Jos Antnio, 
intendente de Uruguaiana. O Lindolfo Collor, um intelectual com algo do dr. Topsius da Relquia... mas no podia deixar de reconhecer que o "alemozinho de So Leopoldo" 
tinha talento, sabia coisas e usava-as com propriedade e bom portugus. O Joo Neves (cuja eloqncia Rodrigo invejava cordialmente) era um intelectual capaz de 
vibrao humana. Mas Getlio intrigava-o e s vezes chegava a irrit-lo. Baixote, sempre sereno, as faces barbeadas, o bigodinho muito bem cuidado, as roupas limpas 
e bem-passadas - tinha um ar assptico e neutro. Quanto
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  a idias e opinies, era escorregadio como uma enguia. Quando todos os outros se agitavam e comoviam, ele permanecia imperturbvel. Na hora em que muitos de seus 
companheiros gritavam apaixonados, ele se conservava calado, com aquele diabo de sorriso que no deixava de ter sua simpatia. Quando intervinha nos debates, fazia-o 
de maneira inteligente, corajosa e com tanta habilidade que a oposio raramente o aparteava. E a verdade era que ia fazendo sua carreira. Agora fora indicado pelo 
partido para deputado federal na vaga que se abrira na Cmara com a morte de Rafael Cabeda.
  Rodrigo tinha resolvido procurar Joo Neves para explicar a atitude que torrfra. Estava certo de que o companheiro ia compreender-lhe as razes. Mas era com Getlio 
que ele agora mantinha uma discusso imaginria. Estavam ambos na sala do caf da Assemblia, e Rodrigo contava ao colega quem era Lao Madruga. "Um bandido, um 
analfabeto, um primrio." Na sua mente o deputado de So Borja sorria, silencioso. "Tu vs, Getlio, quando o chefe no sabe distinguir entre um correligionrio 
leal e desinteressado como o meu pai, e um sacripanta bandido e ladro, o partido vai a gaita." Getlio torcia as pontas dos bigodes: sua cara no exprimia emoo 
alguma. "Outra coisa, essa histria de resolver pendengas municipais impondo candidatos alheios  vida do municpio  outro erro trgico." Mas qual! O homenzinho 
no se comprometia com uma opinio. Pois que fosse para o diabo! Ele e os outros.
  Estendeu-se na cama, acendeu um charuto e ficou atirando baforadas de fumaa para o ar. quela hora o telgrafo decerto j havia espalhado por todo o Estado, por 
todo o pas a notcia de seu discurso. Sorriu. Possivelmente pouco depois que ele terminara de falar, um dos inmeros sicofantas do Chimango fora levar a notcia 
ao strapa, que com toda a certeza a escutara impassvel, de olhos frios, mal mexendo o gog que se lhe escapava pela abertura do colarinho de pontas viradas.
  Rodrigo olhava para as tbuas do teto, mas o que realmente tinha no esprito eram cenas de sua vida naqueles ltimos seis anos. Terminava agora uma fase importante 
de sua vida, que tivera 
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  momentos alternados de exaltao, desnimo, alegria, tristeza, impacincia, serenidade... Para principiar, nunca se sentira muito bem como deputado republicano. 
O 
governista  sempre o hombre maio da histria, o vilo, ou, para usar a nomenclatura cinematogrfica, o bandido da fita, ao passo que o heri, o "mocinho"  sempre 
o deputado da oposio. Estava claro que ele, Rodrigo Cambar, havia nascido para lutar na barricada oposicionista, e talvez viesse da a naturalidade ou, melhor, 
a alegria com que rompera com o partido, passando para os arraiais da minoria... No sentira nunca o menor prazer em servir Borges de Medeiros, criatura incapaz 
duma palavra de estmulo, dum gesto de gratido ou de simpatia humana. O homem portava-se como se j fosse a prpria esttua, e por sinal uma esttua de mrmore 
frio e magro, sem nenhum estremecimento pico.
  Rodrigo desvencilhou-se da toalha, jogou-a ao cho e, completamente nu, remexeu-se na cama, com o charuto preso aos dentes. A imagem de Getlio Vargas surgiu-lhe 
de novo nos pensamentos. Quis espant-la. No pde. Recomeou a discusso procurando arrancar do homenzinho uma palavra de compreenso. Intil! L estava ele, sorridente 
e vago, cofiando o bigode. Que teria o monstro nas veias? Sangue ou gua? "Olha, Getlio, tens muitas qualidades que admiro, mas uma coisa te digo: gua e azeite 
no se misturam nunca, e por isso jamais poderemos ser amigos. No tenho sangue de barata, e para mim existem na vida coisas mais importantes que uma carreira poltica."
  Outro motivo de exasperao para Rodrigo era o fato de jamais ter encontrado Getlio Vargas no Clube dos Caadores. Essa austeridade num homem to moo no lhe 
parecia 
normal nem mesmo saudvel.
  A cinza do charuto caiu-lhe no peito, que ele limpou com a palma da mo. Mundo velho sem porteira! - como dizia o Liroca. Hoje  um grande dia. Adeus, senhor deputado! 
Pensou naqueles anos de vida parlamentar. Lembrava-se com particular encanto da campanha da Reao Republicana, de seus discursos contra Artur Bernardes e a camorra 
paulista-mineira. Lembrava-se de seu amargo desapontamento quando a nao inteira esperava a palavra de 
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  Borges de Medeiros, capaz de lanar as foras democrticas do pas numa revoluo regeneradora, e o papa Verde soltara atravs dum editorial 'A Federao o seu 
glido 
"Pela Ordem".
  Ah! Mas fosse como fosse Rodrigo Cambar ia deixar sua marca na vida social de Porto Alegre. Isso ia, sem a menor dvida! Os jornalistas o adoravam. Ele era um 
assunto. 
Homem franco, detestava as meias palavras. Vinha disso o carter sensacional de quase todas as suas entrevistas. Tinha tambm amigos e admiradores entre os turfistas. 
No faltava s corridas da Protetora do Turfe aos domingos e seu cavalo Minuano, cria do Angico, ganhara uma vez um preo importante, chegando na frente de animais 
de raa, estrangeiros. O cronista social da Mscara escolhera-o como "o deputado mais bem vestido". Aonde quer que fosse, tinha amigos ou conhecidos: - na galeria 
do Caf Colombo, onde tomava o ch das cinco e flertava com belas fmeas, principiando ou continuando muita aventura que terminava na cama; na Alfaiataria de Germano 
Petersen, onde se reuniam polticos e homens de negcio;  porta da Livraria do Globo, onde intelectuais discreteavam, olhando a parada das belas mulheres que ao 
entardecer faziam o footing.
  Rodrigo ergueu-se e comeou a vestir-se com um vagar feminino. Tinha prometido almoar com dois deputados da oposio para "acertarem os relgios" quanto  propaganda 
da candidatura de Assis Brasil. Curioso! Duma hora para outra estava na oposio, amigo dos maragatos. Isso lhe dava uma sensao que era metade orgulho de estar 
contra o governo e metade a vaga impresso de ter feito uma travessura pela qual ia ser repreendido pelo pai. Era estranho: nos ltimos tempos no podia pensar no 
dr. Borges de Medeiros sem associar sua imagem  do velho Licurgo, como se ambos fossem irmos de sangue ou muito parecidos de fsico e temperamento. Se o Velho 
soubesse, ficaria furioso.
  13
  Aquela noite, depois do jantar, decidiu ir ao Clube dos Caadores para uma despedida. Havia passado naquele cabar 
  141
  momentos inesquecveis. Como de costume, apertou a mo do porteiro. "Boa noite, dr. Cambar. Parabns pelo discurso." Rodrigo sorriu, entregando ao homem o chapu 
e uma gorda gorjeta. O cabra decerto havia lido sua orao nos jornais da tarde. A Ultima Hora a reproduzira na ntegra, sob cabealhos escandalosos.
  Subiu a escada lentamente, com a reconfortadora sensao de que "estava em casa". Aspirou com delcia o perfume de loo de violetas que vinha da barbearia do 
clube, 
na qual penetrou, passando a mo pelas faces e dizendo: "Boa noite, Lel, me d uma passada rpida". Sentou-se na cadeira com um suspiro feliz de quem antecipa momentos 
de abandono hedonista. Por alguns segundos ficou a namorar-se no espelho, enquanto o barbeiro o felicitava pelo discurso da manh.
  - No se fala noutra coisa na cidade. Para dizer a verdade, no li o jornal. Mas me contaram.
  Rodrigo sorriu, cerrando os olhos. No salo de danas, de onde vinha um rumor de passos ritmados e vozes, a orquestra tocava a Tehuana. Era agradvel sentir no 
rosto 
a espuma cremosa e fresca, com uma fragrncia de limo. Pensou na clara de ovo batida que a Dinda punha em seus doces, e teve um sbito, absurdo desejo de comer 
montanha-russa. O barbeiro falava torrencialmente.
  Contava mais uma vez que em futebol era do Sport Clube Internacional e em poltica do Partido Federalista.
  - Comigo  s no colorado. E por falar em colorado o senhor no vai fazer uma fezinha na roleta hoje? Jogue no 13, doutor. A noite passada sonhei com esse nmero. 
Jogue, que  tiro e queda.
  O barbeiro calou-se, mas ficou resmungando a melodia mexicana. Rodrigo passava mentalmente em revista as mulheres do cabar com quem poderia dormir naquela sua 
derradeira 
noite em Porto Alegre. A primeira que lhe veio  mente foi Gina Carotenuto, a canonetista italiana. Mas no! Era demasiadamente exuberante, e seu humorismo andava 
sempre beirando o sarcasmo. Que se podia esperar duma mulher que, ao entrar no palco para cantar seus nmeros, olhava em torno da sala e gritava: "Buona ser, gonococchi!"
Concluiu que poderia ser uma fmea tima para seu irmo Torbio, mas no para ele. E a argelina de olhos de gata que contava 
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  histrias srdidas e sombrias de Casbah, onde fora violada por um rabe de pele oleosa, com olhos de assassino? Era excessivamente ossuda e destituda de seios, 
isso 
para no falar na voz lamurienta e na mania que tinha de fazer o amor com o quarto completamente s escuras. Havia ainda Ninette, esbelta e loura, com seu ar de 
princesa nrdica, o seu perfil de medalha antiga. Qual! Quem  que quer levar para a cama um camafeu ou uma esttua? No. Por mais que procurasse - e havia tantas! 
- sua escolha sempre caa em Zita, a jovem hngara que agora andava com um estrangeiro de Alegrete. O "coronel" estava ausente da cidade - por esse lado no haveria 
problemas, mas a menina tinha um "amiguinho" que era, nada mais, nada menos que um dos melhores companheiros com que ele, Rodrigo, contava ali no clube...
  O barbeiro continuava a falar. Narrava histrias de fregueses seus. Por aquela cadeira passava gente de toda a espcie. Aprendera a conhecer a procedncia da clientela 
pela roupa, pela maneira de falar, pelo tipo de corte de cabelo...
  - Quando o bicho usa costeletas e est com uma boa camisa de seda, s pode ser da fronteira, de Livramento ou Uruguaiana.
  - Mas eu uso costeletas e camisa de seda e sou de Santa F.
  - Ah, mas o senhor v, doutor, no ha regra sem exceo, como diz o outro.
  - Como  que voc sabe que o fregus  serrano?
  - Bom, por uma certa poeirinha avermelhada que fica nos sapatos... e s vezes at na pele...
  - E o pessoal da zona colonial?
  O barbeiro recuou um passo e, erguendo a navalha como se fosse degolar Rodrigo, exclamou:
  - Esses conheo pelo suor! Gringo tem um cheiro especial.
  - Pois erraste a profisso, Lel. Devias ser investigador da polcia.
  - Deus me livre e guarde!
  O barbeiro penteou o cliente, aparou-lhe as sobrancelhas e os cabelinhos das ventas, mas quando apanhou a pluma para empoarlhe o rosto, Rodrigo deteve-o com um 
gesto:
  - No. Guarda isso para os teus frescos.
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  O outro desatou a rir. Rodrigo ps-lhe na mo uma cdula de vinte mil-ris, deu-lhe uma batida no brao e saiu da barbearia na direo da sala de jogo, onde entrou.
  Aquela hora havia pouca gente ao redor das mesas de roleta e bacar. O jogo forte comeava em geral cerca das duas da madrugada. Curiosos caminhavam dum lado para 
outro, num ambiente de grande familiaridade, mas numa espcie de surdina de velrio ou igreja. Falavam aos cochichos e a nica voz alta que se ouvia era a dos crupis. 
"Faam jogo!" Um cheiro de caf recm-passado temperava agradavelmente o ar morno, que a fumaa dos cigarros e charutos azulava. "Feito!" O matraquear da roleta 
produzia 
uma espcie de ccegas no peito de Rodrigo: era um som alegre, esportivo, carregado de emoes e expectativas. "Vinte e quatro. Preto!" Rodrigo comprou fichas, aproximou-se 
da mesa e p-las todas, sobre o nmero 13. "Faam jogo!" O crupi - um castelhano magro e plido, de barba cerrada - saudou Rodrigo com um sorriso. "Feito!" A roleta 
movimentou-se, a bola foi lanada. Tudo parecia um brinquedo de criana. Passou rpida pela cabea de Rodrigo a idia de levar uma roleta em miniatura para os filhos... 
No. Seria um mau exemplo. Seus olhos seguiam a bola. Ele no via mas "sentia" as caras tensas ao redor da mesa. Sempre tivera um certo medo de apaixonar-se pelo 
jogo. Era por isso que em geral evitava as oportunidades de jogar. Mas que diabo! Aquela era uma noite especial...
  A bola aninhou-se sob um nmero. Treze! Preto! - gritou o crupi. O palpite do barbeiro dera certo. Rodrigo apanhou as fichas que a p empurrava na sua direo 
e 
ps uma delas dentro da caixa dos empregados. O crupi agradeceu-lhe com um sorriso. Rodrigo afastou-se da roleta. Pensou em bancar o bacar. Ou seria melhor ir 
sentar-se no salo de danas e beber alguma coisa?
  Algum tocou-lhe o brao. Voltou-se. Era o dr. Antnio Alfaro, mdico muito respeitado na cidade pela sua probidade profissional e pelo seu famoso olho clnico. 
Outra particularidade o tornava notrio: sua tremenda paixo pelo jogo. Havia noites em que perdia ali na roleta e no bacar verdadeiras fortunas. Jogava em silncio, 
no se lhe movia um msculo da cara; passava o tempo
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  fumando cigarro sobre cigarro. Contava-se a histria duma famosa noite em que o dr. Alfaro ficara a jogar obstinadamente sem arredar o p da mesa de bacar. A 
meia-noite 
pediu um bife a cavalo e comeu-o ali mesmo, perto do pano verde, sem tirar os olhos das cartas. Alta madrugada, mandara chamar um barbeiro, que viera sonolento escanhoar-lhe 
o rosto. E o jogo continuou sem interrupo at o clarear do dia. s oito o dr. Alfaro pediu um caf com leite e torradas. As nove ergueu-se, enfiou o chapu na 
cabea e, j com sol alto, saiu dos Caadores diretamente para o consultrio. Cinqento, alto e descarnado, os cabelos negros riscados de prata aqui e ali - tinha 
um rosto ossudo e longo, dum moreno terroso, e uma voz que lembrava o som do fagote.
  - Homem! - exclamou Rodrigo. - H quanto tempo!
  O   dr.   Alfaro   meteu   um   cigarro   na   piteira   de   mbar   e acendeu-o.
  - Pois aqui estou, meu caro, assinando o ponto, como sempre. Ah! Parabns pelo discurso. No sou poltico, voc sabe, mas sempre me faz bem ao corao e ao fgado 
ler que algum deu uma bordoada no papa Verde. - Fez uma pausa, expeliu fumaa pelo nariz, olhou Rodrigo de alto a baixo e depois perguntou: - E agora, quais so 
os planos?
  - Ora, volto amanh para Santa F, pelo noturno, e vou comear em seguida a campanha eleitoral em todo o municpio.
  O dr. Alfaro sacudiu lentamente a cabea.  Mas seus olhos estavam voltados para a mesa de bacar. Parecia perturbado.
  - No vai jogar? - perguntou Rodrigo.
  - No sabia que abandonei definitivamente o jogo?
  - No diga!
  - Pois . Faz trs meses que tomei essa resoluo e no pretendo voltar atrs.
  - Mas por qu? Como foi o milagre?
  - Voc no pode calcular o quanto isso me custa...
  O mdico ergueu as mos, com as palmas voltadas para cima. Estavam trmulas e midas de suor. Rodrigo mirava-o, curioso, esperando a explicao.
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  - Quer saber por que deixei de jogar? - Tomou do brao do outro e levou-o para um canto deserto da sala. - A histria  simples e ao mesmo tempo terrvel na sua 
simplicidade. Como todo o mundo sabe, tenho perdido horrores nesta casa. Uma noite deixei aqui, entre a roleta e o bacar, mais de vinte contos. Sim senhor, vinte 
contos de ris! Sa alcatruzado, desmoralizado, com vergonha at de levantar os olhos para o cu. O dia tinha clareado. E quando cheguei em casa vi uma cena que 
me deixou abalado. Minha mulher de robe de chambre discutia na calada com o verdureiro por causa de um tosto de diferena no preo da couve. Um tosto! E eu tinha 
acabado de perder vinte contos! No posso descrever o que senti. Foi como se minha alma tivesse cado numa latrina, como disse a personagem do Ea. A coisa foi to 
forte, que naquele instante prometi a mim mesmo no jogar nunca mais. E cumpri a promessa.
  - Mas por que continua vindo aqui? O dr. Alfaro encolheu os ombros.
  - No sei. Talvez a fora do hbito. Ou ento  o bbedo regenerado que ainda gosta de sentir o cheirinho da cachaa. Pode ser tambm que eu queira valorizar o 
meu 
gesto, tornando a coisa mais difcil. Uma espcie de bravata, compreende?
  Rodrigo sacudiu lentamente a cabea.
  - Por que no vem comigo at o salo para tomar alguma coisa?
  O dr. Alfaro sacudiu negativamente a cabea.
  - No, obrigado. Nunca entrei naquele salo. Fui jogador, isso sim, mas femeeiro nunca. Estou um pouco velho para comear. Mas v, e que lhe faa bom proveito.
  Apertaram-se as mos. Os olhos do dr. Alfaro se voltaram para a mesa de bacar.
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  Como de costume, Rodrigo sentou-se  mesa que ficava perto do palco triangular, a um canto do salo. Pediu uma garrafa de
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  champanha e ficou a beber, a fumar e a olhar os pares que danavam. A orquestra tocava um tango argentino, que espalhava no ar uma melancolia arrabalera, permitindo 
queles homens - estudantes de cursos superiores, empregados do comrcio, caixeiros viajantes, gigols profissionais, visitantes do interior - exibirem suas habilidades 
coreogrficas. Muito agarrados aos pares - mulheres que traziam de fora ou que ali eram postas pela gerncia da casa, como engodo para a freguesia -, eles se arrastavam 
ao ritmo da msica, em passos lnguidos, tudo isso num contraste com o jeito safado e vagamente negride que tomavam quando danavam maxixes.
  Rodrigo ficava s vezes absorto a observar os melhores da orquestra. Eram homens de ar aborrecido ou neutro, que de dia tocavam em confeitarias peas semi-srias 
e inspidas ou esfregavam burocraticamente os fundilhos das calas em alguma cadeira de repartio pblica.
  As mesas se achavam colocadas  frente de bancos com assentos de couro que corriam ao longo das paredes onde pequenos espelhos multiplicavam as luzes e os vultos 
da sala. Rodrigo via ali alguns dos freqentadores habituais do cabar. L estava o "Conde" (ningum lhe sabia o nome verdadeiro) sessento e calvo, todo vestido 
de negro, o monculo especado no olho esquerdo, o colarinho engomado e alto, uma prola no pregador da gravata, sempre perfumado de Fleur d'Amour, fumando cigarros 
turcos na ponta duma longa piteira, as mos muito bem manicuradas, a cara esguia, as feies um tanto imprecisas, como que esculpidas em sabonete. Havia nele um 
ar mrbido de fim de noite, fim de sculo, fim de raa, fim de tudo. Mas que tinha um aspecto digno, ningum negava. Era fleumtico como um ingls de novela. Passava 
quase toda a noite em silncio, bebendo seu champanha gelado, mordiscando torradinhas barradas de caviar, tendo sempre  sua mesa uma mulher bela e jovem - nunca 
a mesma! - que ele tratava com uma polidez distante, mirando-a de quando em quando com seus olhos vtreos. Alta madrugada, saa com a companheira para - murmurava-se 
- inconfessveis orgias sexuais.
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  Numa outra mesa um conhecido estancieiro de Dom Pedrito cocava com seus olhinhos lbricos a branca polaca que sorria a seu lado, enquanto um rapaz escabelado e 
esguio, 
de gestos irrequietos, lhe dizia algo ao ouvido. O olhar de Rodrigo deteve-se no jovem. Era um dos tipos mais populares ali nos Caadores. Rodrigo achava-o repulsivo 
e exatamente por isso no podia tirar os olhos de sua figura. A pele do rosto magro e escrofuloso tinha essa palidez lustrosa e transparente do rato recm-nascido. 
Coroava-lhe a testa olmpica, pintalgada de espinhas inflamadas, uma mecha de cabelos dum negro fosco. Todos o conheciam pela sugestiva alcunha de Treponema Plido. 
Costumava andar de mesa em mesa,  procura de quem lhe pagasse um bife com ovos e uma cerveja. No tinha emprego certo e dizia-se que era traficante de cocana. 
Interesseiro e servil, adulava os estancieiros que freqentavam o cabar, servindo-os como menino de recados. E as mulheres, embora se valessem s vezes de seus 
servios de cften e lhe dessem gratificaes em dinheiro, repeliam-no como macho.
  A orquestra deixou morrer o tango num gemido sincopado de acordeo, atacando em seguida um one-step. O clima da sala mudou de repente.
  Sentada  mesa dum homem taciturno e demasiadamente cnscio do colarinho alto que lhe dificultava os movimentos de cabea, Rodrigo avistou a "Oriental", uma uruguaia 
da provncia de Canelones. Gorda e terna, quando ia para a cama com um "fregus" tinha o hbito de recitar-lhe poemas inteiros em espanhol. Gabava-se de saber de 
cor todo El cntaro fresco, de Juana de Ibarbourou.
  Um garom abriu com estrondo uma garrafa de champanha junto da mesa dum velhote risonho e de cabelos pintados, que acariciava a mo duma mulher de aspecto soberbo, 
sentada, a seu lado. Era a Bela Zoraida - pois assim ela prpria se intitulava - famosa pelas jias caras, que lhe adornavam o colo e os braos, engastadas em ao. 
Trazia sempre ao redor do pescoo um cordo de ouro, do qual pendia um apito. Dizia que era para chamar a polcia, caso fosse assaltada por ladres.
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  Que fauna! - murmurou Rodrigo para si mesmo, tomando um gole de champanha. Avistou Zita, que se aproximava de sua mesa conduzida pelo "amiguinho". Ergueu-se, abriu 
os braos e estreitou o rapaz contra o peito. Sentem-se! Sentem-se! Apertou com ambas as mos a delicada mo da hngara. Era uma rapariga pequena, bem-feita de corpo. 
Teria pouco mais de vinte anos. Havia algo de felino em sua cara um tanto larga, de olhos verdes e enviesados; a boca rasgada, de lbios polpudos, era dum vermelho 
mido. Sombreava-lhe a voz um tom penugento e fosco, que Rodrigo achava excitante como um beijo na orelha.
  - Que  que h de novo? - perguntou ele, quando viu os dois amigos acomodados  mesa.
  O rapaz encolheu os ombros e fez uma careta pessimista.
  - Tudo velho. Os "pecurios" de sempre.
  Era talvez a figura mais assdua e popular do cabar. Franzino, duma brancura doentia de crupi, tinha as plpebras machucadas permanentemente debruadas de vermelho 
e os olhos embaciados por uma expresso de tresnoitada canseira. Filho dum tabelio duma cidade da fronteira com o Uruguai, viera para Porto Alegre, havia trs anos, 
para estudar medicina, mas continuava a marcar passo no primeiro ano. Passava noites inteiras no cabar, onde as mulheres o adoravam. S ia dormir, sempre acompanhado, 
quando o sol j estava alto. s trs da madrugada, depois que o cabar fechava as portas, levava a companheira da noite a comer um bife nos restaurantes do Mercado 
Pblico. Era campeo de maxixe, valente como galo de briga e - toda a gente sabia e ele prprio no negava - apreciador do "pozinho branco", bem como alguns daqueles 
moos que freqentavam os Caadores.
  Um desafeto lhe pusera o cognome de Pudim de Cocana, que a princpio ele repelira, indignado ("Pudim de Cocana  a retrucara duma feita, j pronto para quebrar 
a cara do
  me
  insolente). Mas como os amigos tivessem gostado da alcunha, acabou habituando-se a ela, e hoje os ntimos tinham o direito de chamar-lhe Pudim e como tal era conhecido.
  A afeio e a admirao que Rodrigo lhe votava nasceram no dia em que vira o rapaz dar uma surra espetacular num sujeito mais
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  forte do que ele, ali em plena pista de danas, ao som duma valsa lenta. Tendo vindo depois a conhecer o Pudim mais de perto, Rodrigo descobrira no rapaz muitas 
qualidades de corao. Aquele bomio notvago, de ar permanentemente entediado, aquele tomador de cocana irritadio e provocador de brigas era no fundo um sentimentalo, 
amigo leal e generoso. Embora vivesse duma mesada curta, nunca recusava ajudar os que tinham menos que ele. Rodrigo contemplava-o agora com um ar entre afetuoso 
e crtico de tio.
  - Precisas dar um jeito nessa tua vida, homem.
  - Que jeito?
  - Ora, se queres eu te componho esse corpo em poucos meses. Te levo para a minha estncia, te fao um tratamento de fortificantes, te empurro uma boa dieta e em 
pouco tempo ests outro.
  - Pra qu?
  Pudim olhava para a taa que o garom naquele momento enchia de champanha. A mscara da comdia se lhe alternava no rosto com a da tragdia; a da inocncia com 
a 
da devassido. Seus lbios de vez em quando se crispavam numa expresso de desdm. Era como se aquelas coisas todas - mulheres, bebidas, cocana, danas- no lhe 
dessem o menor prazer. Parecia entregar-se a elas para matar o tempo, ao mesmo tempo que se matava. Rodrigo via naquilo um suicdio lento e estpido.
  Zita olhava para o amigo e sorria. Era nova na cidade e no Brasil. No sabia patavina de portugus mas falava com alguma fluncia um curioso italiano ao qual conseguia 
tirar toda a musical doura, emprestando-lhe uma qualidade gutural.
  - J tomaste a tua dose hoje? - perguntou Rodrigo, encarando Pudim.
  - No.  O cafajeste do boticrio no me quis fiar.  Estou quebrado. O velho me cortou a mesada.  um mundo infecto!
  - Podia te dar dinheiro, mas no quero alimentar teu vcio. No descansarei enquanto no te fizer deixar a coca.
  - No perca o seu tempo.
  - Sabes duma coisa engraada? Nunca te vi  luz do sol!
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  Pudim acendeu um cigarro, aspirou a fumaa com fora e a seguir com mais fora ainda soltou-a pelas narinas. Bebeu um gole de champanha e resmungou:
  - Est tudo podre.
  Ergueu-se e segurou o pulso da companheira:
  - Vamos danar. Capisce? Danzare, mannagia! Esta "turca" no h jeito de aprender o brasileiro.
  Zita ergueu-se. Saram a danar, os corpos muito juntos. Era um maxixe. Rodrigo seguiu-os com o olhar. Pudim podia ganhar a vida como bailarino profissional. Danava 
to bem como o Castrinho, uma das atraes dos Caadores. Era gil, elstico, tinha ritmo e ps de pluma. Mas todo o interesse de Rodrigo agora se concentrava nas 
ndegas da hngara.
  Neste momento um homem sentou-se  sua mesa. Rodrigo franziu o cenho, contrariado. Era o Cabralo, outro tipo popular na casa. Rbula metido a poeta, tinha fama 
de grande orador. Dizia-se que poderia fazer uma fortuna como advogado, no crime, se no bebesse tanto. Vestia-se com desleixo, tinha uma cabeleira basta, dum ondulado 
suspeito, uma cara trigueira picada de bexigas, uma beiola cada, dum pardo avermelhado.
  - Dr. Cambar - disse ele com voz meio arrastada e pastosa - vim aqui lhe pedir para assinar na minha lista...
  - Que lista? - perguntou Rodrigo, j na defensiva, pois sabia que o rbula costumava lanar mo dos mais inesperados estratagemas para arrancar dinheiro aos amigos 
e conhecidos.
  - Para o monumento que ns, os freqentadores desta casa, vamos mandar erigir ali na frente do porto central do cais do porto.
  Falava com ar srio e confidencial.
  - Mas que monumento?
  Cabralo inclinou-se sobre a mesa. Seu hlito recendia a cachaa.
  - Uma esttua  Prostituta Europeia. Que lhe parece? Rodrigo no pde evitar um sorriso.
  - Que histria  essa?
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  - Vou escrever um artigo para explicar o sentido desse monumento. Mas posso lhe adiantar algumas das minhas idias...
  Pegou num gesto automtico a taa da hngara, levou-a aos lbios e bebeu o champanha que restava nela.
  - Vou mostrar, dr. Cambar, meu ilustre deputado, vou elogiar, est entendendo?, a grande funo civilizadora que tiveram entre ns essas mulheres da vida que, 
depois 
da Guerra Europia, vieram para Porto Alegre, importadas pelos nossos cabars e bordis. - Inclinou-se mais na direo do interlocutor, apertando com fora a haste 
da taa. - Dr. Cambar, meu ilustre amigo, pois , essas damas esto mudando a nossa vida, permitindo que nossa cidade deixe de ser uma acanhada menina provinciana 
para se transformar, est entendendo?, numa mulher adulta e talvez adltera mas, que diabo!, mulher em todo o caso.
  O maxixe cessou. Romperam aplausos entusisticos. A orquestra repetiu o nmero. Os olhos de Rodrigo procuravam a hngara. Cabralo raspava com a unha longa e polida 
o rtulo da garrafa. Prosseguiu:
  - Graas a essas cortess, meu caro deputado, est ouvindo?, graas a essas competentes profissionais os nossos estancieiros esto aprendendo boas maneiras. Em 
vez 
de cerveja, doutor, em vez de cerveja j bebem champanha, Cointreau, Beneditino. J comem caviar e pt de foie gras em vez do consagrado bife com ovos e batatinhas 
fritas. J sabem segurar o garfo e a faca e no amarram mais guardanapos no pescoo, est entendendo? Os nossos cascasgrossas at j beijam as mos das damas... 
Civilizam-se, meu caro parlamentar, civilizam-se os guascas!
  Muito a contragosto Rodrigo comeava a interessar-se pelo que o Cabralo dizia. Havia uma grotesca verdade em suas palavras. O rbula sorria, como que encantado 
pelas prprias idias.
  - Porto Alegre j tem a sua vida noturna - continuou. - O senhor me compreende, doutor? Eu no exagero... exagero? No exagero. Os fatos esto a. Nossa cidade 
mudou 
da noite para o dia,  um dos grandes mercados do mundo, dr. Cambar, no trfico de brancas. Essas horizontais nos chegam diretamente de Paris, note
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  bem, de Paris e de outras cidades da Europa. Ontem estive com uma que me recitou Verlaine, calcule, Ls fleurs du mal.
  - Isso  de Baudelaire.
  Bom. No vem ao caso. Mas a verdade  que sabia versos
  inteiros, e de simbolistas, meu caro deputado, de simbolistas! Pois essa francesa me contou que dormiu com o Apollinaire. Ora, vamos e venhamos. Eu, o Cabralo, 
um bode da rua da Varzinha, dormindo com uma francesa alvssima que j amou um grande vulto da literatura mundial, hein, que tal, hein? Compare essas deusas de leite 
e mel com as nossas chinas, as nossas mulatas analfabetas e sifilticas. Que  que o senhor acha?
  - Acho que voc est bbedo.
  O rbula fechou a cara e os olhos, em cujas comissuras brilhavam pontinhos duma secreo branca, e murmurou com certa dignidade:
  - Bbedo, sim, mas lucidssimo!
  - Outro champanha e mais uma taa! - gritou Rodrigo para um garom que passava.
  Zita no podia tornar a beber na taa que o mulato maculara. Cabralo agora olhava em torno, como se visse aquela sala pela primeira vez
  - Veja este cabar, meu caro doutor, este santurio, se me permite a expresso profana. - Sua voz se tornava cada vez mais arrastada. Poderia existir o Clube dos 
Caadores sem essas abnegadas mulheres que a Europa nos manda, como missionrias caque... cate... catequizadoras? A flor da poltica gacha marca rendez-vous aqui 
todas as noites. No  por estar na sua presena, meu caro parlamentar, que eu digo isto. Deputados, intendentes, grandes causdicos renem-se fraternalmente neste 
templo. Quer que eu lhe diga uma coisa? O centro poltico mais importante do Rio Grande no  o Palcio do Governo, nem a Assemblia dos Representantes, nem as Secretarias 
de Estado, mas o Clu-be dos Ca-a-do-res!
  Sublinhou a ltima slaba de Caadores com um soco na mesa. Uma das taas tombou.
  - Pare com isso! - gritou-lhe Rodrigo.
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  O garom trouxe a nova taa e a garrafa de champanha que Rodrigo pedira.
  - Est bem - disse o rbula. - Vou me retirar. Mas quero lhe dizer mais uma coisa, meu caro dr. Cambar, sob palavra de honra. Se eu tivesse uma filha (espalmou 
a mo sobre o corao) que no tenho, pois sou solteiro, eu no entregaria a menina para as freiras do Colgio Svign, no senhor, est me entendendo? Eu mandava 
a menina para esta casa. - Com o dedo em riste apontou para o soalho. - Sim, para os Caadores, para receber aqui sua educao no convvio dessas abnegadas e distintas 
senhoras, diante das quais me curvo respeitoso.
  Rodrigo pensou em Alicinha, viu-a sentada  sua frente com a boneca nos braos, e teve mpetos de atirar o contedo de sua taa na cara do mulato.
  Cabralo ergueu-se. Era grande e espadado, com um peito de pomba que lhe dava um vago ar de polichinelo gigante. Baixou os olhos para Rodrigo e murmurou:
  - Com quanto o meu caro doutor vai contribuir para a lista?
  - Ora no me amole.
  - Qualquer quantia serve. Uns vinte pilas, digamos.
  Rodrigo hesitou por breve instante, mas para se livrar do importuno tirou do bolso uma maaroca de dinheiro, pescou dela uma nota de dez e lanou-a sobre a mesa.
  - Tome. No dou mais. Agora suma-se. Tenho convidados. O rbula apanhou a cdula com a ponta dos dedos e meteu-a
  no bolso, sem a examinar. Pegou a taa e bebeu o que restava nela.
  - Mais uma coisa, doutor. Quero a sua opinio. No acha que a Bela Zoraida seria o modelo ideal para o monumento? Tem a dignidade duma matrona romana, hein? Imagino 
o monumento ali na frente do porto central do porto, olhando para a praa... Um dstico curto mas expressivo no pedestal de mrmore. Uma coisa assim: " marafona 
europia, a cidade agradecida". Que tal?
  - Est bem. Mas raspa! Cabralo fez meia-volta e se foi.
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   uma hora o cabaretier apareceu no palco para anunciar os nmeros da noite. Era um francs gordalhufo e louro, de cara rosada, olhos claros e um bigode de foca. 
Vestia um trajo escuro, um pouco  bomia, com uma gravata  Lavallire. Fazia versos, lia muito e dizia-se amigo de figuras literrias da Frana. Como e por que 
viera parar ali naquele cabar ningum sabia ao certo.
  Para comear, o francs postou-se no centro do palco de mos nos bolsos, e comeou a recitar em sua lngua uma fbula.
  Quando terminou a histria, ouviram-se risadas e aplausos. Os que no sabiam francs sorriam alvarmente, assim com um vago ar de empulhados.
  O cabaretier pediu un cri d'admiration, e um prolongado oh! em unssono encheu a sala. E o espetculo comeou. Enquanto La Portena, com um vestido de lam muito 
colado ao corpo calipgio, cantava com voz roufenha de devassa o Panuelito blanco, Rodrigo olhava ternamente para Zita, enquanto Pudim em voz baixa dizia horrores 
da cantora. Por baixo da mesa Rodrigo procurava o p da hngara. Encontrando-o, acariciou-o com o bico dos sapatos. A rapariga sorriu com malcia, lanando ao mesmo 
tempo um olhar furtivo na direo do Pudim.
  O cabaretier aproximou-se da mesa, pousou a mo no ombro de Rodrigo e perguntou baixinho:
  - Ca v, mon cher docteur? Rodrigo ergueu a cabea e sorriu:
  - Ca v.
  - Bien.
  O nmero seguinte foi um sapateado, por um casal de bailarinos gitanos. Um prestidigitador quebrou o relgio dum "coronel",  vista de todos, e minutos mais tarde 
- Abracadabra! - f-lo reaparecer, intato, dentro de uma cartola. Gina Carotenuto encheu a casa com sua voz de lasagna. E uma francesa magra, loura e branca cantou 
canonetas picantes.
  Continuaram depois as danas na pista. Rodrigo sentia o champanha subir-lhe  cabea. Era o que ele chamava de "porre
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  suave", o suficiente para deix-lo sentimental, num desejo de confraternizar com todo o mundo. O essencial era no passar do ponto...
  - Nunca me viu? - perguntou Pudim, percebendo que o amigo o encarava com insistncia.
  - Estou te vendo perto da mangueira do Angico, bebendo um copo de leite ainda morninho dos beres da vaca.
  O rapaz fez uma careta de nojo.
  - Prefiro esse leite e essa vaca... - murmurou olhando para a gorda garrafa de Veuve Clicquot.
  Zita sorria. O bico do sapato de Rodrigo subia-lhe pelo tornozelo, esfregava-lhe a perna.
  - Pudim, ouve o que vou te dizer.
  O cocainmano fitou no amigo o olhar enfastiado.
  - Diga.
  - Quero te ajudar...
  - Ento me pague uma prise.
  - Quero fazer mais que isso: vou te salvar a vida.
  - Que bobagem  essa, doutor?
  - Quanto dinheiro precisas para pagar tuas dvidas?
  - Muito.
  - Diga quanto.
  - No fao a festa com menos de trs contos.
  - Est bem. Escuta...
  Inclinou-se sobre a mesa, segurou a lapela do casaco de Pudim, esquecendo por alguns instantes as pernas da hngara.
  - Vamos fazer uma aposta - props. - Um negcio de homem pra homem, compreendes? Se eu perco, te passo trs contos em dinheiro, aqui mesmo, agora. Mas se tu perdes, 
ters de ir comigo para Santa F, amanh no noturno, sem discutir... Todas as despesas por minha conta,  claro.
  O outro hesitava.
  - Por quanto tempo?
  - Trs meses, nem um dia mais, nem um dia menos.
  - E que  que vamos jogar?
  - Roleta. Preto ou vermelho.
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  - E que  que o senhor ganha com isso?
  - O prazer de ajudar um amigo. Pudim ps-se de p e gritou:
  - Meus caros paroquianos, o dr. Rodrigo Cambar vai me salvar a vida. Cantemos todos o hino nmero 69.
  Sua voz perdeu-se no meio da. balbrdia. Rodrigo puxou-o pela ponta do casaco, fazendo-o sentar-se. Pudim caiu sobre a cadeira como um peso morto. Tornou a beber 
um gole de champanha.
  - Vamos. Que  que tens a perder? Restauras a tua sade, recuperas o interesse pela vida...
  - Trs contos?
  - Dinheiro batido. Pudim animou-se.
  - Est feito!
  Apertaram-se longamente as mos. Chamaram o cabarclier para servir de testemunha e informaram-no das condies da aposta. Quando os trs se dirigiram para a sala 
de jogo, deixando a hngara  mesa, o francs segurou o brao de Rodrigo e disse-lhe:
  - Monsieur, vous tes fou, mais j'aime votre folie. Pararam ao p da roleta. Rodrigo olhou para Pudim.
  - Escolha a cor.
  - Vermelho.
  - Est bem. Vale esta jogada
  O outro sacudiu a cabea afirmativamente. Ouviu-se o ratat da bola na bacia da roleta. O cabareer sorria, olhando de um para outro dos apostadores, que estavam 
ambos graves e tensos como duelistas  luz cinzenta do amanhecer. O matraquear cessou. Ouviu-se a voz do crupi: 22, preto! Pudim encolheu os ombros. Rodrigo tomou-lhe 
o brao e reconduziu-o  mesa.
  - De agora em diante me pertences.
  Ocorreu-lhe ento uma idia que o fez sorrir. No sabia o verdadeiro nome do rapaz, apesar de toda a camaradagem de tantas noites de farra.
  - Ainda que mal pergunte, qual  mesmo o teu nome?
  - Rogrio.
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  - Mas vou continuar te chamando de Pudim.  mais autntico. Dentro de algum tempo sers o Pudim de Leite.
  Rodrigo contou  rapariga, numa mistura de italiano, francs e mmica, o resultado da aposta. Ela murmurou: Mamma mia!, lanando um olhar interrogativo para o 
"amiguinho".
  - Preciso confessar que estou sem um tosto - declarou este ltimo. - Acho que tenho direito a um adiantamento...
  Rodrigo tirou do bolso duas cdulas de cem rnil-ris e entregou-as ao amigo.
  - Compra o que precisares para a viagem. Quero que amanh estejas na estao dez minutos antes da sada do noturno. No te esqueas que empenhaste a palavra. 
Vida 
nova, rapaz!
  Pudim apanhou as notas, ergueu-se e encaminhou-se para a porta da rua.
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  A orquestra chorava um tango argentino. Rodrigo convidou a hngara para danar. Fazia muito que no danava, e a tontura no lhe ajudava as pernas. Limitou-se 
a 
caminhar, sem muito ritmo, sentindo a maciez elstica dos seios da rapariga contra o peito, aspirando o perfume de seus cabelos e beijocando-lhe de quando em quando 
a ponta da orelha. Pensava em alguma coisa para dizer-lhe, mas no lhe ocorria nada que prestasse. Sabia de italiano apenas o suficiente para apreciar operetas e 
peras. Veio-lhe  mente o soneto de Stecchetti que o dr. Carbone costumava recitar. Repetiu-o ao ouvido da rapariga:
  Io non voglio super quel che si sia Sotto Ia chioma ai bacio mio donata E se nel biancho sen, ragazza mia, Tu chiuda un cor di santa o di dinnata.
  Zita nada dizia, limitava-se a escutar, soltando risadinhas. Deixava-se apertar, parecia estar gostando daquelas intimidades. Rodrigo
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   saltou por cima dum quarteto e dum terceto e recitou o terceto final, que sempre o entusiasmara:
  Io non voglio saper quanto sei casta: Ci amammo veramente un 'ora intera, Fummo felici quasi un giorno e basta.
  Sim, bastava aquela noite. O resto no importava. Nem o Pudim de Cocana nem o dr. Assis Brasil ou o dr. Borges de Medeiros. Voltaram para a mesa e Rodrigo tornou 
a beber. Agora s chamava a hngara de ragazza mia. Descobrira no som da palavra ragazza um forte contedo afrodisaco. Tornaram a danar, dessa vez um one-step. 
Rodrigo excitava-se, sentindo ao mesmo tempo um vago constrangimento por estar ali, fazendo aquilo - ele, um homem maduro, pai de cinco filhos. Imaginou a Dinda 
a observ-lo,  porta do salo... Sim, Flora tambm l estava, com Bibi nos braos... A famlia inteira o contemplava... E Alicinha danava agora com o Cabralo. 
Era uma vergonha! Mas no largou a hngara. E quando voltaram para a mesa, l estava Pudim, com uma cara de fantasma, um brilho desvairado nos olhos, as narinas 
palpitantes. Rodrigo compreendeu o que se passara. Era preciso mesmo salvar o rapaz. Zita" aproximou-se dele e passou-lhe ternamente as mos pelos cabelos, o que 
deixou Rodrigo enciumado.
  - Vou at a sala de jogo - disse. - Volto depois que vocs tiverem acabado esse idlio.
  - Adeus, meu anjo da guarda! - exclamou Pudim, fazendo
  um gesto de despedida
  Em poucos minutos Rodrigo perdeu duzentos mil-ris na roleta e trezentos no bacar. Afastou-se das mesas para tomar um caf. Avistou o dr. Alfaro que, sozinho 
a 
um canto da sala, fumava placidamente.
  - Como vai a coisa, doutor? - perguntou, acercando-se. O mdico sacudiu lentamente a cabea:
  - Firme, firme... Mantendo a palavra.
  Naquele instante vieram do salo de danas vozes alteradas. "Deixa disso!" "Aparta!" - gritos de mulheres, rudos de passos
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  apressados, de cadeiras que tombam, de copos que se quebram. Rodrigo correu para l com um mau pressentimento.  com o Pudim, pensou. No se enganava. O rapaz 
estava 
atracado no meio da pista com um sujeito de porte atltico, muito mais alto que ele. A cena era a um tempo grotesca e terrvel. Como um macaco agarrado a um grosso 
tronco de rvore, Pudim enlaava com ambas as pernas a ilharga do inimigo e com as mos ora lhe golpeava os olhos, ora lhe arranhava as faces, que j sangravam. 
O homenzarro, muito vermelho e soprando forte como um touro, limitava-se a apertar o outro contra o peitarrao, com os braos musculosos. Pudim gemia, comeava 
a perder a respirao... Rodrigo compreendeu que o gigante ia esmagar o trax do rapaz, mat-lo... E ningum intervinha. Precipitou-se para a pista e desferiu com 
toda a fora um soco no ouvido do gigante, o qual, perdendo o equilbrio, largou Pudim que tombou no cho num baque surdo. E quando, estonteado, o brutamontes olhava 
em torno, buscando o agressor inesperado, Pudim de novo saltou sobre ele, dessa vez pelas costas, e, cavalgando-o, envolveu-lhe com os braos o pescoo taurino, 
procurando estrangul-lo com uma "gravata". Rodrigo apanhou do cho uma garrafa vazia e de novo investiu contra o grandalho. Foi nesse momento que entraram em cena 
trs empregados do cabar, cuja funo era exatamente a de intervir em emergncias como aquela. Fortes e espadados, eram conhecidos como "lees-de-chcara". Um 
deles abraou Rodrigo, imobilizando-lhe os braos - "Calma, doutor, deixe que ns nos encarregamos do anjinho" -, enquanto os outros dois separavam Pudim do adversrio. 
Trepado numa cadeira, podre de bbedo, Cabralo pedia ordem. O cabaretier postou-se no meio da sala e gritou: "Msica!" A orquestra rompeu a tocar O p de anjo. 
Batendo nas costas de um e outro, o francs pedia que voltassem todos em paz para seus lugares. C'est Ia me, ms amis, c'est Ia vie! As mulheres, que haviam fugido 
ao principiar o pugilato, voltavam para o salo. Os "lees-de-chcara" sem maiores dificuldades conduziram para fora do cabar o atleta, que de repente se fizera 
muito humilde e cordato: "No sou de briga. S luto por dinheiro. Sou um profissional. O menino me agrediu. Tenho testemunhas".
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  Rodrigo levou Pudim de volta para a mesa e conseguiu acalm-lo, impedindo que ele corresse para fora, para continuar a briga em plena rua. Zita, toda trmula e 
de 
olhos midos, murmurava carno mio, carino mio, e acariciava com a ponta dos dedos o rosto do amante.
  Rodrigo queria saber como havia comeado a histria, mas Pudim, ainda ofegante, nada esclareceu. Limitava-se a beber e a murmurar palavres. O Treponema Plido 
acercou-se 
da mesa e, muito excitado, contou que a coisa comeara quando o bagualo quisera obrigar Zita a danar com ele, "nas barbas do nosso Pudim".
  - Quem  o tipo? - perguntou Rodrigo.
  - Imagine, doutor,  um campeo de luta romana. Est se exibindo no Coliseu. No ouviu falar? Apresenta-se com o nome de "Maciste Brasileiro". - Lanou para Pudim 
um olhar de admirao. - Eta bichinho bom!
  - Raspa, espiroqueta! - gritou Rogrio.
  Continuou a beber e meia hora mais tarde estava cado sobre a mesa, ressonando.
  Rodrigo chamou o garom, pagou a despesa e a seguir pediu a dois dos "lees-de-chcara" que transportassem Pudim para o quarto de Zita, que ficava num segundo 
andar, 
do outro lado da rua.
  A operao foi fcil e rpida. A hngara mandou pr o amigo sobre sua cama, tirou-lhe a gravata, desabotoou-lhe o colarinho, e depois embebeu um chumao de algodo 
em arnica e fez-lhe um curativo nos pontos equimosados do rosto.
  Rodrigo gorjeteou generosamente os dois empregados do cabar. E quando estes se retiraram, ele ficou a andar dum lado para outro no quarto. Estava excitado, sabia 
que lhe ia ser difcil dormir aquela noite. Olhava fixamente para o decote da rapariga, e teve um sbito desejo de morder-lhe as costas.
  Pudim roncava, de boca aberta. Agora, no sono, mais se lhe acentuavam os traos juvenis. A hngara ergueu-se e convidou Rodrigo para sair do quarto. Na exgua 
sala 
de visitas, havia um sof
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  estofado de veludo verde, sobre o qual se afofavam almofadas de seda amarela. Uma boneca de pano vestida  tirolesa jazia atirada sobre uma poltrona.
  Rodrigo debatia-se numa confuso de sentimentos. Era concebvel que o deputado que aquela manh fizera um discurso to srio e decisivo na Assemblia dos Representantes 
pudesse estar agora ali, naquela casa, quela hora e naquela companhia?
  Santo Deus, quando  que vou criar juzo? Sentou-se no sof, acendeu um cigarro. A hngara, sempre de p, mirava-o como a esperar qualquer coisa dele... Rodrigo 
fumava e refletia. Se eu agarro essa menina e ela grita, tenho de fazer uma violncia e vai ser o diabo. Se no agarro e vou me embora, corro o risco de passar a 
noite inteira em claro, irritado e desmoralizado. Agarro ou no agarro? Ergueu os olhos. Achou que a rapariga sorria dum jeito provocante. Ragazza mia - murmurou, 
deixando o cigarro no cinzeiro e erguendo-se. Ela continuava imvel. Rodrigo enlaou-a, beijou-lhe os lbios e arrastou-a para o sof.
  Antes de deixar o quarto da hngara, uma hora mais tarde, escreveu um bilhete para o amigo:
  Pudim velho de guerra: No te esqueas da aposta. Palavra  palavra.. Espero-te na estao,  hora da sada do noturno. Um abrao do teu
  R.
  No dia seguinte, porm, teve de embarcar sozinho, pois o outro no apareceu. No trem j em movimento, ps-se a pensar... Afinal de contas talvez tivesse sido melhor 
assim. O rapaz s lhe poderia trazer incmodos. Pensou no trabalho que ia ter nos prximos dias com a campanha eleitoral; imaginou a cara que o pai e a tia iam fazer 
ao v-lo entrar no Sobrado cabresteando o Pudim de Cocana, com toda a sua devassido estampada na cara plida. Concluiu que Deus escrevia direito por linhas tortas.
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  Teve na estao de Santa F uma recepo festiva. Ao saltar do trem caiu nos braos dos amigos. L estavam, alm do irmo, do Neco, do Chiru, do velho Liroca e 
do 
coronel Cacique, todos os machos das famlias Macedo e Amaral, e um grande nmero de outros federalistas. Rodrigo perdeu-se numa floresta de lenos vermelhos. "Grande 
discurso!" - diziam. "Um gesto muito digno!" - e os abraos no cessavam. "Atitude de homem!" - Chiru ergueu o chapu e berrou: "Viva ao dr. Assis Brasil!"
  O Liroca tinha lgrimas nos olhos. Juquinha Macedo quis saber qual havia sido a reao da bancada republicana ao "discurso-bomba".
  Torbio pegou do brao do irmo e empurrou-o na direo da sada, murmurando: "A pstula do Amintas j comeou a ofensiva". Tirou do bolso um nmero d''A Voz da 
Serra. No alto da primeira pgina, em letras negras e gradas, lia-se "Chega hoje o traidor vira-casaca". Rodrigo parou, tentou ler o artigo que se seguia, mas no 
pde. As letras se lhe embaralhavam diante dos olhos, um calor sufocante invadia-lhe o peito, subia-lhe  cabea, estonteando-o. "Cachorro" - rosnou com dentes cerrados. 
E dali por diante no prestou mais ateno ao que lhe diziam ou perguntavam. S tinha um pensamento, um desejo: quebrar a cara do Amintas, o quanto antes, o quanto 
antes...
  - O Velho est no Angico - informou Torbio ao entrarem no automvel.
  - Tanto melhor... - respondeu. Voltou-se para Neco e Chiru e disse, duro: - Vocs vo conosco no carro.
  Fez um gesto de agradecimento para os amigos que o haviam seguido at o automvel.
  - Bento - disse ao chofer -, toque ligeiro pela rua do Comrcio. Quando for para parar, eu te digo.
  O Ford arrancou e se foi, meio aos trancos, sobre o calamento irregular. Rodrigo estava silencioso e carrancudo, o suor a escorrerlhe pelo rosto. Chiru contava 
as novidades. O Madruga mandara espancar um comerciante do quarto distrito: o homem estava no
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  hospital todo quebrado... Os capangas do intendente andavam percorrendo o interior do municpio distribuindo boletins de propaganda e ameaas. Haviam convencido 
os colonos de que, se votassem em Assis Brasil, teriam seus impostos municipais e estaduais aumentados. Os gringos e os lambotes estavam amedrontados.
  Rodrigo parecia no escut-lo. Levava nas mos crispadas o exemplar d'A Voz da Serra. Neco, que farejara barulho, apalpou o revlver que trazia  cintura e trocou 
com Torbio um olhar significativo. S Chiru, que no cessava de falar, parecia no ter compreendido a situao. E quando Rodrigo mandou parar o carro  frente da 
redao do jornal de Amintas Camacho, na quadra fronteira  praa Ipiranga, perguntou surpreendido:
  - U? Por que paramos aqui? Rodrigo rosnou:
  - Vamos iniciar festivamente a nossa campanha, Chiru. Fiquem aqui prontos para o que der e vier. Garantam a nossa retaguarda. Vamos, Bio!
  Desceu do cano e entrou na redao. Torbio seguiu-o, a dois passos de distncia.
  Havia apenas dois homens na sala da frente: um deles devia ser o revisor, o outro era Amintas Camacho. Estava sem casaco, de mangas arregaadas, sentado a uma 
mesa, 
a escrever. Ambos ergueram a cabea quando os irmos Cambar entraram. Amintas empalideceu, ps-se de p, fez meno de fugir. Mas antes que ele tivesse tempo de 
dar dois passos, Rodrigo com as costas da mo aplicou-lhe no rosto uma bofetada to violenta, que o diretor d'A Voz soltou um gemido e caiu de costas. Quando o companheiro 
quis socorr-lo, Torbio, de revlver em punho, gritou:
  - No se meta!
  O outro ficou como que petrificado, os olhos arregalados de espanto, as mos trmulas. E Rodrigo, que saltara sobre Amintas, agora acavalado nele de novo o esbofeteava, 
 medida que gritava: "Crpula! Sacripanta! Cafajeste! Pstula!" Cada palavra valia uma tapona. E o jornalista, a cara lvida, respirava estertorosamente, gemendo 
"Meu Deus! Socorro!" - mas com uma voz engasgada,
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  quase inaudvel. Sem sair de cima de Amintas, Rodrigo rasgou em vrios pedaos a folha do jornal que trazia o artigo insultuoso, e atochou-os na boca do escriba.
  - Engole a tua bosta, corno duma figa!
  Depois ergueu-se, limpou as joelheiras das calas, olhou em torno e, numa fria, fez tombar a mesa com um pontap. O tinteiro caiu e uma longa mancha de tinta 
azul 
espraiou-se no soalho.
  Amintas ergueu-se devagarinho, cuspinhando pedaos de papel que lhe saam da boca manchados de vermelho. Uma baba sanguinolenta escorria-lhe pela comissura dos 
lbios.
  Rodrigo mirou-o com desprezo e disse:
  - Me mande a conta do dentista. Eu pago.
  Fez meia-volta e se foi. Antes de sair, Torbio soltou uma cusparada no soalho. Entraram ambos no automvel, onde Chiru, Neco e Bento estavam todos com os revlveres 
na mo. Na calada alguns curiosos haviam parado, sem saberem ao certo o que estava acontecendo. A operao toda durara menos de cinco minutos.
  Agora, a caminho do Sobrado, Rodrigo respirava, aliviado, e j sorria. Minutos depois estava nos braos de Flora, recebia as primeiras "chifradas" de Eduardo, 
erguia 
Alicinha e Bibi nos braos, beijava-lhes as faces e, entre um beijo e outro, perguntava: "Onde est o Floriano?" - "E a Dinda?" - "E o Jango?"
  Torbio contou s mulheres da casa o que se passara havia pouco na redao d'A Voz da Serra. Flora ficou alarmada. Maria Valria olhou para o sobrinho e murmurou: 
"Comeou a inana outra vez".
  Rodrigo almoou com uma pressa nervosa, contando o efeito que seu discurso produzira na Assemblia.
  Naquele mesmo dia,  tardinha, chamou ao Sobrado Aro Stein e fez-lhe uma proposta.
  - Tenho l embaixo no poro uma caixa de tipos completa e uma impressora. Se trabalhares todo este ms que vem, compondo e imprimindo um jornalzinho de quatro 
pginas, 
podes depois ficar com toda essa tralha, de mo beijada. Est?
  Stein pareceu hesitar.
  - Propaganda da Aliana Libertadora?
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  - No me digas que s borgista...
  - No, mas quero deixar bem claro que no acredito tambm no dr. Assis Brasil.
  - E que tem isso?
  - Pode parecer uma incoerncia. Todo mundo conhece minhas idias. Tanto o dr. Borges como o dr. Assis no passam de representantes da plutocracia do Rio Grande.
  - Mas no disseste ao Bio que querias comprar uma tipografia?
  - Disse, mas...
  - Ento. Achas o meu preo alto demais?
  Stein encolheu os ombros. Rodrigo tomou-lhe do brao.
  - Deixa de bobagem. A causa  boa. Terminada a campanha, mandas desinfetar os tipos e a mquina, para matar os micrbios capitalistas, e da por diante pe a tipografia 
a servio de tuas idias. No te parece lgico?
  - Est bem.
  Apertaram-se as mos. Na semana seguinte Stein comeou a trabalhar e o primeiro nmero d'O Libertador apareceu. Na primeira pgina trazia um artigo de fundo de 
Rodrigo, 
atacando o borgismo do ponto de vista ideolgico. Na segunda, vinha uma biografia do dr. Assis Brasil. O resto eram notcias polticas e avisos ao "eleitorado livre 
do Rio Grande".
  Comentava-se em Santa F que Amintas Camacho ia processar Rodrigo Cambar por agresso fsica e invaso de domiclio. Dizia-se tambm que Lao Madruga, quando 
agora 
se referia aos assisistas locais, chamava-lhes "os mazorqueiros".
  Estava declarada a guerra entre a Intendncia Municipal e o Sobrado.
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  Por aqueles dias entrou em jri um dos mais temidos capangas de Lao Madruga, que havia assassinado por motivos fteis um pobre homem, pai de cinco filhos. O bandido 
era conhecido pela
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  alcunha de Malacara, por causa do gilvaz esbranquiado que lhe riscava a face esquerda, num contraste com a pele bronzeada. Madruga, que estava empenhado em livrar 
o bandido da cadeia, pois precisava dele para a campanha eleitoral, havia j tomado todas as medidas para assegurar-lhe a absolvio. Peitara todos os cidados que 
por sorteio iam constituir o jri, usando ora o suborno ora a ameaa, de acordo com o carter de cada um. Conseguira intimidar o juiz de comarca, que se encontrava 
em casa, de cama, com uma tremenda diarria. Interessados em que se fizesse justia, Rodrigo e seus companheiros decidiram visitar o magistrado para lhe dizerem 
que estavam dispostos a garantir-lhe a vida e a integridade fsica, a fim de que ele se pudesse manifestar livremente de acordo com sua conscincia e com a Lei. 
O homem, porm, recusou-se a receb-los, alegando que no se metia em poltica. Corria tambm o boato de que o dr. Miguel Ruas, o promotor, havia sido chamado  
presena do intendente, que lhe dera ordem expressa de no "fazer carga" contra o ru.
  No dia do julgamento a sala do jri, no segundo andar do edifcio da Intendncia, ficou atestada de gente. Os guardas municipais - nos seus uniformes de zuarte 
com 
talabartes de couro preto, altos quepes de oficial francs, espadages e grandes pistolas Nagant  cinta - montavam guarda  porta e lanavam olhares sombrios para 
cada indivduo que entrava com o distintivo maragato. O primeiro deles foi Liroca, que trazia no pescoo um leno encarnado que a Rodrigo pareceu amplo como um lenol. 
O velho entrou de brao dado com Torbio. Este sentia, como uma corrente eltrica, o tremor que sacudia o corpo do amigo.
  - Que  isso, Liroca? Ests tremendo. Frio no , pois est fazendo 38  sombra.
  - Acho que  malria - balbuciou o velho federalista, sorrindo. - Malria da braba, sem cura.
  Aquilo sim, era coragem! - refletiu Torbio. Jos Lrio tremia de medo mas ainda assim tinha nimo para fazer pilhria. O corpo era fraco, clamava por paz e segurana, 
suas pernas amoleciam, mas a vontade do homenzinho ordenava: "Vamos, Liroca! Honra a cor desse leno!" E o esprito vencia o corpo, arrastava a carne vil. E
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  ele entrava na Intendncia, subia as escadas, ia esfregar aquele pano vermelho no focinho dos "touros" do Madruga.
  Momentos mais tarde Licurgo entrou taciturno na sala do jri, acompanhado de Rodrigo, Neco e Chiru. Foram os quatro sentar-se numa fila de cadeiras onde j se 
encontravam 
alguns Macedos e Amarais. Fazia um calor mido e opressivo. Pelas janelas escancaradas viam-se pedaos de um cu pesado de nuvens cor de ardsia. Cuca Lopes andava 
dum lado para outro, gil como um esquilo, a cara reluzente de suor. No exerccio de suas funes de oficial de justia parecia um sacristo a acolitar uma missa. 
Havia no ar um zunzum de conversas abafadas. O juiz de comarca tomou o seu lugar.
  Estava com a cara cor de cidra, os olhos no fundo das rbitas, como a se esconderem de medo.
  Foi feito o sorteio dos jurados.  medida que os nomes iam sendo lidos, Rodrigo murmurava para o pai: "Estamos perdidos". - "Vamos ter um jri inteiramente republicano." 
- "Canalhas!"
  Licurgo continuava calado, mordendo e babando o cigarro de palha apagado.
  Rodrigo olhou para o ru. O Malacara estava sentado no seu banco, em mangas de camisa, bombachas de brim claro. Um leno branco encardido envolvia-lhe o pescoo. 
Tinha a melena lisa, dum preto fosco e sujo, cujo cheiro ranoso Rodrigo imaginou, franzindo o nariz. Os olhos do capanga lembravam os dum bicho. Porco? Cavalo? 
No. Lagarto. Sim, o sicrio tinha algo de rptil. Rodrigo pensou no pobre homem que o bandido assassinara e teve mpetos de erguer-se e ali mesmo espancar o Malacara. 
Havia poucos minutos, ao sarem de casa, tivera com o pai um rpido dilogo, tenso e desagradvel.
  - O senhor vai me prometer, sob palavra de honra, no provocar nenhum barulho na sala do jri.
  - Ora, papai, o senhor sempre me trata como se eu fosse um desordeiro.
  - No  desordeiro mas  esquentado e afoito.
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  - Mas se no mostramos a esses chlmangos que no temos medo e estamos dispostos a tudo, eles nos encilham e montam!
  - , mas precisamos continuar vivos, j'ouviu?  Vivos, pelo menos at o dia da eleio.
  O Velho tinha razo. Se fossem trucidados dentro da Intendncia, onde seriam minoria, no poderiam fazer a campanha eleitoral nem votar.
  - Prometa - repetiu o Velho.
  - Prometo.
  - Ento vamos - disse Licurgo, metendo o revlver no coldre que trazia ao cinto.
  O advogado de defesa, genro de Lao Madruga, formara-se em direito havia apenas um ano. Era um moo de ar tmido que tinha o cacoete de, a intervalos, levar um 
dedo 
 ponta do nariz para espantar moscas imaginrias.
  Quando o promotor apareceu, Torbio inclinou-se para Liroca e cochichou:
  - Parece uma gara.
  Trajava o dr. Miguel Ruas uma roupa de linho branco muito justa ao corpo, camisa de seda creme e gravata negra de malha. Estava mais plido que de costume.
  - Que  que tu achas, Bio? - perguntou Liroca. - O promotor acusa ou no acusa?
  - Acho que j deve estar todo borrado de medo. A coisa est perdida. Podiam at soltar o Malacara. Este jri vai ser uma farsa.
  Jos Lrio pregueou os lbios numa careta de dvida. Seu narigo purpreo, pontilhado de cravos negros, reluzia. Os bigodes de piaava pareciam aquela manh mais 
tristes e cados que nunca.
  - Pois eu c tenho um palpite que esse menino vai nos dar
  uma surpresa...
  - Deus te conserve a f!
  De vez em quando se ouvia um pigarro, algum limpava o peito encatarroado. Rodrigo encolhia-se, vendo mentalmente o escarro escarrapachar-se no cho como uma mancha 
de pus. Quando era que aquela gente ia aprender bons modos?
  Veio de longe o rolar da trovoada.
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  - O calor est ficando insuportvel - murmurou Chiru, erguendo-se e tirando o casaco.
  Rodrigo voltou a cabea para trs e disse:
  - Cuidado. Ficaste com o teu "canho"  mostra. Vo pensar que  provocao...
  Chiru, de novo sentado, murmurou:
  - Eles que tentem me desarmar... Mostro a essa chimangada quem  o filho do meu pai.
  Licurgo voltou-se e lanou-lhe um olhar severo de censura:
  - Pare com essas fanfarronadas - ordenou, rspido.
  O outro ficou vermelho e, para disfarar o embarao, desfez e tornou a fazer o n do leno.
  O promotor subiu com um pulinho feminino para cima do estrado, aproximou-se do juiz e segredou-lhe algo ao ouvido. O magistrado escutou-o, sacudindo a cabea afirmativamente.
  Naquele instante exato Lao Madruga fez sua entrada no recinto, cercado de seus capangas e ladeado pelo Amintas Camacho, que lhe segurava o brao. Havia na face 
do jornalista uma mancha dum vermelho arroxeado. "A minha marca" - refletiu Rodrigo, satisfeito.
  O coronel Madruga no tinha mudado muito naqueles ltimos anos durante os quais, como herdeiro do famigerado Titi Trindade, exercera a chefia do Partido Republicano 
local. Era um homem de meia altura, corpulento e obeso, de cara redonda e cheia, cabeleira basta e espessos bigodes que negrejavam acima dos beios polpudos, dum 
vermelho que Rodrigo achava indecente. Vestia uma fatiota de brim claro, muito mal cortada, e trazia como sempre sua grossa bengala com casto de marfim. Cumprimentando 
com um sinal de cabea os amigos e correligionrios, sentou-se no lugar que lhe estava reservado na primeira fila, a pequena distncia da mesa junto da qual se haviam 
instalado os jurados. Ali ficou, de pernas abertas, o ventre tombado sobre as coxas entre as quais aninhara o bengalo. Voltou a cabea para trs e por alguns instantes 
ficou a olhar o pblico com seus olhinhos desconfiados e ao mesmo tempo autoritrios.
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  Rodrigo sentia agora uma sede desesperada. Pensava numa cerveja gelada, imaginava contra a face o contato frio do copo embaciado, sentia na boca o gosto meio amargo 
e picante da bebida e - glu-glu-glu - o lquido frio a descer-lhe pela garganta, pelo esfago, caindo-lhe no estmago como um man... Ah! Lambia os 'bios sedentos, 
revolvia-se na cadeira dura, sem encontrar posio cmoda. Via, num mal-estar, o suor escorrer pelo pescoo do homem que estava  sua frente, de colarinho empapado.
  Nova trovoada fez matraquear as vidraas da sala.
  Lao Madruga puxou um pigarro agudssimo. As sobrancelhas do promotor se ergueram, seus olhos fitaram, num misto de curiosidade e espanto, o intendente municipal.
  O julgamento finalmente comeou. E quando o juiz deu a palavra ao promotor pblico, Miguel Ruas abotoou o casaco cintado, empertigou-se e comeou a falar. Tinha 
uma voz grave, de timbre metlico, que enchia a sala, cantante e persuasiva.
  O meritssimo juiz de comarca e os senhores jurados bem sabiam que a funo do promotor no  propriamente a de, como um inquisidor implacvel, acusar sempre, 
seja 
qual for o caso. Um homem pronunciado no  necessariamente um homem culpado. Quantas vezes na histria da Justia vira-se o promotor na posio de, para ser fiel 
ao esprito da Lei e sincero consigo mesmo, pedir ou, pelo menos, insinuar a absolvio do ru?
  - Estamos perdidos - murmurou Rodrigo. - O patife do Ruas est encagaado. No vai acusar.
  Licurgo limitou-se a soltar um ronco de aquiescncia. Lao Madruga escutava, cofiando o bigodo. O ru olhava para o promotor com a fixidez duma cobra que procura 
hipnotizar um pinto.
  Rodrigo foi de sbito tomado dum nojo de tudo aquilo, daquele ambiente que cheirava a suor humano, sarro de cigarro e sangue. Sim. Toda aquela gente, o Madruga, 
seus capangas, os guardas municipais, todos tinham as mos, as espadas, as faces sujas do sangue dos homens e mulheres que haviam matado, ferido, torturado... Todos 
fediam a sangue! No havia mais salvao. Teve gana de gritar, desejou sair para a rua, respirar o ar livre, voltar
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  para casa, meter-se num banho, beber algo muito gelado e limpo... esquecer toda aquela misria.
  O promotor havia feito uma pausa. Mediu os jurados com o olhar e disse:
  - Entra hoje em julgamento Severino Romeiro, acusado de crime de homicdio. Sei que o meu caro colega, o ilustre advogado do ru, vai alegar legtima defesa...
  O genro de Madruga espantou a mosca invisvel que lhe pousara na ponta do nariz.
  - Vai alegar - continuou o dr. Ruas - que todos os depoimentos so unnimes em afirmar que Severino Romeiro matou Pedro Batista depois duma discusso durante a 
qual 
a vtima puxou duma adaga com a inteno de assassin-lo. Cinco depoimentos de pessoas que a defesa considera idneas afirmam isso. Se o caso  assim, senhores do 
conselho de sentena (e neste ponto o promotor abriu os braos, como um crucificado), no temos nenhuma dificuldade: a questo  lquida e nada mais podemos fazer 
seno mandar o ru para casa, devolver esse cidado benemrito ao convvio de seus parentes e amigos...
  - Canalha - resmungou Rodrigo. - No me entra mais no Sobrado!
  Madruga tornou a pigarrear. Sua bengala tombou com um rudo seco. Liroca teve um sobressalto. O juiz de comarca estremeceu, soergueu-se na cadeira como para fugir. 
Os guardas municipais alaram as cabeas, como cobras assanhadas.
  O promotor apontou para o ru com o indicador retesado:
  - Tudo estaria maravilhosamente claro, seria admiravelmente simples se todas essas coisas fossem verdadeiras. - Alteou a voz. - Mas no so!
  E o promotor transformou-se. No era mais o danador de foxtrotes, o macio amiguinho das moas. Seu rosto ganhou subitamente uma masculinidade antes insuspeitada, 
seus traos como que endureceram, a pele da face retesou-se sobre os maxilares; lbios e narinas palpitaram: o olhar adquiriu um brilho de ao, e de sua boca, agora
amarga, as palavras saam sibilantes e explosivas como balas:
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  - No, senhores jurados! A coisa no  assim como vai descrev-la o advogado de defesa! Na qualidade de promotor pblico quero provar, primeiro, que no houve 
legtima 
defesa, mas sim um caso puro, simples e odioso de homicdio frio e premeditado!
  Lao Madruga estava na ponta da cadeira, ambas as mos apoiadas no casto da bengala, os olhos entrecerrados, uma expresso de indignado espanto no rosto que aos 
poucos se fazia da cor de lacre.
  A comoo era geral. A atmosfera da sala estava agora carregada duma eletricidade que no vinha apenas das nuvens de tempestade.
  - Segundo - prosseguiu o dr. Ruas -, vou provar que a vtima foi morta pelas costas, notem bem, pelas costas com trs balaos. Terceiro, que ela no tinha consigo 
nem sequer um canivete, pois era pessoa de hbitos morigerados e muito querida no meio em que vivia. Quarto, que todos os cinco depoimentos que a defesa vai apresentar 
so falsos!
  O juiz olhava perdidamente para Lao Madruga, afundando cada vez mais na cadeira, como se quisesse refugiar-se debaixo da mesa.
  O promotor agora se agitava numa espcie de dana at ento desconhecida daquela gente. Saltava dum lado para outro, erguia os braos, sacudia a cabea. Disse 
que 
todo o mundo sabia que o Malacara era um assassino profissional, com vrias mortes nas costas.
  - E se me perguntardes, senhores jurados, senhor juiz, meus senhores, que testemunhas invoco, eu vos direi que invoco os cinco filhos e a mulher da vtima que 
presenciaram, 
imobilizados pelo espanto e pelo terror, a esse crime hediondo. Sim, meus senhores, provarei todas essas coisas e pedirei para esse assassino, para esse criminoso 
assalariado a pena mxima!
  Na cara dos jurados havia uma expresso de medrosa surpresa. Alguns deles tinham os olhos baixos. Mas a fisionomia do ru continuava impassvel, e seus olhos de 
rptil continuavam a fitar o promotor pblico.
  Um trovo fez estremecer as vidraas.
  173
  19
  Era mais de meio-dia quando Licurgo, Rodrigo e Torbio voltaram para o Sobrado. As mulheres os esperavam com uma pergunta ansiosa nos olhos. Rodrigo contou:
  - O promotor fez uma acusao brilhante e corajosa. Foi a maior surpresa da minha vida. Pensei que o Ruas ia se acovardar.
  - Mas o Malacara foi absolvido por unanimidade - adiantou Licurgo. -  uma vergonha!
  Torbio passou o leno pelo pescoo.
  - Quando o advogado de defesa se saiu com aquelas mentiras, tive vontade de cuspir no olho dele.
  Rodrigo, que abrira uma garrafa de cerveja, agora mamava nela a grandes sorvos.
  - No v se engasgar - recomendou Maria Valria. Naquele instante o aguaceiro desabou. Torbio tirou a camisa
  e, descalo e de bombachas, saiu para o quintal e ali ficou de cara voltada para o alto, recebendo a chuva em cheio na cara. Duma das janelas dos fundos da casa, 
Maria Valria gritou:
  - Venha para dentro, menino. A comida est servida. Durante o almoo Flora mostrou-se apreensiva. Que iria acontecer agora ao promotor?
  - Est marcado na paleta - disse Rodrigo. - No deixamos o Ruas voltar sozinho para o hotel quando o jri terminou. Levamos o homem no meio duma verdadeira escolta. 
Ele dizia: "Pelo amor de Deus, no se incomodem. No vai me acontecer nada!"
  - E tu achas que vai? - perguntou Flora.
  - Acho.
  No se enganava. Na noite daquele mesmo dia, ao sair do cinema aonde tinha ido ver uma fita de Mary Miles Minter, sua atriz predileta, o dr. Miguel Ruas foi espancado 
por dois desconhecidos. Contava-se que a coisa tinha acontecido com uma rapidez de relmpago. Dois homens no-identificados o haviam agarrado
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  a uma esquina da rua do Comrcio, arrastando-o para uma transversal onde a iluminao era precria. E os que passavam nas proximidades naquele momento ouviram 
gritos, 
gemidos e o rudo de golpes, seguidos dum silncio. Encontraram o promotor cado na sarjeta, sem sentidos, com o rosto e a roupa cobertos de sangue.
  Rodrigo e Torbio levaram-no para o Sobrado, onde o dr. Carbone lhe fez os primeiros curativos. Tinha duas costelas quebradas e um p deslocado, alm de equimoses 
generalizadas por todo o corpo, principalmente no rosto. Uma mancha arroxeada circundava-lhe o olho esquerdo, cuja plpebra, bem como os lbios, havia inchado assustadoramente. 
Estava irreconhecvel. Ao v-lo, Flora desatou a chorar. Levaram-no para o quarto de hspedes. Rodrigo mandou buscar as malas do promotor no hotel, dizendo: "Ele 
s sai daqui curado, direito para a estao. Ou ento fica dentro do Sobrado enquanto durar essa situao e s voltar para o hotel no dia em que o Chimango sair 
do Palcio do Governo e ns tirarmos o Madruga da Intendncia a rabo-de-tatu".
  Estava indignado, imaginava represlias: armar os amigos e correligionrios, correr  casa do strapa municipal e liquidar a histria duma vez. Pensava tambm 
em 
gestos romnticos: desafiar o intendente para um duelo, a pistola ou a espada, como ele quisesse...
  Quando Miguel Ruas recuperou os sentidos e pde falar, Rodrigo estava ao p da cama.
  - Quem foi? - perguntou o promotor.
  - Capangas do Madruga.
  -  grave?
  - Grave, no, mas o dr. Carbone diz que tens de ficar de cama por umas trs ou quatro semanas.
  O promotor cerrou os olhos. Depois pediu um espelho, mirou-se nele e, voltando-se para Rodrigo, disse algo que o deixou estarrecido.
  - Vou perder o rveillon do Comercial. Que pena! Tinha mandado fazer um smoking especialmente para esse baile!
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  Sentado  mesa do consultrio, Rodrigo amassou o jornal e, num gesto brusco, atirou-o ao cho, erguendo depois os olhos para o dr. Carbone, que acabara de entrar.
  - Algum infortnio, carino?- perguntou o cirurgio. Vinha da sala de operaes e trazia o avental branco todo manchado de sangue.
  Rodrigo sacudiu a cabea negativamente. O italiano olhou para o nmero d'A Federao que estava a seus ps e sorriu, sacudindo a cabea. Acendeu um cigarro, sentou-se 
e com a primeira baforada de fumaa soltou um longo suspiro sincopado.
  - Ah! Que manhfica, fortunatssima operao! Uma laparotomia.
  Baixinho, franzino, barbudo e ensangentado, parecia um gnomo que acabara de carnear um gigante. Como quem recita um belo poema, comeou a contar mincias da operao 
que praticara havia poucos minutos. E a descrio foi to vvida e apaixonada, que Rodrigo teve a impresso de que as vsceras do operado rolavam visguentas pelo 
soalho. Por que o homenzinho no tirava o avental sujo de sangue? Que mrbido prazer parecia sentir aquele carniceiro em ruminar a operao! O pior era quando ele 
surgia com boies cheios de lcool contendo apndices supurados, pedaos de estmagos e tripas, e at fetos. E era por causa de coisas assim que Rodrigo recusava 
os convites que os Carbone repetidamente lhe faziam para jantares, pois sabia que aquelas mos que abriam ventres humanos e remexiam vsceras eram as mesmas que 
preparavam o cabrito alia cacciatora e os fetuccini. O diabo do gringo cozinhava com a mesma volpia e habilidade com que operava.
  Os olhos de Rodrigo estavam fitos no jornal, e ele j no escutava mais o palavrrio do cirurgio. Pensava ainda com despeito e uma raivinha fina em que mais uma 
vez A Federao silenciava sobre seu gesto de rebeldia na Assemblia. O Collor era mesmo um sujeito implicante! Desde que pronunciara seu discurso contra Borges 
de Medeiros, renunciando  deputao, Rodrigo esperava que o rgo oficial do Partido Republicano assestasse as baterias
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  contra ele, dando-lhe a oportunidade, que tanto desejava, para um debate pblico. Mas qual! A Federao limitara-se a transcrever parte de seu discurso, como era 
de praxe. Nada mais. Abstivera-se de fazer qualquer comentrio ao fato, como se a defeco pblica e. ruidosa dum deputado governista em plena campanha eleitoral 
no tivesse a menor importncia. Collor martelava todos os dias o candidato da oposio, em editoriais cuja boa qualidade muito a contragosto Rodrigo tinha de reconhecer. 
Num deles chamara a Assis Brasil "candidato bifronte", pois que tendo sido sempre presidencialista, agora o castelo de Pedras Altas se travestia vagamente de parlamentarista, 
para coonestar sua candidatura maragata  presidncia do Estado.
  Carbone explicava agora ao amigo a razo por que sangue no lhe causava repugnncia. Achava que Rodrigo, como a grande maioria das pessoas, tinha medo s palavras. 
Para vencer esse temor supersticioso, o melhor remdio era recitar todos os dias pela manh - antes do caf, se possvel - as palavras ou frases mais tremendas, 
como por exemplo "Morrerei hoje, serei enterrado amanh, estarei putrefato depois d'amanh" ou "Quem me dera um bom tumor maligno no crebro!" ou ainda: "Passarei 
o resto de meus dias paraltico, hemiplgico e cego de ambos os olhos". Aconselhava, como um requinte, que o paciente em vez de recitar cantasse essas frases com 
a msica de alguma ria de pera. Porque o dr. Carlos Carbone achava que o essencial era perder o medo a vocbulos e frases que, na sua opinio, eram como que faanhudos 
ces de guarda dos fatos, das coisas e das idias. O diabo no  to feio como se pinta. A palavra tracoma talvez seja mais terrvel que o tracoma propriamente dito. 
H criaturas que, sendo incapazes de pronunciar ou escrever a palavra puta (to natural em tantas lnguas!), aceitam a existncia da prostituio como coisa natural 
e s vezes at se servem dela. Porque - tu sabe, carino - o que importava era quebrar o encanto das palavras, enfrentar esses monstrinhos de nossa prpria inveno, 
tratar de debilit-los, tornando-os inofensivos. Uma vez transposto o muro que a linguagem ergue entre ns e as coisas que representam, poderemos abraar, aceitar 
a vida, sem temor nem repugnncia.
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  Carbone fizera toda a guerra como coronel-mdico do Exrcito italiano. Muitas vezes tivera de operar dentro de casamatas sob intenso bombardeio, ou a cu aberto, 
a menos de um quilmetro da linha de fogo. Tivera assim a oportunidade de analisar-se diante do perigo, descobrindo, a duras penas, que lhe era mais fcil dominar 
o medo e fazer cessar o tremor das mos quando enfrentava os fatos - o ribombo do canho, o sibilar das balas, o estouro das granadas - sem o auxlio de palavras 
como perigo, morte, sangue, mutilao, dor...
  - Que coisa te sucede? - perguntou Carbone, pondo-se de p, num pulo, como um boneco de mola, ao perceber que o amigo no prestava a menor ateno ao que ele dizia.
  Rodrigo contou-lhe por que estava irritado e terminou com estas palavras:
  - O Collor est me cozinhando em gua fria.
  - Mas qu! - animou-o o cirurgio, aproximando-se do outro e tocando-lhe o ombro. Rodrigo encolheu-se e gritou:
  - No te encostes em mim, Carbone. Ests com o avental imundo!
  O cirurgio soltou sua risada empostada e musical em a aspirado.
  - O horror ao sangue! Descendente de guerreiros e degoladores e com medo de sangue!
  Tirou o avental, fez com ele uma bola e, abrindo a porta do consultrio, atirou-o para o corredor. Rodrigo tamborilava na mesa com o porta-papel. O italiano, que 
recendia a desinfetante, tornou a aproximar-se.
  - Pensa, carino, na gr carta que te escreveu Assis Brasil. Isso  que vale.
  - Sim - concordou Rodrigo. O grande homem lhe escrevera uma bela carta felicitando-o pelo "gesto de to grande desassombro cvico    e agradecendo-lhe pela solidariedade 
poltica. Mas o que ele, Rodrigo, queria era que A Federao fizesse um grande rudo em torno do caso, atacando-o pessoalmente em editoriais, para darlhe o ensejo 
de responder pela ltima Hora ou na "Seo Livre" do Correio do Povo, com grande proveito para a causa da oposio.
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  - Ah! - exclamou de repente. - Antes que me esquea. Vou mandar imprimir boletins de propaganda em italiano, para distribu-los em Garibaldina. Vamos, Carbone. 
Pega 
esse lpis. Eu dito em portugus e tu traduzes a coisa para lngua de gringo. Aqui, usa o meu bloco de papel de receitas. Pronto?
  - Prontssimo.
  - Ao bravo eleitorado de Garibaldina. Carbone comeou a escrever. Rodrigo continuou:
  - Aproxima-se o dia decisivo... No. Espera...
  O outro ergueu a cabea. Seus olhinhos vivos como mercrio fitaram o amigo. Sob os bigodes castanhos, os lbios muito vermelhos descobriam os dentes fortes e amarelados.
  -  um desaforo. Afinal de contas, se estamos no Brasil, por que havemos de imprimir esse boletim em italiano?
  Carbone ergueu-se.
  - Bravo!
  - Temos de ir l numa caravana e fazer um comcio com discursos em portugus. E vamos tambm a Nova Pomernia. Vai ser duro. O pessoal da colnia est atemorizado.
  Do corredor veio uma voz de mulher:
  - Cario! Cario!
  Dona Santuzza, a esposa do cirurgio, irrompeu no consultrio. Foi uma perfeita entrada em cena de prima-dona opertica. Rodrigo sorriu, imaginando Carbone a atirar-se 
l
sobre ela, soltando um d de peito.
  -  malato sta rnale - disse ela, ofegante. Alta, corada, de grandes seios, era um mulherao.
  - Ma che malato?
  - Quello che hai operato ieri. II tedesco... Carbone deu uma palmada na prpria testa.
  - Accidenti! - exclamou. E precipitou-se para o corredor acompanhado pela mulher.
  Rodrigo apanhou o chapu e saiu, rumo do Sobrado, pensando em que era preciso comear os comcios nos distritos.
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  21
  Naqueles dias o Comit Pr-Assis Brasil de Santa F organizou vrias caravanas de propaganda, que percorreram vrios distritos do municpio. Em Garibaldina tiveram 
apenas oito pessoas no comcio. Enquanto Rodrigo discursava, atacando em altos brados Borges de Medeiros e Lao Madruga - Torbio, Chiru, Neco, trs dos Amarais 
e cinco dos Macedos machos montavam guarda ao redor dele, cotm as mos praticamente no cabo dos revlveres, pois os capangas da situao rondavam o grupo, rosnando 
provocaes.
  Em Nova Pomernia, onde Jos Kern comeava a ser uma figura de importncia econmica e social, Rodrigo perdeu a pacincia quando o teuto-brasileiro lhe disse: 
"O 
senhor no faz comcio aqui porque a gente no somos polticos. O que queremos  trabalhar em paz".
  - Alemo patife! - berrou Rodrigo, segurando o outro pelas lapelas do casaco, como se quisesse ergu-lo no ar. - Ns fazemos comcio nesta merda de colnia  hora 
que quisermos, com ou sem o teu consentimento, ests ouvindo, cago?
  Largou o outro com uma careta de nojo, dirigiu-se para a praa, subiu para o automvel de tolda arriada que os trouxera, e dali comeou a convocar os colonos em 
altos brados. Quem tivesse vergonha, que fosse macho que viesse ouvi-lo! Os castrados, os covardes que ficassem em casa debaixo das saias das mulheres. Dois ou trs 
colonos aproximaram-se, tmidos. Alguns ficaram olhando de longe, s esquinas ou debruados nas janelas de suas casas. Um sujeito magro e louro acercou-se de Rodrigo 
e disse:
  - O subdelegado mandou pedir para os senhores irem embora imediatamente seno ele manda dissolver o comcio a bala.
  Rodrigo gritou:
  - Pois que mande! Que venha!
  O nico maragato que existia em Nova Pomernia veio pouco depois contar-lhes que alguns colonos possuam fuzis Mauser e estavam prontos para atirar, a uma ordem 
do subdelegado.
  Torbio queria comear logo o entrevero. Rodrigo consultou os amigos. Juquinha Macedo opinou:
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  Se vocs querem ficar e agentar o repuxo, eu fico. Mas
  acho que  loucura. Estamos em minoria e em posio desvantajosa. Essa alemoada pode nos comer na bala facilmente...
  De cara fechada Rodrigo sentou-se no automvel com os companheiros e deu sinal de partida. O Ford arrancou. Postado a uma esquina, as pernas abertas e a cabea 
erguida, 
um "bombachudo" soltou uma risada e gritou:
  - J se afrouxaram os assisistas!
  Torbio saltou do carro, correu para o homem e derrubou-o com um pontap na boca do estmago. Depois voltou para o automvel, que afrouxara a marcha, e pulou para 
dentro, dizendo:
  - Toca essa gaita!
  Ficou de cabea voltada para trs, rindo, vendo o grupo que aos poucos se formava em torno do homem que ele derrubara, e que se retorcia no cho, apertando o estmago 
com ambas as mos.
   medida que se aproximava o dia das eleies, o nervosismo aumentava em Santa F. Na Intendncia o entra-e-sai era interminvel, e havia sempre cavalos encilhados 
no seu ptio. Nas horas mais inesperadas foguetes subiam ao ar e estouravam sobre a cidade alvoroada. Curiosos corriam para a praa, e l estava  frente do palacete 
municipal o ltimo telegrama pregado num quadro-negro. "Mentiras!" - exclamava Rodrigo. "Infmias!"
  Abandonara por completo o consultrio, entregando a Casa de Sade aos Carbone e a farmcia ao Gabriel. Passava horas no poro do Sobrado com Aro Stein, tratando 
de preparar novos nmeros d'O Libertador ou imprimindo boletins que Torbio, Neco, Chiru e outros correligionrios saam a distribuir pela cidade. Chiru andava exaltado, 
e no havia dia em que no repetisse: "Parece o tempo da campanha civilista, hein, Rodrigo?"
  O coronel Barbalho no aparecia mais no Sobrado. Escrevera uma carta a Rodrigo dizendo que, em vista dos acontecimentos polticos, achava prudente recolher-se, 
pois 
como militar tinha a obrigao de manter-se neutro. Mas Rodrigo, a quem a paixo poltica tornava intolerante, achava que naquela questo no havia lugar para a 
neutralidade. Entre a ditadura e a democracia, entre a
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  arbitrariedade e a Lei, entre o banditismo e a justia no podia haver vacilaes: todo o homem de bem tinha de tomar posio ao lado do assisismo. A farda no 
devia 
servir de desculpa. Afinal de contas, na questo contra Bernardes no havia o Exrcito tomado partido?
  Cuca Lopes agora evitava Rodrigo, com medo de comprometer-se. (Votava sempre com o governo.) Cumprimentava o amigo de longe, com acenos frenticos, mas no se 
aproximava 
dele, temendo ser interpelado. Quando o avistava na rua dobrava esquinas, escafedia-se para dentro de lojas, quase em pnico. Um dia Marco Lunardi, vermelho e desconcertado, 
abraou Rodrigo, lanando para um lado e outro olhares assustados. "Me desculpe, dr. Rodrigo, mas o senhor sabe, de corao estou com os assisistas, mas no posso 
me manifestar seno o intendente me esculhamba o negcio, porca misria!" Rodrigo assegurou ao amigo que compreendia a situao. Virou-lhe as costas e deixou-o no 
meio da calada, sem lhe apertar a mo.
  Licurgo tambm se ia aos poucos apaixonando pela causa, mas  sua maneira concentrada e taciturna. Se Rodrigo se consumia numa labareda, o Velho ardia como uma 
brasa coberta de cinza mas nem por isso menos viva. Rodrigo, entretanto, observava que o pai ainda sentia certo constrangimento por estar do lado dos maragatos naquela 
campanha. Afinal de contas habituara-se a v-los como inimigos.
  Alguns dos veteranos da Revoluo de 93 ainda guardavam profundos rancores partidrios. Contavam-se histrias que davam uma idia dessa rivalidade, dessa malquerena 
mtua entre republicanos e federalistas. Muitos maragatos, depois de sua derrota em
1895, haviam emigrado para o Uruguai, para o Paraguai ou para a Argentina, preferindo o exlio  vida na querncia sob o domnio do castilhismo. Uma das histrias 
mais curiosas do folclore poltico de Santa F dizia respeito a um federalista fantico que, ao voltar vencido da revoluo, meteu-se em casa, e durante quase vinte 
anos no saiu  rua, "para no ver cara de pica-pau". Vivia sozinho, sem criados nem amigos. Morreu, presumivelmente, dum colapso cardaco, mas s muitos dias depois 
 que se descobriu o fato. Um
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  vizinho, alertado pelo mau cheiro que saa da casa do solitrio, chamou o delegado de polcia, que arrombou a porta. Encontraram o corpo do maragato sentado em 
uma 
cadeira de balano, j putrefato e coberto de moscas, a cabea cada para um lado, a cuia de chimarro e a chaleira a seus ps. Tinha, enrolado no pescoo, um leno 
encarnado...
  Licurgo agora era obrigado a comparecer s reunies do Comit do qual era presidente, e sentar-se  mesa com Alvarino Amaral, o chefe maragato que em 1895 cercara 
o Sobrado com suas foras, e abrira fogo contra ele e os membros de sua famlia.
  A princpio Licurgo recusou-se a apertar a mo do velho adversrio, e durante as sesses no lhe dirigia a palavra nem sequer o olhava. Alvarino, ansioso por fazer 
as pazes com o senhor do Sobrado, procurava por todos os meios agrad-lo. Como com o correr dos dias os ataques dos governistas, cada vez mais violentos e pessoais, 
envolvessem nos mesmos insultos e calnias tanto os Macedos como os Cambars e os Amarais, Licurgo - segundo observava Rodrigo - ia achando cada vez menos penoso 
aceitar os maragatos como companheiros de luta. E como uma noite, na casa do Juquinha Macedo, Alvarino lhe estendesse a mo, ele a apertou rapidamente, sem encarar 
o desafeto. Durante essa reunio chegaram at a trocar, embora um pouco bisonhos, meia dzia de palavras.
  Mais tarde, a caminho da casa em companhia dos dois filhos, Licurgo quebrou o seu silncio para dizer:
  - Tive de apertar a mo daquele indivduo. Afinal de contas estamos hoje do mesmo lado... Foi um sacrifcio que fiz pela causa. Mas uma coisa vou pedir aos senhores. 
No me convidem esse homem para entrar no Sobrado, porque isso eu no admito.
  Fosse como fosse, j agora se podia ler e comentar em voz alta no Sobrado o Antnio Chimango, o poema campestre com que, sob o pseudnimo de Amaro Juvenal, Ramiro 
Barcelos satirizara Borges de Medeiros.
  Um dia, aps o almoo, olhando para o retrato do presidente do Estado que A Federao estampara em sua primeira pgina, Rodrigo recitou:
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  Veio ao mundo to flaquito To esmirrado e chochinho Que ao finado seu padrinho Disse, espantada, a comadre: "Virgem do cu! Santo Padre! Isto  gente ou passarinho?"
  - Acho que  passarinho! - disse Torbio, soltando uma risada. Flora olhou apreensiva para o sogro e ficou surpreendida por v-lo sorrir.
  Licurgo costumava ler assiduamente A Federao, da qual era assinante desde o dia de seu aparecimento. Depois que rompeu com o Partido Republicano recusava-se 
at 
a tocar no jornal com a ponta dos dedos. Era, porm, com esprito rigorosamente crtico e no raro com impacincia que lia O Libertador, cujos editoriais haviam 
perdido o tom elevado dos primeiros nmeros para se tornarem agora violentamente panfletrios como os 'A Voz da Serra. Licurgo gostava, isso sim, das transcries 
que Rodrigo fazia no seu jornalzinho dos manifestos, discursos e artigos doutrinrios de Assis Brasil.
  - Esse homem sabe o que diz - comentava -,  um estadista de verdade. No ataca ningum, tem idias, critica a Constituio de  14 de julho, quer o voto secreto. 
No est contra as pessoas, mas contra os erros.
  Rodrigo discordava. Na sua opinio os erros no andavam no vcuo: corporificavam-se em pessoas que com eles contaminavam o povo. Era possvel combater a lepra 
sem 
isolar os leprosos?
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  Eram quase sete horas da noite quando Aro Stein acabou de imprimir o ltimo nmero d'O Libertador. Estava em mangas de camisa, com o rosto reluzente de suor e 
lambuzado 
de tinta.
  Roque Bandeira, que chegara havia pouco para visitar o amigo, caoou:
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  - Assalariado da burguesia!
  Stein fitou no recm-chegado os olhos verdes e disse:
  - Podes rir enquanto  tempo, porque um dia vir o ajuste de contas.
  Bandeira tirou o casaco, acendeu um cigarro e sentou-se. O poro era de terra batida e mida e cheirava a mofo. Apenas uma lmpada eltrica, nua e triste, pendia 
do teto. Junto das paredes corriam ratos furtivos.
  - Vejo nisto tudo um smbolo. O Sobrado  a sociedade capitalista. E tu, o agente bolchevista, trabalhas no subsolo, solapando os alicerces do sistema. Que tal 
a 
imagem?
  - Faz a tua literatura, Roque, no h nenhum mal nisso. Faz a tua ironia se a coisa te diverte. Mas chegar a hora em que todo o  mundo  ter de  falar srio, 
tomar 
uma posio,  inclusive  tu mesmo.
  Tio Bicho soltou uma baforada de fumaa, olhou em torno e disse:
  - Ouvi dizer que o homem que construiu esta casa, o bisav ou coisa que o valha do velho Licurgo, uma vez matou um de seus negros a bordoadas e depois mandou enterrar 
o cadver aqui.
  Olhou para o cho como se buscasse localizar a sepultura do escravo.
  - Acho melhor que me ajudes a dobrar estes jornais - disse Stein. - Mas cuidado, que a tinta ainda no secou.
  Roque comeou a trabalhar, lento, com o cigarro preso aos lbios.
  - Em 95 - continuou ele - uma filha recm-nascida do velho Licurgo tambm foi enterrada aqui, dentro duma caixa de pessegada... Como o Sobrado estava cercado pelos 
maragatos, no puderam levar o cadver da criana para o cemitrio...
  - Est bem. Isso  histria antiga. Tio Bicho sorriu.
  - Queres dizer que ns estamos fazendo a histria moderna, no?
  Meio distrado, o outro replicou:
  - E por que no?
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  Depois duma pausa curta, Bandeira tornou a falar:
  - Vais ento herdar esta tipografia...
  Stein fez com a cabea um sinal afirmativo. Tinha j na sua frente uma pilha de jornais dobrados.
  - Sem remorsos?
  O judeu voltou o rosto para o amigo.
  - Por que havia de ter remorsos?
  - Ora, Rodrigo vai te dar de presente as armas com que atacars a classe a que ele pertence...
  Stein encolheu os ombros.
  - Ele sabe. No escondi as minhas intenes. Deves compreender que o dr. Rodrigo no me leva a srio ou, melhor, a burguesia no nos leva a srio. Acham que estamos 
brincando.
  -  nisso que est toda a vantagem de vocs: a irresponsabilidade nacional. Oh! somos todos bons moos, nada  srio, ningum mata ningum, o pas foi descoberto 
por acaso, a abolio decretada porque a princesa Isabel tinha bom corao, a Repblica proclamada porque empurraram o Deodoro.  Tudo termina em abraos, em carnaval... 
porque  sabido que brasileiro tem bom corao...
  Stein parecia escut-lo sem interesse.
  - Vou te dizer uma coisa, Bandeira. Componho e imprimo estes artigos de jornal e boletins como se tudo fosse literatura infantil, sabes? Contos da carochinha. 
 
por isso que fao este trabalho sem problemas de conscincia.
  - Em suma, todos os meios servem a vocs, contanto que levem  ditadura do proletariado, no?
  - E por que no? "Um comunista deve estar preparado para fazer todos os sacrifcios e, se necessrio, recorrer mesmo a toda espcie de estratagema, usar mtodos 
ilegtimos, esconder a verdade, a fim de penetrar nos sindicatos e permanecer neles, levando avante a obra revolucionria." Sabes quem escreveu isto? Lnin.
  - De sorte que para vocs no existe tica nem moral...
  - Claro que existe. S que nada tem a ver com a tica e a moral da burguesia. Nossa moral e nossa tica esto a servio da causa do proletariado, da luta de classes. 
Em suma, para ns 
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  moral e tico tudo o que nos ajudar a destruir o regime capitalista explorador, a unir o proletariado do mundo e, conseqentemente, a criar a sociedade comunista 
do futuro. No te parece lgico? Roque cuspiu fora o toco de cigarro.
  - No estou certo disso...
  - Tu no ests certo de nada. Esse  o teu mal. A indeciso.
  -  que tu assumes uma atitude meramente poltica e histrica, ao passo que eu me preocupo tambm com problemas filosficos
  - A filosofia que se dane!
  Roque comeou a rir seu risinho de fundo de garganta, que tanto irritava o outro.
  Ambos ouviam agora um rudo surdo de passos no andar superior. Vozes indistintas chegavam at o poro.
  - O Comit est reunido l em cima - murmurou Stein com um sorriso de desdm. - J reparaste na linguagem dessa gente? Falam como se Assis Brasil, esse plutocrata 
pedante, fosse um campeo das liberdades populares. Mas que  que se vai fazer? Precisamos ter pacincia. No  apenas a natureza que no d saltos. Tambm a histria, 
s vezes, anda devagar.
  Roque acendeu novo cigarro e mirou o amigo com seus olhinhos cpticos.
  23
  O Comit havia decidido promover um grande comcio em Santa F, a 15 de novembro, dez dias antes da data das eleies. Ia ser o ltimo: devia ser o maior, o mais 
vibrante de todos. Assis Brasil prometera tomar parte nele. Ficara decidido que a reunio seria na frente do Sobrado e que os oradores falariam da sacada do segundo 
andar.
  A propaganda iniciou-se, intensa, atravs d'O Libertador e de boletins.
  Na vspera do grande dia, Chiru Mena apareceu no Sobrado com um boato.
  187
  - Dizem que a revoluo vai rebentar em todo o pas esta madrugada. O Exrcito no vai deixar o Bernardes tomar posse. Nossa guarnio federal est de prontido 
rigorosa.
  - Qual! - disse Licurgo. - O homem toma posse e no acontece nada.
  - Mas  uma desmoralizao! - vociferou Chiru. Rodrigo apertou-lhe o brao.
  - Escuta, idiota. - No compreendes que se a chimangada roubar nas eleies, como  de se esperar, e ns tivermos de fazer uma revoluo,  melhor que o Bernardes 
e no outro esteja na presidncia?
  Chiru no compreendia.
  - Tu no sabes ento, cretino, que ele e o Borges no se gostam?
  - Ah!
  - Pois ento deixa de andar com boatos. Agarra aqueles boletins e vai fazer a distribuio. Desce pela Voluntrios da Ptria. O Bio e o Neco j seguiram pela rua 
do Comrcio. Raspa!
  A manh seguinte reservava-lhes uma decepo. Assis Brasil comunicou por telegrama ao Comit que infelizmente no poderia estar presente ao comcio como esperava 
e desejava, pois tinha compromissos inadiveis em outras cidades.
  Rodrigo explodiu:
  - Pois que v pr inferno! Como  que esse pelintra tem tempo para ir a Cruz Alta e Passo Fundo? Ser que acha Santa F menos importante que os outros municpios? 
Pois faremos comcio sem ele!
  Juquinha Macedo tratou de acalm-lo:
  - No h de ser nada, companheiro! - E, abraando-o, acrescentou: - C para ns, com o Assis ou sem o Assis quem vai ser mesmo o trunfo do comcio  o dr. Rodrigo 
Cambar. Deixa de modstia. Quando abrires o tarro o dr. Jlio de Castilhos vai estremecer na sepultura!
  Licurgo, que entreouvira a ltima frase, resmungou:
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  - O senhor podia deixar o dr. Castilhos fora desse negcio, no acha?
  Miguel Ruas - que fora obrigado a deixar crescer a barba, pois lhe era doloroso passar a navalha nas faces feridas - continuava no seu quarto, estendido na cama, 
lamentando no poder tomar parte ativa no comcio. Naqueles dias fora oficialmente notificado de sua transferncia para a comarca de So Gabriel. Viu nisso o dedo 
imundo de Lao Madruga. "No vou!" - decidiu. E pediu demisso do cargo.
  Boatos fervilhavam na cidade. Dizia-se que o intendente estava preparando seus capangas para dissolver o comcio a bala.
  - Que venham! - dizia Rodrigo. - Estamos prontos para tudo.
  E estavam mesmo. Ao anoitecer distribuiu por toda a casa homens armados de revlveres e Winchesters. Durante o comcio ficariam dois em cada janela e quatro na 
gua-furtada. 
Destacou cinco companheiros para se esconderem em vrios pontos da praa, a fim de darem o alarma, caso os bandidos de Madruga se aproximassem do Sobrado. Uns vinte 
outros correligionrios bem armados e municiados permaneceriam no quintal do Sobrado durante o comcio, prontos a entrarem em ao, no caso de Lao Madruga levar 
a cabo suas ameaas.
  Ao ver tantos homens nos fundos da casa a tomarem mate e a churrasquearem fora de hora, alguns deitados sobre os arreios, outros trovando ao som de cordeonas, 
Maria 
Valria suspirou e disse a Flora:
  - Um verdadeiro acampamento. Parece at que a revoluo j comeou.
  - Credo, Dinda! Que Deus nos livre e guarde!
  24
  s oito e meia da noite a banda de msica civil, a Euterpe Santa-Fezense, entrou na praa ao som do dobrado O bombardeio
  189
  da Bahia, encaminhou-se para o Sobrado e ficou a tocar na frente do casaro, onde j se havia reunido um bom nmero de pessoas, em sua quase totalidade do sexo 
masculino. 
Os sons da charanga enchiam festivamente o largo e o bombo ribombava, parodiando tiros de canho. A noite estava quente. Vinha dos jasmineiros das redondezas um 
ativo perfume que dava ao ar uma qualidade doce e densa de xarope. O grande porto de ferro do Sobrado estava aberto, e atravs dele podia-se ver o movimento do 
quintal, onde haviam acendido uma fogueira, a cujo claro de quando em quando avultava a figura espectral do velho Srgio, o "Lobisomem", que estava encarregado 
de soltar foguetes.
  O dobrado cessou. A multido aumentava. Do outro lado da praa, as janelas da Intendncia estavam iluminadas. Pitombo fechara toda a casa, para no se comprometer. 
Vultos caminhavam por entre as rvores. Besouros e mariposas esvoaavam em torno dos grandes focos de luz que havia em cada ngulo da praa, na ponta de altos postes. 
Rodrigo consultou o relgio. Aproximava-se a hora... Estava inquieto, ansioso por saber se Madruga teria ou no o topete de dissolver o comcio a bala.
  A banda de msica rompeu de novo a tocar: a Marcha do capito Casula. Rodrigo no podia ouvi-la sem sentir um calafrio patritico. Apertou o brao de Torbio e 
murmurou:
  - Estou que nem noiva na hora do casamento...
  - Olha s a cara do pai da noiva - disse Torbio mostrando com os olhos o velho Licurgo que, a um canto da sala, mastigava nervoso o seu cigarro.
  Cerca das nove horas era j considervel a multido que se congregava na frente do Sobrado. Ouviram-se os primeiros vivas. A um sinal de Rodrigo o negro Srgio 
comeou 
a soltar no quintal os primeiros foguetes. Abriria o comcio o filho mais velho de Juquinha Macedo, recm-formado em direito.
  Rodrigo tomou-lhe o brao e conduziu-o at o andar superior. O jovem advogado pigarreava, nervoso.
  Quando ambos apareceram na sacada, a multido prorrompeu em aplausos e vivas. Rodrigo fez um sinal para o maestro da banda: uma pancada de bombo ps fim  msica.
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  O orador primeiro mediu o pblico com o olhar, e depois
  comeou:
  - Meus concidados! Povo livre de Santa F!
  Bravos e vivas subiram da turba, como projteis atirados contra o advogado que, com voz dramtica, prosseguiu:
  - Aqui estou para atender a um chamado de minha conscincia de gacho, e a um dever cvico de que nenhum homem de honra poder fugir. Aqui estou para colaborar 
convosco 
nesta luta generosa em prol do direito e da justia, contra a tirania e a opresso!
  Novos gritos interromperam o orador durante alguns segundos. Quando o silncio se restabeleceu, o jovem Macedo entrou na enumerao dos "desmandos do borgismo". 
Causou grande sensao a parte de seu discurso em que descreveu, com vigor realista, as violncias e banditismos praticados nas ruas de Porto Alegre pelo famigerado 
piquete de cavalaria da Brigada Militar, que tantas vezes fora atirado pelo ditador contra o povo indefeso, como se "pata de cavalo, ponta de lana e fio de espada 
pudessem fazer calar a voz da justia e da liberdade!"
  Neste ponto ouviram-se vivas estentreos, ergueram-se chapus, lenos vermelhos tremularam no ar.
  Ao lado do orador, Rodrigo, impaciente, caminhava dum lado para outro, nos estreitos limites da sacada. O suor escorria-lhe pelo rosto, pelo pescoo, pelo dorso, 
empapando-lhe a camisa. Olhou para a torre da matriz e um sbito temor o assaltou. E se algum chimango safado entrasse agora na igreja e comeasse a bater o sino 
para impedir que o orador fosse ouvido? No teria ocorrido ao Madruga esse recurso sujo? No lhe seria difcil fazer um de seus homens penetrar clandestinamente 
no campanrio... Os olhos de Rodrigo agora estavam fitos na Intendncia, onde se notava um movimento desusado para a hora. Iriam os bandidos tentar mesmo alguma 
coisa contra o comcio?
  Quando o advogado terminou sua orao ("s urnas, pois, companheiros de ideal, para a vitria da nossa causa, que  a causa mesma do Rio Grande!"), a msica rompeu 
a tocar um galope e durante cinco minutos o largo se encheu de aclamaes. Rodrigo
  191
  abraou o orador. Licurgo, a uma janela do primeiro andar, pitava o seu cigarro, olhando a multido com olho cptico. E Torbio, que detestava discursos, naquele 
momento tomava uma cerveja gelada com os companheiros que estavam de guarda na gua-furtada. Maria Valria e Flora achavam-se ainda na cozinha a preparar as comidas 
e os doces para a recepo que se seguiria ao comcio.
  Falaram a seguir dois oradores: um deles, neto de Alvarino Amaral, acadmico de medicina, disse do que aquela campanha libertadora representava para os estudantes 
livres do Rio Grande do Sul. O outro orador, um velho federalista de Santa F, invocou a figura de Gaspar Martins, e terminou o discurso com uma frase do conselheiro: 
"Idias no so metais que se fundem!"
  Urros e lenos vermelhos ergueram-se da multido.
  Chegou finalmente a vez de Rodrigo Cambar, que primeiro passeou os olhos pela praa ("Se o sino comea a tocar, m'estragam o espetculo"), depois baixou-os para 
o povo. Inflando o peito, entesando o busto, agarrou a balaustrada com ambas as mos, inclinou-se para a frente e, segundo uma expresso muito a gosto do Chiru, 
"soltou o verbo".
  - Meus conterrneos! Queridos e leais amigos! Aqui nesta praa, h quase noventa anos, a voz dum Cambar ergueu-se contra a tirania, a injustia, a ditadura e 
a 
opresso.
  Algum gritou: "Muito bem!" - e a multido soltou um urro unssono.
  - E aqui nesta mesma praa - continuou o orador - esse mesmo Cambar, que por uma coincidncia feliz e honrosa para mim tinha tambm o prenome de Rodrigo, derramou 
o seu sangue e perdeu sua vida em holocausto  causa da justia e da honra, que ento, como hoje, era a causa sagrada da liberdade!
  Novos vivas e aplausos. Licurgo voltou-se para Aderbal Quadros, que estava agora junto da janela, a seu lado, e murmurou:
  - Por sinal o outro Rodrigo foi morto por gente desses Amarais, l naquela casa do outro lado da praa...
  - Mas nesse mesmo ataque - replicou Babalo - foi morto tambm um Amaral...
  Quando as aclamaes cessaram, Rodrigo prosseguiu:
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  - Nos tempos hericos de 35 era o governo federal que queria espezinhar o Rio Grande, lanando-o ao vilipndio, forando-o a uma situao subalterna e indigna. 
Hoje 
quem nos vilipendia e achincalha  um coestaduano nosso que, esquecido de seu passado de lutas e ideais, de sua f de ofcio de republicano histrico, quer impor 
sua reeleio ilegal, indecente e indesejvel, arvorando-se em ditador dum Estado msculo e brioso como o nosso, que nunca tolerou tiranos, que nunca suportou injustias, 
que jamais se curvou diante de invasor!
  No momento exato em que o orador terminava de pronunciar a palavra invasor, interrompeu-se de repente a corrente eltrica e a cidade inteira ficou s escuras.
  Partiram da multido gritos que exprimiam surpresa, susto e indignao. Algumas pessoas embarafustaram em fuga pelas ruas adjacentes. O pnico parecia iminente. 
Pressentindo-o, Rodrigo berrou:
  - Ateno, meus amigos! Ateno por favor! O ridculo intendente municipal est enganado conosco. Pensa que isto  um comcio de crianas e no de homens, e quer 
assustar-nos com a escurido. - E, num tom gaiato, exclamou: - Que siga o fandango no escuro mesmo, minha gente!
  Risadas e aplausos. Algum bradou do meio da turba:
  - A escurido  um smbolo do borgismo.
  - Apoiado! Muito bem! Viva o dr. Assis Brasil! Abaixo o Chimango!
  Rodrigo ergueu o brao para o cu, procurou a lua mas no a encontrou... Tinha j engatilhado um frasalho em que chamaria  lua "Lanterna de Deus".
  - A luz das estrelas - gritou - essa nenhum chimango pode apagar. Porque a luz dos astros  a luz de Nosso Senhor e portanto a luz da justia, que h de iluminar 
o caminho que nos conduzir  vitria nesta causa sublime e gloriosa!
  Dessa vez os gritos e aplausos foram ensurdecedores. Na gua-furtada Torbio e os companheiros estavam de armas em punho, escrutando a praa e as ruas circunvizinhas.
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  De sbito subiu do ptio da Intendncia um risco luminoso e sibilante: um claro iluminou a praa, seguido dum estrondo que acordou ecos no largo. E atrs do primeiro 
rojo veio outro, e outro e mais outro...
  Rodrigo estava furioso. Canalhas! Por um momento pensou em juntar a sua gente e ir direito  toca do Madruga e dos seus sicrios e arras-los a bala.
  De sbito cessaram os estrondos. A multido de novo prorrompeu em vivas, e quando de novo se fez silncio, Rodrigo continuou a orao:
  - A tendes, correligionrios e amigos, a tendes um exemplo dos recursos mesquinhos e ridculos de que se servem aqueles que sabem estar a razo de nosso lado. 
Se hoje nos querem assustar com a treva ou com o estrondo de foguetes, amanh na hora das eleies nos vo ameaar a vida com seus bandidos assalariados, pois todos 
os recursos so lcitos para a canalha borgista que sabe que seus dias esto contados!
  Fez uma pausa, pigarreou, olhou para as estrelas e depois, com voz firme e clara, prosseguiu:
  - Iremos s urnas, companheiros, mas iremos de olhos abertos, e no pensem os escravos de Antnio Augusto Borges de Medeiros que vamos iludidos. Conhecemos de 
sobra 
as artimanhas do borgismo e os vcios do regime que nos infelicita! Sabemos que haver fraude e coao, que os mortos votaro no Chimango, que os funcionrios pblicos 
que derem o seu sufrgio ao ilustre dr. Assis Brasil sero demitidos sumariamente. Sabemos tambm que haver capangas armados para atemorizar o eleitorado. No ignoramos 
que, se tudo isso falhar, restar ainda o recurso supremo da ditadura: a "alquimia" na contagem dos votos! A eleio em ltimo recurso ser feita a bico de pena 
e aprovada pela maioria da Assemblia, que dar a vitria ao eterno e melanclico inquilino do Palcio do Governo!
  "Mas, haveis de perguntar, se sabemos de tudo isso, por que vamos s urnas? Eu vos responderei, leais amigos, vos direi que vamos s urnas porque acreditamos na 
s prtica republicana, por-
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  que somos democratas verdadeiros, e queremos assim dar um testemunho pblico de nossa f cvica!"
  Bateu com o punho cerrado na balaustrada.
  - Mas se tudo acontecer como prevemos, se formos mais uma vez esbulhados, ainda nos restar um recurso, embora doloroso e triste, um recurso para o qual s podem 
apelar os homens de carter e de coragem: o recurso das armas!
  Palmas frenticas.
  - Se falharmos nas urnas, companheiros, no falharemos na coxilha! Tentaremos o caminho legal da eleio. Mas se nos negarem a justia e a decncia, responderemos 
com a Revoluo!
  De novo os rojes de Madruga atroaram no ar, desta vez mais numerosos e ensurdecedores. Parecia que Santa F estava sob um bombardeio. Clares iluminavam a praa 
como relmpagos. Rodrigo correu para o fundo e gritou: "Bento! Diga pr Lobisomem que recomece o foguetrio!" Tornou a voltar para a sacada e berrou para o maestro: 
"Msica! Msica!" A banda atacou um galope.
  Agora do quintal do Sobrado subiam tambm foguetes. Torbio, alvorotado, comeou a dar tiros para o ar. A multido urrava. Na sacada Rodrigo agitava um leno vermelho. 
Flora e Maria Valria tapavam os ouvidos com as mos. Alicinha despertou assustada e precipitou-se para fora do quarto, aos gritos. Eduardo e Bibi romperam a chorar. 
Jango continuava a dormir serenamente. Com a cabea debaixo do cobertor, Floriano, o corao a bater acelerado, estava em Port Arthur, sob o bombardeio dos vasos 
de guerra japoneses...
  Fora, o pandemnio continuava.
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  Em uma daquelas tardes de meados de novembro o Sobrado foi teatro duma cena a que o dr. Ruas, ao tomar mais tarde conhecimento dela, chamaria "tragdia passional".
  A coisa comeara com a visita habitual de Slvia, afilhada de Rodrigo e, no dizer de Maria Valria, comf inche de Alicinha. A
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  menina, que morava nas vizinhanas e era filha duma viva pobre que ganhava a vida como modista, chegou ao Sobrado como de costume por volta das quatro da tarde, 
para brincar com a amiga. Era uma menininha de cinco anos, morena e franzina, de olhos amendoados. Apesar de vir todos os dias ao casaro, nunca entrava sem primeiro 
bater. Como a batida de seus dedos frgeis fosse quase inaudvel, s vezes a criaturinha ficava um tempo  porta,  espera de que algum a visse ou ouvisse e gritasse: 
"Entra, Silvinha!" Ela subia ento com alguma dificuldade os altos degraus que levavam da soleira da porta ao soalho do vestbulo e, antes de mais nada, entrava 
na sala de visitas, plantava-se na frente do grande retrato do padrinho e ali ficava por alguns segundos, numa adorao sria e muda. Quando no havia ningum perto, 
aproximava-se de mansinho do quadro e depunha um beijo rpido na mo da figura.
  Se Alicinha no tinha terminado ainda seus exerccios de piano, Slvia entrava na sala, p ante p, sentava-se numa cadeira e, com as mos pousadas no regao, 
ali 
ficava em silncio, mal ousando respirar, com os olhos postos na amiguinha. Ao dar pela presena de Slvia, Alicinha - que a tratava com a superioridade duma menina 
mais velha e mais rica - abandonava os exerccios montonos do Mtodo Czerny e, para mostrar como sabia tocar "msica de verdade", atacava O lago de Como ou o Carnaval 
de Veneza. Lgrimas ento brotavam nos olhos de Slvia, que tinha uma admirao sem limites pela filha do padrinho. Tudo quanto ela possua era o que podia haver 
de melhor e mais belo no inundo: vestidos, sapatos, brinquedos... O Sobrado era para ela o paraso - a casa que tinha gramofone, automvel e telefone. Outra maravilha 
do Sobrado era a despensa onde dona Maria Valria guardava seus doces e bolinhos em latas pintadas de azul.
  Slvia ficava sentada, imvel e silenciosa, at que a outra, saltando do banco giratrio do piano e alisando a saia, voltava-se para ela, e como uma senhora que 
d uma ordem  criada, dizia: "Vamos!"
  Slvia seguia a amiga como uma sombra.
  Naquela tarde Slvia entrou no Sobrado alvoroada. Estava ansiosa por brincar com a boneca grande da amiga. No lhe haviam
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  dado ainda o privilgio de tomar Aurora nos braos e nin-la, mas Alicinha havia prometido: "Se fores boazinha, eu te deixo pegar a minha filha".
  Entraram no quarto e aproximaram-se do bero onde Aurora dormia, os olhos fechados, as longas pestanas muito curvas cadas sobre as faces rosadas. Slvia contemplou 
a boneca com amor.
  - Est na hora da menina acordar - disse Alicinha. A outra sacudiu a cabea avidamente, e depois ciciou:
  - Vamos brincar de comadre?
  - S ns duas?
  Slvia tornou a sacudir afirmativamente a cabea.
  - No tem graa - retrucou Alicinha. - Precisamos um doutor. E quem vai ser o pai?
  - Chama o Edu. E o Jango.
  - O Edu no.
  - Por qu?
  - Ele tem raiva da Aurora. Disse que vai matar ela. O Edu no quero. Desde que a boneca entrara no Sobrado a vida dos filhos de Rodrigo e Flora havia mudado sensivelmente. 
Alicinha tornara-se mais mimosa e cheia de caprichos. Havia dias em que a menina, segundo o dizer de Maria Valria, amanhecia com "o Bento Manuel atravessado", fechava-se 
a chave no quarto, recusava-se a comer e ficava a conversar com a "filha", que lhe respondia com vagidos. Jango fingia no ter o menor interesse em Aurora, mas no 
perdia oportunidade de tocar-lhe os cabelos, apertar-lhe as pernas; mais de uma vez levantara a saia da boneca num gesto que deixara a irm escandalizada. ("Dinda, 
olha os modos do Jango!")
  Floriano tecia fantasias em torno da "personalidade" de Aurora. Ela era Coplia: a boneca a que o mgico dera vida. Seus olhos tinham qualquer coisa que puxava 
a 
gente para dentro deles, eram azuis como aquela lagoa do Angico onde havia um sumidouro. Ali! mas ele, um menino que j estava na Seleta em prosa e verso no podia 
deixar sequer que os outros suspeitassem de seu fascnio pela boneca. E para poder observ-la sem despertar desconfianas, examinava-a com ares de professor. Um 
dia, apontando para os olhos de Aurora, disse:
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  - Aquela parte redonda chama-se ris. A do meio  a pupila. Essa coisa branca  a esclertica.
  Eduardo, de longe, gritou:
  - Mentira. Isso  o "zolho".
  Flora observava j que, de todos os filhos, o que tinha o comportamento mais estranho com relao  boneca era Edu, que escondia sua paixo por ela por trs duma 
cortina de hostilidade. No princpio queria saber por que Aurora falava. Tinha um sapo na barriga? Ou um gramofonezinho? Mas em geral recusava olhar para a boneca. 
Quando a punham diante dele, tapava os olhos com as mos, batia com o p no cho, vermelho, e acabava fugindo. Ultimamente resmungava ameaas: ia roubar a boneca 
para a degolar...
  - Onde foi que esse menino aprendeu essa histria de degolar? - estranhou Flora.
  Maria Valria esclareceu:
  - Ora, o culpado  o Torbio, que ensina s crianas essas barbaridades.
  Alarmada ante a atitude de Edu, Alicinha recusava-se agora a convid-lo para tomar parte no brinquedo. Foi nessa conjuntura que Zeca - filho da lavadeira do Sobrado 
- apareceu  porta do quarto, com o dedo na boca, perguntando:
  - Posso brincar?
  Alicinha hesitou. Zeca era ntimo de Edu, viviam pelos cantos cochichando segredinhos.
  - Pode - disse ela por fim. - Mas no chegue muito perto da Aurora.
  Zeca deu alguns passos  frente. Alicinha tirou dum armrio um velho chapu-coco do pai:
  - Bota isto na cabea. Tu vais ser o doutor.
  Zeca obedeceu. A cartola escondeu-lhe quase metade da cara. Jango surgiu naquele momento no corredor, montado num cabo de vassoura, seu "pingo de estimao".
  - Queres brincar? - perguntou a irm.
  - De qu?
  - De comadre e compadre.
  - Que  que eu vou ser?
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  - O pai.
  - Est bem.
  Apeou do cavalo, amarrou-o num frade imaginrio e entrou no quarto. Alicinha olhou para Slvia.
  - Bota um avental. Tu s a criada.
  Os olhos da outra cintilaram e ela sacudiu a cabea, assentindo. O brinquedo comeou. Alicinha sentou-se numa cadeira com Aurora nos braos.
  Encostou a palma da mo na testa da boneca:
  - Meu Deus! - exclamou. - Est com febre. Slvia, vai correndo chamar o doutor.
  - Sim senhora.
  Zeca aproximou-se sfrego. Alicinha, numa sbita fria, gritou:
  - Vai-te embora, bobo! Tu ests no teu consultrio. Espera que a minha criada te chame.
  Zeca recuou, catacego. Slvia acercou-se dele, deu-lhe o recado, pediu que se apressasse: era um caso muito srio. O "mdico" deu trs passos  frente. A cartola 
danou-lhe ao redor da cabea.
  - Que  que eu fao agora?
  - Ora! Ento no sabes? Toma o pulso da criana, bota um termmetro debaixo do bracinho dela, escreve uma receita. Faz o que o papai faz. Nunca ficaste doente?
  Zeca aproximou-se da paciente, tomou-lhe do pulso e disse:
  - Vai morrer.
  Alicinha fingiu que chorava.
  - Ai, doutor! Salve a minha filha!
  Zeca sacudiu a cabea, fazendo a cartola rodar.
  - Vai morrer - repetiu.
  Alicinha simulava soluos. Slvia tinha os olhos realmente embaciados. Lgrimas autnticas comearam em breve a escorrer-lhe pelas faces. Jango, que at ento 
testemunhava 
a cena em silncio, interveio:
  - Esse doutor  um burro. Vou matar ele e chamar outro. Tirou da cintura o revlver, apontou para o peito do "mdico"
  e fez fogo. Pei! Zeca atirou-se no cho, de costas. A cartola rolou
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  no soalho. Naquele momento Edu apareceu  porta e espiou para dentro. Vendo-o, Zeca ergueu-se rpido e correu para o amigo. Saram os dois para o fundo do corredor 
e ali ficaram por alguns segundos a conversar em voz baixa. Por fim Zeca tornou a aparecer, e de novo enfiando a cartola, disse:
  - Com licena. Alicinha ergueu os olhos:
  - O senhor no morreu?
  - No. Eu sou o outro mdico. O dr. Carbone.
  - Onde esto as suas barbas? - perguntou Slvia.
  - Cortei.
  - Por qu?
  - Faziam muita ccega.
  - Que  que o senhor quer?
  - Examinar a doente.
  - Pode entrar.
  Zeca inclinou-se sobre Aurora, segurou-a pela cintura e, num gesto brusco, ergueu-a no ar. Alicinha soltou um grito, mas antes que ela tivesse tempo de det-lo, 
Zeca fez meia-volta, aproximou-se de Edu, que o esperava  porta, e entregou-lhe a boneca.
  - Jango! - gritou Alicinha.
  O irmo precipitou-se para a porta, mas Zeca agarrou-se-lhe s pernas e os dois tombaram, enovelados, enquanto Edu, com a boneca nos braos, metia-se num dos quartos 
do fundo da casa e fechava a porta com o trinco.
  Slvia e Alicinha tremiam. Desvencilhando-se de Zeca, Jango correu para a porta do quarto onde o irmo se refugiara, e comeou a bater nela com os punhos fechados:
  - Abre essa porta, bandido! Abre!
  - Ele est degolando a minha filha! - exclamou Alicinha. - Mame! Dindinha! Socorro!
  Leocdia apareceu, trazendo nos braos Bibi, tambm desfeita em pranto. E a pretinha tambm se ps a bater na porta. Slvia, o rosto coberto pelas mos, chorava 
de mansinho. Atrados pela gritaria, Torbio e Flora apareceram. Jango, o nico que se mantinha calmo, contou-lhes o que se passava.
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  Torbio sorriu, afastou os sobrinhos e bateu com fora na porta:
  - Eduardo! - gritou. Nenhuma resposta. - Eduardo! - Silncio. Torbio ajoelhou-se, encostou a boca na fechadura e disse:
  - Abre essa porta seno eu te capo.
  Era a ameaa suprema. Os outros esperavam. Zeca olhava a cena de longe, apreensivo. O silncio continuava dentro do quarto.
  Alicinha agora soluava convulsivamente, mas de olhos secos. Flora tomou-a nos braos e disse ao cunhado:
  - Temos que abrir essa porta, antes que o menino estripe a boneca.
  Torbio deu trs passos  retaguarda, atirou-se contra a porta, meteu-lhe o ombro e abriu-a. Houve um momento de expectativa. Torbio entrou e os outros ficaram 
no corredor, espiando a cena. Trepado em cima duma cmoda, a um canto do quarto, Eduardo tinha a boneca nos braos, apertada contra o peito. Fuzilou para o tio um 
olhar feroz.
  - Filho duma me! - repreendeu-o este, aproximando-se devagarinho. - Me d essa boneca!
  Eduardo apertou mais Aurora contra o corpo. Parecia uma bugia agarrada  cria, ante a ameaa dum caador. Tinha as faces e as orelhas afogueadas. Seu peito subia 
e descia ao compasso duma respirao acelerada.
  - Est degolada, titio? - choramingou Alicinha. Torbio tranqilizou-a. Aurora estava intata. O problema era
  tir-la das garras do facnora sem quebr-la.
  - Larga essa boneca! - ordenou, de cenho cerrado. Como nica resposta Edu soltou uma cusparada na direo
  do tio. Naquele instante Maria Valria entrou em cena e, sem a menor hesitao, aproximou-se do menino e arrebatou-lhe a boneca das mos, entregando-a a Alicinha, 
que tomou a "filha" nos braos e desatou o pranto.
  Maria Valria segurou Eduardo e deu-lhe duas rijas palmadas nas ndegas. O menino apertou os lbios e no soltou um ai. Seus olhos, porm, encheram-se de lgrimas.
  - Que paixa braba! - exclamou Torbio.
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  Saram todos do quarto. Flora levou a filha para baixo: ia dar-lhe um ch de folhas de laranjeira para acalmar-lhe os nervos. Slvia seguia-as orgulhosa, pois 
a 
amiga lhe confiara agora a boneca.
  Jango puxou as bombachas do tio, apontou para Zeca, que ainda continuava no seu canto, de cartola na cabea, e denunciou:
  - Foi ele que roubou a boneca e entregou pr Edu. Maria Valria largou o criminoso e dirigiu-se para Zeca:
  - Alcagete sem-vergonha... - comeou ela.
  Torbio, porm, correu em socorro de Zeca e ergueu-o nos braos.
  - Deixe o menino em paz.
  Maria Valria estacou, ps as mos na cintura e, em voz baixa para que Jango no a ouvisse, disse:
  - Acho essa criana to parecida com voc, que s vezes at desconfio...
  Torbio soltou uma risada:
  - No se preocupe, titia. Antes de morrer vou deixar uma lista completa de todos os meus filhos naturais.
  A velha fitou nele os olhos realistas e murmurou:
  - , mas no confio muito na sua memria.
  26
  Contra a expectativa de Rodrigo e de seus companheiros, a eleio se processou em Santa F sem maiores incidentes, bem como em quase todo o Estado.
  O grande dia - um sbado - amanheceu quente, luminoso e sem vento. Como de costume, Licurgo acordou s cinco da manh, desceu para a cozinha, onde Laurinda o esperava 
com o mate j cevado. Sentou-se no mocho de assento de palha, junto a uma das janelas, apanhou a cuia e ficou a chupar na bomba, silencioso e preocupado. Tentando 
puxar conversa, a mulata fazia uma que outra observao, a que o senhor do Sobrado respondia com um monosslabo ou um ronco. s cinco e meia Maria Valria entrou 
na cozinha, disse um "bom dia" seco, a que Licurgo mal respondeu,
  202
  e ali ficou tambm a tomar o chimarro, mas sem olhar para o cunhado nem dirigir-lhe a palavra.
  Rodrigo e Torbio desceram por volta das sete e uniram-se aos outros membros da famlia,  mesa do caf. Estavam ambos excitados e palradores. Laurinda serviu 
caf 
para os homens da casa, que pouco antes das oito se ergueram da mesa, puseram os revlveres na cintura, sob o olhar alarmado de Flora, e prepararam-se para sair. 
Cada qual ia fiscalizar uma mesa eleitoral no primeiro distrito. Para Maria Valria e Flora isso equivalia a ir para a guerra. Elas sabiam que no podia haver eleio, 
carreiras ou rinha de galo sem briga e tiroteios.
  Flora despediu-se de Rodrigo com os olhos midos. Os homens estavam j na calada,  frente da casa, quando Maria Valria se debruou numa das janelas e gritou 
para 
os sobrinhos:
  - Cuidado! No se metam em brigas. Torbio piscou-lhe o olho e respondeu:
  - Ns nunca nos metemos, Dinda. Os outros  que nos empurram.
  Soltou uma risada, tomou do brao do irmo e ambos seguiram no encalo do pai, que atravessava a praa na direo da Intendncia, a cabea baixa, o passo lerdo 
e
trgico, como o de um homem que caminha para a morte.
  Durante todo aquele dia as mulheres do Sobrado viram ou ouviram passar os caminhes da Intendncia, carregados de eleitores. Homens mal-encarados desfilavam pela 
rua a cavalo, soltando vivas ao dr. Borges de Medeiros.
  Flora acendeu uma vela no velho oratrio, que ficava no fundo do corredor do segundo andar, e ali permaneceu por longo tempo, ajoelhada aos ps da imagem de Nossa 
Senhora, a pedir-lhe que protegesse a vida do marido, do sogro e do cunhado.
  Como naquele dia de eleio as escolas estivessem fechadas. Alicinha brincava no quarto com sua boneca e Floriano, como de costume, estava metido com seus livros 
e revistas na gua-furtada. Do ptio vinham as vozes de Jango, Edu e Zeca - pei!-ra-ta-peii~
  203
  pei! - que brincavam de fita de cinema, os primeiros fazendo o papel de cowboys e o ltimo, de ndio.
  O dr. Ruas fez funcionar o gramofone pouco depois das nove da manh, e a casa se encheu das vozes de Caruso e Titta Ruffo, em vibrantes rias de pera. Aquilo 
para 
Maria Valria era at um sacrilgio, pois de certo modo supersticioso ela equiparava dia de eleio a dia de Finados e Sexta-Feira da Paixo.
  Na praa e nas ruas adjacentes o movimento de homens, a p ou a cavalo, parecia cada vez maior. Alguns tomavam mate e churrasqueavam debaixo da figueira. Traziam 
lenos brancos ao pescoo: eram pica-paus.
  De instante a instante Maria Valria olhava para o relgio grande da sala de jantar. Como o tempo custava a passar! Para afastar os maus pensamentos, usou dum 
velho 
estratagema: resolveu fazer pessegada. Meteu-se na cozinha e comeou a descascar pssegos com a ajuda de Laurinda e Leocdia.
  Ao meio-dia Bento levou comida em marmita para os homens do Sobrado, que no podiam abandonar seus postos s mesas que fiscalizavam. Quando o caboclo voltou, as 
mulheres indagaram:
  - Como vai a eleio?
  Bento respondeu que graas a Deus tudo ia bem: no se tinha ainda notcia de nenhum barulho.
   tardinha, quando a ltima vela do oratrio se achava reduzida a um toco, e a pessegada de Maria Valria estava j pronta e metida em caixetas, os homens voltaram 
para casa.
  Estavam sombrios. Contaram que tudo indicava que a derrota de Assis Brasil, na cidade, tinha sido esmagadora. O eleitorado da oposio acovardara-se ante as ameaas 
da capangada do Madruga. Houvera fraude, como se esperava. Os "fsforos" tinham andado ativos o dia inteiro. O mesmo eleitor votava mais de uma vez, em mesas diferentes: 
havia caminhes da Intendncia encarregados de transport-los dum lugar para outro. Uma pouca-vergonha!
  - Na minha mesa votaram cinco defuntos - contou Torbio. - Um guri de dezoito anos apareceu com o ttulo dum homem de cinqenta, j falecido. Dei-lhe uns gritos, 
mas o mesrio aceitou o voto. Lavrei um protesto.
  204
  Sentado a um canto, Licurgo fazia um cigarro, silencioso e soturno.
  - Isso no foi surpresa para mim - resmungou ele, depois de ouvir o filho mais moo contar outras irregularidades. - No tivemos na cidade um nico mesrio assisista.
  - Mas no estamos derrotados! - exclamou Rodrigo. - No se esquea que, para ser reeleito, o dr. Borges precisa obter trs quartos da votao, e isso ele no consegue 
nem que se pinte de verde.
  - No se iluda - retrucou o Velho. - Eles faro mais que isso a bico de pena.
  Aquela noite chegou a notcia de que em Alegrete, durante a eleio, houvera um tiroteio, provocado pelos borgistas, e do qual resultara a morte de um velho federalista, 
cidado respeitvel e benquisto na sua comunidade.
  Chiru Mena e Neco Rosa apareceram no Sobrado para contar como se processara a eleio nas mesas em que haviam servido como fiscais da oposio. "Quase me atraquei 
a bala com o subdelegado" - fanfarroneou Chiru. Mas Neco, acariciando o bigode, contou: "Pois na minha mesa tudo correu em paz. Um chimango quis votar com um ttulo 
falso, se atrapalhou todo na hora de escrever o nome e eu ento gritei: Vai pra escola, analfabeto! O cabra se assustou, largou a pena e saiu da sala fedendo. 
A coisa foi to bruta que at o pessoal da situao teve de rir. E a eleio continuou sem novidade..."
  Aquela noite a praa encheu-se de gente, de sons de cordeona, de conversas, cantigas e risadas. Licurgo pediu aos filhos que no sassem, pois temia que fossem 
provocados 
e assassinados. Torbio atendeu ao pedido do Velho, mas de m vontade. Passou a noite a andar dum lado para outro na casa, como um tigre enjaulado. Rodrigo mandou 
iluminar toda a casa e abrir as janelas. Com a ajuda de Torbio trouxe o dr. Ruas para baixo, nos braos, e fez o ex-promotor pblico sentar-se ao piano e tocar 
com toda a fora algumas msicas carnavalescas. Era preciso mostrar que a oposio estava de moral erguido.
  205
  27
  Depois de passar os ltimos dias de novembro e a primeira semana de dezembro no Angico, Licurgo voltou para a cidade mal-humorado. E quando Torbio lhe perguntou 
como iam as coisas l pela estncia, explodiu:
  - Como ho de ir? Mal! Uma seca braba que vai prejudicar o engorde do gado, uma indiada vadia. E, depois, o senhor agora parece que virou mocinho de cidade.
  Meteu-se no escritrio, sentou-se  escrivaninha e ficou remexendo em papis. Rodrigo acercou-se dele, passou-lhe o brao sobre os ombros mas notou pela rigidez 
daquele corpo que no se entregava ao abrao, que o Velho tambm no estava satisfeito com ele.
  - No acha que devemos publicar mais um nmero no Libertador com o resultado das eleies? - perguntou, procurando dar  voz um tom de terna submisso filial.
  - No acho coisa nenhuma. A eleio acabou. Acabe tambm com o jornal.  hora de cada qual cuidar da sua vida. Ainda que mal pergunte, quando  que vai reabrir 
o 
consultrio?
  - A semana que vem, provavelmente... - improvisou Rodrigo, meio desconcertado.
  - Pois j no  sem tempo.
  Quando Rodrigo saiu do escritrio, Torbio, que o esperava no vestbulo, levou-o para baixo da escada grande e cochichou:
  - Estou com medo que a Dinda conte as nossas brigas ao Velho.
  - Eu pedi que no contasse...
  - Ela prometeu?
  - No.
  - Ento estamos fritos.
   hora do jantar, no meio dum silncio cortado pelos pigarros do dono da casa, soou ntida e seca a voz de Maria Valria:
  - Quase mataram o Torbio.
  Licurgo levantou vivamente a cabea. A velha falara sem olhar para nenhuma das cinco pessoas que se achavam  mesa: era como
  206
  se se dirigisse a um conviva invisvel. Sem olhar para a cunhada, Licurgo perguntou:
  - Como foi isso?
  Rodrigo procurou desconversar:
  - Ora, papai, a Dinda no sabe de nada... Foi uma bobagem. O Velho, porm, exigiu a histria inteira e Torbio no teve
  outro remdio seno cont-la. Andava caminhando, uma daquelas ltimas noites, pelas ruelas escuras da Sibria quando de repente fora atacado...
  - Atacado por quem? - quis saber o pai.
  - Trs polcias...
  - Mas l atacaram por qu? Torbio encolheu os ombros.
  - Sei l! Decerto porque me viram de leno colorado no pescoo.
  - Desde quando o senhor virou maragato?
  - Ora, o leno no tem a menor importncia.
  - Pra mim tem.
  - Est bem. Eu gosto da cor. E depois  uma maneira da gente mostrar que no est do lado da chimangada.
  Licurgo partiu um pedao de carne e levou-o  boca.
  - Bom - murmurou - e depois?
  - Os trs caram em cima de mim, de espadas desembainhadas, gritando: "Vamos dar uma sumanta neste assisista". Recuei e arranquei o revlver...
  - Lastimou algum?
  - No cheguei a atirar.
  Torbio calou-se e ficou a fazer uma bolinha com miolo de po. Licurgo continuava a comer, de olhos baixos.
  - Essa histria no est bem contada - resmoneou. Flora olhava fixamente para o marido, como a suplicar-lhe
  que interviesse. Rodrigo atendeu ao apelo.
  - Para resumir a histria - disse - uma patrulha do Exrcito apareceu e os beleguins do Madruga fugiram. Est claro agora?
  - No - respondeu bruscamente Licurgo, cruzando os talheres sobre o prato.
  207
  Fez-se um silncio difcil, que Maria Valria quebrou com uma nova denncia:
  - O nosso doutor tambm andou brigando.
  - Dinda! 
  Rodrigo ergueu-se intempestivo, o rosto afogueado, e ps-se a caminhar carrancudo com as mos nos bolsos, como um menino que procura tomar ares de homem.
  - Fiquem todos sabendo que no sou nenhuma criana - exclamou com voz apaixonada. - Tenho trinta e seis anos, sou pai de cinco filhos e responsvel pelos meus 
atos 
e palavras.
  Torbio sorria ante o rompante do irmo. Licurgo pigarreava repetidamente, com um tremor nas plpebras. Seus olhos estavam postos na toalha branca, onde traava 
sulcos paralelos com a unha do polegar.
  Rodrigo aproximou-se dele e disse:
  - Ns no queramos lhe contar nada para no incomod-lo.  verdade que o Torbio s no foi assassinado graas  interveno de soldados do Exrcito. E, quanto 
ao meu caso, acho que posso resumi-lo em poucas palavras. Anteontem  noite, quando entrei no Comercial, um dos filhos do coronel Prates, o Honorinho, me viu e gritou 
na frente de todo o mundo: "U, valento, ainda no ests na coxilha?" Como nica resposta apliquei-lhe uma tapona na cara. Pronto. Foi o que aconteceu.
  - Conte que o moo puxou o revlver - acrescentou Maria Valria.
  - Ora, Dinda! Puxou um revolverzinho de bobagem e apontou para mim. "Atira, miservel", gritei. E virei-lhe as costas.
  Por alguns minutos Licurgo ficou em silncio. Por fim, olhando para o filho, disse:
  - Est bem. Agora termine de jantar.
  - Perdi a fome.
  Maria Valria preparou um prato, colocou-o sobre uma bandeja, chamou Leocdia e disse:
  - Leve a comida l em cima pr Antnio Conselheiro.
  A negrinha obedeceu. Licurgo olhou para Flora e perguntou:
  - Afinal de contas, quando  que esse moo vai ter alta?
  208
  Rodrigo notara j a m vontade que o pai tinha para com o hspede:
  - O dr. Carbone disse que dentro duma semana ele pode j comear a caminhar direito.
  - E vai continuar morando aqui o resto da vida?
  - Est claro que no, papai. H muito que ele quer voltar para um hotel. Eu  que no deixo. O Madruga  vingativo. A vida do Ruas ainda est em perigo.
  Mais tarde, quando tomavam caf na sala de visitas, Licurgo dirigiu-se aos filhos:
  - Vou fazer um pedido. Aos dois. No  uma ordem. Afinal de contas quem sou eu nesta casa pra dar ordens?
  Os filhos esperavam.
  - Quero que os dois sigam amanh mesmo pr Angico e fiquem l at que se decida definitivamente essa histria de eleio.
  Rodrigo no se conteve:
  - Mas  um absurdo! Vo dizer que fugimos. Licurgo sacudiu a cabea.
  - No confunda coragem com imprudncia. E depois, se as coisas se passarem como a gente espera, haver muita ocasio de provar que no temos medo.
  Voltou-se para Torbio:
  - E o senhor j devia estar l. Servio no Angico no falta. Ergueu-se, acendeu um crioulo, ps o chapu na cabea e saiu.
  Quando seus passos j soavam na calada, Rodrigo olhou para o irmo e murmurou:
  - Todos os sorrisos e carinhos que ele nos nega, decerto vai dar agora para a Ismlia Car...
  Maria Valria, que naquele momento surgira  porta, disse:
  - No seja ciumento, menino!
  28
  No dia seguinte Rodrigo chamou Aro Stein ao Sobrado, levou-o ao poro, fez um gesto generoso, que abrangia a caixa de tipos, a prensa e a mquina impressora, 
e 
disse:
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  - Leva essa geringona toda.  tua.  O Libertador morreu. No tenho iluses: a Assemblia vai dar a vitria ao Borges. So uns canalhas. Agora o remdio  resolver 
a parada na coxilha, a bala.
  Naquele mesmo dia Stein levou as mquinas. Vendo-o ao lado da impressora negra e tinta, em cima duma carroa puxada por um burro magro e triste, Maria Valria 
murmurou 
para si mesma: "Que ir fazer o Joo Felpudo com aquela almanjarra?"
  No meio da tarde Rodrigo e Torbio seguiram para a estncia no Ford. Flora e Maria Valria permaneceram na cidade por causa dos exames finais de Alicinha e Floriano. 
Licurgo tambm ficou, pois no achava direito deixar as mulheres sozinhas no Sobrado com o "forasteiro".
  O automvel chegou ao Angico  tardinha. Avistando a casa da estncia  luz cor de ch do ltimo sol, Rodrigo sentiu um aperto no corao, como acontecia sempre 
que via tapera ou cemitrio campestre. Era um casaro de um s piso, estreito e comprido como um quartel. Quatro janelas, com vidraas de guilhotina e trs portas 
enfileiravam-se na fachada sem platibanda, completamente destituda de qualquer atavio, e de um branco sujo e triste de sepulcro abandonado. A nica nota alegre 
do conjunto era dada pelo verde veludoso e vivo do limo que manchava as telhas coloniais.
  Rodrigo parou na frente da casa,  sombra de um dos cinamomos, e segurou o brao do irmo.
  - No achas esta casa parecida com o papai? - perguntou. O outro sacudiu negativamente a cabea,
  - No. Ela sempre me pareceu uma mulher parada aqui no alto da coxilha, bombeando a estrada, esperando algum que nunca chega.
  Entraram.
  - Mas no me digas que este interior no  um retrato psicolgico do velho Licurgo! - exclamou Rodrigo.
  Nas paredes caiadas no se via um quadro sequer. Nas janelas, nenhuma cortina. Na sala de jantar, como suprema concesso  arte, mas assim mesmo por mediao do 
comrcio, pendia da 
  210
  parede um calendrio da Casa Sol, com um cromo desbotado: um castelo medieval alemo a espelhar-se nas guas do Reno. Com seu manso sarcasmo, Torbio lembrou ao 
irmo 
que a casa no era de todo destituda de objetos de arte. No havia na parede de seu quarto de dormir umas velhas boleadeiras retovadas? E o crucifixo histrico 
no quarto da Dinda, com o seu Cristo de nariz carcomido? E a adaga enferrujada e sem bainha que pendia da parede dos "aposentos" do senhor do Angico?
  Rodrigo olhava para os mveis. Eram escassos, rsticos e feios. Cadeiras duras, com assento de palhinha ou madeira. Um horrendo guarda-comida avoengo, sem estilo 
nem dignidade. A mesa meio guenza, marcada de velhas cicatrizes. Umas cmodas e aparadores indescritveis, com gavetas sempre emperradas - tudo com um ar gasto e 
vagamente seboso. Mas toda aquela falta de estilo no representaria afinal de contas... um estilo?
  - Sou um ateniense! - exclamou, entre srio e trocista. - No me sinto bem em Esparta.
  - O que tu s bem sei: um maiico!
  Rodrigo ergueu-se rpido e saltou sobre o irmo. Ambos tombaram e rolaram no soalho, aos gritos e risadas. Em menos de dois minutos Torbio dominou o outro e, 
montado 
nele, prendeu-lhe fortemente as espduas e os braos contra as tbuas, dizendo:
  - Conheceste o muque, papudo?
  - Sai de cima da minha barriga, animal! - pediu Rodrigo, arquejante. - Vais me matar esmagado!
  Levantaram-se ambos e entraram num simulacro de luta de boxe que acabou por transformar-se num duelo a arma branca, em que os braos eram as espadas. Tiveram, 
porm, 
de parar, porque a criadagem comeava a aparecer.
  A primeira pessoa que veio cumpriment-los foi a cozinheira, a Maria Joana, uma cafuza meio idiota. Vieram depois algumas chinocas cor de charuto, crias do Angico. 
E foram as perguntas de sempre: Como vo todos no Sobrado? E dona Flora? E dona Maria Valria? E as crianas?
  Quando Rodrigo de novo se viu a ss com o irmo, retomou o tema:
  211
  - O mundo progride, mas o Angico fica para trs, atolado no passado. Na Argentina e no Uruguai existem estncias confortveis, com luz eltrica gua corrente. 
Ns 
continuamos com o lampio de querosene, com a vela e com gua da pipa. Eu s queria saber por que o Velho teima em no modernizar o Angico? Talvez considere isso 
um sacrilgio... o mesmo que violar a sepultura do prprio pai.
  - No pensaste tambm que por sentimentalismo ele queira deixar as coisas na estncia bem como eram no seu tempo de guri? A bem dizer foi aqui que ele passou a 
maior 
parte da mocidade...
  - Quem sabe?
  Torbio enveredou para dentro de um dos quartos de dormir, onde havia duas camas de ferro, lado a lado.
  - No fujas! - gritou-lhe Rodrigo, seguindo-o. - Escuta esta. Vou escrever um ensaio sobre o gacho e o seu horror ao conforto.
  Como o outro nada dissesse, ocupado que estava com descalar as botas, Rodrigo prosseguiu:
  - Vou provar como para nossa gente (e no esqueas que o velho Licurgo  um tpico gacho serrano) conforto e arte so coisas femininas, indignas dum homem. Vem 
dessa superstio a nossa pobreza em matria de pintura, escultura, literatura e at folclore.
  - Desde que esta droga comeou - disse Torbio - vivemos brigando com os castelhanos, ou fazendo revolues. No tivemos tempo para mais nada...
  Atirou as botas no cho.
  - Toma o caso do velho Babalo - continuou o outro. - Detesta travesseiros e colches macios e suspira de saudade dos tempos de moo, quando levava tropas para 
Concepcin 
do Paraguai e dormia ao relento, em cima dos arreios...
  Torbio estendeu-se na cama e ficou a remexer com certa volpia os dedos dos ps, olhando com o rabo dos olhos para o irmo, que dizia:
  - Essa nossa vocao para o estoicismo e para a sobriedade vem de longe. Estive h poucos dias lendo inventrios de estancieiros
  212
  gachos do princpio do sculo passado. Em matria de mveis, utenslios e vesturio eram duma pobreza franciscana.
  Torbio olhava fixamente para a aranha que, em um dos cantos do teto, tecia a sua teia. Como ele nada dissesse, Rodrigo prosseguiu:
  - Diante de tudo isso,  fcil compreender a m vontade do eleitorado do Rio Grande para com o dr. Assis Brasil. Nossa gente no o considera um gacho legtimo. 
O homem  civilizado, barbeia-se diariamente, anda limpo e bem vestido, mora com conforto, tem livros, tem cultura, viaja, fala vrias lnguas...
  Rodrigo deitou-se na outra cama e ficou a contemplar o pedao de cu que a janela emoldurava. Em breve estava perdido em pensamentos. Arquitetava o ensaio... mas 
comeava a temer que a coisa toda no fim redundasse numa caricatura do prprio pai, com a sua secura de palavras e gestos, seu horror a tudo quanto pudesse parecer 
luxo ou prodigalidade, sua falta de apreo por qualquer expresso de beleza ou fantasia.
  Rodrigo sentia nas ndegas e no lombo a dureza do colcho de palha sob o qual havia um lastro de madeira. A cada movimento de sua cabea, o travesseiro crepitava 
e talos da palha que o enchia arranhavam-lhe a face.
  Ps-se de p e saiu do quarto para os fundos da casa, gritando para o irmo:
  - Vem ver o fim do dia, animal!
  - J vou.
  Uma doce luz de mbar tocava as rvores do pomar. Rodrigo sempre gostara do verde escuro e digno das laranjeiras e bergamoteiras. Era um entusiasta das frutas 
do 
Rio Grande: laranjas, pssegos, bergamotas e uvas. Eram sumarentas, gostosas, durveis - produtos duma regio que contava com quatro estaes ntidas. Detestava 
as frutas tropicais, duma doura enjoativa e duma fragrncia de flor: mal terminava o processo de amadurecimento e j entravam no de decomposio.
  De sbito, enternecido pela paisagem, e como para compensar o que havia pouco dissera a Torbio sobre as deficincias do gacho, ficou a perguntar a si mesmo se 
no seria lcito fazer um confronto
  213
  entre aquelas frutas sadias e o homem do Rio Grande. No se poderia
tambm - refletiu, estendendo o olhar pelo campo em derredor -
considerar o carter, o temperamento do rio-grandense-do-sul um produto
natural daquela paisagem desafogada e sem limites? Poderia o gacho
deixar de ser um cavaleiro e um cavalheiro? E um impetuoso? E um
guerreiro? E um generoso? E um bravo?
  - Deste agora para falar sozinho?
  Rodrigo voltou a cabea. A pergunta partira de Torbio, que apanhara um
pssego e trincava-o sonoramente com os dentes fortes de comedor de
churrasco. Rodrigo encolheu-se  e fechou os olhos: o contato da casca
penugenta da fruta nos dentes sempre lhe causara um arrepio semelhante
ao que sentia quando abraava mulheres vestidas de veludo.
  O sol descia por trs da coxilha do Coqueiro Torto, em cujo topo estava
enterrado Fandango, o velho capataz do Angico que morrera centenrio.
Era a hora em que a  paz do cu descia sobre os campos, as guas paradas
pareciam mais paradas, sons e cores se amorteciam numa surdina, as
sombras comeavam a tomar tonalidades de violeta.  Um esplndido galo
branco passeava como um pax por entre as galinhas que ciscavam no cho
de terra batida, dum vermelho queimado, que despedia uma tepidez
lnguida,  como dum corpo humano cansado. Um guaipeca de plo fulvo
dormia junto da porta da cozinha, de onde vinha um cheiro de carne
assada.
  Rodrigo estava inquieto. Que era? Talvez fosse a melancolia natural da
hora e do lugar. Mas no! Havia mais alguma coisa. Sim, uma espcie de
saudade absurda, sem  objeto certo, uma sensao de aperto no peito que
parecia ser metade ternura, metade expectativa. A solido sempre lhe
causara angstia. Talvez morasse ainda no  fundo de seu esprito o
menino que temia a noite e a escurido.
  Pensou no pai com m vontade. Se o Velho no fosse to cabeudo, aquela
estncia podia ser um paraso. Teria luz eltrica, um gramofone, boas
poltronas e camas,  uns mveis simpticos, quadros nas paredes. A imagem
do pai se lhe desenhou na mente:
  a cara triste e tostada, o cigarro preso entre os dentes amarelados, a
plpebra do olho esquerdo a tremer. Ah! Aqueles olhos! Tinham o poder de
faz-lo sentir-se  culpado. Eram olhos crticos de Terra: realistas,
autoritrios, intransigentes.
  - Que porcaria! - exclamou Rodrigo.
  - Qu?
  - Tudo!
  Arrancou um pssego dum galho, partiu-o com as mos e procurou comer a
polpa sem que seus dentes tocassem a casca. Agora o galo estava fora da
zona de sombra que  se projetava no cho. Sua crista escarlate e
empinada tinha algo de flico.
  - Como vamos por aqui em matria de mulher? - perguntou Rodrigo em voz
baixa.
  - Mal.
  Rodrigo ia pedir pormenores, mas teve de calar-se, pois Pedro Vacariano,
que havia pouco apeara do cavalo, na frente do galpo, aproximava-se
deles.
  Era um caboclo alto e espadado, "homem de pouca fala e muita confiana"
- como o prprio Licurgo reconhecia. A pele de seu rosto tinha algo que
lembrava goiaba  madura. Os olhos eram escuros e vivos, os cabelos
negros e corridos. Uma cicatriz rosada atravessava-lhe uma das faces, da
boca  orelha. Tinha trinta e cinco anos  de idade, era natural de
Vacaria onde matara um homem em legtima defesa. Depois de julgado e
absolvido fora obrigado a mudar-se, para fugir aos filhos do
assassinado,  que haviam jurado vingana.
  Diziam que era valente e rijo, capaz de ficar dias e dias sem comer nem
beber, e que no tinha pacincia com os que falavam quando nada tinham a
dizer. No era fcil  para Rodrigo esconder sua antipatia pelo capataz.
Mais de uma vez procurara descobrir, sem resultado, por que seu pai,
homem de ordinrio to cauteloso, exigente  e desconfiado, acolhera com
tanta facilidade na estncia o fugitivo de Vacaria, entregando-lhe um
posto de tamanha responsabilidade. A verdade era que havia quatro  anos
que Pedro Vacanano capatazeava o Angico sem jamais ter dado aos patres
o menor motivo de queixa ou desconfiana.
  214
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  O caboclo apertou rapidamente a mo dos dois irmos, sem dizer palavra,
e depois, com ambas as mos na cintura, uma perna tesa e a outra
dobrada, como um soldado  em posio de descanso, fez com sua voz
montona e Seca um relato da situao do trabalho no Angico. No se
podia deixar de admirar a preciso e a economia verbal  com que o
capataz se expressava. No esperdiou palavra. E enquanto ele falava,
Rodrigo analisou-o com olho frio e antiptico. Sempre tivera m vontade
para com  gacho que usasse chapu de barbicacho, como era o caso de
Pedro Vacariano. Sempre interpretara o barbicacho como uma espcie de
bravata, de provocao. Tambm no  gostava do ar altivo do cabra, do
seu jeito de olhar os outros "de cima". Torbio, no entanto, parecia
dar-se bem com ele.
  E agora era Bio quem falava, transmitindo ao capataz um recado do velho
Licurgo sobre a castrao de um cavalo. Pedro escutava, olhando
obliquamente pra Rodrigo,  que pensava: Esse tipo est me cozinhando.
No me agrada o jeito dele... Decerto est fazendo troa da minha
indumentria: culote caqui em vez de bombachas, perneiras  em vez de
botas. Cachorro!
  O sol estava quase sumido por trs da sepultura do velho Fandango e era
uma luz de tons alaranjados que envolvia agora Pedro Vacariano, que ali
estava de cabea  erguida, mordendo o barbicacho. Sua figura
recortava-se contra um fundo formado por um pessegueiro copado,
carregado de frutos maduros. Parecia um quadro. Rodrigo  no pde deixar
de reconhecer que o capataz era um belo tipo de homem. Isso o deixou
ainda mais irritado, como se ali no Angico s ele tivesse o direito de
ser belo  e macho.
  29
  Ao entrar na sala de jantar mal-alumiada por um lampio de querosene, de
cuja manga subia para o teto uma fumaa esfiapada e negra; ao contemplar
a mesa tosca -  a toalha de algodo dum branco amarelento de acar
mascavo, a loua grosseira, a farinheira rachada, as colheres de
estanho, os garfos e facas de ferro com cabos  de madeira, e
principalmente o prato fundo trincado pelo qual o
  216
  velho Licurgo revelara sempre uma predileo inexplicvel -, Rodrigo
sentiu uma tristeza que s foi compensada pela presena quente,
suculenta e olorosa do assado  de ovelha, que Torbio trinchava com uma
alegre fria de anfitrio.
  - Senta, homem. Estou com uma fome canina.
  Atirou um gordo naco de carne sobre o prato do irmo. Rodrigo cobriu-o
de farinha, empunhou garfo e faca e comeou a comer. Uma chinoca entrou
com uma travessa cheia  dum arroz pastoso e reluzente, do qual ele
tambm se serviu. Maria Joana surgiu em pessoa com uma terrina cheia de
galinha ao molho pardo, seguida por outra rapariga  que trazia um prato
com batatas-doces assadas e morangos cobertos de acar queimado. Um
festim! - fantasiou Rodrigo, mastigando gulosamente, e j com as
bochechas  salpicadas de farinha. Sim, um festim da Roma antiga. Ali 
cabeceira da mesa, por trs da fumaa que subia do pratarrao de arroz -
retaco, sangneo, de pescoo  taurino e olhinho sensual -, Torbio
parecia um imperador romano.
  Os irmos comiam com uma sofreguido infantil, trocando pratos,
comunicando-se por meio de sinais ou ento gritando de boca cheia:
"Atira o sal!" - "Pincha a farinheira!"  Houve um momento em que Torbio
fez um sinal na direo dos morangos e rosnou: "Me passa aquela bosta!"
Rodrigo obedeceu, sorrindo. O imperador positivamente no  tinha
compostura. Dizia palavres, levava a faca  boca, manchava a toalha de
molho pardo: gros de arroz perdiam-se na emaranhada cabelama de seus
braos de estivador.  Ah! Se a Dinda estivesse presente, j teria
gritado "Olhe os modos, Bio!"
  Maria Joana contemplava-os em silncio, a um canto da sala, na penumbra,
com a cabea inclinada para um lado, os braos cruzados. Era uma mestia
de feies repelentes,  e sua cabea pequena, de lisos cabelos muito
negros, a pele enrugada colada aos ossos dava a impresso desses crnios
humanos encolhidos feitos pelos ndios do Amazonas.  O que, porm, mais
impressionava nela eram os olhos de esclertica amarelada, com uma
fixidez visguenta de olho de jacar. Falava pouco, resmungava muito. Nos
dias  de vento andava pela casa com as mos na cabea, a uivar, e
acabava
  217
  sempre saindo porta fora e correndo, a esconder-se no bambual, onde
esperava que a tempestade passasse. Como era possvel - refletia Rodrigo
- que aquela criatura  imbecilizada, que mais parecia um animal do que
um ser humano, fosse capaz de cozinhar com aquela maestria, com aquele
requinte. O molho pardo estava divino. O arroz,  no ponto exato. O
assado? Nem era bom falar...
  - Maria Joana - disse ele, metendo a mo no bolso. -Venha c.
  Deu-lhe uma moeda de dois mil-ris. A cafuza apanhou-a com um gesto
brusco e ao mesmo tempo arisco. Soltou uma risada estrdula e, olhando
para a moeda que mantinha  afastada do corpo, na ponta dos dedos, como
se ela fosse um bicho repugnante, gritou: "Santa Brbara, So
Jernimo!", deu uma rabanada e precipitou-se para a cozinha,  soltando
urros no de alegria, mas de pavor, como se a mais medonha das ventanias
tivesse comeado a soprar sobre as coxilhas.
  - Pobre-diabo - murmurou Rodrigo, seguindo-a com o olhar. - Sfilis.
  Depois do jantar Torbio dirigiu-se para o galpo, como costumava fazer
sempre quela hora. Ia conversar com a peonada, contar e ouvir "causos".
E era certo que  o negro Tiago tocaria cordeona e que o velho Zsimo, se
estivesse de veia, cantaria umas cantigas que aprendera na Banda
Oriental, nos tempos de pio.
  Rodrigo ps-se a caminhar na frente da casa, ao longo do renque de
cinamomos, assobiando baixinho o Loin du bal, olhando para as estrelas,
escutando os grilos e  as corujas, sentindo na cara a brisa tpida da
noite. A lua ainda no havia aparecido, mas j se anunciava na
luminescncia do horizonte. Vaga-lumes pisca-piscavam  no ar, que
cheirava a campo.
  Rodrigo acendeu um cigarro, agora mais que nunca consciente daquela
sensao de desconforto e apreenso. Que seria? Teve uma sensao de
perigo iminente, como se  das sombras da noite um inimigo estivesse
prestes a lanar-se sobre ele. E, de sbito, lanou-se mesmo... Mas veio
duma outra noite do passado. Um cadver ocupou-lhe  por inteiro o campo
da memria: Toni Weber estendida
  218
  no cho, o corpo hirto e gelado, a cara lvida, os olhos vidrados, os
lbios queimados de cido...
  Rodrigo estacou, abraou o tronco duma rvore, e algo quente e enovelado
subiu-lhe no peito, lgrimas rebentaram-lhe nos olhos.  vida insensata!
 vida absurda!   vida bela e terrvel! Havia sete anos Toni Weber se
matara por sua causa: era solteira e ele, um homem casado, lhe havia
feito um filho... E para afastar-se da  morta, para evitar o perigo de
trair-se, viera covardemente para o Angico e, numa noite ttrica, andara
a correr alucinado por aqueles campos, com medo de enlouquecer...
  Era estranho que agora ali se encontrasse de novo, como se nada houvesse
acontecido. Ficara-lhe o vago horror daquele cadver, daquela noite e do
remorso... Quanto  ao mais, era como se tudo no passasse duma histria
triste, lida num romance quase esquecido... Mas por quem chorava? Pela
suicida? Ou por si mesmo?
  Algum cantava agora no galpo. Era uma toada campeira, triste como uma
canhada deserta em tarde chuvosa de inverno.
  30
  Pouco antes das nove horas, Torbio voltou para casa e encontrou Rodrigo
ainda a caminhar sob o arvoredo.
  - Queres ir camperear amanh? - perguntou.
  - Naturalmente, homem.
  - Pois ento vai dormir, bichinho, porque samos s cinco da madrugada.
  - Cinco? No contes comigo.  cedo demais.
  Meia hora mais tarde, quando Rodrigo foi para o quarto, encontrou o
irmo estendido de borco numa das camas, completamente nu, e j a dormir
profundamente. Parou   porta, com uma vela acesa na mo, tomado pela
estranha impresso de que no podia entrar, pois naquele compartimento
no havia lugar para ele. A presena de Torbio  parecia entulhar o
quarto. Ali estava sobre o leito aquele homem retaco e musculoso,
cabeludo como um
  219
  gurila. O calor de seu corpo aumentava a temperatura ambiente. Seu cheiro
acre e seu prprio ressonar pareciam ocupar um espao fsico.
  Por alguns instantes Rodrigo ficou a contemplar o irmo, sorrindo.
Depois, colocando o castial e o relgio sobre a mesinha que separava as
camas, despiu-se, enfiou  as calas do pijama de seda e, de torso nu,
deitou-se. Apanhou a brochura desbeiada que viu no cho, e aproximou-a
da chama da vela. Era um volume do Rocambole.  Torbio era um leitor
voraz de novelas de aventuras.
  Rodrigo folheou o livro ao acaso, depois atirou-o no soalho com fora,
pois sabia que Bio tinha um sono de pedra.
  Torbio reboleou-se, ficou de ventre para o ar e comeou a roncar,
produzindo um som de trombone. Rodrigo pensou em ir dormir em outro
quarto: havia tantos na casa!  Mas ficou. Era curioso o efeito que tinha
sobre ele a presena do irmo. Dava-lhe a mesma sensao de segurana
que ele sentia quando punha o revlver na cintura  e saa para a rua,
mesmo sabendo que no ia ter nenhuma oportunidade de usar a arma.
  Compreendeu que no lhe ia ser fcil dormir. No estava habituado a
deitar-se cedo. O remdio, enquanto permanecesse no Angico, seria
acompanhar o irmo nas lidas  campeiras, cansar bem o corpo para ter
sono quela hora.
  Revirou-se e ficou deitado de bruos, os olhos cerrados, o nariz metido
no travesseiro spero. Ouvia com uma intensidade surda as batidas do
prprio corao, como  se a vscera estivesse a pulsar dentro do colcho
de palha e no dentro de seu peito. Corao de palha... Talvez lhe fosse
melhor ser insensvel... Havia outra parte  de seu corpo que lhe daria
menos trabalho se fosse tambm de palha. Mas qual! A natureza no se
enganava nunca: quem se iludia ou errava eram os homens.
  Tornou a mudar de posio, ficando agora deitado de costas. De olhos
sempre fechados, procurava "ver" o fluxo do sangue quente e inquieto nas
veias e artrias. Apalpou  o trax, procurando o relevo das costelas.
Fez descer as mos para a depresso do abdome (orgulhava-se de no ser
obeso), ficou algum tempo a cavoucar com o indicador  no boto do umbigo
e depois, quando seus dedos tocaram o pbis, teve a sbita e
perturbadora conscincia duma vaga
  220
  saudade masturbatria, que o deixou a um tempo indignado consigo mesmo e
sexualmente excitado. Uma onda de calor formigoulhe no corpo inteiro,
como uma urticria.  Arrancou as calas do pijama e ficou to nu quanto
o irmo. Pronto! era prefervel que tivesse o corpo recheado de palha,
como um espantalho. No! Era bom estar  vivo. Sim, vivo estava, mas no
se sentia feliz. Faltava-lhe alguma coisa. Que era? Talvez uma nova
aventura: uma amante, uma viagem... talvez uma revoluo. - qualquer
coisa, menos o marasmo, a mesmice, aquela triste pardia de vida, 
sombra do pai. Que tinha feito at agora seno colher glorolas
municipais? Claro, chegara a  deputado estadual, mas que valor tinha
isso quando tantas bestas quadradas haviam conseguido o mesmo?
Horrorizava-o a idia de passar o resto da vida conformado  com a
mediocracia de Santa F. De certo modo misterioso ele sabia, pressentia
que um belo destino lhe estava reservado. Sentia-se com nimo e
inteligncia para realizar  grandes coisas. Mas onde? Como? Quando?
  Gostara do Rio de Janeiro. Ficara deslumbrado com o seu cenrio natural,
seu cosmopolitismo, suas possibilidades erticas... L estava o mar, a
pera, museus, gente  civilizada, lindas mulheres. A soluo talvez
estivesse numa deputao federal. Mas como ia conseguir isso se havia
abandonado seu partido? Alm do mais, a maldita  situao poltica
tornava tudo incerto, imprevisvel.
  Torbio ainda soprava seu trombone. Diabo feliz! No tinha problemas.
Atirava-se na cama, fechava os olhos e - bumba! - caa no sono. Por que
mundos, entre que gente  seu esprito andaria agora gauderiando?
  Rodrigo cruzou os braos sobre o peito, tornou a procurar o sono... Em
que remota canhada, no fundo de que invernada estaria esse boi preto e
arisco?
  Trinta e seis anos. Caminhava com botas de sete lguas para a casa dos
quarenta. Viriam em breve os primeiros cabelos brancos, os primeiros
achaques! No! No se  conformaria jamais com a velhice. O melhor seria
morrer por volta dos cinqenta, numa guerra, num duelo... ou de um
colapso cardaco.
  221
  Cair na rua fulminado... que bela morte! No daria trabalho  famlia,
ningum o veria minguar, apodrecer em cima de uma cama...
  Soltou um suspiro de impacincia, procurou nova posio sobre a dureza
do colcho. Um grilo entrou no quarto e comeou a cricrilar: dueto de
trombone e percusso.
  Preciso comprar um carro novo - pensou. - O Ford est um calhambeque...
  O vulto do pai delineou-se contra o fundo de suas plpebras. Licurgo
amassava a palha para fazer um cigarro. "Pelo que vejo o senhor virou
miliardrio. Ainda que  mal pergunte, no ouviu ainda falar na crise da
pecuria? No sabe que depois que terminou a Guerra Europia o preo do
gado s tem cado?"
  O pai. Sempre o pai, a trat-lo como se ele fosse um menino. Barrava-lhe
quase todos os projetos. Censurava-lhe quase todos os atos, nem sempre
necessariamente com  palavras, mas com aquele seu olhar que valia por
cem sermes.
  Que vo todos para o diabo! Tenho de acabar com essa situao
deprimente, proclamar minha independncia. "Independncia ou morte!" Dom
Pedro I em cima dum cavalo,  erguendo o chapu de dois bicos... (Rodrigo
teve na mente por um instante a apagada reproduo do quadro famoso, num
remoto compndio de Histria do Brasil do curso  primrio.) Sua
independncia dependia em ltima anlise da morte do velho Licurgo.
Santo Deus! Ficou de tal modo alarmado que chegou a soerguer-se como um
autmato  e ps-se a olhar fixamente para o quadriltero da janela. Quis
evitar, mas no conseguiu, a idia de que, se o Velho morresse ele,
Rodrigo Terra Cambar, tomaria  posse de sua prpria vida, poderia ir a
Paris,  Cochinchina, aonde quisesse, sem ter de dar explicaes a
ningum... Censurou-se a si mesmo (e neste momento estava  sendo o seu
prprio pai) por se permitir tais pensamentos. Era monstruoso. Amava,
respeitava o Velho. A vida dele era-lhe preciosa. Que Deus a conservasse
ainda  por muitos anos!
  Tornou a estender-se na cama, fechou os olhos, procurando fugir quelas
cogitaes absurdas e perversas. Mas no pde evitar uma viso terrvel:
o pai morto dentro  dum atade, um leno roxo
  222
  a cobrir-lhe o rosto. Senhores! Deve haver algum engano. Ningum morreu!
Abram as janelas! Apaguem as velas! Mandem tirar da sala essas coroas e
flores! Deixem entrar  o ar puro, o sol... O Deus, perdoai-me por eu no
poder fugir a estes pensamentos. Zelai pela vida do meu pai, pela vida
de toda a minha famlia. Se algum tiver  de morrer, que seja eu. (Que
Deus me livre!) Mas o exorcismo no deu o resultado esperado. Porque
agora Rodrigo via sua prpria imagem refletida no espelho grande  da
sala. Estava de luto fechado. Tinha voltado da missa de stimo dia.
  Lgrimas comearam a escorrer-lhe pelas faces.
  Olhou o relgio. Quase onze. Torbio e o grilo continuavam o seu
concerto. Rodrigo procurava em vo e s cegas as portas do sono. E se no
dia seguinte algum lhe  perguntasse em que momento exato as imagens da
viglia se haviam dissipado para darem lugar s do sono, ele no saberia
responder.
  31
  Quando na manh seguinte, alto o sol, Rodrigo saiu de casa, a sensao
de brusca beleza que lhe veio do cu e das coxilhas foi de tal maneira
intensa, que ele estacou,  a respirao cortada, como se tivesse
recebido um golpe de lana em pleno peito. Lgrimas vieram-lhe aos
olhos, e ele se quedou a perguntar a si mesmo como era que  no tinha
percebido antes (ou percebera e esquecera?) que vivia talvez dentro duma
das mais belas paisagens do mundo.
  Existiam naturezas convulsas e vulcnicas como a dos Andes - refletiu,
fungando como um menino prestes a chorar. Terras desoladas e pardas como
as da Mancha, por  onde andara o Quixote. Algum lhe falara um dia na
seca, desmaiada beleza de certas zonas desrticas, riadas de cactos que
produziam as flores esquisitas. Sempre  sentira algo de vagamente
indecente na exuberncia tropical: a natureza que cerca o Rio de Janeiro
dera-lhe a impresso duma fmea em permanente cio. Agora, este  quadro o
encantava e enternecia pelo que tinha de singelo e lmpido. Se o deserto
lembrava
  223
  a transparncia da aquarela e o trpico sugeria o lustroso empastamento
do leo, as campinas do Rio Grande pareciam um quadro pintado a tempera.
  Meio ofegante, Rodrigo contemplava a amplido iluminada. O desenho e as
cores do quadro no podiam ser mais sumrios e discretos: o contorno
ondulado das coxilhas,  dum verde vivo que dava ao olhar a sensao que
o cetim d ao tato: caponetes dum verde-garrafa, azulados na distncia,
coroando as colinas ou perlongando as canhadas:  barrancas e estradas
como talhos sangrentos abertos no corpo da terra. Por cima de tudo, a
luz dourada da manh e o cu azul duma palidez parelha e rtila de
esmalte  e duma inocncia de pintura primitiva. A paisagem tinha a
beleza plcida e enxuta de um poema acabado, a que se no pode tirar nem
acrescentar a menor palavra.
  Rodrigo saiu a andar pelas campinas, respirando fundo e j fazendo belos
planos. Ali estava a soluo - disse para si mesmo, sem muita convico,
mas feliz por poder  pensar nessa possibilidade. Abandonaria a medicina
e a poltica, passaria a viver largas temporadas no Angico, como um
esquire ingls, perto da terra, alternando  a faina do campo com a do
esprito, a msica de bons discos com o mugido dos bois. Podia at
escrever um livro... Por que no? Talvez um ensaio sobre o Rio Grande,
no qual procurasse descobrir as razes de suas lealdades castilhistas e
gasparistas. Ou ento uma histria mscula da Revoluo de 93. No. O
melhor seria uma biografia  de Pinheiro Machado. Ocorria-lhe at um
ttulo: O caudilho urbano. Comearia com a visita do senador ao Sobrado,
em 1910...
  Estava agora convencido de que a vasta e limpa solido do Angico era mil
vezes prefervel  atmosfera opressiva de Santa F, o burgo podre dos
Madrugas e Camachos.  J que no podia viver numa grande metrpole,
viveria na estncia. No podia ter Paris? Teria o Angico. Em vez de
andar pelos bulevares, burlequearia pelos potreiros...  Nunca fora homem
de aceitar o meio-termo. O problema estava resolvido! E para dar nfase
 resoluo, desferiu um pontap numa macega. Diabo! Havia um sabor acre
e macho naquela vida telrica.
  224
  Afinal de contas era naquele cho que Terras e Cambars tinham suas
razes.
  Nos dias que se seguiram, Rodrigo entregou-se por inteiro s lidas do
campo, com um fervor de cristo-novo, acompanhando em tudo o irmo, que
ele observava com uma  inveja cordial, e que procurava imitar, mas sem
muito resultado, pois precisava de considervel esforo para fazer
mediocremente o que o outro fazia muito bem, e  com naturalidade.
  Quando ambos eram meninos, Rodrigo orgulhava-se da fora e da coragem de
Bio, assim como este mal escondia sua admirao pelas qualidades
intelectuais do irmo mais  moo. Muita vez no ptio da escola,  hora
do recreio, Rodrigo congregava os amigos para exibir o "muque" do Bio e
suas proezas de saltimbanco. Torbio no se fazia  rogar. Virava
cambalhotas to bem como um "burlantim" profissional. No havia noite em
que, antes de dormirem, ele no desse um espetculo para o irmo. E como
Rodrigo  fosse a melhor das platias, Torbio entusiasmava-se. Um dia,
no seu fervor circense, resolveu "fazer uma mgica": comeu a metade duma
vela de cera ante os olhos  horrorizados do irmo, que sabia que essa
vela havia sido roubada a uma sepultura do cemitrio.
  E agora, ali no Angico, Torbio continuava na sua "semostrao". Mudara,
porm, o repertrio. Duma feita mandou o irmo jogar para o ar, bem
alto, uma lata de compota  vazia e, antes que esta casse no cho,
varou-a trs vezes com balaos de revlver.
  - Desafio o Assis Brasil a fazer o mesmo! - exclamou. Um dia, durante o
banho na sanga, mergulhou e ficou tanto
  tempo sem aparecer  tona, que Rodrigo comeou a inquietar-se. Ia
mergulhar tambm para ver que havia acontecido, quando Torbio emergiu
do fundo do poo, lustroso  e gordo como uma capivara.
  -  ou no  pulmo? - perguntou.
  Uma manh, na Invernada do Boi Osco, como quisessem laar um forte
tourito de sobreano, e como um dos pees j estivesse de lao erguido,
Torbio gritou-lhe:
  - Deixa esse bichinho pra mim!
  225
  Precipitou-se a todo galope e, em vez de usai o lao, jogou-se do cavalo
em cima do touro, agarrando-se-lhe primeiro ao pescoo e depois s
aspas... e assim enovelados  homem e animal percorreram uns dez
metros... Por fim estacaram. Torbio torceu a cabea do touro at
faz-lo tombar por completo no cho. A peonada ria e soltava
exclamaes de entusiasmo. Quando Rodrigo se acercou do irmo, este,
ainda segurando as aspas do animal e apertando-lhe a cabea contra o
solo, ergueu a face lustrosa  de suor, de sol e de contentamento, e
disse:
  - Te desafio a fazer o mesmo.
  - Ora vai tomar banho!
  E durante trs dias a lida foi dura e contnua em todas as invernadas.
Ao cabo desse tempo, Torbio devolveu a capatazia da estncia ao Pedro
Vacariano e passou  a entregar-se a freqentes e misteriosas excurses
aos capes das vizinhanas, de onde voltava trazendo grandes ramos de
aoita-cavalo e guajuvira. Intrigado, Rodrigo  perguntou:
  - Que histria  essa?
  - Estou preparando o meu arsenal. Tu te esqueces que estamos em vspera
de guerra.
  - E que vais fazer com esses paus?
  - Lanas. Quero organizar um piquete de cavalaria.  ainda a melhor arma
para a nossa campanha, digam o que disserem.
  - Ests completamente doido. Estamos em 1922 e no 1835. Torbio nada
disse. Ajudado por mais dois pees munidos de
  faces afiados, comeou a dar queles paus a forma de lanas. E Rodrigo,
que andava em lua-de-mel com o Angico e os novos projetos de vida,
tornou a pensar na iminncia  da revoluo. S agora lhe ocorria fazer a
si mesmo a pergunta crucial: "Com que armas vamos brigar?" E enquanto o
irmo e os pees falquejavam madeira e ajustavam   extremidade dos paus
pedaos pontiagudos de ferro, folhas de velhas tesouras de tosquiar -
ele pensava em que o governo naturalmente lanaria contra os
revolucionrios  a sua Brigada Militar, adestrada e aguerrida, com bons
fuzis Mauser e at metralhadoras. E essa idia deixou-o perturbado, pois
no se harmonizava com seu estado  de esprito no momento. Certa manh
encontrou
  226
  por acaso em uma gaveta um nmero atrasado de Illustration, que lhe
deitou por terra os planos rurais e lhe despertou, mais agudo que nunca,
o desejo de visitar  Paris. Seu nariz, saturado do cheiro de creolina,
sabo preto, picum e couro curtido, de sbito clamou por perfumes
franceses. E  hora da sesta, com a revista  aberta sobre o peito,
imaginou que passeava em Paris, em SaintGermain-des-Prs, na Place de
1'toile... Tomou absinto num caf de Montmartre e dormiu com vrias
mulheres que caou nas ruas.
  Decidiu ento que tinha de ir a Paris, custasse o que custasse. Estava
claro que Flora preferiria ficar em Santa F, por causa dos filhos. O
velho Licurgo ia fazer  cara feia, mas acabaria por aceitar a idia da
viagem... Estava decidido. Iria em princpios de maro, passaria a
primavera na cidade de seus sonhos.
  No entanto ali estava o irmo a fabricar lanas de pau para seu piquete
de cavalaria...
  - Queres fazer uma aposta? - perguntou Torbio. - L por fins de
fevereiro, o mais tardar, estamos na coxilha tiroteando com a
chimangada.
  Rodrigo sacudiu a cabea, numa afirmativa taciturna.
  - Sim, e um de ns dois pode estar morto, enterrado e podre numa dessas
canhadas...
  Torbio encolheu os ombros.
  - Pode ser que eu me engane, mas acho que ainda no nasceu o filho da
puta que vai me matar...
  No dia seguinte chegou um prprio de Santa F, trazendo a
correspondncia e um mao de jornais. Havia um bilhete de Flora, um
recado lacnico de Licurgo e uma longa  carta de Dante Camerino,
lamentando que seu "amigo e protetor" no pudesse ir a Porto Alegre para
assistir  cerimnia de sua formatura.
  - Temos o Dante j doutor!- disse Rodrigo, sorrindo.
  - Quem diria! - maravilhou-se Torbio. - O engraxate da Funilaria
Vesvio...
  - Vou pr o rapaz a trabalhar no meu consultrio e na Casa de Sade, com
o Carbone.
  - Esse guri nasceu com o rabo pra lua!
  227
  Rodrigo atirou-se aos jornais. Continuava o debate em torno do tribunal
de honra que os procuradores de Assis Brasil haviam proposto em carta a
Borges de Medeiros,  para julgar a eleio. Em um editorial d'A
Federao, que comentava essa carta, Lindolfo Collor ironizava seus
signatrios, corrigindo-lhes o portugus.
  - Esse dr. Topsius de So Leopoldo! - exclamou Rodrigo, irritado. - No
perde oportunidade para mostrar que sabe gramtica!
  Os jornais transcreviam tambm os debates da Assemblia. Um deputado da
oposio protestava contra o fato de a apurao das eleies estar sendo
feita a portas fechadas,  sem a presena dum fiscal sequer da faco
assisista.
  - Est claro que assim podem fazer o que querem. Cachorros!  a histria
de sempre.
  Quando terminou de ler o ltimo jornal, Rodrigo j no olhava com olhos
cpticos ou irnicos para as lanas de Torbio. Estava convencido de que
a revoluo era  mesmo a nica alternativa. A comisso de poderes e l
estava o Getulinho!) fazia a portas fechadas a "alquimia" eleitoral.
  - Se a revoluo tem de sair mesmo - disse ele a Torbio - por que
perder tempo neste fim de mundo?
  Talvez o melhor fosse ir a Porto Alegre para confabular com os lderes
oposicionistas. Antes, porm, tinha de sondar os correligionrios em
Santa F, saber com quantos  homens podiam contar, com que quantidade de
armas e munies...
  Torbio e Pedro Vacariano saam pelas invernadas a visitar agregados e
posteiros. Para muitos daqueles homens, uma revoluo era a oportunidade
de gauderiar, de  cortar aramado livremente, de carnear com impunidade o
gado alheio.
  - Acho que s no Angico, contando a peonada, podemos recrutar uns
oitenta soldados - declarou Torbio ao voltar da excurso. - Temos de
contar tambm com gente que  possa vir da cidade...
  - Se eu fosse tu, no confiaria muito nesse caboclo. Isso  homem de
matar um companheiro pelas costas...
  - O Vacariano? Boto a minha mo no fogo por ele.
  228
  32
  Aquele ano os Cambars tiveram um Natal festivo, como de costume. Flora
armou no centro da sala de visitas um pinheiro nativo de Nova Pomernia,
duma forma cnica  quase perfeita e dum verde fosco e acinzentado.
  Pendurou-lhe nos galhos esferas de vidro verdes, azuis, solferinas,
prateadas e douradas, bem como ajustou nele pequenas velas de vrias
cores. Maria Valria, como  a prpria Fada do Inverno, atirou chumaos
de algodo sobre a rvore, num simulacro de neve. E, como para tirar 
festa o "sotaque" alemo, colocou ao p do pinheiro  algumas figurinhas
de prespio.
  Rodrigo acendeu as velas, pouco depois do anoitecer, na presena da
gente da casa e de alguns amigos. Havia dois ausentes: Torbio, que no
acreditava "naquelas  besteiras", e Licurgo, que estava na casa da
amante. O velho Aderbal e a mulher tinham vindo  tarde trazer seus
presentes aos netos, e antes do cair da noite haviam  retornado ao
Sutil.
  Apagou-se a luz eltrica. Aproximava-se a hora misteriosa da chegada de
Papai Noel. Edu agarrou-se s saias de Maria Valria de um lado, e Zeca
fez o mesmo de outro.  Jango, pelas dvidas, meteu-se num canto, em
atitude defensiva, e ficou esperando... Slvia olhava para a rvore
iluminada com um grave espanto nos olhos de gueixa.  Alicinha, apertando
Aurora contra o peito, aproximou-se da me, que tinha agora Bibi nos
braos. Floriano contemplava a cena, sentado no primeiro degrau da
escada  do vestbulo. Sabia que quem viria disfarado de Papai Noel
seria, como todos os anos, o Schnitzler da confeitaria; mas gostava de
fazer de conta que ainda acreditava  na lenda segundo a qual o Velho do
Natal vinha do plo Norte, voando sobre campos, montanhas e cidades no
seu tren puxado por duas parelhas de renas. E agora, olhando  para o
pinheiro rutilante na sala sombria, o rapaz enfiava a cara por entre as
grades do corrimo, esperando o grande momento, com a sensao de ter
mariposas vivas  no estmago.
  - Ateno! - bradou o Chim, olhando o relgio. - O bicho vai chegar...
No esto ouvindo o barulho da carruagem?
  229
  Rodrigo deu corda ao gramofone e p-lo a tocar a Marcha da Ada,
interpretada pela Banda dos Fuzileiros Navais. Acordes hericos encheram
a casa. As mariposas de  Floriano alvorotaram-se.
  Ouviu-se um rudo de passos para as bandas da cozinha, onde Laurinda
gritou: "O Velho chegou! Minha Nossa!" E ento uma imponente figura
surgiu  porta da sala:  um Papai Noel todo vestido de vermelho, com
longas barbas de algodo, um capuz na cabea, um ventre enorme, o saco
de brinquedos s costas. Soltou uma gargalhada  estentrea e bonachona.
Bibi rompeu a chorar. Edu fechou os olhos e agarrou-se com mais fora 
perna da Dinda. Alicinha contemplava o recm-chegado com uma expresso
de fastio nos olhos adultos. Slvia, de boca aberta, o beicinho trmulo,
aproximou-se de Rodrigo e abraou-lhe as pernas.
  Jango tapou os olhos com as mos, mas ficou espiando o "bicho" por entre
os dedos. Zeca murmurava: "No tenho medo dele... no tenho medo
dele..." Mas no largava  a saia de Maria Valria. Gabriel, o prtico de
farmcia, estava de p a um canto, olhando a cena com a boca
semi-aberta, e algo de pateticamente infantil nos olhos  mansos.
  Papai Noel deu alguns passos e pousou o saco no soalho, no centro da
sala. Seguiu-se a distribuio de brinquedos, ao som da marcha e do
berreiro desenfreado de  Bibi. Passado o primeiro momento de medo, Edu
deu dois pulos  frente, soltou uma cusparada na direo da barriga do
Velho, e em seguida recuou, entrincheirando-se  atrs da me.
  - Todos os meninos se comportaram bem? - perguntou o Weihnachtsmann com
seu forte sotaque alemo.
  Atravs das rbitas da mscara de papelo apareciam os olhos claros do
confeiteiro. O suor punha-lhe manchas escuras na roupa.
  A msica do gramofone cessou. Chiru mudou o disco. Era agora uma valsa
vienense. Papai Noel comeou a danar, ao mesmo tempo que entregava os
pacotes. Havia presentes  para os grandes. Gravatas para Chiru e
Gabriel. Uma cigarreira para Neco Rosa. Uma camisa de seda para o dr.
Ruas, que manquejava dum lado para outro, apoiado numa  bengala. Roque
Bandeira ganhou um Dicionrio de Aulete. Para Stein havia um volumoso
pacote.
  230
  - Abra -- disse Rodrigo ao judeu.
  O rapaz obedeceu. Dentro da caixa enfileiravam-se os volumes da Histria
universal de Csar Cant.
  - Ah! - fez Stein.
  - Ento, no dizes nada?
  - Muito obrigado, doutor.
  - Assim com essa falta de entusiasmo? Se queres, devolvo esses livros e
te compro outra coisa...
  - No senhor, est muito bem.
  Ajoelhado ao p da caixa, Aro Stein mirava as lombadas dos volumes. E
como Roque Bandeira se acocorasse ao lado dele para mostrar-lhe o seu
Aulete, o judeu murmurou:
  - Imagina, o Csar Cant! A histria narrada do ponto de vista safado e
convencional da burguesia: a exaltao do capitalismo, a justificao
das guerras, a glorificao  dos generais, do imperialismo...
  - Finge ao menos que ests contente, ingrato - rosnou o outro, com os
olhos em Rodrigo, que naquele momento entregava um presente  esposa.
  Flora passou a filha mais moa para os braos de Maria Valria e abriu o
pequeno pacote. Era um estojo de veludo roxo, dentro do qual fulgia um
anel de brilhante.
  - Gostas? - perguntou o marido, sabendo j o que ela ia dizer.
  Como nica resposta ela lhe enlaou o pescoo e beijou-lhe a face.
  - Agora - anunciou o anfitrio - o presente da madrinha. Abriu um
pacote, tirou de dentro dele um xale de l xadrez
  e entregou-o  Dinda, que o agarrou e disse, seca:
  - Podia ter empregado melhor o seu dinheiro. Velha no carece de
presente.
  Papai Noel continuava a valsar ao redor da sala, pesado como um urso. J
agora, entretidas com os brinquedos, as crianas lhe davam menos
ateno. Mas Edu, vendo  aquele traseiro gordo e vermelho passar por
perto, precipitou-se contra ele e desferiu-lhe uma cabeada. Papai Noel
desatou a rir e atirou-se no cho, 
  231
  fingindo que tinha sido derrubado. Rodrigo aproximou-se do confeiteiro.
  - Agora vai embora, Jlio - segredou-lhe - antes que comeces a perder o
prestgio. A mscara est afrouxando...
  Papai Noel fez as despedidas, com promessas de voltar no ano seguinte, e
rosnando ameaas para os meninos e meninas que no se comportassem bem
durante o ano.
  Algum acendeu a luz do lustre. As crianas foram levadas para o andar
superior.
  - Agora vamos comer e beber alguma coisa! - exclamou Rodrigo.
  Ele prprio havia preparado um bowle, que comeou a servir
generosamente. Chiru quebrava nozes entre as manoplas. O dr. Ruas
sentou-se ao piano e atacou a valsa  Sobre as ondas. Leocdia surgiu com
um prato de croquetes quentes. Neco Rosa foi o primeiro a servir-se.
Gabriel bebia em silncio no seu canto.
  Por volta das nove horas entraram no Sobrado os Carbones. Ele vinha duma
operao de emergncia, um caso de ventre agudo, e estava eufrico. Ela,
envolta numa aura  de gua-de-colnia e alho, comeou a distribuir
abraos e beijos. Rodrigo entregou os presentes destinados ao casal.
  - Auguri! - exclamou o cirurgio, pondo-se na ponta dos ps para beijar
a testa ao amigo. Santuzza puxou o anfitrio contra os seios e
aplicou-lhe uma beijoca sonora  na boca.
  Poucos minutos mais tarde Cario Carbone estava ao lado de Miguel Ruas,
que ensaiava o acompanhamento duma outra canzonetta.
  Rodrigo ficou por alguns instantes a mirar a prpria imagem refletida
numa das esferas de vidro. "Onde estar o senhor dentro de um ms?",
perguntou a si mesmo,  comeando j a entrar no "porre suave". "Em cima
dum cavalo, na frente duma coluna revolucionria, em plena coxilha?
Debaixo da terra, numa sepultura rstica perdida  no meio do campo?
Onde?"
  Carbone soltou a voz de tenor, doce, afinada e meio trmula. Era o
Torna a Sorrento.
  232
  Chiru olhou para Neco e disse:
  - Pelo que vejo, hoje no vais poder tocar violo. O barbeiro deu de
ombros.
  - Pouco m'importa. Deixa que o gringo se divirta.
  33
  Stein explicava a Bandeira por que razo era contra a lenda do Natal:
  -  preciso preparar a infncia para a sociedade socialista do futuro, e
isso se faz com realismo e no com quimeras. A histria de Papai Noel,
alm de importada,   uma lenda burguesa, baseada no sobrenatural. Est
tudo dentro do esquema clerical-capitalista.  a velha peta do
milagre... Um dos muitos truques que os donos  do poder empregam para
manter as massas narcotizadas e submissas.
  Bandeira foi at a mesa servir-se outra vez de bowle. Voltou mastigando
um pedao de abacaxi.
  - Esqueces outro aspecto da questo - disse. - Refiro-me ao interesse
que tem o comrcio de estimular este tipo de celebrao, tu sabes, o
hbito, a quase obrigao  de dar presentes. E a todas essas, pouca
gente se lembra do verdadeiro sentido desta data: o nascimento de Jesus.
  - Outra lenda!
  - Pode ser. Mas cala a boca, que o dr. Rodrigo vem vindo. Finge de
bem-educado, ao menos hoje, sim?
  Rodrigo aproximou-se dos dois amigos.
  - E vocs? Discutindo sempre? J comeram alguma coisa? Que  que vais
beber, Aro?
  Afastou-se sem esperar as respostas a estas perguntas.
  A morna brisa da noite entrava pelas janelas e sacudia as esferas e os
enfeites do pinheiro, que crepitavam. As chamas das velinhas oscilavam.
  Rodrigo sentiu que lhe tocavam no brao.
  - Que tens? Ests to srio...
  233
  Voltou-se. Era Flora. Achou-a linda. Como pudera tra-la tantas vezes
com outras mulheres?
  - No, meu bem. No  nada.
  Aproveitando o momento em que a maioria dos convivas se encontrava na
sala de jantar, ao redor da mesa, Flora pousou por um breve instante a
cabea no ombro do marido,  num gesto que
  o enterneceu.
  - Rodrigo, me fala com franqueza. . . Essa revoluo vai sair mesmo?
  Ele lhe acariciou os cabelos.
  - No penses nisso, minha flor.
  - E se sair... - Havia um tremor na voz dela. - Se sair... tu tens de
ir?
  - Flora, meu bem, estamos na vspera do Natal. No vamos falar em coisas
tristes.
  - Mas eu preciso saber, no tenho dormido direito pensando nisso...
  Carbone terminou a canoneta num agudo um tanto falso, que mais pareceu
um balido de ovelha. O dr. Ruas bateu no piano com bravura o acorde
final. Ouviram-se aplausos.
  - Depois conversaremos - disse Rodrigo. - Vai atender os teus
convidados. - Abraou a mulher, beijou-lhe rapidamente os lbios e
murmurou: - Haja o que houver, quero  que saibas que eu te amo, ests
ouvindo? Te amo!
  Ela se afastou, o rosto afogueado, os olhos brilhantes. Carbone e o
ex-promotor agora ensaiavam baixinho o Ideale, de Tosti.
  - Mas suponhamos que saia a revoluo... - dizia Roque Bandeira a Stein,
que folheava distrado um dos volumes do dicionrio.
  O judeu sacudiu os ombros.
  - Que briguem e se matem! No tenho nada com isso. Acho que tu tambm
no tens.
  - Por qu?
  - Se s o racionalista que imagino, no podes ir atrs dessas baboseiras
de assisismo e borgismo.
  Tio Bicho emborcou sua taa e depois ficou catando com o dedo os
pedacinhos de abacaxi que haviam ficado no fundo dela.
  - Ora, tu sabes como  difcil a neutralidade... - murmurou. - E fica
sabendo que brigar  menos uma questo de convico ideolgica que de
temperamento ou oportunidade.
  Como Rodrigo de novo se aproximasse, Stein acercou-se dele, dizendo:
  - Dr. Rodrigo, agora quero lhe dar o meu presente de Natal. Meteu a mo
no bolso interno do casaco e tirou um folheto,
  entregando-o ao amigo.
  - Que  isto?
  - Faa o favor de ver o ttulo...
  Era um caderno comovedoramente mal-impresso em papel de jornal
ordinarssimo. O ttulo: Manifesto comunista.
  - Ah! - fez Rodrigo.
  - J leu esse grande documento?
  - Uma vez passei-lhe os olhos...
  Era mentira. Mas que importncia tinha o assunto?
  -  Aro -- disse, segurando o brao do rapaz - vou te pedir uma coisa.
Tem cuidado quando distribures esta coisa. Tu sabes que existe no pas
uma lei contra a  propaganda maximalista.
  - Eu sei, doutor. No se preocupe.
  Rodrigo meteu o panfleto no bolso e dirigiu-se para o vestbulo, pois
naquele momento batiam  porta. Era Jlio Schnitzler, que voltava
envergando sua roupa domingueira,  e desta vez em companhia de sua Frau
e da filha. Como acontecia todos os anos na vspera de Natal, vinham
trazer de presente aos Cambars um grande bolo.
  - Entrem! Subam! - exclamou Rodrigo, abraando-os. Flora cortou o bolo e
serviu os convidados. O dr. Carbone
  atacou o Ideale. Santuzza, na opinio do Neco, j estava um pouco
"alegrete", pois desde que chegara no cessara de empinar taas sobre
taas de bowle.
  Quando, minutos depois, o dr. Dante Camerino entrou no Sobrado, foi
recebido com exclamaes e palmas. O rapaz abraou o anfitrio, e
entregou-lhe um presente.
  234
  235
  - Ora, no devias te incomodar - disse Rodrigo, metendo o pacote no
bolso sem abri-lo. - Agora quero te entregar o teu presente.
  Camerino abriu os braos:
  - O meu presente? Depois de tudo quanto o senhor fez por mim? Me custeou
os estudos, me deu livros, me mandou dinheiro, Santo Cristo! E ainda
fala em presente?!
  Dante estava engasgado, lgrimas brotavam-lhe nos olhos. Rodrigo
inclinou-se e apanhou o pequeno pacote que jazia ao p da manjedoura, 
sombra da figurinha de So  Jos.
  - Dr. Dante Camerino - disse, com fingida solenidade. - Aceite esta
pequena lembrana de seu velho amigo...
  Ele prprio no pde terminar a frase, porque a emoo lhe trancou a
voz. Dante abriu o pacote com mos aflitas. Era um anel de formatura.
  - Mamma mia! - exclamou ele. E atirou-se nos braos de seu mecenas, e
ficaram ambos abraados, num equilbrio precrio; enquanto o dr. Carbone
cantava com entusiasmo  a cano de Tosti, o ex-promotor fazia vibrar o
piano com verdadeiros manotaos, Santuzza empinava mais um copo de
bowle, Chiru Mena matava "chimangos" num combate  imaginrio e Neco Rosa
cocava com olho lbrico Marta, filha do confeiteiro...
  Fungando, meio encabulado, Dante enfiou o anel no dedo e ergueu-o no ar.
A esmeralda faiscou. E vieram os parabns e os abraos dos outros,
inclusive de Stein, que  foi empurrado por Bandeira. Maria Valria
limitou-se a tocar-lhe o ombro com as pontas dos dedos. Mas Flora
deu-lhe um abrao maternal. Marta ficou enleada e mais  vermelha que de
costume ao apertar a mo do recm-formado. Chiru comeou um discurso, a
taa na mo:
  - Sado o nosso Hipcrito...
  - Hipcrates, seu burro! - corrigiu-o Rodrigo. E, afastando-o do
caminho, disse: - Cala a boca, que agora os Schmtzlers vo nos cantar
umas canes de Natal.
  - Ento manda esse gringo parar a cantoria.
  Carbone, porm, chegara ao fim de sua cano e agora se reunia aos
outros, seguido pelo dr. Ruas. Rodrigo tornou a apagar
  236
  a luz do lustre. Sentaram-se todos na sala de jantar, enquanto os trs
Schnitzlers se postavam junto do pinheiro. Fez-se um silncio, dentro do
qual se ouviram,  a capela, as vozes afinadas da famlia do confeiteiro.
Era uma velha cano de Natal:
  Stille Nacht, heilige Nacht! Alies schlft, einsam wacht.
  As luzes coloridas da rvore refletiam-se nos cabelos de Marta. Rodrigo
no tirava os olhos dela. Achava-a bem-feita de corpo, apetitosa, a cara
redonda e corada  parecia uma fruta madura.
  Que pena! - refletia ele. Se algum no apanha essa ma para comer
agora, ela pode bichar.
  Os peitos da alemzinha arfavam. Frau Schnitzler tinha uma bela voz de
contralto. Jlio era um tenor razovel. Marta, um tremelicado soprano
ligeiro. Para pronunciar  certas palavras seus lbios carnudos e
vermelhos tomavam a forma dum boto de rosa, o que deixava Rodrigo
excitado. E ele bebia bowle gelado, copo sobre copo, para  refrescar-se,
apaziguar aquele calor de entranhas que a filha do confeiteiro
contribua para aumentar com seus movimentos de seios e de boca.
  Foi despertado de seu devaneio ertico pelos aplausos. O trio cantou a
seguir o Adeste, fideles. As velas na rvore comeavam a morrer.
   sede insacivel - exclamou Rodrigo interiormente. -  desejo sem fim!
  Dante Camerino de instante a instante erguia a mo e contemplava o anel.
E quando a ltima cano terminou e as luzes se acenderam, Maria Valria
estendeu um dedo  acusador na direo do jovem mdico.
  - Cruzes! O Dante tambm!
  Camerino ficou espantado sem saber a que a velha se referia.
  - Que , titia? - perguntou Rodrigo. Maria Valria apontava para as
pernas do rapaz.
  - Olhe as calcinhas dele! Os sapatos bicudos! Credo!
  237
  Dante ficou vermelho, como se de repente houvesse descoberto que estava
nu.
  Quase todos romperam a rir. Camerino estava vestido de acordo com o
rigor da moda: casaco comprido, muito cintado e justo ao corpo, calas
estreitssimas, e um colarinho  alto com uma gravata que, de to
estreita, mais parecia um cordo de sapato.
  -  o que se usa em Porto Alegre - balbuciou ele. O ex-promotor sorriu:
  - No faa caso. Isso s prova o seu bom gosto. Chiru murmurou para Neco
sua opinio:
  - Pode ser moda, digam o que disserem, mas um mdico, um doutor, devia
se dar mais o respeito.
  Neco concordava, palitando a dentua. Carbone insistia para que Ruas
voltasse ao piano. Sabia ele acompanhar o Santa Lcia Luntana?
Cantarolou a msica.
  Santuzza estava escarrapachada no sof, abanando-se com um leque.
Parecia sufocada. Por precauo Flora apagou as velas da rvore e subiu
ao andar superior onde  as crianas estavam fazendo muito barulho.
  - Mande todos pra cama! - recomendou Maria Valria.
  Rodrigo procurava Marta com o olhar. Onde estaria a rapariga? Saiu da
sala e encontrou-a sozinha no corredor, junto duma janela, no fundo da
casa. O anfitrio sentia  uma tontura boa, que lhe dava uma grande
cordialidade, um desejo de ser bom, amvel, carinhoso para com todo o
mundo.
  - Aaah! - fez ele numa longa exclamao, aproximando-se da filha do
confeiteiro. - Que  que a menina est fazendo sozinha aqui?
  E, com uma rapidez de relmpago, um plano doido lhe passou pela cabea:
arrastar a Marta para a despensa, fechar a porta e possu-la, com-la
entre as latas de doce  da Dinda.
  Sem perder tempo, enlaou-lhe a cintura.
  - O titio no ganha um beijinho de Natal?
  Marta encolheu-se, procurou esquivar-se, mas ele a puxou contra si com a
mo direita, enquanto com a esquerda fazia exploraes aflitas nos seios
da rapariga.
  238
  Uma voz f-lo estremecer.
  - Rodrigo!
  Largou a presa. Marta afastou-se, quase a correr, rumo da cozinha.
Rodrigo voltou-se e viu Maria Valria, acusadora e terrvel como o
arcanjo Gabriel, a anunciar  o Juzo Final.
  - Eu estava conversando com a Marta, Dinda...
  - Desde quando voc conversa com as mos? No tem vergonha na cara? Na
sua prpria casa, e na noite de Natal!
  Furioso, Rodrigo deu dois passos na direo da porta da cozinha,
abriu-a, saiu para a noite e foi at o fundo do quintal, onde ficou sob
as estrelas a ruminar a  sua fria e o seu despeito.
  34
  Na manh seguinte Rodrigo acordou tarde. Eram quase onze horas quando
terminou de barbear-se. Estava diante do espelho a examinar a lngua,
quando Flora lhe veio  dizer que um visitante o esperava na sala.
  - Quem ?
  - O dr. Terncio Prates.
  Rodrigo franziu a testa. U! Que querer ele? Nunca me visitou...
Lembrou-se da bofetada que dera no Honorinho no clube, havia algumas
semanas, e concluiu: "Vem  me desafiar para um duelo em nome do irmo".
Pois que seja! Desceu as escadas pisando duro e entrou na sala de cara
fechada. O outro, porm, ergueu-se, risonho,  veio a seu encontro e
abraou-o, desejando-lhe um feliz Natal.
  Era um homem de trinta e quatro anos, alto, trigueiro, enxuto de carnes.
Tinha uma expresso altaneira que se revelava na cabea sempre empinada,
na expresso autoritria  dos olhos mosqueados, e nos gestos incisivos.
Trajava sempre com apuro e aquela manha estava metido numa fatiota de
linho branco. Prendia-lhe a gravata cor de vinho  um pregador com um
pequeno rubi.
  - Mas que surpresa agradvel! - exclamou Rodrigo, agora com a fisionomia
despejada. - Senta-te. Que  que tomas?
  239
  O outro sentou-se. No tomava nada antes do almoo, muito obrigado. E um
cigarro? Terncio recusou: no fumava. Ali estava uma das razes por que
Rodrigo jamais  tivera simpatia por aquele homem: o monstro no tinha
vcios!
  Mordeu a ponta dum charuto, prendeu-o entre os dentes e acendeu-o. O
visitante pigarreou.
  - Por mais estranho que parea - comeou ele - o que me traz aqui  uma
misso...
  No me enganei - pensou Rodrigo. E j se imaginou a dizer: "Pois bem.
Aceito o duelo. Escolho a pistola".
  - Pois ... - continuou o outro. - Meu pai, Rodrigo,  um grande
admirador teu, um amigo mesmo...
  - Sempre tive o maior respeito e estima pelo coronel J Prates.
  - Ele sabe disso... Pois o Velho ficou ao par do teu incidente com o
Honorinho, no clube... Soube mesmo que o mano chegou a puxar o revlver
. . .
  - Ora...
  - O Velho ficou to preocupado com a histria, que me encarregou de vir
at aqui para arranjar as coisas. Ele te pede que no guardes rancor
pelo rapaz, e que ds  o incidente por encerrado.
  - Mas claro! De minha parte...
  Terncio cortou-lhe a palavra com um gesto impaciente:
  - Espera. Ele sabe que o Honorinho te ofendeu... mas que tu o
esbofeteaste na frente de vrias pessoas. Enfim, ficam elas por elas. -
Sorriu, visivelmente embaraado.  - O papai morreria de desgosto se
houvesse alguma coisa sria entre um Prates e um Cambar. Ele sempre se
orgulhou da amizade da gente do Sobrado...
  Rodrigo soltou uma baforada de fumaa.
  - Pois podes assegurar ao coronel Prates que da minha parte est tudo
esquecido. Digo-te mais: a primeira vez que encontrar o Honorinho,
estendo-lhe a mo, seja  onde for.
  Terncio acariciou o rubi do pregador.
  - O Velho tambm me pediu para te dizer que no quer que essa histria
de assisismo e borgismo altere a velha amizade entre nossas famlias.
  240
  Rodrigo gostava do velho Prates, mas nunca simpatizara com os filhos.
Quanto a Terncio, achava-o um tanto pedante e com fumos de aristocrata.
Tinha um orgulho exagerado  das coisas que sabia, e no perdia
oportunidade para exibir cultura.
  - Por que no tomamos ao menos um cafezinho? Terncio encolheu os
ombros.
  - Est bem. Aceito.
  Rodrigo gritou por Leocdia e, quando a negrinha apareceu, pediu-lhe que
preparasse um bom caf.
  - Novinho, hein?
  Terncio olhava em torno da sala. Demorou o olhar no Retrato. Rodrigo
esperou um elogio  obra de don Pepe, mas o visitante no disse palavra.
Seu olhar agora estava  focado no espelho grande, onde sua prpria
imagem se refletia.
  Rodrigo, ansioso por mudar de assunto, perguntou:
  -- Que tens feito?
  Arrependeu-se imediatamente da pergunta, pois o outro se ps a falar com
mincias nos artigos que escrevia e nos livros que lia no momento. J
tinha Rodrigo lido  Dure et simultanit, de Bergson? No? Era o mais
sensacional vient de parattre em Paris. E L pre humili, de Claudel?
Recebera este ltimo livro a semana passada,  juntamente com a nova obra
de Jacques Maritain, Art et scolastique.
  Rodrigo sentia-se vagamente humilhado. Nem sequer tinha ouvido falar
naqueles livros.
  - Tenho lido s medicina, ultimamente - mentiu.
  -  natural - disse Terncio, lanando um rpido olhar para o espelho. -
Estamos na era da especializao. Mas... por falar em medicina, estive
lendo um artigo sobre  a descoberta duma nova droga, a insulina...
  - Ah! A insulina... - repetiu Rodrigo, desejando que o outro no lhe
pedisse pormenores sobre o assunto, pois ele ainda no o conhecia. Tinha
visto um artigo a respeito  numa revista de medicina, mas - como
acontecia com tantas outras publicaes - deixara-o de lado "para ler
depois".
  241
  Leocdia entrou com os cafezinhos e salvou a situao, pois Rodrigo
aproveitou a oportunidade para fazer consideraes sobre o problema do
caf que o levou aos males  da monocultura,  "camorra
rnineiro-paulista", a Artur Bernardes, ao estado de stio e  situao
geral do pas... S se calou quando julgou que o assunto "insulina"
estava j a uma distncia tranquilizadora.
  Ficaram ambos a bebericar caf em pequenas xcaras cor-de-rosa com asas
douradas.
  - Ah! - fez Terncio, como quem de repente se lembra de alguma coisa. -
Ia esquecendo de te contar que embarco o ms que vem para Paris.
  - Sim? - fez Rodrigo. E sentiu uma sbita, irritada inveja do outro. - A
passeio?
  Terncio sacudiu negativamente a cabea.
  - No. Vou fazer um curso de economia poltica e de sociologia na
Sorbonne.
  - No diga!  magnfico!
  Que besta! Mel em focinho de porco. Aposto como esse tipo vai viver em
museus e conferncias, sem lembrar-se de que existe um Moulin Rouge, um
Folies-Bergre...
  Terncio tomou o ltimo gole de caf.
  - Ainda quero escrever o livro definitivo sobre o nosso Rio Grande.
  - s o homem indicado - declarou Rodrigo sem convico. - Tens tudo.
  Terncio ergueu a mo como para fazer o outro calar-se:
  - No tenho tudo. Falta-me alguma coisa. Minha sociologia guarda ainda
um rano provinciano. Preciso de dois ou trs anos em Paris para arejar
as idias e entrar  em contato com os grandes pensadores europeus...
Adquirir novos conhecimentos, novas tcnicas, processos... tu sabes.
  Ps a xcara vazia em cima do consolo.
  - Estamos em vspera de grandes acontecimentos - acrescentou, cruzando
as pernas. - Precisamos estar preparados.
  - Infelizmente a situao se agrava. E se a Comisso de Poderes
reconhece a vitria do dr. Borges de Medeiros, a nica alternativa que
resta para a oposio esbulhada   a revoluo...
  O outro sorriu com um ar de superioridade que deixou Rodrigo com a marca
quente.
  - Eu no me refiro ao Rio Grande, mas ao mundo... Disse de seu
entusiasmo pelo novo movimento que surgia na
  Itlia.
  - Agora que Mussolini subiu ao poder, a idia fascista vai tomar conta
da Itlia e talvez da Europa.
  - Achas?
  - Sem a menor dvida. Homens da envergadura de Gabriel D'Annunzio j
abraaram a causa. O fascismo, meu caro,  um protesto da mocidade
italiana contra o parlamentarismo  decrpito e contra o liberalismo
indeciso e tolerante. A marcha dos fascistas sobre Roma foi, na minha
opinio, um dos mais belos e auspiciosos fatos histricos  de nosso
tempo!
  - Bom, concordo que o movimento tenha a sua razo e a sua beleza...
  - Ouve o que te digo - e ao pronunciar estas palavras Terncio tinha um
ar didtico. - O fascismo vai ser a grande fora com que o Ocidente
deter a onda bolchevista.  Toma nota das minhas palavras. A Igreja ter
no fascismo o seu mais forte defensor.
  Rodrigo agora rapa com a ponta da colher o acar que ficou no fundo da
xcara.
  - Esse movimento - continuou Terncio - representa a meu ver a
ressurreio das guias romanas.
  Rodrigo levou a colher  boca e lambeu-a.
  - Outro cafezinho?
  Com um gesto que revelava sua impacincia por ter sido interrompido, o
outro disse que no. E prosseguiu:
  - Mussolini  uma nova encarnao de Jlio Csar.
  - Vi o retrato do homem numa revista. Me agradou o molde da cara, a
queixada enrgica, o olhar dominador.
  Terncio franziu a testa:
  242
  243
  -  preciso que algum venha pr no lugar as coisas que a ltima guerra
desarrumou. Precisamos restabelecer a ordem, a hierarquia. Anda por a
uma onda de coletivismo  absurda e perigosa, insuflada pela Revoluo
Russa. Se o Ocidente no tomar cuidado, l se vai guas abaixo a nossa
cultura, l se vo nossas instituies, nossa  tbua de valores
morais...
  E no se perder muita coisa! - pensou Rodrigo. Mas sacudiu
afirmativamente a cabea, como se concordasse com o outro.
  Quando Terncio saiu, poucos minutos depois, Rodrigo acompanhou-o at a
calada.
  - Diga ao velho que fique tranquilo. O incidente est encerrado. E os
Cambars muito se honram com a amizade dos Prates.
  Apertaram-se as mos. Terncio atravessou a rua e ganhou a calada da
praa. Rodrigo seguiu-o com os olhos. Esse animal vai para Paris -
pensou. - No h justia  no mundo.
  Mordeu com raiva o charuto apagado.
  35
  Pela primeira vez naqueles ltimos quinze anos, Rodrigo recusou-se a
tomar parte no rveillon de 31 de dezembro, no Comercial. E quando
Flora, surpreendida, lhe  perguntou o motivo dessa resoluo, explicou:
  - No quero ver a cara de certos chimangos...
  Manteve a deciso. Ruas, porm, mandou cortar a barba e escanhoar o
rosto.  noite, meteu-se no smoking novo e atirou-se para o Comercial. O
dr. Carbone, enfarpelado  numa casaca antiqussima, que a Rodrigo
lembrou as que se usavam no tempo da Dama das camlias, veio busc-lo no
seu Fiat. E quando, ainda manquejando, o ex-promotor  deixou o Sobrado e
entrou no automvel, onde se instalou ao lado de Santuzza, esplndida
num vestido negro de rendo, uma aigrette na cabea - Maria Valria, que
estava  janela, murmurou: "Deus os fez e o diabo os juntou".
  Depois do jantar Licurgo saiu, como de costume, para a sua "volta".
Maria Valria recolheu-se cedo. E  meia-noite, quando o
  244
  sino da matriz badalava, e por toda a cidade se ouviam gritos, risadas,
espocar de foguetes e detonaes de revlveres, Rodrigo fez saltar a
rolha duma garrafa de  champanha, encheu a taa de Flora e a sua e
props um brinde ao ano-novo. Quando o marido a abraou, Flora rompeu a
chorar de mansinho, com a cabea pousada no ombro  dele, os lbios
trmulos, os olhos inundados.
  - Que  isso, minha flor? No chores. Est tudo bem. Todos com sade.
Estamos reunidos. No  o que importa?
  Ela no respondia, mas agarrava-se a ele com fora, como se no o
quisesse perder.
  Rodrigo conduziu-a para o sof, f-la sentar-se, deu-lhe uma das taas
de champanha, apanhou a outra, ergueu-a no ar e disse:
  -  nossa sade! E  de toda a nossa famlia!
  A taa tremeu nas mos de Flora, que se limitava a olhar para o marido,
as lgrimas ainda a escorrerem-lhe pelas faces. Depois, como ele
insistisse, ela bebeu um  gole de champanha. Rodrigo sentou-se ao lado
da mulher, abraou-a e perguntou:
  - Agora conte ao seu marido que  que h?
  - Uma bobagem minha. J passou.
  Deps a taa em cima do consolo, enxugou os olhos, tentou sorrir.
  - No aceito a explicao. Vamos, que  que h? Ela o mirou com uma
expresso de tristeza.
  - Eu sei que a revoluo vai sair e tu ests metido...
  A princpio ele no soube que resposta dar. Brincou com a corrente do
relgio, depois pegou no queixo da mulher, aproximou-se mais dela e
beijou-lhe os lbios, longamente.
  - Haja o que houver, meu bem - murmurou -, s te peo uma coisa: que
tenhas coragem e f. E uma absoluta confiana em mim. S farei o que for
necessrio.
  - Mas essa revoluo  mesmo necessria? Rodrigo ergueu-se, encheu de
novo a prpria taa.
  - Desgraadamente a revoluo  necessria e inevitvel. Voltou as
costas para a mulher, olhou para o prprio retrato,
  tornou a levar a taa  boca e esvaziou-a.
  - Mas por que tu, tu tens de ir?
  245
  - Porque j me comprometi em pblico. Tu te lembras do meu discurso da
sacada do Sobrado... Um Cambar nunca faltou com a sua palavra. E
depois, h outras razes  poderosas...
  - Que  que ganhas com isso?
  - Que  que eu ganho? - Ele se voltou, brusco, como se o tivessem
apunhalado pelas costas. - Meu amor, no se trata de ganhar, de obter
vantagens pessoais, mas de  livrar o nosso Rio Grande dum ditador e de
bandidos e ladres como o Madruga. Estamos lutando por um mundo melhor
para os nossos filhos...
  Tornou a olhar para o Retrato. O outro Rodrigo, l daquela longnqua
coluna de 1910, parecia perguntar-lhe: "At que ponto ests sendo
sincero? At onde acreditas  mesmo no que dizes?"
  Ele franziu a testa e respondeu mentalmente: "Estou sendo absolutamente
sincero. Acredito em tudo". Tornou a encher a taa. Ouviam-se ainda
foguetes e tiros em ruas  distantes, mas o sino cessara de badalar.
  Flora ergueu-se. Havia agora em seu rosto uma expresso resignada.
  - Est bem - disse ela. - Prometo no falar mais no assunto.
  J de madrugada, fumando na cama sem poder dormir, e sentindo na
penumbra do quarto que Flora a seu lado tambm estava insone, Rodrigo
pensava nas coisas que o novo  ano lhes podia trazer. A idia da
revoluo ora o deixava perturbado pelo que a campanha lhe ia oferecer
de durezas e perigos, ora excitado pelas suas oportunidades  de aventura
e gestos hericos. Fosse como fosse, era algo de novo e excitante para
quebrar a monotonia da vida em Santa F. E ele, Rodrigo, ia finalmente
tirar a  prova dos noves de sua prpria coragem. Sempre se portara como
homem em lutas singulares. Queria saber de uma vez por todas como se ia
haver em combate. Que melhor  campo de provas poderia existir do que uma
revoluo?
  Esmagou a ponta do cigarro no cinzeiro, em cima da mesinha-de-cabeceira,
estendeu-se na cama e cruzou os braos. Flora remexeu-se. As janelas do
quarto estavam abertas  para a noite.
  246
  E depois, havia razes ideolgicas - continuou a refletir. - A ditadura
borgista era uma vergonha, um ultraje. Que iria o resto do pas dizer da
hombridade dum povo  que suporta um ditador positivista durante vinte e
cinco anos? Seria que o famoso "centauro dos pampas" no passava dum
matungo velho e acovardado? Era necessrio  reformar a Carta de 14 de
Julho, reintegrar o Rio Grande no esprito da Constituio Nacional. Os
males eleitorais s poderiam ser curados com a adoo do voto secreto,
como queria Assis Brasil. Se essa no  uma causa boa - disse ele para
si mesmo - ento no me chamo Rodrigo Terra Cambar e o mundo est todo
errado!
  Fechou os olhos, mas sentiu que lhe ia ser difcil pegar no sono. Estava
excitado. Aquela hora a festa do Comercial decerto havia atingido o
auge. Rodrigo sorriu,  pensando nas bebedeiras, nas brigas, nos flertes,
nos "adultrios brancos" que aquele baile costumava propiciar. Teve uma
vaga saudade dos rveillons de seu tempo  de solteiro.
  Da rua subiu uma voz grave e afinada, cantando:
  Ontem ao luar
  Ns dois numa conversao
  Tu me perguntaste
  O que era a dor duma paixo....
  Rodrigo sentou-se na cama. Reconhecia a voz do Neco. Como estava clara!
O patife no sabia fazer a barba, mas no canto e no violo era um
mestre. Rodrigo acendeu  um novo cigarro.
  - Ests ouvindo? - perguntou baixinho  mulher.
  Ela respondeu que sim, e procurou-lhe a mo sob as cobertas, e assim
ficaram os dois a escutar, em silncio. Neco atacou outra modinha:
  Acorda, Adalgisa Que a noite tem brisa Vem ver o luar...
  247
  Rodrigo no resistiu, saltou da cama, e descalo, aproximou-se da
janela. L embaixo,  beira da calada, estava o Neco, de violo em
punho. Ao lado dele, sentado  na calada, em mangas de camisa, Chiru
tinha o rosto erguido para o cu. Ao ver Rodrigo acenou-lhe com a mo.
  - Feliz ano-novo!
  Rodrigo percebeu pela voz do amigo que ele j estava bbedo como um
gamb.
  Depois que os seresteiros se foram, rua em fora, ao som duma valsa
dolente, Rodrigo quedou-se ainda  janela, olhando as rvores da praa,
imveis no ar clido da  noite estrelada. Vinha da padaria vizinha um
cheiro morno e familiar de po recm-sado do forno.  noites de
antigamente! Era o tempo em que ele e Torbio acreditavam  em que nas
madrugadas de sexta-feira o negro Srgio, o acendedor de lampies,
virava lobisomem e saa a correr e a uivar pelas ruas, indo depois
revolver sepulturas  no cemitrio.
  Pensou em Salustiano, o inseparvel amigo de Chiru, companheiro de
serenatas do Neco - pequenote, franzino, opinitico, sempre com os
beios colados na sua flauta,  tocando suas famosas valsas com trmulos
e variaes, enquanto o Neco o acompanhava, tirando graves gemidos do
pinho. Agora Salustiano estava morto, como tantos  outros amigos dos
velhos tempos. Em que lugar do universo estaria ele agora a soprar na
sua flauta? Rodrigo sorriu, pensando no feio e desajeitado anjo que
Salustiano  seria, na orquestra celestial. Mas lgrimas lhe escorreram
sobre o sorriso. Porque lhe veio de sbito uma trmula piedade de si
mesmo, como se tivesse sido vtima  duma inominvel injustia.
  Santo Deus, que estar acontecendo comigo? Atirou fora o cigarro, soltou
um suspiro e voltou para a cama.
  248
  Reunio de famlia - II
  27 de novembro de 1945
  Deitado de costas, com as pernas dobradas, as mos espalmadas sobre o
peito, Rodrigo dorme sua sesta no quarto escurecido. O zumbido regular e
contnuo do ventilador  est integrado no silncio. Uma mosca pousa na
testa do enfermo, cujo rosto neste exato momento se contrai numa
expresso de angstia. Seus lbios se movem, como  se ele fosse falar.
De sbito, como que galvanizado, o corpo inteiro estremece, as pernas se
esticam bruscamente e ele desperta.
  Sentiu que ia caindo do alto... dum edifcio? duma montanha? dum avio?
  O susto fez-lhe o corao disparar. Olha em torno e leva alguns segundos
para se situar no espao e no tempo. Depois, apreensivo, fica atento s
pulsaes do sangue  no peito, nas tmporas, na nuca... Segura o prprio
pulso mas, de esprito conturbado, no consegue contar-lhe as batidas.
Uma ccega na garganta obriga-o a pigarrear.  Quase alarmado, fica a
esperar e a temer a tosse. Aterroriza-o a idia de ter outro edema e
morrer afogado no prprio sangue. Por alguns segundos mal ousa respirar.
Mas a tosse no vem. Aos poucos o corao se acalma, a respirao se
normaliza.
  E essa queda no espao... como foi? Tenta reconstituir o pesadelo. S se
lembra de que tinha fugido da cama e do quarto para ir ao encontro de
Snia. (Engraado,  no sonho ela se chamava Tnia...) Surpreendeu-se a
caminhar como um sonmbulo em cima do telhado duma casa que se parecia
vagamente com o Sobrado. No. Era o Sobrado.  Sabia que a nica maneira
de escapar de seus
  249
  carcereiros seria descer pela fachada, agarrando-se s suas salincias,
como o Homem-Mosca... E depois? 
  Franze a testa. Depois., comeou a descer, no mais do alto do Sobrado,
mas da sotia dum arranha-cu. (Leblon?) No se lembra do resto... Ah!
Sim, estava agarrado  num mastro de bandeira e as foras lhe faltavam...
o mastro amolecia, vergava-se, e ele ia escorregando, escorregando...
at que se precipitou no espao. . .
  O suor escorre-lhe pelo rosto, empapa-lhe a camisa. O calor arde na
pele. H no ar algo de espesso e visguento.
  - Enfermeiro!
  Um homenzarro vestido de branco aparece  porta. Tem mandbulas
quadradas, pele oleosa e sardenta, cabelos cor de palha, e um canino de
platina. Deixou h dois  anos o Exrcito, no posto de segundo-sargento.
(Expulso por pederasta - imagina Rodrigo, na sua m vontade para com o
homem.) E chama-se Erotildes, o animal! Desde  que ele veio para seu
servio, h dois dias, o doente o detesta, como se a criatura fosse a
culpada de toda esta situao: o edema, a priso no leito, a ausncia
de Snia, o calor, a lentido das horas, a dieta e todas as outras
restries que Camerino lhe impe.
  - Pronto, doutor!
  - Me levante o busto.
  Erotildes aciona a manivela da cama.
  - Chega! Agora abra as janelas.
  O enfermeiro obedece. O claro da tarde invade o quarto. Rodrigo lana
um olhar para o relgio que tem a seu lado, sobre a
mesinha-de-cabeceira. Trs e vinte.
  Uma mosca pousa na cabea do enfermo, que lhe desfere uma tapa, num
gesto de brao que Camerino lhe proibiu terminantemente de fazer. Mas l
est de novo o inseto  importuno a caminhar sobre o lenol.
  - Mate essa cadela.
  Erotildes apanha um jornal, dobra-o e com ele esmaga a mosca num golpe
certeiro.
  - Ao menos pra isso voc presta.
  -  que j fui artilheiro, doutor.
  250
  - Me mude a camisa e o lenol. Me passe no corpo uma toalha molhada,
gua-de-colnia e talco...
  Enquanto o enfermeiro faz todas estas coisas, com uma eficincia um
tanto brusca, Rodrigo contm a respirao para no sentir o cheiro
de  sargento: suor, alho  e fumo barato. De quando em quando exclama:
"Devagar!" - "Ponha talco." - "Largue esse negcio!" - "Chega."
  - Agora vou buscar o seu ch.
  - Espere. Primeiro lave as mos.
  Um cheiro fresco de alfazema espraia-se no ar. Rodrigo sente-se
reconfortado, menos sujo, e at mais leve. Passa a palma da mo pelo
lenol. Sempre gostou do contato  do linho... Ah! A srdida roupa de
cama do Hotel da Serra! spera, duma brancura duvidosa, sugerindo os mil
caixeiros viajantes que ali deixaram a cinza de seus  cigarros, seu
suor, seus escarros e coisas piores...
  Erotildes volta do quarto de banho, assobiando por entre dentes.
  - Pare de assobiar! Me traga o vidro de extrato que est ali dentro da
primeira gaveta da cmoda.
  O enfermeiro obedece.
  - Agora pode ir.
  Depois que o homem se vai, Rodrigo abre o frasco e leva-o s narinas.
Fleurs de Rocaille, o perfume de Snia. Agridoce, um pouco oleoso, tem
algo de anjo e ao mesmo  tempo de demnio: num minuto pode ser inocente,
no outro afrodisaco.
  Sempre com o frasco junto das narinas, Rodrigo cerra os olhos. Snia lhe
aparece na mente. Primeiro vestida de branco, como em certa noite no
Cassino da Urca, depois  toda de verde, como naquele inesquecvel fim de
semana em Petrpolis... Agora est completamente nua em cima da cama, no
apartamento que ele lhe montou num edifcio  do Leblon. Vem-lhe uma
nostalgia mole e piegas (que ele acha indigna de macho, mas nem por isso
a afugenta), uma saudade do "Ninho". Procura reconstituir mentalmente
suas alegres salas e quartos decorados em verde e rosa, com aqueles
mveis modernos com os quais ele tanto implicou no princpio, mas que
acabou por aceitar: umas  mesas que pareciam grandes rins laqueados,
  251
   umas cadeiras que lembravam chapus de anamita investidos e nas
quais, ao sentar-se, a gente afundava ridiculamente, ficando com os ps
no ar. E que dizer daqueles  quadros monstruosos, sem p nem cabea? E
as estatuetas vagamente obscenas nas suas sugestes flicas e vaginais?
Tudo muito moderno, muito avant-garde - como dizia  Snia. Ele s sabia
que aqueles objetos eram absurdamente caros.
  Rodrigo esfora-se por imaginar Snia no seu colorido, luminoso
apartamento com janelas abertas para o mar, mas em seus pensamentos a
rapariga recusa-se a abandonar  aquele repelente quarto do Hotel da
Serra. E ento a perigosa lembrana que ele estava procurando evitar
toma-lhe a mente de assalto, com a cumplicidade perversa  do perfume.
  A cama de colcho duro rangia ao menor movimento. A porta do
guarda-roupa ordinrio de pinho no fechava direito...
  ...abriu-se naquela hora dramtica, e ele se viu refletido no seu
espelho. Foi ento que percebeu, assustado, a prpria lividez. Ia
morrer... fez meno de erguer-se  da cama... Mas Snia puxou-lhe a
cabea com ambas as mos e chupou-lhe os lbios num beijo prolongado, ao
mesmo tempo que gemia como uma gata em cio. E ele comeou  sentir o
corao aos pulos, queria e ao mesmo tempo no queria desvencilhar-se da
rapariga... e acabou agarrado a ela como um moribundo se agarra  vida.
E houve  um instante de intenso prazer e intensa angstia, um momento de
transfigurao e pnico em que teve a impresso de que toda a seiva,
todo o sangue, toda a vida que  tinha no corpo jorravam convulsivamente
para dentro dela. Passou-lhe rpido pela cabea o louco desejo de que
aquilo fosse o fim, porque s aquela espcie de morte  podia substituir
a morte em batalha ou duelo singular, pois era tambm morte de homem.
  E depois, estendido ofegante ao lado dela, ouvindo o pulsar
descompassado do prprio corao e antevendo o horror que seria - para
ele e para os outros - morrer  naquele quarto, naquela cama, naquela
posio, naquela nudez, sentiu mais que nunca o lado trgico de sua
paixo, a insensatez daquela visita, a suprema misria  a que aquela
criatura o havia arrastado.
  252
  \ Snia se ps ento a acarici-lo com uma ternura quase filial que o
constrangia, repugnava at, j que seu desejo se aplacara. Detestou-a
quando ela lhe murmurou  "Papaizinho " ao ouvido. Sentiu-se ridculo,
degradado e envelhecido como em nenhuma outra hora de sua vida. E da
por diante um nico desejo o dominou, aflito  e urgente: voltar vivo
para o Sobrado. Um homem pode querer intensamente a companhia da amante,
mas o nico lugar decente que tem para morrer  ainda a sua prpria
casa, em meio da sua famlia, junto da mulher legtima.
  Snia continuava a murmurar-lhe coisas ao ouvido, com uma voz de menina.
Ele permaneceu calado, pensando em Flora com uma fria vergonha,
lembrando-se do Neco que  montava guarda  porta do quarto, como um co
fiel.
  Quanto tempo ficou naquele torpor, naquela ansiedade, lutando com a
dispnia? Meia hora? Uma? Lembra-se de haver dormido alguns minutos, com
a cabea aninhada entre  os seios da rapariga. Depois sentou-se na cama
e vestiu-se aos poucos, lentamente, ajudado por ela.
  Rodrigo fecha o frasco e guarda-o na gaveta da mesinha-decabeceira.
Agora  preciso esquecer, esquecer tudo...
  Mas como? Um mdico seu amigo lhe disse certa vez no Rio com uma
franqueza brutal: "Tens o crebro entre as pernas". Havia ocasies em
que ele se sentia inclinado  a acreditar nisso. Pensava com o sexo. Agia
de acordo com seus desejos libidinosos, impulsivamente, sem medir
conseqncias. Muitos dos erros que cometera (erros?)  tinham tido sua
origem em ordens imperiosas, urgentes, emanadas daquela parte de seu
corpo. Outro amigo igualmente franco lhe disse doutra feita: "Tens o
sexo na  cabea". Era um modo diferente de expressar a mesma idia. Mas
talvez esta segunda frase fosse mais exata. Quantas vezes seu desejo
estava mais no crebro do que  no prprio sexo? A Dinda costumava dizer:
"Esse menino tem o olho maior que o estmago".
  A Dinda... Imagina-a ali  porta, os braos cruzados sobre o peito
magro, a murmurar: "Tudo isso foi castigo". Castigo? Esta palavra no
tem sentido para ele. Nos  tempos de moo, deu-se ao
  253
  luxo de negar Deus, mas isso foi numa poca em que o atesmo era moda,
como o chapu-coco, o plastro e o fraque. A experincia da vida, o
instinto, um sexto sentido  - tudo lhe assegura que Deus existe. S que
o meu Deus - reflete Rodrigo, olhando para a torre da matriz que a
janela enquadra - no  o Deus das beatas, nem o do  padre Josu. Meu
Deus  macho, sabe as necessidades do sexo a que pertence e que, afinal
de contas, foi inventado por Ele.  um Deus tolerante, compreensivo,
generoso.  Em suma, um Deus Cambar e no Quadros!
  Passa o resto da tarde mal-humorado. Cerca das quatro horas, Camerino
aparece acompanhado de dois colegas. Rodrigo no esconde sua
contrariedade ante o fato de Dante  no t-lo consultado antes de pedir
esta conferncia.
  Submete-se de cara amarrada ao interrogatrio e s auscultaes dos dois
mdicos. Um deles - fardado de major do Exrcito - tem uma cara
rubicunda e bonachona,   extrovertido e amvel. O outro, um neto do
finado Cacique Fagundes,  um rapaz reservado, formal e um nadinha
pedante.
  E quando os trs doutores - que sumidades! - do por terminado o exame e
se retiram para confabular, Rodrigo fica sentado na cama, os braos
cruzados, entregue a  pensamentos sombrios.
  O que Dante quer  dividir sua responsabilidade, conseguir dois
co-signatrios para seu atestado de bito... Vo chegar todos  mesma
concluso: estou no fim. Mas  dizer "estou liquidado" para observar as
reaes do mdico ou para provocar a simpatia dos parentes e amigos, 
uma coisa; sentir mesmo que a Magra nos tocou no  ombro,  algo muito
diferente.
  Lembra-se de um dos primeiros casos srios que teve logo depois de
formado. Uma madrugada socorreu o juiz de comarca de Santa F que morria
asfixiado em conseqncia  de um edema agudo de pulmo. Com uma sangria
e uma ampola de morfina fez o homem ressuscitar. Depois saiu eufrico da
casa do magistrado, sentindo-se bom, forte,  nobre, "necessrio", pois
salvara a vida dum
  254
  homem. Menos de um ms mais tarde o doente teve uma recidiva
  e morreu.
  No devo alimentar iluses. Vou morrer de insuficincia cardaca. Que
beleza! O tipo de morte feito sob medida para quem como eu tem pavor 
falta de ar...
  Mas medo da Morte no tenho. O que me assusta  a idia de no continuar
vivo. No quero morrer. No posso morrer. Preciso terminar a minha
misso. Que misso? Ora,  a de viver! Haver outra mais bela e mais
legtima? Viver com todo o corpo, intensamente, arder como uma sara...
e um dia virar cinza que o vento leva. Mas acabar  depressa. Antes da
senilidade. Antes da arteriosclerose cerebral.
  Por enquanto  cedo, muito cedo. A quem vai servir a minha morte? A
ningum. Posso citar dezenas, centenas de pessoas que se beneficiam com
a minha vida.
  E... se estou perdido mesmo, por que me privam das coisas de que gosto?
Vou mandar todos os mdicos para o diabo. Inclusive o dr. Rodrigo
Cambar. Daqui por diante  farei o que entendo. O corpo  meu. E por
falar em corpo, no sinto nenhuma dor. A respirao est normal. Esta
fraqueza e estas tonturas se devem  dieta,  imobilidade  na cama, aos
barbitricos. E por alguns instantes, num otimismo juvenil, Rodrigo se
deixa levar por uma clara onda de esperana. Mas os pensamentos sombrios
no  tardam a voltar.
  De que me serve viver nesta invalidez, nesta priso? Pensa em Flora, em
Snia, na situao poltica do pas, no estado de seus negcios...
Conclui que foi um erro  ter deixado precipitadamente o Rio numa hora
to crtica. Seu cartrio est em boas mos, no  problema. Mas e o
escritrio? E os assuntos pendentes? E os papis  trancados nos
ministrios? E as suas dvidas? E seus compromissos para com o Banco do
Brasil, que com a prxima mudana de governo pode cair nas mos da
oposio?  (Deus nos livre!)
  Tudo uma mixrdia, uma imensa, gloriosa farsa em trs atos e uma
apoteose. E que apoteose!
  255
  Pouco depois das cinco, Slvia, recm-sada do banho, senta-se junto da
cama para ler-lhe uns versos.
  - No entendo esses poetas modernos - diz Rodrigo.
  - Tenha pacincia, padrinho. Oua este.  de Mrio Quintana, cria do
Alegrete.
  Comea a leitura. A ateno de Rodrigo, porm, no est nas coisas que a
nora l. Est nela. Ele a examina intensamente, um pouco perplexo, como
se pela primeira  vez estivesse descobrindo os predicados femininos da
afilhada.
  Fica surpreendido e perturbado por notar que ela se parece um pouco com
Snia. Claro, a outra  mais alta, tem mais busto, as formas mais
arredondadas, o corpo mais...  mais armado. Mas a parecena existe...
Talvez seja o tom da pele, a voz...
  - Escute este.  do Drummond de Andrade. Chama-se Tristeza no cu:
  No cu tambm h uma hora melanclica Hora difcil, em que a dvida
penetra as almas. Por que fiz o mundo? Deus se pergunta e se responde:
No sei.
  Essa menina anda diferente - reflete Rodrigo sem prestar ateno ao
poema. Notei a mudana no dia em que cheguei. Parece que amadureceu...
Mas no  s isso. Alguma  coisa sria est se passando com ela. Meu
olho no me engana. Posso no conhecer medicina, mas mulher conheo.
  Os anjos olham-no com reprovao, e plumas caem.
  Esse olhar, esse respirar... so duma mulher apaixonada mas no feliz.
  Todas as hipteses: a graa, a eternidade, o amor caem, so plumas.
  256
  Jango? Qual! H muito que compreendi - cego no sou - que esse casamento
no deu certo. Quem ser ento?
  Outra pluma, o cu se desfaz, to manso, nenhum fragor denuncia o
momento entre tudo e nada, ou seja, a tristeza de Deus.
  Uma suspeita passa-lhe pela cabea: Floriano. Rodrigo sabe que, durante
o tempo que passou nos Estados Unidos, o rapaz se correspondeu com a
cunhada... Tm ambos  muita coisa em comum. So reservados, um pouco
tristonhos, amam os livros. A eterna histria das "almas gmeas"... Deus
queira que me engane!
  - Gostou? - pergunta Slvia, fechando o volume.
  - Gostei - mente ele. E, tomando da mo da nora e mudando de tom, diz: -
Vou te fazer uma pergunta, Slvia, mas quero que me respondas com a
maior sinceridade.
  - Qual ?
  - s feliz, mas feliz mesmo?
  Uma sombra passa pelo rosto da moa. A tristeza de seus olhos se
aprofunda.
  - Claro, padrinho. Que pergunta.
  Mas ele sente que Slvia no est dizendo a verdade.
  Pouco depois que ela sai (o relgio grande l embaixo comea a bater as
seis) Flora aparece  porta do quarto e, sem entrar nem encarar o
marido, pergunta com voz  incolor:
  - Est tudo bem? Rodrigo sorri.
  - Muito bem, obrigado. Por que no entras?
  - Estou ocupada.
  Faz meia-volta e se vai, deixando Rodrigo numa confuso de sentimentos:
revolta, culpa, arrependimento, vergonha, autocomiserao e de novo
revolta.
  Como ficaria feliz se ela fizesse um gesto de perdo! Bastaria abafar o
orgulho, esquecer as mgoas, os ressentimentos, colocando-se numa
posio de mulher superior...  Sim, ele reconhece suas
  257
  faltas. Tem sido um marido infiel, sempre viveu atrs de outras
mulheres. Mas - que diabo! - no  o nico no mundo, e no ser o pior
de todos. E afora essas infidelidades  (que em nada afetariam Flora se
ela continuasse a ignor-las, se no houvesse sempre um canalha para
escrever-lhe uma carta annima ou dar-lhe um telefonema, disfarando  a
voz), afora essas aventuras sexuais, ele sabe, tem certeza de que foi
sempre um marido exemplar. "Estimo, admiro e respeito a minha mulher -
murmura. - Nunca lhe  faltou nada."
  Remexe-se, procurando uma posio melhor na cama.
  Um vulto entra no quarto. Maria Valria toda de preto. Maria Valria com
chinelos de feltro, caminhando sem rudo. Maria Valria que se aproxima
do leito e fita  nele os olhos esbranquiados e mortos. Maria Valria
que ergue a mo de mmia e comea a pass-la de leve pelos seus cabelos,
sem dizer palavra, sem mover um msculo  do rosto.
  Rodrigo no pode conter as lgrimas, que lhe inundam os olhos e comeam
a escorrer-lhe pelas faces.
  O anoitecer sopra para dentro do quarto seu bafo quente temperado pela
fragrncia dos jasmins e das madressilvas, de mistura com odores acres
de resinas e ramos  queimados. Vem l de baixo da cozinha um cheiro
familiar e apetitivo de carne assada e batatas fritas. Nas rvores da
praa os pardais chilreiam. A torre da matriz  recorta-se sombria contra
o horizonte avermelhado. De quando em quando uma voz humana vem da rua -
risada ou grito - e seu som parece participar da qualidade lnguida  da
atmosfera, bem como de todos os seus aromas.
  Esta  a pior hora do dia para um cristo ficar sozinho - reflete
Rodrigo. - Onde se meteu a gente desta casa? Por onde andar o Floriano?
E o Jango? E o Eduardo?  E a Bibi? E o patife do Sandoval?
  Erotildes entra com uma bandeja na qual fumega um prato. Acende a luz. -
Temos hoje uma canjinha, doutor. E umas torradinhas.
  Estes diminutivos irritam Rodrigo.
  258
  - Est bem. Mas no fale nunca em cima do prato. Me d essa porcaria. O
enfermeiro coloca a bandeja sobre os joelhos do doente.
  - Est na hora do remdio.
  - Pois que venha.
  Erotildes apanha um frasco de cima da mesinha, abre-o, tira de dentro
dele um comprimido e apresenta-o a Rodrigo na palma da mo.
  - Eu j lhe disse que nunca me entregue o remdio assim. Sei l onde
voc andou metendo essa mo!
  Tira do vidro um comprimido, mete-o na boca, com um gesto raivoso e a
seguir bebe um gole da gua que est no copo, junto do prato: morna,
grossa, detestvel.
  O enfermeiro, perfilado, espera ordens.
  - Pode ir embora. No preciso mais nada.
  Quando se v de novo sozinho, Rodrigo pe-se a resmungar. "No me deixam
fumar. Me alimentam com caldinhos, mingauzinhos, canjinhas. Me probem
de beber coisas geladas.  No me deixam receber visitas. Acho que se eu
morrer vai ser de tdio mais que de qualquer outra coisa."
  Prova a canja. Insossa. Sem um pingo de tempero. Uma bosta!
  E aqui est o dr. Rodrigo Cambar doente, atirado em cima duma cama,
reduzido a uma imobilidade exasperante. E esquecido! Completamente 
margem da vida poltica.  Os amigos no lhe escrevem. Getlio Vargas no
respondeu ainda  sua ltima carta.
  A leitura dos jornais chegados de Porto Alegre pelo avio da manh
deixou-o excitado. Esto cheios de proclamaes, polmicas, verrinas,
stiras, descomposturas  - tudo em torno das prximas eleies. Carlos
Lacerda malha com um vigor apaixonado o candidato de Prestes e o do PSD.
Os comunistas arrasam o candidato da UDN e  o do PSD. Tudo isso cheira a
plvora, a combate.  o cmulo que ele, Rodrigo, no esteja tambm em
ao.  a primeira vez que um Cambar assiste a uma batalha deitado!
  Engole com repugnncia mais uma colherada de canja. Lembra-se com
saudade de sua vida no Rio de Janeiro, naqueles ltimos quinze anos.
Sempre teve a volpia do jogo  da poltica, esse xadrez
  259
  complicado e malicioso em que as peas so seres humanos. Sempre lhe fez
bem  alma sentir-se admirado, prestigiado, requestado, indispensvel...
Entre os reprteres  do Rio e de So Paulo era conhecido pela sua
franqueza, pelas suas tiradas. Dizia tudo quanto lhe dava na veneta.
Quando os rapazes dos jornais queriam algo de sensacional,  vinham logo
procur-lo. "Estamos mal de assunto, doutor. O senhor tem que nos
ajudar." E ele ajudava. Ah! E como era bom tambm circular livremente,
como pessoa  de casa, pelas salas e corredores do Catete, ter acesso
fcil ao Homem, contar com a simpatia e o apoio de seus
oficiais-de-gabinete, tutear senadores e ministros.  "Meu caro, s h um
homem que pode resolver o seu caso.  o Cambar. Fale com ele."
  Esta  uma grande hora nacional.  necessrio, urgente, fazer que o
queremismo deixe de ser um movimento puramente emotivo para se
transformar numa idia dinmica;   indispensvel aglutinar todas essas
lealdades getulistas num partido forte, de mbito nacional.
  O homem para fazer isso sou eu. A esta hora devia estar na praa
pblica, na barricada. No entanto tenho de me resignar a ficar deitado,
comendo esta canja sem sal.  Foutu, completamente foutu e ainda mal
pago!
  Pe-se a olhar desconsolado para a torre da igreja. Muitas vezes, quando
menino, ficou montado no peitoril da janela da gua-furtada procurando
alvejar com as pedras  do seu bodoque ora o galo do cata-vento, ora o
sino. Mas tinha mais graa acertar no sino, faz-lo gemer...
  Qualquer dia por vingana o velho sino da matriz estar dobrando para
anunciar a Santa F a morte do dr. Rodrigo Terra Cambar.
  Num misto de auto-sarcasmo e autopiedade imagina o prprio funeral. Luto
no Sobrado. A rua apinhada de gente. Decidem levar o caixo a pulso, at
a metade do caminho.  Depois metem-no naquele repulsivo carro fnebre do
Pitombo, com figuras douradas em relevo nos quatro ngulos (uns anjos
com cara de tarados sexuais) e aqueles matungos  com plumas pretas nas
cabeas. Trfego interrompido nas ruas por onde passa o cortejo. Uma
fileira 
  260
  interminvel de automveis... Santa F em peso no enterro. O comandante da
guarnio federal. O prefeito. O juiz de direito, enfim, todas essas
personalidades que A Voz  da Serra classifica como "pessoas gradas". O
cafajeste do Amintas tambm l est, com uma fingida tristeza no rosto
escrofuloso. Mas quem  a moa que vai sozinha  ali naquele auto, com
cara de forasteira, toda vestida de preto e com culos escuros? Ento
no sabem?  a amante do dr. Rodrigo. Verdade? Mas que jovem! Pois ,
podia ser filha dele. O patife tinha bom gosto.
  Agora o cortejo est no cemitrio  frente do mausolu dos Cambars.
(Rodrigo remexe distrado a canja, com a colher.) O falecido pediu antes
de morrer que no deixassem  sua cara exposta  curiosidade pblica. 
por isso que no abrem o caixo. Fala o primeiro orador. Quem ? Pouco
importa. Mas como diz besteiras! Fala o segundo:  vomita tambm um
amontoado de lugares-comuns. Nunca, ningum, nem os filhos do morto, nem
sua mulher, nem seus melhores amigos podero fazer-lhe justia. Porque
ningum na verdade o conhece. Viram dele apenas uma superfcie, um
verniz externo. Ningum chegou a compreend-lo na sua inteireza, na sua
profundeza. E depois que  o deixarem entaipado no cemitrio, a cidade
continuar os seus mexericos, as suas maledicncias, lembrando-se apenas
daquilo que se convencionou chamar de defeitos  do dr. Rodrigo Cambar.
E ele morrer desconhecido como viveu. Desconhecido e caluniado, o que 
pior. Mesmo os elogios dos oradores sero insultos. Ah! como gostaria
de fazer um discurso ao p do prprio cadver! No seria uma orao de
provocar lgrimas, no. Ia contar verdades, lan-las como pedradas na
cara de todos aqueles  hipcritas. Porque, com a exceo dos que
realmente o amavam - alguns parentes, poucos amigos - os outros l
estavam por obrigao social ou puro prazer sdico.  Eram uns invejosos,
uns despeitados, uns covardes, uns impotentes! No podiam encontrar um
homem autntico que no sentissem logo desejo de v-lo destrudo e
humilhado.  Era-lhes insuportvel o espetculo dum macho que tem a
coragem de agarrar a vida nos braos, ser o que , dizer o que pensa,
fazer o que deseja, comer o que lhe  apetece. Foram quase todos ao
enterro para assistirem ao fim da-
  261
  quele monstro, para terem a certeza de que ele ia ficar para sempre
encerrado no jazigo, a apodrecer... Tiveste a coragem de viver? Agora
paga! E todos aqueles necrfilos,  todos aqueles moluscos podiam voltar
tranqilos para suas casas, para suas vidinhas apagadas, para as esposas
que detestavam mas com as quais eram obrigados a viver  e a dormir, para
seus probleminhas sem beleza, para as dificuldades financeiras do fim do
ms, para a azeda rotina cotidiana, para seus odiozinhos, suas
birrinhas,  suas mesquinhas invejas, para seus achaques - em suma - para
todas aquelas coisas pequenas e melanclicas de seu mundinho de
castrados!
  Canalha! S de pensar nestas coisas Rodrigo sente que tem a obrigao de
no morrer.
  28 de novembro
  Camerino permite-lhe agora receber visitas. O desfile hoje comea cerca
 das dez da manh, quando seus sogros Aderbal e Laurentina entram no
quarto acompanhados de  Flora. Flora? Que milagre! Bom, ela representa a
sua comdia, para evitar que os pais venham a descobrir o verdadeiro
estado de suas relaes com o marido.
  - Visitas para voc - diz ela sem mir-lo. E senta-se a um canto do
quarto. Rodrigo no gosta do hbito que Flora adquiriu no convvio dos
cariocas de trat-lo por  voc. Sempre achou o tu mais ntimo, mais
carinhoso, alm de mais gacho. Bom, seja como for, dadas as relaes
atuais entre ambos, voc talvez seja o tratamento  mais adequado.
  O velho Babalo abraa-o afetuosamente, mas Laurentina dlhe apenas a
ponta dos dedos. (Saber de alguma coisa?) Depois Aderbal senta-se ao p
da cama, tira a faca  da bainha, um pedao de fumo em rama do bolso, e
comea a fazer um cigarro com toda a pachorra, enquanto pergunta coisas
sobre a sade do genro. Rodrigo segue os  movimentos do sogro, numa
espcie de fascinao, mal prestando ateno ao que ele diz. V o velho
picar o fumo, sem a menor pressa, amaci-lo no cncavo da mo esquerda
com
  262
  a palma da direita. Depois vem a ceremnia tambm lenta de alisar a
palha com a lmina da faca, enrolar o cigarro. "Mas que foi mesmo que
teve? Ouvi dizer que desta  vez no foi o tal de infarto..." Rodrigo d
explicaes vagas... O sogro acende o cigarro, tira uma baforada que
envolve o genro. Rodrigo aspira a fumaa. No   muito homem de cigarro
de palha, mas neste momento at um cachimbo de barro de qualquer negra
velha lhe saberia bem.
  - O general Dutra est perdido - diz Babalo com sua voz escandida e
quadrada. -  uma candidatura que nasceu morta.
  - Sim - replica Rodrigo - mas se o dr. Getlio o apoiar, o homem est
eleito.
  Babalo solta a sua risadinha.
  - O Getlio tambm est liquidado! - exclama.
  As narinas de Rodrigo palpitam, um fogo lhe incendeia o peito. Vai dizer
uma barbaridade, mas contm-se. E  com uma falsa calma que se dirige ao
sogro:
  - Tome nota das minhas palavras, seu Aderbal. O Getlio vai ser eleito
no s senador, por uma maioria esmagadora, como tambm deputado. E por
mais de um Estado!
  Babalo torna a rir. E de novo uma baforada de fumaa envolve o enfermo.
Por que o velho no vai pitar fora do quarto? Ser que quer me torturar?
A vontade de fumar  como que lhe faz a lngua inchar na boca.
  Dona Laurentina, sentada em silncio junto de Flora, cozinha-o na gua
morna de seu olhar de bugra. Faz-se uma longa pausa em que deixa escapar
um suspiro longo  e sincopado. Flora obstina-se em no olhar para o
marido nem dirigir-lhe a palavra. E agora parece que o prprio Babalo
comea a sentir que algo de errado anda no  ar.
  Rodrigo muda de posio na cama. Est claro que os sogros sabem de tudo.
Quem no sabe? A cidade est cheia da histria de Snia. O Neco lhe
contou que  o assunto  da atualidade. Pois se os velhos sabem, por que
ficam aqui neste silncio? Digam logo que sou um devasso, desabafem e me
deixem em paz!
  263
  O ar est azulado pela fumaa do cigarro do velho Babalo, que agora quer
saber em que Rodrigo baseia o seu "palpite" com relao  eleio de
Getlio Vargas.
  - No  palpite, seu Aderbal,  certeza. S no v quem  cego... ou
antigetulista fantico.
  A visita dura mais alguns minutos. Flora levanta-se. A me a imita.
Aderbal Quadros torna a apertar a mo do genro:
  - Bueno, estimo as suas melhoras.
  Retiram-se. A visita seguinte  a de Jos Lrio, pouco antes do
meio-dia. Entra devagarinho, arrastando as pernas, amparado pelo
enfermeiro, e olhando para Rodrigo  de vis, com seus olhos injetados e
lacrimejantes. Traz numa das mos a sua inseparvel bengala, e na outra
o chapu de feltro negro. Um leno vermelho sobressai-lhe  do bolso
superior do casaco.
  Abraa Rodrigo, comovido e silencioso, senta-se e fica a recordar cenas
do passado com sua voz crepitante de asmtico, soltando de vez em quando
fundos suspiros  que lhe sacodem o peito.
  - Liroca velho de guerra! - exclama Rodrigo.
  Aqui est uma visita que o alegra. Jos Lrio  um velho amigo fiel.
Desde mocinho alimenta uma paixo irremedivel por Maria Valria, que
jamais lhe correspondeu   afeio. Para falar a verdade, a velha lhe
recusa at mesmo a amizade.
  - Esta vida d muita volta - murmura o veterano, com ambas as mos
apoiadas no casto da bengala. - Parece mentira, mas em 93, quando os
federalistas cercavam o  Sobrado, o velho Liroca, que naquele tempo era
moo, estava do lado de fora, com os inimigos do teu pai. Veja s a
ironia do Destino! Mas por esta luz que me alumeia,  no tive coragem de
dar um tiro contra esta casa!
  - Eu sei, Liroca, eu sei.
  Todo o mundo sabe. Liroca no deixa ningum esquecer. H cinqenta anos
que repete esta histria. Rodrigo contempla o amigo com piedade,
enquanto ele fala, rememorando  "causos" e pessoas. Mistura as datas.
Conta a mesma histria trs, quatro vezes no
  264
  espao de poucos minutos. Esclerose cerebral - pensa Rodrigo. - Antes
uma boa morte!
  Liroca solta outro suspiro sentido.
  - Pobre do coronel Licurgo! O que tem de ser est escrito, ningum pode
mudar. S Deus. E eu acho que Deus anda meio esquecido deste mundo velho
sem porteira.
  Chiru Mena aparece depois da sesta: a calva reluzente, a roupa
amarfanhada, a camisa encardida, a gravata pingada de sebo.
  - Homem! - repreende-o Rodrigo.- Que decadncia  essa?
  - Ora, tu sabes, ds que tia Vanja morreu, perdi o gosto pela vida.
  Senta-se e fica, distrado, a esgravatar o nariz como um menino
mal-educado.
  - No sejas exagerado! Tua tia morreu h mais de oito anos. O que tu s
eu sei bem direitinho. Um relaxado. No reages, perdeste o brio. Tira
esse dedo do nariz,  porcalho!
  - Ora, cada qual sabe onde lhe aperta o sapato...
  Rodrigo, a testa franzida, mira o amigo. Chiru jamais trabalhou em toda
a sua vida.  um vadio. Viveu sempre  custa da tia que o criou e que,
ao morrer, lhe deixou  algumas casas na cidade e alguns contos de ris
no banco.
  - Quem te viu e quem te v! Eras um tipo, chamavas a ateno das
mulheres, parecias um embaixador. Tuas roupas e gravatas eram famosas,
teus sapatos sempre andavam  engraxados e tuas calas nunca perdiam o
friso.
  Ao fazer estas enumeraes, Rodrigo sente o exagero de suas prprias
palavras. Mas, que diabo!  preciso animar o amigo.
  - Parecias um leo! Agora me entras aqui esculhambado desse jeito. Como
vai tua mulher? E teus filhos?
  Chiru d notcias tristes da famlia. Doenas, incmodos, um dos rapazes
vive amasiado com uma prostituta, o outro no pra nos empregos...
  - Te lembras das nossas serenatas, miservel? Chiru no reage como
Rodrigo esperava.
  265
  - At disso estou deixado - murmura ele. - Tu nem sabes como mudei
nestes ltimos anos. Estou velho.
  Como Rodrigo, est beirando os sessenta.
  - E em matria de poltica? Chiru encolhe os ombros.
  - Estou desiludido com esse negcio todo. No vale a pena a gente se
meter.
  - Ests errado. Se os homens de bem no se metem, os cafajestes tomam
conta do governo.
  O rosto de Chiru se contrai, seus olhos se apertam.
  - Mas  que nem mais um homem de bem eu sou... - diz baixinho. E pe-se
a chorar.
  Rodrigo olha para o amigo, intrigado. Este no , positivamente, o Chiru
folgazo e otimista que ele conheceu, com suas mentiras pitorescas, seus
ditos, suas piadas,  seu penacho.
  - Que  isso, rapaz? Um homem no chora. Se tens algum problema,
desabafa logo.  para isso que servem os amigos.
  Fica a olhar com um misto de piedade e impacincia para o outro que, o
busto inclinado para a frente, o rosto coberto pelas mos envelhecidas,
solua convulsivamente.
  - Precisas de dinheiro?
  - No.
  - Ento que ?
  Faz-se um silncio. Chiru enxuga os olhos com um leno amassado e
encardido e, erguendo-se de sbito, comea a andar dum lado para outro,
falando sem olhar para  o amigo. Conta que "deu para beber", que no
passa sem a sua cachacinha, que tudo comeou inocentemente com um
aperitivo de vermute com gim, pouco antes do almoo,  mas que depois...
  Rodrigo sorri.
  - Ora, homem! A coisa no  to sria assim... Chiru estaca, faz um
gesto dramtico e exclama:
  - Mas  que tenho tentado deixar de beber e no consigo! Conta que
ultimamente se tornou uma espcie de bobo municipal, pois quando se
embriaga rompe a fazer discursos  e a recitar
  266
  poesias em plena rua. Aproximando-se do amigo e pondo-lhe a mo no
ombro, murmura:
  -  uma vergonha o que vou dizer, mas  melhor que eu te conte, antes
que outro venha te encher os ouvidos...
  O rosto erguido para o amigo, Rodrigo espera. Chiru desvia o olhar para
a janela e diz:
  - Um dia destes tomei um bruto porre e ca na sarjeta... imagina, na
sarjeta! No mereo mais entrar nesta casa nem apertar a tua mo...
  Antes que Rodrigo possa dizer a menor palavra ou fazer qualquer gesto,
Chiru sai do quarto e embarafusta pelo corredor. Seus passos soam
pesados e rpidos na escada.
  O enfermeiro entra no quarto para anunciar que se encontra l embaixo,
na sala de visitas, uma comisso de "queremistas" que desejam ver o
doutor.
  - Diga que subam.
  Decerto vm me pedir conselhos - reflete Rodrigo -, sabem que sou ntimo
do Getlio. Deve ser uns meninos bem-intencionados mas sem nenhuma
experincia poltica.  E, possivelmente, semi-analfabetos. Mas... seja o
que Deus quiser!
   noite a praa da Matriz transforma-se num pandemnio. Alto-falantes
berram notcias do comcio udenista que ali se vai realizar dentro de
pouco. Entre uma e outra  notcia irradiam-se marchas e dobrados
marciais. Por volta das oito horas um mulato velho, ajudado por dois
garotos descalos, comea a soltar foguetes ao p do  coreto. O eco
atrs da igreja duplica as exploses. A voz de ao, monstruosamente
amplificada, pede: "Venham todos agora  praa da Matriz tomar parte no
comcio  da Unio Democrtica Nacional! Santa-fezenses, votemos todos no
Brigadeiro da Vitria!" Aos poucos o grupo ao redor do coreto vai
engrossando. As caladas esto  j cheias de gente moa que faz a volta
da praa como nas tardes de retreta. As raparigas caminham num sentido e
os rapazes noutro. Soldados da polcia municipal  tomam posies. Quase
todas as janelas das casas que cercam o largo esto iluminadas e
ocupadas, como em dia de procisso de Corpus Christi. Dois homens
  267
  lidam com um microfone, dentro do coreto. Pelos cantos da praa, negras
velhas do Barro Preto e do Purgatrio instalaram-se com suas quitandas e
vendem pastis,  doces e pipoca.
  Faz um calor abafado e o cu est completamente coberto de nuvens
baixas. Para os lados do Angico de quando em quando relmpagos clareiam
o horizonte.
  Debruado  janela do quarto de Rodrigo, Jango descreve a cena para o
pai.
  - Acho que j tem umas cento e poucas pessoas no centro... Parece que a
banda de msica vem vindo... A Prefeitura est toda iluminada.
  Minutos depois a banda do Regimento de Infantaria entra na praa tocando
um velho dobrado e seguida dum cortejo de moleques. Rodrigo sente um
calafrio, seus olhos  brilham.
  - Foi esse mesmo dobrado... - murmura ele para Camerino, que neste
momento lhe mede a presso arterial.
  - Hein? - faz o mdico, sem tirar os olhos do manmetro.
  - Sem a menor dvida... Foi em novembro de 22, pouco antes da eleio. A
situao local andava ameaando o eleitorado. Tivemos um comcio aqui na
praa e eu falei  da sacada do Sobrado. Ameacei a chimangada com a
revoluo, caso fssemos esbulhados nas urnas. Que tempos, Dante! S de
me lembrar...
  Camerino ergue os olhos para o paciente e sorri.
  - No se lembre demais, que a presso pode subir.
  - Como est agora? O mdico sorri.
  - tima, mas o senhor no deve se impressionar com esse negcio a
fora...
  - Esses udenistas vo fazer comcio na frente da minha casa por puro
acinte. Os queremistas fizeram o seu na outra praa.
  Camerino encolhe os ombros.
  - Seja como for, no leve a coisa a srio.
  - Eu? Mas quem  que leva a UDN a srio? Acho que nem o brigadeiro...
  Camerino repe o esfigmmetro na bolsa.
  268
  - Est chegando muita gente - diz Jango, que continua  janela. - E
ainda falta uma meia hora para comear.
  - So curiosos - explica Rodrigo com desdm. - Gente que no vota.
  O mdico tira o casaco, passa o leno pelo rosto.
  - O senhor j pensou - pergunta - que os rapazes e moas que hoje tm
quinze anos no viram ainda nenhuma eleio neste pas?
  Rodrigo volta a cabea vivamente.
  - E que tem isso? Camerino sorri.
  - Bom, no vamos discutir.
  - E por que no? No quero ser tratado como um invlido, ou como uma
sensitiva.
  Sensitiva o senhor  - pensa o mdico. Mas nada diz. Quando mais tarde
Roque Bandeira entra no quarto, Rodrigo recebe-o com alegria.
  - Puxa, homem! A gente pode morrer no fundo duma cama e tu, ingrato, no
dizes nem "gua".
  Tio Bicho aproxima-se lento do dono da casa, aperta-lhe a mo e murmura:
"gua". Paciente e mdico desatam a rir, pois ambos sabem que,
insacivel bebedor de cerveja,  Bandeira s bebe gua no chimarro.
  - Senta, homem - convida Rodrigo. - Tira esse casaco. Todo o mundo est
em mangas de camisa.
  - Obrigado. Estou bem assim.
  Deixa cair o corpo numa poltrona, e fica a abanar-se com o chapu. O
suor goteja-lhe do rosto. A camisa, completamente empapada, cola-se-lhe
ao peito cabeludo.
  - No vais ao comcio? - pergunta-lhe Rodrigo, irnico. Tio Bicho fita
nele os olhos claros e, com fingida solenidade,
  responde:
  - Todos conhecem de sobejo as minhas convices polticas... 
anarquista - costuma dizer - mas no desses de romance
  de folhetim que atiram bombas debaixo das carruagens de gro-duques e
ministros. Don Pepe Garcia, que recusa aceitar Bandeira
  269
  como correligionrio, um dia lhe bradou na cara: "s um terico
nauseabundo!" - ao que o outro replicou: "Nauseabundo? No discuto o
adjetivo. Mas como poderia deixar  de ser terico?" E, fazendo mais um
de seus paradoxos, acrescentou: "O que existe de melhor no anarquismo 
que ele jamais poder deixar de ser uma teoria. Nisso  est a sua beleza
e a sua invulnerabilidade".
  Vem da praa um rumor de vozes cortado pelos gritos soltos dos preges.
Os foguetes espocam agora a intervalos mais curtos, e a banda de msica
atroa o ar opressivo  da noite com galopes e dobrados.
  - Que  que vocs bebem? - indagou Rodrigo.
  - Ora que pergunta! - crocita o Batrquio.
  - E tu, Camerino?
  - Uma limonada.
  - Pois ento, homem, me faz um favor. Vai at o corredor e diz  besta
do enfermeiro que sirva as bebidas. - Olha significativamente para o
mdico e acrescenta:  - Para mim, tragam arsnico... fora do gelo.
  Poucos minutos depois Eduardo entra no quarto do pai acompanhado dum
homem de batina negra. Esto ambos to carrancudos que Rodrigo no pode
conter o riso.
  - Aposto como andaram brigando outra vez!
  O religioso abraa-o, visivelmente emocionado. Rodrigo no pode
habituar-se  idia de que o Zeca, filho natural de seu irmo Torbio com
uma lavadeira do Purgatrio,  se tenha transformado neste marista srio
e intelectualizado.
  Quem diria? O Zeca, que cresceu no Sobrado entre os braos quase
maternais de Flora e os cuidados sem mimos mas assduos e eficientes de
Maria Valria. O Zeca, companheiro  de brinquedos do Edu.
  Dois anos antes de morrer, Torbio teve o bom senso de legitimar o
filho. Mesmo num tempo em que apenas se "desconfiava" da histria,
Torbio revelava para com o  menino uma afeio e um orgulho de tio
solteiro. Levava-o para o Angico, onde lhe ensinava a andar a cavalo e
camperear. "Ainda vai ser meu companheiro de
  farra!" - dizia. Chegou um dia a ensaiar com a criana um dilogo que
repetiram mais tarde diante das mulheres do Sobrado.
  - Que  que vais ser quando ficares grande?
  - Jogador profissional.
  - Que mais?
  - Cafajeste.
  - Que mais?
  - Bandido.
  - Isso! Que mais?
  - Ladro de cavalo.
  - Ainda falta outra coisa...
  - Chineiro.
  Torbio soltou uma risada. Maria Valria botou-lhe a boca.
  - No tem vergonha na cara? Ensinando essas maroteiras pr
  menino...
  Torbio custeou os estudos do filho, primeiro em Santa F e mais tarde
no Colgio Nossa Senhora do Rosrio, em Porto Alegre. Por volta dos
dezessete anos, para grande  surpresa e desapontamento do pai, Zeca
comeou a revelar preocupaes religiosas. Contra a opinio de Torbio e
de Rodrigo, mas com o inteiro apoio de Maria Valria,  o rapaz entrou
para a Sociedade de Maria, onde adotou o nome de irmo Torbio, embora
no Sobrado todos prefiram chamar-lhe irmo Zeca.
  Rodrigo tratou de fazer que o sobrinho recebesse o legado que lhe tocava
por morte do pai. Irmo Torbio no guardou para si mesmo nem um vintm:
empregou todo o  dinheiro na construo de dois pavilhes para o Colgio
Champagnat de Santa F, do qual  hoje professor de portugus e
literatura geral.
  - Sempre que vejo esses dois juntos - diz tio Bicho, com um copo de
cerveja na mo e os lbios debruados de espuma - imagino um dilogo
impossvel entre um anjo  do Inferno e um anjo do Cu.
  Eduardo acende um cigarro e limita-se a lanar para o Cabeudo um olhar
neutro. Irmo Torbio, porm, aproxima-se do "oceangrafo" com o brao
estendido e o indicador  enristado:
  270
  271
  - Ias ficar admirado se soubesses quantos pontos de contato esses dois
anjos tm...
  Bandeira d de ombros.
  - Eu vivo dizendo que no h nada mais parecido com a Igreja Catlica do
que o Partido Comunista.
  Rodrigo ergue a mo:
  - No vamos comear essa histria agora. Deixem a poltica internacional
e a metafsica para depois. O que interessa no momento  essa palhaada
a na praa.
  Jango, sempre junto da janela, anuncia:
  - Vai comear a funo.
  Cessam os foguetes e a msica. Algum experimenta o microfone, estalando
os dedos e dizendo: "Um-dois-trs-quatro-cincoseis... " Ouve-se, vindo
de longe, o rolar  surdo dum trovo. As narinas de Rodrigo fremem, seus
olhos ganham um repentino fulgor.
  - Tenho o palpite - diz - de que o Velho l em cima  queremista... Acho
que vem a uma tempestade que, como disse aquele empresrio castelhano
em pleno picadeiro,  me v llevar ei circo a Ia gran puta.
  Uma voz que a distoro torna quase ininteligvel anuncia o primeiro
orador da noite: um estudante de direito que vai falar "em nome da
mocidade democrtica de Santa  F". Rodrigo conhece-o.  um dos netos de
Juquinha Macedo.
  - Que  que esse sacaneta entende de democracia? - pergunta ele.
  Eduardo e o irmo Zeca encaminham-se tambm para uma das duas janelas do
quarto que do para a praa. Roque permanece sentado, a bebericar sua
cerveja, com a garrafa  ao p da cadeira.
  - Posso olhar tambm? - pergunta Rodrigo.
  - No senhor - responde o mdico. - Fique onde est. Limite-se a ouvir.
E j acho que  demais...
  A voz do orador espraia-se, grave e comovida, pelo largo. Rodrigo no
consegue ouvir o que ele diz. Aqui e ali pesca a metade duma palavra...
nalidade... cracia...  eiro Eduar... ornes. Palmas e vivas interrompem a
cada passo o discursador. Agora Rodrigo entende
  272
  uma frase completa... ova aurora raia para o ...sil depois da treva
...inze anos que foi a ditadura ...lio Vargas!
  - O av desse menino - diz com voz apertada de rancor - foi dos que mais
me incomodaram l no Rio por ocasio do reajustamento econmico que o
Aranha inventou. Me  pediu pra arranjar uma audincia com o Getlio, e
quando foi recebido pelo homem, s faltou beijar-lhe a mo.
  Uma trovoada mais forte, prolongada e prxima, engolfa por completo as
palavras do orador. Mas quando o ribombo cessa  possvel ouvir outra
frase... e agora o tirano  do seu feudo de So Borja quer ainda influir
nos destinos da nao que desgraou e do pobre povo que vilipendiou! Um
urro unssono ergue-se da multido, acima de  cujas cabeas tremulam
lenos brancos.
  - Que grandessssimos safardanas! - exclama Rodrigo com os dentes
cerrados.
  H um momento em que o jovem Macedo pronuncia o nome do candidato da
Unio Democrtica Nacional, e o pblico rompe a gritar cadenciadamente,
como numa torcida de  futebol: Bri-gadei-ro! Bri-ga-dei-ro!
Bri-ga-dei-ro! - Nova revoada de lenos brancos.
  Tio Bicho ri o seu riso gutural, mais visvel que audvel, pois lhe pe
a tremer a papada e as bochechas. De instante a instante Jango volta a
cabea para observar  as reaes do pai.
  - Por que no gritas tambm? - pergunta Rodrigo, dirigindo-se a Dante
Camerino. -  o teu candidato. Grita. Tens a minha permisso.
  A atroada cessa. O orador continua o seu discurso com redobrado
entusiasmo.
  - Aproximem ao menos esta cama da janela!  Jango, toca essa manivela,
quero ficar de busto mais erguido.
  Camerino empurra a cama de rodas para perto da janela. Rodrigo ergue a
cabea e olha para fora.
  - Cuidado. No se excite - suplica o mdico.
  - H mais pblico do que eu esperava - murmura o paciente. - E muito
mais do que eu desejava. Mas isso no significa nada. A metade dessa
gente est a por mera  curiosidade.
  273
  Torna a recostar a cabea no travesseiro, um pouco ofegante do esforo.
  Pensa em Snia. Onde estar a menina a esta hora? Talvez no cinema... Ou
sentada sozinha no quarto do hotel, fumando ou lendo, num aborrecimento
mortal. Ocorre-lhe  que no  impossvel que ela tenha vindo ver o
comcio...
  E por que no?
  Esta possibilidade pe-lhe um formigueiro no corpo, uma nsia no peito.
 natural que ela aproveite a ocasio para aproximar-se do Sobrado sem
ser notada... Clarssimo!   at plausvel que esteja agora na prpria
calada do casaro...
  Torna a erguer a cabea, e desta vez segura com ambas as mos o peitoril
da janela.
  - Por favor, dr. Rodrigo! - diz o mdico. - No faa isso!
  - No sejas bobo, Dante. Estou bem. Por que  que tu no te sentas, se
ests cansado?
  Continua a olhar para fora e, indiferente s palavras do orador, aos
gritos do pblico, pe-se a procurar a amante...  um jogo quase to
fascinante como uma caada.  Aquela de verde, na frente da igreja? No.
Magra demais. E a de branco, junto do poste na calada fronteira? Snia
tem um vestido branco de linho que lhe vai muito  bem com a pele
trigueira. Mas no! Trata-se duma mulher corpulenta, duma verdadeira
amazona.
  Uma dor fininha lhe risca transversalmente o peito, como um arranho
feito com a ponta dum alfinete. Rodrigo torna a recostar-se, alarmado, e
por alguns instantes  fica esperando e temendo a volta da agulhada, os
olhos fechados, a respirao quase contida... Deus queira que tenha sido
s uma dor muscular ou gases.
  Rompem palmas e vivas na praa, e a msica toca um galope. O discurso
terminou.
  O segundo orador - candidato a deputado - fala com mais clareza. Ataca
Getlio Vargas, o queremismo, o Estado Novo, culpa o ex-presidente de
ter corrompido e desfibrado  a nao. Acusa-o de satrapismo, de
nepotismo, de favoritismo e de cumplicidade com a "polcia cruel e
degenerada de Filinto Mller"... "Sim, mas agora se abre uma  nova era
de justia e democracia para o nosso infeliz
  274
  povo, que saber eleger presidente a figura impoluta do brigadeiro
Eduardo Gomes." De novo a multido prorrompe em gritos ritmados:
Bri-ga-dei-ro! Bri-ga-dei-ro!  - enquanto os lenos brancos tremulam.
  De olhos fechados Rodrigo murmura:
  - Conheo a besca que est falando.  o Amintas Camacho. O nome dele
rima com capacho.  o que ele . Foi getulista at quando achou
conveniente. Um vira-casaca  muito sujo e covarde! Se no estivesse aqui
doente e escangalhado, eu subia naquele coreto e ia contar ao povo como
um dia quebrei a cara desse sacripanta.
  Jango estendeu a mo para fora:
  - Est comeando a chover - diz.
  Realmente, grossos pingos caem das nuvens. A multido se agita num
movimento de onda. Uma voz que no  a do orador sai aflita dos
alto-falantes: "Pedimos ao pblico  que no v embora! Isto  apenas uma
chuva rpida de vero!"
  Mal, porm, termina de pronunciar a ltima palavra, o aguaceiro desaba
com uma violncia de dilvio, e o povo comea a dispersar-se, buscando
refgio nos corredores  das casas e debaixo da figueira grande. Uns
poucos precipitam-se para seus automveis estacionados nos arredores. Os
previdentes, que trouxeram guardachuvas, abrem-nos  e saem a caminhar em
meio de gritos gaiatos e risadas, E a chuva bate com alegre fria nas
pedras das ruas e das caladas, nos telhados, nas folhas das rvores,
nos lombos e nos instrumentos dos msicos que continuam formados no
redondel: a chuva toca tambor na coberta de zinco do coreto, onde os
oradores e os prceres udenistas  se comprimem. Os alto-falantes esto
agora silenciosos.
  - A Ia fresca! - exclama Jango. - Parece o estouro da boiada.
  Empurra a cama do pai para o seu lugar habitual.
  Rodrigo sorri. A dor no voltou e agora ele respira livremente. O
comcio foi dispersado. A natureza deu uma resposta simples mas
categrica  baboseira dos oradores.
  275
  Jango e Eduardo descem as vidraas, pois a chuva comea a entrar no
quarto. Tio Bicho ergue os olhos para o irmo Zeca e pergunta:
  - Qual  a tua opinio? Podemos tomar esse aguaceiro como um
pronunciamento poltico do Altssimo?
  Limpando a batina respingada, por alguns instantes o marista no diz
palavra.  um jovem de estatura me e porte atltico. O rosto cor de
marfim, de feies ntidas,   animado pelos olhos castanhos nos quais
uma vez que outra Rodrigo julga ver ressurgir Torbio. Sua voz, de
ordinrio mansa, no raro no ardor duma discusso revela  o Cambar que
se esconde no fundo deste religioso de plcida aparncia.
  - Olha, Bandeira - diz ele -, se queres discutir esse problema a srio,
estou  tua disposio, mas para brincadeiras no contes comigo.
  Tio Bicho sacode lentamente a cabea.
  - Tanto para o catlico como para o comunista - diz - o humor  um
pecado mortal.
  - Roque! - brada o dono da casa -, se vocs comearem a discutir
religio e comunismo, no dou mais bebida para ningum. Jango, mande
buscar mais trs cervejas bem  geladinhas. Para mim traga uma limonada,
pois o Camerino quer me matar com essas bebidinhas de fresco. E abram um
pouco essas janelas... o calor est ficando insuportvel.
  O aguaceiro continua a cair com fora. A praa est agora completamente
deserta.
  Quando, cerca das dez horas, Floriano entra no quarto do pai, encontra o
mesmo grupo - menos Camerino, que saiu para visitar outro cliente, e
Jango, que desceu para  o primeiro andar. O ar est saturado da fumaa
dos cigarros. Todos fumam, inclusive o doente. Acham-se de tal modo
entretidos a conversar, que parecem no dar pela  entrada do filho mais
velho de Rodrigo.
  Comentam-se ditadores e governos de fora. H pouco, Eduardo e irmo
Zeca se engalfinharam numa discusso em torno da personalidade de
Franco. O primeiro acha-o  to desprezvel
  276
  quanto Hitler e Mussolini. O marista tentou provar que o caudilho
espanhol " um pouco diferente". Agora, mais calmos, discutem os motivos
por que os povos se deixam  levar to facilmente pelos governos de
fora. Fala tio Bicho:
  - Dizem os entendidos que essa necessidade que as massas tm de
submeter-se a um homem forte no passa duma saudade da autoridade
paterna, que vem da infncia.
  - Bobagens - intervm Rodrigo. - A explicao  outra. Sem tomar
conhecimento da interrupo, Bandeira prossegue:
  - No Brasil tivemos no sculo passado Pedro II, a imagem viva do pai,
com suas barbas patriarcais, sua proverbial bondade ou "bananice", como
querem outros. Na Rssia  o czar era tambm chamado de paizinho. Hoje o
papai dos soviticos e dos comunistas do resto do mundo  Stlin. Uns
pais so mais severos e autoritrios que outros.  Ns temos o nosso
Getulinho, Pai dos Pobres...
  Rodrigo lana-lhe um olhar hostil.
  - E por que no? Me digam se houve em toda a histria do Brasil
governante que se interessasse mais que ele pelo bem-estar do povo? Me
d o fogo, Floriano.
  O filho hesita por uma frao de segundo, mas acaba riscando um fsforo
e aproximando-o do novo cigarro que o pai tem entre os lbios.
  - No me ponhas esses olhos de Quadros, rapaz!
  - O senhor sabe que no deve fumar...
  - Sei. E da? Apaga esse fsforo. Agora me d um copo de cerveja. gua
cria sapo na barriga, como dizia com muita razo teu tio Torbio.
  - O senhor no deve beber nada gelado.
  - Venha duma vez essa cerveja!
  No h outro remdio seno dar-lhe a bebida - reflete Floriano. Rodrigo
empina o copo e, quase sem tomar flego, bebe metade de seu contedo.
  - Agora no vo sair daqui correndo para contar ao Dante que fumei e
bebi cerveja gelada.
  Tio Bicho olha o relgio.
  277
  - Acho que vou andando - diz. - O dr. Rodrigo precisa descansar.
  - Qual descansar, qual nada! A prosa est boa. Eduardo, grita l pra
baixo que nos mandem cinco cafezinhos. Floriano, pega ali na cmoda um
leno limpo, molha em  gua-de-colnia e me traz...
  Floriano faz o que o pai lhe pede. Rodrigo passa o leno pelas faces,
pela testa, pelo pescoo, num gesto quase voluptuoso. De novo Snia lhe
volta ao pensamento.  Pobre menina! Sozinha nesta noite de chuva,
naquele horrvel quarto de hotel...
  - Vamos, Floriano! - diz ele, para evitar que a conversa morra. - Solta
essa lngua. Como  que explicas a necessidade que o povo tem de
governos fortes?
  - Bom - comea o filho -, eu acho que para a maioria das pessoas a
liberdade, com a responsabilidade que envolve,  um fardo excessivamente
pesado. Da a necessidade  que tem o homem comum de refugiar-se no seio
dum grupo humano ou colocar-se sob a tutela dum chefe autoritrio que,
se lhe tira certas liberdades civis, lhe d em  troca a sensao de
segurana e proteo de que ele tanto precisa.
  Roque Bandeira ergue a mo gorda, com o indicador enristado na direo
de Floriano:
  - Tu falaste em "refugiar-se no grupo". Essa, me parece,  a tendncia
mais perigosa do homem moderno, com ditadores ou sem eles. Se por um
lado a "democracia de  massa", de que os Estados Unidos constituem o
exemplo mais evidente, oferece ao homem facilidades, confortos e
garantias como no existiram em nenhuma outra civilizao  da histria
do mundo, por outro prende-o implacavelmente ao grupo,  comunidade,
ameaando sua identidade individual.
  - Exatamente - confiima Floriano. - Foi nos Estados Unidos que se
inventou o oitavo pecado mortal: o de desobedecer ao cdigo do grupo, o
de no pensar, sentir ou  agir de acordo com os padres estabelecidos
pela comunidade, o de no aceitar a estandardizao das idias, dos
hbitos, da arte, da literatura, dos gestos sociais,  dos bens de
consumo... O inconformado passa a ser um marginal, um elemento
subversivo, uma ameaa  ordem social.
  278
  E o curioso  isso acontecer num pas onde existe um culto quase
religioso do free enterprhe.
  - Mas na Rssia ser muito diferente? - pergunta irmo Zeca.
  - No - responde Floriano. - Se Babbitt relega ao ostracismo o
non-conformist e olha para ele com uma mistura de desprezo, desconfiana
e vago temor, j o comissrio  sovitico acha mais prtico, mais seguro
e mais simples despachar o dissidente para a Sibria, para um campo de
trabalhos forados, ou para o outro mundo, sumariamente...
  - Nem me vou dar ao trabalho de refutar essa tua fico ridcula -
intervm Eduardo. - Vamos ao que importa. Como  que vocs querem que se
resolva o problema? Como  se pode pensar em termos individualistas num
mundo cuja populao cresce explosivamente? A soluo americana estaria
certa se tendesse, como a da Rssia sovitica,  para uma igualdade de
oportunidades para todos, para o nivelamento econmico, para a abolio
definitiva das classes sociais. Ora,  sabido que nos Estados Unidos
essa aparente democracia econmica, essa falsa coletivizao no passa
dum estratagema da indstria e do comrcio para venderem mais. Como a
economia ianque no   estatal, a produo se torna cada vez mais
catica e competitiva. Vocs vo ver...
  Agora que terminou a Guerra e as fbricas americanas cessaram de receber
grandes encomendas de armas e munies, milhes de operrios vo ficar
sem trabalho. Ento  o remdio ser criar e alimentar o medo de uma nova
guerra, a fim de que se justifique novo aceleramento da produo
blica... E a propaganda j comeou...
  - Seja como for -- interrompe-o tio Bicho -, a tendncia coletivista me
assusta. Porque tudo quanto a humanidade conquistou at agora de melhor
e mais alto foi obra  isolada de indivduos que muitas vezes tiveram de
arriscar a liberdade e at mesmo a vida para afirmarem suas idias,
contra o Estado, a Igreja ou a opinio pblica.   ou no ?
  - Para mim - diz Floriano - o problema se resume assim: Como pr ao
alcance da maioria os benefcios da cincia e da
  279
  tcnica em termos de conforto, sade, educao e oportunidades sem,
nesse processo, anular o indivduo? Confesso que no tenho no bolso a
soluo.
  Rodrigo est j arrependido de haver provocado esta discusso acadmica.
  E para desviar a conversa para um assunto mais de seu gosto, provoca o
filho mais moo:
  - Pe a mo na conscincia, Edu, e fala com sinceridade. Vais votar no
candidato comunista por convico ou por obedincia s ordens de teus
patres de Moscou?
  O rapaz responde com outra pergunta:
  - E o senhor... vai escolher um candidato prprio ou vai votar em quem o
dr. Getlio mandar?
  - Ora, o meu caso  diferente do teu. Se meu amigo me "pedir" para
votar, por exemplo, no general Dutra e eu no atender ao seu "pedido",
nada me acontecer. Mas  se tu deixares de cumprir uma ordem do Partido,
corres o risco de ser expulso. Se estivesses na Rssia, serias liquidado
fisicamente. Que tal, Zeca, tenho ou no  tenho razo?
  O marista encolhe os ombros.
  - O Edu e eu j tivemos a nossa dose diria de brigas. Por hoje basta...
  Rodrigo encara o filho mais velho:
  - E tu? No te pergunto em quem vais votar porque s um homem sem
compromissos. Nem esquerda nem direita nem centro. Sempre au-dessus de
Ia mle, no? Uma posio  muito cmoda.
  Floriano sente quatro pares de olhos postos nele.
  -  curioso - diz, esforando-se, por falar com naturalidade - que tanto
o meu pai, homem do Estado Novo, como o meu irmo, marxista e comunista
militante, pensem  da mesma maneira com relao  minha atitude diante
dos problemas polticos e sociais. Para um comunista, a pessoa que "no
se define"  aquela que ainda no entrou  para o PC. Para meu pai, homem
de paixes, as coisas polticas e sociais so pretas ou brancas. Temos
de escolher a nossa bandeira e matar ou morrer por ela. S  um
intelectual decadente (acha ele) pode perder-se nos matizes, nos
meios-tons.
  280
  Certo ou errado, o importante para o macho  comprometer-se, participar
da luta. Ora, eu chamo a isso "raciocnio glandular"! Rodrigo solta uma
risada.
  - At que enfim falas! - exclama ele. - Dizes o que pensas, sais da tua
toca e vens discutir com os outros  luz do sol. Continua. Estou
gostando.
  Meio desconcertado, Floriano olha para tio Bicho, que ali est na sua
poltrona sacudido pelo seu riso lento de garganta, e com uma luz de
malcia nos olhos. Irmo  Zeca, porm, lana-lhe uma mirada
encorajadora. Eduardo, calado no seu canto, d-lhe a impresso dum jovem
tigre que afia as garras, esperando a hora oportuna de  saltar sobre a
presa.
  Floriano enfia as mos nos bolsos das calas. Chegou a hora de dizer
umas coisas que nestes ltimos dias vem pensando... Mas a sensao de
que se ergueu para fazer  uma conferncia deixa-o um pouco perturbado.
Sempre teve horror a parecer pedante ou doutoral.
  - Aqui estou - comea ele - diante de quatro amigos, nenhum dos quais
parece aceitar ou compreender minha posio. O Zeca me quer fazer crer
no seu Deus barbudo  que distribui prmios e castigos e a cujos
preceitos (que no sei como foram dados a conhecer ao homem) devemos
obedecer. Por outro lado, o Edu me assegura que a  nica maneira lgica
e decente da gente participar na luta social  sentando praa no seu
Partido. Em suma, quer que eu troque o que ele chama de Torre de Marfim
pela Torre de Ferro do PC.
  Meu pai acha que a panaceia para todos os nossos males  a volta do dr.
Getlio ao poder, isto : o Estado paternalista. E ali o nosso Bandeira,
com quem tenho algumas  afinidades intelectuais, me considera um
toureiro tmido, desses incapazes de enfrentar o touro no momento de ir a 
verdad...
  Cala-se. Os outros esperam que ele continue. Rodrigo bebe um gole de
cerveja, depois de dar uma tragada gostosa no cigarro. E como a pausa se
prolonga, diz:
  - Vamos! E depois?
  281
  - Uma das coisas que mais me preocupam - diz Floriano -  descobrir
quais so as minhas obrigaes como escritor e mais especificamente como
romancista. Claro, a  primeira  a de escrever bem. Isso  elementar.
Acho que estou aprendendo aos poucos. Cada livro  um exerccio. Vocs
devem conhecer aqueles versos de John Donne  que Hemingway popularizou
recentemente, usando-os como epgrafe de um de seus romances.  mais ou
menos assim: Nenhum homem  uma ilha, mas um pedao do Continente...
  a morte de qualquer homem me diminui, porque eu estou envolvido  na
Humanidade... etc... etc.
  Tio Bicho cerra os olhos e, parodiando o ar inspirado dos declamadores
de salo, murmura eruditamente:
  - "And therefore never send to know for whom bell tolls; it tolls for
thee".
  - Estive pensando... - continuou Floriano. - Nenhum homem  uma ilha...
O diabo  que cada um de ns  mesmo uma ilha, e nessa solido, nessa
separao, na dificuldade  de comunicao e verdadeira comunho com os
outros, reside quase toda a angstia de existir.
  Irmo Zeca olha para o soalho, pensativo, talvez sem saber ainda se est
ou no de acordo com as idias do amigo.
  - Cada homem - prossegue este ltimo -  uma ilha com seu clima, sua
fauna, sua flora e sua histria particulares.
  - E a sua eroso - completa tio Bicho.
  - Exatamente. E a comunicao entre as ilhas  das mais precrias, por
mais que as aparncias sugiram o contrrio. So pontes que o vento leva,
s vezes apenas sinais  semafricos, mensagens truncadas escritas num
cdigo cuja chave ningum possui.
  Cala-se. Conseguir ele agora estabelecer comunicao com estas quatro
ilhas de clima e hbitos to diferentes dos seus?
  - Tenho a impresso - continua - de que as ilhas do arquiplago humano
sentem dum modo ou de outro a nostalgia do Continente, ao qual anseiam
por se unirem. Muitos  pensam resolver o problema da solido e da
separao da maneira que h pouco se mencionou, isto , aderindo a um
grupo social, refugiando-se e dissolvendo-se nele,  mesmo com o
sacrifcio da prpria
  personalidade. E se o grupo tem o carter agressivo e imperialista, l
esto as suas ilhas a se prepararem, a se armarem para a guerra, a fim
de conquistarem outros  arquiplagos. Porque dominar e destruir tambm 
uma maneira de integrao, de comunho, pois no  esse o esprito da
antropofagia ritual? Edu salta:
  - Toda essa conversa no passa duma cortina de fumaa atrs da qual
procuras esconder a tua falta de vocao poltica, a tua incapacidade
para a vida gregria...
  - Por mais absurdo que parea - diz Rodrigo - desta vez estou de acordo
com o camarada Eduardo.
  Floriano sorri. Os apartes, longe de o irritarem, o estimulam, pois
tiram  sua exposio o carter antiptico e egocntrico de monlogo.
Prossegue:
  - Para o Eduardo o Continente  o Estado socialista, ou a simples
conscincia de estar lutando pela salvao do proletariado mundial. Para
outros, como para o Zeca,  a Terra Firme, o Grande Continente  Deus, e
a nica ponte que nos pode levar a Ele  a religio ou, mais
especificamente, a Igreja Catlica Apostlica Romana. H  ainda pessoas
que satisfazem em parte essa necessidade de integrao simplesmente
associando-se a um clube, a uma instituio, uma seita...
  Bandeira aparteia:
  - Por exemplo: o Rotary Club ou a Linha Branca de Umbanda.
  - O que importa para cada ilha - prossegue Floriano -  vencer a
solido, o estado de alienao, o tdio ou o medo que o isolamento lhe
provoca.
  Faz uma pausa, d alguns passos no quarto, com a vaga desconfiana de
que se est tornando aborrecido. Mas continua:
  - Estou chegando  concluso de que um dos principais objetivos do
romancista  o de criar, na medida de suas possibilidades, meios de
comunicao entre as ilhas  de seu arquiplago... construir pontes...
inventar uma linguagem, tudo isto sem esquecer que  um artista, e no
um propagandista poltico, um profeta religioso  ou um mero amanuense...
  282
  283
  Eduardo solta uma risada sarcstica de mau ator.
  - Ah! E tu achas que ests realizando teu objetivo?
  - Absolutamente no acho.
  - E no te parece que teu projeto  um tanto pretensioso?
  - No mais que o de vocs comunistas quando esperam conseguir a abolio
completa do Estado atravs do nivelamento das classes...
  Rodrigo faz um gesto de impacincia:
  - Tudo isso  muito vago, muito livresco, Floriano - diz ele. - Sou um
homem simples e inculto - acrescenta, com falsa modstia. - Por que no
trazes tuas teorias  para um terreno mais concreto... Para o Rio Grande,
por exemplo? Como vs o problema das nossas "ilhas"?
  - Sai dessa! - exclama tio Bicho. Floriano volta-se para o pai.
  - Que tem sido nossa vida poltica nestes ltimos cinqenta ou sessenta
anos seno uma srie de danas tribais ao redor de dois defuntos
ilustres? Refiro-me a Jlio  de Castilhos e Gaspar Martins. Sempre foi
motivo de orgulho para um gacho que se prezava sacrificar-se, matar ou
morrer pelo seu chefe poltico, pelo seu partido,  pela cor de seu
leno.
  Faz uma pausa, olha em torno e admira-se de que os outros -
principalmente o pai - o escutem sem protestos.
  - Todos esses correligionrios, amigos, pees, capangas, criados, todos
esses "crentes" que formavam a massa do eleitorado em tempo de eleio e
engrossavam os exrcitos  em tempo de revoluo, seguindo quase
fanaticamente seus chefes, todos esses homens, fosse qual fosse a cor de
seus lenos, viveram na minha opinio alienados. Aceitaram
irracionalmente a autoridade de Castilhos, de Gaspar Martins, do senador
Pinheiro, de Borges de Medeiros e outros como viriam mais tarde aceitar
a de Getlio Vargas.  Mais que isso: seguiram tambm os coronis, os
chefetes locais, com a mesma devoo...
  Tio Bicho interrompe-o:
  284
  - Conta-se que em 93 o general Firmino de Paula um dia formou a sua
fora e gritou para os soldados: "Eu sou escravo do dr. Jlio de
Castilhos e vocs so meus escravos!"
  - Uma ilustrao perfeita - diz Floriano. - As pobres ilhas abandonadas
procuravam integrar-se na terra firme do Continente. Ora, nesse processo
de integrar-se e  render-se elas deixavam de ser o centro de seu prprio
mundo, entregavam sua liberdade, seu destino a algo ou a algum mais
forte que elas... Por exemplo: o chefe  poltico ou o corpo mstico do
Partido.
  Roque Bandeira ergue-se, lento, e diz:
  - Uma atitude nitidamente masoquista. Encaminha-se para o quarto de
banho, onde se fecha. Irmo Zeca olha, silencioso, para a ponta das
botinas pretas
  de elstico. Rodrigo sacode a cabea numa negativa vigorosa.
  - Acabas de dizer a maior besteira da tua vida, meu filho. Esqueces que
essa gente tinha ideais, convices polticas definidas.
  - Ora, papai, poucos, muito poucos podiam dar-se esse luxo. Vamos tomar
um exemplo de casa: o Bento, cria do Angico. Quando viajava para fora do
municpio e lhe  perguntavam quem era, o caboclo respondia com orgulho:
"Sou gente do coronel Licurgo". Um outro gacho, querendo certa vez
explicar o motivo por que seguia cegamente  Flores da Cunha,
prontificando-se a arriscar a vida por ele, disse: " que eu fui dado ao
general, de pequeno".
  - Queres que te diga uma coisa? - interrompeu-o Rodrigo. - Pois eu
descubro uma grande beleza nessa atitude, nessas lealdades
desinteressadas. Me passa essa garrafa  de cerveja antes que o Roque
beba o resto. - Enche seu copo e bebe um sorvo largo. - O teu argumento
tem outra falha. Ests esquecendo ou dando pouca importncia  ao cdigo
de honra do gacho, do qual nunca, em circunstncia alguma, ele abdicou.
  Floriano coa a cabea com um ar de aluno surpreendido em erro.
  - Dou a mo  palmatria. Reconheo que meu exemplo est incompleto.
Havia uma coisa que esses alienados jamais entregavam ao chefe ou ao
partido. Era a sua dignidade  de macho, justia se faa. - Olha para
Eduardo. - Agora, os correligionrios
  285
  do Edu entregam tudo: a pessoa fsica e moral, a liberdade, a vida e at
a morte.
  Bandeira, que neste instante volta do quarto de banho, olha para o
marista e diz:
  -  o que acontece tambm com os padres.
  - Essa  que no! - exclama Zeca. - A Igreja nunca tirou a dignidade ou
a liberdade de ningum. Pelo contrrio, sempre deu mais uma coisa e
outra.
  Eduardo aproxima-se da janela, mal reprimindo um bocejo. Rodrigo est
surpreendido ante a pouca disposio combativa do rapaz, de ordinrio
to agressivo.
  - Mas me deixem terminar - pede Floriano. - H outra maneira do homem
identificar-se com o mundo que o cerca.  por meio do domnio, da
submisso dos outros  sua  vontade. Ele os torna partes de si mesmo. 
uma atitude sdica. Foi o que at certo ponto fez Pinheiro Machado que
era famoso pela maneira como usava seus amigos  e correligionrios.
Parece-me que o dr. Borges de Medeiros encontrou uma compensao para a
sua solitude fsica e psicolgica atravs dum casamento mstico com o
povo do Rio Grande, no qual ele era o elemento masculino dominador e
autoritrio. E seu amigo Getlio, papai (outro solitrio),
identificou-se com o Brasil.
  - No digas asneiras! - vocifera Rodrigo. - Conheo o Getlio melhor que
todos vocs. Tuas teorias so a negao da vida e a negao da histria.
Sempre haver comandantes  e comandados. Que seria de ns se no fossem
homens da tmpera dum Pinto Bandeira, dum Cerro Largo, dum Bento
Gonalves, dum Osrio? Estaramos todos agora falando  castelhano e o
Brasil seria menor.  melhor calares a boca e no ficares a tentando
negar o que nossa gente tem de mais nobre e valoroso.
  Floriano faz um gesto de desamparo.
  - A est.  difcil dialogar com os chamados "homens de convices
firmes". Eles tm a coragem de matar ou morrer por suas idias. O que
no tm  coragem de reexaminar,  revisar essas idias.
  Irmo Zeca pergunta:
  286
  - Aonde queres chegar com tuas teorias, Floriano?
  - Em primeiro lugar quero deixar claro que no me enquadro em nenhuma
dessas posies. Em segundo, acho que tanto o homem que domina
arbitrariamente como o que se  deixa dominar perdem a integridade. Um
entrega sua liberdade. Outro mata a liberdade alheia em benefcio da
prpria.
  - Ento? - rosna Bandeira.- Em que ficamos?
  - Ele fica como sempre na famosa "terceira posio" - ironiza Eduardo.
  - Exatamente - replica Floriano. - Na terceira posio. E admito que
exista tambm uma quarta, uma quinta, uma sexta... Por que no? No
tenho muita pacincia com  os donos das verdades absolutas.
  Slvia entra, trazendo numa bandeja cinco pequenas xcaras de caf.
Rodrigo faz-lhe um sinal e ela se aproxima.
  - Ah! Aqui est a minha nora e afilhada com seu famigerado cafezinho.
  - O senhor no devia... - murmura ela. - O doutor lhe proibiu.
  - Pois o doutor que v...
  Engole o resto da frase e apanha uma das xcaras. Slvia sorri e sai a
distribuir o caf. Quando ela se aproxima de Floriano, Rodrigo fica
atento a qualquer mudana  na expresso fisionmica do filho que possa
confirmar suas suspeitas. Slvia mantm os olhos baixos. Sim, o rapaz
parece perturbado. Sua mo no est l muito firme,  a xcara que ele
segura treme sobre o pires.
  Quando Slvia se retira, tio Bicho segue-a com o olhar e murmura:
  - Sujeito de sorte, esse Jango.
  Com uma gulodice de menino, Rodrigo lambe o acar que ficou no fundo da
xcara.
  - Ento, romancista? - provoca ele. - J terminaste o teu folhetim?
  - Bom, a soluo para as "ilhas"  unirem-se umas s outras, mas sem
perderem a dignidade e a identidade como indivduos.
  Edu interrompe-o:
  287
  - Pergunta a esses pobres-diabos do Barro Preto e do Purgatrio que
andam descalos e molambentos, que sofrem frio e fome, pergunta a esses
miserveis carcomidos  de sfilis ou de tuberculose se eles sabem o que
 identidade, dignidade ou mesmo liberdade...
  Floriano replica:
  - Est bem, Edu, teu argumento est certo, mas no invalida o que vou
dizer... Para abolir o seu sentimento de solido, de alienao, de falta
de segurana, na minha  opinio o homem no necessita entregar sua
liberdade, sua vontade e seu futuro ao Estado totalitrio, ou a um
ditador paternalista, nem dissolver-se, anular-se no  grupo,
escravizando-se aos seus tabus e s suas mquinas. Reconheo que o
problema  em grande parte de natureza econmica. Se disseres que numa
sociedade de economia  s os homens tero mais oportunidades de serem
melhores, eu responderei que pode haver (e h) prosperidade sem bondade,
progresso material sem humanidade.
  Cala-se por um instante, para escolher as palavras finais, j um pouco
encabulado por estar falando tanto, e talvez num tom de pastor
protestante.
  - Em suma - conclui - devemos procurar soluo pra nossos problemas
existenciais no plano das relaes humanas e no apenas no das relaes
de produo industrial.  O que importa  conseguir uma solidariedade
fraternal entre os homens no s no mbito familiar e nacional como
tambm no internacional. Para isso me parece indispensvel  que cada
pessoa se capacite da sua importncia como indivduo e tambm da sua
responsabilidade para com a prpria existncia.
  - Peo licena para resumir teu pensamento - diz irmo Torbio. - A
soluo  o amor. O que vemos no mundo de hoje no  apenas uma crise
econmica, mas principalmente  uma crise de amor.
  - De acordo, Zeca. Confesso que tive vergonha de pronunciar a palavra
amor, como se fosse um nome feio.
  - Pois devemos sair e escrever a piche nas paredes e muros esse nome
feio! - exclama o marista. - At nas fachadas das
  288
  igrejas... por que no? Conheo padres, bispos, arcebispos e cardeais
incapazes de verdadeiro amor. Sim, precisamos escrever por toda a parte:
amor! amor! amor!
  - No se esqueam das paredes das latrinas - alvitra tio Bicho, com seu
olho cnico - j que esse  o lugar clssico dos nomes feios...
  -  engraado vocs falarem em amor no ano em que terminou a maior
carnificina da histria - diz Eduardo - e em que j se fala abertamente
na Terceira Guerra.
  - Seja como for - insiste irmo Torbio - o amor ainda  a nica
soluo.  o remdio que Deus vem oferecendo aos homens h milnios.
Vocs do as voltas retricas  mais incrveis para acabarem caindo na
nossa seara.
  - Claro - diz Floriano, olhando para Eduardo - o amor no 
positivamente a nota tnica deste nosso sistema capitalista competitivo
e frio, desta nossa civilizao  mercantil em que o lucro  mais
importante do que vidas humanas.
  - Ests usando a linguagem do teu irmo bolchevista... - observa
Rodrigo.
  - Atiramos contra o mesmo alvo - explica Floriano. - S que de posies
separadas e com frechas de cores diferentes.
  Eduardo apressa-se a dizer:
  - O Floriano atira com sua pistolinha literria que esguicha
gua-de-colnia.
  O outro sorri:
  - Para um comunista, tua piada no est nada m... Mas, falando srio,
me parece que a soluo estar numa sociedade realmente baseada no
princpio de que no h  nada mais importante que a criatura humana, a
sua dignidade e o seu bem-estar.
  - O famoso neo-humanismo - murmura Eduardo com ar desdenhoso. - Como 
que vocs esperam chegar a essa sociedade perfeita? Rezando e esperando
um milagre? Deixando  as coisas como esto?
  289
  - J estamos outra vez metidos em filosofanas! - exclama Rodrigo. - No
acham que por hoje basta? So quase onze horas. Ser que vocs esperam
salvar a humanidade  ainda esta noite?
  Os dois irmos se calam. Mas o pai torna a falar:
  - De mais a mais, o que queres  um absurdo, Floriano, O mal deste pas
tem sido a falta de heris, de condutores em quem o povo acredite. Pela
primeira vez na nossa  histria encontramos um lder na figura de
Getlio Vargas e o resultado a est, o "queremismo", esse movimento de
massa que galvaniza de Norte a Sul esta nao  de cpticos. Como 
possvel eliminar a autoridade, como pareces desejar?
  - Eu me refiro  autoridade irracional- replica Floriano -, a que no se
baseia na competncia mas se impe pela fora e se mantm pela
propaganda, pela intimidao  das massas por meio da polcia ou pela
explorao dos "medos sociais": o de ficar sem proteo, de ser
destrudo por inimigos externos ou internos, o de no ter  o que comer,
nem o que vestir, nem onde morar. O senhor, papai, sabe disso to bem
como eu. E  um erro imaginar que a intimidao  a nica arma dos que
exercem  a autoridade arbitrria. Essa autoridade pode emanar tambm do
chamado "ditador benvolo", que por meio de seu departamento de
propaganda trata de fazer que seu  povo o aceite, respeite, admire e ame
como a um pai, o Provedor, o Benfeitor.
  - O ditador - diz Bandeira com voz sonolenta - apresenta-se como uma
figura dotada de qualidades mgicas.
  - Querem um exemplo de autoridade irracional? - pergunta Floriano. - O
Partido. O Eduardo que diga se ele pode discutir uma ordem de seu
partido.
  Eduardo limita-se a bocejar, como um carnvoro saciado.
  - Outro exemplo - acrescenta tio Bicho -  a Igreja.
  - Vou mencionar outro tipo de autoridade irracional - torna Floriano,
olhando para o pai. - A famlia.
  - No me venhas com asneiras - rebate Rodrigo.
  -lhe agradvel a idia de que, apesar da vida que sempre levou,
considera a famlia uma instituio sagrada.
  290
  Irmo Zeca agora caminha dum lado para outro, apalpando o crucifixo que
traz pendurado ao pescoo. Bandeira segue-o com olho divertido.
  Floriano prossegue:
  - Reconheo que a famlia  necessria e pode exercer uma benfica
autoridade racional. Seria um monstro se no reconhecesse isso. Mas no
fundo  a vida familiar  que nos prepara para aceitar os ditadores que,
em ltima anlise, no passam mesmo duma projeo de nossos pais. E o
tipo de educao que recebemos em casa quando  meninos  responsvel por
esse sentimento de culpa que carregamos pelo resto da vida.
  - Vai dormir, rapaz! - exclama Rodrigo. E pensa: por que ser que ele
hoje est me agredindo tanto?
  Floriano pe-se a rir.
  - Esto vendo este exemplo de autoridade irracional? Meu pai, como
ltimo argumento, me manda dormir.
  Irmo Torbio faz alto na frente de Floriano e pergunta:
  - Ser que entre o teu psicologismo e o historicismo e o economismo do
Eduardo no haver lugar para um pouco de teologia, de ontologia, de...
de... de...
  Enquanto o marista procura a outra palavra, Roque, piscando o olho para
Floriano, sugere:
  - Biologia?
  Eduardo, que continua junto da janela, atira fora o toco de cigarro que
tem entre os dentes e olha para o irmo:
  - Suponhamos que esse mundo que idealizas seja realmente o melhor dos
mundos... Torno a te perguntar que  que tu como homem e escritor ests
fazendo para que ele  se torne uma realidade? Esperas que ele caia do
cu? Nossa amarga experincia tem ensinado que do cu s podem cair
bombas. E daqui por diante bombas atmicas!
  - Outra coisa - intromete-se Rodrigo -, tu ofereces uma soluo para
intelectuais como tu. Esqueces as massas, que no esto mentalmente
capacitadas nem sequer a  compreender que existe um problema nesses
termos. - Muda de tom. -  Eduardo, vai
  291
  ali no quarto de banho e me despeja um pouco de sal de frutas em meio
copo d'gua... Estou com um princpio de azia.
  Roque Bandeira torna a consultar o relgio. O marista leva a mo  boca
para esconder um bocejo. Faz-se um silncio.
  Eduardo volta ao quarto trazendo um copo de gua efervescente.
  -  engraadssima a atitude burguesa - diz ele entregando o copo ao
pai, mas com os olhos postos em Floriano. - Vocs acham que podem
resolver os problemas sociais  no plano filosfico e por isso se
embriagam com frases. O que nos interessa a ns, marxistas, so fatos,
nmeros, necessidades humanas. A filosofia em si mesma no  passa dum
refgio.  um castelo de palavras, uma maneira de viver isolada da
histria e do mundo.
  Fala com certo nervosismo e algumas hesitaes, numa espcie de
"gagueira eloqente" que lhe vem do excesso de argumentos e no da
pobreza deles.
  - O marxismo - continua -  um mtodo de anlise da realidade e ao mesmo
tempo um mtodo de ao sobre essa mesma realidade. De filosofias o
mundo est cheio e farto.  O que importa  examinar a histria com
objetividade e participar dela ativamente.
  - Pois se a coisa  assim - interrompe-o Bandeira - precisas dar umas
lies de marxismo ao teu chefe, o Prestes. Na minha opinio esse
homenzinho  o mais terico  dos filsofos. Sua maneira de ver a
realidade brasileira  verdadeiramente... surrealista. Se bem entendo,
ele acha e proclama que o Brasil no est ainda preparado  nem material
nem psicologicamente para a revoluo socialista. Segundo ele, o que a
classe operria tem de fazer agora (e para isso conta com a colaborao
do que  chama "burguesia progressista")  liquidar os ltimos vestgios
do feudalismo em nossa terra e tratar de desenvolver, notem bem,
fomentar o capitalismo at uma etapa  que o torne maduro para o
socialismo. Ora, isso me lembra a histria do cirurgio da roa que,
procurado por um paciente que sofria de dispepsia, lhe disse: "Olha,
velhote, para esse teu mal no sei de nenhum remdio. Mas se voltares
pra casa e tratares de
  292
  arranjar uma lcera gstrica, eu resolvo o teu problema te cortando um
pedao do estmago ou o estmago inteiro". Rodrigo solta uma risada.
  - Ests errado! - reage Eduardo, encarando o velho amigo. - Se tivesses
lido direito Marx e Engels, terias aprendido que existem dois tipos de
socialismo. Um deles   utpico e inoperante como esse que o Floriano
prega. Baseia-se na absurda moral crist. O outro, o verdadeiro, tem
carter cientfico e decorre dum exame positivo  das relaes
econmicas. O verdadeiro socialismo  uma ordem necessria que se
origina dum certo grau de imaturidade do sistema capitalista. Mas essa
transformao  no se faz por si mesma (como imagina o Floriano), mas
exige a interveno dos homens ou, melhor, das classes oprimidas.  por
isso que o socialismo no pode deixar  de ser o resultado da luta de
classes.
  Irmo Zeca tenta interromp-lo, mas Eduardo o detm com um gesto e
continua:
  - H uma coisa que o Zeca e tu, Floriano, parecem esquecer. Como disse
Marx, no  a conscincia dos homens que determina o seu ser, mas  o
seu ser social que determina  a sua conscincia. Como  possvel mudar o
que o homem  sem primeiro destruir o sistema social que assim o fez?
  De novo irmo Torbio tenta interromp-lo, mas Eduardo no se cala.
  - O sistema social com que o Floriano sonha deve ter como centro o
homem, no  mesmo? Vocs querem que antes de mais nada se respeite a
pessoa humana, no? Acho  que  hora de botar as cartas na mesa e
esclarecer o assunto. At que ponto vocs os liberais, os democratas, os
catlicos, os conservadores, etc.... etc.... respeitam  mesmo a pessoa
humana? Permitindo que trs quartas partes da populao do mundo vivam
num plano mais animal que humano? Queimando caf e trigo, por uma
questo de  preos, quando h fome nos cinco continentes da Terra?
Deixando que continue a explorao do homem pelo homem, a usura, a
prostituio... enfim, todos esses cancros  da ordem capitalista?
  Olha em torno, num desafio. Os olhos do pai comeam a velar-se de sono.
Roque parece ter cado numa modorra que o torna
  293 incapaz de qualquer reao. E, agora, no meio do quarto, numa
atitude de comcio, Eduardo continua seu ataque:
  - Para no nos perdermos em abstraes, vamos tomar o caso do Brasil.
Vocs enchem a boca com palavras como justia, fraternidade, liberdade,
igualdade e humanidade.  Afirmam que nada disso existe na Rssia
sovitica, apesar de nunca a terem visitado. Mas sejamos honestos. Oito
anos de Estado Novo, a Cmara e o Senado fechados,  os direitos civis
suprimidos, as cadeias abarrotadas de presos polticos sem processo, a
imprensa amordaada...  essa a idia que vocs tm de justia e
liberdade?  Ser humanidade entregar a mulher de Prestes, grvida, aos
carrascos da Gestapo, que a mataram num campo de concentrao? E que me
dizem da polcia carioca queimando  com a chama de um maarico o nus
dum preso poltico? Ou enlouquecendo o Harry Berger com as torturas mais
brbaras, para obrig-lo a confessar sua participao  num complot que
no passava dum produto da imaginao mrbida de Gois Monteiro? Isso 
fraternidade? Que dizer tambm dos parasitas que fizeram negociatas em
torno  do Banco do Brasil, das autarquias e dos ministrios? E da nossa
srdida burguesia que durante a guerra se empanturrou de lucros
extraordinrios, mantendo o operariado  num salrio de misria? Isso 
justia social? Isso  respeitar a dignidade da pessoa humana? Ora, no
me faam rir!
  Encara irmo Torbio:
  - Que fizeram vocs os catlicos durante esse perodo? Fingiram por
covardia ou convenincia que no sabiam das atrocidades da polcia, da
misria do povo, das patifarias  da gente do governo, da corrupo da
alta burguesia. Cortejaram o ditador para obterem dele favores para a
Santa Madre Igreja. Sim, e tambm denunciaram "cristmente"  os
comunistas  polcia.
  Volta-se para Floriano:
  - E vocs, beletristas? Poucos foram os que protestaram. Muitos se
fartaram, mamando nas tetas gordas do DIP. Mas a maioria se omitiu,
permanecendo num silncio  aptico e covarde, numa contemplao que no
fundo era uma forma de cumplicidade com a situao.
  294
  Floriano est absorto num silncio reflexivo. H muita verdade no que o
irmo diz. Mas gostaria de perguntar-lhe se os processos de Moscou so o
seu ideal de justia.  Se os expurgos fsicos so a melhor forma de
fraternidade. Se o massacre dos kulaks que na Rssia se rebelaram contra
a coletivizao das terras ser um smbolo  de humanidade e justia
social. Mas nada diz. Porque no acha que se deva justificar uma
brutalidade com outra. De resto, conhece bem o irmo. Se por um lado a
paixo  poltica lhe d o mpeto, a coragem de dizer sinceramente o que
pensa e sente, por outro o deixa quase cego a tudo quanto saia fora de
seu esquema marxista.
  Quanto a Rodrigo, faz j alguns minutos que no escuta o que se diz a
seu redor. Tem estado a pensar alternadamente em Snia e na morte. Uma
fita de fogo sobe-lhe  desagradavelmente do estmago  garganta. (Por
que tomei cerveja, se sei que no me faz bem?) Esfora-se por arrotar e
livrar-se dos gases que lhe inflam o estmago,  comprimindo-lhe o
corao.
  Neste momento a porta do quarto se abre e Dante Camerino aparece.
Floriano olha para o pai e sorri. Rodrigo d-lhe a impresso dum menino
apanhado em flagrante numa  travessura. O mdico olha em torno, de cenho
franzido. Depois encara o paciente e diz:
  - Sabe que horas so? Quase meia-noite. O senhor j devia estar
dormindo.
  Tio Bicho ergue-se, apanha o chapu e comea as despedidas. O marista
pousa a mo no ombro de Rodrigo e murmura:
  - No se esquea do que lhe pedi a semana passada... Lembra-se?
  O enfermo sacode a cabea afirmativamente.
  - Vocs sabem? - diz em voz alta, - O Zeca quer que eu me confesse e
tome a comunho...  Dante, ser mesmo que estou "em artigo de morte",
como diziam os clssicos?  No se esqueam que vocs quase me mataram de
susto o outro dia, quando fizeram o padre Josu entrar neste quarto todo
paramentado, para me dar a extrema-uno...
  - A idia no foi minha - desculpa-se Camerino.
  295
  - Foi minha - confessa irmo Torbio. E acrescenta: - No me arrependo.
  Rodrigo segura a manga da batina do marista.
  - Sou religioso  minha maneira, Zeca. Considero-me catlico, acredito
em Deus, mas no sou homem de missa nem de rezas e muito menos de
confisses...
  - O dr. Rodrigo - diz Roque Bandeira -, como tantos outros brasileiros,
 catlico do umbigo para cima.
  O senhor do Sobrado solta uma risada e diz:
  - Eu c me entendo com o Chefo l em cima. Quando se v a ss com o
doente, Camerino posta-se na frente
  dele e, depois duma pausa, pergunta:
  - Quantos cigarros fumou?
  - Quem foi que te disse que eu fumei?
  - Vejo cinza na sua camisa e no lenol... E o senhor est cheirando a
sarro de cigarro. Desculpe o sherlockismo, mas pelo seu hlito deduzo
tambm que andou bebendo.  Que foi? Cerveja?
  O enfermeiro agora est  porta, de braos cruzados. Rodrigo lana-lhe
um olhar enviesado e murmura para Camerino:
  - O Frankenstein chegou... O mdico sorri:
  - Vamos ver como est a presso depois desse entrevero. Abre a bolsa.
  Floriano decide acompanhar irmo Torbio e Roque Bandeira at suas
casas. Ele prprio est maravilhado ante a necessidade de companhia
humana e de comunicao que  tem sentido nestes ltimos dias. O caramujo
abandonou a concha e move-se entre os outros bichos, convive com eles, e
est admirado no s de continuar vivo e inclume  como tambm de
sentir-se  vontade sem a
  carapaa protetora.
  Eduardo despede-se no vestbulo: precisa dormir, pois tem de sair amanh
muito cedo para Nova Pomernia, a servio do Partido.
  - Que apstolo! - exclama tio Bicho, depois que o rapaz se vai. - Devia
usar vestes sacerdotais: uma batina vermelha e, em vez do crucifixo, a
foice e o martelo.
  296
  Saem para a noite fresca e mida. No cu, agora completamente limpo e
dum azul quase negro, estrelas lucilam. Nas caladas e no pavimento
irregular das ruas ficaram  pequenas poas d'gua.
  Junto do redondel de cimento, no centro da praa, os trs amigos fazem
alto diante duma coluna de mrmore sobre a qual dentro de poucos dias
ser colocado o busto  do cabo Lauro Car. A Voz da Serra vem publicando
uma biografia seriada desse jovem santa-fezense, soldado da FEB, que
teve morte de heri na Itlia. Seu corpo jaz  enterrado no cemitrio de
Pistia, e agora sua cidade natal vai prestar-lhe esta homenagem. Ainda
ontem - lembra-se Floriano - Rodrigo chamou-o para lhe contar que  havia
recebido um convite para comparecer ao ato de inaugurao do busto.
  - Quero que me representes na solenidade - pediu ele. -  bom que saibas
que o Laurito Car era nosso parente. Acho que no ignoras que teu av
Licurgo tinha uma  amante, um caso antigo, que vinha dos tempos de
rapaz. Teve um filho com ela, e o cabo Car vem a ser neto de teu av e
portanto meu sobrinho e teu primo...
  Agora, olhando para a base do monumento, Floriano diz aos dois amigos:
  - Quem podia prever que um dia um obscuro membro do cl marginal dos
Car viesse a ter seu busto nesta praa, a menos de cem metros da
esttua do coronel Ricardo  Amaral, fundador de Santa F e flor muito
fina do patriciado rural do Rio Grande?...
  Irmo Zeca aponta para o outro busto que se ergue no lado oposto do
redondel:
  - E na frente da imagem de dona Revocata Assuno, sua professora...
  - Flor da cultura serrana - acrescenta tio Bicho.
  - Segundo a histria (ou a lenda) de Santa F - conta Floriano, quando
retomam a marcha - h muitos, muitos anos um Car roubou um cavalo dum
Amaral. Para castigar  o ladro o estancieiro mandou seus pees
costurarem o pobre homem dentro dum couro de vaca molhado e deixarem-no
depois sob o olho do sol. O couro secou, encolheu  e o Car morreu
asfixiado e esmagado.
  297
  - Mas os tempos mudaram - observa irmo Torbio. -  possvel e at
provvel que amanh um Car venha a ser prefeito municipal ou
deputado...
  Tio Bicho pra um instante para acender um cigarro e, depois da primeira
tragada, diz:
  - Segundo esse inocente simptico que  mr. Henry Wallace, estamos na
"era do homem comum". Vocs, socialistas ou socializantes, democratas ou
populistas vo ver,  com o tempo, que o chamado "homem comum" no 
melhor nem pior que o "incomum". So todos umas porcarias, feitos do
mesmo barro.
  - No sejas pessimista! - exclama irmo Zeca.
   esquina da rua do Comrcio encontram Bibi e o marido, que voltam duma
tentativa frustrada de descobrir "vida noturna" em Santa F. Enquanto
Sandoval conversa com  tio Bicho e o marista, Bibi chama o irmo 
parte.
  - Como vai o Velho? - pergunta.
  - Acho que bem. S que esta noite abusou: fumou, bebeu, agitou-se. Ns
fomos em parte culpados.
  Bibi baixa a voz:
  - Vimos a mulher no cinema.
  - Que mulher?
  - Ora, tu sabes.
  - Como foi que a identificaste?
  - O Sandoval me mostrou. E depois, filho, a gente v logo. Estava com
um vestido vermelho escandaloso, de culos escuros, pintada dum jeito
que se via logo que  ela no  daqui...
  - Que achaste da rapariga?
  - Prostitutinha da Lapa. Floriano sorri. Bibi est enciumada.
  Sandoval aproxima-se de Floriano e segura-lhe afetuosamente o brao:
  - Vi hoje umas belas gravatas na Casa Sol - diz. - Comprei duas, uma pra
mim e outra pra ti. Acho que vais gostar.
  - Ah! - faz o outro, contrafeito. - Muito obrigado.
  298
  O casal retoma o caminho do Sobrado. Os trs amigos comeam a descer a
rua principal.
  - Um produto do Estado Novo - diz Floriano aps alguns segundos - ou,
melhor, do neocapitalismo.
  - Quem? - pergunta o marista.
  - O Sandoval.
  Tio Bicho, que parece pisar em ovos, tal a indeciso e a leveza de seus
passos, apia-se no brao de Floriano e sussurra:
  - No vais negar que o rapaz  simptico.
  - No nego.
  - Mas por que - pergunta o marista - o achas to representativo do
neocapitalismo?
  - Ora, o Sandoval tem nitidamente o que se convencionou chamar de
"carter de mercado". Me digam, qual  o objetivo principal do homem
numa sociedade cada vez mais  furiosamente competitiva como a nossa?
  - Obter sucesso - responde tio Bicho,  beira dum acesso de tosse. -
Galgar posies, ganhar dinheiro para comprar todas essas bugigangas e
engenhocas que do conforto,  prazer e prestgio social.
  - Pois bem - continua Floriano - na luta para obter essas coisas, um
homem como o Sandoval procura ser aceito, agradar, e a maneira mais
fcil de conseguir isso   "danar de acordo com o par", conformar-se
com as regras que regem a sociedade em que vive. Para ele  importante
pertencer a clubes gr-finos, ter seu nome na  coluna social dos jornais
e sua fotografia nessas revistas elegantes impressas em papel couch,
produtos da ilusria prosperidade que a guerra nos trouxe. Nosso  heri
tem de ser visto em companhia (e se possvel em tom de intimidade) de
pessoas importantes no mundo do comrcio, da indstria, das finanas e
da poltica. Ou  mesmo de aristocratas arruinados, contanto que "tenham
cartaz".
  Roque Bandeira, que respira penosamente, puxa-lhe do brao.
  - Pelo amor de Deus, mais devagar! No vamos tirar o pai da forca. Mas
continua o teu "retrato".
  299
  - Em suma, o homem est no mercado. Quem me compra? Quem me aluga? Quem
d mais?
  - No estars exagerando? - pergunta o marista.
  - Talvez o Floriano esteja carregando nos traos caricaturais
  - opina tio Bicho. - Mas isso no invalida a parecena do retrato.
  - Quem pode negar que  simptico, gentil, persuasivo? Sabe impor-se aos
outros por meio da lisonja e duma srie de pequenas cortesias e
atenes... Flores para  madame no dia de seu aniversrio, porque o
marido  um homem importante que no futuro lhe poder vir a ser til...
Telefonemas para o figuro, a propsito de tudo  e a propsito de nada:
o que importa  agrad-lo, incensar-lhe a vaidade... Se est com um
padre, o nosso heri puxa o assunto religio e ningum  mais catlico
que ele. Se conversa hoje com um torcedor do Flamengo, declara-se logo
"doente" pelo rubro-negro, como amanh, com outro interlocutor, poder
apresentar-se como  fantico do Botafogo, do Amrica ou do Vasco... Na
presena dum getulista, ningum ser mais queremista que ele. Agora me
digam, quem pode recusar um artigo assim  com tantas qualidades
sedutoras?
  - Esqueces que o Sandoval  uma criatura de Deus - interrompe-o o
marista. - Tem uma alma imortal.
  - Eu esqueo? - exclama Floriano. - Quem esquece  ele! Afinal de contas
se tomo o Sandoval como exemplo  porque o tenho observado de perto. Bem
ou mal, o rapaz  entrou na famlia, convive conosco...
  Vai acrescentar: "dorme com a minha irm" - mas contm-se. Os trs
amigos do alguns passos em silncio na rua deserta.
  - Mas achas que ele sabe que se porta como uma mercadoria?
  - pergunta irmo Torbio.
  - Claro que no.  um produto do meio em que se criou. Nesta nossa
civilizao de "coisas", esse esprito mercantil passou a ser um
imperativo de sobrevivncia.
  Floriano e irmo Zeca deixam tio Bicho  porta de sua casa e continuam a
andar na direo do Ginsio Champagnat, onde o
  300
  marista vive. O ar est embalsamado pela fragrncia das magnlias que
vem dum jardim das redondezas.
  Caminham calados at o porto do colgio, junto do qual fazem alto.
Irmo Torbio apalpa o crucifixo nervosamente. Fica um instante de
cabea baixa, sempre em silncio,  e depois diz:
  -  engraado... Estou h dias para te falar num assunto... e no sei
como comear.
  Slvia - pensa o outro num susto. - O Zeca deve ter desconfiado de
alguma coisa...
  -  sobre o meu pai...
  - Ah! - faz Floriano, aliviado.
  - Creio que o conheceste bem. Pelo menos, melhor que eu. - Faz uma
pausa. E depois: - Que espcie de homem era ele?
  - No acho fcil definir tio Torbio... As criaturas aparentemente
simples so s vezes as mais difceis de decifrar. O que te posso dizer
 que eu gostava muito  dele... S lamento nunca lhe ter dito isso
claramente.
  O marista sacode a cabea. Das folhas do jacarand debaixo do qual se
encontram, de quando em quando pingam gotas da gua que a chuva ali
deixou. Floriano sente  uma delas bater-lhe, fresca, na testa.
  - s vezes ouo histrias sobre ele... Episdios, anedotas, as suas
aventuras com mulheres, tu compreendes, essas coisas de superfcie...
Junto esses fragmentos  e tento formar o retrato psicolgico de meu pai.
Mas qual! No consigo. Creio que me faltam os pedaos principais. E os
que eu tenho no se casam com os outros...
  - Teu pai era um homem autntico, Zeca, dos poucos que tenho conhecido
na vida. Eu te diria que ele foi uma mistura de Pantagruel, Pedro
Malasarte e D'Artagnan.  O que dava mais na vista era a sua parte
pantagrulica e malasarteana...
  - s vezes penso que ele foi um cruzado sem causa. Floriano encolhe os
ombros, indeciso.
  - No sei... O que te posso afirmar  que tio Torbio nunca teve
pacincia com os demagogos, os hipcritas e os falsos moralistas.
Politicamente, era um idealista   sua maneira, embora fizesse empenho
em provar o contrrio, alegando que se metia em 
  301
  revolues simplesmente porque gostava de pelear. No h dvida que era um
homem de ao e de grandes apetites. E completamente sem inibies!
  - Rezo todas as noites pela sua alma - murmura Zeca. E, sorrindo com
ternura, recorda: - Eu me lembro do dia em que lhe contei que queria ser
marista. Primeiro ficou  perplexo, depois furioso. Quis me tirar a idia
da cabea. Lembro-me claramente das palavras dele: "Ser que tu s bem
homem? Vou mandar um doutor te examinar. Onde  se viu um Cambar padre?"
  - Tu compreendes, para um gacho como teu pai, entrar para uma ordem
religiosa  uma espcie de autocastrao... J deves ter observado que
para os Cambars no  h nada mais desmoralizante que isso.
  - Claro que compreendo. E no penses que sou muito diferente de meu pai
em matria de temperamento. Quando me esquento (e isso acontece com
muita freqncia) me  vm  ponta da lngua os piores palavres, e
preciso fazer um esforo danado para no larg-los...
  Floriano sorri.
  - Mas isso faz mal, Zeca. Falo de cadeira. Esses palavres que
recalcamos acabam nos sujando por dentro. Te digo mais: eles causam
menos mal jogados na cara do prximo  do que reprimidos dentro de ns.
  - Eu sei disso... e como!
  Faz-se um novo silncio, ao cabo do qual Floriano diz:
  - Teu pai tinha aspectos curiosos. Era, por exemplo, louco por novelas
de capa e espada. Quando se agarrava com uma delas, passava a noite em
claro, lendo...
  - E esses livros... se perderam?
  - Creio que alguns deles ainda existem l pelo Sobrado, ou na casa da
estncia. Por qu?
  - Eu gostaria de ficar com uns dois ou trs...
  - Est bem. Vou procur-los amanh mesmo.
  Ficam ambos calados por alguns instantes. Floriano sente que irmo Zeca
no lhe fez ainda a pergunta essencial. Ele pigarreia, apalpa o
crucifixo. Por fim, torna  a falar:
  302
  - Tu estavas com papai... quando ele morreu, no?
  - Sim. Tio Torbio expirou por assim dizer nos meus braos..
  Nova hesitao da parte do marista.
  - Ele... ele disse alguma coisa na hora da morte?
  - Bom, tu sabes... Estava enfraquecido pela brutal perda de sangue, eu
mal podia perceber o que ele dizia...
  - Mas... podes repetir esse pouco que ouviste?
  Zeca espera que o pai tenha pronunciado o nome de Deus na hora
derradeira - reflete Floriano, comovido. E uma bela fico lhe ocorre.
Sem olhar para o amigo, inventa:
  - S pude ouvir claramente uma palavra: o teu nome. Depois dum novo
silncio, com um leve tremor na voz embaciada, o marista pergunta:
  - Ento ele pronunciou o meu nome? Ests certo de que ouviste direito?
  - Certssimo - diz Floriano, empolgado com a prpria mentira.
  A sombra da rvore no lhe permite ver claramente as feies do outro,
mas ele sente uma espcie de resplendor na face do amigo.
  - Ento, afinal de contas, meu pai gostava de mim...
  - Mas no descobriste ainda, homem, que l no Sobrado todos gostamos de
ti?
  Despedem-se em silncio com um longo aperto de mo.
  303
  Caderno de pauta simples
  Bandeira tem razo.  necessrio agarrar o touro a unha. Enfrentar sem
medo e com a alegria possvel "el momento da verdad". Esta talvez
seja a ltima oportunidade.  Ou pelo menos a melhor.
  Penso num novo romance. Soluo - quem sabe - para muitos dos
problemas deste desenraizado. Tentativa de compreenso das ilhas do
arquiplago a que perteno ou,  antes, devia pertencer. Abertura de meus
portos espirituais ao comrcio das outras ilhas.
  J tardam os navios que trazem o meu dom Joo VI.
  
  A faanha do Menino: deixar as muletas das linhas paralelas dos cadernos
de pauta dupla para caminhar como um audaz equilibrista sobre o fio das
linhas simples.  Proeza que exijo do adulto: enfrentar o papel
completamente sem linhas, saltar para o vcuo branco e nele criar ou
recriar um mundo.
  Folheando ontem ao acaso uma velha Bblia, meu olhar caiu sobre este
primeiro versculo do captulo IV do Gnesis:
  "E conheceu Ado a Eva, sua mulher, e ela concebeu e pariu a Caim, e
disse: Alcancei do Senhor um varo".
  Por alguma razo profunda, "conhecer"  sinnimo de fornicar, penetrar,
amar. Escrever sobre minha terra e minha gente - haver melhor maneira
de conhec-las?
  Conhec-las para am-las. Mas am-las mesmo que no consiga
compreend-las.
  305
  "Porque em verdade vos digo que fora do amor no h salvao. "
  Eis uma frase que eu jamais teria a coragem de escrever num romance,
atribuindo-a a mim mesmo. Ou a um ssia espiritual.
  Mas quem foi que nos incutiu este pudor dos sentimentos? Dona Revocata?
O velho Licurgo, legislador prudente? Os meninos de Espana? Ou Maria
Valria, a fada de ao  e gelo?
  Um dia destes tive a curiosidade de rever o quarto que pertenceu a minha
irm morta. Pedi a chave  Dinda e entrei. Um ato de masoquismo. Ou de
penitncia, o que  vem a dar no mesmo.
  Tudo l dentro est exatamente como no dia em que levaram Alicinha do
Sobrado para o jazigo perptuo da famlia, isso h mais de vinte anos.
Papai no permitiu que  ningum mais ocupasse esse quarto, nem que se
dessem as roupas e os objetos de uso pessoal da menina a quem quer que
fosse. Transformou a pequena alcova numa espcie  de mrbido museu. O
tempo deve ter cauterizado as feridas do dr. Rodrigo, mas ele continua a
exigir que seja mantido o santurio.
  No toquei em nada l dentro. S olhei, lembrei e procurei (com medocre
sucesso) sentir-me com treze anos. Nada me comoveu mais que uns
sapatinhos da menina, outrora  brancos, que ficaram esquecidos a um
canto e ainda l esto, como dois gatinhos mumificados. A boneca
continua em cima da cama. Seu vestido rosado desbotou, como  a
cabeleira. Mas seus olhos de vidro so ainda do mesmo azul que
perturbava o Menino. E que o Homem iria encontrar treze anos mais tarde
nos olhos duma estrangeira.
  Sa do quarto carregado de lembranas e remorsos. Remorsos?
  Quem reinava no Sobrado? Alicinha, anjo rosado de cabelos anelados.
Montada na perna do pai brincava de cavalinho meu tordilho, upa! Upa! 
sabes quem tens na garupa?  A flor mais bela da terra.
  O Menino enciumado ia curtir seu despeito no torreo do Castelo. Um dia
l das ameias olhando as torres da igreja viu um enterro saindo ao
dobrar grave do sino.  No branco caixo pequenino que plida infanta
dormia? As carpideiras sussurram Alicinha pobrezinha Alicinha Cambar.
  Fechado o triste casaro toda a famlia de luto olhos inchados de pranto
papai gritando no quarto Deus me roubou a princesa.
  Debaixo da terra fria segundo contava Laurinda a cabeleira dos mortos
continuava a crescer.
  Deus me perdoe e livre de pensar coisas malvadas!
  Queria esquecer, no podia os cabelos da menina crescendo na sepultura.
De noite o sono no veio nenhuma reza ajudou entrou no quarto da irm
beijou-lhe os cabelos  de viva voltou pra cama e dormiu.
  306
  307
  E havia o Enigma. O quebra-cabeas essencial. O diablico jogo de armar.
O Menino juntava os pedaos do puzzle, procurando formar com eles o
quadro completo.
  Viu um dia no Angico tio Torbio castrar um cavalo. Na hora do sangue
quis fechar os olhos mas o fascnio foi mais forte que o medo.
  Terminada a operao o tio voltou-se para ele, empunhando a faca
ensangentada:
  Agora vamos capar o Floriano!
  O Menino encolheu-se, protegendo com ambas as mos a preciosidade.
  Laurinda soltou uma risada:
  No faam isso! Sem essa coisa como  que ele vai fazer filhos quando
ficar homem?
  Os piess da estncia davam ao Menino lies de sexo, chamando sua ateno
para a coreografia amorosa dos animais.
  Garanhes empinavam-se sobre guas.
  Touros agrediam vacas com suas rubras espadas incandescentes.
  Era ruidoso o amor dos gatos gemebundos.
  Ces aflitos resfolgavam, a lngua de fora, em prolongados engates.
  Rtilos galos danavam um breve minueto antes do vo ertico.
  E havia tambm os porcos, as cabras, os insetos...
  O Menino estudava ao vivo sua histria natural.
  E o que mais o encantava era o amor areo das liblulas, com seus
grandes olhos de jia: o macho enlaava a fmea e assim unidos
realizavam o ato da fecundao num  vo que era um bailado iridescente.
  Um dia o Menino descobriu por acaso (teria sido mesmo acaso?) como a
coisa se passava entre o homem e a mulher. (Um peo e uma chinoca,
dentro do bambual, na hora  da sesta.) Era como o amor das liblulas. S
que no voavam. Mas era tambm como o dos cachorros. E isso o assustou.
  Por esse tempo ele elaborou a sua mitologia particular.
  308
  Pai era Sol. Me era Lua. Pai era ouro. Me era prata. Pai era fogo. Me
era gua. Pai era vento. Me era terra.
  Mas a frase terrvel que um pio lhe soprou no ouvido partiu em cacos
esse universo metafrico.
  Odiou o pai, chorou a me e do torreo do Castelo viu outro enterro na
igreja desta vez um caixo grande preto com alas de ouro levado por
homens srios crepe negro  no Sobrado bandeiras a meio pau o sino de
novo dobrando.
  Deus me perdoe e livre de pensar coisas malvadas!
  No quero que meu pai morra nem a filha que ele adora. Tarde demais!
Ambos foram pr reino da Moura Torta. Meu tordilho, upa! Upa! sabes quem
tens na garupa? Um  cavaleiro que busca no negro campo da morte sua
princesinha perdida.
  E os cabelos do pai e da filha cresciam na sepultura.
  Deitou-se, dormiu, sonhou era grande, usava cartola
  309
  cheirava a galo, fumava
  era o Pai e dormia
  no grande leito conjugal.
  
  Reli o que acabo de escrever. Inaproveitvel! O romance que estou
projetando no pode, no deve ser autobiogrfico. Usar a terceira
pessoa, isso sim. Evitar a  cilada que a saudade nos arma, fazendo-nos
cair no perigoso alapo da infncia. A educao sexual ou falta dela...
do Menino no ter sido diferente da de muitos  milhares ou milhes de
outros meninos atravs do espao e do tempo. Por que ento repetir
coisas sabidas?
  Fica decidido que este material no ser aproveitado no romance.
  Mas no estarei mais uma vez fugindo ao touro, depois de provoc-lo com
elaborados passes de capa?
  
  Aqui vai uma histria que me parece importante. Na minha vida, quero
dizer.
  Eu teria uns dez anos. O ms? Agosto. Fazia frio e uma cerrao envolvia
a cidade. Sa de manh cedo rumo da escola, com a mochila de livros s
costas e um gosto  de mel na boca.
  Comecei a assobiar, sinal de que arquitetava faz-de-contas. No estava
mais em Santa F, mas em pleno nevoeiro de Londres. Meu nome era Phineas
Fogg e eu ia a caminho  do Reform Club, onde apostaria com meus amigos
que era capaz de fazer a volta ao mundo em apenas oitenta dias.
  Na rua Voluntrios da Ptria me aproximei curioso dum ajuntamento de
gente. E vi estendido no barro o primeiro degolado de toda a minha vida.
O cadver tinha uma  rigidez que antes eu s vira em cachorros mortos.
Sua boca estava aberta, mas havia outra boca mais horrenda escancarada
no pescoo, e os lbios dessa segunda boca  estavam
  310
  enegrecidos de sangue coagulado. Sangue havia tambm nas roupas do
degolado e na lama da rua. Recuei, nauseado, recostei-me numa parede, e
o meu mel se transformou  em fel. Voltei estonteado para casa e me
refugiei no Castelo. Levei um pito por ter gazeteado a aula. Mas no
contei a ningum (nem naquele dia nem nunca) o que tinha  visto.
   mundo horrvel dos grandes
  que cheiravam a sangue de boi
  a sangue de homem
  a suor de cavalo
  a sarro de cigarro de palha.
   homens brutais que coavam os testculos
   gachos bombachudos
   capangas melenudos
  com bigodes de fumo em rama
  barbicacho nos dentes
  pistola e faco na cinta
  esporas nas botas
  escarro na voz
  a Ia frescal
  a Ia putchal
  j te corto1.
  j te sangro!
  j te capo!
   mundo de histrias negras! Ontem estriparam um vivente l pras bandas
do Barro Preto. O soldado fez mal pra donzela e a coitada tomou lisol.
Caiu geada a noite  inteira um mendigo morreu de frio e os seus pobres
olhos vidrados espelharam o gelo do cu.
  Por tudo isso o Menino
  311
  entrava no barco de lata com o nome Nemrod na proa saa prs Sete Mares
ia ver seu bom amigo o monarca de Sio. E via o sol de Bangkok luzir nas
cpulas d'ouro.  Ou ento fechava os olhos e contra o escuro das
plpebras tinha o seu calidoscpio geometrias deslumbrantes jias,
flores e astros vaga-lumes, borboletas drages  e auroras boreais. Ou
ento abria a janela do torreo do Castelo esperando a Grande Visita.
Pearl White, a brava Elaine a herona dos seriados a mais bela mulher
do mundo o maior de seus amores vinha loura, alva e muda deitar-se no
seu div. Mas ai! os chineses sinistros dos Mistrios de Nova York
surgiam com seus filtros  seus venenos e punhais Salta, Elaine, pra
garupa do meu pingo alazo vou levar-te pr palcio do monarca de Sio.
  Nada do que acabo de escrever presta. So meras bandarilhas com papis
coloridos que atiro a medo e de longe contra o lombo do touro.
  312
  Encontrei h dias no fundo duma gaveta uma fotografia de Assis
Brasil com uma dedicatria autografada  para meu av Licurgo. Fiquei
entretido a reconstituir  o retratinho mental que o Menino tinha dessa
figura, e formado das coisas que a respeito dela ouvia ou lia. Mais ou
menos assim:
  Estadista, diplomata, poliglota, literato poltico, aristocrata
  estancieiro, inventor
  s quer o voto secreto
  a justia e a liberdade.
  Senhor dum belo Castelo
  e de muita pontaria
  escreve seu nome a bala
  at com os pingos nos is.
    Coisas inesquecveis de 1923: a minha noite de insnia e medo, quando
vinte e dois cadveres de revolucionrios mortos no assalto  cidade
estavam sendo velados  no poro do Sobrado. Os negros da casa e mais os
da vizinhana rezaram de madrugada um tero, puxado pela Laurinda. No
meu esprito as vozes soturnas deixaram a  noite mais noite e os mortos
mais mortos.
  Outras lembranas de 23: a notcia de que a peste bubnica campeava na
cidade. E a nossa guerra de extermnio aos ratos. Deve ser por isso que
at hoje no posso  dissociar a palavra rato da idia de peste. E de
trigo roxo. E das mos da Dinda, que semeavam a morte no poro.
  313
  Leno encarnado
  Janeiro de 1923 entrou quente e seco. Maria Valria e Flora andavam
alarmadas: os jornais noticiavam casos de bubnica em vrias localidades
do Estado. E quando  A Voz da Serra, sob cabealhos sensacionais,
anunciou a descoberta de um doente suspeito no Purgatrio e de outro no
Barro Preto, as mulheres do Sobrado iniciaram  uma campanha meio
histrica contra os ratos. Foi Maria Valria quem deu o brado de guerra:
defumou toda a casa, espalhou trigo roxo e p de mosquito no poro e
doutrinou  as crianas: "Onde enxergarem um rato, matem. Mas no
encostem nem um dedo nele!" E nos dias que se seguiram no se falou em
outra coisa no casaro, mesmo  hora  das refeies. Contavam-se casos
de pesteados: a coisa comeava com uma ngua no sovaco ou nas virilhas,
tudo isso com febre alta, tonturas, dores de cabea lancinantes,
vmitos; depois comeavam a rebentar os bubes...
  As crianas escutavam essas histrias, de olhos arregalados. Os
comentrios chegaram a tal extremo de realismo, que Rodrigo explodiu:
  - Por amor de Deus, titia! Pare com isso, no assuste as crianas.
  Mas as crianas j estavam suficientemente assustadas. Um dia, ao
avistarem um camundongo, Alicinha e Slvia tiveram uma crise de nervos e
puseram-se ambas a soltar  gritos estridentes e a tremer da cabea aos
ps. Nesse mesmo dia, Jango, Zeca e Edu saram armados de cacetes e
bodoques, a dar caa aos ratos do poro. Foi um verdadeiro  massacre.
  315
  Rodrigo entregava aos poucos sua clnica particular a Dante Camerino.
Agora s atendia - e com muito pouco entusiasmo - um que outro cliente
amigo. Dividia seu tempo  entre um cio quase inteligente e suas
apreenses e expectativas ante a situao poltica. Costumava dizer que,
quanto  peste, s o preocupava o Rato positivista.
  Uma tarde o Cuca Lopes apareceu esbaforido na farmcia e contou:
  - Credo, menino! Sabem da ltima? Descobriram mais trs casos de
bubnica na Sibria!
  Rodrigo enfureceu-se:
  - H mais de um ms os deputados da oposio pediram  Assembleia que
votasse uma verba especial de mil contos para combater a bubnica, mas
at hoje nada ficou  resolvido. No entanto, essa mesma Assemblia
aprovou o emprego de mil contos na defesa da ordem no Estado. - Abriu os
braos, ante o olhar entre espantado e admirativo  de Gabriel. - Defesa
contra quem? Esses chimangos esto vendo fantasmas!
  Naquele mesmo dia, porm, Chiru veio ao Sobrado para contar que tropas
revolucionrias, sob o comando do general Mena Barreto, ameaavam a
cidade de Passo Fundo.
  - No diga! - exclamou Rodrigo. E consultou o pai com um olhar cheio de
sugestes belicosas.
  Licurgo cuspiu na escarradeira, tirou uma tragada do seu crioulo e, com
os olhos entrecerrados, disse:
  - Se isso  verdade, nossos companheiros se precipitaram. Uma revoluo
no se faz assim desse jeito.  preciso organizar tudo direito para a
gente poder ir at  o fim.  indispensvel que haja levantes ao mesmo
tempo em todo o Estado.
  No dia seguinte Rodrigo reuniu na casa de Juquinha Macedo os principais
chefes assisistas de Santa F para discutir com eles a situao. Todos
achavam que a revoluo  era inevitvel, questo de dias ou talvez de
horas.
  Rodrigo cruzou os braos:
  Mas
  e ns
  316
  - A minha opinio - disse o dono da casa -  que devemos nos preparar e
entrar na dana o mais cedo possvel.
  Alvarino Amaral sacudiu a cabea lentamente, concordando.
  - Recebi hoje uma carta do Artur Caetano - contou - dizendo que ele vai
telegrafar ao dr. Artur Bernardes comunicando o incio da revoluo.
  Cacique Fagundes apalpou instintivamente o cabo do revlver.
  Rodrigo sentiu-se picado pelo despeito. Por que Artur Caetano no havia
escrito tambm a ele, Rodrigo, ou ao velho Licurgo? Por que os deixava
no escuro? A coisa  assim comeava mal...
  Olhou para o pai:
  - Qual  a sua opinio? - perguntou. Licurgo olhava para o bico das
botinas.
  - Eu acho - disse - que no devemos nos precipitar.
  - Mas, papai - replicou Rodrigo -, companheiros nossos j esto em
armas, no podemos deix-los sozinhos. Tive notcia hoje de que o
general Firmino de Paula est  organizando em Santa Brbara um Corpo
Provisrio de mil e quinhentos homens para marchar contra as foras do
general Mena Barreto.
  Licurgo sacudia a cabea, obstinado.
  - Se querem a minha opinio,  essa. Devemos nos preparar mas s entrar
na revoluo quando a coisa estiver madura.
  - Madura? - repetiu Rodrigo, mal contendo a impacincia. - Est caindo
de podre!
  Licurgo ergueu o olhar para o filho.
  - O senhor se esquece -- disse - que a Assembleia ainda no se
manifestou sobre o resultado das eleies. O direito  esperar. A gente
nunca sabe.
  Rodrigo fez um gesto de desalento e sentou-se, caindo num mutismo
ressentido. Os outros se retiraram pouco depois, sem chegarem a nenhum
resultado positivo.
  Aquela noite Rodrigo sonhou que estava num combate, fazia frente a um
peloto da Brigada Militar armado de metralhadoras, enquanto ele tinha
na mo apenas a pistolinha  de espoleta de cano flcido. Apertava aflito
no gatilho mas a arma negava fogo. Na sua
  317
  impotncia ele gritava: "Venham, covardes!" As balas zuniam ao redor da
sua cabea. De repente ele era So Jorge, montado num cavalo branco, com
uma lana de guajuvira  em punho. Ia matar o drago que ameaava devorar
uma princesa que gritava, gritava...
  Foi despertado por um grito. Flora acordou tambm num sobressalto: " a
Alicinha!" Levantaram-se ambos, correram para o quarto da filha,
acenderam a luz e a encontraram  de p, na cama, com uma expresso de
pavor no rosto plido, os olhos exorbitados, o corpinho todo trmulo.
  - Minha querida! - exclamou Flora, abraando a menina e erguendo-a nos
braos. - Que foi? Que foi?
  Quando pde falar, a menina contou que tinha visto um rato enorme a um
canto do quarto - um negro rato de olhos de fogo que tinha vindo para
lev-la para o cemitrio.  Flora ergueu os olhos para o marido e
murmurou:
  - Teve um pesadelo.
  Rodrigo franziu o sobrolho, lembrando-se de seu prprio sonho. Era
curioso como ambos se completavam. O drago que ele ia matar era o rato
do pesadelo da filha...  a princesinha. Fosse como fosse, ele e Flora
haviam chegado a tempo de livr-la do perigo. Enternecido, ps-se a
acariciar os cabelos da criana, que ainda soluava.  Depois tomou-a nos
braos e levou-a para sua prpria cama, colocando-a entre ele e Flora.
  - No apaguem a luz - choramingou Alicinha.
  - Est bem, minha princesa - disse ele, beijando-lhe a testa. Pouco
depois a criaturinha adormeceu com os braos ao redor de seu pescoo.
  No dia seguinte Rodrigo e Flora foram despertados por Edu, que entrou no
quarto, no seu macaco azul, contando uma proeza:
  - Matei dez ratos.
  Rodrigo soergueu-se, fez o filho sentar-se na cama e, ainda com os olhos
pesados de sono, perguntou:
  - Como?
  - Com o meu canho.
  - Onde esto os ratos mortos?
  318
  Por um instante Edu no respondeu. Uma sombra passou-lhe pelos grandes
olhos castanhos.
  - O gato comeu.
  - Que gato?
  No havia nenhum gato ou cachorro no Sobrado, pois Maria Valria no
suportava animais domsticos.
  - O gato grande, mais grande que um cavalo. Estava na minha cama, me
olhando...
  Flora e Rodrigo entreolharam-se. Edu tambm tivera seu pesadelo.
  Torbio continuava no Angico. Rodrigo escreveu-lhe um bilhete pondo-o ao
corrente dos ltimos acontecimentos. Terminou com estas palavras:
  Acho que agora devemos comear os preparativos a srio. Tenho pensado
muito no teu plano. Ontem visitei a sede do Tiro de Guerra, onde contei
cem fuzis Mauser com  as respectivas baionetas e vrias caixas com
pentes de balas. Podemos dar uma batida l, uma noite, e "requisitar"
esse material. Estou pensando tambm em ir a Porto  Alegre me avistar
com os prceres assisistas e discutir com eles a possibilidade de criar
uma coluna revolucionria em Santa F.
  Nesse mesmo dia Stein apareceu no Sobrado com a notcia de que tropas
francesas e belgas tinham invadido o Ruhr.
  - Que me importa? - vociferou Rodrigo. - Estamos com a nossa revoluo
praticamente iniciada e tu me vens com o Ruhr! Que  que tens na cabea,
rapaz? Miolos ou  trampa?
  Como Stein ficasse vermelho e desconcertado, Rodrigo arrependeu-se de
imediato da sua agressividade.
  - Me desculpa, mas  que ando danado com a situao. Contou-lhe os
ltimos acontecimentos. Revolucionrios e legalistas haviam j tido um
encontro armado na divisa  de Passo
  319
  Fundo com Guapor. Esperava-se para qualquer momento o levante de Leonel
Rocha e sua gente na Palmeira. Outros chefes assisistas reuniam foras
na fronteira. No  entanto os oposicionistas de Santa F no faziam nada,
estavam de braos cruzados. No era mesmo para deixar um cristo
desesperado?
  Stein, porm, no parecia muito impressionado pelas notcias. Repetiu a
Rodrigo o que havia dito a Roque Bandeira aquela manh. No olhava os
acontecimentos polticos  dum ngulo apenas nacional e muito menos
estadual. Distinguia entre as revolues com erre minsculo e a grande
Revoluo com erre maisculo. O comunismo era a Revoluo  Universal. A
invaso do Ruhr no passava de mais um arreganho dos capitalistas, dos
trustes e dos cartis, que estavam assim cavando a prpria runa e
preparando  o caminho para a sociedade socialista do futuro.
  Rodrigo de novo perdeu a pacincia. Segurou os ombros do rapaz com ambas
as mos e sacudiu-o, num simulacro de violncia.
  - Est bem! - exclamou - Mas esta revoluozinha estadual, queiras ou
no queiras, vai saltar na tua cara. E no poders ficar indiferente.
  Nos dias que se seguiram, as notcias que chegavam de vrias partes do
Estado eram de tal natureza, que Rodrigo no se pde mais conter:
embarcou para Porto Alegre.
  Voltou para Santa F exatamente no dia em que a Comisso de Constituio
e Poderes da Assemblia proclamava o resultado de seus trabalhos de
apurao, dando a Borges  de Medeiros a maioria de votos necessria 
sua reeleio.
  E quando entrou no Sobrado, modo de cansao e sujo ainda da poeira da
viagem - foguetes explodiam na praa, por cima da cpula da Intendncia.
Madruga, decerto,  festejava a vitria de seu partido. Pessoas corriam
de todos os lados para o palcio municipal, a fim de lerem as notcias.
  - Um banho! - gritou Rodrigo depois de dar um beijo rpido na face de
Flora. - Antes de mais nada, um banho! Estou sujo por fora e por dentro.
Que misria! Que subservincia!  S a
  320
  revoluo pode salvar o Rio Grande duma completa degringolada moral!
  Correu para o chuveiro.
   noite reuniu em casa os companheiros de campanha e contou-lhes o que
tinha visto e ouvido na semana que passara em Potto Alegre.
  - O que lhes vou contar - disse, de p no meio do escritrio, passeando
o olhar em torno - no so boatos, mas verdades, dolorosas, vergonhosas
verdades.
  O coronel Cacique sacudiu a cabea lentamente. Licurgo pitava sem
encarar o filho. Juquinha Macedo, o olhar focado no amigo, procurava um
pedao de fumo em rama  nos bolsos do casaco.
  - Prestem bem ateno - Rodrigo fez uma pausa teatral, respirou fundo e
depois continuou: - Faz j algum tempo que a Comisso de Poderes chegou
 concluso de que  o dr. Borges de Medeiros no tinha obtido os trs
quartos da votao total que precisava para ser reeleito... O difcil
era dar a notcia ao ditador. Os trs membros  da comisso um dia
encheram-se de coragem e, com o dr. Getlio Vargas  frente, foram ao
Palcio do Governo para contar a triste histria ao chefe. - De novo
Rodrigo  se calou, cruzou os braos, olhou em torno. - E sabem que foi
que aconteceu? Escutem e tremam. Quando a trinca entrou na sala, de cara
fechada, o dr. Medeiros veio  sorridente ao encontro deles e, antes que
os seus moos tivessem tempo de dizer "Bom dia, Excelncia",
adiantou-se: "J sei! Vieram me felicitar pela minha reeleio".
Tableaul Os deputados se entreolharam, se acovardaram e viram que no
havia outro remdio seno representar tambm a farsa. Voltaram para a
Assemblia com o rabo  entre as pernas, fecharam-se a sete chaves e
trataram de fazer a alquimia de costume para no decepcionar o strapa.
  - Mas isso  uma barbaridade! - exclamou o coronel Cacique, com sua voz
de china velha.
  Licurgo continuava silencioso, os olhos no cho, o cigarro agora apagado
entre os dentes grados e amarelentos.
  321
  - Mas como foi que eles arranjaram essa tramia? - indagou Juquinha
Macedo.
  - Muito simples - respondeu Rodrigo. - Violaram as atas recebidas dos
municpios, falsificaram outras de acordo com os interesses de seu
candidato, anularam as eleies  em mesas onde o dr. Assis Brasil
venceu... Contaram a favor do Borges os votos de defuntos e ausentes,
em suma, fizeram conta de chegar. Para resumir: roubaram  seis mil e
trezentos e tantos votos ao nosso candidato!
  Sentou-se pesadamente numa poltrona e ficou a olhar para o retrato do
dr. Jlio de Castilhos, com uma expresso de censura e rancor, como se o
Patriarca fosse o  responsvel direto por toda aquela vergonheira.
  - E que fizeram os representantes do dr. Assis Brasil? - perguntou
Juquinha Macedo.
  - Ora! A comisso no permitiu a entrada deles na sala onde se fazia a
apurao, sob o pretexto cretino de que o regimento da Assemblia 
omisso a esse respeito.  Vejam s a safadeza. Todo o mundo sabe que h
uma disposio na lei eleitoral que admite a interveno de fiscais de
qualquer candidato, tanto nas mesas eleitorais  como nas apuraes
gerais.
  Licurgo pigarreou forte e depois disse:
  - Eu no esperava que o dr. Getlio se prestasse a essa indignidade.
  Rodrigo desferiu uma palmada na guarda da poltrona.
  - Ora o dr. Getlio! O que ele quer  fazer a sua carreira poltica na
maciota. Vai ser agora deputado federal.
  Houve uma longa pausa na conversa. O ar azulava da fumaa dos cigarres
de palha dos trs chefes polticos.
  - Bom - disse o coronel Cacique, quebrando o silncio - a revoluo est
na rua. Agora eu queria saber que  que vamos fazer...
  Juquinha Macedo voltou-se para Licurgo, como para lhe pedir um
pronunciamento. Rodrigo aproximou-se da janela, ergueu a vidraa e ficou
um instante a olhar para  o edifcio da Intendncia, l do outro lado da
praa. Foi dali que ouviu a voz cautelosa do pai.
  322
  - No estou contra a revoluo, muito pelo contrrio. O que no me
agrada  a precipitao. No sou homem de ir hoje para a coxilha e
amanh emigrar para o Uruguai  ou pedir garantias de vida ao Exrcito
nacional. Se eu entrar nessa briga  para ir at o fim.
  Por alguns instantes ningum disse nada. Rodrigo voltou-se, com gana de
sacudir o pai e faz-lo compreender a realidade.
  - Ns todos queremos ir at o fim, coronel - disse Juquinha Macedo. - Eu
me comprometo a reunir uns duzentos caboclos aguerridos em quinze dias.
Se o coronel Amaral  estivesse aqui, garanto como ele dizia que tem
perto de duzentos e cinqenta homens esperando suas ordens.
  O coronel Cacique sorriu.
  - Pois eu, companheiros, acho que no levo mais que uns vinte e cinco.
Mas so vinte e cinco garantidos, ndios de plo duro, gente buenacha
que briga dez dias sem  beber gua.
  Rodrigo sentou-se, mais animado. E exagerou:
  - O Bio afirma que conseguimos uns cem homens no Angico e arredores.
  Licurgo atirou o toco de cigarro na escarradeira.
  - E o armamento? - perguntou, como para lanar um jato de gua fria no
entusiasmo do filho.
  - Cada qual briga com o que tem - observou o coronel Cacique. - A minha
indiada peleia at de faco.
  Notando que o pai no havia gostado da bravata, Rodrigo interveio:
  - Escutem - disse em voz baixa. - Vou confiar-lhes um plano que eu e o
Torbio temos para conseguir fuzis Mauser com baionetas e munies... de
graa. Mas  preciso  que ningum saiba disso. Confio na mais absoluta
discrio de meus amigos.
  Licurgo mirava o filho com olho cptico.
  - Quando chegar a hora oportuna, assaltamos a sede do Tiro de Guerra...
  Rodrigo olhou para os interlocutores para ver o efeito de seu
estratagema e notou que este havia sido recebido com indiferena.
Juquinha Macedo remexeu-se na cadeira.
  323
  - O amigo no leu o jornal de hoje? - perguntou.
  - No. Por qu?
  - O comandante da guarnio federal mandou tirar todos os ferrolhos das
Mausers do Tiro...
  Rodrigo ps-se de p, brusco.
  - Cachorros! - exclamou. - L se foi o nosso arsenal!
  O coronel Cacique desatou a rir de mansinho. E naquele exato instante
ouviu-se um silvo, seguido dum estrondo. E veio outra e mais outra
detonao. As vidraas do  Sobrado tremeram. Rodrigo correu para a
janela.
  - O Madruga est se fogueteando de novo - informou. - Deve ser mais
algum telegrama mentiroso que chegou. Vou ver o que .
  Apanhou o revlver que estava na gaveta da escrivaninha e meteu-o no
bolso. Quando ia sair, o pai o deteve.
  - No admito que o senhor saia.
  - Mas papai! S quero ver o que diz esse telegrama... O velho encarou-o,
carrancudo.
  - Ento o senhor no compreende que eles esto esperando um pretexto pra
nos liquidar? Se o senhor vai at l eles comeam com dichotes, o senhor
se esquenta, retruca,  eles l ofendem e o senhor puxa o revlver e os
bandidos l matam e depois alegam que foram provocados. Ento no est
vendo?
  Juquinha Macedo segurou no brao de Rodrigo e murmurou:
  - Seu pai tem razo. ~ -- - "
  Rodrigo sentou-se, desalentado, e no pde conter seu despeito.
  - Que bosta! - exclamou
  Era a primeira vez em toda a sua vida que soltava um palavro na
presena do pai.
  Em fins de janeiro Flora foi com os filhos para o Angico, em companhia
do sogro, o qual, depois de grande relutncia, concordou em levar tambm
o dr. Ruas, para  cuja palidez o dr. Carbone
  324
  recomendara os ares e o sol do campo. Maria Valria ficou na cidade,
visto como no queria abandonar Rodrigo nem o Sobrado. Prosseguindo na
sua guerra sem quartel  aos ratos, metia-se no poro, vasculhava
frestas, cantos e buracos, deixando por toda a parte o seu sinistro
rasto de trigo roxo. Semeava tambm por todas as peas  p de mosquito
para matar as pulgas transmissoras da peste. E nos jornais, que vinham
cheios de notcias alarmantes sobre movimentos de tropas no Estado, ela
se  interessava apenas pelas que se referiam a novos casos de bubnica.
  Quando uma tardinha Rodrigo voltou para casa, a velha, que no havia
posto olhos nele desde manh, perguntou:
  - U? Por onde andou?
  - Por a. E a senhora como passou o dia?
  - Matando ratos...
  - Pois eu ando tambm na minha campanha contra a ratazana borgista.
Infelizmente pra esses bichos  preciso mais que trigo roxo e p de
mosquito. Armas, muitas armas  e munio  o que necessitamos.
  - Ento a coisa sai mesmo?
  - Se sai? J saiu! No viu os jornais? O Chimango tomou posse hoje.
Houve outro levante, em Carazinho. O dr. Artur Caetano telegrafou ao
presidente da Repblica  comunicando-lhe a deflagrao do movimento
revolucionrio.
  Atirou o casaco em cima duma cadeira, afrouxou o colarinho, gritou para
Leocdia que lhe trouxesse uma limonada gelada.
  - E vocs vo se meter?
  - J estamos metidos.
  Maria Valria nada disse. Pouco depois mandou servir o jantar. Rodrigo
comeu num silncio sombrio. Ela o mirava de quando em quando com o rabo
dos olhos, tambm  calada.
  - Estou preocupado com Flora - murmurou ele, brincando com uma bolota de
miolo de po. - Anda nervosa, com crises de choro...
  - No  pra menos...
  - Mas ela tem de compreender, Dinda! -- Compreender o qu?
  325
  - Que a vida  assim mesmo.
  - Assim como?
  - De tempos em tempos os homens vo para a guerra e as mulheres no tm
outro remdio seno esperar com pacincia. A senhora sabe disso melhor
que eu.
  - Mas por que tem de ser assim?
  - Porque  uma lei da vida.
  - Foram os homens que fizeram essa lei. No nos consultaram. Eu pelo
menos no fui ouvida nem cheirada.
  - Quando nasci essa lei j existia. No me culpe.
  As janelas da sala de jantar estavam escancaradas e por elas entrava uma
luz alaranjada, que envolvia a cabea da velha. Tinha um rosto longo e
descarnado, de pmulos  levemente salientes, a pele dum moreno terroso e
meio ressequido. O curioso era que s vezes essa cabea dava a impresso
de ter apenas duas dimenses. .Rodrigo  brincava com a absurda mas
divertida idia de que a tia tinha sido "pintada" por Modigliani, o
artista que agora tanto furor causava em Paris. Maria Valria parecia
mesmo uma pintura, ali imvel  cabeceira da mesa. Havia em seu rosto
uma expresso de serena mas irresistvel energia, difcil de localizar.
Estaria nos olhos escuros  e grados, levemente exorbhados? Ou no nariz
agressivamente agudo e comprido? No. DeVia estar no desenho decidido da
boca rasgada e pouco afeita ao sorriso. E tambm  na voz seca e
autoritria, que dispensava o auxlio de gestos. 
  Desde menino ele se habituara a ver em sua madrinha um smbolo das
coisas indestrutveis e indispensveis. Ela era a Vestida de Preto. A
que nunca adoece. A que  tem boas mos para fazer doces, bolos e
queijos. A que continua de p, ativa e til, quando a doena denuba os
outros membros da famlia. E pensando nessas coisas  Rodrigo esqueceu
por alguns segundos suas preocupaes e sorriu com ternura para a velha.
Mas o sorriso e a ternura duraram apenas alguns segundos. De novo ele
foi  tomado pela agitao que o dominara o dia inteiio.
  - Pare de sacudir a perna! - ordenou Maria Valria. - Voc est com o
bicho-carpinteiro no corpo. Que foi que houve?
  326
  - Ora! Estamos em fins de janeiro e ainda no fomos para a coxilha. O
coronel Amaral e o Macedinho esto reunindo gente nas suas estncias.
Mas o papai continua  remanchando...
  - Seu pai sabe o que faz.
  - Na minha opinio ele no passa dum teimoso.
  - No diga isso, menino!
  -  que no tenho mais cara pra andar na rua. Todo o mundo me olha
atravessado. Faz trs semanas que no tenho coragem de entrar no clube.
Estou vendo a hora em  que vo me atirar na cara a pecha de covarde.
Devamos estar j na campanha, de armas na mo.  uma vergonha, uma
traio aos companheiros. O Madruga j comeou  a organizar o seu Corpo
Provisrio. Vivem fazendo exerccios a na praa, nas minhas ventas, me
provocando. No agento mais!
  Calaram-se durante o tempo em que Leocdia esteve na sala retirando os
pratos. Quando a negrinha voltou para a cozinha, Maria Valria
perguntou:
  - Por que  que no vai pr Angico com os outros? Rodrigo hesitou um
instante antes de revelar a razo por que
  ficara na cidade.
  - Tenho uma misso muito importante a cumprir aqui - disse em voz baixa,
olhando para os lados. - Estou comprando todo o armamento que posso. O
Veiga da Casa Sol  simpatiza com a nossa causa mas morre de medo do
Madruga. Foi um caro custo convencer esse covarde a me vender as armas
que tem na loja: cinco Winchesters, trs  espingardas de caa, duas
espadas, uns faces e trinta caixas de balas. O homem estava plido de
medo quando fizemos a transao.
  Inclinando-se na direo da tia e baixando ainda mais a voz,
acrescentou:
  - Hoje de noite vou de automvel com o Neco e o Bento buscar esse
armamento.
  Maria Valria no pareceu muito impressionada pela revelao.
  - Tome cuidado - disse ela em tom natural. - Podem l armar uma cilada.
  327
  Rodrigo contemplava o rosto impassvel da tia. As choradeiras de Flora
por um lado o impacientavam um pouco mas por outro o lisonjeavam muito.
Era bom a gente sentir-se  alvo de cuidados, querido, necessrio. Mas a
atitude indiferente da tia comeava a exasper-lo. A idia de que ele
sempre fora "o mimoso da Dinda" lhe era agradvel,  embora os mimos
daquela mulher spera e prtica jamais se revelassem em palavras ou
gestos.
  - E a senhora? - perguntou ele. - Tem muito medo da revoluo?
  A velha encolheu os ombros ossudos.
  - Que  que ela pode me fazer? Era uma resposta egosta.
  - Mas no tem medo do que possa acontecer... a mim, ao Bio, ao papai?
  - Que  que adianta ter medo? Vocs vo porque querem, porque acham que
devem ir. E o futuro a Deus pertence.
  Rodrigo amassou o guardanapo na mo nervosa. - Palavra de honra, Dinda,
cada vez compreendo menos a senhora!
  Ela voltou a cabea para um lado e gritou:
  - Leocdia, traga a ambrosia!
  Rodrigo comeu a sobremesa, apressado e desatento. Ergueu-se, mastigando
freneticamente um palito, acendeu um cigarro e por alguns instantes
ficou a cafninhar na  sala de visitas, dum lado para outro, parando de
instante a instante na frente do prprio retrato.
  Por volta das oito horas Dante Camerino e Cario Carbone entraram no
Sobrado, com ar um tanto solene, convidaram Rodrigo a ir com eles para o
escritrio e, uma vez  l dentro, fecharam a porta.
  - Que segredo  esse?
  Os recm-chegados entreolharam-se.
  328
  - Ns viemos nos apresentar... - disse Camerino, um pouco
desajeitadamente.
  - Pra quem? Pra qu?
  - Sabemos que esto organizando uma coluna revolucionria e queremos nos
incorporar, como mdicos...
  Carbone permanecia em silncio, mas a cada frase de Camerino ele sacudia
afirmativamente a cabea de gnomo. Rodrigo olhou de um para outro e
depois disse:
  - Agradeo o oferecimento, mas no o aceito. Dante, no te
  metas nessa encrenca...
  - Mas doutor, aonde o senhor for eu tambm quero ir...
  - Est bem, est bem. Mas fica na cidade, mal ests comeando a tua vida
profissional. Deixa essa coisa de revoluo para quem j est metido at
os gorgomilos,  como eu.
  Voltou-se para Carbone, que estava j perfilado como um soldado.
  - Dr. Carbone, o senhor nem cidado brasileiro ... Por que vai comprar
briga?
  O italiano levou a mo ao peito num gesto opertico.
  - Carino - murmurou com doura musical -, a ptria dum mdico  a
humanidade. E, depois, no dimenticar o caso de Giuseppe Garibaldi!
  Rodrigo no pde reprimir um sorriso. Abraou o homenzinho e f-lo
sentar-se.
  - Senta-te tu tambm, Dante. Agora me escutem os dois. No pensem que
sou ingrato, que no compreendo o gesto de vocs. Longe disso!
Compreendo e agradeo do fundo  do corao. Mas prestem ateno ao que
vou dizer. J temos dois mdicos na nossa coluna.  certo, certssimo
que vamos ter de instalar uma cruz vermelha revolucionria  em Santa F,
e nesse caso vocs seriam as pessoas indicadas para dirigi-la.
  Carbone cofiava a barba castanha. Dante parecia comovido. Rodrigo
segurou-lhe o brao, paternalmente.
  - E depois, c para ns, que ningum mais nos oua, no vai ficar nenhum
homem no Sobrado e eu tenho um favor especial a pedir a vocs dois, meus
queridos amigos...
  329
  
  Neste ponto sua voz como que se quebrou e ele quase desatou o pranto.
  - Quero que na minha ausncia vocs protejam as mulheres e as crianas
desta casa.
  Neste ponto quem j tinha os olhos cintilantes de lgrimas era o
italiano, que jurava per Ia Madonna que, se necessrio, sacrificaria a
prpria vida para defender  as damas do Sobrado e os bambini.
  Alguns minutos mais tarde Neco e Chiru entraram no casaro com ar de
conspiradores.
  - Estamos sendo seguidos - murmurou Chiru, meio ofegante.
  - Por quem?
  - Por um capanga do Madruga.
  - Patife!
  - Entramos na Penso Veneza e o bicho entrou tambm. Nos sentamos e
pedimos uma cerveja, vieram umas mulheres pra nossa mesa e o bandido no
tirava os olhos de cima  de ns. Eu quis me levantar e perguntar "Nunca
me viu, moo?", mas o Neco achou melhor no puxar briga. Samos e viemos
pra c, e o canalha nos seguiu. Decerto est  ainda l fora...
  Rodrigo aproximou-se da janela e viu o vulto dum homem, debaixo duma
rvore: de quando em quando se acendia a brasa do cigarro. Viu e ouviu
algo mais: uma banda  de msica rompeu a tocar um dobrado na frente da
Intendncia, cujas janelas,estavam festivamente iluminadas. Em seguida
foguetes comearam a atroar
  os ares.
  - O cachorro do Madruga-est festejando a posse do Chimango - rosnou
Neco. - Me d alguma cisa forte para beber.
  Rodrigo deu-lhe um clice de parati. Chiru, que suava abundantemente,
tirou o casaco e pediu uma garrafa de cerveja, levou-a avidamente  boca
e ficou a mamar no  gargalo, com uma fria de terneiro faminto.
  Chamando Rodrigo para um canto, Neco murmurou:
  - E o negcio das armas? Rodrigo olhou o relgio.
  - Samos s nove. Faltam quarenta minutos. Esse barulho na frente da
Intendncia  providencial. O que temos de fazer agora  despistar o
bandido que est seguindo  vocs...
  Chiru aproximou-se, perguntando:
  - Qual  o plano?
  - O Veiga hoje ao anoitecer passou todo o armamento para a casa do
vizinho, que  um companheiro nosso - explicou Rodrigo. - O vizinho deve
ter levado todo o material  para um galpo, nos fundos da casa.  l que
vamos buscar o armamento, no Ford.
  - No  arriscado? - perguntou Chiru. Rodrigo deu de ombros.
  - Daqui por diante, cada passo que dermos ser um risco cada vez maior.
Portanto, o melhor  a gente no pensar nisso.
  Do clice de Neco Rosa evolava-se a fragrncia das Lgrimas de Santo
Antnio.
  Rodrigo resolveu tomar tambm um trago. Depois disse:
  - Para despistar a "sombra" de vocs, que est ali na praa, Chiru, tu
sais daqui naturalmente com o Carbone e o Dante, atravessas a praa como
quem vai olhar a  festa do Madruga... Mas tira esse leno do pescoo,
seno eles te lincham. Ests compreendendo? Ora, o capanga te enxerga,
te segue e ns aproveitamos a oportunidade  e samos pelos fundos. O
Bento est com o auto pronto no quintal. Capisce?
  s nove menos dez, abraou a tia.
  - Eu j volto, Dinda! - disse, pondo o revlver na cintura.
  - V com Deus e a Virgem - disse a velha.
  Neco seguiu o amigo. Carbone, Camerino e Chiru desceram para a rua.
  Maria Valria ficou parada onde estava, no centro da sala, os braos
cruzados sobre o peito.
  A operao foi levada a cabo com sucesso, e naquela mesma noite Bento
conduziu as armas para o Angico. No dia seguinte
  330
  331
  Rodrigo abriu avidamente os jornais de Porto Alegre chegados no trem do
meio-dia. O Correio do Povo trazia notcias do levante de Passo Fundo e
Palmeira. Rodrigo  abriu A Federao e foi direito ao editorial. Poucos
minutos depois amassava o jornal, num acesso de clera, precipitava-se
para a cozinha e, sob o olhar neutro  de Laurinda, atochava-o na boca do
fogo aceso. Hipcritas! Farsantes! O Rio Grande estava convulsionado,
dois mil revolucionrios cercavam Passo Fundo, Leonel Rocha  marchava
sobre Palmeira, levantavam-se assisistas em armas em vrios setores do
Estado e l estava o dr. Topsius com seus pedantes editoriais, tentando
tapar o sol  com uma peneira, fingindo que nada daquilo estava
acontecendo ou, se estava, no tinha a menor importncia! Por que era
ento que o governo estadual organizava os  seus Corpos Provisrios? Por
que usava o maneador para recrutar seus "voluntrios"? Ali no municpio
de Santa F o pnico j comeara. Claro, alm dos republicanos
convictos, havia muito vagabundo que se alistava espontaneamente para
poder comer carne e receber um soldozinho. A maioria, porm, fugia
espavorida. Alguns se refugiavam  nos quartis da guarnio federal. E,
por falar em guarnio federal, por que era que o coronel Barbalho no
punha fim quele abuso? Era um fraco. Encastelava-se  dentro do crculo
de giz de sua famosa neutralidade - que no podia durar - e permitia que
o Madruga ficasse senhor da cidade, invadindo domiclios para pegar e
espancar os insubmissos. Contava-se que nos distritos os recrutas eram
laados como animais e trazidos em caminhes para a sede do municpio,
de ps e mos amarrados.  A praa da Matriz agora estava insuportvel,
porque os "provisrios" passavam o dia a fazer exerccios militares. O
ar se enchia do som marcial de cornetas, do rufar  de tambores, e dos
berros dos instrutores. Rodrigo no podia olhar, sem sentir engulhos,
para os soldados borgistas, principalmente para os oficiais do Corpo
Provisrio  de Santa F. Estes ltimos andavam metidos nos seus
uniformes de zuarte, com chapus de abas largas e planas. Rodrigo vira
Amimas Camacho "fantasiado" de capito,  conTtalabarte de couro preto,
uma pistola Nagant dum lado da cinta e um espadago do outro. Tivera
mpetos de precipitar-se em cima dele e encher-lhe a cara de bofetadas.
A maioria dos soldados, porm,
  332
  oferecia um aspecto ridculo, com seus uniformes malcortados. E quase
todos andavam descalos, motivo por que esses corpos comearam a ser
conhecidos como "os ps-no-cho".
  Uma tarde Rodrigo encontrou, sentado melancolicamente num dos bancos da
praa, todo apertado num fardamento de "provisrio", o Adauto, um
caboclo que havia anos  fora peo do Angico. Ao ver o antigo patro, o
cabra ergueu-se, perfilou-se e fez uma continncia. Era um homenzarro
alto e espadado, de cara larga e quadrada,  marcada de bexigas. Tinha,
porm, uma voz macia e era "linguinha". Rodrigo mirou-o de alto a baixo.
O uniforme que o Adauto vestia havia sido evidentemente feito  para um
homem de menor estatura. O casaco mal podia ser abotoado, era curtssimo
e deixava meio palmo de barriga  mostra. Suas pernas, musculosas,
negras de plos,  mal entravam na parte inferior do culote, que ele
usava sem perneiras. E seus ps pardos, fortes e nodosos como razes,
espalhavam-se na calada.
  - Adauto! - exclamou Rodrigo num tom de censura. - Que negcio  esse?
Como  que um maragato como voc virou chimango?
  O caboclo piscou, embaraado, baixou a mo e comeou a brincar com a
ponta do dlm.
  - Pois , doutor - disse, ceceando. - So dessas coisas...
  - Por que no fugiste? Podias te refugiar no Angico... Adauto sorriu
deprecativamente, mostrando os dentes midos
  e limosos.
  - Me pegaram de sorpresa...
  - Tamanho homem!
  O caboclo soltou um suspiro fundo e sentido, que lhe sacudiu os ombros.
Baixou o olhar para o uniforme e murmurou:
  - Puxa Ia vestementa triste!
  Rodrigo no pde deixar de sorrir. Meneou a cabea e continuou seu
caminho. Se os soldados do Madruga forem todos da fora do Adauto -
refletiu -, o governo est  frito.
  Naquele mesmo dia embarcou para o Angico e o que l viu lhe confortou o
corao. Havia por todos os lados uma verdadeira atividade guerreira.
Muitos homens estavam  j reunidos na estncia,
  333
  outros chegavam diariamente, sozinhos ou aos grupos, e por ali ficavam a
azeitar seus revlveres e espingardas, a afiar suas adagas e espadas, a
comparar e discutir  armas e cavalos uns com os outros, numa alegre
camaradagem que Rodrigo achou auspiciosa.
  Notou por toda a parte, entre aqueles homens, um ar de alegria, como se
estivessem reunidos para uma festa. Observou, porm, que o pai andava
num estado de esprito  em que a tristeza se alternava com a irritao.
  - Que  que ele tem? - perguntou um dia ao irmo, quando estavam ambos
sentados debaixo dum pessegueiro.
  Torbio sorriu:
  - No sabes ento? Toda essa gente a carnear nossas reses, a montar nos
nossos cavalos...
  Rodrigo sacudiu a cabea lentamente. Sabia que o pai era um homem
sbrio, dotado dum senso de economia que no raro tocava as fronteiras
da sovinice.
  - Eu compreendo, deve ser duro pra ele. Mas acontece que a revoluo 
assim mesmo...
  Torbio tinha na boca um caroo de pssego, que passava duma bochecha
para outra, chupando os fiapos de polpa que restavam nele.
  - Mas quem te disse que o Velho quer ir para a revoluo junto com os
maragatos?
  - Tu achas...
  - Est claro, homem. Outra coisa. A Ismlia Car est no Angico, no
rancho dela. O papai deve andar louco de medo que algum desses caboclos
lhe falte com o respeito.
  - Tenho tentado entrar no assunto revoluo com o Velho, mas ele foge...
Nem me olha direito.
  Licurgo Cambar andava mesmo arredio de tudo e de todos. Com seus
familiares falava apenas o necessrio. Quanto aos outros, era como se
no existissem.
  Maria Valria, que viera tambm para o Angico, examinava com seu olho
crtico os revolucionrios, aos quais charhava "gafanhotos", pois achava
que a coisa estava  tomando carter
  334
  No havia dia em que no chegasse um novo magote deles. E como vinham
loucos de fome! Carneava-se uma rs dia sim, dia no. E a erva-mate que
existia no Angico tinha  j acabado.
  Uma tarde apareceu um voluntrio montado num petio manco. Era um
homenzinho da Soledade, magro, murcho e plido, mas com um flamante
leno vermelho ao pescoo.  Ao v-lo Maria Valria murmurou para Flora:
  - Credo! Que cristo minguado! Parece abobrinha verde que a geada
matou...
  Flora nada disse, nem ao menos sorriu. Como podia ter sequer um momento
de paz ou alegria em meio de todos aqueles preparativos de guerra?
Inquietava-se de ver as  crianas ali to perto daqueles homens que no
escolhiam assunto, palavras ou gestos. Um dia estremeceu ao interceptar
o olhar lbrico que um caboclo mal-encarado  lanou para Alicinha. Desse
momento em diante redobrou a vigilncia sobre os filhos. Estes,
entretanto, pareciam felizes no meio daquela balbrdia. Jango e Edu
ostentavam  seus lenos colorados, andavam de bombachas, com pistolas na
cintura e passavam as horas "brincando de revoluo". Alicinha contava
j com toda uma corte de admiradoras  entre as chinoquinhas de sua
idade, filhas de posteiros e agregados, que a miravam com olhos de
apaixonada admirao, considerando o maior dos privilgios tocar  a
fmbria de seu vestido ou simplesmente "bombear" a boneca que sabia
falar. Quanto a Floriano, saa em seus passeios solitrios pelo campo,
vagamente assustado  ante a gente faanhuda que a cada passo encontrava.
Uma tarde em que fora a um dos capes para olhar os bugios e fazer de
conta que andava caando numa floresta  africana (era o Heri de Quinze
Anos, de Jlio Verne) viu algo que o deixou estarrecido. Um dos
revolucionrios estava deitado em cima duma mulher na qual ele
reconheceu  uma das chinocas do Angico. Ficou a observar a cena
escondido atrs duma rvore, o corao a bater descompassado, a
respirao ofegante. Uma parte de seu ser queria  fugir, mas a outra, a
mais forte, pregava-o ao cho, queria ver tudo at o fim. O homem, de
bombachas arriadas, resfolgava como um animal e o que Floriano podia
ver de seu posto de observao era principalmente as suas ndegas nuas
  335
  e peludas, que subiam e desciam num ritmo cada vez mais acelerado. "Se
ele me descobre, me d um tiro." Deitou a correr na direo da casa da
estncia.
  Todos os dias ao anoitecer, quando as criadas comeavam a acender as
velas e os lampies e saam a andar pela casa como fantasmas silenciosos
- Flora sentia um aperto  no corao, uma tristeza sem nome que quase a
levava ao pranto. Nessas horas encontrava algum consolo orando de
joelhos ao p do velho crucifixo, no quarto da Dinda.
  Uma noite em que, ao terminar a prece, fazia o sinal-da-cruz, Maria
Valria entrou no quarto e, apontando para a imagem de nariz carcomido,
disse:
  - Esse a entende de guerra. J viu muitas. No tempo da do Paraguai
muita vez rezei pela vida dos meus. Mas antes de mim a velha Bibiana
rezou pelos seus familiares  que estavam na Guerra dos Farrapos e em
outras. E antes dela, a velha Ana Terra pediu pela vida dos seus homens
que brigaram com os castelhanos em muitas campanhas.  ... Esse a
entende mesmo de guerras.
  Flora ergueu-se. Maria Valria continuava a olhar para a imagem. Depois
de alguns instantes, disse, plcida:
  - Havia de ter graa se Jesus Cristo fosse tambm chimango...
  No dia seguinte houve um alvoroo festivo na estncia quando Torbio fez
a primeira carga simulada com seu piquete de cavalaria, para o qual
havia escolhido trinta  homens dos melhores, gente de sua confiana.
Eram em geral uns caboclos melenudos, musculosos, de ar decidido, e
excelentes cavaleiros.
  Formando seu piquete numa linha singela, nos campos do lado ocidental da
casa da estncia, Torbio atirou-o a todo o galope contra o inimigo
imaginrio - o bambual  do fundo do quintal. Os cavalarianos cravaram
suas lanas nas taquaras, e remataram a carga a golpes de espada. Todos,
inclusive Torbio, usavam leno vermelho no  pescoo. Ao ver aquelas
rtilas cores maragatas 
  336
  drapejando ao vento e ao sol da manh, Licurgo cerrou os olhos, engoliu em
seco, cuspiu fora o cigarro, montou a cavalo e tocou para o fim da
Invernada do Boi Osco,  onde ficava o rancho de Ismlia Car.
  Neco e Chiru, que haviam permanecido na cidade e s viriam para o Angico
na "hora da ona beber gua", mandavam a Rodrigo  recados,
dando-lhe conta do  movimento das tropas do Madruga. Rodrigo mantinha-se
tambm em comunicao com os outros chefes revolucionrios do municpio,
e prprios andavam de estncia para  estncia, levando cartas que tinham
ordem de destruir se fossem surpreendidos no caminho por inimigos. Um
dia Rodrigo foi at o Retiro, o feudo dos Amarais, e voltou  de l
animado. O coronel Alvarino tinha reunido mais de duzentos homens.
Visitou depois a estncia do Juquinha Macedo, que tinha cento e oitenta
revolucionrios  j prontos, "esperando o grito". Ficou combinado que a
reunio final de tropas se faria no Angico, por causa de sua posio
estratgica.
  Mas quando? Quando? Quando? - perguntava Rodrigo a si mesmo ao voltar
para casa, sacolejando no Ford ao lado do Bento, e recebendo na cara
suada a poeira da estrada.  O pai procedia como se jamais fosse entrar
em ao. E o pior de tudo era que se recusava at a discutir o assunto.
  Na ltima semana de fevereiro chegou ao Angico a notcia de que o
general Firmino de Paula se movimentava com seus "provisrios" para
atacar a coluna de Mena Barreto  e libertar Passo Fundo.
  -  a nossa hora de entrar! - exclamou Rodrigo, excitado. Trouxe um mapa
do Rio Grande e estendeu-o sobre uma
  mesa.
  - Veja, papai. Seguimos por aqui e atacamos a gente do Firmino pela
retaguarda. Mandamos outra parte de nossa coluna por ali, est
compreendendo?... Indo pelo campo  dos Amarais e dos Macedos,  quase
certo de que ningum nos ataca. Em menos de dois dias estamos em cima da
chimangada.
  - O senhor esquece - disse Licurgo, depois de uma curta pausa - que no
temos armamento nem munio suficiente, e a fora do Firmino est bem
armada e municiada.  Alm disso, no
  337
  se sabe ainda com quantos homens podemos contar. No temos organizao,
no temos nada.
  Rodrigo tornou a enrolar o mapa, furioso, e saiu para o sol. Na frente
da casa viu um espetculo que o deixou ainda mais irritado. O dr. Miguel
Ruas -- que tinha  decidido incorporar-se  coluna revolucionria -
estava de bombachas, botas e chapu de abas largas, montado num zaino
que ele fazia galopar dum lado para outro.  Empunhava uma espada
desembainhada com a qual dava pranchaos e pontaos em inimigos
imaginrios.
  - Esse almofadinha pensa que guerra  baile... - resmungou Rodrigo.
  Tomando chimarro junto da janela, Maria Valria observava com olho
risonho mas a cara sria as evolues do ex-promotor. Jango e Edu
brincavam sob os cinamomos  com ossos de reses. Alicinha contava s suas
"ancilas" (este era o nome que a velha dava s suas amiguinhas)
maravilhas da vida em Santa F, descrevia-lhes os seus  vestidos,
sapatos e brinquedos que tinham ficado no Sobrado.
  Alguns dias depois, um prprio vindo da estncia dos Amarais trouxe a
notcia de que Firmino de Paula libertara Passo Fundo do cerco e depois
lanara suas tropas  contra a coluna de Leonel Rocha, livrando tambm do
stio a vila da Palmeira.
  - Esto vendo? - exclamou Licurgo. -  o que eu digo sempre. No se
preparam, se precipitam e o resultado  esse: derrotas por todos os
lados.
  Estavam  mesa do almoo. Empurrou com impacincia o prato que tinha 
sua frente.
  - No contem comigo para palhaadas...
  - Mas o senhor esquece - replicou Rodrigo - que nossa palavra est
empenhada e que, haja o que houver, no podemos abandonar nossos
companheiros...
  Como no podia dizer ao pai tudo quanto queria, levantou-se, saiu de
casa, montou a cavalo e atirou-se a todo o galope pelo campo, sem
destino, gritando ao vento  todos os palavres que sabia.
  338
  7
  Fevereiro arrastava-se. Os jornais que chegavam ao Angico traziam
notcias de outros combates entre revolucionrios e legalistas. Artur
Caetano encontrava-se no  Rio, onde dava  imprensa entrevistas em que
declarava dispor de quatro mil homens armados para derrubar o Tirano.
Estava claro - comentou Torbio -, o que o homem  queria era dar ao
Governo Federal um pretexto para intervir no Rio Grande do Sul.
  - Impossvel! - exclamou Rodrigo dando uma tapa no jornal. - O Bernardes
no pode intervir porque no sabe ainda se conta com o apoio do
Exrcito.
  Torbio opinou:
  - O melhor  a gente no esperar nada desse mineiro e ir fazendo por
aqui o que pode.
  Durante a primeira reunio que os quatro chefes revolucionrios tiveram
no Angico, foi com muita dificuldade que Rodrigo conseguiu evitar um
atrito srio entre Alvarino  Amaral e o velho Licurgo. O primeiro queria
lanar-se  luta imediatamente; o segundo procrastinava. O coronel
Cacique "estava por tudo". O Macedinho no fazia questo  de data,
contanto que "entrassem no baile". O que Rodrigo no pde evitar foi que
o coronel Amaral se levantasse ao fim da reunio, dizendo:
  - Coronel Licurgo, me desculpe, mas eu e minha gente vamos hoje mesmo
nos incorporar s foras do Leonel Rocha. No posso esperar mais.
Qualquer dia o Madruga invade  os meus campos e me ataca. A fruta est
caindo de madura.
  Ningum tentou dissuadi-lo da idia. Conheciam o homem. Alvarino fez as
suas despedidas. Os outros o abraaram. Licurgo deu-lhe apenas as pontas
dos dedos.
  Rodrigo acompanhou o estancieiro at a porta.
  -  o diabo, coronel - murmurou ele, coando a cabea. - No fomos ainda
pra coxilha e j estamos nos dividindo, nos separando...
  O outro estendeu a mo, que Rodrigo apertou demoradamente.
  - Adeus, coronel! Seja feliz. Acredite que sinto muito...
  339
  O olhar de Alvarino Amaral perdeu-se, vago, nos horizontes do Angico...
  - Seu pai  um homem opinitico, mas isso no  razo para todos se
sujeitarem s opinies dele. Tambm lamento o que aconteceu. Fiz o que
pude pra evitar o rompimento,  mas est visto que o coronel Licurgo no
gosta de mim...
  Rodrigo no soube o que dizer. Depois que o outro partiu, lamentou:
  - L se vo duzentos homens bem armados e municiados. Torbio, que se
acercara do irmo, disse:
  - E por culpa do teu pai.  a nossa primeira derrota. Naquela noite, ao
redor da mesa do jantar, Cacique trouxe a
  conversa habilmente para o assunto. Juquinha compreendeu a manobra e
tratou de apoiar o correligionrio. Queriam que Licurgo revelasse o que
pretendia fazer. O  tempo passava e j agora corriam todos o risco de
serem atacados de surpresa pelas foras do Madruga. Era impossvel que o
intendente de Santa F no estivesse j  informado daqueles movimentos
de tropas no interior do municpio.
  Licurgo olhou fixamente para o prato, sobre o qual havia cruzado os
talheres, e disse:
  - Os senhores podem trazer suas foras imediatamente. Acho que chegou a
hora.
  Rodrigo e Torbio entreolharam-se, espantados. Cacique e Juquinha
trocaram tambm um olhar de perplexidade. Como se explicava aquela
sbita mudana? Finalmente todos  compreenderam... Licurgo no s
desejara como tambm provocara a defeco de Alvarino Amaral. Suas
feridas de pica-pau ainda estavam abertas e sangravam.
  Daquele momento em diante ningum mais encontrou assunto ali  mesa.
Houve um mal-estar geral. Os homens baixaram a cabea e terminaram de
comer num silncio que  de minuto para minuto se fazia mais pesado.
  Dias depois chegavam ao Angico as foras de Juquinha Macedo: duzentos e
vinte homens ao todo, muito bem montados e razoavelmente armados.
Traziam carroas com sacos  de sal, acar
  340
  e farinha de mandioca, e algumas dezenas de reses de corte. Todos os
Macedos machos estavam na tropa, com postos militares que variavam de
acordo com a idade de  cada um.
  Horas depois surgiram no alto da coxilha do Coqueiro Torto os soldados
de Cacique Fagundes. Ao chegarem  frente da casa da estncia, onde os
outros companheiros  os esperavam com gritos e vivas, o coronel Cacique,
ainda em cima do cavalo, com um leno vermelho sobre o pala de seda cor
de areia, a cara gorda e tostada a reluzir  ao sol da tarde, gritou
alegremente para Rodrigo:
  - Se lembra dos meus vinte e cinco caboclos? Pois deram cria... Trago
cento e vinte. Todos machos de verdade. Podem examinar...
  Soltou uma risada. Licurgo mirava-o com olhos hostis.
  - O velho Cacique - murmurou Torbio ao ouvido do irmo - continua o
unha-de-fome de sempre. No trouxe nenhuma de suas reses para carnear.
Olha s a cara feia do  papai.
  Aquela noite os chefes reuniram-se numa das salas da casa, onde
discutiram a organizao da Coluna. Rodrigo tinha j um plano elaborado
no papel. Quando se tratou  de decidir quem seria o comandante supremo,
hesitou. Juquinha Macedo, porm, adiantou-se:
  - Na minha opinio deve ser, por muitos motivos, o coronel Licurgo.
  Houve um murmrio de aprovao geral e todos os olhares convergiram para
o senhor do Angico, que pigarreou e deu um chupo no crioulo apagado.
  - Se os senhores acham... - murmurou. - No me nego.
  Ficou estabelecido que Juquinha Macedo teria o posto de tenente-coronel.
Rodrigo seria o major-secretrio e Torbio, tambm com o posto de major,
comandaria a vanguarda  da fora que todos estavam de acordo - se
chamaria Coluna Revolucionria de
  341
  Santa F. Distriburam-se ou confirmaram-se outros postos entre os
homens de confiana do coronel Cacique, dos Macedos e dos Cambars. O
dr. Ruas, que tomava nota  de tudo quanto se dizia e resolvia, ao
terminar a reunio redigiu uma ata, que os presentes assinaram.
  - E agora que a Coluna est militarmente estruturada - disse Rodrigo -
temos um ponto importante a discutir: o plano de campanha. Devo dizer
que no acredito em  interveno federal, pelo menos por enquanto. Temos
pela frente alguns meses, talvez um ano de revoluo....
  Com o beio inferior esticado, o ar sonolento, o coronel Cacique sacudia
a cabea, assentindo. Rodrigo olhava em torno, como a pedir sugestes.
Um dos Macedos mais  jovens, que todo o tempo da reunio ficara a
acariciar os copos da espada, sugeriu:
  - O general Pertinho acaba de invadir o Estado pelo norte. Por que no
nos incorporamos s tropas dele?
  Licurgo Cambar foi rpido na rplica:
  - Na minha opinio devemos agir por conta prpria. Devemos ser uma
coluna ligeira e independente.
  Mentalmente Rodrigo completou a frase do Velho: "No recebo ordens de
maragato, seja ele quem for".
  Os olhares voltaram-se para Juquinha Macedo e Cacique Fagundes. Disse o
primeiro:
  - O nosso comandante tem razo.
  O segundo hesitou por um instante, mas depois declarou:
  - Afinal de contas, temos que entreter o Madruga pra ele no ir reforar
os provisrios do Firmino de Paula...
  Sentado  mesa, Rodrigo ps-se a escrever a lpis num pedao de papel.
Ao cabo de alguns instantes levantou-se e disse:
  - Precisamos passar um telegrama ao presidente da Repblica anunciando o
nosso levante.
  - No carece - retrucou Licurgo.
  - Ora, papai, pense no efeito moral.
  - No vamos ganhar esta revoluo com efeitos morais. No acredito em
interveno nem agora nem nunca. No me iludo.
  342
  Entro nesta luta esperando o pior. Acho que todos devem fazer o mesmo.
  Rodrigo sentiu um fogo no peito, mas tratou de manter a boca fechada.
Meteu o papel no bolso. Estava decidido a desobedecer ao pai. Quando
Bento fosse levar as mulheres  e as crianas para Santa F, ele pediria
ao caboclo que entregasse o despacho ao Gabriel, que se encarregaria de
lev-lo ao telgrafo.
  Na manh do dia seguinte formaram  frente da casa todas as foras que
se achavam no Angico. E Rodrigo, montado num gateado de crinas longas e
ar faceiro, fez-lhes  um discurso, dando-lhes conta do que ficara
resolvido na reunio da noite anterior e exortando todos os companheiros
 luta. Perorou assim:
  "S temos um pensamento: a honra e a felicidade do Rio Grande. S temos
um objetivo: a vitria!"
  Quando terminou de falar, ergueram-se no ar gritos, lenos, lanas,
espingardas, chapus, espadas. Havia uma orgulhosa alegria na cara de
todos aqueles homens, menos  na de um. Montado no seu cavalo, um leno
branco no pescoo, Licurgo Cambar olhava taciturno para seus
comandados. Rodrigo notou que o Velho estava mais encurvado  que de
costume. Torbio, por sua vez, observou que, enquanto o irmo falava, o
pai mantivera os olhos baixos. Agora que os soldados davam vivas ao dr.
Assis Brasil  e  Aliana Libertadora e a ele prprio - sua boca se
apertava, retesaram-se os msculos da face, como se aquilo tudo lhe
doesse fisicamente.
  Quando os revolucionrios se dispersaram, dirigindo-se para os diversos
locais onde se preparava o churrasco do almoo, a oficialidade de novo
se reuniu para combinar  o primeiro movimento. Rodrigo antecipou-se:
  - Devemos obrigar o Madruga a vir nos atacar. Assim podemos escolher o
terreno para o combate. Cancha no nos falta.
  Cacique Fagundes encolheu os ombros.
  - Vocs resolvam. Estou por tudo.
  - Podemos dividir nossa coluna estrategicamente - prosseguiu Rodrigo. -
Mandaremos patrulhas para estabelecer contato com os chimangos de Santa
F e atra-los para  onde nos convm.
  343
  Licurgo escutava em silncio. Quando o filho fez uma pausa, ele
perguntou:
  - E depois?
  Rodrigo fez um gesto de dvida.
  - Numa guerra desse tipo, no se pode fazer nenhum plano a prazo longo.
Temos de confiar na improvisao e na mobilidade de nossa gente... E
sabem que mais? E at  possvel que um dia possamos atacar e tomar Santa
F, o que seria dum efeito moral tremendo.
  - Essa idia me agrada - confessou o mais velho dos Macedos.
  Licurgo soltou um fundo suspiro.
  - Veremos - disse.
  O dr. Miguel Ruas, a quem havia sido conferido o posto de capito,
manifestou seu receio de que acabassem cercados por todos os lados ali
no Angico.
  Rodrigo apontou para o mapa que estava sobre a mesa.
  - No vejo possibilidade. Teremos sentinelas, patrulhas em todos os
pontos cardeais. O Firmino est ocupado com o Leonel Rocha. A invaso do
Pertinho obrigar a  chimangada a desviar foras para Cima da Serra.
Madruga no ter outro remdio seno dar-nos combate. Vamos deixar o
homem louco com nossos movimentos!
  Miguel Ruas sacudiu a cabea lentamente. Depois saiu da sala, ainda
claudicando um pouco. Licurgo acompanhou-o com os olhos mas nada disse.
O coronel Cacique, porm,  no se conteve:
  - Tomara que eu me engane, mas acho que esse moo no vai aguentar o
repuxo...
  Ao entardecer daquele mesmo dia, Neco Rosa e Chiru Mena chegaram ao
Angico a cavalo. Contaram com ar dramtico que a situao nos ltimos
dias se lhes tornara insuportvel  em Santa F, onde viviam vigiados.
Tinham conseguido sair  noite, s escondi-
  344
  das, tomando os caminhos mais estapafrdios, para despistar algum
possvel perseguidor.
  - Pois chegaram na hora - disse-lhes Rodrigo -, dentro de trs dias
samos para a coxilha.
  - Quantos homens tem o Madruga? - indagou Torbio.
  - Uns oitocentos e tantos - respondeu o Neco.
  - Tens certeza?
  -  o que diz A Voz. E pelo movimento de gente que vi, parece que 
verdade...
  - A metade desses mercenrios na hora do combate larga as armas e mete o
p no mundo...
  - Quanta gente temos? - quis saber Chiru.
  - Uns quatrocentos e oitenta homens - informou Torbio.
  - E o armamento?
  - No  l pra que se diga...
  -  o diabo - murmurou o Neco, apreensivo. - Os provisrios do Madruga
esto armados de fuzis Mauser.
  - Agora no  mais tempo da gente se lamentar - interveio Rodrigo, dando
uma palmada nas costas do amigo. -  tocar pra frente! Ah! Antes que me
esquea... Vocs  dois so capites.
  O rosto de Chiru iluminou-se. Saiu dali e foi pedir a Flora que lhe
fizesse umas divisas. Naquele mesmo dia ajustou no chapu uma fita
branca com estes dizeres:  "Pelear  o meu prazer".
  Na manh seguinte, por volta das dez horas, Rodrigo e Torbio
presenciaram um espetculo portentoso. Um vulto apareceu no horizonte.
Era um cavaleiro solitrio,  e tudo indicava que se dirigia para a casa
da estncia. Quem seria? Quando o desconhecido apontou no alto da
coxilha do Coqueiro Torto e parou um instante junto  da sepultura do
velho Fandango, foi possvel divisar-lhe o leno encarnado que trazia
enrolado no pescoo. E quando a misteriosa personagem comeou a subir a
colina  em cujo topo se encontrava a casa, Rodrigo identificou-a.
  - Liroca velho de guerra! - exclamou.
  Foi um alvoroo ali  sombra dos cinamomos, onde muitos homens estavam
agora reunidos. Ouviam-se gritos, vivas e risadas.
  345
  Ao tranquilo de seu zaino-perneira, l vinha o velho Jos Lrio. Parecia
- achou Rodrigo - uma verso guasca de dom Quixote, mas dum Quixote que
tivesse tambm um  pouco de Sancho Pana. Liroca era um cavaleiro
andante e ao mesmo tempo o seu prprio escudeiro. Tinha como o fidalgo
da Mancha os bigodes cados e um olhar entre  desvairado e triste. No
lhe cobria o corpo franzino uma armadura de ao, mas o pala de seda. Seu
elmo era um velho chapu de feltro, de abas murchas. Em vez de  lana,
trazia a velha Comblain com que pelejara em 93.
  Jos Lrio apeou e caiu nos braos dos companheiros. Quando se viu
finalmente na frente de Rodrigo, disse compenetrado:
  - Vim me apresentar. No valho gran cosa, mas uns tirinhos ainda posso
dar.
  Rodrigo abraou-o, comovido.
  Estava resolvido que Flora, a Dinda e as crianas deviam voltar
imediatamente para a cidade, pois no Sobrado ficariam todos mais seguros
que no Angico. Esperava  Rodrigo que o "cafajeste do Madruga"
respeitasse as famlias dos revolucionrios, no por nobreza, mas por
temor  guarnio federal. Ameaou:
  - Se ele tocar num fio de cabelo de minha mulher ou de qualquer de meus
filhos, palavra de honra, quando entrarmos em Santa F enforco aquele
porco num galho da  figueira da praa!
   medida que a hora da despedida se aproximava, Rodrigo ia ficando cada
vez mais inquieto. s oito da noite, na vspera da partida da famlia,
sentou-se numa cadeira  de balano na sala, que um lampio a querosene
alumiava tristemente, e ps Alicinha sobre os joelhos.
  - O papai agora tem de fazer uma viagem muito comprida - disse com
doura.
  - Tu vais pra revoluo, eu sei.
  - E sabes o que  revoluo?
  - Sei.  guerra.
  Por alguns instantes ficaram ambos calados, ao embalo da cadeira. Os
olhos de Rodrigo enchiam-se de lgrimas, sua garganta se contraa num
espasmo. S agora compreendia  como ia ser duro
  separar-se daquela criaturinha. A beleza da filha enternecia-o. Sua
fragilidade causava-lhe apreenses, e a idia de que agora a famlia ia
ficar sem homem em casa,  desprotegida no burgo do bandido Madruga,
deixava-o j com remorsos de se haver metido naquela revoluo.
  Alicinha segurava-lhe a orelha, num hbito muito seu, quando estava
prestes a adormecer. E seus olhos escuros e lmpidos, tocados numa
expresso que parecia ser  de sono e ao mesmo tempo de medo de dormir,
focavam-se no pai, como a lhe pedirem uma explicao de tudo aquilo que
se passava ao redor dela havia tantos dias...  S agora  que Rodrigo
compreendia que a paixo poltica lhe havia embotado de tal modo a
sensibilidade, que ele sujeitara aquela criana pura e delicada a um
quase  convvio dirio com aqueles homens - bons, bravos, mas grosseiros
- que cheiravam mal, escarravam no cho e viviam coando os rgos
genitais. Que estpido! Que  inconsciente! Que irresponsvel!
  Apertou a filha contra o peito, beijou-lhe os cabelos, as faces e
finalmente os olhos, que o sono aos poucos empanava.
  - Quem  a princesa do papai?
  - Eu.
  No havia mais nada a dizer. Rodrigo limitou-se a ninar a filha quele
balano de bero, e quando verificou que ela dormia, levou-a para o
quarto e deitou-a na cama,  tendo o cuidado de colocar a boneca a seu
lado.
  Saiu na ponta dos ps, encaminhando-se para o quarto dos outros filhos.
Inclinou-se sobre Edu, Jango e Bibi, que dormiam, e depositou um beijo
na testa de cada um  deles. Percebendo que Floriano estava ainda
acordado, sentou-se na beira da cama do menino.
  Sobre a mesinha-de-cabeceira o ponto luminoso da lamparina parecia uma
minscula estrela amarela. Rodrigo segurou a mo de Floriano:
  - Meu filho, tu sabes que teu pai tem de ir para a revoluo... O rapaz
sacudiu a cabea: sabia.
  - Um dia, quando fores grande, compreenders melhor tudo isso...
  346
  347
  Floriano repetiu o gesto.
  - J ests quase um homem. Quero que obedeas  Dinda e  mame, e que
ajudes a cuidar de teus irmos.
  Na penumbra no chegou a perceber as lgrimas que escorriam pelo rosto
do menino. Mas sentiu-lhes o gosto quando lhe beijou a face, e isso o
deixou tambm a ponto  de chorar. Quando, poucos minutos depois, entrou
no prprio quarto de dormir, pensou na noite miservel que ele e Flora
iam passar.
  Ficou longo tempo abraado  mulher. A angstia lhe anestesiava o sexo.
Como podia desejar fisicamente uma criatura que no cessava de chorar?
  Teve aquela noite um sono agitado, povoado de imagens aflitivas,
obsessivas como as dos sonhos de febre. Estava numa interminvel marcha,
com uma coluna de homens  a cavalo, carregando um defunto, que ora
estava dentro dum esquife, sobre um dos cavalos. E o cadver caa, e
tinham de levant-lo, e ele tornava a cair... e houve  um momento em que
andaram a puxar o caixo com cordas, e depois o prprio defunto se
ergueu, e lvido, de olhos vidrados, ps-se a andar, acompanhando a
coluna,  e o vento batia nele e espalhava no ar um cheiro de podrido
misturado com o de fenol... E a marcha continuava, no tinha fim, e o
cadver inchava, tornava-se mais  pesado, tombava, e de novo o erguiam,
e outra vez caa, e agora seus pedaos - orelhas, ps, mos, nacos de
carne - iam ficando pelo caminho, presos aos craguats,  s
barbas-debode e tambm agarrados por mos que brotavam da terra e que
ele, Rodrigo, obscuramente sabia que eram mos de outros defuntos...
  10
  Acordou com uma batida na porta.
  - Est na hora.
  Era a voz de Maria Valria. Rodrigo e Flora levantaram-se e vestiram-se
em silncio. E ele achou que at o rudo da gua na bacia do lavatrio
de ferro, quando Flora  lavava o rosto, tinha um
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  sonido estranho. E mais estranho ainda lhe pareceu o ato de escovar os
dentes, o gosto do dentifrcio. Nos outros quartos Maria Valria
acordava as crianas, ajudava-as  a se vestirem. E o som de sua voz seca
e autoritria, quela hora da madrugada, tambm era algo que parecia
pertencer a uma nova espcie de pesadelo.
  Tomaram caf em silncio,  luz das velas, na sala de jantar. De quando
em quando Flora fitava no marido os olhos tristes, tresnoitados,
cercados de olheiras arroxeadas.  Lgrimas escorriam-lhe pelas faces,
pingavam na toalha. Mas ela nada dizia. Bebeu um pouco de caf com leite
mas no tocou no po. Maria Valria atendia as crianas.  "No se
lambuze de mel, Edu. Limpe os dedos no guardanapo. Isso! Alicinha, a
senhora no est comendo nada. Largue essa boneca. Tire o dedo do nariz,
Jango!"
  Era extraordinrio - refletia Rodrigo - como nem naquela hora
excepcional a velha perdia o contato com a realidade cotidiana. Sabia
que, houvesse o que houvesse,  a vida tinha de continuar e a disciplina
domstica no devia ser relaxada.
  Rodrigo tambm no sentia fome. Limitou-se a tomar um caf preto.  luz
gris do raiar do dia, todas aquelas caras lhe pareciam doentias. L fora
cantavam os galos.  Pela janela ele viu a barra avermelhada do nascente,
sublinhando a palidez do cu.
  - Acho bom a gente ir saindo - disse Maria Valria. E comeou a dar
ordens s chinocas. - Levem esses pacotes pr automvel. No se esqueam
da cesta. Cuidado, meninas!
  Rodrigo admirava a tia pela sua presena de esprito e pelo seu senso
prtico, mas ao mesmo tempo exasperava-se com tudo aquilo. Quando ficou
a ss com Flora, tomou-a  nos braos. O rosto dela estava branco e frio,
como que eterizado. Encostou a cabea no peito do marido e ps-se a
chorar, o corpo sacudido pelos soluos. Rodrigo  acariciava-lhe os
cabelos, passava-lhe as mos pelas costas, docemente, mas no encontrava
nada para dizer.
  Minutos depois, quando todos estavam dentro do Ford, cujo motor
trepidava, Rodrigo meteu a cabea dentro do carro, beijou a face de
Maria Valria e murmurou:
  - Fico descansado, sabendo que a senhora est com eles.
  349
  A velha estendeu a mo longa e enrugada e fez uma carcia rpida nas
faces do sobrinho.
  - No se preocupe. V com Deus. E se cuide!
  Rodrigo deu instrues pormenorizadas ao Bento. Por fim, disse:
  - Esconda o automvel no lugar combinado e volte a cavalo. Mas venha
depressa, que vamos sair a campo amanh ou depois.
  Rodrigo pegou a mo de Flora e levou-a aos lbios. Naquele momento
Alicinha foi tomada duma crise de nervos e comeou a gritar:
  - Vem, papai! Vem com a gente! Eu quero o meu pai! Ele vai morrer na
guerra! Ele vai morrer!
  Flora tentava consol-la, mas a menina chorava, estendia os braos para
o pai. "Ele vai morrer!"
  Rodrigo recuou, emocionado, voltou as costas e exclamou:
  - Toca, Bento! Por amor de Deus, v embora!
  O carro arrancou. Por algum tempo Rodrigo ouviu ainda os gritos da
filha. Ficou onde estava, as lgrimas a escorrerem-lhe pelo rosto, a
respirao irregular, um  vcuo gelado na boca do estmago. Assaltou-o o
pressentimento de que nunca mais tornaria a ver a famlia. Louco!
Idiota! Animal! S agora compreendia que para ele  no havia nada no
mundo mais importante que Flora e os filhos. Ia se meter numa revoluo
estpida, com um bando de homens mal-armados...
  Ficou onde estava durante uns dois ou trs minutos. Depois, voltou-se. O
auto tinha desaparecido atrs dum capo. Galos cantavam festivamente. E
uma ponta de sol  comeava a aparecer no horizonte, num resplendor
dourado.
  Rodrigo encaminhou-se lentamente para casa.
  11
  Agora que os homens estavam ausentes, as mulheres do Sobrado prestavam
uma ateno especial ao grande relgio de pndulo, que no passado havia
marcado o tempo de  tantas guerras e
  350
  revolues. Sua presena no casaro tinha algo de quase humano. Era como
a dum velho membro da famlia que, por muito ter vivido e sofrido, muito
sabia, mas que,  j caduco, ficava no seu canto a sacudir a cabea dum
lado para outro, silencioso e inescrutvel.
  Naquela manh de maro, Maria Valria aproximou-se do "Dono do Tempo"
para dar-lhe corda, como sempre um pouco contrariada por ver sua face
refletida no vidro do  mostrador quadrado. Quantas vezes no passado vira
a velha Bibiana fazer aquilo!
  Quedou-se distrada a "conversar" com a imagem meio apagada que em sua
memria dava corda naquele mesmo relgio. Nem viu quando Flora entrou na
sala de jantar.
  - Falando sozinha, Dinda?
  - Conversando com os meus mortos...
  A velha fechou a tampa do mostrador, voltou-se e encarou a sobrinha.
  - Pelo que vejo, voc passou outra noite em claro.
  Flora baixou a cabea, seus lbios tremeram. Contou que Rodrigo lhe
aparecera morto no sonho da noite: seu corpo apodrecia abandonado no
meio do campo, e ela se  vira, desesperada, tentando espantar com uma
vassoura os urubus que esvoaavam em torno do cadver...
  - Sonhos no querem dizer nada, menina. Uma noite destas sonhei que
tinha vinte anos. Amanheci com os mesmos sessenta e trs na cacunda.
  Depois de pequena pausa, acrescenta:
  - No se preocupe. No somos as primeiras nem vamos ser as ltimas.
Antes de ns outras mulheres tambm esperaram e passaram trabalho. No
pense muito. No fique  nunca com as mos desocupadas. E no olhe demais
para o relgio nem para a folhinha. Tempo  como criana, quanto mais a
gente d ateno pra ele, mais ele se mostra...
  Flora limitou-se a sacudir a cabea tristemente.
  - Pois eu - declarou Maria Valria - eu vou fazer um doce de coco.
  351
  Encaminhou-se para a cozinha. Flora ficou a olhar fixamente para o
mostrador do relgio, como que hipnotizada. E o rudo metlico e regular
do mecanismo, acompanhado  do movimento do pndulo, deu-lhe uma
desoladora sensao de eternidade.
  Havia j quase trs semanas que em Santa F nada se sabia de positivo
sobre o paradeiro da coluna comandada pelo coronel Licurgo Cambar. O
Correio do Povo trazia  notcias das operaes das foras de Filipe
Pertinho na zona de Cima da Serra, das atividades dos guerrilheiros de
Leonel Rocha, no municpio de Palmeira: do levante  de Zeca Neto, que
ocupara Canguu, Camaqu e Encruzilhada. Divulgava tambm que Estcio
Azambuja organizara a 3a Diviso do Exrcito Libertador, com gente de
Baj, So Gabriel, Dom Pedrito e Caapava. Quanto  Coluna
Revolucionria de Santa F, nem uma palavra.
  O velho Aderbal Quadros trouxe um dia ao Sobrado a notcia do levante,
em Vacaca, de Honrio Lemes, o qual, aps haver constitudo a Diviso
do Oeste, havia ocupado  Rosrio e Quara.
  - As autoridades municipais e estaduais de Alegrete - explicou o velho,
picando fumo para um crioulo - fugiram para Uruguaiana. O Estado est
todo conflagrado. Acho  que o governo do Borges tem os seus dias
contados.
  O ritmo lento e tranqilo de sua voz destoava das coisas urgentes que
contava. Anunciou mais que havia sido instalada no Rio de Janeiro a
Junta Suprema Revolucionria,  que contava na sua diretoria com homens
de prol. Em So Paulo estudantes gachos haviam fundado o "Centro
Acadmico Pr-Libertao do Rio Grande do Sul". A revoluo  assisista
empolgava o Brasil!
  Maria Valria escutou-o impassvel. Quanto a Flora, aquelas notcias,
longe de alegr-la, deixavam-na ainda mais preocupada, pois eram um
sinal de que a revoluo  se espalhava, crescia, complicava-se,
ameaando durar anos e anos...
  Dona Laurentina vinha agora com mais freqncia ao Sobrado visitar a
filha e os netos. Ela e Maria Valria entendiam-se muito bem, tinham uma
admirao e uma estima  mtuas: em muitos respeitos at se pareciam. No
raro ficavam sentadas uma na frente
  352
  da outra por longo tempo, numa espcie de duelo seco, mas cordial, de
silncio.
  Aderbal preocupava-se com a sade da filha, que comeava a emagrecer.
Era um despropsito - achava - um cristo viver assim como a Flora,
comendo e dormindo pouco,  com o pensamento s em coisas ruins.
Procurava anim-la:
  - Ningum morreu, minha filha! Essa sua tristeza pode at ser de mau
agouro. Oua o que seu pai est lhe dizendo. As coisas boas tambm
acontecem na vida. Qualquer  dia Rodrigo est a de volta, forte e so
de lombo.
  Laurentina, porm, na maioria das vezes limitava-se a olhar fixamente
para a filha com uma tamanha expresso de pena nos seus olhos
inditicos, que Flora acabava  desatando o pranto.
  E sempre que explodiam rojes na praa, as mulheres e as vidraas do
Sobrado estremeciam. Flora levava as mos ao pescoo, como para impedir
que o corao sobressaltado  lhe escapasse pela boca, e ficava sentindo
na ponta dos dedos a pulsao alvorotada do prprio sangue. Corria para
a janela e olhava na direo da Intendncia, na  frente da qual se ia
reunindo aos poucos uma pequena multido, atrada pelo boletim de
notcias que o Madruga mandava afixar num quadro-negro.
  O ltimo deles - que fora transcrito por A Voz da Serra - dizia:
  A famigerada Coluna Revolucionria de Santa F, comandada pelo conhecido
mazorqueiro Licurgo Cambar, com seus bandidos armados de lanas de pau,
armas descalibradas,  espadas enferrujadas, anda correndo pelos campos
do interior do nosso municpio, carneando gado alheio, roubando
estncias e casas de comrcio, desrespeitando mulheres  e espancando
velhos indefesos. Os bandoleiros assiststas recusam combate e fogem
sempre  aproximao da vanguarda da coluna republicana do bravo coronel
Lao Madruga,  baluarte do borgismo na Regio Serrana. Quanto tempo
durar ainda essa comdia?
  - Mentirosos! Caluniadores! Canalhas! - exclamou Dante Camerino depois
que leu em voz alta essa notcia, no Sobrado.
  353
  - Voc nem devia trazer essa imundcia pra dentro de casa - repreendeu-o
Maria Valria, apontando para o jornal que o mdico tinha na mo.
  Um dia, surpreendendo Santuzza Carbone com Bibi nos braos, a beijar por
entre lgrimas o rosto da criana, Flora teve uma crise de nervos.
  - O Rodrigo morreu e vocs no querem me dizer! - exclamou. - Eu sei! Eu
sei! O Rodrigo morreu!
  Rompeu num choro convulsivo. O dr. Carbone fez o possvel para
acalm-la, assegurando-lhe, dando-lhe sua parola. d'onore, jurando por
Deus e todos os santos que  tudo estava bem. E como tudo isso no desse
o menor resultado, conseguiu levar Flora para a cama, onde lhe aplicou
uma injeo sedativa que a fez dormir por algumas  horas.
  E nos dias que se seguiram, o italiano tratou de alegrar aquela famlia
como podia. Quando visitava o Sobrado, trazia brinquedos ou caramelos
para  bambini, contava-lhes  histrias, fazia mgicas. Uma noite, como
quisesse danar um cake-walk com Santuzza, encaminhou-se para o
gramofone, para p-lo a funcionar. Maria Valria, porm,  barrou-lhe o
caminho. No! Tocar msica naquela casa quando seus homens estavam na
guerra, correndo perigo de vida, passando durezas e privaes? Nunca!
"Sossegue  o pito, doutor! Aqui ningum carece de palhao."
  Aro Stein e Roque Bandeira tambm apareciam no Sobrado com certa
freqncia. Ficavam geralmente no seu canto, em suas interminveis
discusses. Flora comeava a  irritar-se ante a atitude crtica do judeu
para com os revolucionrios.
  Uma noite, como Aderbal Quadros elogiasse Assis Brasil e os objetivos
ideolgicos da revoluo, Stein,  sua maneira meio tmida, mas
obstinada e segura, disse:
  - O senhor me desculpe, seu Babalo, mas no vejo nada de ideolgico
nesse movimento armado...
  Tio Bicho puxou-lhe a ponta do casaco, sussurrando:
  - Pra com isso, homem!
  Stein, porm, no lhe deu ouvidos.
  354
  - Os objetivos dessa revoluo so mais econmicos e sectariamente
polticos do que ideolgicos.  uma revoluo de plutocratas.
  Maria Valria franziu o cenho ao ouvir esta ltima palavra, que lhe soou
como um nome feio.
  - Todo o mundo sabe que o Estado anda s voltas com uma nova crise
pecuria - continuou o judeu. - O preo do boi vem baixando desde a
Guerra Europia. Esses estancieiros  de leno encarnado no pescoo se
meteram na luta porque para eles  mais bonito sair da enrascada pela
porta "gloriosa" da revoluo do que por meio da falncia  ou da
concordata.
  Aderbal Quadros limitou-se a sacudir a cabea e a sorrir. Flora fez com
o olhar um apelo a Maria Valria, que exclamou:
  - Cale a boca, Joo Felpudo! E o assunto terminou.
  12
  Era uma tarde chuvosa de princpios de abril e Flora, tristonha, pensava
no marido que quela hora decerto andava ao relento, no temporal,
molhado at os ossos,  coitado! De instante a instante erguia os olhos
do bastidor e fitava-os em Maria Valria, que estava sentada na sua
frente, silenciosa, de braos cruzados. Que pensamentos  estariam
passando pela cabea da velha? Flora continuou a bordar. Impelida pelo
vento, a chuva tocava sua msica mole e mida nos vidros das janelas.
Uma luz fria  e cinzenta entristecia a casa. Ouviam-se as vozes e os
rudos dos passos das crianas, que brincavam no andar superior.
  - Parece que estou vendo ela... - disse de repente Maria Valria.
  Flora alou o olhar.
  - Quem, Dinda?
  - A velha Bibiana. Nesta mesma cadeira onde estou sentada... Enrolada no
xale, se balanando...
  355
  
  Da cozinha vinha um cheiro de acar queimado. Maria Valria traou o
xale que lhe cobria os ombros. (Era o velho, pois ainda no se habituara
ao novo que Rodrigo  lhe dera pelo Natal.)
  - Foi ela que criou o primo Licurgo... - disse com uma voz incolor.
Flora no se lembrava de jamais t-la ouvido pronunciar o nome do
cunhado.
  - Era uma velha das antigas - prosseguiu Maria Valria - enrgica, de
tutano. Perdeu o marido na Guerra dos Farrapos, ficou sozinha com suas
crias, nunca pediu bexiga  pra ningum. Depois viu o filho, j homem
feito, morrer baleado ali no meio da rua, na frente da casa, assassinado
pelos capangas dos Amarais. Mas agentou firme  e continuou vivendo.
Estava viva ainda em 95 quando os maragatos cercaram esta casa. Passou
todo o stio l em cima no quarto dela, sentada nesta cadeira, se
balanando,  falando sozinha, cega por causa da catarata, se balanando
sempre, e esperando qualquer coisa, nem sei bem o qu, decerto a morte.
Mas parece que a morte tinha se  esquecido dela. S entrou no quarto um
ano depois, e a velha Bibiana agonizou trs dias e trs noites...
  - Dinda, pelo amor de Deus! - suplicou Flora. - Vamos mudar de assunto.
  - Eu sei, voc no quer ouvir todas estas histrias porque tem medo.
Prefere se iludir. Mas uma mulher nesta terra tem de estar preparada
para o pior. Os homens  no tm juzo, vivem nessas folias de guerras.
Que  que a gente vai fazer seno ter pacincia, esperar, cuidar da
casa, dos filhos.. Os homens dependem de ns.  Como dizia a velha
Bibiana, quem decide as guerras no so eles, somos ns. Um dia eles
voltam e tudo vai depender do que encontrarem. No se esquea. Ns
tambm  estamos na guerra. E ningum passa por uma guerra em branca
nuvem. No se iluda. O pior ainda nem comeou.
  Lgrimas escorriam pelas faces de Flora e ela no pensava sequer em
enxug-las.
  - Se eu lhe digo estas coisas no  por malvadeza. Quero que voc se
prepare para agentar. Dona Bibiana contava que houve tempos na vida
dela que parecia que tudo  vinha abaixo, o mundo ia acabar. Mas no
acabou. A prova  que estamos aqui.
  Flora continuava a bordar. Depois dum curto silncio, peiguntou:
  - Ser que est chovendo assim em todo o municpio?
  - No se preocupe. Nossa gente deve ter barracas, ou ento est dentro
do mato. E depois, chuva nunca matou ningum. Seu marido no  de sal.
Nem de acar.
  - Mas  horrvel essa falta de notcias! A velha deu de ombros.
  - Eu s vezes at penso que  melhor assim...
  Maria Valria olhava para o pndulo do relgio. E, como se no estivesse
falando com ningum, murmurou:
  - Tia Bibiana contava que a av dela, a velha Ana Terra, um dia matou um
bugre...
  Flora ergueu os olhos do bastidor e franziu a testa.
  - Matou?
  - Sim senhora. Com um tiro nos bofes.
  - Mas por qu, Dinda?
  - Ora, foi pouco depois que fundaram Santa F. Isto aqui vivia infestado
de ndios. Um dia a velha Ana chegou em casa e viu um deles perto da
cama do filho, o Pedro,  que veio a ser pai da tia Bibiana...
  Flora perdia-se um pouco naquele emaranhado de antepassados dos Terras e
dos Cambars.
  - Pois a velha no teve dvida. Pegou num arcabuz, espingarda ou coisa
que o valha, e fez fogo. O bugre caiu ali mesmo, botando sangue pela
boca...
  Fez-se uma pausa. Maria Valria balouava-se na sua cadeira, sorrindo
para seus pensamentos.
  - Dinda, a senhora era capaz de matar uma pessoa?
  - Pois depende...
  Flora tornou a baixar os olhos.
  - Eu no era. Preferia morrer.
  - Bem como seu pai. Quem sai aos seus no degenera. Minutos depois,
quando o assunto parecia j esquecido, a velha perguntou:
  - Se voc visse um provisrio matando um de seus filhos?
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  - Dinda, que horror!
  - No carece ficar nervosa. Estou s imaginando.  um fazde-conta.
Afinal a gente tem de estar preparada pra tudo...
  - Espero que Deus nunca me ponha nessa situao.
  - Hai miles e miles de coisas que eu pedi a Deus que nunca me
acontecessem. Mas Ele no me atendeu...
  - Deus deve saber o que faz.
  - Pois se voc pensa assim, menina, no deve ento se preocupar. Est
tudo direito.
  No silncio que depois se fez, s se ouviu o tique-taque do relgio e o
tamborilar da chuva nas vidraas.
  - Estou com frio - murmurou Flora, encolhendo-se toda.
  - Quer que eu mande trazer um braseiro?
  - No. Prefiro um ch quente.
  - Espere que eu vou fazer.
  Flora procurou deter a velha com um gesto, mas esta se levantou e
caminhou, tesa, para a cozinha. Flora ergueu-se tambm e dirigiu-se para
a sala de visitas, com  a esquisita sensao de que ali algum a
esperava para uma entrevista secreta. Ficou a contemplar o retrato do
marido com os olhos enevoados de lgrimas, segurando  o respaldo duma
cadeira com ambas as mos. A idia de que quela hora ele pudesse estar
morto ou gravemente ferido deixava-a gelada.
  Aos poucos, porm, uma como que onda de calor pareceu irradiar-se do
retrato, envolvendo-a, reconfortando-a, aquecendo-a. Flora aproximou-se
da tela. Lembrava-se  agora de certas peculiaridades do marido -
cacoetes, gestos, o tom da voz, aquele vezo de ajeitar de quando em
quando o n da gravata. Ah! Quantas vezes ele a tinha  feito sofrer! De
todas as aventuras amorosas de Rodrigo a que a ferira mais fundo fora a
histria de Toni Weber, por causa do seu desfecho trgico. Como lhe fora
difcil fingir que nada sabia! E quando o marido voltara de seu refgio
no Angico (a pobre menina j no cemitrio, a cidade inteira a comentar),
quando ele entrara  em casa, branco como papel, desfigurado, os olhos
tresnoitados - ela achara que seu dever era ampar-lo, abafar seu
amorprprio, receb-lo maternalmente de braos  abertos, sem fazer 
  perguntas. Durante muitas noites vira ou sentira o marido revolver-se na
cama a seu lado, insone, ou ento falar em delrio num sono inquieto,
decerto povoado de pesadelos.  E o pior  que por ver que Rodrigo
expiava sozinho a culpa daquele suicdio, ela tambm se sentia culpada.
Um dia percebeu que, num desejo desesperado de desabafo,  o marido
estivera a pique de lhe confessar tudo... Ela pedira ento a Deus que
tal no permitisse. Doutra feita conclura que para Rodrigo talvez fosse
melhor tirar  do peito aquela coisa, aquela nsia... E nessa incerteza
vivera, semanas, meses... A Dinda tinha razo quando dizia que a melhor
pomada para curar as feridas da  alma  o tempo. "To boa que nem cheiro
tem. No se compra em botica. No custa nada." O tempo curara as feridas
de Rodrigo, e ele voltara a ser exatamente o que  fora antes de conhecer
Toni Weber. Menos de um ano depois da morte da rapariga, j andava atrs
de outras mulheres. Ficava alvorotado quando alguma moa bonita entrava
no Sobrado, fosse quem fosse. Cercava-a de cuidados, de galanteios,
inventava todos os pretextos para toc-la. Procurava mostrar-lhe o que
sabia, o que tinha, o  que era. Portava-se, em suma, como um
adolescente, com todos os apetites visveis  flor da pele. At sua
respirao ficava diferente quando ele via mulher bonita!  E Rodrigo
fazia todas aquelas coisas com um ar de impunidade, como se todos os que
o cercavam no estivessem vendo aquilo, por cegos, ingnuos ou tolos.
  Flora contemplava agora o Retrato, sacudindo a cabea lentamente, como
uma me diante do filho travesso e relapso. Rodrigo pouco mudara
naqueles ltimos doze anos.  Estava agora um pouquinho mais corpulento,
e seu rosto, que at os trinta anos guardara algo de juvenil e quase
feminino, se fizera mais msculo.
  Flora sorriu. Vieram-lhe  mente as palavras duma velha parenta, na
vspera de seu casamento, ao experimentar-lhe o vestido de noiva. "O dr.
Rodrigo  um homem bonito  demais. Tenho pena de ti, menina." Flora
recordou as pequenas e as grandes vaidades do marido. Para uma esposa
eram as pequenas as que se faziam mais evidentes.  O tempo que levava
para escolher uma gravata e depois dar-lhe o n diante do espelho! O
exagero com que se perfumava! A preocupao com o friso das calas!
Tinha  no guarda-
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  roupa simplesmente quinze fatiotas em bom estado, e dez pares de
sapatos. As gravatas eram incontveis... E como gostava de impressionar
bem os outros, de ser querido,  respeitado, admirado! Sabia agradar as
pessoas dizendo-lhes exatamente o que elas queriam ouvir.
  Flora recuou um passo e ficou a comparar a moda masculina do tempo em
que aquele retrato fora pintado com as roupas de 1922. Veio-lhe  mente
a figura do ex-promotor, primeiro nos seus trajos de "almofadinha",
depois, vestido  gacha, como o vira no Angico, em cima dum cavalo -
capito das foras revolucionrias. A imagem de Miguel Ruas se
transformou na de Rodrigo, que ela visualizou barbudo, triste e
encolhido debaixo do poncho, sob a  chuva, em meio do escampado. De novo
sentiu um frio nos ossos, e um estremecimento lhe sacudiu o corpo.
  Uma voz:
  - O seu ch.
  Flora corou, como se tivesse sido surpreendida num ato vergonhoso. Maria
Valria aproximou-se e entregou-lhe a xcara fumegante.
  13
  O estado de esprito de Rodrigo melhorou consideravelmente depois que as
chuvas cessaram e de novo ele viu o outono. Abril entrou e os dias
tinham agora a doura  e a maciez dum fruto maduro. Em certas tardes, o
sol era como um favo a derramar o mel de sua luz sobre a campanha.
  Fazia mais de um ms que andavam naquelas marchas e contramarchas pelo
interior do municpio, cortando aramados, cruzando invernadas alheias,
carneando o gado que  encontravam, atacando e ocupando povoados e
colnias, onde a resistncia era pequena ou nula. No haviam tido baixas
naqueles rpidos tiioteios com patrulhas legalistas.  Tinham tentado
inmeras vezes atrair para emboscadas a tropa de Lao Madruga, quase
toda constituda de infantaria. Em vo! O peixe no mordia a isca. E
como no  quisessem
  360
  ser envolvidos, Licurgo Cambar e seus homens continuavam em andanas
interminveis, dividida a Coluna em trs grupos, sem contar o esquadro
de lanceiros de Torbio,  que fazia a vanguarda. Marchavam de ordinrio
a dois-de fundo, numa longa fila.  noite escondiam-se nos capes, onde
podiam acender fogo sem chamar a ateno do  inimigo. Os mais graduados
tinham barracas, mas a maioria dormia ao relento, sobre os arreios.
  Bio, cuja alegria contrastava com a tristeza cada vez mais negra do pai,
costumava dizer, sorrindo, ao irmo que seu piquete de cavalarianos
havia de passar para  a histria como "Os Trinta de Torbio". Eram os
primeiros que entravam nos povoados, a galope e aos gritos, sem terem
antes o cuidado de verificar se havia inimigos  atocaiados, para os
quais seriam alvo fcil. Quando o resto da coluna chegava, a localidade
estava j ocupada e Torbio geralmente era encontrado por trs do balco
da principal casa de comrcio do lugar, distribuindo mercadorias entre
os soldados e gritando: "Comeou a liquidao, companheiros. Grande
baratilho!" Licurgo Cambar,  porm, fazia empenho em que tudo se
processasse da maneira mais escrupulosa. No admitia que seus homens se
apossassem duma caixa de fsforos sequer sem deixar ao  proprietrio uma
requisio assinada por ele prprio ou por algum outro oficial.
  O velho Liroca, que havia sido confirmado no posto de major, em geral
cavalgava ao lado de Rodrigo, mergulhado em longos silncios cortados
apenas de suspiros ou  pigarros. Mas de vez em quando dizia alguma coisa
que, por mais sria que fosse, fazia o amigo sorrir e murmurar: "Este
Liroca!" Rodrigo ficou surpreendido quando  o velho amigo lhe confessou
que no levava consigo mais de vinte balas. Ali estava um assunto no
qual nem gostava de pensar... Quando fazia um inventrio mental  das
armas e munies com que seus companheiros contavam, sentia calafrios.
Dos quatrocentos e oitenta e cinco homens da Coluna, talvez apenas uns
duzentos e poucos  estivessem razoavelmente armados com fuzis calibrados
e de longo alcance. Os restantes tinham apenas revlveres dos tipos mais
diversos, faces, espadas, chuos  de cerejeira ou guajuvira, e uma
variedade de outras armas que lembravam um museu: espingardas de caa de
dois canos, velhas Comblains, Mannlichers,
  361
  e fuzis austracos e belgas em pssimo estado de conservao. Havia
poucos dias juntara-se  Coluna um voluntrio que trouxera na mo apenas
uma arma de salo, no  bolso uma caixa com quinze balinhas e no cinto
uma faca de picar fumo. Mas quem lhe visse a postura marcial, o fero
orgulho que lhe incendiava o rosto, a maneira  como empunhava a Flobert
- teria a impresso de que o homenzinho ameaava o inimigo com uma
metralhadora.
  Rodrigo divertira-se com algumas das "adeses" que a Coluna tivera
depois de deixar o Angico. Uma tarde o piquete de Torbio fez alto ao
avistar ao longe um cavaleiro  que conduzia seu pingo a galope,
levantando poeira na estrada. Quem ? Quem no ? Quando o desconhecido
se aproximou, viram que trazia um leno vermelho no pescoo.  Era um
velho de cara angulosa, barba toda branca e olhos lacrimejantes.
Aproximou-se, sempre a galope, do piquete e, a uns dois metros do
comandante, sofreou bruscamente  o animal, fazendo-o estacar. Tocou a
aba do chapu com o indicador e disse:
  - Ainda que mal pergunte, patrcios, pr'onde  que vassuncs se atiram?
  - Pra revoluo - respondeu Torbio, pronto.
  O desconhecido quebrou com uma tapa a aba do sombreiro e exclamou:
  - Pois  atrs dessa fruta que eu ando! E incorporou-se  Coluna.
  Dias depois, ao passarem por um miservel rancho de barro e teto de
palha,  beira da estrada, saiu de dentro dele um caboclo esfarrapado e
descalo, de cara terrosa  e chupada, trazendo a tiracolo, com um
barbante  guisa de bandoleira, uma espingarda de caar passarinho.
Envolvia-lhe o pescoo um leno dum vermelho sujo. (Mais  tarde o homem
explicou que, como no tinha em casa leno colorado, mergulhara um trapo
em sangue de boi.) Aproximou-se de Rodrigo e, de olhos baixos, murmurou:
  - Pois , se rne deixarem, eu queria tambm ir pra revoluo. Rodrigo
consultou o pai com o olhar. Licurgo sacudiu a cabea
  afirmativamente.
  362
  - Pois venha. Cavalo no nos falta. O que no temos  arreio.
  - No carece. Munto em plo mesmo.
  - Como  a sua graa?
  - Joo.
  Despediu-se da mulher molambenta, com cara e cor de opilada, que ali
estava  frente do rancho, com um filho nos braos e outro na barriga.
Foi uma cena rpida.  Apertaram-se as mos em silncio e tocaram-se
mutuamente os ombros, com as pontas dos dedos. Depois o homem passou a
mo de leve pela cabea do filho. Tanto a face  da mulher como a do
marido estavam vazias de expresso.
  Deram ao homem um cavalo tobiano e crinudo. Horas mais tarde, quando a
Coluna descia um coxilho, o novo voluntrio achou que devia dar uma
"satisfao" ao companheiro  que cavalgava ao seu lado:
  - No v que sou maragato...
  Calou-se. O outro pareceu no interessar-se pela informao. Era um
preto corpulento. S a carapinha amarelenta lhe denunciava a idade.
Tinha lutado em 93 nas foras  de Gumercindo Saraiva e trazia na cintura
uma Nagant que - segundo contava - tirara das mos dum soldado da
polcia, em Cruz Alta.
  - Meu finado pai j era federalista - continuou Joo. Cuspiu para um
lado por pura cbula, ajeitou a passarinheira s costas. - Acho que meu
av at conheceu o conselheiro.
  O negro limitou-se a responder com um pigarro. Chamava-se Cantdio dos
Anjos, tinha fama de valente e dizia-se que j andava "aborrecido", pois
se havia incorporado   Coluna para brigar e no para viver gauderiando.
Estava muito velho para "esses desfrutes".
  Numa pequena colnia alem onde haviam requisitado vveres e as poucas
armas e munies ali existentes, s um voluntrio se apresentara, um tal
Jac Stumpf, um teuto-brasileiro  ruivo e espigado, com dois caninos de
ouro que mostrava com freqncia, pois era homem de riso fcil e aberto.
Tinha o aspecto e o caminhar dum joo-grande e uma  voz estrdula. O que
mais deliciava Rodrigo era que Jac Stumpf - apesar de seu aspecto
nrdico e de seu
  363
  sotaque - tinha a mania de ser gacho legtimo, "neto de Farroupilha".
Era um espetculo v-lo metido nas largas bombachas de pano xadrez,
chapu de barbicacho, botas de sanfona com grandes chilenas barulhentas.
Esforava-se por imitar o linguajar gacho e com freqncia dizia "Puxa
tiapo!" Os companheiros logo passaram a chamar-lhe "Jacozinho Puxa
Tiapo".
  - Tu agenta o repuxo, alemo? - perguntou-lhe Cantdio. Muito srio,
o outro respondeu:
  - Quem tem medo de parulho no amara poronco nos tendos.
  Rodrigo, que entreouvia o dilogo, soltou uma risada.
  Mas houvera tambm incidentes feios. No terceiro dia de marcha dois
companheiros se haviam "estranhado" e atracado num duelo a faco, e a
muito custo Torbio conseguira apart-los, antes que se sangrassem
mutuamente.
  Num vilarejo, um dos revolucionrios, Pompeu das Dores, sujeito retaco
e mal-encarado, violara uma rapariga de doze anos. Pertencia ao grupo
comandado por Juquinha Macedo, que pediu ao comandante da Coluna a
punio imediata e severa do criminoso. Consultado, o coronel Cacique
fora de opinio que deviam fuzilar o bandido sumariamente, para
escarmento do resto da tropa. Macedo, porm, estava indeciso quanto ao
tipo de punio que devia aplicar em Pompeu das Dores. Mas o coronel
Licurgo declarou categrico que era contra a pena de morte, por mais
feio que fosse o crime. Rodrigo, que tivera ocasio de ver o estado em
que ficara a pobre menina, no podia olhar para o estuprador sem ter
gana de meter-lhe uma bala entre aqueles olhos de surio.
  Estavam acampados  beira dum capo e tinham amarrado Pompeu a uma
rvore. Cantdio dos Anjos rondava-o, mirando-o de esguelha e
resmungando:
  - Se fosse em 93, canalha, tu j estava degolado. E era eu quem ia
fazer o servio.
  Foi, porm, Torbio quem resolveu o problema. Aproveitando a hora em
que o pai dormia a sesta dentro do mato, ordenou:
  - Desamarrem esse bandido. Eu me encarrego dele.
  364
  E dentro dum crculo formado pelos companheiros, com seus prprios
punhos deu uma sova tremenda em Pompeu das Dores, deixando-o por alguns
instantes estendido por terra, a cara inchada e roxa, a deitar sangue
pela boca, por entre os dentes quebrados. Depois mandou que seus homens
tirassem toda a roupa e as botas do caboclo e, quando o viu
completamente nu, aplicou-lhe um pontap nas ndegas e gritou:
  - Toca, miservel! Vai-te embora!
  Pompeu das Dores saiu a correr pelo campo. Nenhum dos homens que
assistiam  cena sequer sorriu. Mais tarde Torbio disse ao irmo:
  - Pra violentar uma menina como aquela, s mesmo um degenerado. - E,
sorrindo, acrescentou: - Tu sabes que no sou santo, mas nesse assunto
de mulher no foro  ningum. Comigo  s no voluntariado...
  Freqentemente Rodrigo procurava marchar ao lado do pai, observando-o
com o rabo dos olhos. Agora que tinha a barba crescida e quase
completamente branca, Licurgo parecia muito mais velho do que era.
Andava encurvado, falava pouco como sempre, e mais de uma vez perguntara
ao filho com voz magoada:
  - Que estar havendo l pelo Angico?
  Rodrigo sentia que o Velho recalcava outra pergunta: "Como estar a
Ismlia?
  Tratava de animar o pai, mas ele mesmo no acreditava muito nas
prprias palavras. Era possvel e at provvel que Lao Madruga j
tivesse mandado ocupar a estncia de seu inimigo pessoal e poltico.
Imaginava ento as depredaes que os "provisrios" deviam estar
fazendo: o aramado cortado, as cercas derrubadas, a casa emporcalhada, a
cavalhada e o gado arrebanhados, as roas devastadas... Tinha sido uma
estupidez abandonar o Angico! - reconhecia ele agora. O melhor teria
sido esperar o inimigo ali em terreno que conheciam. Lembrava-se de que
fora essa a sua primeira idia. O prprio Licurgo, porm, se opusera ao
plano, pois queria evitar que se derramasse sangue e se cometessem
violncias naqueles campos
  365
  que tanto amava. Talvez tivesse a secreta esperana de que o inimigo
tambm os respeitasse.
  Rodrigo comeava a afligir-se por causa da falta de comunicao de sua
coluna com as outras divises do Exrcito Libertador. Estavam
completamente desligados do resto dos revolucionrios. Nas localidades
que ocupavam no havia telgrafo. Numa delas encontraram um homem que
lhes informara ter "ouvido falar" de levantes em Baj, So Gabriel,
Camaqu e Alegrete. Achava que a "coisa" parecia ter prendido fogo em
todo o Estado.
  E as marchas continuavam. Rodrigo vivia assombrado por uma lembrana:
a expresso dos olhos de Alicinha quando se despedira dele. O espectro
daquela voz fina e  dolorida voltava-lhe com insistncia  memria: "Ele
vai morrer!"  noite, antes de dormir, pensava na filha quase com
excluso do resto da famlia. E esses pensamentos ora o enterneciam ora
lhe davam uma sensao de frio interior. Era possvel que jamais
tornasse a ver Alicinha... Como estaria a gente do Sobrado? E imaginando
infmias dos inimigos, tinha gana de precipitar-se sobre Santa F,
cegamente, sem plano, mas com mpeto, com fria, tomar a cidade, a
Intendncia, e fuzilar os bandidos...
  14
  Alm de Rodrigo, havia na Coluna dois outros mdicos: um cirurgio e
um clnico. Este ltimo tinha uma pequena farmcia, que conduzia em
caixas dentro de peuelos, nas costas dum burro, que ele jamais perdia
de vista. Depois dos aguaceiros de fim de maro, essa farmcia contara
com uma grande freguesia entre a tropa, pois algumas dezenas de
soldados, que haviam tomado chuva e deixado as roupas secarem no corpo,
tinham apanhado resfriados. E a Coluna marchara num concerto de tosses,
pigarros, escarros, gemidos. E o mdico andara a distribuir comprimidos
de aspirina entre a tropa. E quando uma tarde encontraram um stio no
caminho e viram no pomar alguns ps de limoeiros carregados, Torbio e
seus homens os atacaram e, sob o olhar assustado do dono
  366
  da chcara, colheram todos os limes que puderam. Depois, contando
escrupulosamente os frutos que haviam juntado em vrios ponchos, pediu
que o dr. Miguel Ruas  redigisse uma "requisio". Ditou: "Vale
seiscentos e setenta e quatro limes". Assinou o "documento" e
entregou-o ao dono do stio, que ficou a olhar para o papel com cara
desanimada.
  O mdico recomendou aos gripados que chupassem limo. E l se foram
dezenas deles, barbudos e melenudos, campo em fora, mamando nas frutas
verdes e fazendo caretas.
  Mas a verdade  que na sua maioria - conforme Rodrigo muito cedo
descobriu - os soldados da Coluna que adoeciam procuravam de preferncia
Cantdio dos Anjos, cuja fama de curandeiro era conhecida de todos. O
preto receitava chs de ervas e, quando lhe perguntavam onde estava a
sua botica, fazia um gesto largo mostrando o campo. Ali estavam os
remdios que Deus Nosso Senhor dera de graa aos homens. No havia nada
melhor no mundo para curar azia ou lcera do que ch de "cancerosa". Na
falta dela, carqueja tambm servia: era boa tomada no mate. Se algum se
queixava do fgado, Cantdio lhe receitava ch de samambaia de talo
roxo, ou ento fel-da-terra, amargo como fel de homem. Ervatosto, como
sabugueirinho-do-campo, era tambm bom "pr figo". "E pras orina?" -
"Ah! Raiz de ortiga-braba." Para afinar o sangue nada melhor que a
douradinha-do-campo. E, com autoridade, acrescentava: "Tem muito iodo".
Um companheiro queixouse um dia de dor nos rins e Cantdio dos Anjos,
sem tirar os olhos da estrada, murmurou como um orculo: "Ch de
cip-cabeludo". O problema era encontrar todas essas ervas nos lugares
por onde passavam e no momento exato em que precisavam delas.
  Cantdio era tambm um grande conhecedor de rvores, pelas quais
parecia ter uma afeio particular. Quando acampavam  beira dum capo,
costumava olhar para os troncos e ir dando a cada planta o seu nome.
  - Aquela ali  aoita-cavalo, d uma madeira muito dura, que nem raio
racha. A outra, a tortinha, esto vendo?  cabriva. No resiste 
umidade, uma porquera.  A outra,  direita, a baixinha,  um cambar.
Tem lenho amarelo e macio, muito cheiroso. Dura
  367
  tanto como a guajuvira. Mas uma coisa ls digo, rvore linda mesmo  o
alecrim, que no tem aqui,  raro. Conhecem? Tem o cerne quase to
colorado como este meu leno, e d uma flor amarela. E por causa de
todas essas conversas e habilidades o Cantdio se foi transformando aos
poucos numa das figuras mais populares da Coluna. Torbio afeioou-se de
tal modo ao negro, que o convidou para fazer parte de seu piquete de
cavalaria.
  - Qual, seu Bio! Estou meio velho pra lanceiro.
  - No diga isso, Cantdio. No troco voc por muito moo de vinte.
  - Pois eu me trocava - sorriu o veterano, mostrando os dentes. - S
que no encontro ningum que queira fazer o negcio.
  E quando Torbio fez meno de afastar-se, Cantdio deteve-o com um
gesto.
  - Que estou velho, isso estou, porque quem diz  o calendrio. Mas se
o senhor quer arriscar, o negro no se despede do convite...
  Quando, naquele mesmo dia, acamparam numa canhada,  beira dum
lajeado, Torbio estendido sobre os arreios, as mos tranadas sob a
nuca, repetiu a Rodrigo a conversa que tivera com Cantdio.
  - Vou dar um trabalho danado aos historiadores do futuro... No vo
nunca descobrir por que os "Trinta de Torbio" eram trinta e um...
  Rodrigo no respondeu. Estava de p, junto de sua barraca, olhando
para a estrela vespertina que brilhava no vidro azulado do cu. No alto
das coxilhas em derredor ele divisava os vultos das sentinelas. Dentro
do mato crepitavam fogos. Andava no ar o cheiro do arroz-de-carreteiro
que Bento, seu fiel ordenana, lhe preparava.
  Rodrigo acariciava o prprio rosto. Nos primeiros dias da campanha
costumava barbear-se pelo menos duas vezes por semana. Depois, fora aos
poucos relaxando o costume e conclura que o melhor seria deixar crescer
a barba. De vez em quando mirava-se num espelhinho de bolso e tinha a
curiosa impresso de "ser outra pessoa". E no era? Em Santa F
cultivava o hbito do banho dirio
  mas agora s se banhava quando encontrava sanga, rio ou lagoa... e
havia tempo para isso. Quase sempre depois desses banhos apressados era
obrigado a revestir  as roupas sujas e suadas. Sentia agora uma
permanente ardncia no estmago, e amanhecia freqentemente de boca
amarga. Quando podia comer um assado de carne fresca, estava tudo bem,
mas na maioria das vezes tinha de contentar-se com o charque que
carregavam e que ele j no podia comer sem evitar a suspeita de que
estava podre. Antes, sempre que pensava na revoluo, as imagens desta
jamais lhe vinham acompanhadas de cheiros. No entanto aqueles homens
fediam. Durante a marcha limpavam o peito, escarravam para o lado e, se
havia vento, o escarro no raro batia na cara do companheiro que
cavalgava atrs. Aquele era o srdido reverso da dourada medalha da
guerra. S uma coisa poderia faz-lo esquecer todas aquelas misrias: um
bom combate. Se no entrassem em ao aquele ms, tudo no passaria
ento duma ridcula, indigna passeata.
  Aproximou-se do lugar onde o arroz fervia numa panela de ferro.  luz
do fogo o dr. Ruas, deitado de bruos, escrevia num caderno escolar.
Rodrigo desconfiava  que o ex-promotor mantinha um dirio de campanha.
  Era uma noite sem lua. Dentro do capo os pitos acesos dos
revolucionrios estavam num apaga-acende que levou Liroca a compar-los
com "filhotes de boitat".
  Bento entregou a seu patro um prato de folha onde fumegava uma rao
de arroz com guisado de charque. Rodrigo comeou a comer com certa
repugnncia.
  Aproximou-se um vulto no qual ele reconheceu Liroca.
  - Est na mesa, major! - convidou.
  - Estou sem fome - disse o velho, sentando-se no cho perto do fogo.
  As chamas iluminavam-lhe o rosto triste. - Mas aceito uma colherada de
arroz...
  Bento serviu-o. Dois homens vieram sentar-se junto de Rodrigo: Chiru e
Neco. Por alguns instantes ficaram todos a comer em silncio. O Liroca
soltou um suspiro  e murmurou:
  - Mundo velho sem porteira!
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  Neco voltou-se para ele e indagou:
  - Que  que h, major?
  - Nada. Por que havia de haver?
  - Rodrigo - perguntou Chiru - quando  que a gente vai pelear? Estamos
ficando enferrujados, eu e a minha carabina.
  Rodrigo encolheu os ombros.
  - Pra falar a verdade j no sei quem  que anda evitando combate, se
os chimangos ou se ns.
  - Napoleo dizia que o movimento  a vitria... - filosofou Liroca,
que lera, relera e treslera Os grandes capites da Histria.
  - Sim - replicou Rodrigo - mas movimento ttico ou estratgico, e no
movimento permanente de fuga...
  Vultos caminhavam  beira do capo. Fazia frio e os homens estavam
enrolados nos seus ponchos.
  Agora se ouvia mais forte o cricrilar dos grilos. De repente uma ave
frechou o ar num vo rpido. Morcego? Urutau? Coruja?
  - Deve ser chimango - disse sorrindo Torbio, que se juntara ao grupo.
  Rodrigo ergueu-se, insatisfeito com o que comera, e se encaminhou para
a barraca do pai. Jamais se deitava sem primeiro ir ver como estava o
Velho.
  Encontrou-o ainda de p, sozinho, a pitar um crioulo. Ao ouvir rudo
de passos, voltou-se:
  - Ah! - murmurou. -  o senhor...
  - Como est se sentindo?
  Licurgo pigarreou, soltou uma baforada de fumaa e depois disse:
  - Bem. No se preocupe.
  Rodrigo teve pena do pai. Aquelas barbas brancas, aquele sbito
envelhecimento o traziam impressionado.
  - s vezes sinto remorsos de ter metido o senhor nesta histria...
  O Velho ergueu a cabea vivamente.
  - Que histria?
  - A revoluo. O senhor no queria vir...
  - Quem foi que lhe disse? Ningum me leva pra onde no quero. Vim
porque achei que devia.
  - Se  assim...
  -  assim. Est acabado. No toque mais nesse assunto. Em seguida,
como que arrependido de seu tom rude, perguntou com voz menos spera:
  - E o senhor vai bem?
  - Muito bem.
  - Pois estimo. Cuide-se.  preciso sair vivo desta empreitada, voltar
pra casa, tratar da sua famlia e da sua vida.
  Seu cigarro se havia apagado. Licurgo bateu a pedra do isqueiro,
prendeu fogo no pavio, aproximou a chama da ponta do cigarro e tornou a
acend-lo. Aspirou longamente  a fumaa e depois soltou-a pelo nariz.
  Rodrigo voltou para a sua barraca, deitou-se e ficou pensando...
Quanto tempo ainda iria durar aquela revoluo? Que estaria acontecendo
nos outros setores do  Estado  onde houvera levantes? Teria Portinho
conseguido reunir muita gente, tomar alguma localidade? Que tipo de
homem seria esse tal de Honrio Lemes? Afinal de contas,  vinha ou no
vinha a interveno federal?
  Revolveu-se sobre os pelegos, procurando uma posio cmoda. Doam-lhe
os rins. Havia muito que se desabituara, na sua vida de cidade, quelas
longas cavalgadas.  Sentia nos ossos, desconfortavelmente, a umidade do
cho. Puxou o poncho e cobriu a cabea. Ouviu a voz do Liroca, que
conversava ali por perto com o Neco e o Chiru.  Houve um momento em que
a voz do Velho se fez ntida: "...dizia o conselheiro: Idias ...ao
metais que se fundem".
  Aqui estou eu - refletiu Rodrigo - sujo, barbudo, dormindo sobre
arreios, enrolado num poncho fedorento... Viu-se a si mesmo na
Assemblia, berrando sua catilinria  contra Borges de Medeiros. Pensou
no dr. Assis Brasil, que devia estar no Rio ou em So Paulo, a fazer
discursos e dar entrevistas, limpinho, quela hora decerto  dormindo
sobre um colcho macio, entre lenis brancos num quarto do melhor hotel
da cidade. Outras imagens lhe passaram pela mente: o Madruga de uniforme
de zuarte...  O Pudim atracado com o Maciste Brasileiro na pista de
danas dos Caadores... De
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  novo pensou na famlia, em Flora e de novo "viu" os olhos de Alicinha
cheios de pavor... "Ele vai morrer!" Ficou um instante a ouvir os
grilos. Lembrou-se de que,  quando menino, ele descobria um certo
parentesco entre os grilos e as estrelas. No. O que ele imaginava era
que se as estrelas fossem bichos e cantassem, sua voz  teria um som
raspante, de vidro, como o cricrilar dos grilos. Bobagens!
  Aquela noite sonhou que, na sua indumentria de revolucionrio, andava
a caminhar por uma rua de Paris, constrangedoramente consciente de seu
aspecto extico e  do  fato de que no tomava banho havia uma semana. Os
que passavam por ele miravam-no com estranheza, franziam ou tapavam o
nariz. E o pior era que ele, Cirano de Cambarac,  tinha um nariz imenso
e era por isso que sentia mais forte o prprio fedor. A rua parisiense
era ao mesmo tempo, inexplicavelmente, um corredor de campanha, entre
dois aramados. Decidiu entrar numa loja para comprar um frasco de
Chantecler para se perfumar. Sentiu que no poderia pronunciar uma s
palavra, pois tinha esquecido  todo o francs que sabia, s se lembrava
que un abb plein dapftit a travers Paris sans soufer. Sua lngua era
de charque e pesava como chumbo. Aproximou-se do  balco, mas j no
estava numa loja da Rue de Ia Paix e sim na casa do Pomplio Fnebres
Pitombo, que preparava um pequeno caixo branco para um anjo. Quis
perguntar  para quem era o esquife, mas o medo da resposta lhe trancou a
voz na garganta. Pitombo, sem olhar para ele, compreendeu a pergunta e
explicou: "Mas no lhe deram  a notcia?  para a finada Alice, sua
me". Ento ele compreendeu que estava rfo e comeou a chorar.
  15
  Maria Valria sempre lamentara que os homens no tivessem juzo
suficiente para resolverem suas questes - as polticas e as outras -
sem duelos ou guerras. No  entanto  no podia ver Aderbal Quadros sem se
perguntar a si mesma por que no estava ele tambm na coxilha, de armas
na mo, ao lado do genro e dos amigos.
  Seria por causa da idade? No podia ser, porque primo Licurgo era mais
velho que o pai de Flora. Por que era, ento? Ela mesma acabava se dando
a resposta: "O  velho   de paz, no gosta de briga". E declarava-se
satisfeita, embora tornasse a se fazer a mesma pergunta na prxima vez
que encontrava Babalo.
  Muita gente em Santa F fazia a mesma pergunta mas nem todos
encontravam a resposta esclarecedora. Na rodinha de chimarro que
continuava a reunir-se todos os  dias   porta da Casa Sol, um dia
algum puxou o assunto.
  - E que me dizem do velho Babalo? Votou no Assis, quer que o Chimango
caia mas no vai pra revoluo.  um p-frio, um covarde!
  O Veiga saltou do seu canto, de cuia em punho:
  - Alto l! - exclamou. - Covarde? Voc no conhece o Babalo como eu.
Se conhecesse no dizia isso. Em 93 ele no brigou,  verdade, mas houve
um combate brabo  na  frente da casa dele, e numa certa hora o Babalo
espiou pela janela e viu um homem cado na rua, sangrando mas ainda
vivo. Pois sabem o que fez? Abriu a porta, saiu,  e no meio do tiroteio,
entre dois fogos, o dos pica-paus e o dos maragatos, as balas passando
zunindo por ele, o velho levantou o ferido, botou o homem nas costas,
voltou pra casa e salvou-lhe a vida. E tudo isso naquele seu tranquito
de petio maceta. Voc acha ento que um homem desses pode ser
considerado covarde?
  A verdade era que muitos sabiam de "causos" que provavam que Aderbal
Quadros no s tinha coragem fsica como tambm presena de esprito e
uma pachorra imperturbvel.
  - Conhecem a histria do velho Babalo com o correntino? E l vinha o
caso. Um dia, no tempo em que ainda fazia
  tropas, Aderbal Quadros entrou numa venda, acercou-se do balco,
cumprimentou alegremente o bolicheiro e os fregueses que estavam por ali
conversando e bebendo,  e pediu um rolo de fumo.
  Um sujeito crespo, bigodudo e mal-encarado, um tal de Pancho
Gutirrez, bebia o seu terceiro copo de caninha. Argentino, natural de
Corrientes, estava refugiado  no Brasil. Tinha fama de valente e de
bandido e dizia-se que estava sendo procurado pela
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  polcia de seu pas como responsvel por nada menos de dez mortes. Ao
ver Babalo, o correntino cutucou-o com o cotovelo e disse:
  - L ofrezco un trago.
  Babalo voltou a cabea e examinou o outro. Pancho Gutirrez tinha mais
marcas na cara do que porta de ferraria, e estava armado de adaga e
pistola.
  Babalo tocou com o dedo na aba do chapu e respondeu:
  - Muitas gracias, vizinho, mas no bebo. O castelhano virou bicho:
  - Pro usted me insulta! - exclamou, mordiscando o barbicacho. Bateu
no balco com o cabo do rebenque e gritou para o bolicheiro: - Otra
cana!
  O bolicheiro serviu a bebida. O castelhano empurrou o copo para perto
de Babalo e, j com a cara fechada, ordenou:
  - Tome!
  Babalo no perdeu a calma.
  - Gracias, mas j disse que no bebo.
  O correntino recuou dois passos e puxou a adaga. O dono da venda
correu para o fundo da casa. Os outros homens foram se retirando. S
dois ficaram a um canto,  neutros,  mas vigilantes.
  - Defndase! - bradou o castelhano. - No peleo con hornbre desarmado!
  A todas estas, brandia a adaga na frente do nariz do outro. Aderbal
pediu-lhe que tivesse calma, pois no pagava a pena brigar por to
pouco. Virou-lhe as costas,  pegou o rolo de fumo e ia sair quando o
Pancho Gutirrez gritou:
  - Covarde! Sinvergiienza! Hijoeputa!
  Babalo sentiu esta ltima palavra como uma chicotada na cara. Estacou,
vermelho, agarrou o copo e, num gesto rpido, atirou a cachaa na cara
do castelhano, e  enquanto  este esfregava os olhos, zonzo, arrancou-lhe
a adaga da mo e, antes que ele tivesse tempo de tirar o revlver,
aplicou-lhe com tal violncia um soco no queixo,  que o correntino caiu
de costas, bateu com a nuca no cho e perdeu os sentidos.
  - V embora o quanto antes! - disse-lhe um dos homens - seno o
castelhano l mata quando acordar.
  Aderbal, porm, j se encontrava ajoelhado ao p do outro, tentando
reanim-lo. Estava desconcertado, infeliz, envergonhado de si mesmo.
  - Ser que lastimei mesmo o moo? Que barbaridade! Sou um bagual!
  Os outros insistiam para que ele fugisse o quanto antes.
  - Vossunc no sabe com quem se meteu. Esse correntino  capaz de l
beber o sangue!
  - E se ele est morto? - perguntou ainda Aderbal.
  - Qual morto! No v que o homem est respirando? V embora, se tem
amor  pele.
  Babalo retirou-se, com relutncia, lentamente. Parou  porta da venda,
voltou-se, soltou um suspiro e murmurou:
  - As coisas que um homem  obrigado a fazer na vida! Os senhores me
desculpem. No tive a inteno. E no faam mau juzo de mim. No foi
nenhuma implicncia da  minha parte.  que no bebo mesmo.
  Montou a cavalo e se foi.
  O esprito pcaro de Aderbal Quadros era tambm muito conhecido em
Santa F. Atribua-se-lhe, entre outros casos, o seguinte dilogo.
Estava o velho picando fumo,  a conversar corn dois moos, quando um
destes lhe perguntou:
  - Qual  a sua opinio sobre a barba-de-bode?
  Babalo entrecerrou os olhos, hesitou um instante, e depois disse:
  - A barba-de-bode  flor de pasto, porque nunca morre nem em tempo de
seca, e assim o gado tem sempre o que comer. Campo com barba-de-bode 
campo mui valorizado...
  Os rapazes se entreolharam espantados sem saber se o velho falava
srio ou no. Aderbal piscou o olho para um tropeiro que os entreouvia.
A conversa mudou de rumo  mas de novo voltou para assuntos campeiros. Um
dos moos perguntou:
  - Seu Babalo, que me diz dos campos do coronel Teixeira? O velho, sem
pestanejar, respondeu:
  - No prestam. Pura barba-de-bode!
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  Disse isso e retirou-se apressado, como quem de repente se lembra de
que tem algo de urgente a fazer.
  Rodrigo j havia observado que, depois de soltar uma piada ou contar o
desfecho duma anedota, o sogro se afastava dos interlocutores, sob
risadas, como um ator  que  sai de cena. Sim, Aderbal Quadros tinha o
senso dramtico, embora nunca houvesse entrado num teatro em toda a sua
vida.
  Caminhava gingando, como se tivesse uma perna mais curta que a outra.
Um dia algum perguntou a dona Laurentina: "Por que  que seu marido
rengueia assim? Algum  defeito na perna?" Ela sacudiu a cabea e
respondeu: "Qual!  pura faceirice do velho".
  Depois de ter sido o estancieiro mais rico da Regio Serrana, Babalo
perdera seu dinheiro, seu gado e seus bens de raz numa sucesso de
negcios infelizes, ficando  sem vintm. Arrendava agora nos arredores
da cidade uma chcara de seis hectares - o Sutil - onde plantava
linhaa, milho e hortalias, criava galinhas e porcos,  e tinha alguns
cavalos e vacas leiteiras. Era l que, no dizer de dona Laurentina, o
marido "brincava de estancieiro". Punha nome de gente nas suas flores e
rvores.  As flores levavam o nome de moas e senhoras de suas relaes.
As rvores eram batizadas com os nomes de grandes homens do Rio Grande.
  Com relao aos negcios, Aderbal Quadros sempre achara o lucro uma
coisa indecente, e dava pouco ou nenhum valor ao dinheiro. Uma das
razes por que perdera a  fortuna  fora seu incurvel otimismo, sua
incorrigvel falta de habilidade comercial, sua inabalvel confiana na
decncia inata do homem. Recusava-se, em suma, a acreditar  na
existncia do mal. Estava sempre disposto a encontrar desculpa para os
que transgrediam a lei. S no tolerava a violncia.
  Vinha dum tempo em que fio de barba era documento, e por isso nos seus
anos de prosperidade emprestara dinheiro sem juros, sob palavra, sem
exigir nenhum papel  assinado.  Isso contribura em grande parte para a
sua runa.
  Aderbal tinha uma grande venerao, um comovido respeito (que
raramente ou nunca se traduzia em palavras, frmulas ou preceitos) por
todas as expresses de vida.  Detestava a brutalidade e tudo quanto
significasse destruio e morte. Jamais caara e no
  permitia que se caasse em suas terras. Acolhia no Sutil todos os
cachorros sem dono que lhe apareciam ou que ele recolhia nas ruas de
Santa F. Curava-lhes a  sarna,  encanava-lhes as pernas quebradas,
pensava-lhes as feridas - conforme fosse o caso - e imediatamente
adotava o animal. Os que lhe conheciam todas essas "esquisitices"
diziam: "Deve ser alguma doena".
  Catlico por tradio, Babalo jamais ia  missa e no levava padre
muito a srio. S entrava em igreja para assistir  missa de stimo dia,
encomendao de defunto,  casamento ou batizado. Acreditava na
existncia de Deus, isso sim, achava que o Velho devia ser "uma pessoa
de bons sentimentos e bem-intencionado" mas que s vezes  por distrao,
excesso de preocupaes ou qualquer outro motivo, descuidava-se da terra
e dos homens, permitindo que aqui embaixo acontecessem injustias e
barbaridades.
  Tinha horror s mquinas, que considerava a desgraa do mundo. Achava
o aeroplano "uma indecncia" e esperava que essa engenhoca jamais viesse
sujar os cus de  Santa  F, pois j bastava o automvel, que fazia
barulho, empestava o ar, e assustava pessoas e bichos.
  Contava-se que nos tempos de tropeiro costumava dormir dentro dos
muros dos cemitrios campestres, por serem esses lugares mais seguros e
em geral abrigados dos  ventos.
  - E se um dia l aparecesse algum fantasma, seu Babalo - perguntou-lhe
algum - que era que o senhor fazia?
  - Ora - respondeu o velho - eu olhava pra ele e perguntava: "Que  que
vassunc ganha com isso, meu patrcio?" O fantasma no achava resposta,
encabulava... e  desaparecia.
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  Naquela tarde de fins de abril, Aderbal Quadros atravessava a praa da
Matriz, rumo do Sobrado, para a sua costumeira visita semanal. Vendo uma
aglomerao na  frente  da Intendncia, pensou: L est o Madruga com
suas potocas. A dar crdito s notcias que o intendente mandava afixar
no seu quadro-negro, os 
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 revoluccionrios andavam de derrota em derrota e a revoluo no duraria nem
mais um ms.
  Parou para bater o isqueiro e acender o grosso cigarro de palha que
tinha entre os dentes. Ficou chupando o crioulo, soltando baforadas,
pensando... Tinha de reconhecer  que apesar de algumas vitrias
animadoras e de algumas localidades ocupadas, o Exrcito Libertador
tivera aquele ms alguns reveses feios. Havia tentado, mas sem  sucesso,
apoderar-se de Uruguaiana. As foras legalistas tinham retomado
Alegrete. O general Honrio Lemes e o dr. Gaspar Saldanha se haviam
desentendido e isso  entre correligionrios, em tempo de revoluo, era
mau, muito mau. A todas essas o diabo da interveno federal no vinha.
O que vinha mesmo era o inverno, que j  se anunciava num ventinho
picante.
  Babalo cuspiu sobre a grama dum canteiro e retomou caminho. Um
cachorro correu para ele e comeou a fazer-lhe festas. Eles me
conhecem... - pensou o velho com  um  sereno contentamento. Acocorou-se;
acariciou a cabea do animal, alisou-lhe o plo do lombo e depois
continuou a andar na direo do Sobrado. Deu uns dez passos,  olhou para
trs e sorriu. O vira-lata o seguia, como ele esperava.
  Quando entrou no redondel da praa viu uma cena que o fez estacar,
chocado. Dois soldados do Corpo Provisrio local, ambos com a espada
desembainhada, perseguiam  um homem que corria a pouca distncia deles.
Babalo apertou os olhos e reconheceu o perseguido. Era Aro Stein. Tinha
perdido o chapu, seus cabelos fulvos lampejavam  ao sol. Aderbal ficou
por um momento sem saber o que fazer. Viu o rapaz tropear e cair de
borco, com a cara no cho. Num segundo os "provisrios" estavam em cima
dele e o mais graduado - um sargento - lhe aplicava com fora um
espadao nas costas. Babalo precipitou-se rengueando na direo dos
homens e, quando o sargento  ergueu a espada para um novo golpe, o velho
segurou-lhe o brao com ambas as mos e manteve-o no ar, ao mesmo tempo
que gritava: "Parem com esta barbaridade!" O  outro soldado levantou o
judeu do cho e prendeu-lhe ambos os braos s costas, imobilizando-o.
Stein arquejava, lvido. Dum dos cantos de sua boca escorria um filete
de sangue. "Bandidos! -
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  vociferou. - Assassinos! Mercenrios!" Babalo reconheceu no sargento,
cujo brao ainda segurava, um antigo peo de sua estncia.
  - Maneco Pereira da Conceio! - exclamou ele, escandindo bem as
slabas. - Filho dum maragato, veterano de 93. Que bicho te mordeu? Como
foi que te botaram essa  roupa infame no corpo? Se teu pai te visse,
morria de vergonha.
  O outro baixou a cabea e o brao.
  - So dessas coisas, seu Aderbal - murmurou.
  - Que crime cometeu este moo? Stein adiantou-se:
  - Querem me levar  fora para o Corpo Provisrio, seu Aderbal. - O
sangue escorria-lhe pelo queixo, pingava-lhe no peito, manchando a
camisa. Uma mecha de cabelo  caa-lhe sobre os olhos. - No vou! Me
recuso! Protesto!
  - Larguem o rapaz - ordenou Aderbal.
  - Estamos cumprindo ordens - explicou o sargento, ainda sem coragem
para enfrentar o ex-patro.
  - Ordens de quem?
  Naquele instante um tenente do Corpo Provisrio, que se aproximara do
grupo, inflou o peito e falou grosso:
  - Ordens minhas!
  Babalo voltou a cabea e mirou o outro de alto a baixo. O rapaz teria
uns vinte e poucos anos, era alto e magro, e estava enfarpelado num
uniforme cortado a capricho,  com talabarte novo; suas botas de cano
alto reluziam. Uma grande espada lhe pendia do lado esquerdo do
cinturo, ao passo que no direito uma Parabellum escurejava,
ameaadora.
  Um grupo de curiosos estava agora reunido em torno daquelas cinco
figuras. Aderbal compreendeu logo que o tenentezinho estava
representando para o pblico. O vira-lata,  a todas essas, continuava a
andar, saltitante, ao redor do ex-tropeiro.
  - Como vais, Tidinho? - perguntou este ltimo. Conhecia o tenente
desde que ele nascera. - Como vai a tua me? Como  que ela te deixa
andar fantasiado desse jeito?
  Ouviram-se risinhos em torno.
  379
  - Meu nome  Aristides - corrigiu o outro, de cenho franzido. E
acrescentou, autoritrio: - Fui eu que dei ordens para agarrar esse
judeu.
  Babalo sorriu, pegou o cigarro apagado que havia posto atrs da
orelha, bateu o isqueiro, acendeu o crioulo e s depois de tirar a
primeira baforada  que, encarando  de novo o oficial, disse com toda a
calma:
  - No sei se te lembras, menino, que h mais ou menos uns ds mil anos
os soldados dum tal de Pilatos agarraram um homem pra maltratar. Esse
homem era tambm um  judeu, tu sabias?
  O tenentezinho deu um passo  frente:
  - Levem esse sujeito pra Intendncia!
  Os olhos de Stein fitaram-se em Aderbal Quadros, que disse:
  - Se levarem ele, tm de me levar a mim tambm.
  - O senhor est me criando dificuldades - murmurou o tenente, j no
muito seguro de si mesmo
  - E o senhor - retrucou Aderbal - est desrespeitando a Constituio!
Vou falar com o comandante da Guarnio Federal.
  Pela expresso dos olhos do tenente, via-se que ele estava indeciso.
Aproximou-se de Stein, ainda numa tentativa de manter sua autoridade, e
exclamou:
  - Vamos!
  Babalo tocou no brao do soldado que prendia Aro Stein:
  - Largue o outro, menino!
  Estas palavras foram ditas num tom de to enrgica autoridade
paternal, que o "provisrio" obedeceu imediatamente. Aderbal tomou do
brao de Stein, olhou para  o  tenente e disse:
  - Sabes duma coisa? Quando tu eras pequeninho te peguei no colo, muita
roupa me molhaste. No me venhas agora com ares de heri, que no te
recebo.
  Disse isso e se foi, conduzindo Stein na direo da calada, sob o
riso dos espectadores. O vira-lata os seguia sacudindo o rabo. O
sargento continuava de olhos  no cho. O soldado parecia muito
desmoralizado.
  - Um momento! - gritou o oficial, levando a mo  espada.
  Babalo voltou-se e, com o cigarro colado ao lbio inferior, disse,
calmo:
  - Cuidado, Tidinho, tu ainda vais te machucar com essa
  arma.
  O tenente ficou vermelho, olhou em torno e, numa satisfao quelas
testemunhas todas, exclamou:
  - Ah! Mas isto no vai ficar assim!
  Saiu, pisando duro, na direo da Intendncia, seguido pelo soldado. O
sargento ficou onde estava, meio encalistrado. Depois, como um conhecido
se aproximasse  dele,  justificou-se:
  - No v que fui peo do seu Babalo. Flor de homem! Mesmo que um pai.
Como  que eu ia desacatar ele? Nem que me matassem.
  E enfiou com muita dificuldade a espada na bainha.
  Aderbal Quadros entrou com Aro Stein no Sobrado e contou s mulheres
o que acabara de acontecer. Flora, toda trmula, fez o judeu sentar-se.
  - Que  isso na boca? - perguntou.
  - Ca e acho que quebrei um dente. Os bandidos me deram um espadao
nas costas.
  Fizeram-no deitar no sof, tiraram-lhe o casaco e a camisa. Sobre a
pele branca, de poros muito abertos, desenhava-se um vergo arroxeado,
que inchava. Maria Valria  gritou para Laurinda que preparasse um caf
para o moo.
  Inclinou-se para examinar o ferimento, sacudiu a cabea e exprimiu
toda a sua pena numa frase:
  - Pobre do Joo Felpudo!
  E em seguida teve mpetos de pegar uma tesoura de tosquiar e,
aproveitando a oportunidade, cortar as melenas do rapaz.
  Poucos minutos depois, Dante Camerino entrou no Sobrado na companhia
de Roque Bandeira. O primeiro examinou Stein com cuidado e por fim
disse:
  - Nada de srio. O pior deve ter sido o susto.
  380
  381
  O judeu parecia muito constrangido por estar seminu diante das
mulheres. Tornou a vestir a camisa, olhou para o doutor e disse:
  - No fiquei assustado, mas indignado.  diferente.
  - Est bem - disse Camerino. - Vamos aplicar umas compressas de gua
vegetomineral nas costas. Faa uns bochechos de gua oxigenada e amanh
v ao dentista.
  Stein ergueu os olhos para Roque e perguntou-lhe em tom fnebre:
  - No quiseram te pegar tambm?
  - Quiseram - sorriu o outro. - Chegaram a me levar  Intendncia.
  Declarei que sou mope e tenho os ps chatos. A primeira declarao 
falsa; a segunda verdadeira. Me soltaram sem fazer exame mdico. Viram
logo que eu ia dar  um  mau soldado.
  Leocdia trouxe o caf, que Stein bebeu tremulamente, em lentos goles
que pareciam descer-lhe com dificuldade pela garganta.
  Dante Camerino transmitiu s mulheres as notcias que tivera aquele
dia da Coluna Revolucionria de Santa F.
  - Reuniram-se provisoriamente s foras de Leonel Rocha, entraram
juntos no municpio de Cruz Alta e tomaram Neu-Wrttemberg. Depois se
separaram e a nossa gente  marchou para lugar ignorado...
  E como lesse uma interrogao ansiosa nos olhos de Flora, acrescentou:
  - No se preocupe. O dr. Rodrigo, o coronel Licurgo, o Torbio e os
outros amigos esto todos bem. A Coluna no teve ainda nenhuma baixa.
  Aderbal Quadros subiu para ver as crianas. Levava-lhes como de
costume caramelos e cigarrinhos de chocolate. No quarto onde os netos
brincavam, ajoelhou-se para  fazer a distribuio. Quando se viu cercado
por Jango, Edu, Slvia e Bibi, pensou satisfeito: Os meus cachorrinhos.
Zeca, como um vira-lata sem dono, aproximouse,  na esperana de receber
tambm sua rao.
  382
  17
  Naquele mesmo dia a Coluna comandada por Licurgo Cambar reentrava no
municpio de Santa F. Rodrigo pensava nas horas que haviam passado em
Neu-Wrttemberg, colnia  alem pertencente ao feudo poltico do general
Firmino de Paula. Tivera l a oportunidade de tomar um banho, comer boa
comida, dormir em cama limpa, e ter mulher...  Havia passado mais de um
ms numa castidade forada que era apenas do corpo, nunca do esprito.
Pensava constantemente em mulher, como um adolescente. Ruminava passadas
aventuras e prazeres.
  Agora aqui estavam de novo nos campos de Santa F, sob um sol dourado,
sem saberem exatamente para onde iam. Em NeuWrttemberg haviam tido
oportunidade de requisitar  armas e munio de boca e de guerra. Torbio
encantara-se numa colona de ancas calipgicas e levara-a para o quarto
de seu hotel, meio  fora, desmentindo pelo  menos em parte os seus
princpios de que para o ato do amor s aceitava "voluntrias". Passara
cinco horas com ela na cama e depois, sempre acompanhado da viosa
companheira, fora para um caf encharcar-se de cerveja. O dr. Miguel
Ruas conseguira organizar um grande baile puxado a gaita e no qual,
ainda arrastando uma perna,  brilhara danando valsas, polcas, mazurcas
e xtis. Tivera um rival srio em Chiru, que as moas pareciam preferir,
pois com sua basta cabeleira e sua flamante barba  loura, grandalho e
exuberante, parecia um viking extraviado no tempo e no espao. Pedro
Vacariano tambm atrara a ateno das moas do lugar, o que deixara
Rodrigo  um tanto irritado, pois sua m vontade e desconfiana para com
o caboclo continuavam.
  E agora, de novo em marcha, Rodrigo recordava todas essas coisas.
Liroca, encolhido sob o poncho, cavalgava a seu lado.
  - Voc fez uma conquista bonita - disse ele aps um longo silncio.
  Rodrigo voltou a cabea:
  - Eu? Como?
  - A dama da casa-grande.
  383
  - Ah!
  Sim, ele arranjara tambm uma "namorada" em Neu-Wrttemberg. E agora
recordava a histria, enternecido... Fora convidado  casa de Frau Wolf,
uma senhora de quase  oitenta anos, viva do mais importante
industrialista do lugar, matriarca dum numeroso cl. Vivia numa grande
casa de madeira, de tipo bvaro, no meio de rvores,  flores, filhos,
filhas, genros, noras e netos; e livros, muitos livros. Recebeu Rodrigo
com uma graa de castel antiga, ofereceu-lhe caf com leite com bolos e
Apfelstrdel, e mais tarde, ao fim da visita, vinho do Reno. Mostrou-lhe
a Bblia da famlia, impressa no sculo XVIII; falou-lhe de seus autores
prediletos e acabou  recitando Heine e Goethe, "para o senhorr sentirr a
msica da lngua alem". Entardecia quando a velhinha se ergueu da sua
poltrona, encaminhando-se para um pequeno  rgo de fole que se achava a
um canto da sala. Sentou-se junto dele, estralou as juntas das mos e
ps-se a tocar um trecho de Bach. Rodrigo estava maravilhado,  com a
impresso de ter entrado num outro mundo. Aquela senhora vestida de
negro, os cabelos brancos penteados  moda do fim do sculo passado, os
mveis, os bibels,  os quadros, a loua daquela casa, o cheiro de
madeira envernizada que andava no ar - tudo lhe evocava uma Alemanha que
ele apenas conhecia atravs da literatura  e de gravuras de revista.
  Ao despedir-se de Frau Wolf, no alpendre, beijou-lhe a mo. E, para
mais uma surpresa sua, as nicas palavras de despedida da velha dama
foram uns versos de Alfred  de Musset, que ele conhecia dos tempos de
academia:
  Beau chevalier qui partez pour Ia guerre, Qu 'allez-vous faire
  Si loin d'ici?
  Voyez-vous ps que Ia nuit est profonde, Et que l monde N'est que
souci?
  Desceu a escada com lgrimas nos olhos.
  384
  Depois dessa comovedora visita - continuava Rodrigo a pensar - fora em
companhia do pai encontrar-se com o general Leonel Rocha, na casa onde
este se hospedava.  O chefe maragato recebeu Licurgo com uma
simplicidade afvel:
  - Pois j tinha ouvido falar no senhor... - disse, ao apertar a mo do
chefe da Coluna Revolucionria de Santa F.
  Licurgo cumprimentou-o friamente. E depois, ao ouvir os elogios
pessoais que o outro lhe fazia, remexeu-se na cadeira, num visvel
mal-estar.
  O comandante federalista transmitiu ao companheiro as notcias que
tinha das operaes em outros setores do Estado. O general Honrio Lemes
andava "fazendo estripulias  l pras bandas do Alegrete". Era vivo e
valente, conhecia o terreno como ningum, e quando a coisa apertava ele
se enfurnava no cerro do Caver, onde o inimigo no  ousava atac-lo.
  - O que tem atrapalhado o homem - continuou Leonel Rocha -  a falta
de munio. O resto ele tem. Ainda h pouco manteve cercada a tropa do
coronel Claudino, mas  no atacou por falta de munio.  uma lstima!
  - E o senhor dum modo geral considera a situao boa para ns,
general? - perguntou Rodrigo, j que o pai se mantinha calado.
  - Pois, amigo, sou um homem rude mas com alguma experincia de
revoluo. Briguei em 93, tenho andado sempre envolvido com esses
pica-paus. Acho que o negcio  at  que vai bem... No ouviram a ltima?
O general Portinho tomou Erexim e deu uma sumanta nos provisrios em
Quatro Irmos. Me informaram que as foras do governo perderam  mais de
cinqenta homens...
  Havia ainda outras boas notcias. Os assisistas tinham tomado Dom
Pedrito, e Zeca Neto por algumas horas ocupara a vila de So Jernimo,
"nas barbas do Borges.  Contou tambm que o caudilho uruguaio
Nepomuceno Saraiva havia invadido o Estado, com um grupo de
compatriotas, tendo se juntado s foras de Flores da Cunha.
  Neste ponto a face do velho guerrilheiro ensombreceu, e foi com voz
velada que ele disse:
  385
 r
  -  uma barbaridade. Aceitarem o auxlio de mercenrios estrangeiros,
para ajudarem a matar nossos irmos!
  - Mas o senhor se esquece - replicou Licurgo - que em 93 os
federalistas pediram o auxlio do bandido Gumercindo, tio desse mesmo
Nepomuceno que agora est ajudando os borgistas...
  Nesse instante Rodrigo gelou. A coisa estava ficando feia... Juquinha
Macedo, que comparecera tambm  conferncia, interveio
providencialmente:
  - A Revoluo de 93 acabou, companheiros, so guas passadas. - E
desconversou: - Me diga uma coisa, general, o senhor acha muito
arriscado atacar Santa F, agora?
  O caudilho de Palmeira olhou pensativamente para a ponta do cigarro e
depois respondeu:
  - Bueno, pode ser meio cedo, mas impossvel no . Ouvi dizer que a
tropa do Madruga, alm de ruim, agora vai ficar desfalcada, pois o
Firmino de Paula lhe pediu  quinhentos homens para guarnecer Cruz Alta e
Santa Brbara...
  De toda a conversa uma coisa ficara, ntida e imutvel. Era impossvel
a incorporao definitiva da Coluna de Santa F s tropas de Leonel
Rocha. Licurgo Cambar  jamais se submeteria ao comando dum federalista.
  Pensando em todas essas coisas, Rodrigo sorria. Desde a pequena
escaramua que haviam tido ao se aproximarem de NeuWrttemberg, o velho
Liroca andava taciturno,  meio arredio. Uma parte da Coluna tinha sido
atacada de surpresa por uma patrulha do Corpo Provisrio de Cruz Alta,
que os obrigara a apear dos cavalos e entrincheirar-se  atrs da cerca
de pedra dum cemitrio. Balas zuniam no ar, uma delas bateu em cheio na
ponta duma cruz, derribando-a. Outra destruiu o ninho que um
joo-de-barro  construra na forquilha duma rvore. Rodrigo brigava com
alegria, atirando com sua Winchester. Era o seu primeiro combate e ele
estava alvorotado, desejando j que  a coisa fosse maior, mais sria.
Liroca, agachado a seu lado em cima duma sepultura rasa, tremia debaixo
do poncho, batia queixo com tanta fora que era possvel  ouvir o rilhar
de seus dentes, apesar das detonaes.
  386
  Que  isso, Liroca? - perguntou Rodrigo em dado momento, sem olhar
para o amigo, e atirando sempre.
  -  a maleita - respondeu o velho, com voz trmula.
  - Te deita, ento.  s uma patrulha. E o esquadro do Bio vem a.
  Voltou-se para seus comandados e gritou:
  - Cessar fogo!
  Corriam agora o perigo de alvejar os prprios companheiros. Ouvia-se o
tropel da cavalaria de Torbio: o cho vibrava como um tambor. O
cemitrio ficava no alto  duma coxilha, e ali de trs da cerca de pedra,
Rodrigo assistiu a um espetculo que lhe fez bem ao peito. Hip! Hip!
Hip! - gritavam os cavalarianos. Atiravam-se  de lanas enristadas em
cima da patrulha legalista, que de repente cessou fogo e precipitou-se,
declive abaixo, largando as armas. O tenente que a comandava foi  o
primeiro a fugir. Ficaram apenas dois soldados de joelho em terra,
atirando ainda. Um deles no tardou a cair. O outro conseguiu derrubar
com um tiro um dos cavalos,  que projetou longe o cavaleiro. Mas o negro
Cantdio, que vinha na frente do piquete, espetou o atirador na sua
lana. J os cavaleiros restantes alcanavam os outros  soldados, que
caam sob o golpe das espadas e lanas. Torbio fez questo de agarrar o
tenente. Laou-o quando ele ia cruzando uma sanga e trouxe-o a cabresto,
coxilha  acima. A encosta estava juncada de feridos e mortos. O lanceiro
revolucionrio que cara do cavalo tinha quebrado o brao. O animal
estava morto. Tiraram-lhe os  arreios e deixaram-no no campo. No havia
ternpo para enterr-lo.
  - Os urubus que tenham bom proveito! - gritou algum. E a Coluna
retomou a marcha na direo de Neu-Wrttem-
  berg, levando os prisioneiros. Tinham agora mais vinte Mausers e
trezentos e cinqenta tiros.
  De quando em quando Rodrigo olhava de soslaio para Liroca. Como era
possvel compreender aquele homem? Tinha pavor de tiro e no entanto
insistira em vir para a  coxilha.  Sua covardia era notria, vinha de
93. Tinha agora idade suficiente para ficar em casa sem desdouro. Mas
recusava-se a isso. Parecia fascinado pelo
  387
  leno encarnado e tudo quanto ele significava. Para ele, decerto, ser
maragato era algo de mgico. Se no tivesse vindo, viveria envergonhado,
sem paz de conscincia.  "No sei como esse velho corao agenta todas
as emoes de guerra" - refletiu Rodrigo. Tornou a olhar para o velho,
dessa vez com admirao, porque de repente  lhe veio uma dvida. Afinal
de contas no seria Jos Lrio o mais verdadeiramente corajoso de todos
eles?
  Quando acamparam aquela noite, Rodrigo discutiu o assunto com Torbio.
Estavam ambos deitados lado a lado, sobre os pelegos, num campo de
craguats. Era uma noite  fria e lmpida.  luz da lua cheia, os pendes
das ervas-brancas pareciam cobertos de neve.
  - Sempre considerei o velho Liroca um homem de valor - disse Torbio,
mordiscando um talo de grama. Depois duma pausa acrescentou: - Te
garanto que o perigo me  d  uma espcie de gozo, como dormir com uma
mulher bonita. Quero dizer: quase...
  Rodrigo j no lhe prestava mais ateno. Olhava para as estrelas e
pensava na filha. Como seria bom t-la agora nos braos, beijar-lhe os
cabelos, nin-la...
  - Estou com uma saudade danada - murmurou ele. - Da Flora, dos meus
filhos, da minha casa...
  - Por isso  bom no ter famlia. Quando um homem pensa na mulher ou
nos bacuris comea a se cuidar e acaba ficando um medroso, no se
arriscando nunca. Sempre  achei  que solteiro briga melhor que casado.
  - Bobagem. E depois, Bio, h no mundo coisas melhores do que brigar.
  - Pode ser... no discuto. Mas o homem sempre tem andado em duelos e
guerras, desde o princpio do mundo. A gente tem de estar preparado.
  - Qual! Ests inventando essa filosofia para justificar teu prazer de
pelear.
  - Pode ser... Mas tu mesmo gostas de brigar, no vais me dizer que
no...
  Rodrigo ficou pensativo por um instante.
  - Confesso que gosto. Palavra, na hora daquele tiroteiozinho me senti
feliz. O que no me agrada  esta sujeira, este desconforto...
  388
  - A vida de cidade te amoleceu. Isso est acontecendo com muitos
filhos de estancieiros. Vo para Porto Alegre, para o Rio, ou para
Paris, como o Terncio Prates,  ficam uns almofadinhas, beijam as mos
das damas, se perfumam, quando voltam trocam a bombacha pelo culote, vm
com inovaes e frescuras... So uns bundinhas, no  valem mais um
caracol. Isso  ruim pr Rio Grande. Compara esta nossa revoluozinha
mixe com a de 93. Naquele tempo, sim, se brigava de verdade, morria mais
gente,  no andava um fugindo do outro. Maragatos e pica-paus iam pra
coxilha pra
  matar ou morrer.
  Rodrigo olhava para a lua.
  - Bom - disse - acho que isso  um sinal de que nossa gente se
humaniza. Ainda no ouvi falar em nenhum degolamento nesta revoluo.
  - Inocente! Tem havido vrios. Menos que em 93, mas tem havido.
Precisamos dar tempo  rapaziada...
  - Brigar  bom, mas matar  horrvel. Mesmo quando se trata de nosso
pior inimigo.  por isso que eu nunca poderia fazer parte do teu
esquadro de lanceiros. Matar  um homem com uma bala, de longe,  uma
coisa. Matar de perto, varar o peito de algum com a lana ou a espada,
sentir quando o ferro entra na carne, ver o sangue,  ah! isso deve ser
pavoroso.
  - No sou nenhum bandido, meu prazer est na ao, no movimento e no
em matar. Mas uma coisa a gente no deve esquecer: se no matamos o
inimigo, ele nos mata.
  - Sabes do melhor? Vamos dormir.
  18
  Maria Valria costumava ler os jornais todos os dias, com os culos
acavalados no longo nariz. Flora gostava de observ-la nessas ocasies.
A velha no podia ler  sem mover os lbios. De vez em quando fazia um
comentrio em voz alta - hum! - encolhia os ombros - mentira! - ou
sacudia a cabea - boa bisca! - e assim por diante...
  389
  Naquela tarde de maio a Dinda lia o Correio do Povo, sentada na sua
cadeira de balano, enquanto Flora bordava a seu lado. As crianas
brincavam no vestbulo,  numa  grande algazarra.
  - Vo pr quintal! - gritou a velha. - No posso ler, com esse
barulho.
  Flora ergueu-se para fazer que os filhos cumprissem a ordem. Ao passar
pela sala de visitas, surpreendeu Slvia sentada na frente do retrato de
Rodrigo, as mos  pousadas no regao, uma nvoa triste nos olhos. Quando
deu pela presena da madrinha, ficou perturbada, como se a tivessem
pilhado a roubar doces na despensa. Flora  compreendeu tudo e
comoveu-se.
  - Minha querida! - exclamou. - Que  que est fazendo aqui sozinha?
Vai l pra cima brincar com a Alicinha.
  Quando voltou para a sala de jantar, minutos mais tarde, Maria Valria
lanou-lhe um olhar por cima dos culos e perguntou:
  - Que bicho ser este?
  - Que bicho?
  A velha tornou a baixar o olhar para o jornal e leu:
  - Habeas-corpus. Todo o mundo est pedindo esse negcio.
  - Ah! Deve ser coisa de advogado. O Rodrigo uma vez me explicou.
Parece que  para tirar uma pessoa da cadeia.
  - Hum...
  Muitos assisistas tinham sido presos em Porto Alegre e outras
localidades do Estado: jornalistas, polticos e gente do povo. A coisa
ficava cada vez mais preta.
  A Dinda ergueu-se, brusca, amassou com raiva o jornal e atirou-o em
cima duma cadeira, como se aquelas folhas de papel fossem os principais
responsveis pela situao  em que se encontrava o Rio Grande e o resto
do mundo. Aproximou-se da janela e olhou para fora.
  - Xii! - exclamou. - Estamos bem-arranjadas...
  - Que foi que houve?
  - A dona Vanja vem nos visitar. Est atravessando a rua...
  Flora sorriu. Maria Valria embirrava com a tia de Chiru. Dona
Evangelina Mena era uma velha limpinha e gil, com algo de passarinho
nos movimentos e no olhar.  Grande  ledora de novelas
  390
  folhetinescas, falava difcil, empregava vocbulos e frases que a
gente em geral s encontra em livros ou notcias de jornal. Era talvez a
nica pessoa em Santa  F que usava palavras como alhures, algures e
nenhures. Nunca pedia silncio; sussurrava: Caluda! Quando queria
estimular algum, exclamava: Eia Sus! - Cspite!  era uma de suas
interjeies prediletas. Para ela povo era sempre turbamulta; me,
genitora; vaga-lume, pirilampo; cobra, ofidio. Tinha seus adjetivos,
advrbios,  substantivos e verbos arrumadinhos aos pares. Aspirao
nunca se separava de ldima. Massa sempre andava junto com ignara. E
podia haver uma coisa preparada que  no fosse adrede? Sorrindo, Flora
foi abrir-lhe a porta. Tinha uma ternura particular por dona Vanja.
Divertia-se e ao mesmo tempo comovia-se com essas peculiaridades  da
velhinha que tanto irritavam Maria
  Valria.
  E ali estava a criatura agora no portal do Sobrado, com seus olhos
azuis de boneca, suas roupas imaculadas, um chapu com flores e frutas
de pano posto meio de  lado  na cabea completamente branca. No rostinho
enrugado e emurchecido, havia ainda uma certa graa e vivacidade de
menina.
  - Olar!
  Flora abraou-a e beijou-a.
  - Entre, dona Vanja. Mas suba devagarinho a escada. Maria Valria
recebeu-a com um simples aperto de mo e
  imediatamente seus olhos de Terra focaram-se, crticos, na tia de
Chiru. Reprovava a maneira como ela se vestia. S faltava botar bananas,
laranjas e abacaxis  como  enfeites no chapu! E verde-claro era l cor
que uma mulher velha e viva usasse?
  Dona Vanja sentou-se, pediu notcias de Licurgo e dos "meninos".
Apesar de ter verdadeira adorao pelo sobrinho, no parecia muito
preocupada por sab-lo na revoluo.  Para ela, aquele movimento armado
era apenas uma espcie de parada. Romntica, s via o lado glorioso das
guerras. Recitava com freqncia O estudante alsaciano,  sabia frases
clebres de grandes generais da histria. Sonhava com ver Chiru voltar
da revoluo feito heri, "feliz, coberto de glria, mostrando em cada
ferida  o hino duma vitria" - como dizia o poema. No lhe passava pela
cabea a idia de
  391
 que seu querido sobrinho pudesse ser morto. Preocupava-se um pouco,
isso sim, com a possibilidade de o "menino" apanhar algum resfriado, a
senhora sabe, "as marchas  foradas nessas estepes do Rio Grande, nos
dias hibernais que se aproximam, as geadas branquejando as campinas
infinitas... enfim, todas essas contumlias da sorte,  inclusive o
perigo de comer alguma fruta verde e ter algum distrbio intestinal, que
Deus queira tal no acontea".
  - E voc como vai? - perguntou-lhe Maria Valria, sem o menor
interesse.
  A visitante disse que ia bem "graas ao Supremo Arquiteto do
Universo". (Era viva dum maom.) Ao dizer estas palavras alisou uma
prega da saia. Depois abriu a  bolsa  bordada de contas de vidro
coloridas e tirou de dentro dela um lencinho rendado recendente a
patchuli. Soltou um suspiro.
  - Mas estou muito triste, hoje... - murmurou.
  - Que foi que aconteceu?
  - No leram ento o Correio do Povo? Flora teve um sobressalto.
  - Alguma notcia ruim?
  - Muito ruim. Morreu a Jacqueline Fleuriot.
  - Quem?
  - Ento no sabem? A personagem principal Da r misteriosa, que o
Correio estava publicando em folhetim. Apareceu hoje o ltimo episdio.
O jovem causdico finalmente  descobriu que a r que ele defendia to
ardorosamente, por pura piedade, outra no era que sua prpria genitora.
Muito tarde, tarde demais! Com a sade minada por  tantas emoes, a
pobre Jacqueline, depois de abraar o filho, entregou a alma ao Criador.
  Maria Valria e Flora entreolharam-se. Uma revoluo convulsionava
todo o Estado, irmos se matavam uns aos outros nos campos e nas
cidades, e ali estava dona  Evangelina  Mena com os olhos cheios de
lgrimas por causa d'A r misteriosa. Era demais! Maria Valria sentiu a
necessidade de faz-la voltar  realidade.
  - Fiz uns quindins hoje de manh - disse. - Voc quer? O rosto de dona
Vanja resplandeceu.
  392
  - Adoro quindins! So como pequenos sis, no  mesmo? ou como
medalhes de ouro de algum potentado asitico, no acha?
  J de p, a outra replicou:
  - No acho. Pra mim, quindim  quindim. O principal  que esteja
bem-feito.
  Pronunciou estas palavras e marchou na direo da despensa.
  19
  No dia seguinte, ao entardecer, o coronel Barbalho apareceu fardado na
casa dos Cambars para dizer s mulheres que, embora a posio do
Exrcito fosse de rigorosa  neutralidade naquela "luta fratricida", ele
considerava seu dever de militar e de brasileiro zelar pela segurana e
tranqilidade de todas as famlias, sem distino  de credo poltico, e
garantir a inviolabilidade de todos os lares, bem como os direitos civis
de cada cidado.
  - No permitirei abusos - disse, sentado muito teso na cadeira. -
Quero saber se posso ser-lhes til em alguma coisa.
  Flora estava comovida com as palavras do comandante da guarnio. No,
no precisavam de nada especial, e ficavam muito gratas... Maria Valria
interrompeu-a:
  - O senhor sabe o que fizeram pr Aro? - perguntou. - Pois ds do dia
que os provisrios quiseram agarrar o rapaz, achamos melhor ele ficar
aqui em casa. Mas,  que  diabo! O vivente no pode passar o resto da
vida escondido atrs de nossas saias.
  O coronel engoliu em seco:
  - J providenciei - disse. - Avistei-me com o coronel Madruga.
Prometeu no s deixar o moo em paz como tambm cessar esse
recrutamento forado, a maneador.
  Fez-se um silncio. Flora no encontrava assunto. O militar tambm no
falava. Maria Valria, que odiava uniformes, esfriava o visitante com a
geada de seu olhar.
  Naquela noite deram a notcia a Aro Stein, que ficou contente por
saber que poderia voltar para casa. Maria Valria tambm
  393
  sentiu um desafogo. Gostava do judeu  sua maneira seca e secreta.
Durante os dias em que o tivera como hspede, impacientava-se ante as
visitas dirias de dona  Sara, que, gorda, duma brancura de queijo
caseiro, e arrastando as pernas de elefante, vinha "lamber a cria".
Ficava a um canto a choramingar, abraada ao filho,  lambuzando-lhe o
rosto de beijos. Maria Valria achava indecentes aquelas demonstraes
exageradas de amor.
   noite, os Carbones tambm apareceram. S dois assuntos despertavam
realmente o interesse de Cario: cirurgia e culinria. Falava de ambos
com o mesmo gosto, a  mesma  gula. As mulheres do Sobrado achavam
difcil manter uma conversao com ele. Santuzza subiu para o andar
superior, logo ao chegar. Costumava fazer dormir as crianas  com suas
canes de bero. Bibi adormeceu logo. Jango recusou-se a deix-la
entrar no quarto. Edu recebeu-a de m catadura, fechou os olhos enquanto
a italiana,  sentada na beira de sua cama, cantava baixinho. Depois de
uns instantes abriu um olho e disse: "No grita que eu quero dormir".
Para Alicinha, que estava deitada  com a boneca ao lado, Santuzza contou
histrias de gnomos, gigantes, prncipes e fadas - aventuras que se
passavam em pases estranhos, onde havia florestas de pinheiros  e
grandes montanhas cobertas de neve.
  Roque Bandeira apareceu pouco antes das nove e ficou a conversar com
Aro Stein no escritrio. Discutiram a revoluo  luz das ltimas
notcias.
  - No vais negar - disse tio Bicho - que mesmo sem levar em conta
princpios e idias, essa revoluo tem seu lado bonito. Revela pelo
menos a fibra da raa. Sabes  que h um menino de quinze anos nas foras
de Zeca Neto e um velho de oitenta e oito com Filipe Portinho? E sabes
que ambos so igualmente bravos? Isso no te diz  nada?
  Stein sacudiu a cabea negativamente:
  - Diz, mas no o que ests pensando.
  - Considera s a fama que est conquistando o general Honrio Lemes. 
um caboclo iletrado, simples, e no entanto se vai transformando num
dolo popular, num grande  caudilho, num smbolo...
  394
  - Fugindo sempre...
  - Nem sempre. Luta quando lhe convm, e isso  de bom general.
Esquiva-se quando no lhe convm lutar. Depois, deves saber que ele tem
pouca munio. Mas o interessante   que o homem deixa o inimigo louco,
desnorteado, com seus movimentos. Quando a gente imagina que o general
Honrio est num lugar, ele surge noutro completamente  inesperado...
  Stein encarou o amigo.
  - No sejas romntico. No sejas obtuso. Esqueces que quem est
morrendo na revoluo  o homem do povo, o que sempre viveu na misria,
passando fome, frio e necessidades.  Morrem porque so fiis aos seus
patres, aos seus chefes polticos, ao seu partido,  cor de seu leno.
O mundo capitalista sempre procurou exaltar, atravs de  seus escritores
assalariados, essa fidelidade estpida a coisas inexistentes, esse
entusiasmo por mitos absurdos. Sabes por qu? Porque isso convm aos
seus interesses.  Que  que o povo lucra com uma revoluo como essa?
  - E no achas que h uma certa beleza no fato de eles brigarem sem
pensar em vantagens?
  - No acho. O erro est exatamente nisso. Deviam pensar em resultados
materiais. Ser maragato ou republicano na verdade no significa nada. As
revolues se fazem  para melhorar as condies sociais. Que  que
esperas dessa revoluo? O voto secreto? Mas de que serve isso se o povo
no se educa, no aprende a usar o seu voto,  a escolher o seu
candidato? O que pode resultar dessa choldra toda  uma mudana de
patro. O povo continuar na mesma, mal-alimentado, malvestido,
infeliz...
  Tio Bicho sorria.
  - No esqueas que ests na casa dum homem que acredita na revoluo e
que, mal ou bem, est na coxilha, brigando e arriscando a prpria vida.
  - Eu sei. Achas que sou um ingrato, que esqueci o que o dr. Rodrigo
fez por mim. No. A coisa  outra. Ele no precisa da minha gratido,
nem acho que a deseje.  Gosto dele como pessoa, mas me sinto com mais
obrigaes para com o povo do que para
  395
  com ele. O dr. Rodrigo  rico, culto, pode fazer pela prpria vida.
Mas os outros...
  Bandeira bocejou, espichou as pernas, afundou o corpanzil na poltrona
de couro.
  - No sei... Pode ser que tenhas razo, mas deves compreender que fui
criado no meio dessa tradio... No sou indiferente a certos valores
gauchescos. Nem todas  as minhas leituras racionalistas conseguiram me
imunizar contra esse micrbio. Quando leio sobre um ato de bravura,
sinto um calafrio. Uma coisa te digo. Tem havido  heris de ambos os
lados. Mesmo esses pobres-diabos pegados a maneador s vezes brigam como
gente grande, morrem peleando, no se entregam. Podes dizer o que
quiseres,  h um aspecto positivo nessa revoluo.
  - Besteiras romnticas de pequeno burgus intelectual. Ests
condicionado, meu filho. Vocs letrados glorificam a guerra, vivem com
essa histria de hinos, bandeiras,  tambores, clarinadas, cargas de
baioneta, etc. Pois os marxistas a esto pra mudar tudo isso. Pode
levar algum tempo, no espero viver suficientemente para ver  a
sociedade nova. Muitos de ns, talvez eu mesmo, seremos sacrificados,
torturados, assassinados... Mas a revoluo socialista vai para a
frente. Isso vai!
  - Sabes que tenho minhas simpatias pelo anarquismo...
  - O que tu s eu sei. Um sujeito preguioso e conformista.
  - Escuta aqui, Aro. At onde acreditas no que ests dizendo?
Refiro-me a acreditar de verdade, do fundo do corao. No podes ser to
diferente de ns, os romantices.  Pertences  mesma gerao. Leste os
mesmos livros que ns. Ouviste as mesmas conversas. O fato de seres
judeu no te torna to diferente. Mas falas com tanta veemncia,  com
tanta paixo, com tanta insistncia, que s vezes acho que o que
procuras no  s convencer os outros, mas tambm a ti mesmo...
  Stein ergueu-se e comeou a andar dum lado para outro, na frente do
amigo.
  - Escuta uma coisa - disse. - E que essas senhoras no me ouam.
Muitos assisistas escrevem e falam como se fossem verdadeiros
libertadores do povo. Na verdade  no  passam de aristocratas
  396
   rurais. Com todos os seus erros e apesar dessas besteiras de
positivismo, Borges de Medeiros est mais perto do ideal socialista do
que esses assisistas  latifundirios  que andam com um leno vermelho no
pescoo. Muitos deles at chegam a sonhar com a volta da monarquia. -
Fez alto na frente do amigo e olhou-o bem nos olhos. - Aposto  como no
sabes que Jlio de Castilhos queria incluir na Constituio de 14 de
Julho um artigo em que se falava na incorporao do proletariado.
  - Fantasias.
  - Sim, fantasias. Mas isso  sempre melhor do que acreditar no governo
duma classe privilegiada de mentalidade feudalista. E te digo mais. O
governo de Borges  de  Medeiros tem favorecido o desenvolvimento da
pequena propriedade. Podes esperar que os grandes estancieiros gostem
disso? Usa a cabea. Tamanho no lhe falta.
  - Est bem, mas devias falar mais baixo. Elas podem estar escutando...
  - Eu sei que me consideras um ingrato, quase um traidor. Talvez um
Judas.
  - Ningum te chamou de Judas.
  - Mas eu sinto que essa  a maneira como vocs os cristos em geral
olham para um judeu.
  - No sejas idiota.
  - O outro dia ouvi dona Maria Valria perguntar a dona Flora,
referindo-se a mim: "Aquele muulmano j saiu do quarto de banho?"
  Roque Bandeira soltou uma risada.
  - Ora, tu conheces a velha. Ela te estima e por isso brinca contigo.
Uma vez te chamou tambm de turco...
  - Ests vendo? Todos esses nomes: turco, muulmano, rabe, e at russo
tm conotao pejorativa. Eu sinto.
  - Pois a  que est o teu erro. Interpretas tudo  tua maneira. s
uma sensitiva. Vives procurando profundidades em coisas que pela sua
natureza so rasas. Ls  nas entrelinhas frases que ningum escreveu.
  Roque Bandeira ergueu-se, ps ambas as mos no ombro do amigo e
murmurou:
  397
  - Antes que me esquea. Qualquer dia destes te prendem, te mandam para
Porto Alegre e te do uma sova de borracha, como j fizeram com outros
comunistas.
  - No tenho iluses. Estou preparado.
  - Ento o que queres mesmo  ser mrtir da causa, no?
  - Sabes que no  nada disso. S o esprito mrbido dum cristo
condicionado ao capitalismo pode pensar uma coisa dessas. A causa que
estou servindo  poltica  e  no religiosa. No queremos lamber as
feridas dos leprosos, como So Francisco de Assis, queremos mas  curar
as chagas sociais sem o auxlio de milagres. No vai  ser fcil, mas
estou preparado para o pior.
  Tio Bicho tornou a bocejar.
  - Acho que vou m'embora.
  - Espera. Saio contigo.
  Encaminharam-se para a sala onde estavam as duas mulheres. Stein
agradeceu-lhes pela hospitalidade e disse que viria buscar suas coisas
no dia seguinte.
  Maria Valria seguiu-o com o olhar at v-lo desaparecer no vestbulo.
Depois que ouviu a batida da porta da rua, resmungou:
  - Esse srio deve ter algum parafuso frouxo na cabea.
  20
  Estava a Coluna de Licurgo Cambar acampada  beira dum lajeado, a
umas seis ou sete lguas de Santa F, quando o Romualdinho Car,
sobrinho de Ismlia, apareceu  um dia montado num tordilho magro e
cansado. Reconhecido por Pedro Vacariano, foi levado  presena do
comandante. Apeou do cavalo com um ar humilde e encolhido e
aproximou-se... Era um caboclo ainda jovem, baixote e trigueiro, de
olhos vivos.
  - Que foi que houve? - perguntou Licurgo. Romualdinho contou que o
Angico fora ocupado por soldados
  do coronel Madruga. O patro franziu o cenho.
  - Quando foi isso?
  - Faz uns quantos dias.
  398
  - Mas quantos?
  - Uns quatro ou cinco.
  Contou que tinha ficado prisioneiro durante algumas horas, mas
conseguira escapar e sara " procura" da Coluna Revolucionria.
  Licurgo, pensativo, mordia o cigarro apagado.
  - Quantos provisrios tem no Angico? Romualdinho hesitou por um
momento.
  - Uns trinta.
  O comandante - informou ainda - era um tenente, moo direito que tinha
tratado bem toda a gente, no permitindo malvadezas nem estragos.
  - S que levaram muito gado, muita cavalhada... - acrescentou, com os
olhos no cho, como se tivesse sido ele o responsvel pela requisio.
  - Levaram pra onde? - peiguntou Licurgo.
  - Pra Santa F ou Cruz Alta. Ouvi um sargento dizer que a tropa do
coronel Madruga foi mandada pra fora da cidade...
  Neste ponto Torbio e Rodrigo entreolharam-se. Puxando o irmo para um
lado, o primeiro murmurou:
  - Acho que chegou a nossa hora. Mas precisamos saber trs coisas
importantes. Primeiro, se essa histria da sada das tropas 
verdadeira; segundo, quanta gente  ficou na cidade; terceiro, quais so
os pontos mais bem defendidos...
  - E como  que vamos descobrir?
  - Mandamos um espio. Rodrigo soltou uma risada.
  - Isso s da cabea dum ledor de Ponson du Terrail! Torbio, porm,
convenceu-o da validade da idia. Juquinha
  Macedo e Cacique Fagundes aprovaram o plano. O problema era encontrar
o espio. Quem poder ser?
  Jac Stumpf ofereceu-se para a misso. O primeiro mpeto de Rodrigo
foi o de recus-lo sumariamente. Como era que aquele alemo com cara de
boc... Mas no! Talvez  por isso mesmo fosse ele a pessoa indicada para
a misso. Alm do mais, era pouco conhecido na cidade.
  399
  Interrogou-o:
  - Achas que vais dar conta do recado?
  - Zim.
  - E sabes o que pode acontecer se eles descobrirem a coisa e te
prenderem?
  - Zim.
  E Jac passou o indicador rapidamente pelo prprio pescoo, num
simulacro de degolamento.
  - Est bem. Quero deixar bem claro que ningum te forou a aceitar a
incumbncia.
  O colono sacudiu vigorosamente a cabea. Durante quase uma hora
inteira Rodrigo e Torbio ficaram a dar-lhe instrues. Devia entrar em
Santa F a cavalo, desarmado,  com um leno branco no pescoo,
procurando dar a impresso de que vinha de uma das colnias.
  - Entra assim com o ar de quem no quer nada - disse-lhe Rodrigo. -
No puxes prosa com ningum. Apeia na frente da Casa Sol, diz que queres
comprar uns queijos,  procura o Veiga, ests compreendendo? Leva o homem
pr fundo da loja e conta quem s, donde vens, e pergunta quantos
soldados o Madruga levou para fora da cidade,  quantos ficaram e onde
esto colocados... Logo que conseguires todas as informaes, toca de
volta pra c. Mas cuidado, que podem te seguir, entendes?
  Jacozinho sacudiu afirmativamente a cabea. De to claros, seus olhos
pareciam vazios.
  No dia seguinte pela manh montou a cavalo e se foi. Rodrigo
acompanhou-o com o olhar at v-lo sumir-se do outro lado duma coxilha.
  - Deus queira que volte.
  O velho Liroca soltou um suspiro e disse:
  - Volta. Deus ajuda os inocentes.
  No dia seguinte ao anoitecer Jacozinho voltou e, ao avistar o
acampamento, precipitou-se a galope, soltando gritos. Vendo aquele
cavaleiro de leno branco, e no  sabendo de quem se tratava, uma
  400
  sentinela abriu fogo. O "cavaleiro misterioso", entretanto, continuou
a galopar e a gritar. Mais tarde a sentinela contou:
  - A sorte  que tenho bom olho. O alemo se riu, os dentes de ouro
fuzilaram e eu disse c comigo: "S pode ser o Jacozinho". Era. Cessei
fogo.
  Jac Stumpf foi levado  presena de Licurgo e dos outros oficiais.
Tudo tinha corrido bem - contou - e ningum suspeitara de nada. O Veiga
informara que realmente  uns quinhentos e cinqenta dos oitocentos
homens do Corpo Provisrio do Madruga haviam sido mandados a reforar a
brigada de Firmino de Paula em Cruz Alta e Santa  Brbara. Haviam ficado
na cidade uns duzentos e cinqenta. Uns cem estavam acampados na entrada
do norte. Uns oitenta montavam guarda  charqueada, na estrada de
Flexilha, no sul. Uns cinqenta e poucos dormiam na Intendncia,
guarnecendo o centro da cidade.
  - E o lado da olaria? Jac abriu a boca.
  - Que olaria?
  - O lado onde se pe o sol?
  O colono quedou-se um instante, pensativo.
  - Ah! Est desguarnecido.
  Quanto ao setor oriental, onde ficavam os quartis, era sabido que
estava dentro da zona neutra.
  - Chegou a nossa hora - disse Rodrigo, olhando em torno para os
oficiais mais graduados da Coluna que se haviam reunido  frente da
barraca de Licurgo. - A tomada  de Santa F, alm de nos proporcionar a
oportunidade de requisitar munio de boca e de guerra, ter um efeito
moral extraordinrio.
  - Mas o senhor j pensou - perguntou um dos Macedos - que em trs
horas os chimangos podem trazer foras de Cruz Alta pra nos
contra-atacar?
  Torbio interveio:
  - Cortaremos as linhas telefnicas e telegrficas. Interromperemos
todas as comunicaes. At que mandem um prprio ao Madruga, mesmo de
automvel, vai levar algum  tempo...
  401
  - E depois - aduziu Rodrigo, pondo na voz um entusiasmo persuasivo -
vai ser um ataque fulminante, de resultados imediatos. No tenho nenhuma
iluso quanto a mantermos  a cidade em nosso poder por muito tempo...
Mas que diabo! - exclamou, abrindo os braos. - Nada mais temos feito
que fugir desde o dia que samos do Angico! Se a  situao continua
assim, seremos esmagados pelo nosso prprio ridculo!
  Fez-se um silncio durante o qual Rodrigo se perguntou a si mesmo se o
seu plano de atacar Santa F nascia mesmo duma necessidade estratgica e
poltica ou apenas  do seu desejo de rever a famlia, voltar  prpria
casa, descansar daquelas marchas infindveis e duras, principalmente
agora que o inverno se avizinhava.
  - Que  que o senhor acha? - perguntou Torbio, encarando o pai.
  Licurgo baixou a cabea, cuspiu no cho entre as botas embarradas,
depois tornou a alar a mirada.
  - A questo no  o que acho. Quero saber a opinio dos outros
companheiros. Temos que estudar direito o plano.
  Passeou o olhar em torno:
  - H algum contra a idia?
  No viu nenhum gesto nem ouviu nenhuma palavra de protesto.
  - Se todos esto a favor, a idia est aprovada. Atacamos Santa F.
  - Tem de ser amanh - disse Rodrigo - no podemos perder tempo.
  - Pois seja o que Deus quiser - murmurou o Velho. Rodrigo sentiu na
orelha o bafo tpido e mido de Torbio,
  que ciciou:
  - Tu sabes que a Ismlia Car est na cidade... O Velho anda louco de
saudade da china...
  21
  Durante quase duas horas discutiram o plano do ataque, diante duma
planta de Santa F estendida no cho. Ficou decidido que
  402
  o coronel Licurgo com setenta homens e toda a cavalhada de remonta
ficariam escondidos nos matos dum lugar conhecido como Potreiro do
Padre, a lgua e meia da  cidade.  Era para ali que o resto da Coluna
convergiria se o ataque fosse repelido.
  - Hiptese que no admito! - exclamou Rodrigo num parntese.
  Continuou a exposio:
  - O senhor, coronel Macedo, com cento e quarenta homens marcha sobre a
entrada do norte, que  onde os chimangos tm o destacamento mais
numeroso. Ataque o inimigo  pela frente, pelos flancos e, se possvel,
pela retaguarda. Deixe os provisrios tontos... O principal  que eles
no possam deslocar gente de l para reforar a  guarnio do centro...
  Juquinha Macedo sacudiu a cabea: entendia.
  - Agora o senhor, coronel Cacique... Leve seus cento e vinte caboclos
e faa as estripulias que puder l pelas bandas da charqueada.
  - Vai no grito - resmungou o Velho, e seus olhinhos inditicos
sorriram.
  - Enquanto vocs atacam as duas entradas principais, eu e o Torbio
com os cento e cinquenta e poucos homens restantes assaltamos Santa F
pelo lado da olaria.
  Licurgo escutava-o, taciturno. Liroca, como de costume, tinha os olhos
lacrimejantes e seus dedos, de pontas amareladas de nicotina,
acariciavam os bigodes grisalhos,  que mal escondiam a expresso triste
da boca. Havia por ali tambm uns jovens tenentes de olhos cintilantes e
gestos nervosos, que bebiam as palavras de Rodrigo.
  - Essa  a parte mais dinmica e arrojada do plano - continuou este
ltimo. - Ser um golpe direto e rpido no corao da cidade. Reconheo
que a coisa toda pode  parecer absurda, mas acho que vai dar resultado.
  Ouviu-se uma voz:
  - Mas por que escolheu o lado da olaria pra esse assalto?
  - Primeiro porque no  provvel que o inimigo nos espere por esse
flanco. Para falar a verdade, eles no esperam ataque de
  403
  lado nenhum, pois o Jac nos contou que corre em Santa F a notcia de
que seguimos para o norte com as tropas do general Leonel Rocha... Outra
vantagem desse  flanco   que ele fica a dois passos da praa e da
Intendncia. Deixamos os cavalos e um peloto na olaria do Chico Pedro e
dali seguimos a p, antes de raiar o dia. Mas  o fator tempo 
importantssimo. Por isso temos de marcar tudo rigorosamente no
relgio...
  Olhou para Torbio, sorriu e, segurando-lhe o brao, acrescentou:
  - O major aqui vai me ajudar com sua famigerada cavalaria. Ambos
voltaram a ateno para o pai, que pitava em silncio,
  com os olhos fitos na planta de sua cidade.
  Um dos capites de Juquinha Macedo perguntou:
  - Mas no acha que duzentos e poucos homens entrincheirados valem por
quinhentos?
  Foi Torbio quem respondeu:
  - Duzentos e poucos homens sim, mas no provisrios agarrados a
maneador.
  O outro deu de ombros.
  - Bom, major, o senhor deve saber melhor que eu. Perguntei por
perguntar.
  Posto ao corrente do plano, Cantdio dos Anjos disse:
  - Qualquer prazer me diverte. E foi afiar a ponta da lana.
  Ainda naquela tarde fez-se com todo o cuidado a diviso das tropas.
Rodrigo escolheu a dedo os homens que ia comandar.  beira do capo,
Neco Rosa ponteava a guitarra  que havia ganho de presente em
Neu-Wrttemberg, enquanto o Chiru andava inquieto dum lado para outro,
mal podendo conter o entusiasmo que lhe vinha de ter sido escolhido
para comandar um dos grupos que assaltariam a Intendncia.
  - Com quem vou? - perguntou Liroca a Rodrigo.
  - Tu ficas.
  - Com quem?
  - Com o velho Licurgo.
  - Mas por qu?
  - Porque sim.
  - No tens confiana em mim?
  - Liroca velho de guerra, algum tem de ficar. No podemos deixar o
comandante sozinho...
  - Por que no me levas? Estou acostumado a marchar e pelear a teu
lado.
  Rodrigo compreendia cada vez menos o major Jos Lrio. Na hora do
combate era tomado duma tremedeira medonha, ficava plido como defunto;
no entanto, insistia  em  enfrentar o perigo. Fosse como fosse, a
atitude do velho enternecia-o.
  - S posso levar comigo gente de menos de quarenta anos - explicou. -
Vai ser uma tarefa dura, temos de correr vrias quadras, pular muros,
cercas...
  Havia uma tristeza canina nos olhos do veterano. Rodrigo abraou-o,
dizendo:
  - No faltar a ocasio, Liroca, tem pacincia.
  Durante aquele resto de dia, Rodrigo andou dum lado para outro,
conferenciando com oficiais, repassando com eles o plano de ataque,
corrigindo ou aperfeioando  pormenores,  respondendo a perguntas,
esclarecendo dvidas. Torbio e o dr. Ruas encarregaram-se da
distribuio das balas, tarefa difcil por causa da diversidade das
armas.
  - Para ser bem-sucedida - disse Rodrigo - a operao no pode durar
mais de duas horas. Qual duas horas! Uma, no mximo.
  Havia um ponto ainda obscuro. Que fariam depois que a Intendncia
fosse tomada? Quem levantou a questo foi um tenente do destacamento de
Juquinha Macedo. Rodrigo  ficou por um momento indeciso. Segurou na
ponta do leno vermelho do rapaz e disse:
  - Olha, companheiro. Isto no  guerra regular e ns no somos
militares profissionais. Temos de confiar nas qualidades de improvisao
de nossa gente. Queres  saber  duma coisa? Vamos primeiro tomar a
Intendncia e depois veremos o que se faz...
  O outro no pareceu muito convencido. Rodrigo apertou-lhe o n do
leno.
  404
  405
  - Escuta aqui. Tudo vai depender de como estiver a luta no norte e no
sul... - Olhou o interlocutor bem nos olhos. - Agora me lembro. s o
campeo de xadrez de  Santa  F, no? Pois esta revoluo, meu filho,
no tem nada a ver com jogo de xadrez.
  O outro sorriu e afastou-se. Mas a pergunta do rapaz deixou ecos no
esprito de Rodrigo. Sim, que faremos depois de tomar a Intendncia? E
por que no perguntar  que faremos depois da derrubada do Chimango? Seja
como for, manana es otro dia, como dizem os castelhanos.
  Antes de ir para a barraca, aquela noite, saiu a andar ao redor do
acampamento, olhando para as estrelas e pensando em que no dia seguinte
poderia dormir em sua  casa, em sua cama, com sua mulher. Sim, no dia
seguinte poderia beijar os filhos... Imaginou-se tambm passando um
eloqente e petulante telegrama ao presidente  da Repblica...
  Deitou-se sobre os pelegos, cobriu-se com o poncho, fechou os olhos
mas sentiu logo que estava demasiado excitado para dormir. Agora lhe
vinham dvidas...
  Ser que esse ataque  um erro? Quantos de meus companheiros podero
morrer? E no vamos sujeitar a grave risco a populao da cidade, a
minha prpria famlia,  mulheres,  velhos, crianas? Ainda  tempo de
desistir. No. Desistir agora seria minar o moral da Coluna. A idia 
boa. Afinal de contas estamos numa revoluo. No podemos  continuar
burlequeando sem rumo pelo campo, como fugitivos da justia. O plano 
bom no s do ponto de vista poltico como tambm do militar. Est
decidido!
  Revolveu-se, encolheu as pernas, meteu no meio delas as mos geladas.
Mas... e se tudo falhar? Encostou a cara na coronha da Winchester que
tinha a seu lado. Amanha  vais trabalhar, bichinha. No. No falha.
  Procurava relembrar a fisionomia do terreno, na entrada da cidade que
dava para o lado do poente. Sim, a primeira tarefa era tomar a olaria
onde ficariam escondidos  at a hora de atacar... Cada um de seus homens
tinha uma mdia de sessenta tiros. Quatro deles estavam encarregados de
cortar os fios telegrficos e telefnicos,  mal chegassem  praa. A
agncia do telgrafo nacional vizi-
  nhava com a Intendncia. A da Companhia Telefnica no ficava longe...
Sim, o plano tinha de dar resultado.
  Mas no seria uma coisa precipitada? Estava lidando com vidas humanas,
no com peas de xadrez. Mas, filho, guerra no  jogo de xadrez. E que
faremos depois de  tomada a Intendncia? Queres saber? Tomamos um banho.
Tomamos um caf. Tomamos... Bom, se no dormir esta noite, amanh
estarei escangalhado.
  Queria fazer parar o pensamento. Intil. Comeou a bater queixo.
Estaria to frio assim? Quem sabe estou com febre? Ou com medo...
Repeliu a idia. Acendeu um  fsforo,  olhou o relgio. Dez e vinte.
Tinha dado ordens para acordarem os homens pouco depois da meia-noite a
fim de partirem em seguida. Tudo vai correr bem, se Deus quiser.  Por
baixo da barraca entrava um ventinho gelado. Pegou a garrafa de cachaa,
desarrolhou-a e bebeu um largo sorvo. Fogo no estmago. Sentiu-se
melhor. Se falhassem,  podia ser o fim da Coluna. Mas no podiam falhar!
Cairiam como demnios em cima dos "chimangos". Tomariam a cidade em
quarenta minutos. Ningum deixara de reconhecer  que era ele quem ia
correr o maior risco. Tirou do bolso do casaco as luvas de pele de
cachorro e vestiu-as. De repente desenhou-se-lhe na mente o cemitrio de
Santa  F: cpulas, frontes, cruzes, cabeas de esttuas por cima de
muros tristes e sujos... L estava dentro do mausolu da famlia Cambar
uma nova placa de mrmore  com letras douradas: "Dr. Rodrigo Terra
Cambar. 1886-1923. Morto em combate pelo Rio Grande". Quis apagar a
imagem. No pde. Ficou com ela impressa nas plpebras...  por quanto
tempo?
  Achava-se sozinho, era noite... Vagueava por entre sepulturas. Houve
um momento em que no soube se estava j dormindo ou ainda continuava
acordado. Sentia os  ps  frios, ouvia o vento tocando sua gaitinha nas
folhas das coroas artificiais, apagando as chamas dos tocos de velas...
Sentiu o cheiro de terra mida, de sebo derretido...  Estava
entrincheirado por trs dum tmulo, o inimigo avanava, as balas
sibilavam, ele queria pegar a Winchester que estava a seu lado, mas no
conseguia mover o  brao, e se dizia a si mesmo que aquilo era um
pesadelo - eu sei! prova de que sei
  406
  407
  
   que me lembro de meu nome, Rodrigo Cambar, estou na minha barraca,
deitado, amanh vamos assaltar Santa F, tomaremos a olaria. . . Que
horas sero, Santo Deus?  Quis tirar o relgio do bolso mas no pde.
Estava paralisado. Sentiu que o inimigo se aproximava... Ouvia (ou
apenas via) seus gritos que se congelavam no ar, tomando  a forma de
flores de neve, e depois se esfarelavam, caam como geada. Os
"chimangos" iam saltar os muros do cemitrio, atirar-se em cima dele...
No, no tenho medo,  s no quero que me degolem. Tenho horror a arma
branca. Me matem com um tiro. Na cabea, para no haver agonia.
  Quis de novo segurar a Winchester: era melhor morrer brigando. Mas no
pde mover um dedo. Um homem estava agora ajoelhado a seu lado, decerto
tirava o faco da  bainha... Rodrigo! Rodrigo!
  Sentiu-se sacudido. Soergueu-se.
  - Quem ?
  - Sou eu, o Neco.
  - Que  que h?
  - Meia-noite. O pessoal est se levantando. Vamos embora. Ergueu-se.
Um suor frio escorria-lhe pela testa.
  - Tive um sonho horrvel - murmurou.
  - Pois eu nem cheguei a fechar o olho.
  Saram. Vultos moviam-se em silncio na madrugada. Havia fogos acesos
no acampamento.
  Bento veio avisar que o churrasco estava pronto.
  22
  Pouco antes das quatro da manh a Coluna chegou a um ponto do Potreiro
do Padre, onde havia uns trs ou quatro ranchos, cujos moradores foram
acordados, postos  ao  corrente da situao e proibidos de deixarem suas
casas sob pena de fuzilamento. (Rodrigo descobrira que Torbio era o
homem indicado para fazer ameaas dessa natureza.)  Os oficiais
reuniram-se num dos ranchos e,  luz
  408
  dum candeeiro de sebo, acertaram os relgios. O ataque devia comear
s seis e meia em ponto.
  s quatro e vinte os destacamentos se separaram e marcharam rumo de
Santa F. Juquinha Macedo dirigiu-se com seus companheiros para a
entrada do norte. Cacique  Fagundes  encaminhou-se com seus caboclos
para a do sul. Estava combinado que s principiariam o assalto quando
ouvissem os primeiros tiros no centro da cidade.
  Ao despedir-se do pai, dentro de um dos ranchos, Rodrigo notou,  luz
amarelenta e escassa, que o Velho tinha os olhos brilhantes de lgrimas.
Seu abrao, porm,  foi seco como de costume, e secas tambm suas
palavras.
  - V com Deus.
  Rodrigo e Torbio saram a cavalgar lado a lado. Havia uma grande paz
nos campos. O cu comeava a empalidecer.
  - Pode ser uma loucura o que vamos fazer - disse Torbio - mas te digo
que estou gostando da farra...
  Rodrigo continuou silencioso. Estava preocupado. De acordo com o
plano, deviam apoderar-se, sem dar um tiro, da olaria do Chico Pedro,
que ficava a dois passos  da  entrada ocidental de Santa F. Era
indispensvel tambm que fizessem aquela marcha sem serem vistos, pois
metade do sucesso do assalto dependia do elemento surpresa.  Era por
isso que tinham evitado a estrada real, seguindo por dentro duma
invernada que Torbio conhecia to bem quanto os campos do Angico.
  Dentro de meia hora avistaram as luzes de Santa F piscando na
distncia. Eram cinco e quarenta quando ocuparam em silncio a olaria. O
oleiro, seus familiares  e  empregados foram tirados da cama. No houve
pnico, nem mesmo entre as mulheres, que ficaram pelos cantos, enroladas
nos seus xales, caladas e submissas. Torbio  achou prudente encerrar
todos os homens, menos o dono da casa, dentro dum quarto.
  - Se vocs ficarem quietos - disse-lhes, antes de fechar a porta a
chave - ningum se lastima. Mas, palavra de honra, capo com este faco o
primeiro que se meter  de pato a ganso, esto ouvindo?
  409
  Rodrigo tranqilizou Chico Pedro:
  - No se preocupe. O senhor, sua gente e seus bens sero respeitados.
  O oleiro sorriu.
  - Nem carece dizer, doutor. Conheo o senhor e toda a sua famlia.
  Mandou preparar um chimarro, que ofereceu a Rodrigo. Era um caboclo
de meia-idade, magro mas rijo. Parecia que  fora de lidar com argila,
sua pele tomara a  cor  do tijolo. Confirmou todas as informaes que
Jac Stumpf trouxera na vspera sobre o Corpo Provisrio de Santa F.
Rodrigo revelou ao oleiro o plano de ataque.  Chico Pedro fez uma careta
pessimista:
  - No vai ser fcil... - murmurou.
  Rodrigo chupou com fora a bomba de prata e depois, meio irritado,
perguntou:
  - Por qu?
  - Sempre acontece alguma coisa que a gente no espera.
  - Sim, mas nem tudo que acontece tem de ser desfavorvel.
  - Isso  verdade...
  - Quantos homens dormem na Intendncia?
  - Uns cinqenta ou sessenta. Passam a noite no quintal. Chico Pedro
tornou a encher a cuia.
  - Dorme algum dentro do edifcio?
  - Acho que s os oficiais. E decerto as ordenanas...
  O oleiro tomava seu chimarro com os olhos plcidos postos em Rodrigo.
  - Outra coisa... - disse, com seu jeito descansado. - Todas as noites
uma patrulha duns dez ou quinze homens anda rondando pela cidade, volta
pra Intendncia mais  ou menos a essa hora e fica ali por baixo da
figueira grande at o clarear do dia...  bom ter cuidado...
  Torbio entrou naquele momento. Tinha estado a esconder a cavalhada.
  - Est chegando a hora... - disse, pegando a cuia que o dono da casa
lhe oferecia.
  410
  Um minuto depois, saram. Galos cantavam. Rodrigo sentiu algo de
cadavrico na madrugada fria e cinzenta.
  Seus homens estavam deitados ou agachados atrs da casa. Alguns deles
pitavam.
  - A ti te toca a parte mais braba - disse Torbio ao Neco Rosa, que,
sentado na soleira da porta, contemplava a estrela matutina, como tantas
vezes fizera nas  suas  madrugadas de serenata.
  - Vai ser duro pra todos. Bio tocou-lhe o ombro.
  - S espero uma coisa. Que sejas melhor guerreiro que barbeiro.
  Neco soltou uma risada. Outros homens que estavam por ali tambm
riram.
  - Est na hora do baile, minha gente! - disse Torbio.
  E os revolucionrios comearam a reunir-se em grupos, de acordo com as
instrues que haviam recebido.
  Rodrigo entregou a um dos Macedos - que insistira em acompanh-lo - o
comando dos vinte homens que ia deixar entrincheirados na cerca de
pedras da olaria.
  - Esta  a nossa base de operaes - explicou. -  pra c que vamos
todos correr se a coisa falhar... Vocs tm de cobrir nossa retirada. E
se, enquanto estivermos  dentro da cidade, algum destacamento dos
chimangos nos atacar por este flanco, abram fogo em cima deles. Mas por
nada deste mundo abandonem esta posio. E fiquem  com o olho na
cavalhada!
  A fora de Rodrigo estava dividida em trs grupos: dois de trinta
homens e um de quarenta. O que estava confiado ao comando de Chiru Mena
devia entrar na cidade  pela rua dos Farrapos e atacar a Intendncia
pelo flanco esquerdo, que nenhuma outra casa protegia. Neco Rosa
comandaria o grupo mais numeroso num assalto  retaguarda  do edifcio,
procurando cair de surpresa sobre os "provisrios", que quela hora
estariam dormindo ou recm-acordados no quintal. Rodrigo levaria seus
soldados pela  rua do Poncho Verde, tomaria com eles posio na praa
para atacar a Intendncia frontalmente. Estava combinado que Neco e seus
comandados teriam a honra de "dar  a primeira palavra". Os outros dois
grupos
  411
  s atacariam depois de ouvirem o incio do tiroteio atrs do reduto
legalista. O esquadro de cavalaria de Torbio foi dividido em dois
piquetes de quinze homens.  O primeiro, sob as ordens de Torbio, devia
penetrar na cidade pela rua das Misses e ficar preparado para entrar em
ao quando fosse oportuno. O segundo, conduzido  por Pedro Vacariano,
ficaria escondido atrs da igreja, e sua interveno dependeria do
desenvolvimento do combate.
  - Cuidado! - recomendou Rodrigo aos companheiros. - No vamos matar
uns aos outros. Quando enxergarem um leno colorado, cautela e boa
pontaria. Por amor de Deus,  no desperdicem tiro!
  Aproximou-se da cerca de pedras e olhou para a cidade que queriam
conquistar. Casas e muros branquejavam no meio do macio escuro do
arvoredo dos quintais. As  torres  brancas da matriz quase se diluam na
palidez do cu, contra o qual se desenhava, dura e sombria como um
capacete de ao, a cpula da Intendncia.
  Rodrigo sentia o corao pulsar-lhe agora com mais fora e rapidez.
Uma secura na garganta fazia-o pigarrear com freqncia.  medida que o
dia clareava, ele ia  distinguindo melhor as figuras dos companheiros.
Ajoelhado  sua direita, Bento segurava o fuzil.  sua esquerda, o dr.
Ruas assobiava baixinho a Valsa dos patinadores.
  - No achas melhor tirar esse poncho? - perguntou-lhe Rodrigo. - Ficas
com os movimentos mais livres.
  - Se tiro este negcio, morro de frio - disse o ex-promotor. Rodrigo
largou por um instante a Winchester e esfregou uma
  na outra as mos geladas. Tirou do bolso o relgio. Seis e quinze.
Ergueu-se e fez um sinal.
  O primeiro grupo que se movimentou foi o do Neco Rosa que desceu com
seus homens a encosta da colina em passo acelerado, numa linha singela.
Sumiram-se entre casebres  e rvores, mas pouco depois tornaram a
aparecer no alto da coxilha fronteira, j na boca duma rua. Rodrigo
estava convencido de que o resultado final da operao  dependeria
principalmente do sucesso daquele assalto  retaguarda da Intendncia.
  412
  Cinco minutos depois, Chiru e seus homens saram da olaria na direo
da rua dos Farrapos, ao mesmo tempo que Rodrigo conduzia os seus para a
do Poncho Verde.
  Torbio e seus cavalarianos foram os ltimos a deixarem a propriedade
de Chico Pedro que, da soleira de sua casa, gritou:
  - Deus l acompanhe!
  De cima do cavalo, Torbio voltou-se e disse:
  - E melhor que Deus fique onde est. E que se cuide das balas
perdidas.
  A estrela matutina aos poucos esmaecia. Um cachorro latiu para as
bandas do Purgatrio.
  23
  Rodrigo chegou um pouco ofegante ao topo da colina. Pesava-lhe
incomodamente a sacola cheia de balas que trazia a tiracolo. Olhou para
trs. O dr. Ruas seguia-o,  rengueando. Bento acompanhava-o de perto.
  Com um gesto, Rodrigo ordenou aos companheiros que fizessem alto. Que
estaria acontecendo com Neco e sua gente? Esperaram, escondendo-se como
podiam... Os galos  continuavam a amiudar. As casas vizinhas estavam
todas de janelas e portas cerradas. De sua posio, Rodrigo viu a
fachada do casaro dos Amarais. Um pensamento  cruzou-lhe a mente. Meu
bisav Rodrigo foi morto num assalto quela casa. Quem sabe se eu...
  O tiroteio que irrompeu naquele momento atrs da Intendncia
cortou-lhe os pensamentos.
  - Comeou a inana! - gritou. - Avanar!
  Precipitou-se na direo da praa. Ouviu-se uma detonao e uma bala
passou zunindo perto de sua orelha direita. Uma outra rebentou o vidro
duma vidraa prxima.  Um soldado os alvejava de uma das caladas da
praa, a uma distncia de meia quadra. Bento ajoelhou-se, levou a arma 
cara e fez fogo. O inimigo tombou de costas  e rolou para a sarjeta. Mas
outros "provisrios" apareceram, dois... trs... mais dois... -
estenderam linha na rua, 
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  agachados, e abriram fogo contra os atacantes. Um destes soltou um grito,
largou a espingarda, baqueou, e o sangue comeou a manar-lhe do peito. Os
outros companheiros,  deitados ou ajoelhados, cosidos s paredes ou
abrigados atrs dos troncos dos pltanos que orlavam as caladas,
atiravam sempre. O tiroteio de sbito recrudesceu.  Chiru e seu
destacamento deviam tambm ter entrado em ao. Dos fundos da
Intendncia vinham gritos e gemidos, de mistura com as detonaes. Seria
j o entrevero?  - pensou Rodrigo, descarregando com gosto sua
Winchester. Mais dois "provisrios" l estavam cados no meio da rua.
Trs outros, porm, surgiram. Balas cravaram-se  nos troncos dos
pltanos ou batiam nas pedras da calada, ricocheteando. O duelo
continuou por uns dois ou trs minutos.
  - Cessa fogo! - gritou Rodrigo. Repetiu muitas vezes a ordem, aos
berros. Tinha avistado o piquete de Torbio, que naquele momento entrava
na praa pela retaguarda  do inimigo. Rodrigo aproveitou o momento de
confuso entre os legalistas e avanou uns dez passos. Alguns
companheiros o imitaram e, da nova posio, presenciaram  uma cena que
lhes encheu os peitos duma feroz exultao. Numa rapidez fulminante, dez
cavalarianos precipitaram-se a galope e caram gritando sobre os
soldados legalistas,  golpeando-os com lanas, espadas e patas de
cavalo. Um dos "provisrios" deixou tombar o fuzil, recuou na calada,
colando-se  parede duma casa e erguendo os braos  na postura de quem
se rende. Um cavaleiro precipitou-se sobre ele e com toda a sua fora,
somada  do impulso do cavalo, cravou-lhe a lana no estmago. Apeou em
seguida, ergueu a perna, meteu a sola da bota no ventre do inimigo,
apertou-o contra a parede e arrancou-lhe a lana do estmago com ambas
as mos. Enquanto isso,  seus companheiros liquidavam os "provisrios"
que restavam. Um deles tinha o crnio partido pelas patas dum cavalo,
outro revolvia-se no cho, espadanando como um  peixe fora d'gua, ao
mesmo tempo que procurava proteger a cabea. Um cavalariano tirou o
revlver, apontou para baixo e meteu-lhe uma bala na nuca. O ltimo
"provisrio"  que ainda resistia conseguiu disparar o fuzil e atingir um
dos revolucionrios, que tombou nas pedras da rua j manchadas de
sangue,
  mas teve ele prprio o ventre rasgado por um golpe de espada e saiu
cambaleando na direo da calada, segurando com ambas as mos as
vsceras que lhe escapavam  pelo talho.
  Torbio esporeou o cavalo e aproximou-se do irmo. A ponta de sua
lana - uma lmina de tesoura de tosquiar - estava viscosa de sangue. E
havia em seu rosto uma  tamanha e to brbara expresso de
contentamento, que foi com certa dificuldade que Rodrigo conseguiu
encar-lo.
  - O caminho est limpo, minha gente! - gritou Bio. - Toquem pra
diante, mas cuidado, que tem uma patrulha de chimangos na frente da
Intendncia!
  Puxou as rdeas do cavalo, f-lo dar uma meia-volta e sair a. galope
na direo do piquete.
  - Avanar! - bradou Rodrigo. E ps-se em movimento, seguido dos
companheiros. No havia tempo para hesitaes ou excessivas cautelas.
Precipitaram-se a correr  rumo  do centro da praa e tomaram posio
atrs de rvores. De rasto e sob as balas, Rodrigo avanou uns quinze
metros, por cima dum canteiro de relva, e abrigou-se atrs  da base de
alvenaria do coreto. Olhou para trs e viu dois companheiros feridos...
ou mortos? Os outros estavam bem abrigados e atiravam, como ele, contra
a patrulha  de "provisrios" que se encontrava no meio da rua,  frente
da Intendncia, sob o comando dum tenente. Rodrigo estudou a situao.
Teve a impresso de que o Neco  e seus homens haviam conseguido mesmo
pular para dentro do quintal do casaro, onde a fuzilaria e a gritaria
continuavam. Vislumbrou lenos vermelhos em ambas as  torres da igreja,
de onde uns trs ou quatro revolucionrios atiravam contra as janelas do
segundo andar da cidadela do Madruga, cujas vidraas se partiam em
estilhaos.
  O inimigo mais prximo encontrava-se a uns cinqenta metros, protegido
pelo busto do fundador da cidade, em cuja cabea de bronze duas balas j
tinham batido.  Havia  ainda outros soldados - uns cinco ou seis -
entrincheirados atrs dos bancos de cimento ao longo da calada. Essa,
parecia, era uma posio vulnervel, visto como  j estavam sendo
atingidos pelos revolucionrios que atiravam das torres da igreja e por
uns dois ou trs atacantes - com toda
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  415
 a ccerteza gente do Chiru - que os alvejavam do alto do telhado duma
casa,  esquina da rua dos Farrapos.
  O tenente legalista gritou para seus homens que recuassem. E ele
prprio, de pistola em punho e sem interromper o fogo, comeou o
movimento de retirada. Rodrigo  procurou derrub-lo, mas sem sucesso. As
janelas e portas da fachada da Intendncia continuavam cerradas, o que
dava a entender que a maioria de seus defensores  estava engajada na
luta que se travava na retaguarda e no flanco esquerdo do edifcio.
  Rodrigo ouviu um tropel e voltou a cabea. O piquete de Pedro
Vacariano atravessava a praa, a todo o galope. Baleado, um dos cavalos
testavilhou, atirando o cavaleiro  longe, para cima duns arbustos.
  - Cessa fogo! - berrou o Vacariano. Mesmo naquele momento de confuso
e perigo, Rodrigo no pde evitar um sentimento de irritao. "Quem 
esse caboclo para me  dar ordens?" Mas parou de atirar. Viu Cantdio dos
Anjos de lana em riste tomar a dianteira do piquete. Ao passar por ele
o negro gritou:
  - A coisa est mui demorada, doutor. Vamos liquidar esses mocinhos!
  E, seguido de Torbio e de mais dois cavalarianos vindos do outro
setor da praa, lanou-se contra os "provisrios", que se achavam agora
na calada da Intendncia,  atirando sempre, mas j sem pontaria,
tomados de pnico ante a inesperada carga.
  - Abram a porta! - gritou o tenente. Repetiu o pedido trs vezes. A
porta abriu-se, o oficial entrou correndo, um de seus soldados tombou
sobre o portal, enquanto  os outros companheiros caam sob golpes de
lana e espada. E antes que a porta se fechasse, Cantdio entrou a
cavalo, casaro adentro, derrubou com um pontao de  lana na nuca o
"chimango" que corria na sua dianteira, e, sem deter a marcha, levou o
cavalo escada acima - trs, quatro, cinco degraus... Do alto do primeiro
patamar,  ao lado dum busto do dr. Borges de Medeiros, o tenente
legalista parou, voltou-se, ergueu a Parabellum e fez fogo. Cantdio
tombou de costas e ficou estatelado no  pavimento do vestbulo. O
tenente subiu mais quatro degraus e l de cima, j quase no segundo
andar, meteu duas balas
  no corpo do cavalo, que rolou escada abaixo, sangrando, e caiu em
cheio sobre o corpo do preto.
  Torbio e Rodrigo entraram juntos na Intendncia, a p, seguidos de
quatro companheiros. Saltaram por cima dos cadveres do cavaleiro e do
cavalo e galgaram os  degraus  ensangentados.
  - Cuidado! - disse Rodrigo. - Pode haver muita gente l em cima.
  Torbio estacou, murmurando:
  - O tenente matou o Cantdio. Preciso pegar esse bichinho. - Rodrigo
quebrou com a coronha da Winchester o vitral em forma de ogiva que havia
por trs do busto  e  espiou para o quintal, onde o combate tinha
cessado. O cho estava juncado de corpos. Em muitos deles viam-se lenos
colorados. Avistou tambm o Neco, que dava ordens  a seus homens para
alinharem contra o muro os inimigos que acabavam de aprisionar. Cobria o
cho um lodo sangrento.
  Torbio subiu mais trs degraus e gritou para cima:
  - Entreguem-se! - Sua voz foi amplificada pela boa acstica do
vestbulo. - O combate terminou! Larguem as armas e desam de braos
levantados!
  Seguiu-se um silncio durante o qual s se ouviu o pipocar dum
tiroteio longnquo. Torbio repetiu a intimao. Vieram vozes do
corredor do segundo andar.
  - S'entreguemos.
  - Pois venham! - gritou Rodrigo. E preparou a Winchester. Outros
companheiros estavam ali no primeiro patamar tambm de armas em punho.
Ouviram-se passos. No primeiro  soldado que apareceu, Rodrigo reconheceu
o Adauto. No pde conter a indignao:
  - Cachorro! - vociferou.
  O homenzarro baixou os olhos e todo o seu embarao se revelava num
ricto canino. Apareceram mais trs "provisrios", todos descalos e de
braos erguidos. Por  fim  surgiu com passos relutantes um capito.
Torbio e Rodrigo o conheciam. Era o Chiquinote Batista, um subdelegado
do Madruga.
  - Algum mais l em cima?
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  - S o tenente - respondeu Chiquinote com voz fosca.
  - Onde?
  - No gabinete do intendente. Torbio mediu o capito de alto a baixo:
  - Pois  uma pena que no seja o prprio Madruga quem est l...
  - No faltar ocasio - replicou o subdelegado com rancor na voz e no
olhar.
  - Nessa esperana vou viver, capito - suspirou Torbio. Depois,
voltando-se para os companheiros, disse: - Tomem
  conta desses "valientes", que eu tenho uma entrevista marcada com o
tenente, l em cima...
  Recarregou o revlver, fez girar o tambor com uma tapa, engatilhou a
arma e subiu os degraus que faltavam para chegar ao segundo piso. Como
Rodrigo o seguisse,  Bio  voltou-se e pediu:
  - Me deixa. Dois contra um  feio.
  Parou diante da porta entreaberta do gabinete do intendente e bradou:
  - Quem fala aqui  o Torbio Cambar. A Intendncia foi tomada. No
adianta resistir. Entregue-se, tenente!
  De dentro veio uma voz rouca de dio:
  - Pois vem me buscar se s homem, maragato filho duma puta!
  Torbio no hesitou um segundo. Meteu o p na porta e entrou,
agachado. Ouviram-se quatro tiros em rpida sucesso. Depois, um
silncio. Rodrigo ergueu a Winchester  e correu para dentro. Encontrou o
irmo de p, inclume, junto da parede, sob o grande retrato do dr.
Jlio de Castilhos.
  - O menino era valente mas tinha m pontaria - disse Torbio. - Foi a
minha sorte.
  O tenente estava morto, cado atrs da escrivaninha do intendente, com
uma bala na testa.
  - Sabes quem ? - perguntou Rodrigo. Bio sacudiu a cabea lentamente.
  - O Tidinho da dona Manuela. Nunca dei nada por ele. Parecia um
bundinha como tantos. No entanto...
  418
  Naquele momento surgiu  porta um dos cavalarianos de Torbio, que
contemplou o cadver com ar grave e, depois de olhar longamente para os
prprios ps descalos,  perguntou:
  - Major, posso ficar com as botas do moo?
  Rodrigo gritou que no. Seria uma indignidade, uma profanao.
  - Deixa de bobagem! - replicou Bio. - Nosso companheiro anda de p no
cho, o inverno est chegando. E depois, no lugar para onde foi, o
tenente no vai precisar  de botas. Nem de poncho. No inferno no faz
frio.
  24
  Rodrigo abriu uma das janelas. Na praa agora clara de sol, alguns de
seus companheiros andavam a recolher os feridos e a contar os mortos.
Jazia no meio da rua  o cadver dum "provisrio", e de sua cabea,
partida como um fruto podre, os miolos escorriam sobre as pedras. O
tiroteio continuava nas duas extremidades de Santa  F. Algum acenava
com um leno vermelho, no alto duma das torres da matriz. Em contraste
com aquele espetculo de violncia e absurdo, o cu era dum azul puro e
alegre, e a brisa fria, que soprava de sueste, trazia uma fragrncia
orvalhada e inocente de manh nova.
  Rodrigo olhou ento para o Sobrado pela primeira vez desde que entrara
na sua cidade. No sentiu o menor desejo de rever a famlia, de voltar 
casa. Estava barbudo,  fedia a suor e sangue. O combate no lhe causara
nenhum medo, mas sim uma exaltao que, cessado o fogo, se transformara
em asco e tristeza. No se sentia com coragem  para entrar em casa
naquele estado. Tinha a impresso de que era um pesteado: no queria
contaminar a mulher e os filhos com a sordidez e a brutalidade da
guerra.
  A cabea lhe doa duma dor rombuda e surda; era como se o sangue
estivesse a dar-lhe socos nas paredes do crnio. E, no meio desse pulsar
aflito, comeava agora  a ouvir, absurdamente, a melodia ftil do Loin
du bal.
  419
  Seus olhos continuavam fitos no Sobrado. "Naquela casa, por trs
daquelas paredes esto tua mulher e teus filhos. Basta que atravesses a
praa, batas quela porta  e digas quem s... E ters nos braos as
pessoas que mais queres neste mundo." Era estranho, mas permanecia frio
ante aquela possibilidade. A violncia que presenciara  e cometera
deixava-o como que anestesiado.
  Fez meia-volta e desceu. O Loin du bal continuava a soar-lhe na
cabea, obsessivamente. Estacou no primeiro patamar da escadaria, mal
acreditando no que seus olhos  viam. Uns trinta e poucos "provisrios"
completamente nus subiam as escadas, de mos erguidas, e guardados por
um tenente e quatro soldados revolucionrios de pistolas  em punho. Ao
avistar Rodrigo, o tenente gritou:
  - Vamos encerrar estes anjinhos na sala do jri! Idia do capito
Neco.
  Entre os "provisrios" Rodrigo vislumbrou caras conhecidas. Os
prisioneiros passavam de cabea baixa, uns trs ou quatro mal continham
o riso, mas os restantes  estavam  todos srios, entre constrangidos e
indignados. Era deprimente ver aqueles homenzarres peludos passarem
assim despidos, numa aura de bodum, com os rgos genitais  a se
balouarem passivos e murchos num grotesco espetculo de impotncia, que
para muitos deles devia equivaler a uma espcie de castrao branca.
  Recostado ao busto do presidente do Estado, Rodrigo por alguns
instantes ficou assistindo ao desfile, enquanto o gramofone infernal
continuava a tocar o Loin du  bal dentro de seu crnio. Desceu depois
para o primeiro andar e lanou um rpido olhar para o corpo de Cantdio.
O cavalo lhe havia esmagado o trax e os membros  inferiores. O rosto do
negro ganhara uma horrenda cor acinzentada, seus olhos estavam
exorbitados e dos cantos da boca saam dois filetes de sangue coagulado.
  Rodrigo encontrou Neco no quintal. Ao v-lo, o barbeiro veio a seu
encontro, abraou-o e disse:
  - Foi uma beleza, menino! Pegamos a chimangada meio dormindo, muitos
deles de calas arriadas. Se no fossem uns sacanas que estavam
acordados e armados dentro  da  Intendncia, eu tinha tomado esta joa a
pelego, sem disparar um tiro!
  420
  - Quantos homens perdemos?
  Neco enfiou os dedos por entre a barba.
  - Da minha gente? Morreram quatro. Uns dez esto feridos, mas s dois
em estado grave, que eu saiba.
  Apontou para os mortos, que mandara estender debaixo duma ramada, a um
canto do quintal. Rodrigo reconheceu dois de seus companheiros. L
estava Jac Stumpf, a  cara  lvida, a boca aberta, os dentes de ouro 
mostra... Estendido a seu lado, o caboclo Joo tinha ainda no pescoo o
trapo que tingira em sangue de boi. E seus ps  enormes e encardidos de
terra erguiam-se como duas entidades que tivessem vida prpria - duas
coisas sinistras na forma, na cor e no sentido, um misto de animal  e
vegetal. Aqueles ps pareciam ainda vivos e tinham uma qualidade
singularmente ameaadora. Rodrigo olhava para eles como que hipnotizado.
  Passou o leno pelo rosto que um suor frio umedecia e, sem prestar
ateno ao que Neco Rosa lhe dizia, encaminhou-se para fora da
Intendncia. Parou na calada,  estonteado. A luz do sol lhe doa nos
olhos. Para onde quer que se voltasse, via corpos cados. Aos poucos ia
calculando o preo daquela aventura. O cadver do "provisrio"
continuava tombado sobre a soleira da porta. Ningum se havia lembrado
de remov-lo dali. Era mais fcil passar por cima daquela coisa.
  Ajudado por um companheiro, Bento vinha trazendo nos braos um ferido.
Era o dr. Miguel Ruas. O ex-promotor tinha j uma palidez cadavrica e
de sua boca entreaberta  escapava-se um dbil gemido.
  - Um balao na barriga - murmurou Bento. - Pelo rombo acho que foi
bala dundum.
  Entraram no vestbulo da Intendncia e depuseram o ferido no cho,
sobre um poncho aberto. Com outro poncho Rodrigo improvisou-lhe um
travesseiro.
  Naquele momento ouviu-se uma risada e, pouco depois, passos
precipitados na escada. Rodrigo ergueu os olhos. Era Torbio, que
exclamava:
  - Vem ver que espetculo!
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  Puxou o irmo pelo brao e levou-o para fora. Apontou para o centro da
praa. Um homem dirigia-se para a Intendncia, tendo numa das mos um
pau com uma bandeira  branca na ponta, e na outra uma maleta. O dr.
Carbone! Vinha metido no uniforme cor de oliva dos bersaglieri. As
plumas de seu romntico capacete fulgiam ao sol.  Ao avistar os irmos
Cambar, apressou o passo. Ao chegar  calada, largou a bandeira,
atravessou a rua correndo, caiu nos braos de Rodrigo, beijou-lhe ambas
as  faces e, de olhos enevoados, no seu cantante dialeto
talo-portugus, deu notcias do Sobrado - ah! carino, iam todos bem, a
Flora, a vecchia, os bambini, todos!  e como era belo ver os dois
fratelli juntos e vivos e fortes. Torbio puxou-o para dentro da
Intendncia, dizendo:
  - Est bem, doutor, depois falamos nisso. No temos tempo a perder. H
muitos feridos, alguns em estado grave.
  Carbone explicou que deixara Dante Camerino, Gabriel e Santuzza na
farmcia preparando tudo. Sugeriu que os feridos fossem removidos o
quanto antes para a Casa  de  Sade, onde poderiam ser atendidos com
mais eficincia. Ergueu a bolsa e declarou que ali trazia apenas o
necessrio para o primo socorso.
  - Veja ento primeiro o Miguel - pediu Rodrigo. Conduziu-o at onde
estava o ferido. O dr. Carbone tirou o capacete, p-lo em cima duma
cadeira, despiu o casaco,  arregaou as mangas e ajoelhou-se junto do
doente, erguendo o poncho que o cobria. Miguel Ruas abriu os olhos,
reconheceu o mdico e murmurou:
  -  o fim, doutor!
  - Ma chel
  O ferido balbuciou que estava com sede e com frio.
  O suor escorria-lhe da testa para as faces muito brancas, cuja pele se
retesara de tal maneira sobre os ossos, que se tinha a impresso de que
o ex-promotor havia  emagrecido de repente. O nariz estava afilado e
como que transparente, e os lbios pareciam apenas riscos arroxeados.
  Torbio apanhou o capacete de bersagliere, galgou o primeiro lance da
escadaria, e enfiou-o na cabea do busto do presidente. Voltou depois
para a praa e ordenou  a seus soldados que levassem os feridos para a
Casa de Sade.
  422
  - Chimango tambm? - perguntou um sargento.
  - Claro, homem! Mas levem os nossos, primeiro.
  O dr. Carbone chamou Rodrigo para um canto do vestbulo e murmurou-lhe
ao ouvido:
  - Poverino! Uma violenta hemorragia interna. Um caso perdido.
  - Quanto tempo pode durar?
  O mdico encolheu os ombros. Depois tirou da bolsa uma seringa e
preparou-se para dar uma injeo de morfina no paciente. Sob o poncho, o
ex-promotor batia dentes,  e seus olhos aos poucos se embaciavam.
Rodrigo ajoelhou-se junto do amigo e segurou-lhe a mo gelada e mida. E
ficou ali at o fim.
  25
  Eram quase oito horas da manh quando o ltimo ferido ri removido
para a Casa de Sade, onde o dr. Dante Camerino ajudava o dr. Carbone a
fazer os curativos.  O  hospital tinha apenas doze leitos e, entre
revolucionrios e legalistas, havia mais de trinta feridos. Trs deles
morreram antes de poderem ser atendidos.
  Houve um momento em que Dante, desesperado, gritou:
  - Por amor de Deus, tragam mais mdicos!
  Suas palavras morreram sem eco. E ele continuou a trabalhar. O ar
cheirava a ter, iodofrmio, suor humano e sangue. Gabriel, o prtico de
farmcia, andava plido  dum lado para outro, como uma mosca tonta, e
no sabia para onde ir, porque se o dr. Carbone lhe pedia uma coisa -
"Gaze! algodo! iodo! sbito, Gabriele!" - o dr.  Camerino gritava por
outra - "Depressa, homem! Categute! Outra ampola de leo canforado!" De
instante a instante Gabriel saa para a rea da farmcia e ficava por
alguns segundos encostado  parede, a um canto. Um revolucionrio que o
observava cochichou para outro:
  - O moo, de to assustado, ficou com as orina frouxa.
  O corpo do ex-promotor continuava no mesmo lugar onde expirara, a um
canto do vestbulo de mrmore da Intendncia, cujas
  423
  escadarias tantas vezes ele subira nos dias de jri, no seu passo leve
de bailarino. Ningum tentou sequer remover os cadveres de Cantdio dos
Anjos e de seu  cavalo.  Havia coisas mais urgentes a fazer.
  - Que  que h por a pra gente comer? - perguntou Torbio a Vacariano
no quintal, no meio dos "provisrios" mortos que ainda atravancavam o
cho.
  - Charque e farinha.
  - Pois mande preparar essa porcaria e sirva pra nossa gente. Devem
estar com uma broca medonha.
  Depois saiu a procurar o irmo pelas dependncias do palacete
municipal. Como no o encontrasse, imaginou que ele tivesse ido bater 
porta do Sobrado. Chiru,  porm,  lhe informou:
  - O Rodrigo est ajudando o Carbone e o Camerino a cuidar dos feridos.
Descobriu de repente que tambm  mdico.
  Vendo o irmo assim to preocupado com os mortos e os feridos, Torbio
resolveu tratar dos vivos e dos vlidos. Contou os homens que lhe
sobravam. Dos cento e  cinqenta  que haviam atacado a Intendncia,
restavam ainda noventa e nove em condies de continuar peleando. A
coisa no tinha sido to feia assim...
  Despachou duas patrulhas de reconhecimento, uma para o norte e outra
para o sul. Queria saber exatamente o que se estava passando naqueles
dois setores. Chegara   convico de que no poderiam manter por muito
tempo as posies tomadas.
  Mandou arrombar uma loja de secos e molhados ali mesmo na praa e
tirou dela vrias dezenas de latas de conserva, sacos de acar e sal,
queijos, salames, mantas  de charque e alguns ponchos e chapus. Deixou
em cima do balco uma requisio firmada com seu prprio nome. Meteu
todas essas coisas e mais os cinqenta fuzis e  os dez cunhetes de
munio tomados aos "provisrios" dentro duma carroa que havia no
quintal da Intendncia. Atrelou-lhe dois cavalos e destacou dois de seus
homens  no s para montarem guarda  preciosa carga como tambm para
conduzirem o veculo em caso de retirada.
  Pouco depois das nove, Rodrigo foi procurado na Casa de Sade pelo
coronel Barbalho. Apertaram-se as mos num grave silncio e a seguir
fecharam-se no consultrio.
  - Estou aqui como comandante da praa... - comeou o militar.
  - Compreendo, compreendo - disse Rodrigo com impacincia, procurando
evitar um intrito intil.
  - Tenho ordens de manter a guarnio federal na mais rigorosa
neutralidade...
  Calou-se. Na pausa que se seguiu, Rodrigo ouviu o tiroteio longnquo,
agora mais ralo.
  - Dr. Rodrigo, sou seu amigo, que diabo! No vou negar, c entre ns,
que a sua causa me  muito mais simptica que a do governo do Estado.
  Calou-se de novo. Rodrigo tinha j engolido trs comprimidos de
aspirina, mas a dor de cabea continuava. E a hora que ele passara a
coser barrigas, a pinar veias,  a tamponar hemorragias, s tinha
contribudo para aumentar-lhe a dor e o mal-estar.
  - Seu irmo - prosseguiu o coronel Barbalho - quis ocupar o telgrafo
e cortar as linhas. No permiti.  um prprio federal e portanto zona
neutra.
  - Compreendo.
  Rodrigo tinha a impresso de que seu crnio estava forrado de dor. As
tmporas latejavam-lhe com uma intensidade estonteadora.
  - Quer que lhe fale com toda a franqueza? - perguntou o militar. -
Acho que a posio dos senhores  insustentvel.
  Rodrigo sabia que o outro dizia uma verdade, mas perguntou:
  - Por qu?
  - O destacamento provisrio que guarnece o setor sul resiste e seus
companheiros, doutor, tiveram muitas baixas. Acho que em breve tero de
retirar-se, se  que  j no comearam...
  - No acredito que o coronel Cacique se retire sem antes me
comunicar...
  - Pois ento prepare-se para uma m notcia. O coronel Cacique est
morto. Foi dos primeiros que caram num ataque frontal estpido que fez
contra uma trincheira  de pedras.
  Rodrigo franziu a testa. O outro sacudiu a cabea lentamente:
  424
  425
  - E no setor norte a coisa no vai melhor para os revolucionrios, meu
amigo. Os provisrios no cederam um metro de terreno. Tenho
observadores de confiana em  ambas as zonas de operaes.
  - E que  que o senhor quer que eu faa? O outro encolheu os ombros:
  - No tenho nenhum direito de lhe ditar uma conduta. S espero que no
se sacrifique e no sacrifique seus companheiros inutilmente. Em poucas
horas as foras  legalistas  de Cruz Alta podem chegar e ento a
superioridade numrica de seus inimigos ser esmagadora.
  Novo silncio. Rodrigo teve mpetos de gritar: "J deu seu recado,
no? Pois ento v embora!" Limitou-se, porm, a olhar para o outro,
mudo, e com um ar de quem  declara finda a entrevista. O militar
estendeu a mo, que Rodrigo mal apertou.
  - Tem alguma coisa a me pedir, d r. Cambar?
  Rodrigo meneou a cabea: no tinha. O outro fez meia-volta e
preparou-se para sair. Junto da porta, voltou-se:
  - Pode ficar tranqilo. Farei que seja respeitada a vida e a dignidade
dos feridos revolucionrios que ficarem para trs. J dei ordens a trs
mdicos militares  para virem ajudar o dr. Carbone e o dr. Camerino.
Abrirei nosso hospital a todos os feridos sem distino de cor poltica.
  Rodrigo nada disse, no fez o menor gesto. E quando o outro saiu, ele
ficou a olhar fixamente para as pontas das prprias botas manchadas de
barro e sangue.
  Entre dez e meia e onze horas as patrulhas regressaram. A que
explorara o setor do sul conseguira estabelecer contato com soldados de
Cacique Fagundes, que haviam  confirmado a morte do chefe e o malogro de
trs ataques contra as posies dos legalistas. As notcias do setor do
norte eram tambm desanimadoras. Romualdinho Car  trouxe um recado de
Juquinha Macedo. A munio escasseava, tinham tido muitas baixas, o
pessoal estava cansado e o remdio era bater em retirada para evitar
desastre  maior.
  As onze e vinte o tiroteio cessou por completo em ambos os setores.
Rodrigo congregou todos os seus homens no redondel da
  426
  praa e ali combinou com eles a maneira como deviam retirar-se. O
companheiro que estava de vigia numa das torres da matriz anunciou que
avistara um peloto de  "provisrios"  que se deslocava da zona da
charqueada e tomava a direo da olaria.
  Ficou decidido que um pequeno piquete de cavalaria tomaria a
dianteira, seguido da carroa, a qual seria protegida por quatro
cavalarianos. Finalmente, os restantes  se retirariam em grupos de dez.
Torbio com seu piquete ficaria para trs a fim de proteger-lhes a
retaguarda. A primeira etapa seria a olaria. A segunda, o Porreiro  do
Padre. A terceira... s Deus sabia.
  - Tomara que o caminho esteja desimpedido - murmurou Chiru quando o
piquete de vanguarda se ps a caminho, comandado por Pedro Vacariano.
  Poucos minutos depois ouviu-se um tiroteio. Torbio olhou para o homem
que estava  boleia da carroa e gritou:
  - Toque pra frente na direo da olaria. E no pare nem por ordem do
bispo!
  A carroa arrancou e se foi sacolejando sobre as pedras irregulares do
calamento. Torbio deu de rdeas e juntou-se aos seus cavalarianos.
Rodrigo, montado no  cavalo  que pertencera ao capito Chiquinote,
carregou a Winchester, lanou um rpido olhar na direo do Sobrado,
esporeou o animal e saiu a galope.
  O tiroteio continuava.
  26
  E prolongou-se durante todo o resto da tarde, com intermitncias.
  Por volta das quatro horas espalhou-se na cidade a notcia de que os
revolucionrios tinham tido sua retirada cortada por uma companhia de
"ps-no-cho" mas que,   custa de pesadas baixas, haviam conseguido
romper as linhas inimigas e chegar  olaria. Era l que estavam agora
entrincheirados, resistindo...
  Algumas pessoas arriscaram-se a sair de suas casas, vieram para a
praa, onde ficaram a examinar os vestgios do combate: as 
  427
  manchas de sangue nas pedras, na grama, na terra; as vidraas
estilhaadas; os buracos de bala em muros e paredes... Ficaram
principalmente na frente da Intendncia  a contemplar num silncio cheio
de horror os cadveres do dr. Miguel Ruas, de Cantdio dos Anjos e do
cavalo deste ltimo, que haviam sido removidos do vestbulo  do palacete
e atirados ali no meio da rua. O ex-promotor tinha cerrados os olhos, de
plpebras arroxeadas. Os do negro, porm, estavam arregalados e pareciam
de  gelatina. Um major do Corpo Provisrio, homem retaco e de aspecto
faanhudo, surgiu  porta da Intendncia e dirigiu aos curiosos um
pequeno discurso: "Esses bandoleiros  tiveram o castigo que mereciam. -
Apontou com a ponta da bota para o cadver do dr. Ruas. - Aquele ali nem
gacho era. Meteu-se na revoluo s pra matar e roubar.  O negro, esse
degolou muito republicano em 93. Deus sabe o que faz. Agora precisamos
pegar os Cambars e os Macedos e os Amarais, trazer eles pra c e
degolar todos  debaixo da figueira. Pra no serem bandidos. J me
encarreguei do Cacique Fagundes. - Deu uma palmada no cabo da
Parabellum. - Um tiro na boca. A esta hora o velho  est pagando no
inferno as malvadezas que cometeu na terra". O pblico escutou-o em
silncio. Moscas andavam em torno do focinho do cavalo. Uma delas pousou
em cima  do olho do negro. Outra passeava ao longo do nariz do
ex-promotor.
  Para as bandas da olaria o tiroteio continuava, mas dbil, com longos
intervalos. Na Casa de Sade os mdicos trabalhavam sem cessar. Os novos
feridos que chegavam  - recolhidos por praas do Exrcito - eram levados
diretamente para o Hospital Militar, onde lenos de vrias cores se
misturavam. Vendo-os passar em padiolas, sangrando  e gemendo, Cuca
Lopes, que sara de casa cosido s paredes, plido, murmurou: "Credo! 
o fim do mundo". Algumas mulheres das redondezas entraram furtivas na
igreja  e ali ficaram a rezar o resto da tarde. De vez em quando um
projtil rebentava a vidraa de alguma casa cujas janelas estavam
voltadas para o poente. Correu a notcia  de que uma bala perdida matara
um velho que atravessava uma rua.
  Pouco antes das cinco, Aderbal Quadros encilhou o cavalo, montou-o e -
contra todas as recomendaes da mulher - 
  428
  tocou-se para a cidade ao tranquito do tordilho. Foi direito ao Hospital
Militar, entrou e examinou todos os feridos, um por um. Fez o mesmo
depois na Casa de Sade,  onde Camerino e Carbone, de to ocupados,
cansados e tontos, nem sequer deram por sua presena. Saiu aliviado. No
encontrara entre os feridos nenhum parente ou  amigo chegado. Tornou a
montar e dirigiu-se para o Sobrado. Um soldado do Corpo Provisrio
atacou-o, exclamando: "Alto l!" "Ora no me amole, guri - disse o velho
- tenho mais o que fazer." E continuou seu caminho, enquanto o soldado
resmungava: "Esse seu Babalo  um homem impossvel". Sem descer do
cavalo, Aderbal Quadros  abriu o porto do Sobrado, entrou e apeou no
quintal. Subiu a escada de pedra que levava  porta da cozinha, na qual
bateu. "Sou eu, o Babalo!" A porta entreabriu-se  e na fresta apareceu a
cara da Laurinda. Aderbal entrou, perguntando: "Onde est essa gente?"
Encontrou as mulheres e as crianas reunidas na sala de jantar. Flora
atirou-se nos braos do pai e desatou o pranto.
  Maria Valria contemplava a cena com o rosto impassvel.
  - Eu j disse pra ela que no adianta chorar.
  Aderbal, porm, acariciava os cabelos da filha, murmurando:
  - Adianta, sim. Chore, minha filha, chore que faz bem ao peito.
  Bibi, Edu e Alicinha romperam tambm a choramingar. Esta ltima estava
abraada  boneca, em cujas faces suas lgrimas caam e rolavam. Sentado
a um canto, enrolado  num cobertor, Floriano mirava o av com olhos
graves. Jango brincava distrado com um osso, debaixo da mesa.
  - Essa menina no comeu nada o dia inteiro... - disse a velha. - Est
nesse desespero desde o raiar do dia, quando o tiroteio comeou.
  Aderbal fez a filha sentar-se, e ela quedou-se a olhar para ele com
uma expresso de medo e tristeza nos olhos machucados. Quando conseguiu
falar, perguntou se  o  marido havia tomado parte no ataque.
  Babalo, que agora tinha numa das mos um pedao de fumo em rama e na
outra uma faca, respondeu:
  429
  - Acho que sim. O Rodrigo no  homem de ficar pra trs.
  - Ser que... ? - balbuciou ela. Mas no teve coragem de terminar a
pergunta.
  - Corri todos os hospitais - contou o velho. - Teu marido no est em
nenhum deles. Nem o Licurgo. Nem o Bio. Nenhum de nossos amigos.
  Ficou de cabea baixa a picar fumo. Depois acrescentou:
  - Por enquanto o que se sabe  que os revolucionrios esto
entrincheirados na olaria, cercados pelas foras do governo.
  Maria Valria tinha conseguido fazer cessar o choro das trs crianas.
Houve na casa um silncio durante o qual se ouviu o tiroteio longnquo.
Depois o velho amaciou  com a lmina da faca uma palha de milho,
derramou sobre ela o fumo picado, enrolou-a e prendeu-a entre os dentes.
Bateu o isqueiro, acendeu o cigarro, tirou uma  baforada e disse:
  - Preciso sair. Algum tem de cuidar dos mortos.
  27
  O tiroteio cessou por completo ao anoitecer. Chegou ento  cidade a
notcia de que os revolucionrios haviam conseguido romper o cerco e
fugir para o interior  do  municpio.
  O coronel Lao Madruga e duzentos homens voltaram de Cruz Alta, vindos
num trem expresso, e desfilaram pela rua do Comrcio ao som de tambores
e cometas. De muitas  janelas, homens e mulheres acenavam para a
soldadesca. Havia j ento muita gente nas caladas. Algumas casas,
porm, permaneciam de portas e janelas cerradas.
  Rojes subiram na praa e explodiram no alto, quando as tropas
chegaram  frente da Intendncia. Ouviram-se vivas e morras. Estrelas
apontavam no cu plido da  noitinha.
  As luzes da cidade, porm, continuavam apagadas. Um capito veio
contar ao coronel Madruga que, ao se retirarem, os revolucionrios
haviam depredado a usina eltrica,  e que possivelmente Santa F teria
de passar muitas noites s escuras.
  430
  - Vndalos! - exclamou o major Amintas Camacho ao ouvir a notcia. -
No se contentam com matar, saquear casas de comrcio, roubar,
assassinar pessoas indefesas!  Destroem a propriedade do povo!
  Na praa escura moviam-se vultos. Aos poucos voltavam ao centro da
cidade as tropas legalistas que haviam cercado e atacado a olaria.
Sabia-se agora com certeza  que houvera baixas pesadas de
  lado a lado.
  Nas ruas, quintais, telhados, terrenos baldios e valos entre a praa
da Matriz e a propriedade de Chico Pedro, havia guerreiros de ambas as
faces cados, muitos  ainda com vida. E na cidade s escuras saram as
patrulhas do Madruga, tropeando nos mortos e localizando os feridos
pelos gemidos. Em breve uma notcia espalhou-se  por Santa F, num
sussurro de horror, e chegou aos ouvidos do comandante da Guarnio
Federal: "provisrios" degolavam os feridos que encontravam com um leno
vermelho  no
  pescoo.-..
  O coronel Barbalho irrompeu na Intendncia, fardado, a cara fechada,
os lbios apertados e, sem cumprimentar o coronel Madruga, foi logo
dizendo:
  - Responsabilizo o senhor pela vida dos feridos e dos prisioneiros
revolucionrios. Fui informado de que seus soldados esto degolando os
inimigos que encontram.   uma monstruosidade que no permitirei!
  Madruga cofiou o bigodo, puxou um pigarro nutrido, e, com
  voz apertada, replicou:
  - Sua obrigao, coronel,  ficar neutro.
  - Neutro em face da revoluo mas no do banditismo! No esquea que
tenho foras para reprimi-lo.
  - Quem degola so os maragatos. Saquearam a cidade, mataram gente,
estragaram a usina.
  Levou-o a ver o cadver do tenente Aristides, Mostrou-lhe os corpos
dos soldados legalistas estendidos no quintal. O coronel Barbalho
murmurou:
  -  a guerra. No me refiro a isso. Os prisioneiros e os feridos tm
de ser respeitados.  uma lei internacional.
  431
   
  Fez-se um silncio tenso.
  - Pois o senhor fica avisado - tornou a falar o comandante da
guarnio. - J mandei patrulhas do Exrcito por essas ruas, para que a
lei seja cumprida. Se seus  homens criarem qualquer dificuldade, meus
soldados tm ordem de abrir fogo...
  - Pois veremos... - disse Madruga. E ficou olhando para o outro num
desafio.
  Separaram-se sem o menor gesto ou palavra de despedida.
  E nas horas que se seguiram, a busca de mortos e feridos continuou 
luz das estrelas e de uma que outra lanterna eltrica. Os mortos do
Corpo Provisrio foram  levados  para a Intendncia; os da Coluna
Revolucionria trazidos para a praa,  frente do Sobrado, e estendidos
sobre a relva dum canteiro. Chegavam aos poucos, em padiolas  carregadas
por soldados do Exrcito. Um tenente focava no rosto do morto a luz de
sua lanterna e, ajudado por um sargento que tinha nas mos um caderno e
um lpis,  tratava de identific-lo. Revistava-lhe os bolsos na
esperana de encontrar algum documento que lhe revelasse o nome. Era uma
tarefa difcil. Em sua maioria aqueles  homens no traziam consigo
papis de nenhuma espcie. Alguns possuam retratos de pessoas da
famlia com inscries no verso. Na fivela de metal do cinturo de um
deles, viam-se as duas iniciais dum nome. Em dois ou trs corpos
encontraram-se cartas pelas quais foi possvel descobrir-lhes a
identidade.
  Maria Valria saiu do Sobrado enrolada no seu xale, com uma lanterna
acesa na mo e ps-se a andar lenta e metodicamente ao longo das trs
fileiras de cadveres.  Parava diante de cada um, ajoelhava-se, erguia a
luz para ver-lhe a cara, mirava-a longamente, depois sacudia a cabea.
No o conhecia. Graas a Deus! E passava  ao defunto seguinte. Na sua
maioria estavam barbudos, o que lhe dificultava um pouco a
identificao. Com uma das mos a velha prendia as pontas do xale; com a
outra  segurava a lanterna: ambas estavam geladas. Soprava um ventinho
frio, que vinha das bandas da Sibria.
  432
  Outras mulheres andavam por ali a examinar os mortos. De vez em quando
uma soltava um grito e rompia num choro convulsivo. Decerto tinha
descoberto o cadver do  marido, do noivo, do irmo ou do filho...
  Maria Valria chegou ao ltimo daqueles corpos sem vida com uma
sensao de alvio. No encontrara nenhum de seus homens.
  Alguns dos cadveres foram levados para as casas de parentes ou
amigos. Chico Po deixara a padaria e estava agora do lado de Maria
Valria a resmungar: "Que desgraa!  Que desgraa!" E choramingou tanto,
que a velha o repreendeu: "Pare com isso! No precisamos de carpideira".
  Um vulto aproximou-se. Era Aderbal Quadros. Contou que vinha duma nova
visita aos hospitais. Entre os revolucionrios feridos encontrara apenas
um conhecido: o  Neco  Rosa, que recebera um balao na coxa e havia
perdido muito sangue.
  - Se salva? - perguntou a velha.
  - Acho que sim.
  Maria Valria voltou para o Sobrado, onde Flora dormia placidamente,
depois duma injeo sedativa que o dr. Camerino lhe aplicara.
  s onze da noite, a busca de mortos e feridos foi dada como finda.
Babalo contou os assisistas mortos que jaziam ainda sobre o canteiro.
Havia um total de vinte  e dois. Os feridos estavam sendo atendidos nos
hospitais, mas algum precisava cuidar dos defuntos, dar-lhes um velrio
decente. No podiam ficar atirados ali na  praa, como cachorro sem
dono...
  Bateu  porta da casa do vigrio, tirou-o da cama e perguntou-lhe se
podiam velar os mortos na matriz.
  - No - respondeu o sacerdote. - No me meto em poltica.
  Era um padre de origem alem e falava com um sotaque carregadssimo.
  - No  caso de poltica, vigrio, mas de caridade crist.
  - Cumprirei minha obrigao encomendando os mortos amanh, sem
distino de partido. Nada mais posso fazer.
  433
  Babalo contou a histria a Maria Valria que, depois de breve,
reflexo, decidiu:
  - Traga os defuntos pr nosso poro. Afinal de contas so gente do
primo Licurgo.
  Soldados do Exrcito ajudaram Babalo a transportar os corpos para o
poro do Sobrado, onde Chico Pais, Laurinda e Leocdia acenderam todas
as velas que encontraram  no casaro.
  Maria Valria achou que o dr. Miguel Ruas, como "hspede da casa"
merecia um velrio especial, e mandou levar seu cadver para o
escritrio. Chamou ao Sobrado  Z  Pitombo e encomendoulhe todos os
"apetrechos" necessrios para a cmara-ardente. Meia hora depois,
encontrou o corpo do ex-promotor dentro dum fino atade, ladeado  por
quatro grandes castiais, onde ardiam crios.  cabeceira do caixo
erguia-se um Cristo de prata. A velha olhou tudo com seu olhar morno e
depois chamou Pitombo   parte.
  - No carecia tanto luxo - murmurou. - Afinal de contas,  tempo de
guerra. Qualquer caixo de pinho servia.
  Aderbal fumava em silncio, pensando no dilogo que mantivera havia
pouco com o Chico Pedro da olaria, que encontrara entre os feridos do
Hospital Militar.
  - Mas que  isso, vivente? Eu no sabia que eras maragato.
  - Qual maragato! - respondeu o oleiro com voz dbil. Fora ferido no
peito. Estava plido, a testa rorejada de suor. - Nunca me meti em
poltica. S sei fazer tijolo...
  - Bala perdida?
  Chico Pedro sacudiu a cabea negativamente e depois, entre gemidos,
contou:
  - Estavam brigando... ai-ai-ai! dentro da minha propriedade. Eu no
podia ficar... ai!... todo o tempo parado... de bra-braos cruzados...
Quando vi aquela rapaziada  linda de leno colorado... caindo e
morrendo, fiquei meio incomodado... Vai ento... ai!... peguei uma
espingarda e comecei tambm a dar uns tirinhos...
  Olhando agora para o corpo de Miguel Ruas, Aderbal recordava as
palavras do oleiro. "Fiquei meio incomodado..." Decerto o que havia
levado o ex-promotor  revoluo  tinha sido um 
  434
  sentimento idntico ao do Chico Pedro. Fazendo com a cabea um sinal na
direo do morto, Maria Valria murmurou:
  - Ser que tem pai e me vivos? Ou alguma irm? Precisamos avisar os
parentes...
  Babalo sacudiu lentamente a cabea. A velha soltou um suspiro breve e
exclamou:
  - Pobre do Antnio Conselheiro!
  28
  Laurinda reuniu a negrada da vizinhana e  meia-noite em ponto
romperam todos num tero em inteno s almas dos mortos. Rezavam de p,
com os rosrios nas mos.
  Um vento gelado entrava pela porta entreaberta, fazendo oscilar a
chama das velas. Havia uma ao lado de cada defunto. Os corpos estavam
estendidos no cho de terra  batida, em duas fileiras iguais.
  Roque Bandeira e Aro Stein, que tinham passado boa parte da noite a
ajudar os mdicos na Casa de Sade, achavam-se agora junto do corpo do
ex-promotor. Cerca  da  uma da madrugada, quando, terminado o tero,
Laurinda subiu, Maria Valria mandou-a servir um caf, que o judeu e tio
Bicho tomaram ali ao p do morto, comendo po  quente trazido pelo Chico
Pais, de sua padaria. Babalo dormia deitado no sof da sala de visitas,
enrolado num poncho. Maria Valria de quando em quando subia para
"espiar" Flora e as crianas; depois voltava para o escritrio, ficava
sentada a um canto, os braos cruzados sob o xale, um braseiro aceso aos
ps.
  Desde que haviam chegado ao Sobrado, Stein e Bandeira discutiam a
personalidade de Miguel Ruas.
  - No compreendo - disse o primeiro pela dcima vez. - Palavra que no
compreendo.
  Aproximou-se do defunto, como se esperasse dele uma explicao. Roque
Bandeira sorriu:
  - Mas quem compreende?
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  - Este homem nunca foi poltico, no era pica-pau nem maragato...
Vinha de outro Estado. No tinha nada a ganhar com essa revoluo... No
entanto meteu-se nela,  lutou com bravura e acabou perdendo a vida.
  - Fale mais baixo - repreendeu-o Maria Valria.
  -  verdade que o Madruga mandou dar-lhe uma sova... - prosseguiu
Stein, num cochicho. - Se levssemos a coisa pra esse lado, talvez
encontrssemos uma explicao.
  Tio Bicho ria o seu riso meio guinchado de garganta.
  - E por que no pensar num ato gratuito? Ou num puro gesto de
cavalheirismo... ou de cavalaria?  porque essas coisas no cabem no teu
esquema marxista?
  - Ora! Elas no passam de invenes dos literatos pequeno-burgueses.
  Stein comeou a esfregar as mos e a caminhar dum lado para outro. Da
praa vinham vozes. O vento, soprando agora com mais fora, sacudia as
vidraas: era como  se  o casaro batesse dentes, com frio.
  - Bem dizia a velha Bibiana - murmurou Maria Valria, mais para si
mesma que para os outros: - "Noite de vento, noite dos mortos".
  Seguiu-se um silncio. Stein ps-se a andar ao redor do atade.
  - De que serviu o sacrifcio deste homem? - perguntou, parando na
frente de Roque. - No achas que ele podia ter usado melhor a sua vida e
a sua morte?
  O outro deu de ombros. O judeu continuou:
  - Quando  que todos esses pica-paus, maragatos, borgistas,
assisistas, monarquistas vo descobrir que esto se matando e se odiando
por causa de mitos?
  - Mas a coisa no foi sempre assim, desde que o mundo  mundo?
  - O que no  razo para a gente achar que no pode mudar tudo.
  Tio Bicho abriu a boca num prolongado bocejo. Stein tirou do bolso um
caderno e entregou-o ao amigo.
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  - Aqui est outro mistrio. Encontrei este negcio no bolso do dr.
Ruas. Pensei que era um dirio de campanha.
  - E no ? - perguntou Roque, aproximando o caderno da chama de um dos
crios e folheando-o sem muita curiosidade.
  - No.  um amontoado de bobagens, quadrinhas mundanas, pensamentos.
Olha o ttulo: Ao ouvido de Mlle. X. H uma pgina que foi escrita
ontem, v bem, na vspera  do ataque  cidade. Escuta: "Atacaremos Santa
F amanh. Penso em ti, nos teus olhos de stira,  lrio de Florena.
Olho para as estrelas e relembro a noite em  que te enlacei pela cintura
e samos rodopiando ao som duma valsa de Strauss". Nenhuma palavra sobre
os horrores da guerra, as durezas da campanha, a possibilidade  da
morte...
  Stein cruzou os braos, olhou para o defunto e depois para o amigo.
  - Agora quero que me expliques. Como  que esse moo ftil, que usava
p-de-arroz, que vivia preocupado com bailarecos, roupas, gravatas,
brilharetes sociais foi  se meter nessa revoluo e brigar como um
homem? Est tudo errado.
  - Est tudo certo - sorriu o Bandeira, devolvendo o caderno ao outro.
- E, seja como for, o homem est morto. Devemos respeit-lo.
  - Pois eu prefiro respeitar os vivos enquanto esto vivos, j que
podemos impedir que eles morram em guerras insensatas como essa. Ou que
vivam uma vida indigna,  mais como bichos do que como seres humanos,
como  o caso da maioria da nossa gente. Esse  o respeito que todos
devem ter. O resto  superstio, obscurantismo,  conversa-fiada de
padre.
  No seu canto Maria Valria estava agora de cabea atirada para trs,
sobre o respaldo da cadeira, os olhos cerrados, a boca entreaberta. A
seus ps as brasas morriam.
  Stein aproximou-se da janela e olhou para fora. Havia tbias luzes
amarelentas em algumas das janelas da Intendncia. Na praa moviam-se
vultos. O vento continuava  a sacudir as vidraas.
  - Pensa naqueles homens mortos l no poro - murmurou o judeu. -
Ningum sabe quem so. O tenente no conseguiu identificar mais que trs
ou quatro. Amanh vo  ser  enterrados na vala comum, enrolados em
trapos. Esse  o destino de todos os
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  lutadores annimos que morrem estupidamente para servirem os
interesses polticos e econmicos da minoria dominante. Fez uma pausa,
abafou um bocejo, depois prosseguiu:
  - E as diferenas de classes continuam mesmo na morte. O dr. Ruas est
aqui em cima, tem velrio especial, caixo de primeira. A escria jaz
atirada l embaixo,  no poro. No  um smbolo do que acontece no
edifcio social?
  Bandeira levantou para o amigo um olhar que o sono j embaciava:
  - S no compreendo - murmurou -  como a esta hora da noite, com um
frio brabo destes, ainda tens nimo e calor para discutir essas coisas!
  Pouco depois das cinco, Babalo acordou, encaminhou-se para a cozinha e
pediu a Laurinda que lhe preparasse um mate. Galos comeavam a cantar.
Os crios extinguiam-se  ao p do esquife.
  Desde as duas da madrugada Stein encontrava-se no poro, sentado a um
canto, fazendo companhia aos revolucionrios mortos. As velas ali se
haviam extinguido por  completo, e a escurido parecia aumentar o frio e
a umidade. Quando o dia comeou a clarear o judeu saiu para o quintal,
encolhido, apanhou uma laranja meio verde  de uma das laranjeiras,
partiu-a e comeou a chup-la. Estava azeda. Jogou-a fora. Enfiou as
mos nos bolsos e ficou a olhar para o horizonte, onde uma barra
carmesim  anunciava o nascer da manh.
  Maria Valria despertou pouco antes de aparecer o sol. Ergueu-se da
cadeira, aproximou-se do calendrio do escritrio, sob o retrato do
Patriarca, e olhou a data.  Maio 8. Tera-feira. A seguir, como
costumava fazer todas as manhs, arrancou a folhinha, leu o que estava
escrito no verso, amassou-a entre os dedos e atirou-a  dentro da cesta
de papis velhos.
  29
  Uns dez dias mais tarde os ares de Santa F foram de novo agitados
pelos rojes que o coronel Madruga mandara soltar na
  praa. Curiosos correram para a Intendncia, amontoaram-se e
acotovelaram-se na frente do quadro-negro no qual o major Amintas
Camacho, havia pouco, afixara um  papel  com a notcia sensacional. A 3a
Diviso do Exrcito Libertador, comandada pelo general Estcio Azambuja,
fora surpreendida nas pontas do arroio Santa Maria Chico  pelas foras
combinadas dos coronis Claudino Pereira, Flores da Cunha e Nepomuceno
Saraiva. Depois dum combate de quatro horas, em que sofreram pesadas
baixas,  os revolucionrios haviam debandado, deixando em poder dos
legalistas, alm de muitos prisioneiros, armas, munies, carroas com
vveres e cerca de dois mil cavalos.  O comunicado terminava assim:
  Os bandoleiros fugiram rumo da fronteira, internando-se no Uruguai.
Ficou entre seus mortos o famigerado coronel Ado Latorre, negro de
sinistra memria, um dos  maiores degoladores maragatos da Revoluo de
93.
  Aderbal Quadros leu a notcia meio cptico, e ao entrar no Sobrado
disse  filha:
  - Se a coisa  verdade, foi uma derrota feia pra nossa gente. Mas essa
chimangada mente muito!
  Os jornais oposicionistas que chegaram mais tarde a Santa F mal
conseguiam atenuar as propores da derrota. Ficava claro que, conquanto
a diviso de Estcio  Azambuja  reunisse a fina flor de Baj, So
Gabriel e Dom Pedrito, seu armamento era deficiente, a munio pouca, o
servio de vigilncia pssimo, isso para no falar na falta  de unidade
de vistas entre seus diversos comandantes.
  A Voz da Serra apareceu aquela semana trazendo um relato mais ou menos
minucioso do combate do Santa Maria Chico. Terminava assim:
  ...e a mortandade nas fileiras dos revolucionrios teria assumido as
propores duma verdadeira chacina no fosse a generosidade do coronel
Claudino Nunes Pereira,  cujas tropas, disciplinadas e aguerridas,
dispunham de duas metralhadoras colocadas em posio vantajosa. No
entanto, esse bravo militar, comprovando as tradies  de bondade
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  e cavalheirismo do povo gacho, mandou erguer a ala de mira dessas
mortferas armas, de maneira que as balas passavam sobre as cabeas dos
maragatos espavoridos,  que fugiam em todas as direes, enquanto os
projeteis ceifavam os ramos superiores das rvores dum capo prximo.
  - J lhe disse que no quero ver essa porcaria dentro desta casa! -
exclamou Maria Valria, apontando para o nmero do jornal do Amintas que
Camerino tinha na  mo.
  O mdico sorriu.
  - Est bem - disse, rasgando a folha em vrios pedaos e atochando-os
no bolso do casaco - mas acho que a gente deve ler tudo o que o inimigo
escreve...
  Fosse como fosse, os moradores do Sobrado ficavam sobressaltados toda
a vez que ouviam as detonaes dos foguetes do Madruga. A primeira
pergunta que Flora fazia  a si mesma era: "Ser alguma coisa com a nossa
gente?"
  No se tivera mais nenhuma notcia certa da Coluna Revolucionria de
Licurgo Cambar desde o malogrado ataque  cidade. Sabia-se vagamente
que andava pelo interior  do municpio de Cruz Alta, onde tivera
encontros de patrulha com foras governistas. Havia at quem afirmasse
que muitos de seus oficiais haviam j emigrado para  a Argentina.
  - Potocas - dizia Babalo. - Ningum sabe.
  As notcias do Madruga s anunciavam vitrias para os borgistas:
Honrio Lemes e seus "bandoleiros" viviam em fuga constante, perseguidos
pela tropa de Flores  da  Cunha; a diviso de Zeca Neto fugia tambm aos
combates; Filipe Pertinho continuava imobilizado em Erexim, de onde
Firmino de Paula esperava desaloj-lo em breve...
  - E a interveno no vem! - suspirava Aderbal.
  O governo federal havia mandado ao Rio Grande um ex-ministro, o dr.
Tavares de Lira, para que ele servisse de mediador entre revolucionrios
e legalistas. Os jornais  anunciavam que o emissrio do presidente da
Repblica agora voltava para o Rio. Tudo indicava o malogro de sua
misso de paz.
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  Flora agora fazia parte da Cruz Vermelha do Exrcito Libertador,
recentemente fundada em Santa F. Passava vrias horas do dia na Casa de
Sade a ajudar os mdicos.  Era-lhe difcil vencer a repugnncia que lhe
despertavam aqueles homens barbudos e sujos para os quais tinha de dar
remdios a horas certas. O pior, porm, eram  os curativos: desfazer
ataduras encardidas recendentes a iodofrmio (cheiro que ela associava a
srdidas "doenas de homem"), passar pomadas nas feridas ou banh-las
com lquido Dakin... Fazia tudo isso de testa franzida, contendo a
respirao, os lbios apertados. Em geral a lembrana daqueles feridos e
daquelas cenas a acompanhava  quando ela tornava  casa, persistia
quando ela ia para a cama  noite e cerrava os olhos para dormir. Os
cheiros de fenol, ter, gua-da-guerra e pus - ah! o pior  mesmo era o
cheiro agridoce de pus misturado com o de iodofrmio! - no lhe saam
das narinas. Sob as cobertas, depois de rezar e pedir a Deus pela sade
dos ausentes  e presentes e pelo restabelecimento dos feridos, ela
procurava esquecer o hospital e os doentes, pensar no marido, imaginar
que ele estava ali a seu lado com a sua  presena quente, amorosa e
limpa. Em vo! Aos poucos se ia esquecendo das feies dele, sentia
necessidade de olhar para o Retrato, l embaixo, a fim de recompor  a
imagem querida, que em sua memria se perdia numa espcie de nevoeiro.
Na escurido do quarto (de quando em quando um dos filhos falava no
sono) Flora pensava  naquelas caras lvidas e peludas, nos algodes
purulentos, nas gazes ensangentadas, nos hlitos ptridos. Ah! Outra
lembrana que com freqncia lhe vinha  mente  era a do olhar dos
feridos. Havia olhos empanados pela dor ou pelo medo da morte. Ou ento
animados dum brilho clido de febre. Viam-se tambm olhos doces, com
expresso  entre humilde e grata, quase canina. Mas os havia tambm
orgulhosos, com algo de feroz, E olhos que fitavam as pessoas e as
coisas em derredor num meio espantado  estupor, como que no
compreendendo direito o que acontecia. Um dia Flora teve um arrepio
desagradvel ao se sentir alvo da ateno de um dos feridos - um caboclo
de cara morena e larga, a cabelama do peito a escapar-lhe pela abertura
da camisa. Era um olhar carregado de desejo. Ela se sentiu despida e com
a impresso de que  aqueles olhos a haviam
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  lambuzado dum visgo insuportvel. Ao voltar  casa tomara um
prolongado banho. Mas enquanto estava dentro da banheira, teve a
impresso de que aqueles olhos sujos  e implacveis a observavam,
grudados no teto...
  Sempre que chegava ao hospital pela manh era invariavelmente saudada
com as mesmas palavras pelo dr. Carbone, que nunca perdia o bom humor,
nem quando o tiravam  da cama no meio da noite para atender um caso de
urgncia:
  - Ah! A nossa piccola Florence Nightingale! Bom dia, carina. Flora
admirava no s a coragem como tambm a eficincia
  de Santuzza, a quem o marido dera o cognome de Ia regina
delVautoclave. Movia-se no hospital com uma facilidade feliz e maternal
de quem est em sua prpria casa.  Era sempre chamada quando havia algum
"caso difcil". As damas da sociedade local - algumas das quais faziam
parte da Cruz Vermelha para efeitos apenas de prestgio  social -
recusavam-se a fazer curativos (e Carbone no as forava a isso) nos
casos em que ficassem expostas as partes do corpo dos feridos que Maria
Valria costumava  designar pelo nome de "vergonhas". Santuzza, porm,
no hesitava. Arregaava as mangas, crescia sobre a cama com os seios
faranicos, e dizendo: "Deixa a mamma ver",  ia arriando com a maior
naturalidade as calas do paciente. E aqueles homenzarres se entregavam
a ela quase com uma naturalidade de meninos.
  Flora levava doces e cigarros para todos os feridos da Casa de Sade,
mas tinha atenes especiais para com Neco Rosa, que l estava
imobilizado sobre um leito,  a coxa envolta em ataduras, magro e lvido,
uma barba de profeta a negrejar-lhe contra a palidez do rosto. Soltava
suspiros, queixava-se da sorte, falava nos companheiros  distantes,
perguntava aos mdicos quando iam dar-lhe alta... O dr. Carbone no o
iludia. Antes de quarenta dias no o poderia mover dali.
  - Que porcaria! - exclamou Neco.
  Um dia, depois de verificar-lhe a temperatura e o pulso, Dante
Camerino sentou-se na cama e murmurou:
  - O Madruga sabe que foste tu quem comandou o grupo que atacou a
Intendncia pela retaguarda. Anda dizendo a Deus e
  todo o mundo que degolaste com tuas prprias mos dois prisioneiros
provisrios...
  - Mentira! - vociferou Neco, soerguendo-se bruscamente como se lhe
tivessem aguilhoado as costas. -  uma infmia! Tu sabes que no sou
bandido.
  - Eu sei. Mas o Madruga anda furioso, no ignora que ests aqui e
jurou te pegar. "Aquele barbeiro canalha no me sai com vida do
hospital."  o que vive dizendo.
  Neco permaneceu em silncio por um instante, fumando e olhando para as
pontas dos prprios ps, metidos nas meias de l que Maria Valria lhe
fizera.
  - Preciso ento ir pensando num jeito de fugir daqui... Camerino
ergueu-se.
  - No te preocupes. Enquanto continuares neste hospital ests
garantido. Uma patrulha do Exrcito se mantm de guarda a fora, dia e
noite.
  Neco olhava ainda, taciturno, para as pontas dos ps. Foi com voz
grave que tornou a falar:
  - Vou te pedir um favor. No me leves a mal.
  - Que ?
  - Pelo amor de Deus, me arranja um violo!
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  O inverno entrou rijo, com geadas. Certa manh, ao acordar os filhos
mais velhos para mand-los a escola, Flora olhou para fora e, vendo os
telhados esbranquiados,  pensou no marido e sentiu um aperto no
corao.
  Laurinda todas as manhs acompanhava Alicinha, Floriano e Jango at a
casa onde funcionava a Aula Mista Particular, de dona Revocata Assuno.
Era perigoso - achava  Flora - deixar a menina andar s com os irmos
por aquelas ruas "infestadas de provisrios mal-encarados".
  Aderbal Quadros e Laurentina vinham agora com muita frequncia ao
Sobrado, numa aranha puxada por um alazo, que era
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  o ltimo amor de Jango. Babalo entrava, distribua caramelos e barras
de chocolate entre os netos, sentava-se, fazia Edu montar-lhe na coxa e
balanava-o num ritmo  que imitava o trote dum cavalo. Fumegava o rosto
do menino com a fumaa azul e acre de seu cigarro. Eduardo franzia o
nariz, apertava os olhos, mas continuava a  rir e a pedir "Galope!
Galope!"
  A um canto da sala, Laurentina e Maria Valria retomavam seu antigo
dilogo de silncio onde o haviam interrompido no ltimo encontro.
  Quando os Carbones apareciam, o italiano queria cantar ou pr o
gramofone a funcionar, mas Flora mostrava-se indecisa. Seria direito? Os
homens da casa andavam  pela  campanha, enfrentando agruras e perigos.
Ningum sabia ao certo onde estavam nem o que lhes havia acontecido. Era
possvel at que quela hora... Calava-se, engasgada,  j com lgrimas
nos olhos. Maria Valria, porm, decidia a situao: "No se toca nem se
canta.  tempo de guerra". Carbone fazia um gesto teatral, mas
resignava-se,  apanhava um baralho, sentava-se a uma mesa e ali ficava a
cantarolar baixinho e a jogar pacincia, enquanto Santuzza, no andar
superior, entretinha-se com i bambini.
  Roque Bandeira e Aro Stein visitavam o Sobrado pelo menos trs vezes
por semana. Tomavam caf com bolinhos de coalhada e comiam a pessegada
que Maria Valria  fizera  durante o vero para ser consumida no
inverno.
  Os dois amigos em geral ficavam separados dos outros, ocupados com
suas polmicas. Interessava-se Bandeira pelas figuras daquela revoluo
que aos poucos se iam  definindo a uma luz de epopia.
  -  curioso - disse uma noite tio Bicho, mastigando com prazer um
pedao de pessegada no qual havia nacos de fruta inteiros - a gente
observar o nascimento dum  heri.
  - Devias dizer dum mito - interrompeu-o Stein, repondo no seu lugar,
com um gesto nervoso, a mecha de cabelo que lhe cara sobre os olhos.
  - E por que mito? No so realmente heris? Tome Honrio Lemes... J 
uma figura lendria.
  - Ento? Que  uma figura lendria seno um mito?
  - No me amoles. Sabes o que quero dizer.
  - Sei mas no concordo. Morrem dezenas, centenas de soldados annimos
nesses combates, mas quem leva a fama e a glria  o general que na
maioria dos casos raramente  ou nunca aparece na linha de fogo.
  - Mas que  o heri seno uma sntese, um smbolo, o homem que em
determinado momento da histria dum povo ou dum grupo encarna no s os
sonhos e aspiraes desse  povo ou desse grupo como tambm suas
qualidades marcantes de coragem, esprito de sacrifcio e lealdade? De
certo modo o heri  o seu povo. Tivemos em 1835 Bento  Gonalves. 
possvel que seja Honrio Lemes quem melhor encarne o esprito
revolucionrio de 1923...
  Stein limitou-se a estender as mos ressequidas e arroxeadas por cima
do braseiro que Maria Valria mandara pr entre ele e o amigo. Tio Bicho
contemplava o judeu,  sorrindo, com um ar de tranqila e adulta
superioridade.
  - Por que ests rindo?
  - Porque, apesar de todas as tuas teorias, os heris aparecem, crescem
aos olhos do povo e no h nada mais a fazer seno aceitar o veredicto
popular por mais  errado  que ele seja. A verdade est com as massas.
No  essa a essncia mesma do teu bolchevismo?
  Stein ficou a mastigar pensativo uma fatia de queijo caseiro. Estava
deprimido. No dia anterior, um delegado atrabilirio, acompanhado de
dois brutamontes da polcia  municipal, lhe havia invadido a casa,
rebuscando-lhe gavetas, armrios... Depois de queimar-lhe todos os
livros, havia-lhe levado a caixa de tipos e a impressora.  E como ele
tivesse esboado um protesto contra a arbitrariedade, o bandido sem
dizer palavra lhe aplicara um soco na cara, derrubando-o.
  Stein tocou com as pontas dos dedos a marca que lhe escurejava na face
esquerda.
  - Cavacos do ofcio - murmurou Bandeira. - A polcia te tirou a
tipografia, te queimou a biblioteca mas no podes negar que enriqueceu a
tua folha de servios  ao  Partido.
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  - Estpidos! So violncias como essas que fortalecem nosso nimo,
ajudam a nossa causa. Eles esto condenados.  questo de tempo.
  Aderbal Quadros no entendia aquelas conversas. Sobre o que se passa na Rssia, tinha apenas ideias nebulosas: ouvira falar numa
"reviravolta braba" em que  revolucionrios  tinham "feito o servio" na
famlia imperial, instituindo um regime em que tudo era de todos. Mas
como podiam aqueles dois moos to instrudos perder tempo com
problemas dum pas distante, quando ali nas ventas deles fervia uma
guerra civil em que irmos se tiroteavam uns com os outros?
  Pelas notcias dos jornais, o velho acompanhava fascinado as proezas
de Honrio Lemes e seus guerrilheiros. Muitas vezes entrava no Sobrado
erguendo no ar, como  uma rsea bandeira de guerra, um nmero do Correio
do Sul, e lia para a gente da casa e para os que l se encontrassem o
editorial assinado por Fanfa Ribas, que  na opinio de Babalo era o
maior jornalista vivo do Brasil. - Que estilo! Que coragem! que coisa!
  Os jornais do governo estadual procuravam ridicularizar o general da
Diviso do Oeste, apresentando-o como um homem de poucas letras, um
simplrio, um "mero tropeiro".
  Uma tarde Aderbal irrompeu no Sobrado e, sem tirar o chapu, de p no
meio da sala, leu em voz alta todo um editorial do Correio do Sul, que
era um hino  profisso  de tropeiro e ao carter de Honrio Lemes. Ao
chegar s ltimas linhas, fez uma pausa, lanou um olhar para as duas
mulheres que o escutavam, apertou os olhos e,  pondo um tremor teatral
na voz seca e quadrada, leu o final: "De joelhos, escribas!  o Tropeiro
da Liberdade que passa!"
  Soltou um suspiro, murmurou: "Que cosa!", atirou o jornal em cima duma
mesa e saiu rengueando da sala, como num final de ato.
  E por todo o Rio Grande, nos meios assisistas, o cognome pegou.
Retratos do "Tropeiro da Liberdade" apareciam em jornais e revistas,
ilustrando a narrativa de  seus  feitos militares. Era um homem de
estatura me, ombros cados - "um jeito meio alca-
  truzado", como dizia Maria Valria -, bigodes pretos escorridos pelos
cantos da boca. Na fita do seu chapu de abas largas, lia-se esta
legenda: "Liberdade ainda  que tarde!"
  S oferecia combate quando lhe convinha. Sua tropa, duma mobilidade
prodigiosa, desnorteava o inimigo, que o perseguia com um encarniamento
irritado. E quando  a  situao se fazia feia ou duvidosa para suas
armas, o caudilho se refugiava com seus soldados na serra do Caver, que
conhecia palmo a palmo, de olhos fechados,  e aonde ningum ousava ir
busc-lo.
  Com o passar do tempo, sua legenda enriquecia. Faziam-se versos
inspirados em seus feitos. E as mulheres jogavam-lhe flores quando ele
desfilava com sua tropa  pelas  ruas das vilas e cidades que ocupava.
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  No quinto ms da revoluo, outra figura - essa do campo oposto ao do
"Leo do Caver" - j se delineava e impunha, tambm com visos de
legenda: a do dr. Jos  Antnio  Flores da Cunha. O intendente de
Uruguaiana comandava os Fronteiros da Repblica. Era um homem bravo e
afoito, duma vitalidade tremenda. De estatura mediana, tinha  uma bela e
mscula cabea. Em seu rosto, de fronte alta e feies nobres, bondade e
energia se mesclavam. A barba, que usava  nazarena, era dum castanho
com cambiantes  de bronze, como o dos cabelos, e seus olhos, dum claro
azul, exprimiam s vezes uma inocncia que o resto do corpo varonilmente
renegava. Homem de lngua solta e  choro to fcil quanto o riso, era
capaz de grandes violncias, que em geral depois compensava com
generosidades ainda maiores. Suas palavras e atos raramente eram
calculados, mas produtos de impulsos.
  Contava-se que duma feita, encontrando, numa de suas marchas pela
campanha, um rancho  beira da estrada, fez parar o cavalo e, sem apear,
pediu de beber  cabocla  que viu  porta. A criatura deu-lhe gua numa
caneca de folha e, enquanto o caudilho bebia, ficou a observ-lo com uma
expresso de espantado encanto.
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  E quando o guerreiro se afastou ao trote do cavalo, um de seus homens
ouviu a mulher murmurar: "Parece Nosso Senhor Jesus Cristo. Que Deus me
perdoe!"
  Murmurava-se que Flores da Cunha no se entendia muito bem com o
coronel Claudino Pereira, comandante da brigada governista do Oeste, 
qual o primeiro tambm  pertencia.   que tanto ele como o seu
companheiro de armas Oswaldo Aranha lutavam com a impacincia e o mpeto
que nascem da paixo: queriam liquidar depressa o inimigo, ao  passo que
o outro, soldado profissional e experimentado, preferia proceder com
cautela e mtodo, temperados pelo seu desejo de evitar inteis
sacrifcios de vidas.  Contava-se que um dia - referindo-se aos dois
bacharis - o coronel Claudino dissera a um caudilho borgista que
encontrara numa de suas marchas: "Trago comigo dois  homens
impossveis".
  Foi na manh de 19 de junho que chegaram a Santa F pelo telgrafo as
primeiras notcias do violento combate travado nos arredores de Alegrete
entre as tropas  de  Honrio Lemes e as de Flores da Cunha. Mas s dois
dias mais tarde  que a cidade ficou ao corrente dos pormenores. Os
revolucionrios haviam tomado posio  margem  direita do Ibirapuit,
junto a uma das pontes de pedra do Matadouro Municipal. Da cidade de
Alegrete saram as foras legalistas comandadas por Flores da Cunha e
pelo caudilho Nepomuceno Saraiva. Este ltimo achava temerrio levar um
ataque frontal  ponte. Como, porm, conhecia bem o comandante da tropa,
disse a um dos companheiros:  "El octor ai llegar mandar cargar. Es
una barbaridad!" No se enganava. Arrancando a espada e esporeando o
cavalo, Flores da Cunha gritou: "Os que tiverem vergonha,  que me
acompanhem!" E, sob a fuzilaria do inimigo, precipitou-se rumo da ponte,
seguido de um punhado de companheiros. Viu tombar nessa carga um irmo
seu, j na  outra margem do rio, transposta a ponte. E ele prprio foi
ferido por um estilhao de bala, que lhe penetrou no ilaco direito.
Pouco depois, Oswaldo Aranha, que  lutava com a mesma bravura, era
tambm atingido por um projtil no pice do pulmo esquerdo. Nenhum dos
dois, porm, abandonou a luta.
  O combate durou mais de trs horas. E como anunciava o coronel Lao
Madruga, sob o estrondo dos seus foguetes, "as bravas foras governistas
tomaram a ponte do  Ibirapuit,  numa das mais renhidas refregas desta
campanha, e Honrio Lemes e seus bandoleiros fugiram para o Caver,
deixando no campo treze mortos e vinte e sete feridos".
  Comearam ento a circular notcias sombrias. Contavam os jornais da
oposio que depois do combate "os mercenrios de Nepomuceno Saraiva" se
haviam entregue a  "orgias  de sangue", degolando feridos e
prisioneiros. A Voz da Serra revidou: degoladores eram os assisistas. E
citava fatos e nomes prprios, denunciando banditismos.
  Aderbal Quadros ficou indignado ao saber que as foras borgistas agora
empregavam contra os revolucionrios um aeroplano pilotado por dois
alferes. Achou isso  um  ato de covardia inominvel, indigno das
tradies do Rio Grande, cuja paisagem mesma parecia sugerir aos homens
a luta franca, frente a frente, em campo aberto,  sem emboscadas nem
traies. E quando circulou a notcia de que da "engenhoca" haviam
lanado trs bombas sobre a vila de Camaqu, ento em poder dos
revolucionrios,  Babalo ficou com os olhos inundados de lgrimas, que
exprimiam a um tempo sua pena, sua vergonha e sua indignao. "Que coisa
brbara!" - exclamou. Montou a cavalo,  saiu a andar pelos campos, nos
arredores do Sutil, falando sozinho. Foi longe. Ficou por algum tempo no
alto duma coxilha, contemplando as invernadas verdes de horizontes
largos e claros, respirando fundo, como se quisesse limpar no somente
os pulmes como tambm a alma. Voltou depois para casa, j ao anoitecer,
ao tranco do cavalo,  assobiando uma toada que aprendera no Paraguai,
nos seus tempos de tropeiro.
  Mas circulavam tambm por todo o Estado histrias de herosmo,
lealdade e abnegao. Conheciam-se agora pormenores da morte de Ado
Latorre. Sob o fogo das metralhadoras,  o velho caudilho, com apenas
trinta homens, estendera linha e, para proteger a retirada dos
companheiros, ficara tiroteando contra uma coluna inimiga de quase mil
soldados. Mais tarde, quando tentava
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  449
  salvar a cavalhada de sua coluna, seu prprio ginete foi ferido de
morte por uma bala. O coronel Latorre desembaraou-se dele e, no meio da
fuzilaria, comeou  a  encilhar com toda a calma o cavalo que um de seus
filhos lhe trouxera. Foi nesse momento que uma bala o derrubou. Tinha
oitenta e cinco anos.
  Um "provisrio" de Firmino de Paula - contava-se -, ao cair sob os
golpes dos trs cavalarianos inimigos que o cercavam, teve ainda tempo
para exclamar. "Morre  um  homem!"
  Um pio de dezessete anos, soldado da tropa de Zeca Neco, no meio dum
combate deu o seu tobiano a um companheiro j idoso cujo cavalo tinha
sido morto. E enquanto  o outro se punha a salvo, a galope, fincou p
onde estava e abriu fogo contra os soldados da cavalaria inimiga que se
aproximavam, e que finalmente o envolveram  e liquidaram a golpes de
lana.
  Foi em fins de julho que chegou a Santa F, trazida por um tropeiro da
Palmeira, a histria duma proeza de Torbio Cambar. Seu piquete de
cavalaria - contava  o  homem - cara numa emboscada, perdendo nos
primeiros momentos trs soldados. Diante da superioridade numrica do
inimigo, Torbio gritou para os companheiros: "Retirar!"  Os outros
deram de rdeas e fugiram a todo o galope. Bio, porm, ficou onde
estava, atirando sempre contra os "provisrios". De repente, atingido
por uma bala, seu  cavalo baqueou, lanando-o ao cho. Torbio
ergueu-se, meio estonteado, mas sempre de revlver na mo, e viu que se
aproximava dele a toda a brida um cavaleiro inimigo  de lana em riste.
No se moveu de onde estava. Ergueu a arma, fez pontaria e atirou... O
cavaleiro tombou do cavalo com um tiro na cabea, mas o animal continuou
a galopar. Quando ele passou pela frente de Torbio, este se lhe agarrou
s crinas e saltou-lhe sobre o lombo e, em meio dum chuveiro de balas,
conseguiu escapar  ileso, reunindo-se mais tarde  sua Coluna.
  - Esse rapaz tem o corpo fechado pra bala - disse algum na roda da
Casa Sol, ao ouvir a histria.
  Quando se conheceu no Sobrado o feito de Torbio, Flora ficou de
lbios trmulos e olhos midos. Floriano escutou a narrativa fascinado.
E Maria Valria, balouando-se  lentamente na sua
  cadeira, quedou-se por algum tempo num silncio reflexivo. Por fim
murmurou com um meio sorriso:
  - O Bio no  deste mundo. Sempre achei que esse menino tinha queda
pra burlantim.
  32
  No fosse a presena dos soldados do Corpo Provisrio nas praas e nas
ruas, nos seus uniformes de zuarte e seus ponchos reinos, poder-se-ia
dizer que a paisagem  humana de Santa F pouco ou nada mudara desde o
comeo da revoluo.
  Como um sinal de que, apesar da guerra civil, a vida continuava; como
um smbolo da capacidade humana de sobreviver e manter-se fiel aos
hbitos, Quica Ventura,  que jamais trabalhara em toda a sua existncia,
continuava a picar fumo, parado  frente do edifcio do Clube Comercial.
Desde que entrara o inverno, usava botas  de sanfona e uma capa
espanhola negra, com forro nas trs cores da bandeira rio-grandense.
Mesmo quando dentro do Comercial, mantinha na cabea o chapu de feltro
de aba puxada sobre os olhos, como para sugerir que era "de poucos
amigos". E de fato era. Pessimista, maldizente, no acreditava no gnero
humano; seu melhor amigo  era o perdigueiro que o acompanhava por toda a
parte, e que de certo modo j se parecia com o dono. Esse solitrio
conservava, no entanto, uma curiosa lealdade   idia do federalismo.
No tirava o leno colorado do pescoo, embora se tivesse recusado a
votar em Assis Brasil e vivesse a dizer a todo o mundo que era
gasparista  mas no estava de acordo com "essa revoluo esculhambada".
  Todos os dias, pouco antes das seis da manh, com uma mantilha negra
em torno da cabea, o livro de reza em punho, dona Vanja atravessava a
praa com seus passinhos  rpidos, e entrava na igreja para assistir 
primeira missa.
  A essa mesma hora Marco Lunardi, metido num macaco de mecnico,
entrava no seu caminho, e Jos Kern - que se mudara de Nova Pomernia
para Santa F - abria a  sua  nova casa de
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 comrcio, e os Spielvogels punham em movimento a mquina de sua
serraria a vapor, cujo apito costumava soar exatamente s seis. Era s
vezes por esse apito pontual  que Maria Valria acertava o relgio
grande do Sobrado e dona Revocata saa da cama para ler o seu Voltaire e
o seu Diderot, antes de ir para a escola.
  s sete, Jos Pitombo - que nunca tivera empregado porque no confiava
em ningum - abria a casa, espanava os caixes, ajeitava artisticamente
na vitrina as velas  e os anjos de cera, borrifava d'gua o cho e
punha-se a varr-lo, enquanto na cozinha fervia a gua para o primeiro
chimarro.
  s oito, Cuca Lopes descia a rua do Comrcio em ziguezague, duma
calada para outra, chamado pelos conhecidos que encontrava - "Ento,
Cuca velho, quais so as  novidades?"  - e ele parava, desinquieto,
cheirava as pontas dos dedos, soltava o boato, rodopiava sobre os
calcanhares e continuava seu caminho, rumo da Intendncia. J a essa
hora dona Revocata entrava na sua escola, pisando duro.
  Era por volta das dez da manh que Ananias, o aguateiro (vivia
maritalmente com duas mulheres, dormia com ambas na mesma cama, era
conhecido como o Z do Meio),  parava a carroa com a pipa na frente do
Sobrado, entrava com duas latas cheias d'gua e enchia com elas a grande
talha de barro a um canto da cozinha. s vezes  conversava com Laurinda,
queixava-se de pontadas nas cadeiras, e acabava pedindo "um traguinho de
qualquer coisa pra esquentar o peito". A mulata, quando estava  de bom
humor, dava-lhe um clice de licor de pssego.
  Ao meio-dia era quase um ritual para certos habitantes da cidade ir 
estao da estrada de ferro, esperar o trem que vinha de Santa Maria,
trazendo os jornais,  e espiar para dentro dos carros, para ver se
descobriam algum conhecido.
   tardinha Mariquinhas Matos debruava-se na sua janela, na rua do
Comrcio, os braos morenos apoiados sobre uma almofada de veludo gren,
e ali ficava  espera  dum transeunte que pudesse namorar. Sua esperana
eram os caixeiros viajantes em trnsito pela cidade, e os tenentinhos
novos que vinham servir na guarnio federal,  e que os moos do lugar
por despeito chamavam de 
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  fordzinhos. E quando algum deles passava pela calada, ela armava o seu
sorriso de Mona Lisa, j demasiadamente conhecido e um tanto
desprestigiado entre os nativos.
   noite havia funo no Cinema Recreio, em cuja fachada no raro se
via um cartaz em cores, no qual William S. Hart, o cowboy carrancudo,
ameaava os passantes  com  duas pistolas em punho. Anunciavam-se filmes
- agora em sua quase totalidade feitos nos Estados Unidos - com os
artistas mais famosos de Hollywood. O Calgembrininho,  que ajudava o pai
a redigir os programas e os letreiros dos cartazes, fazia a sua
literatura. Referia-se  "endiabrada Bebe Daniels", ao "correto gal
Wallace Reid,  que faz palpitar o corao das donzelas", ao "hilariante
Charles Chaplin, vulgo Carlitos",  "divina Norma Talmadge" e  "trfega
Gloria
  Swanson".
  No clube continuavam as rodas de pquer, freqentadas principalmente
por senhores do comrcio, de relgio com corrente de ouro no bolso do
colete, e muitos deles  com duas famlias - a legtima no centro da
cidade e a ilegtima do outro lado dos trilhos. No salo maior, mocinhos
jogavam bilhar e, como um preldio s farras  nas penses de mulheres,
certos empregadinhos do comrcio nas noites de sbado se davam ao luxo
de fumar um charuto, depois
  do jantar.
  O inverno havia espantado das praas as retretas, os pssaros
  e os namorados.
  Pelas ruas andavam  noite homens encolhidos sob seus ponchos e
capotes, pigarreando, tossindo, escarrando. Entravam nos cafs, no
clube, no Centro Republicano,  nos bordis. Bebiam, comiam bifes com
ovos e batatinhas fritas, discutiam poltica, mulheres e futebol. E poi
essas coisas muitas vezes brigavam, arrancavam os revlveres,  gritando:
"Pula pra fora, canalha!" ou "Atira, bandido!" Alguns atiravam mesmo.
  Cerca das onze horas escapava-se da Padaria Estrela d'Alva uma
fragrncia de po recm-sado do forno, que dava ao ar da noite um buqu
domstico. E Chico Pais,  seguindo um hbito antigo, ia levar ao Sobrado
um cesto cheio de pes quentinhos. E como agora no encontrasse Rodrigo
e Torbio no casaro, punha-
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  se a choramingar e a falar deles como de gente falecida, o que comovia
Flora e irritava Maria Valria.
  Muitas daquelas noites eram pontilhadas de tiros. A coisa quase sempre
acontecia no Purgatrio, no Barro Preto ou na Sibria; rixas entre as
patrulhas do Exrcito  e as do Corpo Provisrio; ou ento eram os
guardas municipais que acabavam a bala algum baile de chinas.
  Mas em muitas noites, pelas ruas desertas de Santa F vagueava apenas
o vento, "uivando como um cachorro louco" - como dizia Maria Valria.
  Certa manh a velha arrancou mais uma folhinha do calendrio - Julho
31. Sexta-feira - e pensou: Agosto, ms de desgosto.
  As laranjeiras e bergamoteiras do quintal do Sobrado estavam pesadas
de frutos.
  Foi na primeira semana daquele ms que Neco Rosa, completamente
restabelecido, fugiu do hospital  noitinha, travestido de mulher,
graas s roupas que dona Santuzza  lhe emprestara. Levava na cabea um
chapu de feltro verde: um vu lhe cobria o rosto. Entrou no Ford do dr.
Carbone, que o levou para fora da cidade at o Sutil,  onde Babalo o
esperava com um cavalo encilhado.
  Tambm no princpio daquele ms, num dia torvo, de nuvens baixas,
Floriano, postado atrs das vidraas duma das janelas do Sobrado, viu
dois "provisrios" espancarem  na rua um homem que, sob pranchaos de
espada, caiu na sarjeta, gritando e sangrando. O menino ficou lvido,
uma nusea lhe convulsionou o estmago, uma tremedeira  gelada lhe tomou
conta do corpo.
  Chegou por essa poca ao Sobrado o primeiro bilhete de Rodrigo,
trazido por um portador de confiana. Era lacnico. Dizia que tanto ele
como todos os amigos estavam  bem. E que as saudades eram muitas.
  No raro Maria Valria saa a andar pelas peas da casa, alta
madrugada, com uma vela acesa na mo, a ver se tudo e todos estavam bem.
Na noite do dia em que chegou  o bilhete de Rodrigo, ao passar pelo
quarto de Flora, ouviu soluos l dentro. Parou,
  indecisa. Entro ou no entro? No entro.  melhor que ela chore,
desabafe. Amanh vai se sentir aliviada.
  Meteu-se debaixo das cobertas, pensando: S tenho pena de quem, de to
seca, no tem lgrimas para chorar. E soprou a vela.
  33
  Durante dois dias e duas noites andou Neco Rosa pelo interior do
municpio, em busca de seus companheiros de armas. Evitava encontros com
as patrulhas governistas,  era cauteloso nas perguntas. (Comeava
geralmente assim: "Como vo as coisas por aqui, patrcio? Tem aparecido
muito revolucionrio por estas bandas?") Passava as  noites dentro de
capes ou cemitrios campestres, comia o charque com farinha que levava
num saco na garupa do cavalo, e, de quando em quando - dizem que cachaa
 o poncho do pobre - pegava a garrafa de Lgrimas de Santo Antnio que
Camerino lhe dera, e tomava uma talagada.
  Encontrou, finalmente, a Coluna de Licurgo Cambar acampada nos
arredores duma chcara, na divisa do municpio de Santa F com o de Cruz
Alta. Teve uma recepo  festiva. Foi pouco para os abraos. Comeu um
churrasco gordo, empanturrou-se de laranjas e bergamotas. Deu aos
Cambars notcias da gente do Sobrado, narrou sua  odissia no hospital,
que os sicrios do Madruga rondavam, e a sua fuga rocambolesca, vestido
de mulher, imaginem! Contou o que sabia, por ouvir dizer ou pelos
jornais,  da revoluo no resto do Estado.
  Rodrigo escutou-o no mais absoluto silncio. Ia fazer-lhe perguntas
especficas sobre sua famlia. Nos ltimos tempos vivia preocupado
principalmente com Alicinha,  cuja imagem no lhe saa da mente. No
perguntou nada. Era como se, abandonando a famlia para seguir outra
mulher, agora no se sentisse com o direito de saber  dela. Tinha a
impresso de que havia cortado por completo as amarras com sua gente,
com sua cidade e com o mundo... Voltara do ataque malogrado a Santa F
com uma  sensao no s de derrota como tambm de culpa. A idia e o
plano tinham sido
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 sseus. Considerava-se responsvel por todos os mortos e feridos daquele
dia negro.
  - No sejas besta - disse-lhe Torbio uma tarde em que cavalgavam
lado a lado. - Estamos na guerra.
  - Notaste o desnimo do Velho? Torbio sorriu:
  - "Esse foi sempre o gnio seu", como disse o poeta.
  - Envelheceu dez anos nestes ltimos cinco meses. Anda magro,
encurvado, mais calado e solitrio que nunca. E o que mais me
impressiona nele  a tristeza... Se  a  coisa dependesse de mim, ele
emigrava hoje mesmo para a Argentina.
  - No conheces teu pai.
  - Mas  que ele no agenta esta campanha at o fim, Bio! Alguma coisa
est roendo o homem por dentro. Depois, agosto  um ms brabo para todo
o mundo, principalmente  para os velhos...
  Torbio assobiava, de dentes cerrados, o Boi Barroso. Ao cabo de um
curto silncio, Rodrigo tornou a falar.
  - O culpado de ele estar metido nisto sou eu.
  - Ora v...
  Engoliu o palavro. Substituiu-o por uma palmada jovial e encorajadora
nas costas do outro.
  A Coluna, havia menos de uma semana, fora surpreendida em pleno
descampado por um minuano que soprara durante trs dias e trs noites,
sob o cu limpo, dum azul  metlico. Um dos homens - um velho de Santa
Brbara, pequeno criador - cara com pneumonia dupla. Posto dentro da
carroa, entre sacos de carne-seca, farinha e sal,  ali ficara ardendo
em febre. Os mdicos pouca coisa podiam fazer por ele alm de abrig-lo
em ponchos e pelegos, darlhe aspirina e aplicar-lhe cataplasmas de
farinha  de mandioca. A Coluna continuara a andar. Os homens tiritavam
sob os ponchos. O vento navalhava-lhes a cara, gelava-lhes as orelhas. O
suprimento de cachaa se acabara.  Pelas manhs os campos estavam
brancos de geada. O prprio cu sem nuvens parecia uma plancie gelada.
  Uma tarde encontraram um capo, onde se meteram para esperar que
passasse a ventania. O doente delirou durante toda a
  noite, deu ordens de combate, agitou os braos como num duelo de
espada: pelo que ele dizia, os companheiros compreenderam que o
moribundo ainda peleava em 93...  Morreu ao raiar do dia, quando o
minuano cessou de soprar. Enterraram seu corpo  beira do mato e
continuaram a marcha.
  -  como a retirada de Napoleo da Rssia, em 1812 - murmurou um dia
Jos Lrio. Estava encolhido de frio; seu narigo era um bulbo
arroxeado.
  - Mas no estamos nos retirando, Liroca! - protestou um companheiro.
  - Pior que isso, menino - retrucou o velho. - No sabemos pra onde
vamos nem o que nos espera por detrs daquele coxilho.
  - Est um frio de renguear cusco! - gritou um sargento, que no tinha
poncho mas estava teso e risonho em cima do cavalo.
  - Estou tirando a maior lexiguana da minha vida - 
  exclamou outro.
  Chiru olhou para Neco.
  - E esse barbeiro burro deixou a cama quente do hospital!
  - Pra fugir da faca fria do Madruga - replicou Neco sem pestanejar.
  Ouviram-se risadas. Aqueles homens ainda brincavam! Alguns,  verdade
- uma meia dzia - j resmungavam que talvez fosse melhor bandearem-se
para o Uruguai. A  maioria  daqueles guerreiros, porm, andava ansiosa
por um combate, "pra esquentar o corpo". O que os desnorteava e irritava
um pouco era no saberem nunca para onde iam  ou por que iam. A ordem
era marchar, marchar sempre, aceitando combate quando o inimigo no era
muito numeroso, recusando quando era. A munio de guerra da Coluna
escasseava: tinham gasto muita bala no assalto a Santa F, depois do
qual no se haviam mais remuniciado. Os Macedos eram os mais difceis de
conter. Tinham o sangue  quente, ansiavam por uma oportunidade a mais
para mostrarem que eram machos.
  - O importante  durar - explicou Rodrigo um dia a um deles, para
justificar aquelas marchas que pareciam fugas.
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 como o tenente que o interpelara sorrisse de maneira equvoca e
perguntasse "Mas durar pra qu, doutor?", Rodrigo teve mpetos de
esbofete-lo e gritar: "Pensas  que tenho medo, guri?" Conteve-se e
desconversou. Mas no esqueceu o incidente. Ficou ruminando, ressentido,
as palavras do tenente. No lhe saa da cabea aquele  sorriso entre
desdenhoso e pcaro. "Eu ainda mostro"
  - dizia a si mesmo. E mostrou, da maneira mais irracional.
  Uma certa manh em que cavalgava com um piquete de lanceiros na
vanguarda, distanciado quase um quilmetro do grosso da tropa (Torbio
naquele momento estava ao  lado do pai) - Rodrigo avistou no alto duma
coxilha, a uns seiscentos metros de onde se encontrava, uma patrulha que
lhe pareceu inimiga. Assestou o binculo: reconheceu  os uniformes. Eram
"provisrios" armados de mosquetes. Contou-os. Dez. Olhou em torno.
Tinha dez homens. No refletiu mais. "Vamos acabar com aqueles
chimangos!"
  - gritou. Esporeou a montaria e precipitou-se encosta acima, seguido
pelos companheiros. No alto da coxilha os "provisrios" apearam,
estenderam linha, ajoelharam  e abriram fogo. Rodrigo continuava 
frente do piquete, as narinas palpitantes, uma alegria nervosa a
queimar-lhe o peito como o ar frio lhe ardia as faces. Atirava  de
revlver. O companheiro que cavalgava a cinco passos atrs dele rodou do
cavalo, ferido, mas o animal continuou a correr com os outros. Mais cem
metros e estariam  entreverando! Os "provisrios", entretanto, cessaram
fogo, tornaram a montar e se lanaram a todo o galope, descendo a
encosta do outro lado, deixando um soldado  estendido no cho. Rodrigo
continuava a perseguir o inimigo, como se quisesse dizim-lo sozinho a
golpes de espada. Os companheiros empunhavam agora as suas lanas,
prontos para o entrevero. Os "provisrios" afastavam-se cada vez mais,
na direo duns matos. De repente, l de baixo rompeu uma fuzilaria
cerrada. Vinha dum barranco,  aberto no sop da coxilha e meio escondido
por trs das rvores. Uma cilada! - compreendeu Rodrigo. Fez seu cavalo
estacar e gritou aos companheiros que fizessem  alto.
  - A Ia fresca! - exclamou Pedro Vacariano, ouvindo o sibilar das balas
sobre sua cabea.
  Um revolucionrio tombou do cavalo que uma bala atingira. Ficou onde
tinha cado e, dali mesmo, comeou a atirar com sua Winchester na
direo do barranco.
  - Carregamos? - perguntou Vacariano.
  -  suicdio - respondeu Rodrigo. - Vamos buscar reforos.
  A fuzilaria continuava, nutrida. Rodrigo ordenou a retirada. Seus
homens lanaram os cavalos a todo o galope, coxilha acima. Ele os
seguiu, voltando-se de quando  em quando para atirar. De sbito sentiu
que seu alazo estremecia, diminua a velocidade da corrida, dobrava as
pernas dianteiras... Compreendendo, rpido, o que  tinha acontecido,
saltou para o cho. Segundos depois o animal baqueou, o sangue a
jorrar-lhe do ventre como gua dum manancial. J os demais companheiros
haviam  desaparecido do outro lado da colina. A fuzilaria l embaixo
cessara. Rodrigo viu ento que os cavalarianos que se haviam refugiado
no mato agora se tocavam a toda  a velocidade na sua direo. Olhou em
torno e sentiu-se perdido. Estava sozinho. O remdio era morrer
brigando. Comeou a atirar, de joelho em terra. Ouviu um grito:
"Doutor!" Voltou a cabea e avistou um de seus cavaleiros que descia a
encosta a galope. Era Pedro Vacariano, que se aproximou dele, apeou do
cavalo e disse: "Munte,  doutor!" Rodrigo montou, exclamando: "Suba pra
garupa!" O outro, de W-inchester em punho, sacudiu negativamente a
cabea, sem tirar os olhos dos inimigos que se  acercavam cada vez mais.
  - Eu fico.
  - Monte!  uma ordem!
  Como nica resposta, o caboclo ergueu a perna e fincou a espora na
ilharga do animal, que disparou coxilha acima. Os cavalarianos
legalistas comearam a atirar  tambm.  Uma bala silvou rente  orelha
de Rodrigo que, voltando a cabea para trs, viu o capataz do Angico
deitado a fazer fogo contra o inimigo, como numa espcie de "combate
particular". Volto? Tentou sofrenar o animal mas no conseguiu. Estava
agora do outro lado da colina e j avistava o grosso de sua coluna.
Comeou a fazer sinais  frenticos para os companheiros.
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  Voltou com duzentos homens, minutos mais tarde, e ps em debandada o
inimigo, que deixou no campo trs mortos e seis feridos. Um destes
informou que, a cinco quilmetros  dali, estava uma fora governista da
Diviso de Firmino de Paula.
  - Quantos homens? - interrogou-o Torbio.
  - Uns quinhentos.
  - Vejam s onde a gente ia cair! - comentou o Liroca, com uma sombra
de susto nos olhos.
  Era evidente que o piquete de cavalaria dos "provisrios" e o peloto
entrincheirado no barranco estavam fazendo o papel de isca. A inteno
deles era atrair a  Coluna  Revolucionria de Santa F para um lugar em
que as tropas de Firmino de Paula, bem armadas e municiadas, pudessem
liquid-la.
  Licurgo mandou recolher e medicar os feridos e enterrar os mortos.
Entre estes se encontrava o tenente Pedro Vacariano, com trs balzios
no corpo. Licurgo contemplou  longamente o cadver, antes de mandar
baix-lo  sepultura, aberta ali mesmo onde o caboclo cara. A face do
morto estava serena. Rodrigo teve vontade de fazer um  gesto que
exprimisse sua gratido. Mas no achou nenhum que no pudesse parecer
ridculo ou feminino. No disse nem fez nada. Mandou-se lavrar uma ordem
do dia em  que se promovia Pedro Vacariano a capito, por ato de
bravura.
  - Era um homem - disse Licurgo. O caboclo no teve outro epitfio.
  34
  Para evitar um encontro com as tropas governistas que guarneciam Santa
Brbara, a Coluna tornou a entrar no municpio de Santa F, rumando para
noroeste.
  -  engraado - disse Rodrigo ao irmo, quando o pai determinou o
roteiro da marcha. - Parece que o Velho quer seguir na direo do
Angico. Ser que vai tentar  retomar  a estncia?
  - No  m idia.
  - Mas se vai, por que no diz claro?
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  - Ainda no aprendeste a lidar com teu pai?
  Marchavam agora com a vigilncia redobrada, com um piquete de
vanguarda e patrulhas de reconhecimento nos flancos. Levavam os feridos
amontoados na carroa de  vveres.
  Destacamentos inimigos os seguiam de longe. No eram numerosos mas
estavam bem montados, tinham boa mobilidade e, como observou Juquinha
Macedo, pareciam mestres  na arte de "futricar a pacincia do prximo".
Quando menos se esperava, surgiam pela frente, pelos flancos ou pela
retaguarda da Coluna, tiroteavam, sem se aproximarem  demais, sem
encarniamento, mas com uma insistncia de ralar nervos. "Como mutuca em
lombo de mula" - dizia o Liroca, que vivia alarmado. - "Agora a gente
no pode  mais nem dormir em paz."
  Rodrigo andava cansado e deprimido. Carregava ainda o peso de seus
mortos. No podia esquecer a cara lvida de Miguel Ruas, que expirara em
seus braos. A imagem  risonha e pachorrenta de Cacique Fagundes
perseguia-o tambm como um fantasma bonacho, mas nem por isso menos
perturbador. Cinco filhas. Vinte netos... Pensava  com igual remorso em
todas as vezes em que, durante a campanha, hostilizara Pedro Vacariano
com gestos ou palavras. No entanto o caboclo viera a morrer por ele...
Sabia que tinha o dever de ser-lhe reconhecido por isso, mas no podia
evitar que com o seu relutante e meio envergonhado sentimento de
gratido se mesclasse uma  certa irritao, que se poderia traduzir
assim: "No lhe pedi que se sacrificasse por mim".
  Perdera as luvas durante o assalto a Santa F e agora tinha as mos
ulceradas de frieiras. Seus lbios estavam ressequidos e queimados pelo
vento frio. Sentia  pontadas  nas costas e no peito. Aqueles ataques
espordicos das patrulhas inimigas deixavam-no aptico. Quem se
encarregava de os repelir era Torbio, que gritava: "Vou dar  um
corrido naqueles chimangos!" - e precipitava-se contra eles com seus
cavalarianos, de lana em riste. Em geral o inimigo fugia, e Bio voltava
risonho e feliz.
  Um dia as patrulhas inimigas desapareceram por completo.
  A marcha continuou. E uma manh chegaram  Encruzilhada da Boa Vista,
onde havia uma venda e alguns ranchos.
  461
  - Devemos estar a umas dez lguas do Angico - observou Torbio.
  Licurgo Cambar reuniu a oficialidade para decidirem o destino da
Coluna. Juquinha Macedo achava que deviam atacar Nova Pomernia,
distante poucas lguas dali,  e  que, segundo informavam os rancheiros
da Encruzilhada, estava desguarnecida. A Coluna precisava urgentemente
de mantimentos. Durante a ltima jornada um dos feridos  tivera uma
hemorragia e seu sangue empapara o ltimo saco de farinha e o ltimo
saco de sal de que a Coluna dispunha. J no dia anterior os soldados
haviam comido  carne 
  insossa.
  - Precisamos levar o quanto antes esses feridos para um hospital -
disse o mdico da Coluna. - Acho que um deles j est com a perna quase
gangrenada.
  Rodrigo notou que, enquanto os outros falavam, o pai olhava com certa
ansiedade na direo dos campos do Angico. Compreendeu a luta que se
travava no esprito  do  Velho.
  - Est bem - disse este por fim. - Acho que devemos atacar a
colnia...
  Deixaram a Encruzilhada pouco depois do meio-dia, tomando a estrada de
sueste. O frio havia diminudo, o cu estava limpo, o ar parado.
  Ao cabo de uma hora de marcha batida, Torbio deixou seu piquete e
acercou-se de Rodrigo.
  - A idia de atacar a colnia me agrada - disse. - Estou muito
precisado de mulher. J no agento mais.
  Rodrigo mostrou-se pessimista.
  - No te iludas. Mal vamos ter tempo de levar os feridos para o
hospital e fazer umas requisies...
  - No preciso mais de quinze minutos. Dez pra achar a fmea. Cinco pr
resto.
  Ao entardecer daquele dia, estavam a duas lguas de Nova Pomernia.
Fizeram alto a uns duzentos metros duma serraria, onde se erguia a casa
dum colono, um chal  de tipo suo, com um alpendre na frente, uma roda
de moinho d'gua a um dos lados. O cu, quela hora duma fria
transparncia de vidro, aos poucos
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  tomava uma tonalidade rsea. Os verdes do pomar do colono se fundiam
em sombras dum azul arroxeado, que se degradava em negro - tudo muito
recortado e ntido no  ar cristalino. O som da roda e da gua que a
movia era quase uma msica.
  Havia, porm, em tudo ali uma quietude que deixou Torbio e seus
vanguardeiros intrigados. No se via vivalma. As portas e janelas da
casa estavam fechadas. Bio  olhou desconfiado para um capo, a uns
trinta metros da casa. Em cima do cavalo Licurgo pitava, olhando
fixamente para a roda do moinho.
  - Vou deslindar esse mistrio - disse Torbio, apeando do cavalo e
convidando trs companheiros para acompanh-lo.
  - Cuidado, meu filho - murmurou Licurgo. - Podem estar de tocaia.
  Os quatro avanaram meio agachados, por entre rvores, na direo do
chal. A uns trinta metros dele, fizeram alto e esconderam-se atrs de
troncos de ciprestes,  de onde ficaram a observar com todo o cuidado a
casa, o pomar e o mato prximo. A roda do moinho parecia ser o nico
elemento vivo e mvel naquela paisagem fria  e parada de carto-postal.
  -  de casa! - berrou Torbio.
  Ficou  escuta... Nenhuma resposta. S o som fofo e ritmado da roda, e
o chu da gua.
  Deixando o esconderijo, de espingarda em punho, Torbio aproximou-se,
cauteloso, olhando para todos os lados. Os companheiros o imitaram. De
repente abriu-se uma  das janelas da casa e dela partiram dois clares
seguidos de detonaes. Torbio e os amigos atiraram-se ao solo.
  - Feriram o Bio! - exclamou Licurgo. E cuspindo fora o cigarro,
esporeou o cavalo e, seguido de Rodrigo, precipitou-se para o lugar onde
vira o filho cair.
  Nesse momento rompeu uma fuzilaria de dentro do capo.
  Juquinha Macedo ordenou a seus homens que tomassem posio de combate.
Rodrigo, que cavalgava a poucos metros atrs do pai, viu este tombar do
cavalo e ouviu o  baque  surdo e ominoso que seu corpo produziu ao bater
no cho. Sofrenou sua montaria, apeou e correu para o Velho, gritando:
"Um mdico! Depressa!
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  Um mdico!" Sua voz, porm, se perdeu em meio das detonaes.
Ajoelhou-se ao p do ferido e compreendeu logo que o tiro o havia
atingido no trax. Ergueu-lhe a  cabea,  estonteado, exclamando
insensatamente: "Que foi, papai? Que foi?" Licurgo descerrou os lbios
como para dizer alguma coisa, mas de sua boca s saiu uma golfada de
sangue. Desnorteado, Rodrigo olhava em torno, sem saber a quem apelar. A
intensidade do tiroteio havia redobrado, e de onde ele estava podia ver
os companheiros  que se aproximavam de rastos do mato e do chal,
atirando sempre. "Um mdico, pelo amor de Deus!" - tornou a gritar. O
rosto do velho estava horrivelmente plido.  Gotas de suor brotavam-lhe
na testa, escorriamlhe pelas faces. Sua respirao era um ronco
estertoroso. Seus olhos comeavam a vidrar-se. Rodrigo desabotoou-lhe  o
casaco e o colete, rasgou-lhe a camisa. Descobriu o buraco da bala no
lado direito do peito. O projtil devia estar alojado no pulmo...
Segurou o pai nos braos,  ergueu-o e ficou a olhar atarantado dum lado
para outro, sem saber para onde ir. O sangue continuava a manar da boca
do ferido, cujo leno branco aos poucos se tingia  de vermelho. Rodrigo
sentiu faltarem-lhe as foras. Suas pernas se vergavam. Tornou a pousar
o corpo no cho e, indiferente s balas que cruzavam por ele, sibilando,
rompeu a correr na direo da carroa, onde esperava encontrar pelo
menos algodo e gaze.
  Quando voltou, minutos depois, Licurgo Cambar estava morto.
  35
  Ao cair da noite a casa estava tomada e os matos varejados. O inimigo,
pouco numeroso, fugira na direo de Nova Pomernia, deixando para trs
um morto e trs  feridos.
  O cadver de Licurgo Cambar achava-se agora estendido em cima da mesa
da sala de jantar, no chal do colono. Liroca choramingava a um canto.
Rodrigo e Torbio  rondavam  o corpo do pai, quase to plidos como o
defunto, mas ambos de olhos secos. De quando em quando olhavam para
Bento, que estava inconsolvel.
  464
  Nunca tinham visto o caboclo chorar. Era um choro feio, de boca
aberta, de sorte que a baba que lhe escorria pelas comissuras dos lbios
se misturava com as lgrimas  e juntas lhe entravam pelas barbas
grisalhas.
  Fazia pouco, numa rpida reunio da oficialidade, ficara resolvido que
Juquinha Macedo assumiria dali por diante o comando geral da Coluna. Sua
primeira deciso  foi a de contramarchar para o norte. Um dos inimigos
aprisionados informara que Nova Pomernia estava guardada por um
destacamento legalista pequeno mas bem armado  e municiado. O coronel
Macedo mandou contar as balas de que dispunham e verificou que havia
apenas uma mdia de cinco tiros para cada soldado. Era o diabo...
  - Agora um assunto desagradvel... - murmurou, aproximando-se de
Rodrigo. - Onde vamos enterrar o corpo?
  O filho de Licurgo fitou nele um olhar tranqilo e respondeu:
  - No Angico.
  - Como? - surpreendeu-se o outro.
  - J combinei tudo com o Bio. No te preocupes.
  - Mas estamos muito longe. Umas dez ou doze lguas...
  - Oito. No precisamos mais de catorze ou quinze horas para ir e
voltar.
  - Mas a estncia est ocupada por foras do Madruga!  uma temeridade.
  -  um assunto de famlia, coronel. Eu e o Bio levamos o corpo. O
Bento tambm faz questo de ir. Vamos os trs por nossa conta e risco.
  Uma sombra passou pelo rosto do outro.
  - No posso permitir que se arrisquem.
  - Sinto muito. Mas temos de te desobedecer... Juquinha Macedo
mastigava o cigarro apagado. Ps a mo no
  ombro do amigo:
  - Me deixem mandar um piquete com vocs... Rodrigo sacudiu
negativamente a cabea.
  - No. Quanto menos gente, melhor. Vamos sozinhos, no queremos que
ningum mais se arrisque por nossa causa. O Bio conhece esses campos de
olhos fechados.
  465
  Macedo no parecia ainda convencido.
  - Por que no enterramos o coronel aqui, marcamos a sepultura, e
depois, quando essa revo...?
  - No adianta, Juquinha. Est resolvido.
  O novo comandante deixou escapar um suspiro de impacincia.
  - Levem ento o corpo na carroa.
  Torbio repudiou a idia. Pretendia evitar as estradas reais. Teriam
de cortar invernadas, vadear rios... no podiam levar nenhum veculo.
  - Est bem - resignou-se o coronel Macedo, fazendo um gesto de
desalento. - Meu dever era prender vocs e impedir essa loucura. Mas
tambm compreendo. Sei o que  o Angico representava para o coronel
Licurgo. Nesta hora prefiro agir como amigo e. no como chefe. Sejam
felizes!
  Ficou combinado que, na volta, Rodrigo, Torbio e Bento se
encontrariam com o resto da Coluna na Encruzilhada.
  - Se amanh at esta hora no tivermos voltado - disse Bio - toquem
para a frente: no nos esperem.
  Amarraram o morto em cima do cavalo, de bruos. Partiram pouco depois
das nove. Era uma noite sem lua, mas de cu mui estrelado. Torbio
puxava a cabresto o cavalo  que carregava o defunto. Rodrigo levava
presa  cela uma p que encontrara no poro do chal. Cada um possua um
revolver, uma Winchester e um faco: trinta e cinco  tiros ao todo.
  No haviam andado meio quilmetro quando perceberam que estavam sendo
seguidos. Fizeram alto e esperaram. Trs cavaleiros galopavam na direo
deles: Chiru, Neco  e o velho Liroca.
  - Que  que querem? - perguntou Rodrigo, quando os amigos os
alcanaram.
  - Vamos com vocs - disse Chiru. - O coronel Macedo nos deu licena.
  - Mesmo que ele no desse - acrescentou Neco - eu vinha.
  - No sejam bobos. Voltem.
  - Se vocs so loucos - disse o barbeiro - ns tambm temos o direito
de ser.
  466
  Torbio desinteressou-se da discusso, ps seu cavalo em movimento.
  - E tu, Liroca? - perguntou Rodrigo.
  - Tambm sou amigo.
  - Um homem da tua idade! Vai ser uma puxada braba, numa noite de trio
abaixo de zero. Se o inimigo nos pega, estamos liquidados.
  - Pacincia. Ningum fica pra semente.
  Neco e Chiru seguiram Torbio. Rodrigo no teve outro remdio seno
dizer:
  - Vamos.
  E os seis amigos entraram numa invernada, cabresteando o c.ivalo do
morto  luz das estrelas.
  Andaram por mais de trs horas num silncio cortado apenas pelos
pigarros do Liroca, pela tosse nervosa do Chiru, ou por uma ou outra
observao de Neco, que ficava  sem resposta, como se suas palavras se
tivessem congelado no ar.
  Rodrigo deixara-se ficar para trs. No tirava os olhos do cavalo que
levava o defunto. Tinha a inquietadora, misteriosa impresso de que
aquilo j acontecera.  Onde?  Quando? Como? As mos, os ps, as orelhas
doam-lhe de frio. As silhuetas daqueles seis cavaleiros (o velho
Licurgo fazia a sua ltima viagem na terra), a quietude  transparente e
glacial dos campos, o rudo das patas dos cavalos... tudo aquilo tinha
para ele algo de irreal, de fantasmagrico... Sentiu uma pontada forte
nas  costas. Levou a mo  testa e teve a impresso de que ela
escaldava. Decerto apanhara uma pneumonia e ardia em febre. Talvez
aquela madrugada o Bio tivesse de enterrar  dois defuntos em vez de um.
Bastava fazer uma cova maior... Era o que ele, Rodrigo, merecia.
  Mataste teu pai. Quem dizia isto em seus pensamentos era ele prprio.
Sim, matei meu pai.
  - Queres um trago? - perguntou o Neco, aproximando-se.
  Rodrigo pegou a garrafa e bebeu um gole de parati.
  Nunca a figura e a voz de Neco Rosa lhe haviam parecido to estranhas
e improvveis.
  467
  - Vamos ter uma geada braba - disse o barbeiro.
  Rodrigo no respondeu. Matei meu pai. O Velho no queria vir... Eu
insisti. Agora  tarde, no h mais remdio, est tudo acabado. Imaginou
a reao da gente do  Sobrado ao receber a notcia... Matei meu pai. Mas
todos morrem! Por que me culpam? Quantas centenas de pessoas esto
morrendo neste mesmo instante no Rio Grande?  No te iludas. No
confundas teu caso particular com os outros. Mataste o teu pai. Tu
sabes. Mataste tambm o Miguel Ruas. O Cacique Fagundes. O Jac Stumpf.
O Pedro  Vacariano. O Cantdio dos Anjos. Das outras vtimas tuas nem os
nomes sabes...
  Dobrou-se na sela, a uma pontada mais forte. Quis chamar o irmo, que
continuava amadrinhando o grupo. No chamou. Matei meu pai. Tinha o que
merecia. Tossiu com  fora, escarrou. Sangue? Invadiu-o ento uma
sbita, trmula pena de si mesmo. As lgrimas comearam a escorrer-lhe
geladas pelas faces. Foi-se deixando ficar para  trs para poder chorar
 vontade, sem que os outros vissem. E j no sabia ao certo se chorava
de pena do pai ou de si mesmo.
  E o grupo continuou a andar madrugada adentro. Trs vezes tiveram de
cortar aramados. Torbio havia pensado num lugar para enterrar o corpo:
ao p da corticeira  grande, situada atrs dum caponete e  beira dum
lajeado, no fundo da Invernada do Boi Osco. Era um stio bonito, fcil
de guardar na memria. Alm disso, ficava  bastante longe da casa da
estncia. Era improvvel que os soldados do Madruga os surpreendessem.
Precisavam fazer tudo e voltar antes de raiar o dia. Consultou o
relgio  luz da chama do isqueiro: trs e vinte.
  Passava um pouco das quatro quando fez alto e disse aos companheiros:
"Chegamos". Ergueu a mo e apontou... Rodrigo avistou o caponete e
comeou a ouvir um rumor  de gua corrente.
  Cortaram o arame da cerca e entraram nos campos do Angico. Apearam,
tiraram o morto de cima do cavalo e puseram-no ao p da corticeira. Os
cinco amigos comearam  a abrir a cova com uma p, revezando-se,
enquanto, acocorado junto do corpo de Licurgo Cambar, o velho Liroca
montava-lhe guarda, como um co fiel
  468
  que ainda no se convencera de que seu dono no era mais deste mundo.
  36
  Estavam agora de luto as mulheres do Sobrado. Fora Aderbal Quadros
quem lhes levara a notcia. A manh estava nublada e o vento sacudia as
vidraas do casaro.  O  pai de Flora entrou, parou no vestbulo, a cara
triste, sem saber como comear.
  Maria Valria antecipou-se.
  - No precisa dizer. J sei. Mataram o primo Licurgo.
  Babalo fez com a cabea um lento sinal afirmativo. Flora rompeu a
chorar. A velha ficou onde estava, de braos cruzados, o olhar fito em
parte nenhuma.
  Quando, um pouco mais tarde, Aderbal lhe perguntou quem havia dado a
triste notcia, ela murmurou apenas:
  - O vento.
  E o vento soprou ainda por dois dias, levando as nuvens para as bandas
do mar. E o cu de novo ficou limpo, o sol reapareceu e a vida no
Sobrado continuou como  antes.
  Maria Valria no falava nunca no cunhado, fechava-se em prolongados
silncios e ningum sabia no que pensava quando se deixava ficar ali ao
balouo da cadeira  da  velha Bibiana, o xale sobre os ombros, o olhar
no braseiro.  hora do primeiro chimarro, antes de clarear o dia,
Laurinda suspirava olhando para o banco onde o  patro costumava
sentar-se com a cuia na mo. E  noite, quando vinha trazer os seus pes
quentes, Chico Pais metia-se num canto e, com olhos midos, ficava
olhando  ora para Maria Valria ora para Flora, com uma tristeza bovina
nos olhos injetados. Outro que naqueles dias no podia entrar no Sobrado
sem chorar era o dr. Cario  Carbone. Quanto a Aderbal Quadros, passava
longos instantes no escritrio do amigo morto, tocando em objetos que
lhe haviam pertencido - a caneta, o tinteiro, a  esptula de cortar
papel - e olhando um retrato tirado em 1922 e no qual Licurgo aparecia,
excepcionalmente risonho, em cima dum cavalo. De vez em quando Babalo
murmurava para si mesmo "Que cosa brbara!", sacudia a
  469
  cabea, penalizado, e saa a andar pela casa, meio sem rumo, envolto
na fumaa de seu cigarro.
  No oratrio havia sempre uma vela acesa. O prato e o copo de prata de
Licurgo continuavam a ser postos na mesa  hora das refeies. Flora
mandou rezar uma missa  de stimo dia em inteno  alma do sogro. E por
muitos dias tiveram visitas de psames, gente que ali ficava na sala,
entre suspiros e silncios, perguntas, ociosas,  referncias elogiosas
ao morto, e novos suspiros e silncios.
  O inverno continuava. Naqueles dias de agosto os telhados amanheciam
cobertos de geada. A gua que passava a noite ao relento, em baldes ou
tinas, amanhecia coberta  por uma camada de gelo da grossura dum vidro
de vidraa. E o frio parecia tambm congelar o tempo, tornando mais dura
ainda a espera.
  Pelos jornais as mulheres do Sobrado acompanhavam a marcha da
revoluo, com a qual bem ou mal se haviam habituado a viver. Para elas
existiam nomes claros e nomes  escuros. Honrio Lemes era um nome
dourado. Nepomticeno Saraiva, um nome sombrio. Um era o heri, outro o
bandido. Filipe Portinho era uma combinao de letras e  sons que lhes
produziam uma sensao de conforto e esperana. Madruga era um smbolo
noturno, que as levava a pensar em sangue e brutalidades. A figura de
Firmino  de Paula provocava em Maria Valria uma mixrdia de
sentimentos. Lembrava-se da Revoluo de 93, em que vira o chefe
poltico de Cruz Alta - um hornem de ar severo  - a confabular no
Sobrado com Licurgo. Contavam-se dele crueldades em que ela no queria
acreditar, pois naquele tempo sua gente brigava contra os maragatos.
Agora,  como o homem estivesse do lado dos "chimangos", comeava a
alimentar dvidas... Mas era sempre uma coisa boa para a alma da gente
ver num jornal a cara honesta e  simptica de Zeca Neto, com suas barbas
de patriarca. (O safado do Camacho s lhe chamava "Zeca Veado", porque -
dizia - o general de Camaqu no fazia outra coisa  seno correr...) E
Maria Valria no podia compreender como "moos to bem-apessoados" como
o dr. Flores da Cunha e o dr. Oswaldo Aranha pudessem estar do outro
lado...
  470
  Os jornais em geral chegavam ao Sobrado s duas da tarde, trazidos por
Dante Camerino, que ia busc-los na estao. Processava-se ento ali na
sala de jantar todo  um cerimonial. Maria Valria sentava-se na sua
cadeira, traava o xale, acavalava os culos no nariz, abria o Correio
do Sul, lendo primeiro o editorial e depois  as notcias. Flora, a seu
lado, tinha nas mos o Correio do Povo. A velha interrompia-lhe a
leitura de quando em quando, com observaes.
  - O general Estcio voltou, reorganizou a coluna dele e anda fazendo o
diabo pras bandas de So Gabriel...
  - Ah - fazia Flora, sem prestar muita ateno. Continuava a ler, mas
l vinha de novo a velha:
  - O Zeca Neto tomou Lavras... O Honrio Lemes entrou em Dom Pedrito. -
Uma careta, um estalar de lngua e depois: - Alegria de pobre no dura
muito. Tiveram de  abandonar  a cidade porque a fora do Flores da Cunha
andava nas pegadas deles...
  Floriano aos poucos se ia interessando tambm pelas notcias da
revoluo. Certas palavras e frases - nomes de pessoas, lugares,
expresses militares - tinham  para  ele um mgico poder sugestivo. No
princpio da campanha ouvira falar que os soldados de Portinho se haviam
emboscado no desvio Giaretta para atacar o trem em que  Firmino de Paula
passava com suas tropas... Esse combate excitara-lhe a imaginao pelo
que tinha de evocativo das histrias do Far West que ele via no cinema.
E  quando ouviu o av materno anunciar que a mortandade tinha sido "uma
cosa brbara", passara a emprestar  palavra Giaretta uma conotao
trgica. Leu um dia: "Honrio  Lemes e suas foras atravessaram o Ibicu
da Armada". A frase de certo modo lhe soou como irm gmea de outras que
lera num livro de histria universal. "Csar atravessou  o Rubico" e
"Napoleo cruzou os Alpes com seus exrcitos". Ibicu da Armada era um
nome de ferro, duro, frio e herico. Caver, o nome da serra onde
Honrio costumava  refugiar-se periodicamente, tinha para o menino algo
de macabro pela sua semelhana com caveira. O que, porm, mais o
impressionou naqueles primeiros dias de
  471
  setembro foi a notcia do combate do Poncho Verde, em que os soldados
de Honrio Lemes haviam infligido uma derrota sria aos de Nepomuceno
Saraiva. Contavam-se  histrias negras. "Os maragatos pegavam um
prisioneiro, mandavam o bicho dizer 'pausinho', e se o homem pronunciava
'paussinho', viam logo que era castelhano e passavam-lhe  a faca nos
gorgomilhos." "Tu sabes - dizia-se como justificativa - os assisistas
estavam com a marca quente por causa das barbaridades que o Nepomuceno e
seus mercenrios  cometeram no combate do Ibirapuit..."
  Outra notcia que estimulou a fantasia de Floriano, to nutrida pela
leitura dos romances de Jlio Verne, foi a de que o aeroplano que os
legalistas empregavam  na  luta contra os revolucionrios havia sido
destrudo por uma exploso em que um dos pilotos morrera e o outro
ficara gravemente ferido.
  37
  Uma manh de setembro, ao erguer a vidraa de uma das janelas dos
fundos da casa, Flora viu os pessegueiros do quintal todos cobertos de
flores rosadas. Era o  primeiro  recado que lhes mandava a primavera, e
isso a deixou um tanto animada. Havia no vento uma frescura mida e
doce, que recendia a flores de cinamomo. Flora pensou  em Rodrigo e
lgrimas vieram-lhe aos olhos. Fosse como fosse, o inverno tinha
acabado! No iria acabar tambm aquela guerra cruel? Comunicou sua
esperana a Maria  Valria, que lhe disse:
  - No se iluda.
  A velha tinha razo. A revoluo continuou. Durante todo aquele ms
chegaram notcias de combates em Cima da Serra, na zona da fronteira do
sul e na Regio Missioneira,  por onde andava agora o Leo do Caver"
com sua diviso.
  Cidades e vilas eram tomadas hoje pelos revolucionrios e retomadas no
dia seguinte ou poucas horas depois pelos legalistas.
  Foi no primeiro dia de outubro - o vento pastoreava no cu um rebanho
de grandes nuvens brancas - que Aderbal Quadros
  472
  chegou ao Sobrado com a notcia de que o general Zeca Neto havia
entrado com sua tropa na cidade de Pelotas. Flora exultou. Maria Valria
permaneceu impassvel.  Aquilo - declarou - no significava nada para
ela, j que havia perdido todo o interesse na revoluo... Era como se
com essa atitude de indiferena a velha esperasse  forar "aquela gente
louca" a terminar a luta, voltar para casa e "sossegar o pito".
  Foi em fins daquele mesmo outubro que um prprio trouxe a Flora este
bilhete de Rodrigo:
  Minha querida: Retomamos ontem o Angico, sem perder uma vida! Juro-te
que daqui ningum mais nos tira. Demos uma sepultura decente ao corpo do
papai. Ficou no  alto  da coxilha do Coqueiro Torto, junto com o
Fandango. De l os dois podem avistar a casa da estncia e os campos que
tanto amavam.
  No te inquietes. Estamos todos bem, e j se ouvem boatos de paz. A
grande hora no tarda. Que Deus te abenoe e guarde, a ti,  Dinda e aos
nossos queridos filhos.
  Efetivamente, desde fins de outubro, o general Setembrino de Carvalho
encontrava-se no Rio Grande do Sul, como emissrio do presidente da
Repblica, tratando da  pacificao.
  E durante aqueles dias de novembro - em que as ltimas ventanias da
primavera sopravam l fora, despetalando flores, arrepiando o arvoredo,
fazendo bater portas  e janelas - as mulheres do Sobrado acompanharam
pelos jornais os passos do pacificador.
  Quando soube que as hostilidades haviam sido suspensas, Flora sentiu
um sbito alivio: foi como se lhe tivessem tirado um peso do corao.
  Noticiava-se que o general Setembrino de Carvalho confabulava com os
chefes de ambas as faces, procurando uma frmula para consolidar a
paz.
  Fosse como fosse - refletia Flora - o importante era que Rodrigo
estava vivo e fora de perigo!
  473
  Um dia, vendo a filha de novo com cores nas faces e uma alegria nos
olhos, o velho Babalo olhou para Laurentina e murmurou:
  - Nossa filha refloriu. Est bonita que nem os pessegueiros do Sutil.
  
  Naquela noite de 15 de novembro havia no Sobrado um nervosismo alegre
que contrastava com as roupas negras das duas mulheres, ainda de luto
fechado. Muito daquela  excitao de expectativa feliz se havia
comunicado s crianas, que estavam tambm alvorotadas. Rodrigo e
Torbio chegariam no dia seguinte! Ambos se haviam recusado  a deixar o
Angico sem primeiro terem a certeza de que todos os seus companheiros
seriam respeitados depois que tornassem a suas casas. Nenhum deles
confiava no Madruga.  Juquinha Macedo, que participara pessoalmente das
discusses em torno do tratado de paz, insistia em entrar em Santa F
com todos os soldados de sua coluna, desfilar  com eles pelas ruas da
cidade e dissolver a tropa ali na praa da Matriz, ao som de discursos,
foguetes e msica.
  Santa F preparava-se agora para receb-los. Mulheres e crianas, das
janelas de suas casas jogariam flores sobre as cabeas dos guerreiros de
leno encarnado.  O  telefone do Sobrado, durante todo aquele dia,
tilintava de instante a instante: gente que queria saber a hora certa em
que os revolucionrios entrariam em Santa  F, o programa dos festejos,
os nomes dos oradores...
  Laurentina contava a Maria Valria as dificuldades e sustos que
passara no Sutil durante o inverno, sempre a temer que o Corpo
Provisrio lhe requisitasse o gado  leiteiro, os poucos cavalos que
tinham e as suas ricas galinhas de raa. Maria Valria prestava-lhe
pouca ateno, pois tinha o ouvido assestado para a conversa  dos
homens. Aderbal referia-se ao pacto que fora firmado em Pedras Altas, no
Castelo de Assis Brasil, por este ltimo, pelo general Setembrino de
Carvalho e pelos  principais chefes revolucionrios.
  - Esse pacto (Babalo dizia pqueto) representa uma vitria das do
assisismo!
  474
  Aro Stein, que havia alguns minutos o escutava em silncio, fez uma
careta de dvida.
  - Mas o dr. Borges, segundo entendo, permanece no poder. O velho
chupou o cigarro e soltou uma baforada na cara do
  interlocutor.
  - Menino, no se trata de homens, mas de idias!
  Tio Bicho escutava a conversa de olhos meio fechados, num silncio de
quem no tinha opinio sobre o assunto.
  Aderbal procurou provar seu ponto de vista. Segundo o tratado, a
Constituio do Estado devia ser reformada no sentido de incluir-se nela
uma clusula que proibisse  terminantemente a reeleio do presidente do
Estado para o perodo presidencial imediato.
  -  o fim do Borges! - exclamou. - Se isso no  vitria, ento no
sei o que !
  Havia mais ainda - continuou o velho. O tratado autorizava a reforma
judiciria que, entre outras coisas, daria competncia  justia
ordinria para julgar os  recursos  referentes s eleies municipais.
Ia acabar-se tambm o abuso da nomeao dos famosos "intendentes
provisrios". Teria o Rio Grande conseguido tudo isso sem a revoluo?
  - E o senhor acha - perguntou Stein - que o dr. Borges de Medeiros vai
ratificar o tratado?
  - Deve ser ratificado hoje - replicou Babalo. Maria Valria alou a
cabea e interveio:
  - Cale essa boca, muulmano. Voc no entende desse negcio.
  Mas, arrependendo-se em seguida de sua rudeza para com o judeu, foi
at a cozinha e trouxe de l um prato com uma fatia de pessegada e outra
de queijo. Entregou-o  ao rapaz, dizendo:
  - Coma.  o ltimo pedao da ltima caixeta. Acabou-se a pessegada e a
guerra.
  Por volta das oito e meia daquela mesma noite, a banda de msica do
Regimento de Infantaria entrou na praa ao som dum dobrado. Moleques
descalos enxameavam como  moscas ao redor dos msicos, marchando e
pulando. Pouco depois que a banda se
  475
  aboletou no coreto, do ptio da Intendncia subiram foguetes, que
explodiram sobre a praa, em rpidos clares.
  Flora estremeceu e por um instante seus olhos se velaram de medo.
Dante Camerino, que entrava naquele momento, explicou:
  - O dr. Borges de Medeiros ratificou esta tarde o tratado de Pedras
Altas. No sei por que o Madruga est festejando o acontecimento.
Decerto pensa que os "chimangos"  ganharam a parada...
  Era finalmente a paz - sorriu Flora. - E no dia seguinte Rodrigo
estaria em casa! Subiu as escadas quase a correr, foi acender as velas
do oratrio e ali ficou  por  alguns momentos ajoelhada a rezar.
  Os Carbones chegaram, pouco depois, numa alegria em que alternavam
risadas com lgrimas. As exploses dos foguetes haviam cessado e agora a
banda de msica tocava  uma valsa. A praa, aos poucos, se enchia de
gente. Ouviam-se vozes alegres sob as rvores. Os namorados tinham
voltado.
  Maria Valria aproximou-se lentamente de Camerino, que estava
debruado numa das janelas.
  - Parece mentira - murmurou a velha. - Dez meses de guerra. Sabe Deus
quanta gente morreu!
  - Mas o tratado de Pedras Altas  uma vitria - replicou o mdico. -
Nossos companheiros no morreram em vo.
  - Mas morreram.
  476
  Reunio de famlia - IV
  30 de novembro de 1945
  Roque Bandeira deixa o Sobrado pouco depois das onze horas, em
companhia de Floriano Cambar. A morna brisa que sopra do sueste espalha
na noite uma fragrncia  adocicada  de campos e pomares, que aqui na
praa se mistura com um cheiro de po recmsado do forno.
  Roque faz um gesto que abrange o largo:
  - Olha s as medonhas tatuagens com que a campanha poltica desfigurou
a tua cidade!
  Alm dos coloridos sinapismos dos cartazes aplicados sobre as pedras
da praa, os nomes dos candidatos e seus gritos de guerra e promessas
aparecem escritos a  piche  ou cal em paredes, caladas e at troncos de
rvores. O muro da Padaria Estrela d'Alva est coberto de inscries: -
"Votem no Brigadeiro da Vitria... Getlio voltar...  Viva Prestes!...
Duira  a salvao nacional".
  Pouco abaixo desta ltima frase, algum gravou no reboco,
possivelmente com a ponta dum prego e com raiva, cinco letras
irregulares: Merda.
  - Merda! - grita Bandeira. - Eis o comentrio do povo a todos esses
candidatos e promessas.  o slogan dos slogans!
  Rompe a rir e em breve o riso se transforma numa tosse convulsiva, que
o pe de rosto congestionado, olhos esbugalhados e lacrimejantes, a
andar dum lado para  outro,  dobrado sobre si mesmo, numa ansiada busca
de ar. (A sombra da voz de Laurinda na mente de Floriano: "Era uma vez
um sapo-boi que de tanto inchar estourou".) E quando  o acesso abranda,
tio Bicho enxuga as lgrimas
  477
   com os dedos, passa a ponta de uma das mangas do casaco pelo
queixo, onde um filete de baba escorre, e depois encosta-se no muro e
ali fica, arquejante e de  olhos exorbitados - um condenado diante do
peloto de fuzilamento.
  Floriano aproxima-se do amigo e, com uma ternura meio acanhada,
toma-lhe do brao.
  - Como , compadre?
  - Passou... passou... - murmura Bandeira, ainda com voz engasgada. D
trs passos na direo do meio-fio da calada, limpa a garganta num
pigarro explosivo e expectora  na sarjeta. Volta-se para o muro e aponta
com um dedo trmulo para o palavro.
  - Sabes o que  isso? A cristalizao de quatrocentos anos de
decepes e de amarga experincia. Nessa palavra est todo um programa
poltico, social e filosfico.  E a sabedoria da misria. Mas vamos
sentar l debaixo da figueira, que estou sem sono.
  Atravessam a rua lentamente.
  - Tenho uma teoria - vai dizendo Floriano - ou, melhor, uma caricatura
de teoria. Presta ateno. Durante sua histria, o brasileiro tem vivido
a oscilar entre  dois  exemplos, dois plos magnticos representados por
dois Pedros: Pedro II e Pedro Malasarte...
  Bandeira solta um grunhido, que o outro interpreta assim: "Estou te
escutando. Continua".
  Param junto da calada da praa.
  - O velho imperador - prossegue Floriano - era o smbolo da virtude,
da austeridade, da retido de carter e de costumes. Malasarte  o
safado, o sensual, o empulhador.  A Repblica mandou embora Pedro II e
Pedro Malasarte ficou com o campo livre. Mas foi s durante o Estado
Novo que o simptico salafrrio floresceu de verdade, tornando-se  heri
nacional, paradigma de comportamento poltico e social.
  - No est m a tua teoria - resmunga Roque Bandeira. - Nada m...
como caricatura,  claro. Tens em casa um discpulo de Malasarte: o
Sandoval.
  Agora olham ambos para um grande letreiro branco que se estende sobre
vrios metros de calada.
  478
  - O preo da liberdade- l tio Bicho, lentamente, como se soletrasse
-  a eterna vigilncia. X gua! O brigadeiro anda repetindo nos seus
discursos essa besteira  do Thomas Jefferson..
  Volta-se para o amigo, segura-lhe as lapelas do casaco com ambas as
mos e pergunta-lhe, num bafio de cerveja:
  - Liberdade? Mas que liberdade? Fsica? Psicolgica? Religiosa?
Econmica?  preciso especificar... Liberdade para quem? Para qu? Para
a classe a que pertence  o  brigadeiro manter e aumentar seus
privilgios? Para o povo contirtuar na misria? Para os tubares da
burguesia seguirem nadando no gordo mar dos lucros extraordinrios?
  Retomam a marcha rumo da figueira. Bandeira aperta o brao do amigo.
Mostra com um movimento de cabea o busto do cabo Lauro Car, que l
est no centro da praa,  ao lado do coreto, coberto por um pano negro.
  - Esse menino teve liberdade para dizer no quando o convocaram para a
FEB, quando o tiraram de Santa F, de seu ofcio de marceneiro, para ir
morrer na Itlia?  Hein? Teve? E o piloto americano do avio que soltou
a bomba atmica sobre Hiroxima teve liberdade para negar-se? Ou, melhor,
teve liberdade de saber que ia transformar-se  no co-assassino de
duzentas mil criaturas humanas?
  Sentam-se no banco debaixo da grande rvore. Bandeira passa lentamente
as mos pelo rosto carnudo, pigarreia e depois, num tom menos enftico,
continua:
  - Por acaso ser possvel para o homem comum viver com liberdade neste
nosso mundo de presses? Presses de todos os lados, da famlia, duma
educao preconceituosa,  do governo, dos grupos econmicos e da
propaganda... me diga,  possvel?
  Floriano sacode a cabea lentamente e pensa na sua contnua e
prolongada luta em busca de liberdade. Desejou sempre com tal ardor ser
livre, que acabou escravo  da  idia de liberdade, tendo pago por ela
quase o preo de sua humanidade. Sabe agora que conquistou apenas uma
liberdade negativa1 que pouco ou nada serve ao homem  e ao escritor.
Sente-se livre de compromissos polticos e vive tentando convencer-se de
que est liberto - pelo menos
  479
  Me levantei, aquentei a gua para um chimarro, dei comida para os
peixes, fiz a barba e comecei um novo dia.
  Solta um suspiro que lhe sai pela boca com uma baforada de fumaa.
Depois, entre srio e zombeteiro, exclama:
  - Existir, velhote,  uma coisa muito sria.
  Tira a palheta da cabea, aperta-a de borco contra o prprio ventre e
comea a tamborilar na copa com os dedos, num ritmo gaiato de samba, que
nada tem a ver com  o que vai dizer:
  - Conta-se que Santo Toms de Aquino chorava ao contemplar o mistrio
do Ser. Pois eu no choro: eu me borro.
  - E eu fujo - murmura Floriano, deixando escapar quase
involuntariamente esta confidencia. Mas acrescenta: - Quando posso.
  - Fazes mal.  preciso enfrentar a vida, e olhar na cara a morte, essa
Grande Marafona. Neste anus mundi que  Santa F, levamos "vidinhas de
segunda mo", para  usar a frase dum desses meus filsofos cujas
"verdades", tu sabes, me chegam por colis postaux. Pois ... Somos
caricaturas do que poderamos ser...
  Floriano olha criticamente para o amigo. Suas roupas sempre o
intrigaram. No inverno Roque Bandeira ordinariamente usa uma fatiota de
casimira preta, muito sovada,  por cima da qual nos dias mais frios
enfia um sobretudo cor de chumbo, com uma comovente gola de veludo
negro, j pelada pelo uso; na cabea mete um chapu de feltro  quase
informe que, quando atirado numa cadeira, mais parece um gato preto
enroscado sobre si mesmo. E os trajos de vero do Cabeudo so estas
roupas de brim claro,  amassadssimas, umas sandlias de couro, a
palheta amarelada, de abas mordidas, e a eterna gravata: borboleta negra
pousada sobre o colarinho branco, mole e geralmente  encardido.
  - Sim - repete Roque Bandeira - pobres caricaturas. Por muito tempo
pensei que podia levar a vida na flauta (e eu sei que s vezes dou a
impresso disso). Achei  que viver meio leviana e aereamente sem
enfrentar o Problema era uma soluo para a angstia de viver. Mas no
, te asseguro que no .  antes uma fuga covarde  e suicida. Porque
resignando-nos a uma pobre subvida, estamos assassinando ou, melhor,
impedindo que nasa o nosso eu
  482
  verdadeiro. Como j te disse, precisamos agarrar o Touro a unha, mesmo
que isso nos leve a posturas ridculas. As pessoas em sua grande maioria
so demissionrias  da espcie humana. Vivem existncias inautnticas.
  - Mas que  ser autntico?
  Roque Bandeira pe a palheta sobre o banco, a seu lado, tira do bolso
um canivete e um pedao de fumo crioulo e fica-se a preparar um novo
cigarro, embora ainda  tenha o outro entre os lbios.
  - E muito simples - murmura. - O homem  o ser que pode ter
conscincia de sua existncia e portanto tornar-se responsvel por ela.
Assim, o ser autntico  o  que  aceita essa responsabilidade.
  Floriano encolhe os ombros. O outro prossegue:
  - O ser inautntico  aquele que vive subordinado aos outros,
governado pela tirania da opinio pblica.
  - Se te consideras to livre, por que no tens coragem de sair  rua
sem essa gravatinha?
  - Deixa em paz a minha gravata!  a nica coisa que me resta do
smoking que tive nos tempos de estudante. Este paninho preto j faz
parte da minha anatomia. Sem  ele me sinto castrado.
  Floriano solta uma risada. O outro comea a palmear o fumo. Um cavalo
vindo das bandas da prefeitura atravessa a rua lentamente e o som de
seus passos ntidos  e  ritmados parece acentuar o silncio e a solido
da noite.
  Floriano estende as pernas, inteiria o corpo, apoia a nuca contra o
duro respaldo do banco e assim, mais deitado que sentado, os olhos
fechados, ambas as mos  metidas  nos bolsos das calas, diz:
  - Tu sabes que h certos problemas que s discuto contigo e com mais
ningum...
  - Obrigado pela parte que me toca - murmura Bandeira, com fingida
solenidade, despejando fumo no cncavo dum pedao de palha de milho.
  - Quando fico sozinho contigo, acabo sempre fazendo-te confidncias.
Por que ser?
  483
  - Deve ser por causa de minha acolhedora presena bovina. - Roque
Bandeira enrola a palha. - Ou ento desta feira que me torna uma
espcie de marginal. Ou do  fato  de eu te conhecer desde que
nasceste... Afinal de contas, sou ou no sou o tio Bicho?
  - Quando eu tinha oito anos (me lembro como se tivesse sido ontem) tu
me deste um livro de histrias ilustradas de Benjamin Rabier... Quando
completei doze, me  levaste  dois romances de Jlio Verne: A casa a
vapor e Vinte mil lguas submarinas...
  - E no te esqueas de que fui eu quem te iniciou em Zola e Flaubert,
para horror do vigrio, que te queria impingir vidinhas de santos e
mrtires, escritas por  padres...
  - E no entanto aqui estamos agora, praticamente homens da mesma
gerao, apesar da diferena de vinte anos que existe entre ns...
  Roque Bandeira cospe fora o toco de cigarro que tem entre os dentes,
acende o crioulo e d a primeira tragada, expelindo fumaa com gosto
envolvendo Floriano numa  atmosfera que lhe evoca imediatamente a imagem
de seu av Aderbal.
  - Ests ento disposto a fazer mais uma vez o padre confessor?
  - Claro. Ajoelha-te e abre o peito. Pecaste contra a carne? Com quem?
Quantas vezes?
  Floriano continua na mesma posio, sempre de olhos cerrados.
  - Falaste h pouco em ser autntico ou inautntico. . . Pois estou
convencido de que a maior pedra de tropeo que tenho encontrado na minha
busca de autenticidade   o desejo de ser aceito, querido, aprovado, e
que quase me levou a um conformismo estpido.  uma inclinao que me
vem da infncia e que acabou entrando em conflito  com outra obsesso
minha no menos intensa: a de ser completamente livre. So ou no so
desejos contraditrios?
  Roque Bandeira d de ombros.
  - Meu velho, na minha opinio, amadurecer  aceitar sem alarme nem
desespero essas contradies, essas... essas condies de discrdia que
nascem do mero fato  de  estarmos vivos. No escolhemos o corpo que
temos (olha s o meu...) nem a hora e o lugar
  484
  ou a sociedade em que nascemos. . . nem os nossos pais. Essas coisas
todas nos foram impingidas, digamos assim, de maneira irreversvel. O
homem verdadeiramente  maduro procura v-las com lucidez e aceitar a
responsabilidade de sua prpria existncia dentro dessas condies
temporais, espaciais, sociolgicas, psicolgicas  e biolgicas. Que tal?
Muito confuso?
  Um galo canta, longe. O cavalo agora pasta em cima dum canteiro e o
grugru de seus dentes arrancando a grama  um som que Floriano associa
aos porreiros do Angico.
  - Naturalmente j notaste que no fumo, no bebo e no jogo. Como
interpretas isso?
  -  uma atitude anti-Rodrigo Cambar.
  - E por que no pr-Flora Cambar?
  - Tambm. So dois lados da mesma moeda, inseparveis um do outro.
  Floriano abre os olhos e avista por uma fresta entre os galhos
emaranhados da figueira o caco luminoso da lua.
  - Quero ver se consigo verbalizar agora meu problema com um mnimo de
fantasia...
  - Por falar em verbalizar, s vezes no te perturba e inibe a idia de
que a realidade no  verbal? A conscincia disso deve ser um veneno
para o romancista,  hein?
  - No aumentes a minha confuso, homem de Deus! Mas espera... No
ignoras a vida que meu pai sempre levou, desde moo, fazendo minha me
sofrer com suas aventuras  erticas extraconjugais, seus apetites
desenfreados, seus exageros... Um dia entreouvi esta frase dum dilogo
entre ambos, no quarto de dormir: "No respeitas mais  nem a tua prpria
casa". Quem dizia isso era a minha me, com voz queixosa. Descobri
depois (mexericos de cozinha) que o Velho fora apanhado atrs duma porta
erguendo  a saia duma rapariga que tinha entrado no dia anterior para o
servio da casa...
  Roque comea a rir um riso que  mais um crocitar, como se ele tivesse
um sapo atravessado na garganta.
  - Eu agora tambm posso rir de tudo isso, claro! - exclamava Floriano.
- Mas para o menino essa experincia foi traumatizante. Doutra feita vi
meu pai em cima  duma  chinoca, num capo
  485
  do Angico... Eu era ento mais velho, teria os meus catorze anos...
No preciso te dizer que fiquei espiando a cena escondido atrs dum
tronco de rvore, com um  horror cheio de fascnio... e depois fugi,
correndo como um desesperado, como se eu e no ele fosse o criminoso.
  - Criminoso?
  - Bom, a palavra exata no  essa, mas tu sabes o que quero dizer...
  Por alguns instantes Roque luta com novo acesso de tosse, ao cabo do
qual reaviva o fogo do cigarro e diz:
  - Eu me lembro dumas caboclinhas gostosas de seus catorze ou quinze
anos que vinham do Angico para trabalhar no Sobrado... umas chinocas
peitudinhas, bem-feitas...  Umas "piroscas", como se costumava dizer
naquele tempo.
  - Pois bem. Vi muitas vezes o Velho apalpar os seios ou as ndegas
dessas meninotas, na minha frente, imagina, como se eu fosse um inocente
ou um idiota... Eu  ficava  desconcertado, no sabia onde me meter
quando via o nosso dr. Rodrigo dar presentinhos s rapariguinhas,
cochichar-lhes convites, devor-las com olhares lbricos...  Mas de que
 que ests rindo?
  - De teus cimes, menino.
  - Bom, confesso que eu andava tambm atrs dessas chinocas, faminto de
sexo mas sem coragem de agarr-las... Como um Hamletinho amarelento, de
olheiras fundas  e  cara pintada de espinhas, eu vivia o meu draminha.
Agarrar ou no agarrar? E agora chego a um ponto importante. No era
apenas a timidez sexual que me tolhia...
  - Eu sei - apressa-se a dizer Bandeira. - Era o medo das sanes da
tua tribo, cuja maior Sacerdotisa era dona Maria Valria, a vestal do
Angico e do Sobrado,  a  Guardi da Virtude. Certo?
  - Certo. Mas havia outra razo mais poderosa ainda. Eu no queria
decepcionar minha me. No queria que dissessem que por ser filho de
tigre eu tinha sado pintado...  O meu sonho era ser o anti-Rodrigo,
para compensar as decepes de minha me...
  - Em suma: serias o marido exemplar, j que o outro no era.
  486
  - A tens a histria. O dr. Rodrigo fumava? Eu jamais poria um cigarro
na boca. O dr. Rodrigo jogava? Eu jamais tocaria num baralho. O dr.
Rodrigo bebia? Eu jamais  tomaria bebidas alcolicas.
  Floriano ergue-se e comea a andar devagarinho na frente do banco, dum
lado para outro.
  - Quanto ao sexo - prossegue - eu me contentava com minhas satisfaes
solitrias na gua-furtada, a portas fechadas, em territrio que num
gesto mgico eu proclamara  livre da jurisdio da tribo e portanto de
suas sanes.
  - Mas aposto como vivias louco de medo das sanes da natureza.
  - Exatamente. Mas seja como for, na adolescncia, inspirado por
histrias sublimes, comecei a alimentar conscientemente um sonho: ser o
homem exemplar, o que por  um esforo de autodisciplina consegue
acorrentar a besta e liberar o anjo, o que se coloca acima dos instintos
animais: enfim, um produto acabado, uma espcie de  cristal puro e
imutvel...
  - Coisa que no s  impossvel como tambm indesejvel. Indesejvel
porque tal criatura seria apenas o Grande Chato. E impossvel porque o
homem no  um produto  acabado, mas um processo transitivo, um
permanente devenir... Tu mesmo disseste isto uma destas noites no quarto
do teu pai...
  Floriano caminha at o limite da sombra da figueira e ali fica a olhar
para a nica janela iluminada do Sobrado, a pensar em Slvia, com a
certeza de que nunca,  mas nunca mesmo ter a coragem de confessar a
ningum o que sente por ela. Tio Bicho abre a boca num bocejo cantado e
depois murmura:
  - Eu bem podia comer um bife com ovos e batatas fritas antes de ir
dormir. Que tal? Me acompanhas?
  Floriano volta para junto do amigo e, como se no tivesse ouvido o
convite, diz:
  - Podes bem imaginar o que senti no dia em que papai mandou tio
Torbio me levar  casa duma prostituta para a minha iniciao sexual.
Pensa bem no meu draminha.  Tinha dezesseis anos. Com o corpo sentia um
desejo danado de mulher, uma curiosidade, uma comicho, uma necessidade
de provar que era 
  487
  homem... Por outro lado odiava meu pai por ter forado aquela situao.
Bom... odiava no  o termo exato. Mas eu estava ressentido com ele
porque, me mandando a  uma  puta...
   com alguma hesitao que Floriano pronuncia esta ltima palavra,
cujo som lhe vem acompanhado da imagem de Maria Valria ("Te boto
pimenta na boca, maroto!").
  - ...ele me puxava para seu nvel, me fazia da sua igualha moral, me
obrigava a atraioar minha me...
  - No. Tu querias acreditar que estavas sendo obrigado a procurar
mulher, pois assim dividias com teu pai ou, melhor, empurravas para cima
dele toda a responsabilidade  do ato... e do desejo.
  - Bom. Sa da casa da prostituta com o esprito confuso. Decepcionado
porque afinal de contas o ato sexual no fora bem o que eu esperava...
Orgulhoso porque havia  provado que era homem... Envergonhado porque
tinha feito uma "bandalheira", segundo o cdigo e o vocabulrio da
Dinda... Sim, tambm com a sensao de estar sujo  e com o medo de ter
contrado alguma doena venrea. No dia seguinte no tive coragem de
encarar as mulheres do Sobrado. E quando  hora do almoo papai fez
diante  delas uma aluso velada mas maliciosa ao "grande acontecimento",
piscando-me o olho, assim como quem diz "ns homens nos entendemos",
engoli em seco, fiquei com  o rosto em fogo, desejei me sumir. E nessa
hora, nessa hora, sim, odiei o Velho...
  Um apito de trem, prolongado e trmulo, vindo de longe, das bandas da
Sibria, d ao espao da noite uma sbita e mgica dimenso de tempo:
transporta Floriano  por  uma frao de segundo a uma madrugada da
infncia, num frio agosto: no seu quarto do Sobrado, encolhido debaixo
das cobertas, ele ouviu o apito do trem de carga  que todas as noites
passava quela hora: e o menino ento era Miguel Strogoff, o correio do
czar, e estava dentro do transiberiano que cruzava apitando a estepe
gelada...
  Roque Bandeira pe o chapu na cabea e murmura:
  - Estou com uma broca medonha. Vamos at o Schnitzler comer alguma
coisa?
  488
  Continua, porm, sentado, o ventre cado como um saco sobre as coxas,
o ar sonolento. Floriano d-lhe uma palmadinha no ombro.
  - Tem pacincia. Estou em mar de confidncia. Me deixa continuar o
romance do romancista. Ah! Esqueci um pormenor importante na minha
histria.  que paralelamente  a todos esses sentimentos com relao ao
Velho, sempre senti por ele uma irresistvel fascinao...
  - E quem no sentiu? Teu pai  um sedutor profissional, um charmeur,
um feiticeiro.
  - Vou tentar te dizer como eu sentia a presena dele... Tu sabes, sou
muito sensvel a cheiros, que associo espontaneamente a pessoas, lugares
e situaes. Cigarro  de palha: o velho Aderbal. Bolinhos de milho: vov
Laurentina. Cera de vela: a Dinda. Patchuli e linho limpo: dona Vanja.
Picum e querosene: a casa da estncia.  Casca de laranja e de
bergamota: o inverno. E assim por diante... Ora, o Velho recendia a
Chantecler (perfume que usava com seu exagero habitual) de mistura com
sarro de cigarro e charuto e com um leve, tnue bafio de lcool... Tu
sabes qual era a minha reao ao fumo e  bebida... Quanto ao
Chantecler... bom, tenho de te  explicar que desde muito pequeno eu me
sentia atrado pela figura do galo estampada no frasco de perfume. Mais
tarde, no Angico, vi um belo galo de crista vermelha  pr-se numa
galinha. Um peo me explicou o que era aquilo... Depois ouvi histrias
de cozinha e galpo em torno de proezas erticas de galos, e de homens
"que eram  como galos", aprendi o significado do verbo galar e o da
expresso mulher galinha. Da por diante associei todas essas noes ao
"cheire de pai", e o perfume Chantecler  passou a ter para mim um forte
elemento de atrao e outro no menos forte de repulsa...
  - Exatamente o que sentias pelo veculo do cheiro...
  - Isso! Havia no Velho outro aspecto perturbador: sua beleza fsica
to decantada por toda a gente, e da qual ele prprio tinha uma
conscincia to vaidosamente  aguda. Eu me comprazia em comparar o
famoso retrato pintado por don Pepe com o seu modelo vivo, e s vezes,
quando me pilhava sozinho na sala, ficava na frente da  tela, namorando
a imagem paterna, numa espcie de inocente
  489
  narcisismo, pois era voz corrente que eu me parecia com o Velho.
("Cara dum, focinho do outro", dizia a Dinda.) Em mais de uma ocasio,
me lembro, cheguei a cheirar  a pintura. No sei se estou fantasiando
quando te digo que dum modo obscuro, no articulado, eu via naquele
retrato uma projeo da pessoa de meu pai num plano ideal  muito
conveniente aos meus sonhos de menino, isto , numa dimenso em que ele
no s permanecia sempre jovem e belo mas principalmente puro,
impecvel... quero dizer,  um Rodrigo que jamais faria minha me sofrer,
que jamais sairia atrs de outras mulheres...
  - Nem seria teu competidor...
  - A presena de vov Babalo era para mim sedativa, tranquilizadora
como a dum boi. A de minha me, doce e morna. A da Dinda,, um pouco
cida mas slida. Agora,  a  presena de meu pai eu sempre a senti
quente, efervescente, agressiva... Sua fama de macho no sentido da
coragem fsica me fascinava de maneira embriagadora, talvez  porque eu
no a sentisse em mim. . . Criei-me ouvindo na estncia e no Sobrado as
histrias do rico folclore da famlia em torno da bravura pessoal de tio
Torbio  e do Velho, e uma das minhas favoritas era a que se contava do
jovem dr. Rodrigo que um dia, todo endomingado e perfumado, mas sem um
canivete no bolso, em plena  rua do Comrcio dera uma sumanta num
capanga armado at os dentes, e que o agredira a golpes de rebenque.
  - A histria  autntica. Eu fui testemunha visual. Isso aconteceu l
por voltas de 1910...
  - Tambm fui alimentado com histrias em torno da decncia e da pureza
de carter dos Terras e dos Cambars. Havia duas palavras que meu pai
usava com muita freqncia:  uma era ombridade e a outra honra.
  - Tens de confessar que possuas um pai fabuloso, pelo menos para uso
externo.
  - Sim, era muito agradvel e conveniente ser filho do senhor do
Sobrado. Pertencer ao cl dos Cambars me dava uma sensao no apenas
de importncia como tambm  de segurana: a certeza de que ningum
jamais ousaria me tocar...
  490
  - E no te tocaram?
  - Tocaram. E como!  um episdio que nunca pude esquecer. Foi numa
manh de primavera, no ptio da escola de dona Revocata, durante a hora
do recreio. No sei  por  que motivo um de meus colegas, um pouco mais
velho e mais forte que eu, me agrediu e derrubou com uma tapona no
ouvido. Fiquei cado, estonteado de dor e surpresa.  Formou-se a nosso
redor um crculo de meninos que nos aulavam como se fssemos cachorros
ou galos de rinha. "Levanta! Mete a mo nele! Vamos." E como eu no
levantasse  (no vou te negar que estava com medo) rompeu a gritaria:
"Arrolhou! Frouxo! Galinha!" No meio duma vaia fugi do ptio, chorando
de vergonha, de dio, de impotncia,  sim, e tambm de paixo, diante
daquela enorme injustia. Eu, filho do dr. Rodrigo Cambar, eu, o menino
do Sobrado, tinha sido. esbofeteado por um "guri qualquer".  (O meu
adversrio era um mulatinho, filho dum sapateiro.) E ningum tinha
erguido um dedo em minha defesa! Para encurtar o caso: voltei para casa,
fui direito ao  Velho, contei-lhe chorando o que me acontecera, esperei
que ele pusesse o chapu, sasse como uma bala e no s repreendesse
dona Revocata por ter permitido aquela  barbaridade, como tambm puxasse
as orelhas do meu agressor. Bom. Sabes qual foi a reao do meu pai?
  - Est claro que s podia ter sido uma. Te deu outra sova...
  - Exatamente. Me aplicou uma boa dzia de chineladas no traseiro e
mais tarde, quando me viu a um canto soluando, disse: "Filho meu que
apanha na rua e no reage,  apanha outra vez em casa. Se  covarde, no
 meu filho". E quando pensei que o caso estava encerrado, o Velho me
pegou com fora pelo brao e exigiu que eu voltasse   escola no dia
seguinte e, na hora do recreio, na frente de todos os colegas, tirasse a
desforra. "Mas ele  maior que eu", aleguei. E o Velho: "Pois se 
assim,  pegue um pau, uma pedra, mas ataque-o, limpe o seu nome". E
repetiu: "Se  covarde no  meu filho". Bom. Passei uma noite de
cachorro, pensando na minha responsabilidade  do dia seguinte. Inventei
que estava doente para faltar  aula. (Se no me engano, tive mesmo uma
diarria nervosa), mas papai no admitiu nenhuma desculpa: levou-
  491
  me em pessoa at a porta da escola. Na hora do recreio reuni todaa
coragem de que era capaz, agarrei um pau e fui para cima do meu
"inimigo". Resultado: levei  outra  sova maior. Voltei para casa com o
rosto cheio de equimoses e arranhes. As mulheres se alarmaram...
  - E teu pai?
  Floriano encolhe os ombros, olha na direo do Sobrado.
  - No estava mais interessado no assunto. No me perguntou nada. Nem
sequer tomou conhecimento de meus "graves ferimentos". Mais tarde
comecei a ligar pedaos  de  informaes e conclu que nessa poca ele
andava metido com uma castelhana... uma histria que acabou em escndalo
pblico. Decerto naquele dia a crise chegara ao  auge. Parece que o
"marido ultrajado" chegou a dar-lhe um tiro de revlver...
  - Houve mais de uma castelhana na vida do dr. Rodrigo - diz sorrindo,
tio Bicho. E acende mais um cigarro, puxa um par de tragadas, cai num
novo acesso de tosse  e, com o corpo convulso, curva-se para a frente em
agonia, como quem vai vomitar. Por fim, amainado o acesso, solta um
palavro e fica derreado, a soprar forte,  a gemer e a enxugar as
lgrimas. Apanha o cigarro que caiu, mas sem apagar-se, leva-o de novo 
boca e balbucia:
  - Continua o teu folhetim.
  - Bom. Como sabes, muito mais tarde a vitria da Revoluo de 30 nos
levou a todos para o Rio e l fui eu, com meus dezenove anos, sem rumo
certo, sem saber ainda  o que queria da vida. No, espera... Eu j
sabia. Queria escrever, ler, ouvir msica, cultivar, em suma, uma
espcie de cio inteligente, sem compromissos maiores  com a realidade,
sem me prender a ningum e a nada (isso era o que eu dizia a mim mesmo)
para poder continuar na minha busca de liberdade... E a todas essas,
andava  ainda obcecado pelo desejo de ser aceito, querido, aprovado. No
 absurdo?
  Roque encolhe os ombros, sem dizer palavra.
  - Vivi trs anos  custa do Velho, coisa que s vezes me deixava um
pouco perturbado. Fiz uns vagos cursos, andei publicando contos em
suplementos literrios,  e  aos vinte e dois anos escrevi uma novelinha
muito falsa, cuja publicao meu pai custeou, -
  492
  distribuindo exemplares entre amigos... Por fim me arranjou um emprego
pblico, uma sinecura, ordenado razovel, nenhuma obrigao de ir 
repartio, tu sabes...  Aceitei  a situao, meio encabulado... mas a
verdade  que me acomodei. E no mais continuei a viver, fascinado pela
nova vida, a bela cidade, a praia, o mar... Meti-me em  aventuras
amorosas que me criavam problemas de conscincia (j te contei meu caso
com a americana), pois se por um lado o leitor do Ornar Khayyam que eu
era, procurava  apanhar e comer sem remorso os frutos do caminho, beber
o vinho de todas as taas, por outro no me podia livrar de meus
fantasmas familiares. Muitas vezes, quando  na cama com uma mulher, eu
via grudados no travesseiro os olhos acusadores da Dinda, ou sentia o
vulto da minha me no quarto, ou ento a presena do Outro, da parte  do
meu Eu que reprovava aquelas promiscuidades sexuais.
  - J reparaste como nesses casos de sexo o Outro  quase sempre a
parte mais fraca?
  - Eu fazia propsitos de mudar de vida, tornar-me um escritor srio,
deixar de ser um parasita do Estado e da famlia, realizar enfim
plenamente o meu ideal de  liberdade.  Mas que queres? L estava sempre
a cidade, o calor, as tentaes, as mulheres seminuas na praia, e os
meus vinte e poucos anos. Sim... e a bolsa paterna. Afinal  de contas,
meu caro, tu sabes como  bom viver. E assim, alternando momentos de
abandono epicurista com crises de conscincia, fui vivendo... Mas h
outro assunto  mais srio... No sei nem se terei coragem de...
  Cala-se. Tio Bicho remexe-se no banco e diz:
  - Compreendo. Teu maior problema era ainda o teu pai.
  - Precisamente.
  - Vou te facilitar o resto da confidncia, embora tenha de ser um
pouco rude. Tu te preocupavas principalmente com (vamos usar uma frase
do cdigo da gente antiga  do Sobrado) com a "desintegrao moral" do
Velho. Certo?
  - Certo. Ainda h pouco estive relendo, num jornal, o discurso que
papai fez na estao aqui de Santa F em outubro de 1930, antes de
embarcar para o norte, no trem que passou com Getlio Vargas e seu
estado-maior. Ele jurava pelo sangue dos 
  493
  mortos daquela revoluo que tudo faria para ajudar a "regenerar o
Brasil".
  - Podes acreditar - diz Roque Bandeira - que naquele instante teu pai
estava sendo sincero.
  Floriano olha para o Sobrado em cuja fachada neste exato momento se
apaga a ltima janela iluminada. Fica por um instante a pensar se deve
ou no discutir com  Roque  uma das noites mais terrveis de toda a sua
vida: 3 de outubro de 1930... Mas no - decide - o melhor ser no
reabrir a velha ferida...
  - O primeiro erro de meu pai - continua - foi ter aceito logo ao
chegar ao Rio o cartrio que o dr. Getlio lhe ofereceu. Lembro-me de
que ele nos explicou, meio  constrangido, que fora forado a isso, pois
suas despesas ento eram enormes, havia perdido muito dinheiro com a
falncia do Banco Pelotense, o negcio de gado ia  mal, o Angico no
estava dando resultado...
  - Tudo isso tambm era verdade.
  - No preciso te repetir, porque sabes, as coisas que se disseram do
Velho. Ele tem sido acusado de ter feito advocacia administrativa, de,
sendo uma das pessoas  chegadas ao dr. Getlio, ter "vendido
influncia". Foi apontado tambm como um dos "prncipes do cmbio
negro". Naturalmente de tudo isso devemos descontar as mentiras  e os
exageros. Mas houve coisas to flagrantes, to claras que at um "cego
voluntrio" como eu no podia deixar de ver.. E a verdade era que o
Rodrigo Cambar que  em 1932 andava pelos corredores do Catete e dos
ministrios, amigo de figures do Governo Provisrio, evidentemente no
era o mesmo que menos de dois anos antes  havia feito aquele discurso
romntico na plataforma da estao de Santa F, com lgrimas nos olhos e
um leno branco no pescoo...
  - Claro que no era! Teu pai estava vivo, existia. No podia deixar de
mudar, embora no necessariamente nessa direo. Existir  estar sempre
emergindo... uma  espcie  de contnuo deslizar...
  - Eu o observava ora com um olho frio e malicioso de romancista ora
com um terno e meio assustado olho filial (e tanto o escritor como o
filho se sentiam igualmente  fascinados pela personagem) e notava que 
medida que ia fazendo concesses  nova
  494
  vida, ao novo habitat,  medida que ia esquecendo ou transgredindo o
famoso cdigo de honra do Sobrado, o Velho (no sei se consciente ou
inconscientemente) exagerava  suas manifestaes exteriores de
gauchismo: usava termos e ditados campeiros, ele que sempre foi mais
homem da cidade do que do campo, carregava no sotaque gacho  e chegou
at a adquirir no Rio o hbito dirio do chimarro matinal, que no
tinha quando deixou Santa F.
  Floriano cala-se, admirado de estar falando tanto e to livre de
inibies. Que diabo! Era necessrio desabafar com algum. A que outra
pessoa de suas relaes  podia  exprimir-se assim com tamanha franqueza?
Sua me? No. Ela se recusaria a escut-lo, obrig-lo-ia a calar-se.
Jango? Faria o mesmo, apenas de maneira mais rude.  Bibi? Tempo perdido.
A Dinda? Nem por sonhos. Eduardo? Veria o problema apenas  luz do
materialismo dialtico. Irmo Zeca? Escutaria com afetuosa ateno, mas
acabaria  analisando o caso sub specie aeternitatis. Slvia? Talvez...
mas com ela gostaria de ter a coragem de discutir outro problema, e com
uma franqueza ainda maior.
  - Vamos embora - convida Roque, tomando-lhe do brao. Saem a andar
lado a lado, lentamente, sob as estrelas.
  - Haver habitantes em Aldebar? - pergunta no Bicho, erguendo os
olhos para o cu e enganchando os polegares nas alas dos suspensrios.
  - Quando menino, eu me divertia a recriar o cosmos  minha maneira.
Inventei que as pessoas que morriam na Terra ressuscitavam com outro
corpo noutro planeta.  Eu  queria renascer em Antares, com o fsico do
Davi de Miguel ngelo.
  Sem dar ateno s palavras do companheiro, Floriano diz:
  - Tenho pensado muitas vezes em como se poderiam dar, num romance, os
diversos estgios dessa... dessa deteriorao, dessa decomposio, assim
de maneira microscpica,  acompanhando a personagem dia a dia, hora a
hora, minuto a minuto... Talvez seja impossvel. Claro que ... -
acrescenta depois de curta pausa. - Conta-se (e aqui  temos de novo o
folclore de Rodrigo Cambar) que, no seu primeiro ou segundo ms de Rio
de Janeiro, um aventureiro qualquer se aproximou dele para lhe propor
uma  negociata,
  495
  tu sabes, do tipo "tu consegues que o presidente assine tal e tal
decreto e eu te dou tanto em dinheiro". Como nica resposta papai
quebrou-lhe a cara.
  - Ouvi tambm essa histria.
  - Tu vs...  possvel que a contaminao tenha comeado nesse
momento, apesar do gesto indignado.
  - Qual! Teu pai levou daqui de Santa F o germe disso a que chamas
infeco. O Rio de Janeiro e o Estado Novo foram apenas o caldo de
cultura em que o micrbio  proliferou...
  - Imagina a transplantao, Rodrigo Cambar longe do seu cho, do
Sobrado, das suas coordenadas santa-fezenses... Pensa na seduo das
oportunidades cariocas,  as  erticas e as outras... E os" cassinos, e a
roleta... E principalmente as fmeas, e os maridos que chegavam quase a
oferecer-lhe as mulheres para obter favores...  E as jovens datilgrafas
e secretrias... e a necessidade de dinheiro para comprar as belas
coisas com que se conquistam as belas mulheres: jias, carros,
apartamentos,  vestidos... E mais o gosto da ostentao, a volpia de
gastar, de ser adulado, de se sentir prestigioso, querido, requestado...
E, envolvendo tudo, aquela... aquela  cantrida de que est saturado o
ar do Rio. Bom, e mais o descomunal apetite pela vida que sempre
caracterizou o Velho... Mas de que te ris?
  - De ti, da apaixonada veemncia com que ests censurando teu pai. No
negues, porque ests... E com a voz, o vocabulrio e a tbua de valores
da tua me, da tua  tia, dos teus avs Licurgo e Aderbal...
  - Pode ser, mas...
  - E te irrita um pouco no poderes fugir a essa tbua de valores que
intelectualmente repudias. No entanto todas essas regras de
comportamento, esses tabus, esses  "no presta", "no pode", "no deve",
"no  direito", em suma, toda essa moral que no fundo nasceu da
superstio e do utilitarismo, esto incrustados no teu ser  como um
casco do qual gostarias de te livrar. O que te preocupa tambm  saber
que por baixo dessa crosta s um homem igual a teu pai, com as mesmas
paixes, impulsos  e apetites... apenas com menos coragem de existir
autenticamente.
  496
  Param perto do coreto. Floriano d um pontap num seixo, que vai bater
na base do busto do cabo Lauro Car. Amanh - pensa - tenho de agentar
o discursrio na  hora  da inaugurao...
  - E no quero me inocentar - diz em voz alta. - Pelo meu silncio,
pela minha acomodao, eu me acumpliciei com o Velho durante pelo menos
os sete anos em que  vivi  meio embriagado pelos encantos e facilidades
do Rio.
  - Isso  histria antiga - exclama tio Bicho. - No tem nenhuma
importncia. Joga fora o passado. E alegra-te com a idia de que o homem
 o nico animal que tem  um futuro.
  - Me deixa continuar a histria, j que comecei...
  - Est bem, mas vamos andando. Estou morto de fome. Retomam a marcha.
Floriano vai segurando o brao do amigo.
  (Suor antigo, bafio de lcool, sarro de cigarro: o cheiro "oficial" de
Roque Bandeira.)
  - Algo que tio Torbio me disse naquele negro 31 de dezembro de 1937,
e mais a profunda impresso que sua morte estpida me causou, fizeram
que eu pensasse a srio  na minha situao e resolvesse reagir... Em
fevereiro de 38 voltamos para o Rio e o Velho quis me meter no Itamarati
sem concurso, como "ventanista". Garantiu que  me arranjaria tudo com
facilidade, era tiro e queda. Quando recusei me prestar  farsa, apesar
da atrao que sentia pela possibilidade que o posto me daria para
viajar, papai ficou furioso. "Que puritano me saste! Que  que tu
pensas? Que s melhor que os outros? Afinal de contas, que queres? Vais
passar o resto da vida  nesse empreguinho mixe?" Aproveitei a ocasio
para lhe dizer que no queria emprego nenhum, que ia abandonar o que
tinha para viver minha vida  minha maneira...  O Velho ficou to
indignado que quase me esbofeteou. Creio que naquela poca andava
irritado, incerto de si mesmo. Queria convencer os amigos democratas da
legitimidade  e da necessidade do golpe de Estado, quando no fundo ele
prprio no parecia muito convencido disso. E a maneira que encontrava
para compensar seu sentimento de  culpa era afirmar-se desafiando ou
agredindo os que discordavam dele, fosse no que fosse.
  497
  - E no esqueas que a morte do irmo lhe devia estar tambm pesando
um pouco na conscincia.
  - Pois bem. Pedi demisso de meu "cargo" e passei a viver de artigos
de jornal e tradues de livros. Era a ocupao ideal para quem como eu
no queria compromisso  com horrios fixos. E para completar meu "grito
do Ipiranga", decidi deixar o apartamento do dr. Rodrigo com armas e
bagagens.
  Tornam a parar, desta vez na calada da praa que d para a rua do
Comrcio. Um soldado da polcia municipal passa a cavalo e, reconhecendo
Roque Bandeira, faz-lhe  uma continncia.
  - Ests vendo? - graceja tio Bicho. - Ele sabe que sou coronel da
Guarda Nacional.
  - Foi nesse momento que entrou em cena uma personagem em geral
silenciosa ou reticente dessa "tragdia grega de Path-baby": minha me.
Em 1937 j a desintegrao  do cl Cambar no Rio era quase completa.
Dona Flora e o dr. Rodrigo (ningum ignorava l em casa) j no eram
mais marido e mulher, tinham quartos separados, guardavam  apenas as
aparncias... Mame e Bibi tinham conflitos de temperamento. Aos
dezessete anos minha irm mandara para o diabo o cdigo do Sobrado e
adotara o da praia  de Copacabana, o que era motivo para discusses e
emburramentos sem fim l em casa. Eduardo estava j em lua-de-mel com
seu marxismo, comeava a sentir-se mal como  membro daquela famlia de
plutocratas, e no perdia oportunidade de me agredir por causa do que
ele chamava (e ainda chama) de meu "comodismo". Jango estava longe.
Quem sobrava? Este seu criado. Foi nele que dona Flora concentrou seu
amor, seus cuidados. No podes calcular como se impressionava com o meu
caso com a americana.  Era uma ciumeira danada,..
  - Tudo isso  natural. Eu me lembro, sempre foste o mimoso dela. E no
fim de contas, de todos os filhos, s o mais parecido com o marido que
ela perdeu...
  - A Velha me suplicou que no abandonasse a casa. Relutei, dei-lhe
minhas razes, que no a convenceram. E assim, continuei sob o teto do
dr. Rodrigo Cambar,  comendo  suas sopas...
  - E como te tratava ele?
  498
  - Nos primeiros dias que se seguiram  nossa altercao, no olhava
para mim nem me dirigia a palavra.
  - Naturalmente isso no durou...
  - Claro. Se h coisa que meu pai no suporta  a idia de no ser
querido, respeitado, consultado, ouvido, obedecido... Depois de duas
semanas comeou a campanha  de reconquista do filho prdigo: primeiro,
observaes casuais feitas na minha direo, como para testar minha
reao... depois presentes... uma gravata, um livro...  entradas para
concertos... Por fim eram abraos e at confidncias que s vezes me
embaraavam. . . Mas a verdade  que nos encontrvamos muito pouco. Ele
levava  uma vida poltica e social muito intensa. Eu passava parte da
manh na praia, o resto do dia no meu quarto, escrevendo, e  noite ia
para a rua.
  Floriano faz uma pausa, olha para a grande lmpada no alto dum poste,
a um dos ngulos da praa, e fica a observar o vo das mariposas e dos
besouros ao redor  do  foco luminoso.
  - Um dia - continua - me chegou um convite, que me pareceu
providencial: uma universidade americana me oferecia um contrato de um
ano para dar um curso de histria  da civilizao brasileira... Aceitei
logo. Era no s a oportunidade de viajar e satisfazer a curiosidade do
menino que ainda morava dentro de mim, como tambm de  ficar uma larga
temporada longe da minha famlia, compreendes?
  - Como foi que "aconteceu" o convite. Caiu do cu? Floriano solta um
suspiro.
  - Qual! A coisa me veio por interferncia direta do dr. Rodrigo, no
seu papel de Deus Todo-Poderoso. Tinha amigos no Escritrio do
Coordenador de Assuntos Interamericanos...  Embarquei para os Estados
Unidos para ficar l um ano, mas acabei ficando trs. E agora me deixa
pingar o ponto final no "folhetim". Quinze anos depois da decantada
"arrancada de 30", estamos os Cambars de volta ao ponto de partida. A
famlia se encontra reunida, se  que posso usar esta palavra. Seu chefe
gravemente enfermo.  O pas numa encruzilhada. E eu, como um pinto a dar
bicadas na casca do ovo, tentando acabar de nascer. Que me dizes a tudo
isto?
  499
  - Ao bife com batatas! - exclama Roque Bandeira, puxando o amigo pelo
brao. Lado a lado comeam a descer pela rua quase deserta, na direo
da Confeitaria Schnitzler.  Com o rabo dos olhos Floriano observa o
amigo. Tio Bicho vai na postura costumeira, as mos tranadas s costas,
o casaco aberto, o passinho leve e meio claudicante  de quem tem
problemas com os joanetes.
  - Antes de mais nada - torna a falar Bandeira- no podes, no deves
julgar teu pai  luz de suas fornicaes extramatrimoniais. O dr.
Rodrigo, homem mais do espao  do que do tempo, agarrou a vida a unha
com coragem e, certo ou errado (quem poder dizer?), fez alguma coisa
com ela. E aqui ests tu a simplificar o problema, a  olhar apenas um de
seus mltiplos aspectos. Pensa bem no que vou te dizer.  um erro
subordinar a existncia  funo. O dr. Rodrigo no  apenas o Grande
Fornicador.  Ou o Amigo do Ditador. Ou o Jogador de Roleta do Cassino da
Urca. Ou o Mau Marido.  tudo isso e mais um milho de outras coisas. O
que foi ontem no  mais hoje.  O que era h dois minutos no  mais
agora e no ser no minuto seguinte.
  - Eu sei, eu sei...
  - Cala a boca. Escuta. O que importa agora  isto: Teu pai est
condenado. Teu pai vai morrer.  questo de dias, semanas, talvez meses,
quando muito. Eu sei,  tu  sabes e ele tambm sabe.
  Roque estaca, volta-se para o amigo, segura-o fortemente pelos ombros
e diz:
  - L est o teu Velho agora sozinho no quarto, decerto pensando na
Torta. Morrer  uma idia medonha para qualquer um, especialmente para
quem como ele tanto ama  a vida. Agora eu te pergunto, que gesto fizeste
ou vais fazer que esteja  altura deste grande, grave momento?
  - J te disse que estou pensando em ter uma conversa amiga mas tambm
muito franca com ele...
  - Eu sei. Tu disseste. Tu repetes. Mas j foste? J foste?
  - No, mas...
  - Olha que no tens muito tempo. Amanh pode ser tarde demais. Se
queres mesmo acabar de nascer, tens de ajustar contas com teu pai 
no sentido mais cordial e  mais  legtimo da expresso,
  500
  atravs da aceitao plena do que ele . No se trata de ir pedir-lhe
perdo ou levar-lhe o teu perdo. O que tu tens de fazer, homem,  um
gesto de amor, um gesto  de amor!
  Diz estas palavras quase a gritar, e sua voz ergue-se na noite quieta.
  Um pouco impaciente, Floriano desvencilha-se do amigo e diz:
  - No precisas repetir o que eu j te tenho dito tantas vezes. Eu sei
muito bem o que devo fazer, o que quero fazer. Mas tu bem sabes que no
 fcil. Conheces  o  Velho. H certos assuntos em que no posso tocar
sem irrit-lo, e isso agora seria perigoso.
  Retomam a marcha e do alguns passos em silncio. Em cima do telhado
da casa da Mona Lisa um gato cinzento passeia. Mais calmo, Roque
prossegue:
  - Tudo depende de jeito. Entendam-se como seres humanos. Manda pr
diabo o cdigo do Sobrado. Abre o corao para o Velho. Mas abre tambm
as tripas, sem medo.  Se  for necessrio, primeiro insultem-se, digam-se
nomes feios, desabafem; numa palavra: limpem o terreno para o
entendimento final. O importante  que depois fiquem  os dois um diante
do outro, psicologicamente despidos, nus como recm-nascidos. Estou
certo de que nessa hora algo vai acontecer, algo to grande como existir
ou  morrer...
  - Ou nascer de novo - completa Floriano.
  - Sim. Terminado o dilogo ters cortado para sempre teu cordo
umbilical. Te aconselho que o enterres no quintal, ao p do
marmeleiro-da-ndia. E desse momento  em diante passars a ser o teu
prprio pai.
  - E ao mesmo tempo o meu prprio filho.
  - Sim, e teu prprio Esprito Santo. Por que no, hein? Por que no?
  Entram rindo na Confeitaria Schnitzler, e ocupam uma mesa, na sala
quase deserta. A um canto Quica Ventura est sentado diante dum clice
de caninha, o chapu  na  cabea, as abas puxadas truculentamente sobre
os olhos, um leno vermelho no pescoo. Roque e Floriano o cumprimentam
com certa cordialidade, mas o maragato mal  lhes responde com um
resmungo e um quase 
  501
  imperceptvel movimento de cabea. A seus ps um perdigueiro dorme com o
focinho entre as patas. Marta atravessa a sala arrastando as pernas de
paquiderme, e vai servir  caf com leite e torradas a um casal: um cabo
do Regimento de Artilharia e uma mulher de tipo sarar, vestida de
solferino e recendente a Royal Briard.
  - No comes alguma coisa? - pergunta tio Bicho a Floriano, que lhe
responde com um aceno negativo de cabea. - Claro. Teu pai era o homem
das ceatas tardias, logo  tu as evitas... Espero que no sejas casto...
  Entrando no esprito da brincadeira, Floriano exclama:
  - Ora vai-te pr inferno!
  A filha do confeiteiro aproxima-se da mesa, risonha. A luz
fluorescente d um tom violceo  sua pele cor de salsicha crua. Vem
dela um fartum de suor temperado  com cebola e manteiga.
  -  Marta - sada-a tio Bicho. - Onde est o Jlio?
  - Na cama. Anda meio gripado. Hoje vamos fechar a casa mais cedo. Que
 que os senhores querem?
  - Me manda fazer um bom bife malpassado, com dois ovos fritos e umas
batatinhas torradas... Ah! Me traz uma garrafa de cerveja. - Olha para o
companheiro. - E  aqui  para nosso jovem...
  Floriano completa a frase:
  - gua mineral.
  Tio Bicho repete o pedido numa careta de nojo. A mulher faz meia-volta
e encaminha-se para a cozinha. Bandeira segue-a com o olhar, murmurando:
  - Parece um monstro antediluviano.  incrvel. Quando menina, a Marta
era uma "pirosca". - Pisca o olho para o amigo. - Teu pai andou dando em
cima dela. Acho  que  a "alemoa" marchou...
  Floriano sorri e, olhando tambm para as ndegas avantajadas da
mulher, murmura:
  - Como dizia Santo Agostinho, inter urinas et faeces nascimur...
  Tio Bicho tira a palheta e coloca-a em cima duma cadeira, a seu lado.
  502
  - Botando esse latinrio em termos geogrficos, quer dizer que samos
dum buraco limitado ao norte pela urina e ao sul pelas fezes...
  - E o que depois fazemos vida em fora... literatura, pintura, gestos
de herosmo, de santidade, a busca da sabedoria... no ser tudo um
esforo para negar, apagar  essa nossa origem animal e prosaica? E
"pecaminosa" como diria o Zeca?
  - Sim.  tambm o desejo de nos transcendermos a ns mesmos e
exprimirmos a verdade de nossa existncia na arte, na religio e na
cincia.
  Minutos depois, quando Marta volta com o prato e as bebidas, pondo-os
sobre a mesa, tio Bicho lana um olhar alegre para o bife fumegante,
coroado por dois ovos  e cercado de batatinhas em forma de canoa.
Floriano enche o copo do amigo de cerveja e o seu de gua mineral. Roque
Bandeira pe-se a comer com entusiasmo e em breve  tem os lbios e o
queixo respingados de gema de ovo. S faz pausas para tomar largos
sorvos de cerveja.
  Quica Ventura emborca o clice de caninha, puxa um pigarro que parece
cortar o ar da sala como uma faca dentada, e de novo baixa a cabea
soturna. A mulher do  cabo,  muito encurvada sobre a mesa, segura a
xcara de caf entre o indicador e o polegar, enristando o mnimo,
enquanto o companheiro tira do bolso um pente e pe-se  a pentear
amorosamente a cabeleira crespa e reluzente de brilhantina. Marta comea
a fechar as janelas. Um cachorro chega  porta, espia para dentro, faz
meia-volta  e se vai. Floriano fica por alguns instantes silencioso, a
mirar o amigo, que come com uma alegre voracidade.
  - Marta! - grita tio Bicho. - Outra cerveja!
  A filha do confeiteiro traz nova garrafa. Roque torna a encher o copo
e a beber. Depois, limpando com a lngua a espuma que lhe ficou nos
lbios, diz:
  - Queres saber duma coisa? Quando eu dava balano em minha prpria
pessoa, levando em conta apenas uma parte da realidade, chegava s
concluses mais pessimistas...  Aqui est o tio Bicho, feio, cabeudo,
cinqento... Quem sou eu? Um saco de fezes. Uma bostica de mosca na
superfcie da Terra. E a Terra?
  503
  Uma bostica de mosca no Cosmos. Que  o tempinho da minha vida
comparado com a Eternidade? Agora eu te pergunto, Floriano Cambar: qual
 a concluso a que se  chega  ao cabo dum raciocnio como esse?  a de
que estamos encurralados, num beco, sem sada. O remdio  cruzar os
braos abjetamente ou meter uma bala na cabea.
  Floriano olha em silncio para dentro de seu copo.
  - Um dia pensei a srio no suicdio - continua Roque. - E sabes o que
aconteceu? Quando compreendi que estava a meu alcance acabar com tudo,
passei a ter mais  respeito  pela vida. A idia da morte, menino, d 
existncia mais realidade, mais solidez. Minha vida da por diante
ganhou como que uma quarta dimenso.
  Tio Bicho parte um pedao de po, esfrega-o no molho amarelento que
ficou no fundo do prato, e mete-o na boca.
  - Estava eu numa encruzilhada terrvel, nesses namoricos com a morte
(no fundo eu sabia que no sairia casamento) quando os meus filsofos de
colis postaux me  valeram.  Quem me salvou mesmo foi um alemo. No te
direi o nome dele porque  intil, no o conheces. Vocs romancistas em
geral no esto familiarizados com a gente que  pensa...
  Bebe novo gole de cerveja, estrala os beios e continua:
  - Sim, conclu eu, ao cabo de srias leituras e cogitaes, posso ser
uma porcaria e a Big Cadela me espreita, pronta a saltar sobre mim a
qualquer instante...  Mas  acontece (e  isto que deixa os psiclogos
loucos da vida) que h um abismo entre as coisas que so abstratamente
verdadeiras e as coisas que so existencialmente  reais. Ora, acontece
que, queira ou no queira, eu existo nesta hora e neste lugar. Que fazer
ento com a minha vida? Por que no opor  minha insignificncia na
ordem universal,  minha mortalidade,  minha impotncia diante do
Desconhecido uma espcie de... de atitude arrogante... erguer meu
penacho, lanar um desafio meio  desesperado a isso a que convencionamos
chamar Destino? A vida no tem sentido... mas vamos fazer de conta que
tem. E da? Bom, a eu transformo minha necessidade  em fonte de
liberao e passo a ser, eu mesmo, a minha existncia, a minha verdade e
a minha liberdade.
  504
  Floriano encara o amigo.
  - Mas essa idia de que somos livres e os nicos responsveis por
nossa vida e destino no ser uma fonte permanente de angstia?
  - Claro que .
  - E no  a angstia o nosso grande problema?
  - Homem, h um tipo de angstia do qual jamais nos livraremos, porque
ele  inerente  nossa existncia. E o preo que pagamos por nos darmos
ao luxo carssimo  de  ter uma conscincia, por sabermos que vamos
morrer, e por termos um futuro. Assim sendo, o mais sbio  a gente
habituar-se a uma coexistncia pacfica com esse  tipo de ansiedade
existencial, fazendo o possvel para que ele no tome nunca um carter
neurtico.
  Quica Ventura levanta-se bruscamente, quase derrubando uma cadeira,
atira uma cdula em cima da mesa e sai do caf pisando duro, sem se
despedir de ningum, seguido  do perdigueiro sonolento. O soldado faz um
sinal para Marta e pergunta-lhe: "Quanto l devo, moa?"
  - E tu achas que essa atitude  uma soluo? - murmura Floriano, ao
cabo dum curto silncio.
  Roque enfia o chapu na cabea e responde:
  - Que soluo? No h soluo. Como disse um desses berda-merdas
europeus, estamos condenados a ser heris.
  Mete as mos nos bolsos, vasculha-os e depois anuncia:
  - Vais ter que pagar a despesa. Estou sem um vintm.
  505
  Caderno de pauta simples
  Tive esta noite uma Longa e para mim proveitosa conversa com o
Bandeira
  o agente catalisador
  o provocador de catarses
  o carminativo espiritual.
  Contei-lhe coisas que nunca tinha contado a ningum.
  H pouco, antes de subir at aqui, passei pelo quarto de meu pai e
espiei para dentro. O Velho dormia em calma. O enfermeiro roncava,
deitado no seu catre junto  da porta, como o co que os vikings
costumavam colocar aos ps do guerreiro morto, antes de queimar-lhe o
corpo.
  C estou com as minhas metforas! Nem meu pai  um guerreiro viking
morto nem o enfermeiro  um co.
  Agora me ocorre que talvez o romance nada mais seja que uma longa e
elaborada metfora da vida.
  
  Esta noite, debaixo da figueira da praa, quando tio Bicho me falava
no contnuo devir que  a criatura humana, raciocinei assim:
  Se existir  estar potencialmente em crise
  se o homem no chega nunca  plena posse de si mesmo e de seu mundo
  se no  um feixe de elementos estticos
  507
  como descrev-lo no ato de existir seno em termos dinmicos?
  E como conseguir isso num romance? No creio que tal coisa seja
possvel por meio dum processo lgico. Dum passe de magia, talvez.
  Mas acontece que sou apenas um aprendiz de feiticeiro.
  Nada mais embaraoso para um escritor do que desconfiar das palavras,
dos smbolos e das metforas.
  O Pato Donald transpe a beira do abismo e, distrado, continua a
caminhar no vcuo, com toda a naturalidade, como se estivesse pisando
terra firme. Mas quando  olha  para baixo e d pela coisa, fica em
pnico e cai.
  S depois que li um livro sobre semntica geral  que percebi, com um
frio de entranhas, que passara a vida caminhando desavisadamente sobre o
vcuo, como Donald  Duck. A sorte  que, em matria de linguagem, os
abismos no tm fundo e a gente nunca termina de cair. Mas isto tambm 
uma metfora.
  O mapa no  o territrio.
  Um mapa no representa todo o territrio.
  Claro. Um romance no  a vida. No representa toda a vida.
  Afirmam os semanticistas que o mapa ideal seria aquele que trouxesse
tambm o mapa de si mesmo, o qual por sua vez devia apresentar seu
prprio mapa. Teramos  ento
  o mapa
  o mapa do mapa
  o mapa do mapa-do-mapa
  Imagine-se um romance que trouxesse em seu bojo o romance de si mesmo
e mais o romance desse romance-de-si-mesmo.
  Nesta altura o romancista franze a testa, alarmado.
  Que tipo de mapa me ir sair esse que estou projetando traar do
territrio geogrfico, histrico e principalmente humano de minha cidade
e, mais remotamente,  do  Rio Grande?
  508
  Na escola o Menino aprendeu que
  De todas as artes a mais bela, a mais expressiva, a mais difcil ,
sem dvida, a arte da palavra. De todas as mais se entretece e compe.
So as outras como ancilas  e ministros; ela soberana universal.
  Mas ningum lhe ensinou que
  a palavra no  a coisa que representa
  e que toda a sentena deveria ser seguida implicitamente dum etc.,
para lembrar ao leitor ou ao interlocutor que nenhuma afirmativa - seja
sobre pessoas, animais,  coisas ou fatos do mundo real - jamais pode ser
considerada definitiva.
  E que  possvel escrever ou dizer palavras a respeito de palavras
  e palavras a respeito de palavras-a-respeito-de-palavras e que
portanto, no plano do comportamento individual, pode um homem reagir s
suas reaes e depois reagir  tambm s suas reaes s suas reaes..
  E assim por diante at o dia do Juzo Final. Que deve ser - desconfio
- um outro equvoco semntico.
  Meu av Babalo, plagiando Herclito sem o saber, costuma dizer que
  ningum cruza o mesmo rio mais duma vez.
  Por que, seu Aderbal?
  Porque o rio corre, como o tempo, e as guas de hoje no so mais as
de ontem.
  Uma vez que o mundo e tudo quanto nele existe se encontra num processo
de mutao, sugerem os semanticistas que todos os termos, afirmaes,
opinies, idias,  tragam  uma data.
  509
  Bem, mas  melhor parar aqui...
  Sim, e descer para meu quarto e tentar dormir. Quase duas da
madrugada. Mas o diabo  que estou sem sono. L embaixo a proximidade de
S. me perturba. E tambm  me  sinto perto demais da morte de meu pai.
  Estranho. Aos trinta e quatro anos ainda encontro neste cubculo um
pouco da sensao de segurana e proteo que to voluptuosamente
tranqilizavam o Menino.  De  onde se conclui que meu objetivo principal
agora deve ser mesmo o de abandonar duma vez por todas a torre, o
refgio, o ventre materno (eu ia quase escrevendo "paterno").
  Em suma, quebrar a bicadas a casca do ovo onde estou semi-encerrado, e
acabar de nascer.
  Quanto  semntica... viva Aristteles!
  
  Este nome me traz outros  mente.
  Descartes
  Voltaire
  Rousseau
  Lamartine
  Montaigne
  Taine
  Renan
  nomes em letras douradas que o Menino costumava ler nas lombadas dos
livros da biblioteca do pai
  onde havia tambm espcimes duma literatura nada respeitvel delgadas
brochuras de papel gessado novelas de bulevar com ilustraes sugestivas
coristas danando  canc
  bons pedaos de coxas nuas entre as meias negras e rendas das
calcinhas.
  510
  O dr. Rodrigo era um parisiense extraviado em meio das coxilhas da
Regio Serrana gacha. Imagino que meu pai, em avatares prodigiosos,
  danou minuetos na corte do Rei Sol
  e mais tarde, com a turba dos sans-culottes, assaltou a Bastilha.
  Como bom boulevardier, em pocas vrias foi
  um Muscadin
  um Incroyable
  um Gandin
  um Raffin
  um Dandy.
  Seguiu os exrcitos de Napoleo e, com cada soldado que caa, gritava:
"Vive l'Empereur!"
  Car cs derniers soldats de Ia dernire guerre
  Furent grands; ils avaient vaincu toute Ia terre.
  E quando Victor Hugo completou oitenta anos, nosso heri l estava na
multido que foi cobrir de flores a calada,  frente da casa do Poeta.
  Tomou interminveis absintos com Verlaine nos cafs de Montparnasse.
  Freqentou o Moulin Rouge
  sentou-se  mesa de Toulouse-Lautrec
  riu-se das piruetas de La Gouhie
  e pagou bebidas para o magro Valentin.
  E em certas manhs de sol, de brao dado com Anatole France, percorreu
os buquinistas ao longo do cais do Sena.
  Oui, cher Maitre, vous avez raison: Ia clart, toujours Ia clart.
  O primeiro tiro de canho da Guerra de 1914 pingou um ponto final na
Belle Epoque.
  Agora abram alas para os boys do Tio Sam que vm salvar o mundo para a
Democracia com suas almas e suas armas sua eficincia e sua inocncia.
  511
  Tero seu batismo de fogo nos campos de Chteau-Thierry
  e seu batismo de sexo na cama das demoiselles d'Armentieres.
  So filhos dum Mundo Novo
  cujo passado de glrias,
  thank God!
  est todo no futuro.
  
   carambolas do Destino! A Path Films queria aumentar seus lucros e
Mr. Hearst, a circulao de seus jornais. Vai ento se juntaram o
magnata e os cinemeiros  para  produzirem um filme seriado que sacudisse
o pblico dos USA.
  Cada episdio devia aparecer no mesmo dia nas pginas dos dirios e
nas telas dos cinemas.
  E assim nasceram Os Mistrios de Nova York.
  Os rolos de celulide, postos em latas como de goiabada, eram
exportados e iam atravs do mundo alimentar a fantasia de centenas de
milhares de seres humanos,  entre  os quais estava
  um remoto menino
  numa remota cidade
  num remoto pas.
  Cada episdio terminava deixando a histria suspensa e nossos coraes
apertados
  A destemida Elaine na cova dos lees
  ou dentro dum submarino que ia ser dinamitado
  ou amarrada nos trilhos pelos bandidos (e o trem vinha vindo, vinha
vindo, vinha vindo).
  Conseguir a herona salvar-se?
  E o que veremos na prxima semana no episdio intitulado
  A Caverna do Desespero.
  512
  Pela mo de Pearl White entrei nesse Mundo Novo, preparado para
aceitar seus mitos e ritos. Era uma terra de
  cowboys
  boy scouts
  mecnicos
  esportistas
  humoristas
  samaritanos
  puritanos
  estatsticos...
  Um mundo em que havia muitas maneiras de ser heri: salvando a mocinha
das garras dos malfeitores ajudando uma senhora idosa a atravessar a rua
dizendo a verdade  como o menino George Washington fazendo-se campeo de
baseball ficando milionrio pelo prprio esforo batendo um recorde
qualquer inventando uma engenhoca ou uma  religio.
  No Cine Recreio do Calgembrino, atravs de toda uma enciclopdia
americana de celulide, aprendi que o mexicano era bandido o chins,
traioeiro e cruel o negro,  um ser inferior
  o europeu, um homem grotesco de cavanhaque e fraque E que bom, bravo e
belo era o americano branco (se protestante, tanto melhor).
  Eddie Polo, de torso nu, derrotava sozinho a socos sete
peles-vermelhas armados de arcos, flechas e Winchesters.
  513
  William S. Hart, o cowboy que nunca ria, duas pistolas no cinto, olhos
de lince, a boca um s trao no rosto de ao, era o terror do Far West,
mas sempre do lado  da Lei e do Bem.
  E havia tambm a menina Pollyana, que nos fazia chorar
  a doce Mary Pickford
  a namorada da Amrica
  esposa do atltico Douglas Fairbanks
  gil e elegante como um galgo
  em seus pulos sensacionais.
  l
  Quando o Menino se fez adolescente, quem contribuiu para completar sua
educao ianque foi um missionrio metodista do Texas, vizinho do
Sobrado
  O reverendo Robert i  Dobson perfil de guia pescoo de peru corao
de pomba.
  Passava ao rapaz por cima da cerca, no fundo do quintal, nmeros
atrasados de revistas americanas, em cujas pginas se viam brancos
bangals em meio de verdes  tabuleiros  de relva belas, coradas
raparigas anunciando sabonetes aveia Quaker Coca-Cola automveis
laranjas e limes.
  Misses franciscanas ao claro sol da Califrnia os arranha-cus de
Nova York milionrios flanando nas areias de Palm Beach mirficas
mquinas que tudo faziam,  bastando  que a gente apertasse num boto.
  514
  Eram imagens dum mundo assptico, eltrico, envernizado e em
tricromia, no qual o adolescente buscava refgio quando seu mundinho
santa-fezense o entristecia,  entediava  ou agredia.
  
  Deixei a pena correr nas pginas que ficaram para trs. Est claro que
estou sendo esquemtico e possivelmente fazendo uma fantasia em torno de
outra fantasia.  Mas  que importa? Escrevo para mim mesmo. No creio que
as notas deste caderno possam ser aproveitadas no romance que estou
projetando. O que procuro agora  explicar  a mim mesmo por que minha
gente e minha terra sempre foram os grandes ausentes nos meus livros. E
por que at hoje no usei em meus romances minhas vivncias gachas.
Tio Bicho tem razo: o Pssaro Azul bem pode estar no quintal do Sobrado
ou nos capes do Angico. Ou escondido dentro de mim mesmo. Frase besta.
Mas que diabo! Preciso  ter intimidade pelo menos comigo mesmo. Ter
intimidade com algum  a rigor no esconder desse algum a nossa nudez
mais nua, e os nossos erros e iluses, por mais  tolos que possam ser ou
parecer.
  
  Para o Adolescente (e essas idias, em grau maior ou menor,
contaminaram o adulto insidiosamente) era inconcebvel que
  o homem da casa vizinha
  ou o de sua prpria casa
  o vendeiro da esquina
  o escrivo da coletaria
  o peo da estncia
  o aguateiro
  ou a prostituta municipal
  pudessem ser heris de novela.
  A aventura s podia acontecer para alm dos horizontes domsticos: era
o estrangeiro. Achava o Adolescente que pessoas, animais, coisas e
paisagens que o cercavam  estavam embaciados pela cinza do
no-novelesco, azedados pelo rano do cotidiano.
  515
  Mas  preciso no esquecer tambm que o moo quietista e arredio, que
olhava o mundo com um morno olho potico, achava difcil compreender,
estimar e descrever  artisticamente  uma gente extrovertida e sangnea
como a do Rio Grande, que se realiza mais na ao que na contemplao,
mais na guerra que na paz.
  
  O relgio l embaixo bate trs horas. Lembro-me de certas madrugadas
terrveis da minha infncia, nas quais procuro no pensar muito.
  Eu tinha dez anos. Alicinha estava gravemente enferma, desenganada
pelos mdicos. Seus gritos me acordavam de madrugada - guinchos medonhos
que transfixavam minha  cabea, meu peito, o casaro, a noite... Mesmo
depois que cessavam, continuavam a doer no silncio. E eu, sem poder
dormir, ficava ouvindo o relgio bater as horas.  Muitas noites, com
lgrimas nos olhos, pedi a Deus que no deixasse minha irm morrer.
Prometia rezar mil padre-nossos e mil ave-marias, se ela se salvasse.
  Mais de uma vez eu vira Alicinha retorcer-se em cima da cama em
convulses como de epilptica. Seus olhos, duros e fixos, parecia que
iam saltar das rbitas. Tinha  no pobre rostinho uma expresso de cego
pavor. Sua magreza - a pele lvida em cima dos ossos - tornava-a
irreconhecvel. (Que  a formosura - pensou o estudioso  menino - seno
uma caveira bemvestida a que a menor enfermidade tira a cor? Padre
Antnio Vieira. Seleta em Prosa e Verso.)
  Uma madrugada os gritos da menina comearam exatamente quando o
relgio acabava de bater trs horas. Foram aos poucos enfraquecendo, at
cessarem por completo.
  Ao clarear do dia Laurinda veio me contar que Alicinha tinha morrido
durante a noite. Os galos pareciam estar anunciando  cidade a triste
notcia.
  Pulei da cama sem dizer palavra. Vesti-me mas recusei ir ver a
defunta. Subi para este refgio e  tarde, ali da janela, vi o enterro
sair, primeiro do Sobrado  e  depois da igreja. O remorso e o medo de
ser punido me estrangulavam.
  516
  Um certo major Torbio
  A morte de Alicinha precipitou Rodrigo num desespero to profundo, que
o dr. Camerino chegou a temer pelo equilbrio mental de seu amigo e
protetor.  hora da  sada  do enterro, no momento em que, to lvida
quanto a defunta, Flora caa desmaiada nos braos do pai, Rodrigo
abraou o esquife e ps-se a gritar que no lhe levassem  a filha. Foram
necessrios trs homens para arranc-lo da sala morturia e lev-lo para
seu quarto, no andar superior, onde o dr. Carbone, chorando como uma
criana,  lhe aplicou uma injeo que o ps a dormir.
  Horas mais tarde, ao despertar, ficou num estado de estupor, saiu a
caminhar pela casa com ar de sonmbulo, murmurando coisas sem nexo, os
olhos vazios e parados,  a boca entreaberta, os lbios moles - e assim
andou por quartos e corredores como quem, tendo sado em busca de alguma
coisa, no caminho se houvesse esquecido do  que era. Maria Valria
seguiu-o por toda a parte, sem ousar dizer ou fazer o que quer que
fosse. Rodrigo entrou no quarto da filha morta, quedou-se a olhar para
a boneca que jazia sobre a cama, e depois, vendo a tia parada  porta,
perguntou:
  - A Alicinha j voltou do colgio?
  Maria Valria no disse palavra, no fez nenhum gesto: continuou a
olhar para o sobrinho com a face impassvel. De repente, lembrando-se de
tudo, Rodrigo soltou  um gemido, precipitou-se para a velha, empurrou-a
para o corredor, fechou a porta do quarto a chave, deitou-se na cama e
desatou num choro convulsivo. Ficou ali  horas e horas, conversando em
surdina com a boneca, como se
  517
  ela fosse uma pessoa. Quando batiam na porta, gritava: "Me deixem
morrer em paz!"
  No quarto, de janelas fechadas, fazia um calor abafado. Anoiteceu e
ele nem sequer pensou em acender a luz. Ouvia passos e murmrios de
vozes no corredor, sentia  quando algum parava junto da porta. Odiava
toda aquela gente. Detestava a vida. Estava decidido a no deixar
ningum entrar. Recusaria comer e beber. Morreria de  fome e sede.
  O suor escorria-lhe pelo corpo dolorido. Fazia vrios dias que no
tomava banho, nem sequer mudava de roupa. Sentia agora o prprio fedor,
e isso o levava a desprezar-se  a si mesmo e, em se desprezando,
castigava-se, e em se castigando, redimia-se um pouco da culpa que lhe
cabia pela morte da filha. Ah! mas no merecia perdo. Tinham  sido
todos uns incompetentes. Ele, Carbone, Camerino e aqueles dois mdicos
que mandara vir s pressas de Porto Alegre. Todos uns charlates. No
sabiam nada. A  medicina era uma farsa. A doena matara Alicinha em
menos de dez dias. Era estpido. Era gratuito. Era monstruoso. Se Deus
existia, quem era que queria castigar?  Se era a ele, por que matara uma
inocente?
  Que ia ser agora de sua vida? Revolvia-se na cama. A sede
ressequia-lhe a boca, a vontade de fumar intumescia-lhe a lngua.
Remexeu nos bolsos na esperana de  encontrar  algum cigarro. Nada.
Pensou em levantar-se, abrir a janela, respirar o ar da noite. Mas no
merecia aquele alvio, aquele privilgio. Onde haviam entaipado Alicinha
no existia ar nem luz. S noite e morte.
  Ocorreu-lhe que o processo de decomposio daquele pequeno corpo havia
j comeado. Soltou um grito, levou as mos aos olhos. - No! No! -
afugentou o pensamento  horrendo. Mas foi intil. Seu crebro era agora
a prpria sepultura de Alicinha; l estava ela, com a pele esverdeada,
vermes a lhe sarem pelas narinas, toda uma  colnia de bichos a lhe
comerem as entranhas. Alicinha apodrecia. Alicinha fedia. Santo Deus!
Saltou da cama e saiu a andar pelo quarto escuro, cambaleando como  um
brio, tropeando nos mveis. Ps-se a bater com a cabea na parede,
cada vez com mais e mais fora, para faz-la doer, para evitar que ela
produzisse aqueles  pensamentos.. Depois tornou a cair na cama, com uma
repentina
  518
  pena de si mesmo, agarrou a boneca, apertou-a contra o peito,
beijou-lhe as faces, os cabelos... Meteu a cara no travesseiro e
procurou pensar na prpria morte...  Era, porm, Alicinha quem ele ainda
via, coberta de vermes, a boca roda... e j a imagem da filha se fundia
com a de outra pessoa - Toni Weber de lbios queimados...  Ah! Agora ele
tinha a certeza: era mesmo um castigo, um castigo! Rolou na cama, mordeu
a colcha, as lgrimas entraram-lhe salobras e mornas pela boca.
Descobria  que o podre era ele. Sua decomposio havia comeado fazia
mais de uma semana. Mas que lhe importava? No queria mais viver. Sem
sua princesa a vida no tinha mais  sentido.
  As horas passaram. O relgio l embaixo de quando em quando batia.
Houve um momento em que Rodrigo ficou deitado de costas, as mos sobre o
peito, como um morto.  Tentou fazer um movimento, mas no conseguiu.
Procurou articular um som, mas seus lbios se moveram inutilmente. Viu
vultos na penumbra do quarto. Ouviu vozes amortecidas.  Estava agora
dentro dum caixo de defunto. As sombras iam e vinham. Est na hora do
enterro - cochichou algum. Ento compreendeu tudo. Iam sepult-lo vivo.
De novo  tentou gritar, fazer um movimento, mas em vo. Explicou-se a si
mesmo:  um ataque de catalepsia. Soltou um grito e sentou-se no leito
num movimento de autmato.  Olhou em torno, desmemoriado, e, por alguns
segundos, foi tomado dum pavor sem nome, que lhe punha o corao numa
disparada. Ficou, de novo deitado, a resfolgar  como um animal acuado.
  Um pesadelo... Enxugou com a ponta da colcha o suor que lhe molhava o
rosto. Desejou de novo abrir a janela, respirar ar fresco. Sentia-se
meio asfixiado. A sede  aumentava. A bexiga inflava e comeava a arder.
Pensou em descer ao quintal, tirar gua do poo, beber no balde, como um
cavalo...
  Mas no merecia aquele refrigrio. Alicinha estava morta. Pensou nos
dias que viriam. Teria de suportar as visitas de psames, a missa de
stimo dia. E o mundo  vazio,  vazio, vazio...
  Veio-lhe ento a idia de suicdio, o que lhe deu uma repentina
esperana' Soergueu-se, moveu a cabea dum lado para outro.
  519
  Pensou na navalha que tinha no quarto de dormir. Abriria as veias dos
pulsos e se dessangraria em cima da cama. Seria uma morte suave. O
sangue alagaria o cho,  escorreria para fora do quarto... Quando os
outros arrombassem a porta, encontrariam ali apenas seu cadver. Estaria
tudo acabado.
  Que horas so? Todos devem estar dormindo. "Eu me levanto e na ponta
dos ps vou buscar a navalha..." Imaginou-se a fazer esses movimentos.
Estava no corredor,  as  tbuas rangiam, era preciso pisar mais de
leve... De repente surge-lhe um vulto pela frente. Reconhece o pai.
"Aonde vai o senhor?" - "Buscar a navalha." - "Pra  qu?" - "Vou me
matar." - "Deixe de fita!" - "Juro por Deus que quero morrer!"
  Deus era testemunha da sua sinceridade. Queria morrer, precisava
morrer. Era um assassino. Tinha matado o pai. Tinha matado Toni.
Sentia-se tambm culpado pela  morte  da filha.
  Continuava, porm, deitado, como se o visgo ptrido que lhe cobria o
corpo o grudasse irremediavelmente  coberta da cama. Se ao menos
pudesse beber um copo d'gua,  fumar um cigarro... Sua bexiga parecia
prestes a estourar. Sentia um desejo urgente de ir ao quarto de banho...
Suas mos tremiam. A fome lhe produzia no estmago  uma ardncia branca,
uma leve nusea. Sua lngua agora era um rptil, um lagarto que ia
inchando cada vez mais, como o balo da bexiga...
  Rodrigo encolheu-se, dobrou as pernas, apertou ambas as mos entre as
coxas. Era assim que fazia quando menino, sempre que no meio da
madrugada lhe vinha o desejo  de urinar, e o sono ou o medo do escuro o
impedia de deixar a cama.
  Pensou numa noite da infncia, em 95. Os maragatos sitiavam o Sobrado.
Fazia tanto frio, ventava tanto, que at as vidraas do casaro batiam
queixo. Sua me estava  gravemente doente. A criana tinha nascido morta
e seu pai ia enterr-la no poro... Sentado na beira do leito, Fandango
contava-lhe a histria do Boi Barroso. Tinha  uma voz de taquara
rachada. Cheirava a couro curtido e quase sempre trazia atrs da orelha
um ramo de alecrim.
  Rodrigo concentrou o pensamento na me e de sbito sentiu sua presena
no quarto. Chegou a experimentar na testa o contato
  520
  fresco da mo dela. A dor de cabea cessou com uma rapidez mgica.
Seus msculos se relaxaram, num abandono completo, e ele sentiu
escorrer-lhe pelas coxas e pernas  um lquido morno,  medida que ia
sentindo uma deliciosa sensao de alvio. E ento, sem ter conscincia
clara do que acontecia, resvalou das margens da sua angstia  para
dentro dum fundo e plcido lagoo de sono.
  Quando acordou, a janela estava aberta, o quarto claro, e Torbio ao
lado da cama. No o reconheceu no primeiro momento. Ficou
pisca-piscando, focando o olhar  no  irmo. Olhou depois para a janela e
viu que era dia. Soergueu-se, apoiado nos cotovelos. Sentia a cabea
pesada e dolorida, um gosto amargo na boca.
  - Tive de arrombar a porta...
  - Fecha a janela.
  - No fecho.
  - Essa luz me di nos olhos.
  - O quarto est numa fedentina medonha. Tamanho 
  homem!
  Rodrigo sentiu uma sbita vergonha.
  - Me deixa em paz - gemeu.
  - No deixo. No podes ficar metido aqui dentro o resto da vida. Todo
o mundo est preocupado contigo. Sabes que horas so? Quase meio-dia.
  Rodrigo fechou os olhos, apertando as plpebras como fazem as crianas
quando querem fingir que dormem.
  - Reage, homem! - exclamou o irmo mais velho. - Pensas que s a nica
pessoa nesta casa que sentiu a morte da menina? Tua mulher est l
atirada na cama, numa  agonia  danada, passou a noite em claro,
soluando, mas sem poder chorar. Devias estar ao lado dela, ajudando a
coitada. Pensei que fosses um homem de verdade, mas no passas  dum
fedelho que ainda mija na cama. Ora vai ser vil pr diabo que te
carregue!
  - Podes me insultar. Eu mereo.
  521
  - Eu devia te tirar daqui a bofetadas.
  Torbio acendeu um cigarro, soltou uma baforada de fumaa. Foi num tom
mais calmo que perguntou:
  - Queres um cigarro?
  - No.
  Mas Rodrigo desejava desesperadamente fumar. Abriu os olhos e ficou
seguindo o movimento da fumaa no ar, aspirando-lhe o cheiro. Depois,
evitando encarar o outro,  estendeu o brao:
  - Me d um...
  Torbio meteu-lhe um cigarro entre os lbios, acendeu-o, e por alguns
instantes Rodrigo ficou a fumar em silncio, olhando para o pedao de
cu nublado que a janela  enquadrava. Sentia agora o mormao do
meio-dia, um calor mido, que ardia na pele. O sol era uma brasa
esbranquiada, por trs da cinza das nuvens.
  - Vamos - disse Bio, depois que o irmo fumou metade do cigarro. -
Sai dessa cama...
  - Pelo amor de Deus, me deixa!
  - Toma um banho, faz a barba, ests pior que tapera. Rodrigo virou-se
e ficou deitado de bruos, apertando o travesseiro contra o estmago.
  - No ests ouvindo o barulho das crianas no quintal? Te esqueceste
que ainda tens quatro filhos? Vamos, o mundo no acabou.
  - Pra mim acabou.
  - Te conheo. Amanh isso passa.
  - Tu no entendes dessas coisas. Nunca tiveste filho.
  -  o que tu pensas. Mas isso no tem nada que ver com teu banho.
Vamos.
  Torbio cuspiu fora, pela janela, o toco de cigarro que tinha colado
ao lbio inferior, e aproximou-se da cama, murmurando: "Acha que no tem
outro jeito..." Inclinou-se  sobre o irmo, enlaou-lhe a cintura com
ambos os braos e ergueu-o no ar. Rodrigo deixou-se levar sem protesto,
mole e sem vontade como um boneco de pano. Torbio  p-lo dobrado sobre
os ombros e assim o conduziu ao longo do corredor at o quarto de banho,
onde o deps sobre um mocho. Rodrigo ali ficou, as costas apoiadas na
parede,
  522
  os braos cados. No queria tomar a iniciativa de banhar-se. O banho
era um sinal de vida, e ele ainda queria morrer.
  Torbio tirou-lhe o casaco, a camisa, e desafivelou-lhe a cinta.
Comeou a operao com cuidado e certa brandura, mas de repente como que
caindo em si e descobrindo  naquela sua solicitude, na tarefa de despir
o outro, algo de maternal e portanto feminino, tratou de contrabalanar
o ridculo da atuao com uma certa rudeza de  gestos. E a cada pea de
roupa que tirava, soltava um palavro. Puxou as calas do outro com tal
fria, que as rasgou pelo meio, ficando uma perna para cada lado.  E
quando viu o irmo completamente despido, levou-o quase aos empurres
para baixo do chuveiro e abriu a torneira.
  - Agora lava esse corpo, lorpa! - gritou, dando ao outro um sabonete.
  - Vais te sentir um homem novo depois do banho. Rodrigo mantinha a
cabea erguida, os olhos cerrados, a boca
  aberta. Ficou nessa posio por alguns segundos, bebendo gua. Depois,
num sbito entusiasmo, comeou a ensaboar-se com um vigor de que ele
prprio se admirava.
  Torbio saiu do quarto de banho e voltou minutos depois trazendo
roupa-branca e um terno de brim claro. Sentou-se a um canto, acendeu
outro cigarro e quedou-se  a  olhar para o irmo, que naquele instante
esfregava as axilas ruidosamente, a cara e os cabelos cobertos de
espuma.
  - O dr. Carbone acha que deves ajudar a Flora...
  - Como?
  - Pode ser que a tua presena faa ela chorar...
  Rodrigo deixou cair os braos, e por alguns instantes permaneceu
imvel sob o chuveiro.
  - No quero ver a Flora. - Por qu?
  - Tenho medo.
  - No sejas estpido. Tens que ir. J imaginaste o que  uma pessoa
querer chorar e no poder?  o mesmo que ter uma bola trancada na
garganta.
  523
  Alcanou uma toalha para o irmo, que se enxugou em silncio, com
gestos lentos, e depois comeou a vestir a camisa...
  - Estou tonto... - balbuciou, amparando-se na parede.
  - Faz quarenta e oito horas que no comes nada...
  Torbio ajudou Rodrigo a terminar de vestir-se. Levou-o depois para o
quarto de hspedes e f-lo sentar-se na cama, com o busto recostado em
travesseiros.
  Maria Valria entrou, trazendo um prato de canja fumegante, e
sentou-se na beira do leito.
  - Tome - murmurou.
  Rodrigo sacudiu negativamente a cabea. Agora lhe vinha um absurdo
medo de comer. Mas a velha aproximou a colher dos lbios dele e
obrigou-o a tomar um gole.
  - Est muito quente?
  Ele sacudiu a cabea negativamente. Sentia na boca o calor e o gosto
da canja, mas tinha medo de engolir... Por fim decidiu-se. Como o cheiro
e o gosto de cebola  ficavam mal dentro daquele quadro de morte e
angstia! Eram coisas quase sacrlegas.
  Ouvia os gritos dos filhos, que brincavam no quintal. Um gramofone
tocava nas vizinhanas. Cigarras rechinavam nas rvores da praa. Maria
Valria ali estava de  olhos secos. Como era que a vida continuava como
se nada houvesse acontecido? E ele comia, bebia, tomava banho, de novo
se entregava covardemente  tarefa absurda  de viver, enquanto Alicinha
no seu caixo branco apodrecia...
  - Mais uma colherada.
  Abriu a boca, sorveu a canja. Aquele lquido grosso no vinha da
colher, mas da boca da filha morta, eram os bichos que a roam, e ele
agora sorvia esses vermes  sem repugnncia, at com certa avidez,
comungando com Alicinha, participando da sua putrefao, partilhando da
sua morte.
  - Coma agora um pedao de galinha. Mas mastigue primeiro antes de
engolir...
  Carne de minha carne. Era o corpo da filha que ele devorava.
Pensamentos absurdos, reconhecia. No podia nem queria evit-los. A sopa
escorria-lhe pelo queixo  barbudo,  pingava-lhe no peito.
  524
  - Cuidado com a camisa, seu porcalho!
  Como era que a Dinda podia preocupar-se com aquelas trivialidades? Que
importncia tinha que uma camisa permanecesse limpa ou se manchasse de
sopa, se ele estava  vivendo a hora mais dolorosa de sua vida?
  - Abra esses olhos... ou no quer enxergar a minha cara? Nunca vi um
homem se entregar desse jeito!
  Por que todos o tratavam com tanta rispidez? Precisava de carinho, de
amparo, sentia-se infeliz, estava fraco, doa-lhe o corpo, no podia
fazer nenhum movimento  de cabea sem sentir uma agulhada dentro do
crnio.
  - Depois de comer, v ver sua mulher. Ele fez que sim com a cabea,
obediente.
  - Agora sirva-se sozinho. Voc no  nenhuma criana. Tenho de ir dar
de comer aos seus filhos.
  Maria Valria entregou o prato ao sobrinho, ergueu-se e saiu do
quarto.
  Momentos depois, Rodrigo no corredor dirigia-se lentamente para o
quarto de Flora. Tudo lhe parecia andar  roda, manchas solferinas e
esverdeadas aumentavam e  diminuam  diante de seus olhos,
estonteando-o. Um vulto veio ao seu encontro: Dante Camerino. Rodrigo
prometera a si mesmo insultar o rapaz quando o encontrasse. Mas agora
caa-lhe nos braos, desatava o choro.
  - A menina morreu por minha culpa, Dante! - gemeu ele, com o rosto
encostado no peito do outro, que lhe passava as mos pelas costas, numa
carcia canhestra.
  - No diga uma coisa dessas, dr. Rodrigo. O senhor  mdico e sabe
muito bem que no se pode culpar ningum duma meningite tuberculosa. O
senhor fez o que pde.  Todos ns fizemos. Mas Deus teve a ltima
palavra.
  - Deus no existe, Dante. Ou ento existe e  pior que o Diabo.
  - Ora, doutor, nem diga isso!
  Rodrigo endireitou o corpo, enxugou as lgrimas com as pontas dos
dedos.
  - Vou ver a Flora... - balbuciou.
  525
  - V. Ela precisa chorar. Fale na menina... Talvez o senhor... a sua
presena... V...
  Amparou o amigo at a porta do quarto da mulher, onde ambos pararam.
Vinha l de dentro um som agoniado de soluos.
  Rodrigo teve um momento de pnico, e quase deitou a correr rumo da
escada e da rua... Mas conteve-se. Olhou rapidamente para o amigo, abriu
a porta devagarinho  e  entrou. Camerino ficou onde estava. Ouviu o
rudo de passos no interior do quarto e depois um silncio sempre
cortado por soluos secos.
  De sbito, como uma represa que se rompe, Flora desatou o pranto.
Dante Camerino acendeu um cigarro e, com os olhos enevoados, dirigiu-se
para a escada.
  Naquele mesmo dia  tardinha, Neco Rosa veio fazer a barba de Rodrigo.
Ensaboou a cara do amigo em silncio, impressionado com seus olhos
parados, injetados de  sangue  e profundamente tristes.
  Ps-lhe a mo no ombro e murmurou:
  - No h de ser nada. Deus  grande.
  Estavam no escritrio sombrio, fechadas todas as janelas. Neco acendeu
a luz eltrica. Passou a navalha no assentador e comeou o servio,
parando sempre que o  amigo  desandava numa crise de choro e ficava a
lamentar-se baixinho, os ombros sacudidos pelos soluos. O barbeiro
esperava com pacincia, num silncio comovido.
  - Neco, no tem explicao. Por mais que eu pense, no compreendo. A
criana estava boa, de repente comeou com uma febrinha... Pensei que
era um resfriado. O  Camerino  tambm pensou. Dei aspirina, botei ela na
cama, no me preocupei. Mas a febre no cedeu, a criaturinha comeou a
emagrecer, a ficar triste, no falava, s gemia,  e de repente vieram
aquelas dores de cabea, as pontadas no ventre... Foi a que me
assustei. "Deve ser um caso de ventre-agudo", disse o Carbone. E o
gringo j  queria operar. Achei melhor esperar. E toca a dar remdio
para o intestino...
  526
  Calou-se. Neco nada dizia, limitava-se a olhar para o soalho, a
navalha na mo.
  - Passamos trs dias naquela incerteza, trs dias, imagina! Uma noite
acordei com os gritos dela, pulei da cama e foi ento que me assustei
mesmo, corri para o  telgrafo,  e mandei buscar de Porto Alegre dois
mdicos de renome... Ningum pode me acusar de negligncia, pode, Neco?
  - Claro que no, homem!
  - Quando eles chegaram eu no tinha mais dvida, o diagnstico estava
feito, e a criana perdida...
  - Agora fica quieto. No adianta falar.
  Rodrigo ergueu-se, com metade da cara ensaboada, uma toalha amarrada
ao pescoo.
  - Mas eu quero falar. Eu preciso falar.
  - Est bem. Ento fala. Rodrigo tornou a sentar-se.
  - E a fase pior da doena foi quando comearam as contraes
musculares e a coitadinha ficava na cama, rangendo os dentes. Tudo doa
nela. A luz, o menor rudo,  tudo produzia dor naquele pobre corpinho,
at o contato com os lenis...
  Rodrigo calou-se, lgrimas de novo rolaram-lhe pelas faces. Neco
recomeou o servio e por alguns instantes s se ouviu ali naquela sala
o rascar da navalha.
  - E ningum mais dormiu nesta casa, Neco. Trs dias e trs noites. O
pior era quando ela soltava aqueles gritos... Uma madrugada no
agentei, sa desesperado  porta  afora, andei sem destino por essas
ruas, com aqueles gritos nos ouvidos, pensei em me matar, em bater na
porta da casa dos meus amigos, em acordar todo o mundo.  Queria que
algum me explicasse por que era que toda aquela monstruosidade estava
acontecendo...
  Neco limitava-se a sacudir lentamente a cabea. Apanhou o pincel e
ensaboou de novo uma das faces-do velho amigo. Este lhe apertou o brao
como se quisesse mago-lo.
  - Pensa bem, Neco, pensa bem. Sabes o que foi para mim ver um pedao
da minha carne, a minha filha, murchando em cima duma cama, sofrendo dia
e noite, noite e  dia,  e cinco animais,
  cinco quadrpedes diplomados ao redor dela sem poderem fazer nada?
Pensa bem. No  estpido? Quem ganhava com o sofrimento daquela
criaturinha? Me diga, quem?    tudo absurdo. A vida no tem sentido. 
   uma misria, uma mentira!
  Neco puxou um pigarro prolongado, fungou, procurou alguma coisa para
dizer, no encontrou: continuou calado. Recomeou o trabalho.
  - No oitavo dia da doena a menina estava irreconhecvel, de pele
murcha, ventre escavado... E o mais horrvel, Neco, o mais pavoroso eram
os movimentos automticos  que ela fazia, como quem queria pegar alguma
coisa no ar. E a febre subindo, e a paralisia dos membros comeando. O
mais que a gente podia fazer era dar-lhe calmantes,  que no fim no
faziam mais efeito... e gelo na cabea... que sei eu!
  Rodrigo de novo se ps de p.
  - Ah! O pior de tudo eram aqueles olhos. Ela me olhava. Neco, sabia
que era a minha querida. Tinha confiana em mim. Parecia que estava me
pedindo para salv-la.  E eu ali sem poder fazer nada. Tu sabes o que 
isso? Impotente, vendo minha filha em convulses na cama, se acabando
aos poucos e... Aqueles olhos. Neco, aqueles  olhos, pedindo,
suplicando... olhos espantados de quem no sabia por que tudo aquilo
estava acontecendo.
  Cobriu o rosto com as mos e desatou de novo a chorar. Neco caminhou
para a porta na ponta dos ps e fechou-a. Depois tornou para o amigo e
abraou-o.
  - Tu no deves... - comeou a dizer. Mas a comoo trancou-lhe as
palavras na garganta e ele tambm largou o pranto.
  Rodrigo sentou-se, enxugando os olhos com a ponta da toalha. De novo a
navalha cantou-lhe no rosto. E houve um silncio durante o qual se ouviu
a voz de Edu que  passava no corredor.
  - Deves dar graas a Deus por teres ainda quatro filhos...
  - No posso dar graas a quem me torturou e matou a filha predileta.
  - O Homem l em cima deve saber o que faz... Rodrigo cerrou os olhos.
  - Sou um fracasso, Neco. Um colossal fracasso.
  528
  - Fica quieto, seno posso te cortar.
  - Que me importa? J pensei em passar a navalha no pescoo.
  - Rodrigo!
  - J imaginaste o que vai ser minha vida daqui por diante? No ter
mais a minha filha, nunca mais... No ouvir mais a voz dela, as suas
lies de piano... as...  as... Se soubesses os planos que eu tinha para
a Alicinha!
  Quando Neco terminou o servio, Rodrigo passou a toalha pelo rosto,
num gesto distrado e ficou a andar pelo escritrio, metendo os dedos
entre os cabelos revoltos.  Parou diante do seu diploma, que estava
enquadrado numa moldura de bano, por baixo do retrato do Patriarca.
  - De que serve este papel? Aqui diz que me formei em medicina. Mas que
 que eu sei? Nada. Sou to ignorante como o Camerino, o Carbone e
aquelas duas cavalgaduras  que mandei buscar de Porto Alegre.
  Parou diante do armrio envidraado, em cujas prateleiras se alinhavam
seus livros de medicina.
  - E estas porcarias? Olha s o ar solene destes livros. No servem
para nada. Palavras, palavras, s palavras. A Alicinha est morta. Isso
ningum muda.
  De sbito, num acesso de fria, desferiu um soco num dos vidros do
armrio e rompeu-o em pedaos. Neco segurou os braos do amigo, um de
cujos pulsos sangrava.
  - Me deixa, homem, no  nada.
  Rodrigo escancarou as portas do armrio, pegou dois dos tratados mais
volumosos e disse:
  - Tive uma idia, Neco. Uma idia genial!
  Sorria agora como se suas tristezas e dores tivessem de repente
desaparecido. O barbeiro mirava-o sem compreender.
  - Daqui por diante comea uma era nova na minha vida. O doutor Rodrigo
Cambar vai morrer na fogueira. Um outro Rodrigo nascer... Um Rodrigo,
cnico, realista,  sem sonhos nem ideais. Me ajuda a carregar estes
calhamaos.
  - Pra onde?
  - Pr quintal. Vamos. No discutas.
  529
  Tinha nos braos uma pilha de livros que lhe subia at a altura do
queixo.
  - Agora pega tu mais uns volumes e vem comigo. Neco obedeceu.
  Rodrigo saiu do escritrio e encaminhou-se para a porta dos fundos. Ao
passar pela cozinha, gritou para Leocdia:
  - V ajudar o Neco a trazer para fora os livros do armrio do
escritrio. Raspa!
  Desceu a escada. A sombra da casa cobria agora mais da metade do
quintal. Edu e Jango corriam atrs de Zeca, que ostentava ao redor da
cabea as penas dum velho  espanador, dispostas  guisa de cocar. Os
cowboys perseguiam a tiros o pele-vermelha, que procurava refgio atrs
do tronco do marmeleiro.
  Rodrigo deps os volumes no centro do quintal. Neco, seguido de
Leocdia, desceu com mais livros, que foram atirados no cho, ao lado
dos outros.
  - Voltem - ordenou Rodrigo. - Tragam o resto!
  A pretinha tornou a entrar em casa, mas Neco ficou onde estava,
olhando, grave, para o amigo.
  - Vamos amarrar esse pulso, botar um remdio no talho.
  - Volta e traz mais livros, Neco, no temos tempo a perder. Rodrigo
sentia um estranho prazer em ver seu sangue pingar
  sobre aqueles tratados franceses de medicina, muitos deles com capas
de couro. Olhou na direo da casa e viu numa das janelas Maria Valria
e noutra Floriano.  Ambos  o contemplavam. Havia espanto nos olhos do
menino. Mas a cara da velha estava imperturbvel.
  - Que  isso no pulso? - perguntou ela.
  - Nada - respondeu o sobrinho, e encarou a tia, num desafio. Sentia
agora uma estranha felicidade. Estava tomando uma resoluo que mudaria
a sua vida por completo.  Todo o esquema se lhe formava na cabea. Como
era que no lhe havia ocorrido aquilo antes? Naquele auto-de-f
queimaria o charlatanismo! Destruiria os seus livros  de medicina,
abandonaria definitivamente a profisso, acabaria com a farsa, a
impostura, o ridculo. Havia ainda mais: ia vender a farmcia e a Casa
de Sade...  Ardia-lhe o pulso.
  530
  Ergueu-o e viu um caco de vidro cravado na carne. Arrancou-o com
raiva.
  Neco voltou para dentro, com alguma relutncia. Cruzou na escada com
Leocdia, que trazia nova braada de livros.
  Rodrigo tinha agora a seus ps quase toda a sua biblioteca mdica.
Torbio surgiu  porta da cozinha.
  - Que  que vais fazer, homem?
  - Espera e vers.
  Correu para dentro, entrou no escritrio, tirou o diploma da parede,
p-lo debaixo do brao, voltou para a cozinha, apanhou uma garrafa de
querosene e tornou a  descer  para o ptio. A cabea de Chico Pais
apareceu por cima da cerca que separava o quintal do Sobrado do quintal
da padaria. O padeiro olhava com olhos arregalados e  perplexos o
"menino do seu Licurgo". Zeca, Edu e Jango, que haviam interrompido seus
brinquedos, estavam numa expectativa silenciosa, a poucos passos de
Rodrigo,  que desarrolhava agora a garrafa, esvaziando-lhe todo o
contedo em cima dos livros.
  - Raspem daqui! - gritou para as crianas, que recuaram. Torbio e
Neco, sentados nos degraus da escada de pedra,
  entreolharam-se em silncio. Rodrigo riscou um fsforo e atirou-o
sobre os livros. Uma labareda se ergueu. As crianas romperam em gritos
de alegria. Rodrigo quebrou  o quadro em dois, sobre o joelho, arrancou
o diploma da moldura e jogou-o no fogo. Maria Valria sacudiu a cabea.
  - Que  que adianta isso? - perguntou Torbio. - Ests s dando um
espetculo.
  Rodrigo limitou-se a encolher os ombros. No tirava os olhos das
chamas. As capas dos livros comeavam a retorcer-se, carbonizadas, em
movimentos agnicos que  tinham  algo de humano. As crianas puseram-se
a correr ao redor da fogueira, gritando: "Viva So Joo! Viva So Joo!"
  Chico Pais olhava de Torbio para Maria Valria, como a pedir uma
explicao de tudo aquilo. A velha, debruada  janela, continuava a
mirar o sobrinho. Seguiu-o  com os olhos quando ele voltou para dentro
de casa. Ouviu seus passos na escada. Sabia para
  531
  onde ele se dirigia. Ia atirar-se na cama de Alicinha e ali ficar
chorando abraado  boneca.
  No dia seguinte Flora levantou-se, alimentou-se, reagiu. No fim
daquela semana, compareceu  missa de stimo dia, coisa que Rodrigo no
teve a coragem de fazer.  Finda a cerimnia, amparada pela me e pelo
pai, recebeu de p, e com os olhos secos, os interminveis abraos de
psames. Foi depois chorar em casa, fechada no  quarto. Mas saiu de l,
horas mais tarde, com a fisionomia despejada e composta, e tratou de dar
a todos a impresso de que, por maior que fosse a sua dor pela perda  da
filha, aceitava como natural e necessria a idia de que a vida tinha de
continuar. E quem mais a ajudou a manter esse esprito foi Maria
Valria, que naquele  mesmo dia decidiu fazer um tacho de pessegada. Era
uma boa provedora: o inverno jamais a surpreenderia com a despensa
desfalcada. Havia outras tarefas urgentes:  preparar Floriano e Jango
para a escola, que se reabriria dentro de uma semana, comear um casaco
de tric para Bibi, comprar sapatos para os meninos e arranjar  roupas
para o Zeca, o "agregado da famlia", que andava sujo e maltrapilho como
um cigano.
  Assim Maria Valria retomou o seu tranco domstico. Uma vez que outra
quando no havia ningum no andar superior, entrava no quarto de
Alicinha, abria o guarda-roupa  da menina, acariciava rapidamente os
vestidos com suas mos ossudas e longas, tocava de leve na escova de
cabelo e no pente, que estavam sobre o mrmore do penteador,  olhava em
torno, via a cama, a boneca, um triste par de sapatos brancos da menina,
que haviam ficado esquecidos a um canto - e depois saa na ponta dos
ps...
  Aderbal e a mulher vinham ao Sobrado quase todas as noites. Laurentina
no afastava da filha o olhar tristonho; no falava mas dizia tudo por
meio de fundos suspiros.  Ningum pronunciava o nome da morta, nem fazia
a ela a menor referncia. Discutiam o tempo, a safra, a situao
poltica do pas... Babalo escondia sua
  532
  dor por trs da cortina de fumaa do cigarro. Andava sensibilizado com
a atitude de Rodrigo, que passou a evit-lo desde o dia da morte da
criana. O genro no  queria  deixar-se consolar, obstinava-se em no
sentar-se  mesa com o resto da famlia,  hora das refeies. Comia no
quarto, em horrio incerto, e sempre que os amigos,  mesmo os mais
ntimos, queriam v-lo, dava um pretexto qualquer e recusava-se. E
quando os Carbones visitavam o Sobrado, a situao piorava, pois tanto
Santuzza  como Cario comeavam a chorar no momento em que batiam 
porta.
  O retraimento agressivo de Rodrigo durou boa parte daquele maro
mormacento, em cujas tardes de ar parado as cigarras cantavam nas
rvores do quintal e as moscas  zumbiam e esvoaavam nas salas do
casaro.
  Em muitas daquelas tardes ele entrava no Ford, mandava Bento tocar
para o cemitrio e l ficava horas inteiras, dentro do jazigo da
famlia, ao lado da sepultura  da filha, conversando com ela, baixinho,
numa esquisita e triste felicidade.
  Naquelas noites quentes e abafadas, custava-lhe dormir. Revolvia-se no
leito, e quando via que era intil continuar na tentativa de capturar o
sono, erguia-se,  debruava-se  na janela, acendia um cigarro e ficava a
olhar para as rvores da praa e para as estrelas. No raro saa pelo
corredor, como um fantasma, entrava no quarto da filha,  deitava-se na
cama e punha-se a chorar um choro manso e lento, j sem desespero. E
muitas vezes era ali que o sono vinha surpreend-lo. As piores noites,
porm,  eram aquelas em que despertava de repente, com impresso de que
algum lhe havia tocado no ombro, e ento lhe vinha a idia de que
Alicinha quela hora estava sozinha,  fechada na sepultura. Abandonada,
no escuro, com medo, coitadinha!
  Certa madrugada despertou com a impresso ntida e perturbadora de que
algum batia no piano l embaixo... Alicinha - pensou. Sim, tinha ouvido
alguns compassos  de L lac de Como, a pea preferida da menina. Mas
no! Devia ter sido um sonho. Sentou-se na cama, e ficou um instante com
as mos na cabea, ouvindo, atento. O  casaro estava agora silencioso.
"Tenho a certeza - disse para si mesmo - no foi sonho. Ouvi. No estou
louco.
  533
  Ouvi." Saiu do quarto, desceu as escadas na ponta dos ps. Acendeu a
luz do vestbulo e ficou  escuta... Silncio. Entrou na sala. Ningum.
Ali estava a um canto  o piano fechado, o banco giratrio vazio. Mas era
estranho... Parecia andar no ar uma espcie de eco daquela msica. Foi
ento que Rodrigo sentiu uma invisvel presena  na sala. Sim - concluiu
- foi ela que veio e tocou... Tocou pra mim. Um sinal, um aviso.
  Aproximou-se do piano, ergueu-lhe a tampa, perpassou os dedos pelo
teclado. No ousava olhar para os lados, para os cantos da sala em
penumbra. Sabia que a filha  morta estava a seu lado, quase a toc-lo...
  Em alguma parte do universo ela vive - dizia-se ele em pensamentos. E
essa idia lhe dava um doce tremor, um medo quase voluptuoso. Era uma
esperana, um consolo...  Por que no tinha pensado naquilo antes? Que
estpido! Aceitara como um idiota a idia da destruio total e
irremedivel de sua princesa, como se ela fosse apenas  corpo, apenas
matria. Deus era bom. Deus era grande. Deus era justo.
  Agora compreendia. Estava tudo claro. Estava tudo bem. Um dia, numa
outra vida, iam encontrar-se. Por enquanto o remdio era ter pacincia,
ir vivendo, esperando  a grande hora. Sem desespero. Sempre atento
queles sinais...
  Ficou por algum tempo junto do piano, imvel, os olhos cerrados,
sentindo um calafrio em todo o corpo, mal ousando respirar.
  Quando voltou para o quarto, encontrou Flora acordada.
  - Ests sentindo alguma coisa? - perguntou ela.
  - No, meu bem, no  nada.
  - Por que desceste?
  No respondeu. Estendeu-se na cama, ao lado da mulher, cerrou os olhos
e pela primeira vez naqueles ltimos trinta anos murmurou um
padre-nosso. Sentiu a mo de  Flora na testa. Decerto a mulher temia que
ele estivesse febril.
  - No  nada, minha flor. Estou bem.
  Pensou em contar-lhe tudo, mas teve medo de revelar o seu segredo.
Medo e um certo cime. Calou-se e pouco depois adormeceu, sorrindo.
  534
  Foi ainda naquele ms que Rodrigo recebeu a visita do pastor metodista
que morava numa das casas vizinhas, cujo ptio estava separado por uma
cerca de tbua do  quintal  do Sobrado. Fazia poucos meses que aquele
americano, natural do Texas, chegara a Santa F. Rodrigo conhecia-o de
vista, cumprimentava-o de longe e muitas vezes o  vira nos fundos de sua
residncia cingindo um avental feminino, evidentemente ajudando a mulher
na cozinha - coisa que o deixava intrigado - ou em mangas de camisa  a
jogar bola com a mais velha de suas trs fi
lhas - cena que em geral o
enternecia. Era o reverendo Robert E. Dobson um indivduo que logo
chamava a ateno pelo  porte. Tinha um metro e noventa e dois
centmetros de altura - o homem mais alto da cidade, dizia-se. Era seco
de carnes e um pouco encurvado. Apesar dos ps enormes  e das pernas
longas, tinha passos leves e curtos, numa cadncia rpida e regular,
como se o pastor caminhasse sempre ao ritmo de um one-step. O rosto
rubicundo era  longo e fino. Seu perfil agudo lembrava um pouco as
feies clssicas do polichinelo da caricatura. Seus olhos, dum cinzento
desbotado e distante, tinham a fresca  limpidez da inocncia. O que,
porm, o texano possua de mais notvel eram as mos, longas e
bem-feitas, muito mais expressivas que o rosto. Quanto  voz, nem mesmo
nos sermes ele a alteava. Tinha algo de vago e quebradio: uma espcie
de crepitar de palha. Sua mulher, tambm americana, era magra e frgil,
de cabelos cor de  areia, ctis muito branca, olhos dum verde de malva
ressequida. Maria Valria, que j mantivera com ela um dilogo por cima
da cerca - mais por meio de gestos e  de onomatopias que propriamente
de palavras -, dizia que a "pastora" parecia um desenho mal-apagado com
borracha.
  Antes de bater  porta do Sobrado, o metodista telefonou a Rodrigo
pedindo permisso para visit-lo e perguntando qual seria a hora mais
oportuna. Rodrigo, curioso,  respondeu-lhe que viesse na noite daquele
mesmo dia, por volta das oito.
  s oito em ponto o reverendo Robert E. Dobson entrou no Sobrado
sobraando uma Bblia de capa negra. Apertou a mo do
  535
  dono da casa, que o conduziu  sala de visitas, fazendo-o sentar-se no
sof onde o homem ficou, de busto teso, as pernas juntas, o livro sempre
debaixo do brao, uma das garras espalmadas sobre a coxa. Rodrigo
examinava o vizinho de alto a baixo. Era a primeira vez que o via de
perto. Achava-o estranho, absolutamente diferente dos caboclos da terra,
na cor e na forma. No se parecia nem mesmo com os santa-fezenses
descendentes de alemes. Tinha no seu desengonamento, no pescoo de
gog saliente, na forma do rosto algo que lembrava Abrao Lincoln - mas
um Lincoln em tons avermelhados. A mecha de cabelo que caa sobre a
testa do homem (Quantos anos teria? Quarenta? Cinqenta?) dava-lhe um
certo ar juvenil e esportivo de universitrio.
  Por alguns momentos nenhum dos dois falou. O reverendo Dobson
limitava-se a sorrir um sorriso tmido, mas aliciante, que lhe punha 
mostra os dentes postios.  Rodrigo mantinha-se na atitude de "p atrs"
que sempre assumia quando era procurado por algum vendedor ambulante ou
agente de seguro de vida.
  O reverendo Dobson mexeu as pernas. Suas botinas grosseiras e pretas,
quase informes, tinham algo de reino. Que quereria aquele homem?
  A explicao no tardou. O pastor soubera da grande perda que a
famlia sofrera, imaginava a dor que lhes partia o corao e por isso
ousara visitar o chefe da  casa...
  Rodrigo escutava-o um pouco impaciente, porque a voz apagada do
ministro, aquela espcie de cochicho em mau portugus tornava-lhe
difcil prestar ateno ao que ele dizia. O reverendo Dobson falava com
hesitaes, ficava roncando - ah... ah... ah... - quando no encontrava
a palavra adequada. Contou quem era, de onde vinha. Nascera e fora
criado numa estncia, no Texas, como um verdadeiro cowboy. Mudara-se
para El Paso, onde terminara o high school e conhecera o pecado...
  Rodrigo franziu a testa. No podia imaginar o reverendo Dobson
conhecendo o pecado. Que forma teria esse pecado? A duma rapariga loura?
Morena? Ou ruiva? Sem prestar mais ateno  voz de palha, ficou a
fantasiar a adolescncia pecaminosa de Bob Dobson em El Paso, na
fronteira com o Mxico... Ouvia uma que outra
  536
  palavra do que o homem lhe dizia - "dez dlares... 'aus amigos...
'eiro trago de usque... well..." Talvez tivesse sido com uma mexicana
de sangue ndio, o que  naturalmente,  para aquele homem branco, num
ambiente racista, agravara a natureza do pecado. . . Dormir com
americana loura fora do casamento  uma iniqidade. Dormir com uma
mexicana de raa inferior: dupla iniqidade... O reverendo pedia
desculpas - "escuse-me, por favor" - por estar entrando naqueles
detalhes pessoais e ntimos. Queria,  you know, queria com isso mostrar
que era um homem como os outros, um pobre pecador; em suma: o fato mesmo
de haver j mais de uma vez transgredido as 
  leis do Senhor no significava que... ah... ah... ah... ah...
  De novo Rodrigo perdeu-se num devaneio. El Paso... Como seria a
cidade? Descruzou e tornou a cruzar as pernas. Fazia calor. Passou o
dedo entre o colarinho e o  pescoo,  esfregou o leno pela testa. O
americano tambm tranou as longas pernas, suas reinas moveram-se:
pareciam dois gatos. Mas aonde diabo queria aquele homem chegar?  El
Paso... decerto era uma cidade com casas de tijolo nu, pesadas e
tristes. A bomba de gasolina... A igrejinha branca de madeira...
  O pastor chegou ao ponto culminante da sua histria: a converso.
Passava, um domingo, pela frente dum templo metodista quando... De novo
Rodrigo desligou a ateno.
  Finalmente o reverendo Dobson revelou o objetivo da visita. No s
vinha apresentar suas condolncias como tambm pedir a Rodrigo que
pensasse no consolo da religio.  Deus era o remdio para todos os
males, tanto para os pequenos como para os grandes. Deus era a razo de
tudo, o princpio e o fim. Sem Deus o mundo e a vida no  teriam
sentido.
  O reverendo Dobson falava num tom monocrdio, sem um momento de
exaltao. Suas palavras pareciam apenas fazer ccegas no ar e nos
ouvidos do interlocutor. Rodrigo, porm, comeava a apiedar-se do homem.
Sua candura, sua absoluta falta de malcia, cativavam-no, davam-lhe
desejos de proteg-lo. Se o missionrio fosse um vendedor, Rodrigo
estaria j disposto a dizer: "Compro tudo o que o senhor tem na sua
mala. E no discuto preo .
  537
  O pastor estava tentando vender-lhe Deus. Mas ele j havia comprado
Deus na noite em que Alicinha lhe dera aquele aviso... Andava pensando
vagamente em comparecer a uma sesso esprita. Chiru Mena lhe falara num
mdium vidente seu conhecido, que tinha poderes extraordinrios. Por que
no tentar? Havia fenmenos metapsquicos para os quais a cincia
oficial ainda no encontrara explicao. E, depois, no perderia nada
por tentar.
  - Permite? - perguntou o texano.
  Rodrigo ergueu interrogadoramente as sobrancelhas.
  - Como?
  - Permite que eu leia meu... ah... ah... passagem de Bblia favorito?
  - Pois no, reverendo, pois no!
  -  um salmo de Davi...
  Rodrigo mudou de posio na cadeira. Agora sentia sede. Pensava numa
cerveja gelada. O pastor abriu o livro numa pgina marcada por uma fita,
puxou um discreto  pigarro,  fitou os olhos de cinza apagada no dono da
casa, tornou a baix-los e leu:
  - O Senhor  o meu pastor, nada me faltar. Deita-me faz em verdes
pastos, guia-me mansamente a guas tranqilas... Refrigera a minha alma;
guia-me pelas veredas  da justia...
  Rodrigo escutava, de olhos baixos. J folheara muitas vezes a Bblia:
era um dos cem livros que havia posto de lado para "ler depois". 
Esse  depois nunca chegava.
  - ...Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte. Aquilo era
bonito e dramtico: pelo vale da sombra da morte.
  Alicinha andava agora por esse escuro vale, mas tudo estava bem,
porque Deus a guiava...
  - ... no temeria mal algum, porque tu ests comigo; a tua vara e o
teu cajado me consolam. Preparas uma mesa perante mim na presena dos
meus inimigos, unges  a  minha cabea com leo, o meu clix
transborda...
  Rodrigo notou que agora Maria Valria aparecia como uma assombrao 
porta que dava para o vestbulo, lanava um olhar intrigado para o
visitante e depois sumia.  No andar superior Bibi desatou a chorar.
  538
  - Certamente que a bondade e a misericrdia me seguiro todos os dias
da minha vida, e habitarei na casa do Senhor por longos dias.
  O pastor fechou a Bblia, colocou-a sobre os joelhos, estendeu sobre
ela as manoplas, e encarou o dono da casa, que murmurou:
  - Muito bonito. - E mentiu cordialmente: - Eu j conhecia esse salmo.
  Fez-se um curto silncio. Com um movimento de cabea o reverendo
Dobson afastou a mecha de cabelo que lhe cara sobre um dos olhos.
  - Eu s gostaria ah... ah... que o doutor no esquecesse aquelas
primeiras palavras: O Senhor  o meu pastor, nada me faltar.
  Disse mais que tinha em casa,  disposio do caro vizinho, vrias
biografias de homens eminentes que haviam encontrado consolo e alimento
espiritual em Cristo.  Conhecia ele a aventura de Livingstone em pleno
corao da frica, em meio dos selvagens e das feras? E a daqueles
hericos passageiros do Titnio que, enquanto  o vapor afundava,
permaneceram reunidos na popa at o 
  momento derradeiro, a cantar um hino religioso?
  - Reverendo, o senhor deve saber que aqui somos todos catlicos.
  O pastor ergueu a mo.
  - Longe de mim, oh, longe de mim a idia de tentar... ah... ah...
ah... converter o senhor ao metodismo. Seria... seria... oh, myl
  - Eu sei... s quis informar...
  - Mas Deus  um s. O Deus dos catlicos  tambm o nosso Deus.
  Rodrigo havia "esquecido" que o homem era to alto e quase teve um
choque quando o viu erguer-se. Fez o mesmo.
  - No toma alguma coisa, reverendo?
  - Oh, no, agradecido. Devo ir.
  Apesar do tamanho - refletia Rodrigo - o texano tinha uma presena
transparente e leve. A sua magreza, a natureza neutra da voz, a maneira
impessoal do vesturio,  a ausncia de paixo na palavra e no gesto
tornavam-no por assim dizer impondervel. Um homem de fumaa? Talvez
fosse uma boa definio. Concluiu que era impossvel  amar ou odiar uma
pessoa assim. Em todo o caso,
  539
  no podia deixar de ficar grato ao vizinho pela visita, pela inteno,
pela...
  - Bem, estou indo - disse o pastor. - Posso deixar-lhe esta Bblia?
  - Ora, no se incomode...
  -  um prazer.
  Deps o livro em cima do consolo, sob o espelho, para o qual,
entretanto, evitou olhar. Parou um instante diante do Retrato, olhou da
tela para Rodrigo e disse:
  - Muito bom. Fino portrato.
  Encaminhou-se para o vestbulo, onde apanhou o chapu. O dono da casa
acompanhou-o at a porta, levemente irritado por se sentir to baixo
perto do outro. Apertaram-se  as mos, trocaram-se boas-noites e
agradecimentos.
  Ora essa! J se viu? - pensou Rodrigo, fechando a porta.
  Maria Valria esperava-o ao p da escada grande.
  -- Que  que o Jeriv queria?
  - Nada, titia.
  - L vendeu alguma coisa?
  - No.
  A velha lanou-lhe um olhar enviesado de desconfiana.
  - No venha me dizer que esse bife no queria nada...
  - Foi apenas uma visita de psames.
  - Ah! Mas que era que ele estava lendo?
  - Um trecho da Bblia.
  Apontou para o consolo. Maria Valria viu o livro e murmurou:
  - Se o vigrio descobre, vai ficar brabo.
  - Que fique! No  meu tutor. Recebo nesta casa quem eu quiser.
Protestante, muulmano, budista, ateu e at macumbeiro.
  Pegou a Bblia e comeou a folhe-la. Depois, largando o livro, ergueu
a cabea e ficou a namorar-se diante do espelho, examinando o branco dos
olhos, arreganhando  os lbios para ver melhor os dentes, ajeitando a
gravata...
  Maria Valria sorriu. Aquilo era um sinal de que o sobrinho aos poucos
voltava a ser o que sempre fora.
  540
  Era a opinio geral. Rodrigo Cambar tornava aos poucos ao seu
natural. Tinha atenes e carinhos para com Flora, preocupava-se com a
palidez e a magreza da mulher,  insistia para que ela se alimentasse
melhor, tomasse os remdios que Camerino lhe prescrevia. Interessava-se
tambm pela vida dos filhos, fazia perguntas a Floriano  sobre as
matrias que o rapaz estudava na escola, andava freqentemente com Bibi
no colo, beijando-lhe as faces e dizendo-lhe coisas carinhosas, discutia
problemas  do Angico com Jango e brincava de "touro e toureiro" com Edu.
  E em meados daquele outono, atravessou um perodo de religiosidade e
espiritualismo que deixou Stein surpreendido.
  - Pensas - perguntou ele ao judeu uma noite -, imaginas que tudo se
pode explicar com a histria? E que a histria  o nico absoluto moral
da humanidade?
  Stein olhava para a ponta de seus sapatos esfolados. Aquele ano se
havia tornado membro do Partido Comunista Brasileiro. Andava com a
cabea mais que nunca cheia  de leituras, idias, planos... Os livros
marxistas, que tinham sua circulao proibida no Brasil, ele os recebia
clandestinamente do Uruguai e da Argentina. A velha  Sara, como sempre,
tomava conta do ferro-velho, enquanto ele passava os dias a ler. Fazia
um que outro servio de cobrana ou 
  de banco, coisas pelas quais sentia o maior desprezo e repugnncia. No
seu pequeno quarto j no tinha mais onde guardar livros. Eles se
empilhavam pelos cantos,  debaixo da cama, em cima do guarda-roupa.. A
questo social apaixonava-o cada vez mais, e quanto mais lia, quanto
mais observava o cenrio poltico e econmico do  Brasil e do mundo,
mais e mais se convencia de que a soluo para aquelas crises
freqentes, para aquele estado crnico de injustia social e para as
guerras era  o socialismo, o comunismo, que alguns reacionrios ainda
insistiam em chamar ridiculamente de maximalismo.
  Agora ele escutava Rodrigo sem reagir, ruminando a grande tristeza que
lhe causara, no princpio daquele ano, a morte de Lnin. No tinha
nenhum constrangimento  em confessar que nem o 
  541
  falecimento de seu prprio pai o abatera tanto. Fora como se uma luz se
houvesse apagado no mundo. No dia em que lhe chegara a negra notcia,
sara a andar pelas  ruas  de Santa F com lgrimas nos olhos. Mais
tarde lera, comovido, a declarao publicada pelo Congresso Sovitico:
"Sua viso era colossal; sua inteligncia na organizao  das massas,
incrvel. Lnin era o supremo Lder de todos os pases, de todos os
tempos, de todos os povos, o senhor da nova humanidade, o salvador do
mundo". E no  entanto ningum ali em Santa F compreendia a enormidade
daquela perda. Muitos tinham recebido a notcia com indiferena. A
maioria nem sequer a havia lido. E tudo  continuara como antes. O Quica
Ventura picava fumo na frente do Comercial. O Cuca Lopes fazia seus
mexericos. O galo do cata-vento da igreja continuava a girar aos
ventos. Nas penses, as prostitutas dormiam com seus machos. Nos campos
daqueles latifundirios, os bois engordavam. A misria do proletariado
urbano e rural se  agravava. O coronel Teixeira continuava a sua
agiotagem. O alfaiate Salomo botava meninos para dentro de seu quarto,
tarde da noite. E aqueles burgueses hipcritas  - com seus adultrios,
calnias, mesquinhezas e falsos valores - continuavam a representar a
sua farsa, adorando o deus dinheiro, exaltando o lucro, espezinhando  os
humildes, e depois iam  missa para rezar, bater no peito e engolir
hstias. E as estrelas continuavam brilhando no cu. Mas Lnin estava
morto! E o dr. Rodrigo  Cambar - que chorara em 23 ao saber da morte de
Rui Barbosa - achava agora que para o mundo o desaparecimento de Anatole
France tinha sido muito mais nefasto que  o de Lnin!
  Sentiu-se sacudido pelos ombros. Era Rodrigo que o despertava do
triste devaneio para lhe dizer:
  - Vocs marxistas no reconhecem o transcendente, querem reduzir o
homem  mais grosseira condio material, como se ele fosse apenas um
animal, sem a menor partcula  divina.
  Tio Bicho, que estava meio sonolento aquela noite, abriu os olhos para
observar:
  - Mas no! H no marxismo um formidvel elemento idealista. S que
eles apresentam a justia social como um sucedneo do absoluto divino.
  542
  Rodrigo olhou para Bandeira com o rabo dos olhos, como se no soubesse
se devia consider-lo um adversrio ou um aliado. Stein soltou um
suspiro e disse:
  - Dr. Rodrigo, para ns marxistas o ato bom, o ato nobre, o ato...
espiritual... seja!...  aquele que marcha no sentido da histria, e o
ato mau  o que entrava  o progresso da humanidade. Para mim no existe
outra norma para julgar o valor moral da ao. Simplificando: na minha
opinio, o homem verdadeiramente humano  aquele  que trabalha em prol
da revoluo social.
  Rodrigo sacudiu a cabea numa negativa vigorosa. E Roque, passando o
leno pelo pescoo suado e purpreo, disse:
  - Eu j li o meu Marx, meio pela rama, porque O capital 
   o livro mais cacete do mundo, pior que O paraso perdido. Mas me
lembro que, num certo trecho, o Velho compara o proletariado com Cristo
sobre a cruz. O que  ele  quer dizer, acho,  que se Jesus morreu para
redimir os homens, reconciliando por meio de seu sacrifcio a humanidade
com a divindade, o proletariado, como uma espcie  de "crucificado" do
mundo moderno, sofre e  esquartejado para destruir as contradies
atuais...  curioso que Marx tenha usado esse smile...
  - No, Stein! - exclama Rodrigo. - Nenhum homem pode viver sem Deus.
Suponhamos, com muita boa vontade, note bem que estou dizendo "com muita
boa vontade"... suponhamos  que o comunismo resolva o problema da vida
do homem sobre a terra. E o resto?
  - Que resto?
  - A outra vida, o destino de nossas almas...
  - Essa histria de almas  outro ponto a discutir. O senhor no vai me
dizer que acredita na concepo catlica de cu e inferno, prmio e
castigo...
  - E por que no?
  - Porque tenho a sua inteligncia na mais alta conta.
  - A inteligncia no tem nada a ver com a f - replicou Rodrigo. - F
 assunto de corao.
  - Se o senhor acredita tambm nisso, no poderemos discutir.
  - Pois ento cala a boca.
  543
  Stein realmente calou. Compreendia que Rodrigo agora queria
convencer-se de que um dia, numa outra vida, ia reencontrar a filha
perdida. Bandeira ergueu-se sonolento,  convidando o judeu para irem
embora. Saram juntos.
  A casa estava silenciosa: todos recolhidos a seus quartos.
  Rodrigo olhou em torno da sala, apagou a luz, sentou-se e ficou
esperando a "visita" de Alicinha. Ela devia revelar-se de algum modo. Um
sussurro, uma batida na  vidraa, uma porta que se abre ou fecha
inexplicavelmente, um sbito golpe de vento, uma tecla que bate
misteriosa nota de msica... Cerrou os olhos. Um cachorro  uivou numa
rua distante. O relgio grande bateu doze badaladas. Depois, de novo o
silncio encheu o casaro. Rodrigo esperava, com um estranho arrepio de
febre na  epiderme.
  Olhava para o prprio retrato, com a impresso de que o outro lhe
sabia o grande segredo. De certo modo aquele Rodrigo de tela e tinta no
teria uma qualidade  fantasmal?  Pertencia a um outro tempo, a uma outra
dimenso.
  A escada rangeu. Rodrigo inteiriou o busto, o corao acelerado, as
narinas dilatadas, as mos agarrando com fora os braos da cadeira.
Algum descia pela escada.  Ele esperava...
  Uma luminosidade agora tocava a penumbra do vestbulo. Passos se
aproximavam. Rodrigo preparou-se para o momento milagroso, mal ousando
respirar.
  Maria Valria surgiu  porta com uma vela acesa na mo.
  - V dormir, meu filho.  tarde.
  Rodrigo passou algumas semanas absorto na leitura de livros sobre
metapsquica e espiritismo. A parte cptica e anatolina de seu esprito
sorria, com superioridade,  da outra, a que ansiava por um bafejo ou um
vislumbre do sobrenatural, a que desejava acreditar na existncia duma
vida extraterrena. Sempre, porm, que Roque Bandeira  ou Aro Stein o
pilhava lendo uma brochura de Allan Kardec ou de sir Conan Doyle, ele se
sentia na obrigao de explicar
  544
  que estudava aquelas coisas por pura curiosidade, pois estava sempre
aberto a todas as aventuras do esprito.
  Havia muito que Chiru Mena insistia com ele para que fossem visitar um
sargento reformado, famoso na cidade e arredores pelos seus
extraordinrios dotes de mdium  vidente.
  - O sargento Sucupira  um colosso! - proclamava Chiru. - Ele v, mas
v mesmo gente que j morreu. No  truque, o homem  srio. Um dia
destes me avistou na  rua,  me fez parar e disse: "Est atrs do senhor
um velho de barbas brancas. Diz que se chama Rogrio. Pergunta como vai
a dona Evangelina". Fiquei arrepiado. O velho  Rogrio  o pai da tia
Vanja. Quando ele morreu, eu ainda no era nascido. Agora me diga,
Rodrigo, como  que o Sucupira, que nunca entrou na minha casa nem
conhece  a minha tia, podia saber daquilo?
  Uma tarde, Rodrigo resolveu ir ver o homem, que morava num chal de
madeira, numa rua esburacada da Sibria, em 
  meio dum terreno alagadio.
  O sargento recebeu-os metido na sua indumentria caseira: culotes de
brim caqui sem perneiras, chinelas sem meias, e casaco de pijama listado
de azul e branco.  Era  um cinqento inditico, grisalho e gordo, duma
cordialidade lerda e meio paternal. Separado da esposa legtima, que
abandonara havia anos com trs filhos, vivia  com a viva dum
veterinrio.
  - Entrem. Sentem. Fiquem  vontade. No reparem os meus trajos. Se eu
soubesse que o doutor vinha...
  Rodrigo e Chiru sentaram-se. Na mesinha no centro da sala, sobre o
linleo novo de losangos tricolores, havia num vaso de vidro flores de
papel. Em cima de aparadores  e braos de cadeiras via-se uma profuso
de guardanapos de croch. Moscas voejavam no ar quente da tarde de maio.
  - Sulamita, meu bem! - gritou o sargento. - Traz um licorzinho pras
visitas. - Olhou para Rodrigo. -  uma honra, doutor, eu j conhecia o
senhor de nome e de  vista.  Aqui o seu Mena me fala muito na sua
pessoa, com boas ausncias.
  Rodrigo estava decepcionado. O vidente era a negao mesma do
mistrio. No era possvel que aquele homem de aspecto vulgar,
  545
  com aquelas roupas ridculas, com aquela cara sonolenta e estpida
pudesse ter os dotes que seus amigos apregoavam.  um impostor. E eu sou
uma besta por ter vindo.
  O mdium sorria, balanando-se numa cadeira de vime. Tinha a testa
curta - notou Rodrigo - e faltava-lhe o indicador da mo esquerda.
  A mulher entrou, trazendo uma bandeja com trs clices de licor de
buti.
  - Minha patroa... - apresentou-a o vidente.
  Rodrigo e Chiru ergueram-se, apertaram a mo da mulher. Depois
apanharam os clices. A companheira do sargento retirou-se. Era ossuda,
ictrica, de olhos mansos  e estava metida num quimono estampado: garas
e juncos brancos em campo azul.
  Um mosquito zumbiu junto do ouvido de Rodrigo. Chegavam at suas
narinas as emanaes ptridas da gua estagnada que negrejava num valo,
 frente da casa. Este  Chiru  me mete em cada uma! - pensou ele, j
meio irritado, tomando com certa repugnncia um gole de licor.
  A situao piorou quando o sargento se julgou na obrigao de brilhar
diante do doutor. Fez uma dissertao sobre o esprito cristo da
doutrina de Allan Kardec,  citando Ingenieros e Vargas Villa. Era a
ltima! Por fim entrou com Nostradamus pelo domnio da profecia e disse:
"Tome nota das minhas palavras, doutor, estamos  em vsperas de grandes
acontecimentos".
  Chiru observava Rodrigo para ver o efeito que produziam nele as
palavras do orculo. Rodrigo limitava-se a sacudir a cabea.
  - Vamos ter ainda este ano uma grande revoluo. -- Opa! - exclamou
Chiru.
  - Contra quem? - sorriu Rodrigo, depondo o clice sobre a mesinha.
  - Ora, contra o governo - explicou o mdium. - O quatrinio Bernardes
comeou com sangue e com sangue terminar.
  O sargento sacava contra o futuro. Era evidentemente um impostor.
  Rodrigo olhou para Chiru, a sugerir que se fossem. Mas o mdium
encarou-o:
  546
  - Quem  Licurgo? Rodrigo franziu o cenho.
  -  o meu pai.
  O sargento ergueu a mo gorda:
  - No me diga mais nada. Ele est a por trs do senhor. Est
perguntando pelo Bio. Existe algum com esse nome na famlia?
  - O meu irmo... Torbio.
  Rodrigo resistia. "Esse sujeito sabia que eu vinha, informou-se da
vida da minha gente..." Mas mesmo assim estava impressionado.
  - Seu pai est perguntando se o Bio ainda tem o punhal... - continuou
o sargento. - Espere, no estou compreendendo bem... Sim,  punhal
mesmo.
  Rodrigo sentiu um calafrio. Tratava-se do punhal que Torbio sempre
carregava consigo, uma relquia de famlia. Como podia o homem saber
daquelas coisas?
  - No  mesmo um bicharedo? - perguntou Chiru, radiante. Uma mosca
passeava pelas bordas de um dos clices. Sucupira levou a mo direita 
testa, cerrou os olhos  e murmurou:
  - Hoje no estou muito bom.  sempre assim, doutor. Depois que tenho
relaes carnais, minhas faculdades diminuem...
  Tornou a abrir os olhos.
  - Quem  Alice? Rodrigo 
  estremeceu.
  -  a minha me.
  - Uma senhora magra, muito plida e com ar triste. Est ao lado de seu
pai. Diz que tudo vai bem, que o senhor no deve se preocupar.
  Rodrigo remexeu-se na cadeira. Sentia o suor escorrer-lhe pelas
costas, ao longo da espinha. Mas resistia ainda. A coisa se explicava. A
telepatia era um fenmeno  aceito pela cincia. Naturalmente o sargento
estava captando seus pensamentos, seus desejos - dos quais ele, Rodrigo,
no tinha conscincia clara... Decidiu fazer  uma experincia. Pensou
intensamente em Alicinha, pois viera com a esperana de receber uma
mensagem da filha morta.
  547
  - Quem  Candango? - perguntou Sucupira.
  - Candango ou Fandango? - perguntou Chiru.
  O mdium entrecerrou os olhos, coou distraidamente o dedo grande do
p, e depois disse:
  - Um velho alegre, de cara tostada, barbicha branca. Diz que foi
capataz do coronel Licurgo. Est perguntando pelo Liroca.
  Rodrigo pensava desesperadamente em Alicinha, repetindo mentalmente o
nome dela.
  - No est enxergando uma criana? - perguntou.
  O vidente ficou um instante pensativo e depois sacudiu negativamente a
cabea.
  - No.
  Chiru ergueu-se, muito corado, o caro reluzente de suor, tirou o
casaco, passou o leno pela testa.
  - Pergunte ao coronel Licurgo se ele j se encontrou com a neta -
pediu Rodrigo.
  Por alguns instantes Sucupira permaneceu em silncio, de olhos
entrecerrados. Depois murmurou:
  - Ele no quer responder.
  - Mas por qu?
  - Diz que no est autorizado. . .
  Sem m
udar o tom de voz, o sargento desatou a falar em futilidades: o
veranico, a ltima fita que vira no Cine Recreio, anedotas de quartel.
De sbito apontou para  um canto da sala e disse:
  - Ali est uma negra-mina. Diz que se chama Rosaria. Conhece?
  Rodrigo sacudiu negativamente a cabea.
  - Est perguntando pela Canela Fina...
  Mais tarde, j no automvel, de volta para o centro da cidade, Chiru
perguntou ao amigo:
  - E que tal? O homem no  mesmo um batuta? Rodrigo no soube que
dizer. Estava confuso. O mdium -
  tinha de confessar - dissera-lhe coisas impressionantes. O que ele,
Rodrigo, no podia compreender era como poderes excepcionais como esses
pudessem encontrar-se  num homem to prosaico, to vulgar.
  548
  -  um impostor - repetiu, mas sem muita convico. Chiru discordou:
  - Qual nada! Como  que ele ia saber todas aquelas coisas, conhecer
toda aquela gente, at a histria do punhal?
  Rodrigo encolheu os ombros. Se o sargento tinha a capacidade de ver os
mortos, como se explicava no tivesse visto Alicinha? Esta idia agora
comeava a preocup-lo,  porque ele queria acreditar que o esprito da
filha morta o acompanhava por toda a parte, a todas as horas.
  Entrou no Sobrado e perguntou a Maria Valria:
  - A senhora conhece algum membro de nossa famlia chamado Rosaria?
  A velha ficou um instante pensativa, repetindo baixinho o nome. De
repente, lembrou-se:
  - Era uma negra velha que a mame tinha em casa. Mas isso foi h
muitos anos, no tempo da Guerra do Paraguai...
  - Quem  a Canela Fina? Maria Valria cerrou o cenho:
  - Como  que vac sabe disso, menino? A Canela Fina sou eu. Era assim
que a Rosaria me chamava quando eu era menina.
  Rodrigo e Chiru entreolharam-se em silncio.
  Rodrigo agora ia tambm  missa aos domingos. Enquanto durava o
ofcio, ficava de p, junto da porta, e ali orava, a cabea baixa, os
olhos fechados. Ajoelhar  -  achava - era coisa para mulher. Costumava
dizer 
  que era religioso  sua maneira, sem exageros nem fanatismos.
Detestava os ratos de sacristia e as beatas.
  Preferia entrar na igreja quando ela estava vazia. "Quando saem os
padres - costumava dizer - entra o Esprito Santo. Ficava sentado a
meditar, a olhar para o  altar  e para as imagens em seus nichos.
Pensava na glria da Igreja, nos seus santos, nos seus mrtires, nos
seus milagres e mistrios. Admirava intelectualmente So Paulo;  no
compreendia mas respeitava a mansuetude
  549
  de So Francisco de Assis. A figura de Jesus Cristo fascinava-o,
principalmente pelo que tinha de humano e contraditrio. O Filho do
Homem, que oferecia a face  esquerda  quando lhe batiam na direita, fora
suficientemente macho para, num momento de clera, expulsar os
vendilhes do templo, a chicotadas. Esse ato caudilhesco de Nosso
Senhor tinha para Rodrigo um valor extraordinrio.
  Nas horas de silncio e solido, na igreja vazia, ele murmurava suas
oraes. No chegava, porm, a entregar-se a elas por inteiro. No
conseguia deixar de pensar  em coisas materiais. Cansava-se de tudo
aquilo com muita facilidade.
  Estava fora de qualquer dvida que Deus existia - raciocinava ele. O
universo sem Deus no tinha explicao nem sentido. Havia uma razo
divina acima da nossa  pobre  e primria razo humana, que no admitia
fenmeno sem causa. Deus devia ser o princpio e o fim de todas as
coisas.
  Naqueles dias em que procurava imaginar-se "dentro duma aura
religiosa", Rodrigo vivia numa castidade que lhe era esquisitamente nova
e agradvel.
  A magreza, a palidez e a melancolia de Flora tornavam-na de tal
maneira inapetecvel, que - alm da indelicadeza que seria o convid-la
ao amor fsico - era mrbido  pensar nela como objeto de prazer. Por
outro lado, tratava de convencer-se de que achava repugnante e
constrangedora a idia de procurar outra mulher. No concebia  a
possibilidade de entrar num prostbulo. Seria uma indecncia e at um
sacrilgio, pois para ele, dum modo obscuro, a memria de Alicinha era
como que fiadora de  sua abstinncia sexual.
  Mas agora, naquele lnguido veranico que se prolongava alm de maio,
comeava a inquietar-se. Procurava, mas sem genuno interesse, a roda da
Casa Sol e a do Clube.  Pensou em escrever artigos polticos para o
Correio do Povo, chegou a esboar dois ou trs, mas acabou desistindo da
idia. Escrever para qu?
  Havia vendido a farmcia e a Casa de Sade a Carbone e Camerino.
Fechara definitivamente o consultrio. " uma alma
  550
  penada" - murmurava Maria Valria, quando o via a andar pela casa, sem
destino.
  - Vamos para o Angico - disse ele, um dia, a Flora. - Vai te fazer bem
o ar do campo. A Dinda fica com as crianas.
  Foram.
  Rodrigo tentou entregar-se por inteiro s tarefas campeiras. Procurava
cansar o corpo para atordoar o esprito e no pensar em coisas tristes.
Dormia largas sestas,  das quais despertava mal-humorado, e quando
anoitecia ficava tomado duma melancolia mesclada de exasperao. Fugia
da companhia de Torbio e, quando Flora se recolhia  ao quarto de
dormir, ele saa a caminhar  toa sob as estrelas, falando consigo
mesmo, analisando sua vida, interrogando o futuro, fumando cigarro sobre
cigarro.  Ia para a cama tarde e custava-lhe pegar no sono.
  Um dia, abrindo a gaveta duma cmoda, encontrou uma bruxa de pano que
pertencera a Alicinha. Teve uma crise de choro e dali por diante desejou
  freneticamente voltar para Santa F, pois lhe viera de inopino a idia
culposa de que tinha "abandonado" a filha, e de que a menina estava
encerrada no mausolu,  sozinha e com medo. Sozinha e com medo! Esta
impresso foi de tal maneira intensa e perturbadora, que ele mandou
Bento preparar o automvel e Flora fazer as malas.  E apesar dos
protestos de Torbio - "Homem, chegaste h menos de cinco dias!" -
tocou-se com a mulher para a cidade. A primeira coisa que fez foi
visitar o tmulo  da filha. Levou-lhe flores. Ficou ao lado dela at a
hora em que o zelador do cemitrio lhe veio dizer que o doutor
desculpasse, mas que ele tinha de fechar o porto,  pois j era noite.
  Naquele princpio de junho os crepsculos vespertinos eram longos e
tristes. Os pltanos e os cinamomos perdiam as folhas. Pela manh uma
nvoa leitosa pairava  sobre  a cidade e o campo. Ao anoitecer havia j
no ar um mal-escondido arrepio de inverno. Nos quintais e pomares as
laranjas e as bergamotas pareciam esperar a hora do  amadurecimento.
  Um domingo a banda de msica militar deu no coreto da praa da Matriz
a ltima retreta da temporada. Findava o outono.
  551
  Na segunda semana de junho, Rodrigo foi convidado para uma reunio na
casa do coronel Alvarino Amaral. Encontrou l vrios companheiros da
Revoluo de 23, entre  os quais o Juquinha Macedo, com trs de seus
irmos, e mais Chiru e Liroca. Fecharam-se na sala de visitas do
palacete, mobiliada com um mau gosto pomposo: poltronas  forradas de
veludo, cortinas de seda, uma coluna de alabastro a um canto,
sustentando um vaso horrendo. Pendia da parede, numa pesada moldura cor
de ouro velho,  um retrato a leo de dona Emerenciana. L estava a
falecida amiga de Rodrigo, com seus olhos empapuados, seu buo, sua
papada e seu jeito matriarcal.
  A princpio comentaram o tempo. Liroca trocou com um dos Macedos um
pedao de fumo em rama. Alvarino quis saber da sade de Flora. Depois
entraram no assunto que  os congregara. Foi o dono da casa quem falou.
Como os amigos sabiam, as eleies para intendente municipal iam
realizar-se em breve. O Madruga tinha o seu candidato,  mas estava
decidido que a oposio se absteria de votar.
  - O que eu acho errado - interrompeu-o Juquinha Macedo. - Sei que no
temos jeito de ganhar, mas como exemplo, devamos comparecer s urnas.
  Alvarino escutou-o com pacincia e depois disse:
  - Est bem, respeito sua opinio. Mas eu reuni vosmecs aqui pra outro
assunto.
  Calou-se, esperando que a criada, que entrara, terminasse de servir o
caf. Depois que a rapariga se retirou, prosseguiu:
  - A situao est muito sria. O general Leonel Rocha me mandou ontem
um prprio. A ordem vai ser outra vez perturbada.
  As caras dos quatro Macedos iluminaram-se de repente. Chiru ergueu-se,
como que impelido por uma mola. O Liroca apertou o cigarro com fora
entre os dentes amarelados.  Rodrigo no se mostrou muito interessado.
Olhava fixamente para o retrato de sua amiga, pensando na noite
longnqua em que, no meio duma sesso de cinema, ela cara  fulminada
por um colapso cardaco.
  552
  Fez-se um silncio Os outros esperavam, com os olhos postos em
Alvarino Amaral, que acendia o seu cigarro. Depois da primeira tragada,
revelou:
  - Est para rebentar uma revoluo contra o Bernardes. O general
Leonel, o Zeca Neto e o Honrio foram convidados para o levante. Agora
eles querem saber se podem  contar conosco...
  Houve novo silncio prolongado, que Liroca cortou com um pigarro.
Juquinha olhou para Rodrigo. Chiru caminhava dum lado para outro.
  - Mas quem  que vai chefiar a revoluo? - perguntou, parando com as
mos na cintura, diante do dono da casa. - Onde  que o tumor vai
rebentar?
  Alvarino citou nomes de oficiais do Exrcito, desligados da tropa em
1922, que estavam conspirando. O levante comearia em So Paulo, depois
se alastraria pelo  resto  do pas. Haveria revoltas em vrias
guarnies, no Norte, no Centro, no Sul. A coisa parecia bem articulada.
  Rodrigo sentia 
  junto do ouvido a respirao asmtica do Liroca. A notcia deixava-o
indiferente. No havia nada mais distanciado de suas cogitaes do que
uma revoluo. Talvez  Bio estivesse interessado no movimento. Ele, no.
  Juquinha Macedo, absorto em pensamentos, mordia o lbio, coava a
cabea, consultava os irmos com os olhos.
  "Mundo velho sem porteira" - suspirou Liroca. E deu um chupo no
cigarro. Chiru queria mais pormenores. O coronel Alvarino contou tudo
que sabia. E no sabia muito.
  - Mas qual  a sua opinio? - perguntou o mais velho dos Macedos.
  O velho tossiu seco, cuspiu na escarradeira, ao p de sua cadeira, e
respondeu:
  - Pois, para l ser franco, no sei. Acho meio arriscado. Pode ser
mais uma quartelada e a gente fica no mato sem cachorro. Be tamos fora o
que acabamos de conquistar  com a nossa revoluo contra o Chimango...
  Chiru de novo caminhava dum lado para outro, bufando.
  - E tu, Rodrigo? - perguntou Juquinha.
  553
  Rodrigo ergueu-se, enfiou as mos nos bolsos das calas.
  - No contem comigo. Como  que vou me meter numa revoluo cujo
programa no conheo? Depois, vocs sabem, no gosto de militar. O mal
deste pas  o Exrcito.  Sou como o velho Licurgo. Tenho raiva de
milico.
  - No se trata de gostar ou no gostar de milico - replicou um dos
Macedos mais jovens - mas de derrubar um tirano.
  - Isso! - reforou Chiru. - O governo do Bernardes  o pior que esta
pobre repblica tem tido.
  Comeou a enumerar calamidades. O mineiro tinha passado seu quatrinio
 sombra sinistra do estado de stio. O Fontoura, na chefia de polcia
do Rio de Janeiro,  cometia violncias e arbitrariedades. O presidente
deportava seus inimigos polticos para o inferno da Clevelndia. A
imprensa estava amordaada. O Congresso, desmoralizado.
  - Se dependesse do Bernardes, teramos at a pena de morte! --
acrescentou Juquinha Macedo.
  Chiru abriu dramaticamente os braos:
  -  como digo. Esse mineiro sacripanta mijou em cima de todos ns, do
Exrcito, da Cmara, do Senado, do povo...
  - Talvez seja isso que merecemos - murmurou Rodrigo. Houve protestos.
Depois se fez um silncio, que o coronel
  Alvarino quebrou para perguntar:
  - Em que ficamos?
  - Por mim... - comeou Juquinha. Mas no terminou a frase.
  - Se vocs entrarem na mazorca - disse Liroca - eu entro. Sou soldado
do Partido. Mas se vocs no entrarem, no entro.
  Chiru olhava splice para Rodrigo, que deu sua opinio:
  - Sou contra. Bem ou mal, o presidente Bernardes nos ajudou na nossa
revoluo. Se os milicos quiserem dar um golpe, que dem. Mas no 
nossa custa. Dentro da  minha  viola eles no vo pr cu. E no tenham
iluses. Se eles ganharem a parada, vo botar na presidncia um general,
e ento vai ser um deus-nos-acuda.
  O dono da casa olhava pensativo para o cigarro que tinha entre os
dedos.
  -  muito duro a gente negar apoio a um correligionrio...
  - murmurou.
  - Nossas obrigaes para com os companheiros - observou Rodrigo, que
achava tudo aquilo chocho e sem sentido - tambm tm os seus limites. Se
o meu melhor amigo  quiser se atirar pela janela dum quinto andar, meu
dever no  me atirar com ele, mas evitar que ele cometa essa loucura...
  Alvarino mirou-o por alguns instantes.
  - Ento o senhor acha, doutor...?
  No terminou a frase, pois Rodrigo apressou-se a dizer:
  - Acho.
  Despediu-se um pouco bruscamente e retirou-se. Chiru e Liroca o
seguiram, como pajens. Atravessaram a praa, deram os primeiros passos
em silncio. Soprava um  vento  frio vindo das bandas da Sibria.
  - Espero que vocs no me considerem um traidor ou um covarde por no
ter entrado logo de olhos fechados nessa revoluo.
  - Ora, Rodrigo - protestou Chiru.
  Liroca caminhava encurvado, lutando com sua asma. O galo do cata-vento
da igreja rodopiava. Uma grande nuvem branca boiava no cu.
  - Qualquer dia temos minuano - murmurou o velho.
  Os outros continuaram calados. Rodrigo deu um pontap num seixo.
  10
  Naqueles primeiros dias de inverno Rodrigo achou o Sobrado mais frio e
triste que nunca. Sua vida - achava - esvaziara-se de todo o contedo.
No encontrava estmulo  para nada. A rotina familiar comeava a
entedi-lo. Que fazer? Que fazer? Aproximava-se com assustadora rapidez
dos quarenta anos, o pico da montanha... Depois -  adeus! - comearia o
declive do outro lado. Ah, mas o que mais o exasperava era a falta de
imprevisto, a mediocridade daquela vidinha! Santa F era um fim de
mundo,  e o
  554
  555
  Angico no era melhor. Tempo houvera em que alimentara a iluso de ser
um homem do campo. Agora sabia que no passava dum bicho urbano, amigo
do conforto, gregrio,  civilizado.
  Procurava reler seus autores prediletos. Abria um livro, lia duas,
trs pginas quando muito, e depois largava-o, bocejando. Vivia agora
tomado duma estranha sonolncia.  Sempre que se via em face duma
dificuldade, dum problema, sentia uma nvoa na cabea, uma dorzinha
acima dos olhos.
  - Esse menino anda doente - murmurou um dia Maria Valria. - Vive
bocejando.
  Rodrigo sentia-se numa posio de inferioridade com relao a Flora.
Invejava-a por v-la aceitar serenamente sua vida. Enciumava-o o fato de
os filhos dependerem  tanto dela e lhe darem, mais que a ele,
demonstraes de carinho. Era com uma mistura de admirao e impacincia
que a via to segura de si mesma a mover-se naquela  casa, fazendo
coisas, os ps bem plantados naquele cho. A vida de Flora tinha um
sentido claro e alto: ela a dedicava  tarefa de criar e educar os
filhos. "No  fim de contas - conclua Rodrigo - a pessoa indispensvel
nesta casa no sou eu, mas Flora. Posso morrer sem fazer a menor falta."
  Agora sem obrigaes profissionais, acordava s dez da manh.
Adquirira o hbito de tomar aperitivos - vermute e cachaa - no caf do
Schnitzler, com alguns amigos.  Voltava ao meio-dia para almoar, depois
dormia uma sesta at as trs, ficava a vaguear sem destino pela casa,
abrindo e fechando livros, sentando-se  mesa para  rabiscar artigos que
nunca terminava. Fumava muito. A noite ia para o clube, metia-se em
rodas de pquer. De vinte em vinte minutos o garom trazia cafezinhos
para  os jogadores, e ele os tomava s dzias, com uma avidez nervosa de
quem se quer intoxicar. Voltava para casa perto da meia-noite, excitado
e sem sono. Encontrava  Flora j deitada. Vestia o pijama e estendia-se
ao lado dela. Muitas vezes tomava-a nos braos, mas sem entusiasmo. Ela
no o satisfazia. E o resto era insnia.
  Decidiu que a soluo era fazer uma viagem. Paris! Discutiu o assunto
com a esposa, que num ponto foi categrica:
  - Vai sozinho.  melhor para ti.
  556
  - Sem tua companhia essa viagem no tem graa - mentiu ele. No era
propriamente mentira. Ele queria sinceramente sentir aquilo. Mas no
sentia, e no soube disfarar.
- Sabes que no deixo as crianas.
- 
  - Ento no vou. Maria Valria interveio:
  - Deixe de bobagem. V. Voc est precisando mudar de ares.
  Por aqueles dias Torbio voltou do Angico e Rodrigo levou-o para o
escritrio. Foi direito ao assunto.
  - Estou pensando em ir  Europa agora. Preciso de dinheiro.
  - Quanto?
  - Uns vinte e cinco ou trinta contos, no mnimo. Torbio tirou as
botas, coou os dedos dos ps.
  - Onde  que vou arranjar tanta gaita?
  - E a venda daquela tropa para o frigorfico?
  - O negcio vai ser l pr fim do ano, se sair... Rodrigo 
  estava impaciente:
  - Mas ser que nossa situao financeira  to m assim? Detestava
discutir assuntos de dinheiro, jamais perguntava
  como iam os negcios. Quando o irmo lhe descrevia a situao
econmica do Angico, ele no prestava ateno.
  - Menino - disse Torbio - a crise continua braba. Deixa essa viagem
pra mais tarde.
  - Se eu no viajar agora, estouro! O outro riu, malicioso:
  - Por que no ds um passeio a Tupanciret? Rodrigo no gostou da
piada. Saiu batendo com a porta.
  11
  Um dia abriu a Bblia ao acaso e surpreendeu-se a ler, salteando
versculos, os Cantares de Salomo. Era no escritrio, pouco depois da
sesta. Estava sentado confortavelmente  numa poltrona,
  557
  tendo a seu lado um clice de Porto, que tomava em pequenos goles,
retendo o lquido na boca e degustando-o antes de engolir.
  O meu amado  para mim um ramalhete de mirra; morar entre os meus
seios. Em matria de seios, nenhuma como Zita, a hngara... Bicudos e
rijos como limes. Por  uma  adorvel coincidncia recendiam mesmo a
limo maduro.  minha esposa! (mas no foi a imagem de Flora que lhe
veio  mente), mel e leite esto debaixo da tua lngua  e o cheiro de
teus vestidos  como o cheiro do Lbano. (Eram trs da tarde e ele tinha
dezoito anos. A chinoca mais bonita do Angico cheirava a manjerico e
picum.  Passaram duas horas loucas no bambual. O farfalhar dos bambus
parecia um cochicho.) O meu amado meteu a sua mo pela fresta da porta,
as minhas entranhas estremeceram  por amor dele. (Nenhuma estremecera
tanto sob suas carcias como uma polaca loura e forasteira que um dia
entrara em seu consultrio como cliente e de l sara como  amante. A
cara do Gabriel, que ouvira os gemidos, os gritos e os silncios!) O teu
umbigo  como uma taa redonda a que no falta bebida; o teu ventre como
um monte  de trigo, cercado de lrios. (A morena que ele vira saindo do
mar, na praia do Flamengo... Se tornasse a encontr-la, seria capaz de
perder a cabea...) Sustentai-me  com passas, confortai-me com mas,
porque desfaleo d'amor.
  De repente, veio-lhe a revelao. Fechou o livro com fora, bebeu o
resto do vinho, ergueu-se... Claro, o que lhe faltava era amor! Sua vida
estava vazia de amor.  Confortai-me com mas, porque desfaleo d'amor.
Ele desfalecia por falta de amor. Flora era a melhor, a mais dedicada, a
mais decente das esposas. Mas era incapaz  de ardor amoroso. Ou de amor
ardoroso.
  Saiu do escritrio, entrou na sala de jantar e foi debruar-se numa
das janelas que davam para o quintal. As bergamoteiras e as laranjeiras
estavam pintando de  amarelo.  Por cima da cerca, o reverendo Dobson
entregava uma pilha de revistas americanas a Floriano, que depois voltou
com elas debaixo do brao. Decerto ia meter-se na  gua-furtada. Menino
solitrio... preciso ter uma conversa sria com ele. J deve andar
inquieto, sentindo certos pruridos.  idade perigosa! Ou serei eu quem
est  na idade perigosa? Quando ele fizer quinze anos, mando o Bio
lev-lo  casa duma mulher
  558
  limpa. Sessenta so as rainhas, e oitenta as concubinas e as virgens
sem-nmero.
  O pastor metodista avistou-o e fez-lhe um aceno. Perdido em meio de
oitenta concubinas, Rodrigo no lhe prestou nenhuma ateno. Era
perturbador pensar nas virgens  sem-nmero que andavam pelo mundo. A
esposa do pastor apareceu  porta de sua casa com uma bacia de alumnio
nas mos. Era magra e assexuada. Temos uma irm pequena,  que ainda no
tem peitos: que faremos a esta nossa irm no dia em que dela se falar?
No. Dessa ningum falar. Garanto.
  Uma brisa fria sacudia 
  as folhas do arvoredo. Bicos-de-papagaio manchavam de vermelho a cerca
que dava para a padaria. Confortai-me com mas, porque desfaleo
d'amor.
  Sim, ele precisava dum amor clido, sanguneo, desses que no se
envergonham da carne. Um amor abrasador e convulsivo. A quase castidade
em que vivia no era apenas  humilhante, mas tambm absurda em face do
fato de que o tempo passava, inapelavelmente. A vida era curta e
incerta. O Pitombo passava o dia por trs do balco a  cocar o Sobrado
com seu olho agourento de urubu. O que lhe faltava era mesmo amor. Agora
ele sabia. Precisava dos dois tipos de amor. Do lrico, do ideal:
mulheres  que o admirassem. E do fsico: uma, duas, dez mulheres que no
s lhe dessem prazer, mas que tambm sentissem prazer com ele. Mas que
fazer? Que fazer? Que fazer?  Santa F era um burgo horrendo. Oh! as
velhotas mexeriqueiras que falavam por trs dos leques nos bailes do
Comercial! E o famigerado grupinho que se reunia na frente  da Casa Sol!
E a rodinha de pquer do Centro Republicano! Uns desocupados
mal-dizentes, todos! Ele no podia dizer ah que no dia seguinte a cidade
inteira no ficasse  sabendo que o dr. Rodrigo Cambar havia suspirado.
Imaginem que audcia! Suspirar!... Se ele entrasse hoje numa penso de
mulheres, no dia seguinte todo o municpio  ficaria sabendo da histria.
Chegava uma rapariga nova na cidade? Ora, s podia ser para o dr.
Rodrigo, para quem mais havia de ser?
  "Santa F me tritura. Santa F me sufoca. Santa F m'emmerde!"Como
sair daquele poo de mediocridade e tdio? Pensou ento
  559
  em fazer uma viagem ao Rio, j que no momento no tinha dinheiro para
ir  Europa. Sim, ir ao Rio e chafurdar. Isso! Precisava chafurdar. Era
uma condio indispensvel   sobrevivncia,  sanidade tanto de seu
corpo como de seu esprito. Embarco amanh - decidiu.
  Mas no embarcou. Porque naquela mesma noite despertou por volta das
duas da madrugada sentindo com tamanha urgncia um desejo de satisfao
sexual, que pulou  da  cama, vestiu-se ("No  nada, Flora, estou com
insnia, vou dar uma voltinha..."), saiu, foi  casa do Neco, tirou-o da
cama e obrigou-o a lev-lo  casa duma china.  "No interessa o plo. S
quero que seja moa e bonita. E limpa." Neco pensou na Palmira. Tiveram
de acordar a rapariga, que era de boa paz e que, mesmo estremunhada  de
sono, compreendeu que era uma honra receber o dr. Rodrigo, "porque eu j
conhecia o doutor, de vista..." Ele a interrompeu com impacincia. "Tira
toda a roupa."  Ela resistiu. "Mas com este frio?" - choramingou. "Fique
nua!" Palmira apagou a luz antes de despir-se. Era insensato que uma
fmea daquela profisso tivesse ainda  pudores! Rodrigo desnudou-se
tambm e meteu-se debaixo das cobertas, sentindo-se como um menino que
ia ter a sua primeira mulher.
  E nos meses seguintes portou-se mesmo como um adolescente que de
sbito tivesse descoberto o sexo. Entregava-se a uma espcie de fria
orgstica. No escolhia  muito  o objeto. Lamentava agora ter fechado o
consultrio, lugar ideal para aquelas atividades.
  Passava os dias a pensar nas aventuras da noite. "Que  que temos para
hoje, Chiru?", perguntava s vezes. Neco um dia chamou-o  parte, na sua
barbearia, e disse:
  - Devagar com o andor. A coisa no vai a matar.
  - Ora no me amoles.
  - O mundo no vai acabar, Rodrigo.
  - Ests enganado, Neco. O mundo vai acabar. Estou correndo na reta
final para os quarenta. O tempo  um parelheiro que no pra nunca. E
como corre! Quero espremer  a vida como um
  560
  limo, tirar dela todo o suco que puder, e depois jogar fora o bagao,
sem remorso.
  Segurou forte o brao do amigo e acrescentou:
  - Quando eu ficar velho (que Deus me livre!) sei que vou me arrepender
das coisas que deixei de fazer e no das que fiz, ests compreendendo? E
agora deixa de  ser  moralista e me faz uma barba decente.
  Roque, cujo olho mortio enxergava mais coisas do que parecia, disse
um dia a Stein:
  - Pelo que vejo, nosso amigo superou a fase mstica e entrou na
ertica.
  - Mas a soluo do problema no est em Deus nem no sexo.
  - Quem sabe?
  - A vida dele est vazia de sentido.  um cavaleiro andante sem
estandarte, um paladino sem causa.
  - Investindo contra moinhos de vento?
  - No. Investindo contra si mesmo. Travando lutas imaginrias. No
descobriu que sua armadura e sua lana so de papel.
  - J sei onde queres chegar...
  - Nenhum homem digno desse nome 
  pode viver a contemplar egostica e estupidamente o prprio umbigo. Se
ele vive alienado da sociedade, convencido de que  o centro do
universo, acaba na loucura  ou no suicdio. E tu sabes que h muitas
formas de suicdio. No fundo o dr. Rodrigo  um homem infeliz, apesar de
toda a sua riqueza.
  Tio Bicho olhou firme para o amigo, segurou-lhe a lapela do casaco e
disse:
  - Uma coisa no consigo compreender... Como  que podes ter tanto amor
pela humanidade e tanta m vontade para com o homem? Ser que o
comunismo se interessa pela  coletividade mas despreza o indivduo?
  - Ora, vai sofismar pr diabo que te carregue!
  561
  12
  Quem primeiro deu a notcia a Rodrigo foi o Cuca Lopes. Entrou no
Sobrado como uma bala. Estava to excitado, que mal podia falar.
  - Rebentou uma revoluo em So Paulo! - exclamou, ofegante.
  Flora e Maria Valria entreolharam-se em silncio. A primeira levou a
mo  garganta e interrogou o marido com os olhos: "Vais te meter nessa
tambm?"
  Ainda de chapu na cabea, Cuca cheirava frentico a ponta dos dedos,
olhando para Rodrigo, como  espera de sua reao.
  - Tire a tampa - ordenou Maria Valria. O oficial de justia
descobriu-se.
  - Me desculpe, dona,  que estou meio fora de si. Contou que havia
chegado um telegrama ao coronel Madruga,
  anunciando o levante e pedindo-lhe que comeasse a formar corpos
auxiliares para a Brigada Militar estadual.
  - Mas qual foi a tropa que se revoltou? - perguntou Rodrigo. - Quem
comanda o movimento?
  Cuca encolheu os ombros, no sabia informar. Estava tudo l no tal
telegrama...
  Rodrigo vestiu o sobretudo, botou o chapu e saiu na direo da casa
dos Amarais. Encontrou no meio da praa o Juquinha Macedo e mais trs de
seus irmos.
  - J sabem? - perguntou de longe. Sabiam. Vinham do telgrafo.
  - Quase toda a guarnio de So Paulo - contou o mais velho dos
Macedos - e parte da Polcia Militar do Estado esto revoltados!
  - Quem  o chefe?
  - O general Isidoro Dias Lopes.
  - Ai a  fresca! - exclamou o Liroca, que naquele momento se reunia ao
grupo. - O general Isidoro  um veterano de 93. Andou com o Gumercindo
Saraiva. Maragato dos  quatro costados!
  562
  De mos enfiadas nos bolsos do sobretudo, Rodrigo olhava para o
Juquinha Macedo. Estava interessado no movimento, era claro. Como
poderia ficar indiferente ao  que  acontecia em seu pas? Queria, porm,
pormenores. No poderia dizer que a revoluo lhe causava surpresa.
Havia muito que se falava abertamente em perturbao da  ordem. A
situao poltica de So Paulo andava agitada desde que Bernardes havia
imposto quele Estado a candidatura de Washington Lus. Ningum ignorava
que alguns  oficiais jovens do Exrcito conspiravam desde os tempos de
Epitcio Pessoa. Restava agora saber se a revoluo ia alastrar-se por
todo o pas ou ficaria confinada  a So Paulo.
  - O Bernardes vai reagir - disse Rodrigo. - No se iludam. O mineiro 
macho.
  Havia j um movimento desusado de gente na praa. Homens entravam e
saam da Intendncia, a cuja porta estacava agora um automvel.
  - Quem deve estar contente  o Madruga - observou um dos Macedos,
fazendo com a cabea um sinal na direo do palacete municipal. - Agora,
com a organizao do  novo  Corpo Provisrio, vai ter mais uma
oportunidade para roubar.
  Liroca soltou um suspiro.
  - Pobre pas. Desta vez vai mesmo a gaita.
  - No vai, Liroca - replicou Rodrigo. - O Brasil  muito mais forte
que os brasileiros.
  Naquele mesmo dia chegaram notcias pormenorizadas. 
  A revolta comeara no 4 Batalho de Caadores, s trs da madrugada.
Miguel Costa havia conspirado dentro da fora policial, conseguindo a
adeso do Regimento  de  Cavalaria. O 4 de Caadores havia cercado o
quartel da Fora Pblica, que fora dominado em poucas horas, quase sem
resistncia. Outras unidades do Exrcito tambm  se haviam revoltado.
Esperavam-se novos pronunciamentos.
  Os jornais do dia seguinte foram disputados a peso de ouro ao chegarem
a Santa F pelo trem do meio-dia. O vendedor foi lanado ao cho, na
plataforma da estao.  E Bento, que levara uma ordem expressa de trazer
ao Sobrado um exemplar do Correio
  563
  do Povo, custasse o que custasse, ao perceber que no poderia comprar
o jornal, no teve dvida: arrancou um exemplar das mos do primeiro
sujeito que passou por  ele. E como o homem fosse grandalho e fizesse
meno de agredi-lo fisicamente, o peo do Angico levou a mo  adaga,
diante do que o outro achou melhor fazer meia-volta  e escafeder-se.
  Rodrigo abriu o jornal sofregamente. Como de costume o Correio do Povo
evitava o sensacionalismo dos cabealhos em tipo grado e negrito.
Noticiava o levante com  a sua habitual discrio.
  - Luta-se nas ruas de So Paulo... - foi Rodrigo contando  medida que
lia. - Os quarteires so disputados palmo a palmo,  custa de vidas. 
um quadro dantesco...  - Procurava dar com palavras suas uma
interpretao dramtica quele noticirio frio e meio impessoal. As duas
mulheres o escutavam. O velho Babalo, sentado a um  canto da sala de
jantar, picava fumo.
  Depois de ler as notcias, Rodrigo atirou o jornal no soalho. No
acreditava na vitria do movimento. De resto, aquela era uma questo de
"milicos". Que se arranjassem!
  O governo federal reagia. O Congresso protestava-lhe irrestrita
solidariedade. As foras legalistas convergiam sobre So Paulo, em cuja
periferia se travavam combates.  Tudo indicava que os levantes esperados
em outros quadrantes do pas haviam falhado. Foram estas as notcias que
os jornais do dia seguinte trouxeram.
  Estavam uma tarde Flora e Maria Valria na sala de jantar, quando
ouviram um grito que partia do escritrio. Rodrigo! - pensaram logo.
Precipitaram-se para l  e  o encontraram furioso, brandindo o jornal:
  - Uma monstruosidade! Vejam. Os lacaios do Bernardes esto
bombardeando So Paulo.  uma coisa nunca vista.
  Segundo o dirio, estouravam granadas na Mooca, no Belenzinho e at no
centro da cidade. A populao estava em pnico. Edifcios pblicos e
fbricas ardiam. Era  uma verdadeira hecatombe.
  - Ouam esta - disse Rodrigo. - A populao apelou para o bispo. O
bispo se prontificou a confabular com o general que comanda os
atacantes, pedindo-lhe para cessar  o monstruoso 
  564
  bombardeio. E que  que vocs pensam que o militar respondeu? Declarou
que ia bombardear a cidade no dia seguinte com mais violncia!
  Amassou o jornal, jogou-o longe com um pontap. Encheu um clice de
Porto, emborcou-o e depois, meio engasgado, disse:
  - No fim de contas, quem tem razo mesmo  o Bernardes. Tratou o
Exrcito com punho de ferro, submeteu-o. Soldado  como mulher. Precisa
apanhar para obedecer.
  Maria Valria mirou-o com seus olhos serenos.
  - Desde quando voc pensa isso de mulher, menino?
  - Ora, titia,  uma maneira de dizer. Estou me referindo a mulher de
soldado.
  - U gente! - exclamou a velha. - Mulher de soldado  tambm mulher
como as outras.
  13
  Naquele dia chegou Torbio. Desde que soubera da notcia do levante de
So Paulo - confessou - andava 
  pisando em brasas, sentindo "comiches no cabo do revlver". Maria
Valria lanoulhe um olhar enviesado.
  Uma noite, na casa do Juquinha Macedo, reuniram-se secretamente vrios
oficiais da extinta Coluna Revolucionria de Santa F e examinaram a
situao. Rodrigo compareceu   reunio, um tanto contrariado. J agora
desejava a deposio de Bernardes, mas continuava a no acreditar no
sucesso daquele movimento armado.
  - O que est claro - disse o dono da casa -  que o governo do Borges
ficou a favor da legalidade. A Brigada Militar vai atacar os rebeldes.
  Um dos Macedos leu a proclamao que Isidoro Dias Lopes tinha lanado
havia poucos dias. Era um documento otimista.
  A revoluo marcha triunfalmente para o saneamento da Repblica e
salvao do Brasil. Conquistamos posies na capital e no interior, que
bem atestam o vosso patriotismo,  a vossa bravura e a vossa
  565
  lealdade. Ns no vos abandonaremos seno com a vitria integral da
revoluo.
  - Vejam que programa vago - comentou Rodrigo. - Saneamento da
Repblica e salvao do Brasil. Que  que isso significa? Um general na
presidncia e uma ditadura  militar?
  Naquela noite - fazia muito frio mas o ar estava parado - Torbio e
Rodrigo voltaram para casa a p. A rua estava deserta, o cu estrelado.
Ao passarem pela frente  da casa de Mariquinhas Matos viram as
bandeirolas das janelas iluminadas e ouviram a msica que vinha l de
dentro. Pararam  beira da calada e ficaram escutando.  A Gioconda
tocava ao piano o seu Chopin. Noturno n" 2. Era um dos favoritos de
Rodrigo. A melodia casava-se bem com a lua cheia, olho luminoso que do
cu espiava a cidade.
  - Ser que ela ainda  virgem? - perguntou Torbio em voz baixa.
  - A Gioconda? Com toda a certeza.
  - Mas que  que est esperando? Faz muito que disse adeus aos
trinta...
  Rodrigo encolheu os ombros.
  - Escuta. Isso  bonito. Como faz tempo que no ouo msica!
  Seu gramofone estava silencioso desde a morte de Alicinha. Pensou na
filha. Havia na lua uma claridade, uma pureza que lhe lembrava a menina.
Sim, e qualquer coisa  de remoto, de inatingvel. Nunca mais! Seus olhos
se enevoaram.
  - Vamos embora - convidou Bio.
  - Espera um pouco.
  Cessara a msica. Rodrigo esperava outro noturno. Fez-se um silncio.
De sbito a Gioconda rompeu a tocar com um vigor furioso o Espalha
brasa. Indignado, Rodrigo  pegou no brao do irmo:
  - Vamos. Esse troo e o Procpio amoroso so as duas msicas que a
gente mais ouve agora. A Leocdia vive cantarolando essas porcarias na
cozinha.  uma calamidade.
  566
  No Sobrado, ficaram ainda por algum tempo na sala a conversar e a
beber (Torbio no gostava de conhaque, preferia parati). Da sua moldura
dourada, o retrato de  Alice Terra Cambar parecia contemplar os dois
filhos com olhos apreensivos.
  No dia seguinte chegou a notcia de que, para atender um apelo da
populao, Isidoro e suas foras haviam decidido abandonar a cidade de
So Paulo, onde as tropas  governistas entraram ao repicar de sinos.
  Contava-se tambm que as foras revolucionrias tinham tomado a
direo do Oeste e pareciam marchar sobre o Paran.
  - Est liquidada a revoluo - disse Torbio, penalizado.
  E nesse mesmo dia voltou para o Angico.
  Agosto entrou, com rijas ventanias e um frio mido, que parecia
penetrar nos ossos. Edu teve uma indigesto de bergamotas. Chico Po
caiu de cama com uma pontada  nas costas. Camerino diagnosticou
pneumonia. O doente queria apenas Rodrigo  sua cabeceira, no confiava
em mais ningum. E quando o amigo entrava no quarto, ele  rompia a
chorar seu choro lento de gurizo, gemia que ia morrer, pedia-lhe que
olhasse pela viva.
  Foi tambm naquele agosto que Slvia entrou uma tarde no Sobrado,
muito sria, sentou-se numa 
  cadeira na frente de Rodrigo, comps o vestido e perguntou-lhe se
daquele momento em diante podia considerar-se sua filha legtima.
Comovido, Rodrigo tomou a menina  nos braos, cobriu-lhe as faces de
beijos, respondendo-lhe que sim, que sim, que sim...
  O reverendo Dobson, que fizera boa camaradagem com Floriano,
continuava passando ao menino, por cima da cerca, as revistas ilustradas
que recebia de seu pas.  Eram  nmeros velhos do Saturday Evening Post
e do Ladies Home Journal. Rodrigo folheava-os, uma vez que outra, com
uma morna curiosidade. No sabia patavina de ingls,  mas admirava a
perfeio daquelas tricromias. A importncia que os americanos davam ao
anncio! E, coisa estranha, ali estava algo que ele jamais vira em
nenhuma  outra revista nacional ou estrangeira: um anncio de
laranjas... Para anunciar uma pasta de dentes, reproduziam o retrato
duma bela rapariga de
  567
  olhos azuis e faces coradas, com um sorriso de dentes brancos e
perfeitos. Admirava tambm o desenho das ilustraes dos contos e das
anedotas. Mas como aquelas  publicaes eram diferentes, por exemplo, de
 Illustration! Faltava s revistas do pas do reverendo Dobson um
certo cachei, um certo peso, uma certa graa que  no dependiam da
qualidade do papel nem da riqueza de cores das gravuras, mas de algo
mais profundo, algo que vem do tempo, da experincia, da tradio, em
suma:  da cultura
  Numa daquelas revistas americanas Rodrigo encontrou, ilustrando um
conto, uma tricromia que representava uma rapariga de cabelos cortados 
moda masculina, guiando  um automvel, com um cigarro apertado entre os
lbios vermelhos de batom. Ali estava o smbolo da mulher moderna,
produto daquele catico aprs-guerre que Victor  Marguerite to bem
caracterizara em seu sensacional romance. (As comadres de Santa F
murmuravam escandalizadas que a Mariquinhas Matos havia lido La garonne
s  escondidas.) A Guerra no tinha apenas destrudo vidas humanas,
cidades, catedrais: a Guerra tinha matado o pudor. As mulheres dos
grandes centros europeus imitavam  os homens na sua liberdade sexual e
nos seus hbitos. Nos Estados Unidos tinham levado a coisa mais longe.
No apenas fumavam, bebiam e dirigiam automveis, mas  tambm haviam
conseguido o direito de voto, e, pior de tudo, comeavam a fazer-se
rivais do homem no mundo dos negcios e no da poltica.
  Curiosamente essas reflexes em torno do feminismo foram interrompidas
por Maria Valria, que lhe veio dizer que dona Revocata Assuno estava
no Sobrado e queria  v-lo.
  A diretora do Colgio Elementar David Canabarro era uma pessoa pela
qual Rodrigo sentia a maior admirao e respeito. Cinquentona,
solteirona e solitria, ldona  Revocata  tinha a postura marcial dum
coronel prussiano. Era - podia-se dizer - a personificao da autoridade
e da disciplina, famosa por saber domar alunos rebeldes cujos  pais,
como ltimo recurso, j pensavam em mand-los para a Escola de
Marinheiros da cidade do Rio Grande. Quando entrava na aula, pisando
duro com seus sapatos de  salto militar, a algazarra cessava
imediatamente, os alunos encolhiam-se
  568
  num silncio to profundo, que era possvel ouvir-se o zumbido das
moscas. Tinha uma voz de timbre metlico, enunciava as palavras com
clareza e construa as sentenas  com uma correo gramatical absoluta
em que o sujeito, o predicado e os complementos, como soldados
disciplinados, jamais ousavam sair da rgida formatura que ela  lhes
impunha. Onde quer que estivesse, sua  presena criava uma atmosfera
de respeito. Pessoa de hbitos regulares, levava uma vida
irrepreensvel. Lia Voltaire  e Diderot e no acreditava em Deus. Os
padres, que no a estimavam, jamais haviam ousado fazer nada contra ela
no s porque a temessem intelectual e at fisicamente, 
  como tambm porque sabiam do prestgio de que ela gozava com altas
autoridades do governo estadual.
  A professora Revocata Assuno esperava Rodrigo no escritrio, de p
junto do armrio dos livros de literatura, cujas lombadas examinava.
Quando o dono da casa  entrou,  ela voltou-se, esperou que ele se
aproximasse e estendeu-lhe a mo.
  - Que prazer! - exclamou Rodrigo. - Vamos sentar, professora, vamos
sentar.
  - Minha visita ser breve - disse ela, sentando-se e cruzando
  as pernas.
  O cabelo grisalho, puxado para trs e preso num coque, harmonizava-se
com o cinzento de ao de seus olhos. O nariz era longo e afilado, a boca
enrgica, o queixo  nitidamente torneado. Um buo forte sombreava-lhe o
lbio superior.
  - Quero lhe dizer duas palavrinhas sobre o Floriano.
  - Andou fazendo alguma travessura?
  - No. Pelo contrrio. O que me preocupa  que ele no faz
travessuras. Acho-o quieto e triste demais. Um pouco amarelo e aptico.
J mandou examin-lo clinicamente?
  Rodrigo sorriu:
  - Casa de ferreiro, espeto de pau. Um mdico raramente se lembra de
examinar os membros da famlia. Mas foi bom a senhora me chamar a
ateno para esse particular...
  - Bom, mas vim aqui por outro motivo. J pensou numa carreira para o
menino?
  - Bom, pensar propriamente...
  569
  - O senhor sabe que este ano Floriano termina o curso elementar...
Seria conveniente mand-lo para Porto Alegre no ano que vem, para que
ele comece a tratar dos  preparatrios.
  - J pensei nisso - mentiu Rodrigo. - Acho que vou mand-lo para um
desses internatos...
  Dona Revocata cortou-lhe a palavra com um gesto.
  - Quer um conselho? No o interne em nenhum colgio de padres. Essa
gente deforma o esprito do adolescente, enchendo-o de supersties e
temores que ele ter  de  carregar vida em fora e dos quais s
conseguir livrar-se muito tarde ou nunca. Mande o Floriano para um
colgio leigo.
  - Era exatamente o que eu tinha decidido... - improvisou Rodrigo.
  - Escolha um internato (sei que no h muitos) em que o rapaz possa
ter liberdade, uma vida normal e higinica, enfim, um ambiente capaz de
fazer dele um homem  mesmo,  e no um papahstias preocupado com o
pecado e com o demnio.
  - Sabe de algum?
  - Ouviu falar no Albion College de Porto Alegre? Fica no sop dum
daqueles morros da Glria ou do Partenon.  um colgio ingls
particular, para poucos alunos  e  muito selecionados. Tem um sistema
que me parece bom. Banho frio, ginstica, janelas abertas. Sistema
britnico, o senhor sabe. A nica dificuldade  que o Albion  no 
reconhecido oficialmente. O menino teria que prestar exames no Ginsio
Jlio de Castilhos todos os anos.
  - Compreendo...
  - Outra coisa. O Floriano tem muito jeito para a literatura. Suas
redaes so excepcionais.
  A professora ergueu-se, tirou o pince-nez, limpou-lhe as lentes com um
leno de seda e tornou a ajust-lo no nariz.
  - No admira - acrescentou - que com essa vocao literria seja um
menino pensativo e tmido. No se surpreenda se ele lhe aparecer um dia
com um poema de sua  lavra.
  Rodrigo riu. Dona Revocata estendeu-lhe, a mo, que ele apertou.
Acompanhou-a at a porta, murmurando agradecimentos. Depois seguiu-a com
o olhar, viu-a atravessar  a rua, ereta, pisando
  570
  
  duro, a cabea erguida. Quando ela desapareceu entre as rvores da
praa, Rodrigo pensou em Floriano. Era incrvel, mas no conhecia o
filho que tinha. Fazia meses  que andava prometendo a si mesmo chamar o
rapaz para uma longa conversa, muito ntima, muito franca, em que lhe
falaria de sexo, de estudos, duma carreira...
  Tornou a entrar, subiu para o andar superior, acercou-se da escada que
levava para a gua-furtada, e gritou:
  - Floriano! Venha c, meu filho.
  14
  - Qual  a sua opinio, general Liroca? - perguntou Chiru Mena,
inclinando-se sobre o amigo.
  Era no escritrio de Rodrigo, numa noite de princpios de setembro. As
rvores da praa farfalhavam, batidas pela ventania. Fazia um friozinho
mido e escondido,  que o dono da casa procurava atenuar bebendo e
fazendo os amigos beberem conhaque e parati. Estavam ali tambm o tio
Bicho, que comia pessegada com 
  queijo, e o Aro Stein, que a um canto folheava a Bblia, distrado.
  Sentado  escrivaninha, diante dum mapa do Brasil, Jos Lrio alisava
os bigodes e de quando em quando ajeitava os culos no nariz. Sua
respirao de gato parecia  uma rplica em tom menor do crepitar das
rvores l fora.
  - Absolutamente, no acho que a situao seja desesperadora -
sentenciou ele, erguendo a cabea e fitando em Chiru os olhos de
esclertica amarelada.
  O outro sacudiu a cabea. Na sua opinio a revoluo estava liquidada.
O general Isidoro se havia retirado de So Paulo com seu efetivo
reduzido pela metade e  agora  estava encurralado na salincia do alto
Paran, entre Iguau e Catanduvas. Onde era que o Liroca via motivos
para otimismo?
  - Fracassaram os levantes de Sergipe, Amazonas e Par... - acrescentou
Rodrigo. - Mais um pouco de conhaque, major?
  571
  Liroca fez com a mo um gesto negativo, tornou a olhar para o mapa,
soltou um suspiro sincopado, e murmurou:
  - Mundo velho sem porteira!
  Ergueu-se, aproximou-se do amigo, segurou-lhe o brao e perguntou:
  - E se o Rio Grande se levantasse como um s homem, ha? Se a gente
marchasse para a foz do Iguau e se juntasse com os revolucionrios de
So Paulo, ha? Depois  era  s tocar na direo do Rio e o governo
estava no cho.
  Rodrigo pousou uma mo afetuosa no ombro do amigo:
  - Liroca velho de guerra, sossega esse peito. Isso  um sonho. A
revoluo est perdida.
  - O Rio Grande vai ficar desmoralizado!
  - Por qu?
  - Prometemos ajudar a derrubar o Bernardes e estamos de braos
cruzados. Que  que os paulistas vo pensar de ns?
  - Quem  que prometeu? Eu no prometi nada. Isso  uma revoluo de
militares, mais uma quartelada malfeita e malograda.
  Jos Lrio fez um gesto de desamparo, encolheu os ombros e ficou a
procurar nos bolsos do casaco palha e fumo para fazer um cigarro.
  Chiru tomou um gole de parati.
  - Mas o diabo  que os nossos correligionrios vo acabar se metendo
no barulho - disse. - O coronel Amaral me contou que o Zeca Neto, o
Honrio Lemes e outros  chefes  de 23 esto reunindo gente. - Baixou a
voz. - E c pra ns, que ningum nos oua, a guarnio local est sendo
trabalhada. O Juquinha Macedo me garantiu. Um sargento  do Regimento de
Artilharia disse que tudo agora depende dos oficiais de alta patente,
pois os tenentes e a sargentada esto dispostos a dar o grito.
  Rodrigo encolheu os ombros. Os amigos comeavam a irritlo. Pareciam
ter-se transformado em revolucionrios profissionais. Viviam  espera
duma revoluo. Para  eles  o que importava era derrubar o governo.
Ningum se preocupava com programas.
  - Que  que h contigo hoje, Stein? - exclamou. - Ests to calado...
Algum problema da poltica russa?
  572
  O judeu ergueu os olhos, sorriu e murmurou:
  - Pelo contrrio. No temos problemas polticos, A Gr-Bretanha j
reconheceu a Unio Sovitica. A Frana no tardar. Os outros viro
depois. No temos pressa,  podemos esperar.
  A vida tem cada uma! - refletiu Rodrigo. - Ali naquela sala estava o
velho Liroca preocupado com a revoluo de Isidoro e Stein, com a de
Lnin. E ele, Rodrigo  Cambar,  vazio de ideais, de entusiasmos, de
projetos. No momento no tinha nem mulher. Era tudo uma misria!
  Tornou a encher o clice de conhaque e bebeu-o num sorvo s. Fitou os
olhos em Roque Bandeira e disse, quase agressivo:
  - Ests engordando demais. Tio Bicho sorriu:
  - J estou gordo, doutor. Mas isso no me preocupa. O meu
  problema  outro.
  - Que problema? s um filsofo. Levas tudo na flauta. No tens
responsabilidades nem compromissos. s um homem livre. Vives l com teus
livros e teus peixes. A  propsito,  quando  que dominas essa preguia
e vais conhecer o mar?
  - Tem tempo. 
  O mar pode me esperar. Faz alguns milhes de anos que est
esperando...
  Rodrigo se fez em silncio uma pergunta ntima: "E tu, quando dominas
a tua indeciso e vais a Paris? H quase dois mil anos a cidade te
espera".
  Mas, de onde tirar o dinheiro? Os negcios continuavam emperrados. S
se falava em "crise da pecuria". Criara-se ouvindo o pai queixar-se
disso. Teria havido  algum  perodo na histria do Rio Grande em que no
se falasse em crise?
  Enquanto Chiru confabulava a um canto, em surdina, com o velho Liroca,
Roque Bandeira em voz alta contava a Stein de seu interesse mais
recente: a enguia. Sim  senhor,  a enguia. Havia nas migraes desse
peixe um mistrio que perturbava os cientistas.
  Bandeira acomodou as ndegas carnudas na cadeira, e disse:
  - No me refiro  enguia do mar, ao congro, mas  enguia
  comum.
  - Mas qual  o mistrio? - perguntou o judeu.
  573
  - Ora, essa enguia ordinria freqenta todas as guas e se reproduz em
quantidades colossais. A  que est o mistrio. Como pode reproduzir-se
e propagar-se?  No  sei se sabes mas, segundo uma velha lenda, a enguia
nasce do limo das lagoas...
  Rodrigo caminhava dum lado para outro. Aquelas janelas fechadas e a
ventania l fora lhe davam uma angstia de emparedado. Andava farto
daquela vida de prisioneiro.  s vezes os prprios amigos pareciam as
barras de ferro das janelas de seu crcere. Por mais que ame a esposa e
os filhos, um homem precisa, uma vez que outra, de  libertar-se, viajar
sozinho, ficar a ss consigo mesmo, ver outras terras, outras caras,
outros costumes, outras vidas... A mesmice embota o homem. A monotonia o
emburrece. A monogamia o envelhece prematuramente.
  Fez-se um silncio. Liroca pitava, olhando com olhos tristes para o
ponto do mapa que correspondia ao territrio onde deviam encontrar-se as
tropas de Isidoio.  Chiru  mascava um pau de fsforo. Stein olhava a
lombada dos livros. Bandeira, de olhos entrecerrados, batia de leve com
a colherinha nas bordas do prato vazio.
  Com um aperto no peito, Rodrigo escutava o uivo do vento e o farfalhar
das rvores.
  15
  Outubro findava com aguaceiros e cus incertos. Uma noite estava
Rodrigo no Clube Comercial a jogar pquer com o Calgembrino do Cine
Recreio, o Zeca Prates (candidato  dos republicanos ao cargo de
intendente municipal) e com o Veiga da Casa Sol, quando Chiru Mena
entrou na sala de jogo carteado e soltou a notcia com voz dramtica.
  - Revoltou-se o Batalho Ferrovirio de Santo ngelo! Muitas cabeas
voltaram-se na direo do recm-chegado. Sem
  erguer os olhos das cartas, Rodrigo perguntou:
  - E tu achas que o Bernardes vai morrer de susto s porque esses
gatos-pingados se sublevaram?
  Chiru aproximou-se, grave, e murmurou:
  574
  - Mas a coisa  sria, menino. Levantou-se tambm o 3 de Cavalaria,
de So Lus, e o 2, de So Borja. E parece que h barulho no Alegrete e
outras cidades da  fronteira...
  - Opa! - exclamou Rodrigo, pousando as cartas na mesa e erguendo os
olhos para o amigo.
  Quando saiu do clube, cerca de meia-noite, notou uma agitao anormal
nas ruas. Passavam caminhes cheios de "provisrios", autos corriam. As
janelas da Intendncia  estavam iluminadas.
  Ao entrar no Sobrado encontrou Torbio  sua espera no escritrio.
Chegara havia pouco do Angico e parecia inquieto. Rodrigo conhecia o
irmo. Quando ele estava  excitado, suas narinas fremiam e ele no
cessava de coar-se.
  Abraaram-se. Bio fechou a porta.
  - J sabes da revolta de Santo ngelo?
  -J.
  Fazia frio, mas Torbio tirou o casaco, meteu a mo pela abertura da
camisa e ps-se a esfregar o peito vigorosamente.
  - No agento mais. Desta vez eu vou.
  - Pra onde?
  - Pra revoluo.
  Rodrigo j esperava e temia aquele pronunciamento. No imaginava,
porm, que ele viesse to cedo.
  - No te precipites. Espera.
  - Esperar o qu?
  - Os acontecimentos.
  - Mas eles esto a, homem!
  Sentou-se numa poltrona, descalou as botas', coou os dedos dos ps.
  - Me d um troo pra beber.
  Rodrigo serviu-lhe um clice de Lgrimas de Santo Antnio e ficou a
observ-lo, intrigado. Notava nele alguma coisa de diferente. Claro! Bio
estava de cabea completamente  rapada.
  - Por que pelaste o coco?
  - Faz parte do uniforme de campanha.
  - Devagar! No tomes nenhuma resoluo. Vamos conversar. Bio tornou a
encher o clice e bebeu um gole curto.
  575
  - De conversa estou farto. Quero  ao. Vou ou rebento.
  - Mas  uma loucura. Pensa bem. No conheces o programa dessa gente.
E, depois, no te deves meter em canoa furada. O governo est forte, o
povo aptico. Esses  levantes  novos no significam nada. O Chimango
organizou corpos provisrios. A Brigada Militar inteirinha est peleando
contra os revoltosos.  uma causa perdida.
  - Tanto melhor. Tem mais graa.
  - No sejas estpido! Pensas que vou permitir que te suicides dessa
maneira?
  - J te disse mil vezes que ainda no fizeram a bala...
  - Pra com isso! Escuta. s maior de idade. Sabes o que fazes. Vamos,
ento, discutir o assunto como gente grande. Ests mesmo decidido a ir
para a revoluo?  Mas  j pensaste nos detalhes?
  - Que detalhes?
  - Quando vais... com quem vais... como vais.
  - Vou sozinho, me junto com essa gente de Santo ngelo...
  - Bio, usa a cabea. No podes sair s claras. Deves saber que a esta
hora j comearam a nos vigiar... No vai ser fcil.
  Torbio mexia com os dedos dos ps, olhando fixamente para os reflexos
da luz no parati.
  - D-se um jeito - murmurou.
  Rodrigo soltou um suspiro de malcontida impacincia.
  - Sabes duma coisa? Vamos dormir. Amanh teremos notcias mais claras
desses levantes. Saberemos quem comanda o movimento... E uma coisa eu te
digo: se o negcio  todo parecer mais uma quartelada inconseqente, no
te deixo ir. Nem que eu tenha de te fechar no quarto e te amarrar na
cama...
  - Na cama? Com quem?
  Sabia-se agora que quem comandava os revoltosos de Santo ngelo era um
capito de engenharia, Lus Carlos Prestes, "um ilustre desconhecido",
como disse o Chiru,  um tanto decepcionado ao descobrir que o homem
tinha vinte e sete anos incompletos.
  - Esses soldadinhos de chumbo - comentou ele - esses espadas-virgens
pensam que se faz uma guerra em cima dum mapa,
  576
  com esquadro, compasso e teorias... A revoluo precisa  de homens
maduros e experimentados, como o general Honrio Lemes... Rodrigo
esfregou-lhe ento na cara  o jornal que acabara de chegar com a notcia
duma tremenda derrota sofrida pelas tropas de Honrio Lemes em Guauboi.
  - Pois aqui est o teu general. Caiu na emboscada que o Flores da
Cunha lhe armou. Caiu como um inocente. Pensou que ia surpreender o
inimigo e no entanto o inimigo   que o surpreendeu. E foi um
deus-nos-acuda. Era revolucionrio disparando para todos os lados, um
verdadeiro desastre...
  -- Isso  inveno do jornal! - protestou Chiru.
  - Antes fosse. E sabes onde est o teu Tropeiro da Liberdade? Asilado
no Uruguai. E, para teu governo, o general Zeca Neto tambm se bandeou
para o outro lado...  Podes mandar rezar uma missa por alma dessa
revoluo.
  Torbio, entretanto, obstinava-se em afirmar que nem tudo estava
perdido.
  Nos dias que se seguiram noticiou-se a volta da Argentina de alguns
chefes revolucionrios, entre os quais o tenente Joo Alberto Lins de
Barros, que comandara  o  ataque a Alegrete. Isso animou Torbio, que a
muito custo Rodrigo conseguiu conter.
  - Espera um pouco mais. Volta para o Angico, v como vai a coisa por
l. Temos de entregar aquela tropa ao frigorfico... Mas por amor de
Deus, no vs para a  revoluo  sem me avisar... Prometes?
  Bio prometeu.
  Rodrigo esperava secretamente que a revoluo se desintegrasse e que a
ria blica do irmo se aplacasse.
  Torbio voltou para o Angico exatamente no dia em que se realizavam as
eleies municipais em Santa F. O candidato oficial no teve
competidor. A oposio absteve-se  de votar. Terminada a apurao, o
Madruga mandou soltar uns foguetes chochos. Andava outra vez fardado de
coronel "provisrio" e dizia-se que tinha uma tropa de  quase mil
homens.
  577
  - Est se rebuscando de novo esse corno - rosnava o Neco. No se
cumprimentavam. Quando se defrontavam na rua, trocavam olhares
enviesados. Comentava-se na cidade  que o chefe republicano dizia, para
quem quisesse ouvir, que mais tarde ou mais cedo mandaria passar a faca
no "cafajeste do Neco Rosa". Sempre que lhe contavam  isto, o barbeiro
cerrava os dentes e ameaava:
  - O Madruga que venha. Incendeio ele por dentro com o meu 44.
  16
  Aquele foi um dezembro triste para a gente grande do Sobrado. Quanto
mais se aproximava o dia de Natal, mais eles pensavam em Alicinha,
embora ningum lhe pronunciasse  o nome.
  Rodrigo andava particularmente melanclico. Permanecia durante horas
sozinho no quarto da filha, deitado na cama dela, pensando nos muitos
momentos do passado  em  que a tivera nos braos, em diversas idades.
  Floriano e Jango haviam sido aprovados nos exames finais. O primeiro
vivia encafuado, sozinho, na gua-furtada, com seus livros e revistas.
No tinha amigos. Pouco  se comunicava com os outros membros da famlia.
Flora comeava a preocupar-se com ele.
  Como prmio pelas boas notas que tirara, Jango ia passar todo o vero
no Angico. Seu sonho agora era vir a ser um dia o capataz da estncia.
Edu e Zeca continuavam  sua turbulenta amizade que se alimentava de
bate-bocas e sopapos. Muitas vezes se atracavam e rolavam pelo cho do
quintal, cuspindo um no outro, arranhando-se mutuamente  as caras. Era a
muito custo que Floriano ou Maria Valria ou Laurinda conseguia
separ-los. Ficavam os dois garniss por algum tempo vermelhos e
ofegantes, rosnando  um para o outro todos os nomes feios que sabiam, e
a se mirarem de longe com o rabo dos olhos. Permaneciam assim por vrios
minutos at que, esquecidos da briga,  juntavam-se e continuavam o
dilogo ou o jogo interrompido. Segundo Rodrigo, eram "inimigos de
peito".
  578
  Os jornais noticiavam que as foras rebeldes da fronteira
concentravam-se em So Lus e que os legalistas se preparavam para
cerc-las. Divulgava-se tambm que  o  general Isidoro Dias Lopes
mandara um emissrio ao capito Prestes, aconselhando-o a levar suas
tropas para o norte, para fazer juno com a Diviso de So Paulo  na
Foz do Iguau.
  Pouco antes do Natal chegou ao Sobrado um dos pees do Angico, o
Romualdinho Car, trazendo um bilhete de Torbio. Rodrigo leu-o j com o
corao a bater descompassado,  pois ao avistar o chasque tivera logo um
mau pressentimento.
  Rodrigo: Quando receberes esta, j estarei longe com as foras do
capito Prestes. No pude agentar. Sigo para So Lus. Seja o que Deus
quiser. Mas no te preocupes,  eu volto.  como te digo, ainda no
fizeram a tal bala. Lembranas para todos. Um abrao do
  Bio
  Sem ler o ps-escrito, amassou o bilhete e jogou-o no cesto de papis.
"Cachorro! Corno! Filho duma grandessssima..." Saiu a andar pela casa,
excitado, com lgrimas  nos olhos - lgrimas de indignao, de
apreenso, de mgoa, sabia l ele de que mais! "Como  que esse canalha
vai me fazer uma coisa dessas?...
  Foi direito  garrafa de parati, encheu um clice, bebeu com
sofreguido. Como  que vou dar a notcia  velha? Isso no  coisa que
se faa! Sair sem falar comigo,  sem ao menos me dar um abrao... E como
 que vai ficar o Angico? No estou a par dos negcios. Vai ser uma
calamidade. Louco! Irresponsvel! Caudilhote!
  Lembrou-se do ps-escrito. Apanhou o bilhete de dentro do cesto,
alisou-o e leu:
  P.S. No te preocupes com o Angico. J combinei tudo com o velho
Babalo, a quem j expliquei a situao. Ele prometeu capatazear a
estncia na minha ausncia.
  Ento o velho Babalo sabia de tudo, hein? A coisa tomava o carter
duma conspirao generalizada. Agora ele compreendia o
  579
  sentido daquela misteriosa visita do sogro ao Angico, havia pouco mais
de uma semana... Estavam todos contra ele. Cambada! Corja! Deu a notcia
s mulheres. Flora  ficou por um instante muda, a interrog-lo com o
olhar. Maria Valria, porm, limitou-se a sacudir lentamente a cabea.
  - Eu j sabia - murmurou.
  - Como? - vociferou Rodrigo. - Quem lhe disse?
  - O Bio.
  - Quando?
  - A ltima vez que esteve aqui.
  - E por que no me contou nada, Dinda?
  - Ele me pediu segredo.
  Rodrigo segurou-lhe ambos os braos e sacudiu-a.
  - E a senhora nem tentou impedir que ele cometesse essa loucura?
  - Voc no conhece o seu irmo.
  - A senhora sabe que ele pode morrer?
  - Todos ns podemos, menino. Tambm se morre na cama. Rodrigo
virou-lhe as costas, meteu-se no escritrio, fechou a
  porta, deixou-se cair sobre uma poltrona, tirou do bolso o bilhete e
releu-o. Quando receberes esta, j estarei longe... Frase romntica dum
ledor inveterado de  novelas de capa e espada.
  A indignao tinha passado. Agora estava s magoado. "Isso no se faz.
Principalmente a um irmo como eu que..." Dobrou cuidadosamente o
bilhete e meteu-o no bolso.
  Onde estaria o Bio quela hora? J com as foras revolucionrias? O
remdio era beber um pouco de Lgrimas de Santo Antnio, tomar um porre.
"A vida no vale um  caracol."
  Olhou para o retrato do Patriarca e pensou no pai. Matei meu pai.
Qual! Aquilo era apenas uma frase. Os homens se suicidam de mil formas.
Ou o Destino os arrasta  e liquida. Era um erro viver alimentando
sentimentos de culpa. Tornou a encher o clice.
  Entardecia. Um sol amarelento e morno entrava pela janela numa larga
faixa que cobria metade da escrivaninha e lhe iluminava as mos
agarradas nos braos da poltrona.
  580
  Espantou, irritado, uma mosca que lhe zumbia ao redor da cabea. Ouviu
o som duma corneta. Devia ser hora do rancho para os "provisrios" do
Madruga. A vida era  estpida. Alicinha estava morta. E ele, sepultado
vivo em Santa F.
  No armaram rvore de Natal aquele ano.
  Fizeram muito cedo, na noite de 24, a distribuio de brinquedos s
crianas e mandaram-nas para a cama. Carbone e Santuzza apareceram.
Estavam sensibilizados  com  a notcia da partida de Torbio. Toda a
cidade j sabia da histria.
  - Devo confessar - mentiu-lhes Rodrigo - que eu estava ao par de tudo.
O Bio me avisou com antecedncia, mas, como vocs devem compreender, eu
tinha de guardar  segredo
  Maria Valria e Aderbal entreolharam-se, entendendo-se, mas sem
dizerem palavra, ambos com as faces impenetrveis. Camerino contou que
um dos batalhes do Madruga  se preparava para reforar as tropas
governistas que cercavam os revolucionrios do capito Prestes.
  Liroca, muito alcatruzado a um canto, brincava com a ponta do seu
leno "colorado".
  - Se o Prestes se livrar dessa - disse - ningum pega mais ele. No
sei por qu, tenho uma f danada nesse menino...
  Os amigos retiraram-se antes das dez. Maria Valria acendeu sua vela e
saiu a verificar se as janelas e portas do casaro estavam devidamente
fechadas.
  Flora e Rodrigo surpreenderam-se ento frente a frente ali na sala, no
silncio da casa quebrado apenas pelo tique-taque do relgio de pndulo.
Ficaram a olhar  um  para o outro, numa mtua interrogao, num mtuo
apelo. E de repente abraaram-se como amantes separados que se
reconciliam. Subiram as escadas de mos dadas e,  sem combinao prvia,
dirigiram-se para o quarto da filha morta, como se lhe fossem levar um
presente de Natal.
  581
  17
  Num dos primeiros dias de janeiro de 1925 uma notcia correu na
cidade, de praa a praa, desceu pela rua do Comrcio em vrias bocas
como uma bola de neve que,   medida que rola pela encosta da montanha,
vai aumentando de volume e mudando de forma. Comeou na praa Ipiranga
como um simples boato: tinha havido um combate  srio no boqueiro da
Ramada entre as foras revolucionrias e as legalistas. Cuca Lopes
acompanhou correndo a bola, empurrando-a como podia e tentando dar-lhe a
direo de sua fantasia.
  Mas Quica Ventura, que acendia o primeiro crioulo da manh  frente do
Clube Comercial, deteve-o:
  - Espera a, Cuca. Quem foi que te contou?
  - Sei de fonte segura.
  - Quem ganhou o combate?
  - Os legalistas.
  - Mentira!
  E s para contrariar o Cuca, que embarafustara clube adentro, passou a
notcia ao fiscal do imposto de consumo:
  - A gente do governo levou uma sova dos revolucionrios no boqueiro
da Ramada. Foi uma mortandade medonha.
  Quando a histria chegou  praa da Matriz, trazida por um amigo do
Pitombo, a coisa estava nestes termos: travara-se uma batalha campal, o
batalho do Madruga  entrara  em ao e os revolucionrios, batidos,
tinham fugido para a Argentina. O armador correu a contar a novidade a
Rodrigo que, depois de ouvi-la, ficou com fogo nas  vestes. Com toda a
certeza Torbio tomara parte no combate! Enfiou o casaco e o chapu e
saiu na direo do telgrafo, onde as notcias eram contraditrias.
Correu  para o quartel-general.
  O coronel Barbalho recebeu-o com cordialidade, apesar de as relaes
de amizade entre ambos terem ficado abaladas depois dos acontecimentos
de 23.
  - O senhor me desculpe, coronel, sei que no tenho nenhum direito, mas
vou lhe fazer uma pergunta. Que  que h de verdade sobre o combate da
Ramada? Tenho ouvido  as verses mais 
  582
  desencontradas. Explico o meu interesse:  que tenho razes para supor que
meu irmo Torbio fazia parte da fora revolucionria que entrou em
ao. Seja franco.
  O comandante da guarnio abotoou a gola da tnica, encomendou dois
cafezinhos ao ordenana que apareceu a seu chamado, e disse:
  - Olhe, doutor, foi um combate danado de sangrento, com baixas pesadas
de parte a parte. Como o senhor sabe, o boqueiro da Ramada  uma
passagem de grande importncia  para quem quer marchar para o norte...
  Fez uma pausa, lanou um rpido olhar para o retrato do duque de
Caxias, que pendia da parede, e, baixando a voz como se temesse ser
ouvido pelo padroeiro do Exrcito,  confidenciou:
  - Aqui que ningum nos oua... O governo pode espalhar oficialmente as
notcias que quiser, mas a verdade  que no combate da Ramada os
legalistas tiveram de se  retirar meio correndo na direo da Palmeira.
Acho que levamos uma surra em regra...
  - Mas o senhor no tem nenhuma idia sobre a identidade dos mortos e
dos feridos?
  O coronel Barbalho sacudiu negativamente a cabea. Ofereceu um cigarro
a Rodrigo. Fez-se uma pausa, que durou at o momento em que ambos
soltaram a primeira baforada  de fumaa.
  - Espere mais uns dias, doutor. Recebi a comunicao de que alguns
feridos, entre eles vrios revolucionrios, vo ser recolhidos ao nosso
hospital. Algum deles  pode trazer a informao que o senhor deseja.
  - E qual , coronel, a sua opinio sincera sobre o destino dessa
revoluo?
  - Est perdida, doutor. No se iluda.  a opinio desapaixonada dum
militar. A nica esperana estaria num golpe mortal na "cabea da
cobra", no Rio. Ora, isso  hoje  est fora de cogitao. Depois que
Isidoro evacuou suas foras de So Paulo, eu disse c comigo: perdeu a
parada. O mais que pode fazer agora  continuar uma ao  de guerrilhas.
O resto ser questo de tempo.
  - Quer dizer ento que no atribui nenhuma importncia a esse
movimento que rebentou no Rio Grande?
  583
  O coronel sacudiu os ombros, encrespou os lbios.
  - Estou seguramente informado de que as deseres j comearam nas
fileiras dos rebeldes.
  - No creio que meu irmo esteja entre os desertores.
  - Eu tambm no.
  Entrou o ordenana trazendo duas xcaras de caf. Rodrigo sentiu pelo
cheiro que era requentado. Tomou um gole. Estava horrendo. O coronel
engoliu o contedo de  sua xcara num sorvo s, fazendo uma careta, como
se tomasse por obrigao um remdio amargo.
  - Que tal  esse capito Prestes? - perguntou Rodrigo, depondo a
xcara sobre a mesa.
  - Como estrategista, deve ser um amador. No compreendo como esteja no
comando da Coluna. Agora,  um homem decente e de coragem, um bom
engenheiro e um aprecivel  matemtico.
  Sorriu e acrescentou:
  - Mas  jovem demais. Sabe duma coisa interessante? Completou vinte e
sete anos exatamente no dia do combate da Ramada.
  18
  Quando chegaram os feridos, o coronel Barbalho proporcionou a Rodrigo
a oportunidade de falar com um deles no Hospital Militar.
  Chamava-se Clementino Garcia, era natural de Uruguaiana e pertencera
s foras de Honrio Lemes. Quando o caudilho do Caver fora obrigado a
emigrar, ele ficara  para trs, incorporando-se mais tarde ao
destacamento do tenente Joo Alberto. Era um homem grandalho e
melenudo. Estava em cima duma cama, com o torso nu, e uma  das pernas
engessada at a metade da coxa.
  - Me mataram o cavalo - foi logo explicando. - O animal testavilhou,
eu rodei, quebrei a perna. Foi por isso que me pegaram.
  Rodrigo disse-lhe quem era e a que vinha. O rosto do prisioneiro como
que se iluminou.
  - Mano do major Bio? Machuque estes ossos!
  584
  Tornou a apertar, dessa vez com mais fora, a mo do visitante.
  - Ento conheceu o meu irmo?
  - Se conheci? Doutor, quando o bicho chegou, olhei pra ele e vi logo
que tinha homem pela frente. Da por diante no nos separamos mais.
Outro que se encantou  logo  com o seu mano foi o tenente Joo
Alberto... So unha e carne.
  - Agora me diga uma coisa. O major Torbio estava no combate da
Ramada?
  - Claro. Onde havia barulho o major sempre aparecia. Nunca vi ningum
pelear mais alegre. Uns brigam por obrigao. Outros por profisso. O
seu mano briga porque  gosta.
  Andava no ar um bodum humano, misturado com emanaes de
gua-da-guerra e fenol. Na cama prxima, um ferido gemia, de olhos
cerrados. Sua face tinha uma cor citrina.
  - Esse a - contou Clementino - peleou tambm na Ramada. Um tiro nos
bofes.  do Alegrete. No tem nem vinte anos. Eu disse: "Fica junto
comigo, guri, tu no tem  prtica destas coisas". No primeiro tiroteio
ele ficou assim meio atrapalhado, como cusco em procisso. Mas depois se
aprumou e at brigou direitinho.
  Clementino passou os dedos pela barba negra que lhe cobria as faces. O
suor escorria-lhe pelo torso queimado de sol.
  - Amigo Clementino, vou lhe perguntar uma coisa e quero que me
responda com toda a sinceridade. O meu irmo est vivo?
  O caboclo fitou obliquamente o interlocutor.
  - Olhe, doutor, meu finado pai sempre dizia que pr'um homem morrer,
basta estar vivo. E o senhor compreende, numa revoluo. ..
  - O que eu quero saber  se voc viu o major ferido ou morto nesse
combate...
  Clementino ficou um instante pensativo. O paciente da cama vizinha
soltou um gemido. Um enfermeiro aproximou-se dele e aplicou-lhe uma
injeo.
  - Pra l falar a verdade, doutor, a ltima vez que vi o seu mano, ele
estava vivo e por sinal carregando um companheiro ferido
  585
  na cacunda... Mas se eu fosse o senhor, no me preocupava. O major tem
o corpo fechado.
  - Por que  que voc diz isso?
  - Olhe, vou lhe contar. Duma feita a gente estava de linha estendida
num combate, atirando deitado. Mas tinha dois homens que tiroteavam de
p. Um era o Joo Alberto  e outro, o seu mano. Eu estava perto deles,
as balas passavam zunindo, era uma msica braba. Ouvi o Joo Alberto
gritar: "Vamos deitar, major, que a coisa est ficando  feia". E o
doutor sabe o que o Torbio respondeu? "No sou lagarto pra andar de
barriga no cho." E continuou de p. Ora, o outro no teve remdio seno
continuar  tambm de p, pra no se desmoralizar.
  Rodrigo sorriu, orgulhoso. Reconhecia que a atitude do irmo era
irracional, absurda, pois a obrigao dum revolucionrio , antes de
mais nada, durar a fim de  levar  a revoluo  vitria; mas no podia
deixar de ver uma grande beleza naquele gesto. "No sou lagarto pra
andar de barriga no cho." Estava j ansioso por contar  a tirada aos
amigos. O Neco, o Chiru e o Liroca iam gostar.
  Clementino procurou uma posio mais cmoda na cama.
  - Vou l contar outra histria que o senhor vai apreciar. Nossa gente
andava procurando o destacamento do tenente Portela, que estava
tiroteando ningum sabia  onde.  Nos tocamos direito ao lugar donde
vinham os tiros, assim meio no palpite. Um dos nossos companheiros de
repente caiu do cavalo, botando sangue pela boca. Imagine,  morrer de
bala perdida, at nem tem graa, coitado! Apeamos, deixamos a cavalhada
atrs dum capo, e nos atiramos a p pr lugar do combate. Quando
chegamos assim  no alto duma coxilha, demos com uma fora legalista,
meio perto. Pois l digo que senti uma coisa ruim na barriga. Mas no
tive ternpo de dizer gua. Os companheiros  logo abriram fogo. E o
senhor sabe duma coisa? J briguei de arma branca com muito corrent'no.
Uma vez um guarda aduaneiro me meteu o cano do revlver no peito.  Est
vendo esta marca perto da mamica direita? Pois foi o filho da me do tal
guarda,  queima-roupa, s por causa duma desconfiana, porque, palavra
de honra, nunca  passei contrabando, estava s ajudando um amigo. Pois 
como eu ia dizendo, j andei metido em muita
  586
  briga, mas uma coisa eu nunca tinha visto: era boca-de-fogo apontada
na minha direo...
  Moscas passeavam pela testa gotejante de suor do doente da cama
prxima, que agora ressonava de boca aberta. Aos ouvidos de Rodrigo esse
ressonar soava j como  estertor  de morte. Longe soou um clarim.
  - Imagine o senhor, doutor. A bateria abriu fogo: bum! Um ronco
medonho. Palavra, meio que me afrouxei, meti a cabea no cho, e me
encolhi e pensei: Estou frito.  O Joo Alberto gritou que no era nada.
Explicou l na lngua dele que os tiros eram altos e no sei o qu. E o
Bio gritou: "Vamos entreverar antes que esses frescos  tenham tempo de
regular a ala de mira". Avanamos gritando pra assustar o pessoal da
bateria. O Bio queria laar o canho, s que no tinha lao. Avanamos
que  nem loucos, mais ligeiro que enterro de pobre em dia de chuva.
Perdemos muita gente, pois os milicos tinham armas automticas.
Pei-pei-pei-pei... Mas quem foi que  disse que ns paramos? Os
legalistas recuaram. Dispararam os que puderam. Outros caram. Foi uma
mortandade braba, dava at nojo ver tanto sangue, tanta barriga  aberta,
tanta tripa pelo cho...
  Calou-se e ficou com o ar de quem sonha de olhos abertos.
  - E depois? - perguntou Rodrigo, fascinado pela narrativa.
  - Ora, o comandante achou que a gente no podia agentar a posio. S
se o Siqueira Campos viesse nos socorrer com sua fora. Mas o diabo do
homem no vinha.  O  remdio era voltar pr matinho, pegar a cavalhada e
ir embora. O Bio queria levar o canho. "Deixe esse trambolho, major!",
gritou o Joo Alberto. Seu mano deixou,  mas antes de se retirar arriou
as calas e fez o servio em cima da pea.
  Riu, passou a mo pelo peito mido de suor.
  - Nesse combate, nos rebuscamos. Eu tirei umas botas das pernas dum
oficial morto, e fiquei tambm com a pistola dele. Os companheiros, que
andavam mal de roupa,  tambm aproveitaram a ocasio e se serviram.
Quando vi, os inimigos cados estavam quase todos pelados. Vesti uma
tnica de tenente meio manchada
  587
  de sangue. Mas o senhor compreende, guerra  guerra, quem no quer se
sujeitar a essas coisas que fique em casa. . .
  - Quantos homens vocs perderam?
  - Olhe, vou lhe dizer, doutor. Tivemos a por perto dos cinqenta
mortos e coisa duns cem feridos... Eu ca no outro dia, numa escaramua
boba. Foi como l disse:  se eu no tivesse quebrado a perna, nunca na
vida eles me agarravam.
  - Ento voc acha que o Bio deve estar vivo.
  - Estou apostando, doutor. O homem tem sorte.
  Rodrigo soltou um suspiro. O otimismo do ferido no significava nada.
Mas ele, Rodrigo, queria iludir-se, precisava convencer-se de que o
irmo estava so e salvo.
  - Me diga uma coisa, Clementino: que tal  esse Joo Alberto?
  - Pois, doutor,  um moo magro e alto, meio com cara de cavalo, mas
simptico.  muito infludo. Posso lhe garantir que  macho. S tem umas
coisas esquisitas...
  - Coisas esquisitas?
  - Pois . Toca piano. O senhor j viu despautrio igual? Paramos numa
casa pra descansar, tinha um piano e enquanto o Bio e eu fomos direito
pra mesa, loucos de  fome, o pernambucano abriu o instrumento e comeou
a tocar uns troos...
  - Quero saber uma coisa: a tropa o respeita?
  - Respeitar respeita, porque o homem se impe. Mas o senhor
compreende, mais de metade da fora  de paisanos, gauchada que veio de
23, acostumada a brigar ao  lado  de homens como o general Honrio e
general Portinho. Ficam assim meio sem jeito de obedecer a esses
moos... O senhor v...
  - Viu o Prestes?
  - Vi uma vez.
  - Que tal?
  - Ora, no me Mena, como diz o castelhano. Dizem que  bom nas
matemticas. No ri nunca. No sei... O senhor compreende, nunca fui
muito nem com batina nem com  uniforme.  Mas o homem  o chefe, o senhor
compreende...
  - Clementino, vou lhe fazer uma pergunta.
  588
  - Faa, doutor.
  - Por que foi que voc entrou na revoluo?
  - U! Sou maragato, revolucionrio de 23, gente do general Honrio.
  - S por isso?
  - E o senhor quer mais? Meu pai era veterano de 93, federalista at
debaixo d'gua. Quando o general Honrio deu o grito, botei o leno
colorado no pescoo, agarrei  o pau-furado, montei a cavalo e me
apresentei...
  - Agora me diga outra coisa. Se no tivesse quebrado a perna, voc
continuaria com os seus companheiros na marcha para o Iguau?
  - Por que no?  como disse o dr. Assis Brasil: "No largo a rbica do
arado seno no fim do rego".
  - Mas que me diz do seu chefe que est na Argentina? Clementino Garcia
sorriu:
  - No tenha dvida. Qualquer dia ele volta. Quando menos se esperar, o
general Honrio invade de novo o Estado. O velho  caboteiro.
  Rodrigo sacudiu lentamente a cabea. Olhou para a cama vizinha e, como
visse uma mosca prestes a entrar na boca do paciente adormecido,
ergueu-se e espantou-a.
  19
  Rodrigo passou aquele resto de janeiro e as primeiras semanas de
fevereiro no Angico, com toda a famlia. Teve a oportunidade de ver o
sogro em ao no seu posto  de capataz. O velho parecia remoado: andava
alegre, lpido, conversador, cheio de entusiasmos e planos.
  - Est nos seus pernambucos - murmurava Maria Valria, quando o via
sobre o lombo dum cavalo a dar ordens para a peonada.
  Rodrigo acompanhava-o s invernadas, interessava-se pelas coisas da
estncia, tomava ares de proprietrio. Mas cansou cedo. Entregou-se,
ento, a longas sestas.   tardinha ia tomar banho na
  589
  sanga,  noite ficava lendo at tarde  luz duma lmpada de acetilene,
e no dia seguinte acordava s oito, o que causava escndalo  "gente
antiga" do Angico.
  Maria Valria punha ordem e mtodo na cozinha, gritava ordens ou
ralhos para as chinocas, fazia-as trabalhar, enquanto Flora passava os
dias preparando o enxoval  que Floriano devia levar para o internato.
  Da segunda semana em diante, naquelas longas tardes de bochornoso
silncio, Rodrigo comeou a encontrar conforto e distrao no corpo da
Antnia Car, irm do  Romualdinho,  uma morena de pele cor de marmelo
assado. Tinha vinte e pouqussimos anos, era magra mas bem-feita.
  - Quem foi que te fez mal, menina? - perguntou ele uma tarde, num
momento de ternura.
  Ela hesitou, voltou a cabea para o lado, evitando encar-lo,
  e murmurou:
  - O seu Torbio.
  Bandido! - pensou Rodrigo, inconseqentemente. - Sempre na minha
frente. Mas apiedou-se da criatura.
  Ficava s vezes longo tempo a examin-la com uma curiosidade cheia de
admirao. Como era que um bichinho daqueles, nascido numa famlia
miservel no meio do campo,  podia ter aquela cara, aquele corpo, aquela
graa? As Cars fmeas possuam todas um certo feitio que atraa os
homens - refletia Rodrigo ao estudar a anatomia  de Antnia. A rapariga
tinha pudores, evitava desnudar-se, e quando ele a forava a isso, ela
se deixava ficar deitada, rgida, de olhos fechados, os lbios
apertados.  Como um menino que pela primeira vez estivesse vendo nudez
de mulher, ele se comprazia em passar-lhe a mo por todo o corpo, como
que a esculpi-la.
  Encontravam-se no capo da Jacutinga, na Invernada do Boi Osco.
Rodrigo achava um sabor esquisito em possuir a cabocla no mato, sabendo
que das rvores os bugios  os espreitavam alvorotados, faziam gestos
obscenos, soltavam gritos estridentes e acabavam por perseguirem suas
fmeas. Tudo aquilo era a um tempo grotesco, assustador  e excitante.
  590
  Muitas vezes, terminada a comdia, ele ficava deitado ao lado da
rapariga, sentindo vir-lhe, com a lassido do desejo satisfeito, uma
fria sensao de constrangimento  e remorso. Um homem de quase quarenta
anos! E Flora e as crianas estavam na estncia, a menos de dois
quilmetros daquele capo... Por outro lado, o fato de Antnia  ser
sobrinha de Ismlia Car, a amsia de seu pai, dava quela ligao um
carter vagamente incestuoso.
  Saa dali resolvido a no voltar. O tempo, porm, lhe pesava no
esprito e no corpo. As tardes eram quentes, o desejo se lhe colava 
pele como um visgo, o sangue  latejava-lhe nas tmporas e ele sentia
que, se no voltasse ao capo, estouraria... Voltava. Encontrava Antnia
sentada sempre debaixo da mesma rvore, descala,  metida no seu vestido
de chita, e recendendo a gua-de-cheiro. Rodrigo no gostava disso.
Preferia o cheiro natural da rapariga, que andava sempre limpa. Sua pele
era lisa e seca, jamais parecia transpirar, ao passo que ele acabava
sempre com a camisa empapada e grudada desagradavelmente ao tronco.
  Uma tarde beijou a cabocla na boca pela primeira vez. Ocorreu-lhe uma
comparao: o beijo de Antnia Car tinha o sabor agridoce e meio spero
do sete-capotes,  a  fruta que mais dava naqueles matos do Angico.
  Nunca saam juntos do esconderijo. Ela se retirava primeiro, tomando a
direo oposta  da casa-grande. E uma tarde, depois que a rapariga se
foi, Rodrigo esperou  cinco minutos antes de deixar tambm o capo. O
sol descia em meio de nuvens rosadas. Acentuavam-se as sombras nas
canhadas. O coqueiro torto desenhava-se ntido  contra o horizonte. Mal
comeara a mover-se, Rodrigo ouviu sons de ramos partidos e folhas
pisadas. Algum bicho? Olhou para todos os lados, procurando, e viu uma
pessoa sair de outro setor do mato. Reconheceu Floriano, que deitava a
correr rumo da casa. O rapaz devia ter estado escondido atrs de alguma
rvore, decerto vira  tudo... Teve mpetos de gritar, chamar o filho,
enfrentar a situao. Mas calou-se e ficou imvel, acompanhando com o
olhar o menino, que continuava a subir a encosta  sem olhar para trs.
  Naquela noite,  hora do jantar, notou que Floriano se mantinha
silencioso, evitando encar-lo. Maria Valria e Laurentina 
  591
  discutiam as aventuras domsticas do dia. Babalo contava a histria duma
certa vaca brasina que julgavam perdida...
  Rodrigo no prestava nenhuma ateno  conversa do sogro. Prometera a
si mesmo nunca mais voltar ao capo da Jacutinga. Sabia, porm, que
voltaria. Desprezava-se  por isso. ( uma misria. Sou um animal.) E por
se desprezar assim, julgava-se redimido. E como estava redimido,
achava-se com direito a um prmio. E o prmio era  ainda o corpo da
Carzinha. A vida era curta, a morte certa. Confortai-me com
sete-capotes s cinco da tarde, porque desfaleo de desejo.
  Floriano comia, os olhos postos no prato.
  - Que tristeza  essa, menino? - interpelou-o Maria Valria. - S
porque vai pr colgio em Porto Alegre no carece ficar jururu. Nove
meses passam ligeiro. Voc  s beliscou a comida. Coma um pouco mais de
feijo mexido.
  Decerto ele me odeia - refletiu Rodrigo, olhando para o filho. Afastou
o prato, sentindo-se de repente vtima duma grande injustia. E isso lhe
doa no corao.
  No dia seguinte chegou um prprio da cidade, trazendo uma pilha de
jornais. Rodrigo levou-os para a cama  hora da sesta e comeou a l-los
pela ordem cronolgica.  Dormiu depois com a cara coberta por uma folha
do Correio do Sul. Acordou azedo. E quando o sogro lhe perguntou pelas
novidades, resmungou:
  - Tudo uma droga. O estado de stio foi prorrogado. Da gente do
Prestes, nenhuma notcia direta. O "impoluto" Borges de Medeiros
telegrafou ao presidente da Repblica  declarando que considera
terminado o levante militar no Rio Grande do Sul. O "impvido" Bernardes
respondeu congratulando-se com o Chimango pela "disperso do derradeiro
grupo revoltoso e sua internao no territrio argentino". - Mudou de
tom. - E este calor! E estas moscas! Se ao menos a gente tivesse gelo na
estncia...
  Montou a cavalo e gritou para Flora que ia tomar um banho na sanga.
No foi. Galopou rumo do capo da Jacutinga, onde a Carzinha o
esperava. Confortai-me com  sete-capotes  porque a 
  592
  revoluo est perdida, eu caminho para os quarenta e a vida  uma
droga.
  Voltou para casa ao anoitecer, estranhamente aliviado, com uma viso
menos pessimista do mundo. Um pouco antes do jantar, abriu de novo os
jornais. Num deles,  na  primeira pgina, negrejava um cabealho: OS
GRANDES PROGRESSOS DA AVIAO. Noticiava-se a inaugurao do servio
postal areo na Amrica do Sul. Os aeroplanos e  hidroplanos da
companhia francesa Latecorc iam fazer o percurso entre Toulouse e
Buenos Aires em menos de quatro dias, com escalas em Dakar, Natal e Rio
de Janeiro.  No era uma coisa fabulosa?
  O velho Babalo no pareceu muito impressionado.
  - Um navio leva quase um ms para fazer o mesmo percurso, seu Aderbal!
Uma carta da Frana  Argentina daqui por diante levar apenas noventa e
cinco horas!
  - Isso no  coisa que se faa - murmurou Maria Valria, que escutava
a conversa. - Esto todos malucos.
  - E dentro de pouqussimos anos - acrescentou Rodrigo - haver avies
comerciais transportando gente da Amrica para a Europa e vice-versa. E
se Deus quiser, este  seu criado, Rodrigo Terra Cambar, um dia
embarcar num desses aeroplanos no Rio para desembarcar em Paris trs
dias depois!
  Aderbal alisava uma palha de cigarro, os olhos postos no genro.
  - E o que  que se ganha com todas essas coisas? - perguntou.
  - Que  que se ganha? Ora essa! Tempo.
  - Pra qu?
  Rodrigo ergueu-se, deu dois passos na direo do velho, como se fosse
agredi-lo fisicamente. Mas ps-lhe a mo no ombro, com brandura,
dizendo:
  - Olhe, respeito a sua opinio e a sua maneira de ser. Mas o mundo
marcha. O tempo das carretas se acabou. O progresso est a. J leu
alguma coisa sobre o telefone  sem fio?
  - Mais ou menos
  - Pois . Pode-se falar duma cidade para outra, dum continente para
outro, pelo ar, sem o auxlio de fios, graas a essa coisa maravilhosa
que se chama rdio.  Tudo  isso significa, seu Aderbal
  593
  que aos poucos o homem domina a natureza, melhora a sua vida,
tornando-a mais fcil, mais higinica, mais agradvel, mais... mais...
  - Atrapalhada - terminou o velho, tirando do bolso um naco de fumo em
rama.
  - Qual atrapalhada! Essa histria em falar no "tempo de dantes"  pura
conversa-fiada, puro romantismo. O mundo tem melhorado, ningum pode
negar. E vai melhorar  mais.
  Rodrigo no gostou da expresso gaiata que o velho tinha no rosto.
  - Que  que o senhor est achando to engraado? - perguntou, entre
divertido e irritado.
  -  que ningum ainda se lembrou de inventar uma droga pra curar a
maior doena da humanidade.
  - A tuberculose?
  - O velho sacudiu a cabea negativamente.
  - No. A estupidez.
  20
  Voltaram para a cidade na Quarta-Feira de Cinzas e trs dias depois
Rodrigo embarcou com Floriano para Porto Alegre.  hora da despedida o
menino estava plido  e  trmulo. Flora estreitou-o contra o peito, os
olhos embaciados.
  - No  nada, meu filho. O tempo passa depressa.
  Maria Valria fez uma rpida carcia na cabea do rapaz e disse:
  - V com Deus. E tenha juzo.
  O trem partiu  uma hora da tarde. Da janela do vago, os olhos
tristes de Floriano viram o casario da sua cidade perder-se por entre as
coxilhas que ficavam para  trs. A luz do sol era to intensa que
chegava a desbotar o azul do cu, onde grandes nuvens gordas estavam
imveis como os lerdos bois e vacas que  beira dos aramados  olhavam
placidamente o trem passar. O carro cheirava asperamente a poeira e
carvo-de-pedra. Ao passarem por uma
  charqueada, chegou at eles, num bafo quente, um cheiro ftido e ao
mesmo tempo adocicado.
  Rodrigo observava o filho disfaradamente. A expresso melanclica do
rosto do menino dava-lhe pena. Seu silncio preocupava-o. Decerto viu
tudo aquela tarde no  capo... e me odeia.
  Imaginou uma conversa. "Olhe aqui, Floriano, no devemos nunca julgar
as pessoas sem primeiro..." Sem primeiro... qu? Se o menino me viu, me
viu, no h mais  nada  a fazer. Pensou ento em dizer-lhe: "Todos os
homens tm defeitos. Sempre imaginamos que nossos pais so perfeitos,
mas infelizmente no so. O meu no era. Tinha  uma amsia e um filho
natural.  bom que saibas dessas coisas. Teu pai tambm no  santo, tem
muitos defeitos, grandes defeitos. Mas uma coisa quero que saibas.  Ele
 teu amigo. O teu melhor amigo. Haja o que houver, nunca te esqueas
disso".
  Podia dizer-lhe coisas assim... Mas perguntou apenas:
  - Queres o ltimo nmero do Eu Sei Tudo?
  Passava naquele momento o vendedor de revistas e jornais.
  - No, obrigado. Vou ler um livro.
  - Que livro?
  Floriano tirou da maleta uma brochura e mostrou-a ao pai. Contos, de
Edgar Pe. Rodrigo sorriu:
  - Quem foi que te recomendou isso?
  - Ningum.
  Ali estava a evidncia duma outra omisso sua. Esquecera-se de
orientar as leituras do filho.
  - Que outros autores tens lido?
  - Coelho Neto... Ea de Queirs... Zola.
  - Opa! Os realistas.
  Bateu de leve no joelho do menino.
  - Est bem. Um homem tem de saber tudo.
  Depois, na esperana de iniciar um dilogo amigo, perguntou:
  - Ests vendo esses campos? So da estncia do Juquinha Macedo.
  O rapaz lanou para fora um olhar indiferente. Abriu o livro, baixou a
cabea e comeou a ler. No h dvida, ele me odeia - pensou Rodrigo.
Desdobrou o jornal  que  comprara na estao. 
  594
  595
  Epitcio Pessoa - informava um telegrama do Rio - escrevera uma carta ao
ABC desmentindo a notcia, que esse semanrio publicara, de que o
ex-presidente da Repblica  era partidrio da anistia para os
revoltosos. Passou a outros tpicos. No havia nada importante. Notcias
do carnaval. As prximas eleies para a renovao da  Assemblia
estadual. Nenhuma informao sobre a Coluna Revolucionria, a no ser a
de que um forte destacamento do Rio Grande do Sul marchava pelo sul do
Paran  em perseguio aos rebeldes, para p-los entre dois fogos. Por
onde andaria Torbio? Vivo? Morto? Ferido? Asilado na Argentina? Olhou
para fora. Urubus voavam em  crculo sobre uma carnia. Dentro do carro
homens conversavam em voz alta e alegre. Um sujeito com aspecto de
caixeiro viajante, metido num guarda-p creme, com  um bonezinho de
alpaca na cabea, tomava com gosto seu chimarro.
  - Vamos baldear para o noturno em Santa Maria - disse Rodrigo.
  Absorto na leitura, Floriano no o ouviu.
  "Ele me odeia. Nem me olha. Preciso reconquistar meu filho." Soltou um
suspiro de impacincia. Ia ser uma viagem cacete. A poeira, fina e
avermelhada, entrava  pela  janela, de mistura com a fumaa da
locomotiva. Partculas de carvo caram sobre as pginas do livro de
Floriano, que as soprou. Numa curva, o trem diminuiu a marcha  e seu
apito longo, tremido e triste, ergueu-se sobre as coxilhas como um risco
sonoro no ar luminoso.
  Chegaram a Porto Alegre na manh seguinte. Rodrigo levou o filho para
o internato, pouco depois do almoo.
  Ficava o Albion College num calmo e verde vale, entre o Partenon e a
Glria. O edifcio principal do colgio fora antigamente a residncia
dum portugus ricao,  que mr. Campbell comprara e mandara adaptar s
necessidades de seu internato. Tivera, porm, o bom gosto de no
alterar-lhe a severa fachada colonial nem tocar na  velha fonte do
jardim,  frente do casaro, e no centro da qual um fauno de bronze, a
cabea erguida para o cu, tocava a sua flauta.
  O diretor do internato devia estar beirando os cinqenta. Era um
ingls alto e corpulento, de cara vermelha e carnuda e cabelos
grisalhos, ainda abundantes. Tinha  um ventre saliente que parecia
comear  altura do estmago, mas que ele conseguia manter erguido numa
postura atltica. E como suas coxas e pernas fossem desproporcionalmente
finas e o homem usasse calas muito justas, Rodrigo teve a impresso de
estar diante duma verso modernizada do mr. Micawber, de Dickens.
  - Minha mulher vive aqui comigo - disse ele a Rodrigo. - O Albion
College  uma casa de famlia. Tratamos todos os alunos como nossos
filhos.
  Falava portugus com fluncia, mas  maneira do ingls de Oxford, em
golfadas bruscas e sincopadas, como latidos. Isso - achava Rodrigo -
dava quele homem o ar  dum cachorro cordial, dum grande so-bernardo
prestimoso, com seu barrilzinho de genebra preso ao pescoo. Esta imagem
- como Rodrigo veio a descobrir mais tarde  - nada tinha de imprprio ou
gratuito, pois num dado momento em que o ingls lhe falou perto do
nariz, ele sentiu um forte hlito de usque.
  O "cachorro" tomou-lhe do brao e saiu a mostrar-lhes o internato.
  - Os quartos so individuais - explicou. - Isso no  quartel nem
hospital de caridade, what Nas aulas, no recreio, nos esportes, nas
horas das refeies, os  alunos  convivem uns com os outros. Mas h um
momento, meu caro doutor, que todos precisamos de intimidade, right?
  Rodrigo sacudiu a cabea, concordando. E enquanto Floriano, distrado,
olhava pela janela, os estudantes que jogavam futebol num campo situado
a um dos flancos  do  edifcio principal, mr. Campbell puxou Rodrigo
para um canto e murmurou:
  - No se preocupe, senhor. Durante o dia cansamos tanto os alunos com
jogos, estudos e passeios que  noite, na solido do quarto, eles no
tm tempo nem nimo  de  pensar em atos imorais.
  Levou o pai e o filho a verem o pomar, que, amplo e rico de frutas, ia
dos fundos do colgio at as faldas do morro da Polcia. Mostrou-lhes
depois o refeitrio  arejado, claro e limpo, onde no
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  597
  se via uma nica mosca. Passaram  cozinha, tambm imaculada e sem
cheiros. Percorreram as salas de aula, cujas carteiras recm-lustradas
recendiam a verniz.
  - Temos um esplndido corpo docente - disse mr. Campbell, quando
caminhavam no corredor, de volta ao escritrio. Citou nomes.
  Deixaram Floriano sentado na saleta de espera, vendo velhos nmeros de
revistas londrinas, e fecharam-se no gabinete do diretor. Rodrigo
acendeu um cigarro. O  cachorro  encheu de fumo o bojo do cachimbo.
  - S fumo longe dos meninos - explicou, riscando um fsforo. - Os
alunos esto proibidos de fumar. Bebidas alcolicas tambm no entram
nesta casa. - Piscou um  olho,  sorriu, acendeu o cachimbo e aduziu: -
Quer dizer, mrs. Campbell e eu bebemos mas in private, como se diz em
ingls, isto , nos nossos aposentos, see?
  Sentado atrs da escrivaninha, o so-bernardo preparou-se para
preencher a ficha de Floriano. Foi fazendo perguntas, a que Rodrigo
respondia. Nome por inteiro?  Idade?  Nomes dos pais? Religio?
  - Ah! Eu ia lhe perguntar qual  a norma do colgio quanto a esse
problema.
  O ingls pousou a caneta sobre a mesa e disse:
  - Mrs. Campbell e eu somos anglicanos, mas o colgio  rigorosamente
leigo. Cada aluno segue a sua religio, ou no segue nenhuma, se essa 
a vontade dos pais.  Aos domingos os protestantes vo a um templo
episcopal aqui perto. Tenho um professor que leva os alunos catlicos a
uma igreja, na Glria. Qual  a religio de  seu filho?
  - Catlica.
  - Perfeito. Quer que ele v  missa todos os domingos? Rodrigo sorriu:
  - Se ele quiser...
  - Tem mais alguma recomendao a fazer?
  - No. S lhe peo que faa de meu filho um homem.  um rapaz
ensimesmado e arredio. Puxe por ele, obrigue-o a fazer
  598
  esportes e amigos. Ah! Antes que me esquea, o ponto fraco do Floriano
 a matemtica.
  O cachorro bateu com a pata no ar:
  - Oh! O professor Schneider se encarrega disso. Apontou para a janela.
  - Est vendo aquele morro? Todos os sbados subimos at o pico... Mrs.
Campbell nos acompanha sempre,  uma grande alpinista. Ah! temos um bom
team de football,  e este ano esperamos derrotar o quadro do Colgio
Cruzeiro do Sul...
  Ao sarem encontraram a sra. Campbell a conversar com Floriano, que
parecia muito embaraado.
  - Meet Mr. Cambrra, darling- disse o diretor. - Doutor, esta  minha
senhora.
  Rodrigo apertou a mo duma mulher sem idade certa, de cabelos cor de
abbora e olhos azuis, nem bonita nem feia, nem gorda nem magra, nem
bem-feita nem malfeita.  Inglesa - resumiu ele para si mesmo. E
concluiu: numa noite de tempestade, numa casa deserta, sem outro
recurso, talvez servisse...
  - Roger, dearl - exclamou ela, dirigindo-se ao marido. - Veja como
este rapaz se parece com o pai.
  Passou a mo pelos cabelos de Floriano, que ficou com as orelhas cor
de lacre.
  Os Campbell deixaram pai e filho sozinhos na hora da despedida.
Ficaram ambos frente a frente. Quando Floriano ergueu o rosto para o
pai, havia um brilho lquido  em seus olhos.
  - Est bom, meu filho. Chegou a hora.
  Abraou o rapaz, e como este inesperadamente lhe beijasse a face,
Rodrigo comoveu-se quase a ponto de chorar. Fez meia-volta e se foi sem
olhar para trs. Disse  um rpido adeus aos Campbell e atravessou o
jardim com passos apressados. Uma menina loura, de seus treze anos,
brincava com a gua, sentada nas bordas da fonte.  Hlio!- murmurou ela
quando Rodrigo passou. "Boa tarde!" - disse ele, e continuou seu
caminho. Quem seria? Junto do porto parou e voltou-se. O sol parecia
incendiar  os cabelos da menina. Gritou-lhe:
  - Como  teu nome?
  599
  - Mary Lee.
  Rodrigo voltou para o automvel que o trouxera at ali, e disse ao
chofer que o levasse de volta ao hotel. Sentia o beijo do filho na face
esquerda, como um ponto  morno. Sim, a inglesa tinha razo. O rapaz
estava cada vez mais parecido com ele. Um Rodrigo em miniatura - pensou.
Mas s por fora. Por dentro era Terra. Parecido  com o velho Licurgo.
  Pensava nas dificuldades que o filho ia encontrar no internato, nos
primeiros dias, longe da famlia e no meio de estranhos. Havia tambm os
trotes dos colegas.  E a disciplina, a ginstica, as horas de nostalgia
e solido. Ah! mas tudo aquilo lhe ia fazer um grande bem.
  Veio-lhe uma sbita saudade de Flora e dos filhos. Prometeu a si mesmo
dedicar-se mais  sua gente, dali por diante. A famlia era o maior
tesouro que um homem  podia  possuir. Fora um nscio por ter-se afastado
tanto de Floriano. E agora a ausncia do rapaz no ia melhorar a
situao. Levou a mo  face. Ele no me odeia - pensou  com alegria.
Ele me ama.
  Comeou a assobiar o Loin du bai
  Naquela noite, sentindo-se solitrio, foi ao Clube dos Caadores. Mas
arrependeu-se. No encontrou l nenhum dos velhos companheiros.
Contaram-lhe que o Pudim  havia  sido recolhido ao hospcio ("Tambm,
doutor, o rapaz andava tomando cocana aos baldes!") e que o cabaretier
francs tinha deixado a cidade. Na sala de jogo viu  algumas caras
conhecidas, e l estava ainda, de piteira em punho, a mirar de longe a
mesa de bacar, o dr. Alfaro.
  - Mas que  feito dessa vida? Abraaram-se, trocaram-se breves
notcias pessoais.
  - Sempre firme no propsito de no jogar, doutor?
  - Firmo. Firmo.
  Na sala de danas havia uns tipos estranhos sentados s mesas. E umas
mulheres decotadas, pintadas com um exagero de palhao, fumando cigarro
em cima de cigarro.  Dois ou trs pederastas caminhavam requebrados por
entre as mesas, muito ntimos de todos.
  600
  Onde estava o baro? Tinha desaparecido duma hora para outra. E a
Zita, aquela hngara com cara de gatinha? Em So Paulo, por conta dum
miliardrio. E o Cabralo?  Ah, esse, coitado, andava nas ltimas.. E o
Treponema Plido? No sabia? Pois morreu em novembro de 23, naquele
tiroteio na frente do Grande Hotel.
  A orquestra estava aumentada, tinha um pisto estridente, um saxofone
rouco, uma bateria barulhenta. Tocava melodias de La scugniza e de A
dana das liblulas,  e  berrava uma infinidade de foxes, a cujo ritmo
aqueles mocinhos danavam o abominvel e ridculo passo de camelo.
  Positivamente, o Clube dos Caadores vulgarizava-se, baixava de
classe. Ou sont ls neiges d'antan? - perguntou Rodrigo, nostlgico.
Onde, aquelas grandes figuras  da poltica e do alto comrcio que
costumavam freqentar a casa, dando-lhe cor prpria, importncia e um
carter quase... sim, quase histrico?
  Para mal de pecados, uma romena com uma cara que era um verdadeiro
compndio de patologia mrbida, danou no palco um shimmy, sacudindo os
peitos cados e longos  como orelhas de perdigueiro. E um espanhol
travestido de mulher cantou canonetas picantes. Era a decadncia.
  Uma paraguaia loura -  raridade! - sentou-se  mesa de Rodrigo e quis
beber champanha. Ele lhe satisfez o desejo. Depois a mulher o convidou
para ir a seu quarto,  que ficava do outro lado da rua. Foi. E tambm se
arrependeu.
  Deixou a prostituta pouco depois da meia-noite. Estou ficando velho -
pensou, mas sem sinceridade, porque no estava convencido disso. - J
no acho mais graa  nessas  coisas... Decerto estou criando juzo.
  Voltou para o hotel, decidido a embarcar para Santa F na manh
seguinte.
  21
  Mal saltou do Tem na estao, Chiru Mena precipitou-se para ele e,
antes de abra-lo,  exclamou:
  601
  - A cidade foi invadida pelos baianos!
  Contou que um batalho da Polcia Militar da Bahia, que o governo
federal mandara ao Rio Grande para perseguir as foras revolucionrias,
estava aquartelado provisoriamente  na cidade.
  - E que mal h nisso, homem?
  - Andam por toda a parte, tomaram conta de tudo. Pra onde a gente se
vira avista um baiano.  mesmo que praga de gafanhoto.
  Rodrigo deu uma palmada nas costas do amigo:
  - Deixa de exagero, Chiru. Onde est o teu cavalheirismo? E a
tradicional hospitalidade gacha? Temos de tratar bem esses nossos
patrcios.
  - Mas  uma verdadeira ocupao!
  As opinies na cidade estavam divididas com relao aos visitantes.
Havia os que eram a favor, os que eram contra e os indiferentes. Os
bairristas no gostavam  do  ar que tomavam os oficiais, e os praas do
batalho forasteiro quando andavam pelas ruas, cafs e lojas, falando
alto, rindo, gesticulando e brincando, assim com  o ar - dizia o Cuca
Lopes - "de quem est fazendo pouco da gente da terra Um dos
Spielvogel, presidente da Associao Comercial, achava que a presena do
batalho  ia animar o comrcio -- Os senhores j calcularam a quanto
monta o soldo de toda essa gente? E j pensaram que boa parte desse
dinheiro vai Ticar na nossa comuna?"  Era, portanto, favorvel  idia
de dar um tratamento amistoso aos forasteiros.
  Num daqueles domingos, a banda de msica do batalho deu uma retreta
na praa da Matriz, debaixo da figueira, pois o coreto no era
suficientemente grande para  conter  todos os seus msicos. A praa
formigava de gente, as caladas transbordavam, muitos tinham de caminhar
pelo meio da rua. Os. bancos estavam todos tomados e havia  at gente
sentada na relva dos canteiros. Nas casas em derredor viam-se
espectadores, principalmente senhoras, debruados em todas as janelas.
Uma multido de curiosos  cercava a banda. Os msicos ostentavam o seu
uniforme escuro de gala, com botes dourados; e o carmesim da fita do
quepe, da gola da tnica e do debrum das calas  constituam notas
atraentes para aquele povo acostumado  monotonia do uniforme caqui da
banda militar
  602
  local. Tudo aquilo era novidade. "At o bombo  diferente!" -
proclamou um entusiasta.
  O largo se encheu de melodias alegres que - na opinio de Edu - o eco
"arremedava" atrs da igreja. Os santa-fezenses ouviram pela primeira
vez frevos pernambucanos  e uma quantidade de caterets e sambas at
ento desconhecidos deles. Quanto aos dobrados - ah! - "chega me correr
um frio na espinha", disse um filho da terra.  Quando a banda tocava
marchinhas ou sambas, as moas e rapazes que caminhavam pelas caladas
chegavam quase a danar. Gente havia, porm, que ou no gostava do
espetculo  ou, se gostava, era s por dentro, pois permanecia sria,
silenciosa, olhando tudo com um olho meio arisco. Fosse como fosse, os
santa-fezenses aplaudiam os msicos,  ao fim de cada pea, coisa que s
estavam habituados a fazer quando a banda local executava trechos
lricos ou o Hino Nacional.
  Dona Vanja assistiu  retreta da janela do Sobrado. Estava encantada
como uma criana diante dum carrossel.
  - No  mesmo um portento? - exclamou, voltando-se para dentro da casa
com um brilho juvenil nos olhos. - Olhem s os uniformes. Os msicos
parecem prncipes de  opereta!
  Maria Valria que, como Flora, se abstinha de aparecer  janela, pois
estavam ambas ainda de luto, retrucou:
  - Mas se essa baianada continua na terra, dentro de pouco tempo no
nos sobra nenhuma cozinheira, nenhuma criada de dentro... A Leocdia
arranjou um anspeada  mais  preto que ela.
  As donas de casa queixavam-se de que suas chinocas, mulatas e
"crioulas" viviam de "pito aceso", no faziam mais nada direito, s
pensando na hora de sarem para  a rua de braos dados com seus baianos,
ou de ficarem "de agarramentos" com eles nos portes
  ou cantos escuros.
  As mes redobravam inquietas a vigilncia das filhas solteiras. Se os
soldados buscavam as criadinhas ou espalhavam-se pelos bordis do Barro
Preto, do Purgatrio  e da Sibria, os sargentos preferiam as mocinhas
das chamadas "ruas de trs", enquanto os oficiais superiores voltavam
suas atenes e pretenses para as senhoritas  das melhores famlias,
que moravam nas ruas centrais.
  603
  Na primeira semana um coronel tratou casamento com uma solteirona
considerada irrecupervel. A Gioconda fisgou um major, que j lhe
freqentava a casa, provocando  falatrios, pois murmurava-se que o
homem era casado em Salvador e pai de cinco filhos. Naqueles primeiros
dias depois da chegada do batalho o comandante da guarnio  federal e
o intendente municipal tiveram de enfrentar srios problemas. Havia j
uma rivalidade surda entre os praas do Exrcito e os do Corpo Auxiliar
da Brigada  Militar. Agora a soldadesca da Bahia, muitas vezes
inadvertidamente, provocava conflitos com uns e outros. As noites eram
muitas vezes pontilhadas de tiros, e no  dia seguinte notcias corriam
pela cidade, como sempre exageradas.
  - Mataram um provisrio no Barro Preto.
  - Deram uma sova num baiano, na casa duma china.
  - Lastimaram um civil no Beco do Poo.
  - Houve um tiroteio num baile do Purgatrio: mataram um cabo do
Exrcito e feriram um sargento da polcia baiana.
  Os conflitos, porm, foram diminuindo,  medida que a vigilncia das
patrulhas do Exrcito aumentava e os baianos se impunham  simpatia dos
nativos. Eram extrovertidos,  tinham uma fala cantada e doce, uns ares
afetuosos.
  Muitos santa-fezenses entregaram-se por completo aos visitantes,
convidando-os s suas casas. Os mais casmurros e bairristas, porm,
resistiam, dizendo: "Ningum  sabe quem so..."
  Para surpresa de Rodrigo, Chiru revelou pruridos racistas:
  - Como  que eu vou levar esses negros pra dentro da minha casa, para
o seio da minha famlia?
  - Deixa de besteira - replicou Rodrigo. - Antes de mais nada, famlia
no tem seio. Depois, cretino, que mal faz uma pessoa ter um pouco de
sangue negro? Alm  disso,  existem nesse batalho dezenas de sujeitos
mais brancos que tu!
  -  uma pena - suspirou Neco Rosa, cnico - que a Bahia no nos tenha
mandado uma boa partida de mulatas...
  Mas a cause clebre da poca foi a questo dos oficiais do batalho
baiano com o Clube Comercial. Houve uma semana em que a pergunta mais
ouvida na cidade era  esta:  "Como  o negcio,
  604
  Fulano? Devemos ou no devemos deixar os baianos entrarem no
Comercial?" A diretoria do clube reuniu-se e, de portas fechadas,
discutiu o assunto durante quase  duas  horas, decidindo-se pela
negativa. "Que ao menos este reduto da nossa sociedade resista!" -
bravateou o secretrio.
  Um dia o batalho desfilou pelas ruas centrais de Santa F no seu
uniforme de gala. A banda de msica tocava dobrados marciais, rodeada e
seguida por um bando  de  moleques descalos, que procuravam acompanhar
o passo dos soldados. Quando a banda cessava de tocar, rufavam os
tambores, soavam as cometas. Mulheres debruavam-se  nas janelas,
corriam para as portas e portes, avanavam at o meio-fio da calada. E
ao sol daquele dia de fins de vero, refulgiam os instrumentos metlicos
da  banda, os botes dos dlms, as espadas e as baionetas. E era bonito
- todos concordavam - ver e ouvir centenas de ps com polainas brancas
batendo cadenciadamente  nas velhas pedras do calamento da rua do
Comrcio.
  Quica Ventura, que presenciava o desfile, apertando o cigarro entre os
dentes, murmurou:
  - Tm todos cara de bandido.
  Ao que Liroca, que estava perto, replicou:
  - Qual nada!  uma rapaziada linda. E depois, Quica, so nossos
patrcios, nossos irmos.
  Como nica resposta o outro cuspiu na calada. Mas teve de tirar o
chapu imediatamente, pois naquele momento passava o pavilho nacional
no ombro do tenente Antigenes  Coutinho. Era um jovem alto, de pele
"cor de jambo" (segundo dizia a Mariquinhas Matos, que jamais vira um
jambo em toda a sua vida). O que mais impressionava naquele  oficial de
vinte e seis anos, alm do contraste entre os olhos verdes e a face
tostada, era a voz mole e doce como mingau de baunilha. Era uma voz
cariciosa, que  logo sugeria intimidades. De toda a oficialidade do
batalho baiano, era o tenente Antigenes o mais popular entre as moas
de Santa F, muitas das quais o convidavam  para reunies e bailarecos.
E como algumas delas parecessem apaixonadas pelo garboso porta-bandeira,
era nele que se concentrava a malquerena e a m vontade dos
  605
  rapazes que, segundo a classificao do cronista social 'A Voz,
constituam a jeunesse dore de Santa F.
  O tenente Antigenes usava uniformes muito bem cortados, que lhe
modelavam o torso atltico. Caminhava sempre teso, o peito inflado.
Quando era apresentado a alguma  dama, inclinava-se de leve, fazia uma
continncia e batia os calcanhares. Quando, porm, estava dentro de
casa, numa festa, relaxava a postura militar, como que  se humanizava,
ficava logo ntimo da famlia, derramando sobre todos - mulheres, homens
e crianas - o melao de
  seu encanto.
  As prostitutas locais andavam tambm loucas por ele, e o jovem tenente
jamais as decepcionava. Depois das reunies familiares, em que passava
as horas sob o olhar  vigilante e inapelvel das mames e titias,
metia-se nas penses de mulheres em busca de outra espcie de diverso.
  Uma noite na Penso Veneza tirou a china dum capito do Corpo
Provisrio. O homem virou bicho, quis dar-lhe um tiro mas foi agarrado a
tempo. Chiru Mena, que se  encontrava  no bordel na hora o incidente,
conseguiu tirar o rapaz de l e lev-lo para o hotel. Ao despedir-se,
recomendou: "Daqui por diante olho vivo, tenente. O capito  
vingativo". Tinha ouvido o homem gritar: "Vou mandar dar uma sumanta
nesse mulato cafajeste".
  Uma noite em que o tenente Antigenes deixava a casa duma de suas
namoradas, na rua das Misses, dois indivduos vestidos  paisana se lhe
aproximaram pelas costas  e atiraram-se em cima dele, de rabo-de-tatu em
punho. O oficial recuou contra a parede e chegou a arrancar o revlver
do coldre. Recebeu, porm, uma pancada to  forte no pulso, que deixou
cair a arma. Depois, o mais que pde fazer foi proteger a cabea com
ambas as mos e pedir socorro.
  No dia seguinte Rodrigo contou a seguinte histria aos amigos:
  - Pois vejam como so as coisas... Eu saa do clube, depois
  dum poquerzinho, com uns amigos, e de repente, no sei por que
  cargas-d'gua, resolvi entrar na rua das Misses, em vez de seguir
  pela do Comrcio... Foi ento que vi a cena: dois paisanos surrando
  606
  um tenente da polcia baiana... Tirei o revlver, corri para o grupo e
gritei: "Parem, bandidos!" Um dos atacantes se virou para mim. No tive
dvida: prendi-lhe  fogo. Pei! O homem virou as costas e disparou... O
companheiro fez meno de tirar o revlver e eu atirei de novo, dessa
vez em cima dos ps dele. Foi um deus-nos-acuda.  Os bandidos se
despencaram rua abaixo, que nem veados. O tenente veio pra mim de braos
abertos e s faltou me beijar.
  Desde aquela noite o tenente Antigenes passou a freqentar o Sobrado.
Estava reconhecido a Rodrigo. Levava presentes para seu "salvador", para
Flora e para as  crianas.  Um dia entrou na cozinha e, sob o olhar
crtico da Maria Valria, ensinou  Laurinda como fazer vatap. De
quando em quando, sem motivo aparente, abraava o dono  da casa, que
ficava um pouco constrangido ante a beleza quase feminina do oficial.
  Ainda naquele ms de maro, um scio benemrito do Clube Comercial
resumiu para um amigo as vantagens que o batalho da polcia baiana
havia trazido para Santa  F.  As retretas continuavam, generosas e
alegres, divertindo e ilustrando o povo. O comrcio local, tanto o alto
como o baixo, vendia como nunca. As mais conhecidas  solteironas da
cidade haviam contratado casamento com majores e tenentes-coronis de
meia-idade. Alm disso os oficiais baianos revelavam um comportamento
exemplar.  Por que no convid-los a freqentar o clube?
  De novo reuniu-se em sesso especial a diretoria do Comercial, para
reexaminar o caso. Dessa vez Rodrigo compareceu ao debate e fez-se
advogado dos forasteiros.  Como a deciso final da diretoria tivesse
sido outra vez negativa, saiu furioso do clube, resolvido a fazer alguma
coisa para desagravar os baianos.
  Deu no Sobrado uma festa - a primeira depois da morte da filha - e
convidou todos os oficiais do batalho visitante. Serviulhes champanha e
deu-lhes de comer os  quitutes de Laurinda. Ergueu a taa num brinde 
Bahia, "bero glorioso da nacionalidade, terra do grande Rui Barbosa".
Um dos baianos, um coronel gordo e calvo,  respondeu com um discurso
torrencial e interminvel.
  607
  Flora s apareceu na sala no princpio da festa para cumprimentar os
convidados. Retirou-se depois para a cozinha, de onde ficou dirigindo as
negras que serviam  croquetes, pastis, empadas, sanduches e doces.
Maria Valria a intervalos vinha espiar os "estrangeiros" pela fresta
duma porta.
  Quando, depois da meia-noite, os convivas se retiraram, a velha se
acercou de Rodrigo e disse:
  - Se seu pai fosse vivo, no ia ficar nada alegre vendo tanto militar
junto na casa dele.
  - Ora, titia! Tambm no morro de amores pela farda. Mas o caso agora
 diferente. Eu precisava fazer alguma coisa para salvar o bom nome de
Santa F e do Rio  Grande,  e para dar uma lio de cavalheirismo
quelas bestas da diretoria do Comercial.
  Em princpio de abril o batalho partiu. Desfilou pelas ruas no seu
uniforme de campanha, ao som dum dobrado triste. Ao v-lo passar, muitas
mulheres tinham lgrimas  nos olhos. A plataforma da estao estava
atestada de gente. Ergueram-se vivas ao Brasil, ao Rio Grande e  Bahia.
Um jovem santa-fezense fez um discurso. O coronel  gordo respondeu,
falou demais e atrasou o trem um quarto de hora. Quando o comboio se ps
em movimento, a banda tocava uma valsa lenta, "dessas de rasgar o
corao",  como disse mais tarde uma costureirinha que ficara noiva dum
sargento natural de Feira de Santana. A locomotiva apitou e at o apito
pareceu um lamento de despedida.
  Naquele dia e nos que se seguiram, a cidade a muitos pareceu vazia. Os
irnicos diziam: "Por que o intendente no decreta luto municipal por
trs dias?" Os maldizentes  proclamavam que como resultado da "ocupao
baiana" houvera em Santa F dois casamentos legais, trs por contrato,
oito noivados, cinco defloramentos - isso para  no falar no grande
nmero de criadinhas que haviam ficado grvidas. "Viva o Brasil!" -
bradou um gaiato, ao ouvir essa estatstica.
  Na noite do dia da partida dos baianos, a Gioconda sentou-se ao piano
e tocou com muito sentimento noturnos de Chopin. No Sobrado, Maria
Valria fez uma observao  que deixou Rodrigo
  608
  pensativo: "Voc no acha que nas espingardas desses baianos j pode
estar a bala que vai lastimar o Bio?"
  22
  Uma tarde, em meados de abril, entraram pelo porto do Sobrado,
carregadas por caboclos descalos e suarentos, trs caixas de madeira
com o nome de Rodrigo pintado  nas tampas. Flora no sabia do que se
tratava, mas desconfiava que fosse mais uma das "encomendas" do marido.
  - Deixem os volumes no quintal, perto do poro - instruiu ela aos
carregadores.
  Maria Valria franziu o nariz fisicamente ao sentir o bodum dos
caboclos, e psicologicamente ao ver as caixas, nas quais farejava mais
uma "loucura" do sobrinho.
  - Que negcio  esse? - perguntou.
  - Ora, Dinda, so uns vinhos franceses e alemes, uns queijos, umas
conservas...
  - Ainda que mal pergunte, voc vai se estabelecer com casa de negcio?
  Ele sorriu mas nada disse. Gritou pelo Bento, que lavava o Ford no
fundo do quintal, e ordenou-lhe abrisse as caixas com a maior cautela. O
facttum obedeceu.
  Rodrigo segurava as garrafas que Bento lhe entregava, tirava-as com um
cuidado carinhoso de dentro de seus invlucros de palha, erguia-as no ar
contra a luz, os  olhos cintilantes. Eram vinhos brancos e tintos -
topzio e rubi! Ia enfileirando as garrafas no cho, contra a parede da
casa. Pegou uma delas e leu o rtulo em  voz alta: Liebfraumilch!
  Bento abriu a caixa que continha os queijos e as conservas. Rodrigo
acocorou-se junto dela, remexeu a palha com mos sfregas, e foi tirando
as latas - at de  foie  gras, sardinhas, anchovas, atum - estralando a
lngua, cheirando os queijos...
  Alou os olhos para o cu de outono - um polvilho azul remoto e
sereno. Pairava no ar uma leve bruma que o sol dourava.
  609
  Pela cidade as paineiras rebentavam em flores. E Flora - concluiu ele
- Flora ressuscitava, seu rosto ganhava cores, suas carnes se faziam de
novo apetitosas.  A  vida era boa. Deus era generoso. E ali estavam
aqueles vinhos - rubi e topzio!
  Convidou amigos para virem aquela noite ao Sobrado "beber o leite da
mulher amada e comer uns queijinhos".
  Alm da Velha Guarda, apareceram Stein, Bandeira e Carbone. Rodrigo
levou-os para o escritrio, a pea da casa mais apropriada para
"assuntos de honra".
  Chiru examinou uma garrafa de vinho branco e, olhando antes para os
lados, para se certificar de que no havia nenhuma dama presente,
murmurou:
  - Olha, Rodrigo, leite de mulher, amada ou no, eu bebo nos peitos
mesmo, e no em garrafa.
  - Sai, bagualo! - repeliu-o o dono da casa. - Sei que vais preferir
cerveja. Tu e o Neco so uns brbaros. Agora aqui o nosso dr. Carbone,
esse sabe apreciar  o  que  bom.
  O italiano sorriu, seus lbios dum vermelho mido apareceram sob os
bigodes castanhos. Encostou os dedos na boca, colheu nela um beijo
sonoro e depois atirou-o  no  ar com o gesto de quem solta um pssaro.
  - E tu, Bandeira? - perguntou o anfitrio, ao servir o vinho em longos
copos de forma cnica.
  - Que venha esse leite - murmurou tio Bicho, acomodado na sua
poltrona, a papada a esconder a borboleta da gravata, as faces j
coradas pelo vinho que tomara ao  jantar.
  Rodrigo voltou-se para Stein:
  - Que cara  essa, rapaz?
  - Decerto est preocupado com o destino do camarada Trtski - explicou
Bandeira, com um sorriso provocador. - A encrenca est armada na Unio
Sovitica. Papai  Lnin  morreu e agora os filhos disputam o direito de
primogenitura. O Aro esperava que Trtski fosse eleito secretrio-geral
do Partido, mas Stlin passou-lhe a perna...
  610
  Stein segurou o copo que lhe ofereciam, olhou para tio Bicho e disse:
  - Eles sabem o que fazem.
  O outro tomou um gole de vinho, degustou-o e deixou escapar um suspiro
de puro prazer.
  - Esto vendo? - disse. - Isso sim  disciplina partidria. Quando
Lnin estava vivo, o Aro achava que no havia outro para substitu-lo
seno Trtski, a maior  cabea do Partido, o melhor organizador, etc...
etc... etc... Agora engole e trata de digerir caladinho esse tal de
Stlin. E se amanh deportarem ou fuzilarem Trtski  o nosso comunista
aqui no soltar o menor pio.
  - No se trata de pessoas mas de princpios - replicou o judeu. E,
desconversando, perguntou ao dono da casa se havia lido as ltimas
notcias sobre as atividades  de Abd-el-Krim no Marrocos francs.
  Rodrigo, que andava de conviva em conviva, oferecendo fatias de
queijo, respondeu que no. Liroca, que at ento estivera a um canto,
conversando com Neco, aproximou-se  do marxista e disse:
  - Pouco me interessa esse turco.
  - rabe - corrigiu-o Stein.
  -  a mesma coisa. Mas... eu estava dizendo ao Neco...  o mais belo
feito militar da histria do Brasil. Maior que a retirada da Laguna ou
que a batalha de Tuiuti!  S comparvel s proezas de Anbal, Csar e
Napoleo.
  Referia-se - explicou -  marcha da Coluna Revolucionria de Prestes,
de So Lus das Misses at a foz do Iguau, onde finalmente se havia
reunido  Diviso  de  So Paulo.
  -- De acordo! - exclamou Rodrigo, abraando o amigo. - Vocs j
imaginaram o que  vencer duzentas lguas de serto, vejam bem, duzentas
lguas de terreno acidentado,  abrindo picadas pelo mato a machado e a
faco, atravessando rios, escalando montanhas... lanhados, esfarrapados,
sangrando, mas marchando sempre?
  - E perseguidos por quatro mil soldados do governo! - acrescentou Jos
Lrio.
  611
  - Sim, brigando todo o tempo... - Num repentino assomo de emoo
cvica, Rodrigo fez uma frase: - Marcando seu itinerrio glorioso com as
sepulturas dos companheiros  que tombavam no caminho.
  Liroca sacudiu a cabea num grave assentimento.
  - Muita gente boa foi ficando para trs - continuou Rodrigo -
companheiros de Prestes da primeira hora, tanto civis como militares...
Anbal Benvolo morreu no  ataque  ao Itaqui... Mrio Portela, outro
bravo, tombou na travessia do Pardo...
  Ergueu o clice e exclamou:
  - A Lus Carlos Prestes e aos seus heris!
  Neco, Chiru e Liroca levantaram imediatamente seus copos. Roque
Bandeira acompanhou-os, aps breve hesitao, mas sem muito entusiasmo.
Aro Stein, que se havia  sentado, permaneceu de cabea baixa.
  - E tu? - interpelou-o Rodrigo. - No nos acompanhas no brinde?
  Stein sacudiu a cabea, murmurando:
  - No seria sincero. No tenho entusiasmo por essa revoluo...
  - No digas uma barbaridade dessas!
  Todos, menos o judeu, tomaram um largo trago. Liroca lanou para o
rapaz um olhar torvo, como se estivesse diante dum caso teratolgico.
  - Que  que o senhor tem na cabea? -- perguntou. - Miolos ou bosta de
vaca?
  Chiru e Neco avanaram tambm sobre o anti-Prestes. Parecia que o
Sobrado ia ser teatro duma cena de linchamento. Tio Bicho continuava
sentado, a bebericar o seu  Liebfraumilch. Os outros falavam ao mesmo
tempo, querendo convencer o "renegado" de que aquela era a mais bela, a
mais nobre, a mais justa de todas as revolues.
  Carbone, que havia alguns minutos deixara o escritrio para ir
conversar na sala de visitas com l belle donne, voltou e quis saber de
que se tratava.
  612
  -  um fogrom - explicou Roque Bandeira. Depois, erguendo a voz,
pediu: - Deixem o homem explicar seu ponto de
  vista!
  Quando os outros se aquietaram, Stein falou.
  - Para principiar - disse - quero fazer uma pergunta. Contra quem 
essa revoluo do Isidoro e do Prestes?
  - Ora - respondeu Chiru - contra o Bernardes.
  - Quer dizer que, se o presidente da Repblica morresse de repente dum
colapso cardaco ou duma indigesto, os revolucionrios poderiam depor
as armas tranqilamente?
  Rodrigo interveio:
  - Est claro que no. O Bernardes simboliza um estado de coisas. Esse
movimento revolucionrio  um protesto contra a autoridade atrabiliria
do homem que representa  uma camorra poltica que quer perpetuar-se no
poder. Numa palavra, essa revoluo visa derrubar as oligarquias que nos
infelicitam!
  Stein coou a cabea, uma mecha fulva caiu-lhe sobre os olhos.
  - Est bem, est bem - disse. - Esses tenentes querem dar  sua
quartelada um carter antioligrquico. Magnfico!  uma causa simptica,
sem a menor dvida. Mas  acontece que esse objetivo no chega s razes
de nossos males. Sem uma mudana bsica em toda a nossa estrutura
econmica e social, jamais resolveremos os nossos  problemas.
  Rodrigo lanou-lhe um olhar enviesado:
  - No me venhas de Karl Marx em punho, que no te recebo.
  Stein sorriu amarelo, e por alguns instantes deu a impresso de que
considerava encerrada a discusso.
  De novo se encheram os copos. Carbone pediu um brinde especial ao
major Torbio Cambar. Rodrigo ficou comovido. A idia de que o irmo
estava entre os bravos  daquela  marcha pica enchia-o dum orgulho
embriagador. (Ou seria tambm efeito do vinho?) Um calor agradvel
subia-lhe ao rosto, animava-lhe a palavra, tornando-o duma cordialidade
derramada. Aproximou-se de Stein, acariciou-lhe a cabea e disse:
  613
  - Bebe, menino. A vida  curta.
  O outro, porm, no parecia participar daquele esprito leviano e
esportivo. Ps-se de p.
  - Por favor - suplicou - tratem de me compreender. No sou nenhum
esprito de contradio. Nenhum fantico. - Bateu na testa. - Tenho
cabea, tenho miolos, logo:  penso.
  - Esse  o teu mal - sorriu Bandeira. - Usas demais a cabea e de
menos o resto do corpo.
  O dono da casa desatou a rir:
  - Muito bem, Roque! Puseste o dedo no dodi dele. O que falta ao Stein
 amor. Vamos arranjar-lhe mulher.
  O rapaz arregaou os lbios num sorriso que mais parecia um ricto
canino. Chiru e Neco conversavam a um canto animadamente, e Carbone
voltara  companhia das damas.
  Alguns minutos depois Rodrigo tornou a interpelar Stein.
  - Qual  a soluo que ofereces para o problema nacional? Fala,
hebreu!
  - No sou to ingnuo ou to vaidoso a ponto de pensar que tenha no
bolso um remdio rpido, fcil e infalvel para nossos males. Mas de
algumas coisas tenho certeza  absoluta. Escutem. O povo, com sua
misteriosa sabedoria, seu instinto divinatrio, j sentiu que essa no 
a sua revoluo e por isso permanece aptico diante dela.  Por outro
lado, os revolucionrios, cegos aos fatores econmicos que do forma e
rumo  nossa vida poltica e social, investem romanticamente contra a
sua Bastilha,  em nome dum vago programa de "regenerao nacional". Seu
lema de "Abaixo as oligarquias!" tem um carter de improvisao
demaggica. Em suma, trata-se ainda duma  revoluo burguesa, cuja
vitria pouco ou nenhum bem traria para nossas massas rurais e urbanas e
para nosso incipiente proletariado.
  Liroca desenrolou e tornou a enrolar o cigarro apagado e, olhando de
vis para o judeu, perguntou:
  - Moo, onde  que o senhor aprende essas coisas? Tio Bicho
apressou-se a explicar:
  614
  - Ele l isso nos livros russos e alemes que recebe em tradues
espanholas. Anda to empapado de castelhanismos que no usa mais a
palavra campons e sim campesino.
  Stein voltou-se para o amigo e reagiu:
  - Para ti tudo  uma questo de palavras. Para mim pouco importa que
chamemos ao homem do campo campons, campesino ou campnio. O essencial
 libert-lo da misria,  da doena, do analfabetismo e da fome. Isso
sim  importante.
  Quando, uma hora depois Stein despediu-se do dono da casa, este lhe
tomou afetuosamente do brao:
  - Podes dizer o que quiseres, citar os autores que te vierem 
cachola, mas uma coisa no poders negar: a beleza dessa marcha, a
grandeza desses homens. Se tudo  se reduz a uma pura necessidade
econmica, como vocs marxistas afirmam, como se explica a dedicao e o
sacrifcio desses revolucionrios que no tm terras ou  fbricas a
defender, e que de seu hoje no possuem mais que a roupa do corpo, o
cavalo e as armas? No, meu caro Stein, existe algo mais que o fator
estmago e o  interesse de lucro. Nossos homens so capazes de lutar
desinteressadamente por um ideal, por um amigo, pela cor dum leno,
por... por... pelo seu penacho! Em 23 muito provisrio recrutado a
maneador, na hora do combate brigou como leo. Por qu? Por causa de
fatores econmicos? Por causa da plus-valia ou da ditadura do
proletariado? No! No fundo, o verdadeiro partido dum homem  seu
amor-prprio, o seu orgulho de macho.
  Stein nada disse. Limitou-se a sorrir e a estender a mo para o amigo,
dizendo:
  - Boa noite, doutor. Me desculpe se falei demais. Rodrigo estreitou-o
contra o peito.
  - Qual nada, Aro! Tu sabes que te quero bem. Nesta casa podes falar 
vontade. Tambm j vais, Roque? Boa noite, meu velho. Cuidado com a
escada. Liroca, bota  o  capote, que a noite est meio fria. Chiru e
Neco, vocs fiquem. No  um pedido:  uma ordem do major Rodrigo. -
Baixou a voz, olhou na direo da sala, de onde  vinham as vozes das
mulheres, e acrescentou: -
  615
  Estou pensando num programa... Me contaram que chegou uma uruguaia
macanuda pra Penso Veneza...
  23
  Nos ltimos dias de julho daquele ano, Rodrigo recebeu uma carta de
Terncio Prates, datada de Paris.
  Prezado amigo:
  Faz muito que ando pensando em escrever-te, mas fui deixando a carta
para depois, por uma razo ou outra. Seja como for, aqui estou para uma
prosa. H tanta coisa  a dizer, que nem sei por onde comear.
  Meu curso vai bem e me tem dado o privilgio de estar perto de grandes
mestres do pensamento contemporneo. Imagina, meu caro, um pio natural
do Rinco das Dores,  como eu, a respirar numa sala de conferncias o
mesmo ar que entra nos pulmes de homens como Alain e Bergsori!
  Durante todos esses anos tenho esperado em vo a tua visita.  uma
pena que no tenhas vindo, pois Paris se modifica dia a dia, e j no ,
pelo menos na superfcie,  o que era antes da Grande Guerra.
  De mim  sei dizer que estou escandalizado e at meio perturbado pelo
que vejo, ouo e leio. Tu conheces mais ou menos minhas ideias em
matria de poltica e moral.  Apesar de ter formado meu esprito dentro
deste sculo XX, considero-me um homem do sculo passado. Fui educado
segundo um conceito de vida individualista. Embora  no me encante nem
convena tudo quanto vem do Grande Sculo - pois sempre achei detestvel
seu cientificismo ateu e orgulhoso - participo de sua crena no
Progresso  e na evoluo lenta porm segura e inspirada das
instituies. Mas a verdade, meu caro amigo,  que estamos presenciando
um cataclismo social em toda a Europa, qui  no mundo inteiro. E Paris,
como crebro e corao da civilizao ocidental, no podia deixar de
estar no epicentro do terremoto. Os valores da sociedade estvel  do
sculo XIX caem por terra. A Guerra abalou e revolveu tudo.  o caos.
No h mais F, nem Moral, nem tica e nem mesmo
  616
  Esttica! O grande conflito armado deu um golpe talvez mortal na
sociedade dentro da qual os homens de nossa gerao nasceram, foram
educados, adquiriram seus  hbitos  e deram forma a seus sonhos. A
licenciosidade impera em todos os setores da vida e do pensamento. As
mulheres perdem o pudor, cantam canes bandalhas, danam danas
lbricas, desnudam-se em pblico, fumam, bebem, sim senhor, embriagam-se
como homens. Encontra-se em Paris, fazendo um sucesso delirante, uma
mulata norte-americana  que se exibe num destes cabars completamente
nua, apenas com uma tanga de banana.  o fim do mundo, Rodrigo. Uma
gerao como a nossa, que se alimentou de Schubert,  Schumann,
Beethoven, Chopin e outros grandes da msica universal tem de agentar
agora essa "coisa " cacofnica, barulhenta e negride que  jazz-band
(no sei se   assim que se escreve) e que Paris teve o mau gosto e a
infelicidade de importar dos Estados Unidos.
  A mocidade parece ter tomado o freio nos dentes e sado a apedrejar
homens e instituies, a rasgar e espezinhar velhas bandeiras
tradicionais, quebrar as vidraas  das academias. (Est claro que falo
no sentido figurado,..) Esses moos embriagam-se no s de lcool como
tambm de velocidade. Campeia no mundo a mania da pressa,  a paixo pelo
automvel, pelo avio, pelo telefone sem fio, em suma, por tudo que
represente vertigem e rapidez. E o mais trgico  que no sabem ainda
aonde querem  chegar. Est claro que apenas se atordoam. E a "gerao
das trincheiras " como j escreveu algum.
  Um dia destes tive a oportunidade de conversar com um jovem francs
que fez a Guerra, onde perdeu a mo esquerda. Disse-me que est
revoltado contra a tradio  humanista  que no soube preservar a paz do
mundo. Odeia, portanto, o academicismo, o conformismo e a tbua de
valores morais de seus maiores. Acha que s Ia sincrit, mais  toute Ia
sincrit pode salvar o mundo, se  que ainda h esperana de salvao.
Considera, por exemplo, Anatole France um farsante, um fariseu, um falso
homem de  letras.
  Pois , meu caro amigo, o que se v agora por aqui  uma literatura
pseudomoderna, que no consigo estimar nem ao menos entender. Os "novos"
decretaram a morte  de  homens como Victor Hugo, Taine, Renan e tantos
outros, para exaltar os Apollinaire, os Blaise Cendrars e os Cocteau.
  617
  E sabes a quem cabe, em boa parte, a culpa de tudo isso? A dois tipos
de mentalidade que esto procurando impor-se no mundo. A da Rssia, com
seu bolchevismo materialista  e iconoclasta, e a dos Estados Unidos, com
sua irreverncia esportiva e sua arrogncia de nouveauriche. Os
bolchevistas espalham seus agentes pelo mundo. Os americanos  nos mandam
esses pretos tocadores de jazz-band e detestveis fitas de cinema em que
essa mentalidade de aprs guerre  exaltada e embelezada. A Guerra
tornou a nao  de Wilson uma potncia de primeira categoria. A
prosperidade a est perdendo. S esfera, meu amigo, que aqui mesmo na
Frana, corao e crebro da latinidade, surja  a reao contra todos
esses abusos, exageros e imoralidades. Contra o atesmo russo e o
mercantilismo calvinista dos ianques ter de erguer-se a fora, moral e
histrica  da nossa Igreja.
  Rodrigo releu a carta em voz alta na presena de seus amigos, na
primeira oportunidade em que os viu reunidos. As reaes foram as mais
variadas. Terminada a leitura,  Neco Rosa perguntou:
  - Como  mesmo a histria da mulata que dana pelada?
  - Que belo espcime de reacionrio nos est saindo o dr. Terncio! -
exclamou tio Bicho.
  - Lgico! - apressou-se a dizer Aro Stein. - Com doze lguas de campo
povoadas, casas na cidade, aplices no Banco da Provncia, os Prates s
podem desejar a  continuao  da ordem social vigente.
  - E se essa coisa que ele chama de "latinidade" - ajuntou Bandeira - 
to forte, to boa, to cheia de cultura e tradio, como pode ser
abalada por um bando  de  negros americanos que batucam em tambores e
tocam saxofone? Ou por fitas de celulide vindas de Hollywood? Ou mesmo
por esses tais "agentes do bolchevismo"?...
  - O que ele no compreendeu - tornou Stein -  que se o edifcio da
burguesia comea a desmoronar  porque estava podre e abalado nos
alicerces. Naturalmente o  dr.  Terncio esperava que o jovem mutilado
de guerra continuasse a amar e admirar os que o mandaram para a
trincheira, para morrer na defesa dos banqueiros
  618
  internacionais, dos fabricantes de armamentos e das companhias de
petrleo...
  Rodrigo meteu a carta no bolso. Estava de certo modo lisonjeado.
Afinal de contas Terncio Prates jamais fora seu ntimo. Aquele desabafo
epistolar indicava, entre  outras coisas, que o homem o tinha em alta
considerao e procurava sua amizade.
  - E depois - observou tio Bicho - o dr. Terncio fala como se antes da
Guerra o mundo e principalmente Paris fossem um convento, um modelo de
decncia e austeridade.  Ns sabemos que a coisa no era absolutamente
assim. A esto todos esses romances de bulevar... e as estatsticas, as
crnicas policiais...
  - Espera, Roque! - interrompeu-o Rodrigo. - Mas h limites para tudo.
Se as mulheres soubessem o que esto perdendo aos olhos dos homens por
se despirem em pblico  ou se masculinizarem...
  - Isso! - apoiou-o Chiru. Costumava afirmar que um homem pode
freqentar um bordel e apesar disso continuar a ser um exemplar chefe de
famlia, como ele, pois  "uma  coisa nada tem a ver com a outra e o que
olhos no vem corao no sente". Afinal de contas, como muito bem
dizia Rodrigo, um homem precisa de mais de uma mulher.  - Isso! -
repetiu. - Tenho uma filha de treze anos e essas coisas todas me
assustam. Um dia destes peguei a menina olhando numa revista o retrato
dessa tal mulata  que dana nua... Como  mesmo o nome dela?
  - Josephine Baker.
  - Pois . Imaginem que exemplo!
  O Neco, porm, era solteiro e no suportava os moralistas.
  - Nada disso me assusta - disse. - Que venham essas modas e essas
mulatas. Quem no quiser usar elas que no use. Eu acho que Santa F j
comportava um bom cabar,  hein, Rodrigo?
  24
  Que Santa F se transformava, era coisa que se podia observar a olho
nu. Comeava a ter sua pequena indstria, graas, em grande
  619
  parte, aos descendentes de imigrantes alemes e italianos como os
Spielvogel, os Schultz, os Lunardi, os Kern e os Cervi, os quais, 
medida que prosperavam economicamente,  iam tambm construindo suas
casas de moradia na cidade e estavam j entrando nas zonas at ento
ocupadas apenas pelas famlias mais antigas e abastadas.
  O cl dos Teixeiras, que com a morte recente de seu chefe se havia
transformado num matriarcado, habitava um casaro acachapado e feio como
um quartel, com frente  para a praa Ipiranga. Nele reinava a viva,
dona Josefa, cercada de filhos, noras, genros e netos. Em princpios
daquele ano, Jos Kern inaugurara sua residncia  ao lado da manso dos
Teixeiras, com uma festa que teve quase um carter de Kerb e para a qual
convidou seus amigos de Santa F e de Nova Pomernia. Cantou-se,
danou-se,  comeu-se e bebeu-se com entusiasmo ruidoso, desde as sete da
noite at o amanhecer. No dia seguinte dona Josefa disse a uma amiga:
"No pude dormir a noite inteira.  Houve uma bacanal na casa nova, ao
lado da minha. Por sinal parece uma igreja, com aquelas torres... O que
 que a senhora me diz daqueles anezinhos de barro pintado  no jardim?
Pois ... Acho que temos de nos mudar. A nossa zona est sendo invadida
pela alemoada".
  Os Spielvogel enriqueciam no negcio de madeira. Com sua casa de
comrcio, o Schultz era o maior concorrente da Casa Sol, cujo
proprietrio, o Veiguinha, envolvia  a sua indolncia no manto
prestigioso da tradio. "A minha loja est como era no tempo do meu
av. No tenciono mudar nada. Que diabo! Temos que respeitar as coisas
do passado." Falava mal do Schultz, que ultimamente se metera no negcio
de mquinas agrrias. "Esse lambote quer abarcar o mundo com as pernas.
Um dia estoura."
  Marco Lunardi ampliara a padaria e a fbrica de massas. Ganhava
dinheiro, tinha casa prpria - um verdadeiro bolo de noiva com esttuas
sobre a platibanda, altos-relevos  na fachada, paisagens da Itlia
pintadas a leo nas paredes internas. Continuava, porm, a trabalhar
como um mouro e, descalo e metido num macaco de zuarte, era
frequentemente visto pelas ruas e estradas a dirigir um caminho
carregado de sacos e caixas.
  620
  Um dia o Quinca Ventura parou na frente do "palacete" do Lunardi e
disse ao amigo que o acompanhava: "O av desse gringo chegou aqui com
uma mo na frente e a  outra  atrs. Veja agora o estado do neto..."
  Havia muitos, porm, que observavam esses fenmenos dum ngulo
simptico: "Imaginem s... O primeiro Spielvogel que pisou neste
municpio chegou sem um tosto  no  bolso. Construiu um moinho d'gua,
plantou milho e feijo. Hoje os netos tm uma serraria a vapor e so os
madeireiros mais fortes da regio".
  Quando Jos Kern, retaco, rubicundo, rebentando de sade e vigor,
passava na rua no seu andar apressado, diziam:
  - Esse alemo vai longe. Comeou mascateando na colnia. Hoje  o
comerciante mais ativo da cidade. Tem um prestgio danado no interior do
municpio. Ainda acaba  deputado.
  Muitos desses santa-fezenses de origem alem ou italiana haviam j
conseguido fazer-se scios do Clube Comercial, vencendo certas
resistncias que se iam afrouxando   medida que a prosperidade
econmica dos "colonos" se refletia na maneira como andavam vestidos,
nas casas onde moravam e nos autos que possuam.
  O Jos Spielvogel tinha um Mercedes-Benz. Jos Kern adquirira um
Chevrolet. Entre os fazendeiros da cidade comeara o que se poderia
chamar "a guerra do automvel".  Cada qual queria ter o carro maior e
mais luxuoso. Na maioria dos casos no eram os chefes de famlia que
estimulavam essa competio, mas suas mulheres ou, melhor  ainda, suas
filhas. As meninas do coronel Prates tinham um Chrysler? As netas do
coronel Amaral compravam um Studebaker. Ah! As Teixeiras andavam num
Fiat dos grandes?  Um ms depois chegava um Buick, ltimo modelo, para
os Mar Mas cada um desses fazendeiros tinha tambm um "Ford dt igode",
pau para toda a obra, o nico carro capaz  de vencer aquelas estradas
medonhas, que os levavam da cidade s suas estncias.
  Aos domingos geralmente os membros de cada uma dessas famlias vestiam
as melhores roupas e saam a passear em seus carros, de tolda arriada.
Para os que passavam  certas horas dominicais debruados nas janelas de
suas casas, s o desfilar daqueles automveis era um divertimento. Os
carros em geral tinham um nico 
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  itinerrio: faziam a volta da praa da Matriz, desciam depois pela rua do
Comrcio, contornavam a praa Ipiranga e de novo voltavam pela mesma
rua. Repetiam isso dezenas de vezes, em marcha lenta.
  Existiam na cidade j trs automveis de aluguel. Os boleeiros de carros
puxados a cavalo olhavam para os choferes profissionais com um desprezo
mesclado de rancor.  Os primeiros vestiam-se ainda  maneira gacha:
bombachas, botas, chapus de abas largas, um leno ao redor do pescoo,
ao passo que os condutores de automveis  usavam roupas citadinas e um
quepe de tipo militar.
  - Bonzinho de veado - diziam os boleeiros.
  E divertiam-se quando o motor de um dos automveis enguiava, ou quando
um pneumtico se esvaziava. Boa parte da populao local, entretanto,
continuava a dar preferncia  aos carros de trao animal.
  No era essa, porm, a nica das rivalidades existentes em Santa F.
Havia a tradicional e infindvel desavena entre maragatos e pica-paus,
que continuava a separar  indivduos e famlias inteiras. E a competio
entre os clubes de futebol Charrua e Avante. O primeiro tinha como
presidente perptuo Jacques Meunier, o ex-marista  francs que casara com
uma das filhas do falecido coronel Cacique Fagundes. Era o Avante o
campeo crnico de Santa F, e como seus jogadores usassem camiseta
vermelha,  todos os maragatos se achavam na obrigao cvico-sentimental
de torcer por ele. Os pica-paus inclinavam-se para o Charrua, que -
azul, amarelo e preto - vivia sob  a asa protetora do coronel Lao
Madruga. As partidas que os clubes rivais jogavam eram sempre
acidentadas. Enquanto os jogadores disputavam a bola ou, esquecidos
desta, trocavam pontaps e fechadas, os torcedores nas arquibancadas se
engalfinhavam a sopapos e no raro a facadas e tiros.
  A rivalidade mais recente - que to bem caracterizava as transformaes
por que passava a cidade - surgira no campo da msica. A orquestra mais
antiga de Santa F,  que se revezava com o "terno" da banda militar nos
bailes do Comercial, era o Grupinho do Chico Meio-Quilo, um homnculo
baixo e gordo que tocava flauta. Tinha na  sua orquestra dois violes,
um violino, um 
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  cavaquinho e um contrabaixo. O conjunto especializara-se em valsas, tangos
argentinos, marchinhas e polcas. Tudo estava no melhor dos mundos para
Chico Meio-Quilo quando  um dia apareceu um forasteiro e organizou o
primeiro jazz-band de Santa F, com elementos da banda militar:
saxofone, pisto, clarineta, trombone. O organizador  encarregou-se da
bateria, em cujo bombo escreveu em letras negras Jazz Mim. (Era gaiato e
trocadilhista, o cafajeste! )
  A guerra comeou. Os jovens logo se entregaram ao conjunto moderno, ao
passo que os da velha guarda se mantiveram fiis  msica de Chico
Meio-Quilo. Os dois conjuntos  passaram a revezar-se nos bailes da
cidade. Dois partidos ento se formaram. Mas havia os trns-fugas:
elementos "passadistas" bandeavam-se para o lado do jazz, aderiam  ao
passo de camelo, ao one-step e ao fox - "senhores e senhoras de
meia-idade, que deviam dar-se o respeito", como comentavam os do grupo
conservador.
  Era porm no aspecto e no comportamento das mulheres que mais se
evidenciavam os sinais dos tempos. Agora muitas delas usavam ruge nas
faces, batom nos lbios e  algumas at bistre nas plpebras. Senhoras
casadas, de mais de quarenta anos, haviam cortado o cabelo  La garonne
e j se apresentavam com saias a meia canela  e vestidos de "cintura
perdida".
  Segundo os padres de Laurentina Quadros, josefa Teixeiia e outras
matronas de Santa F, uma moa verdadeiramente bonita tinha de ser gorda
e corada, numa palavra:  viosa. At h bem  pouco os homens gostavam das
fmeas de pernas grossas. Agora, porn, algumas mulheres faziam dieta,
queriam estreitar os quadris, diminuir o volume  dos seios, pois o ideal
feminino moderno eram as figurinhas esbeltas dos figurinos europeus.
Outro modelo se lhes apresentava, tentador: a estrela de cinema Clara
Bow. smbolo da moa "evoluda" e esportiva, danadora de charleston e
de shimmy, o tipo da boneca feita para andar de baratinha a grandes
velocidades.
  O cinema norte-americano havia desbancado definitivamente o europeu e
impunha a Santa F e ao mundo seus heris e heronas, sua moral e sua
esttica. Gioconda pintava  os olhos como Theda
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  Bara. Uma das Prates, com o auxlio do batom, transformava a boca num
corao,  maneira de Mae Murray.
  Muitas mocinhas santa-fezenses compravam e assinavam a Cena Muda e
algumas delas conheciam melhor os mexericos de Hollywood que os
municipais. E quase todas suspiravam  de amor pelo gal da moda, Rodolfo
Valentino. No princpio, os filmes de Hollywood tinham oferecido ao
mundo o tipo do heri ianque, esportivo nos trajos e nos gestos,  cheio
dum bom humor juvenil e ao mesmo tempo viril - sujeitos atlticos,
risonhos, geis de pernas e vigorosos de msculos. Eram os George Walsh,
os Douglas Fairbanks,  os Norman Kerty. Ah! Mas Valentino superara a
todos. Onde os outros empregavam os punhos, ele usava o seu olhar
magntico. Era moreno, romntico, sensual, lnguido  e latino. Ningum
sabia beijar como ele. Amara na tela mulheres como Nita Naldi, Agnes
Ayres e Pola Negri. (Diziam que com esta ltima o amor continuava fora
do  celulide, real e tempestuoso.)
  Mariquinhas Matos fundara o Clube das Admiradoras de Rodolfo Valentino,
que se reunia todas as quintas-feiras, ora na casa duma scia, ora na de
outra. Discutiam  os filmes em que aparecia o seu patrono, trocavam-se
fotografias com autgrafos do dolo, liam umas para as outras as cartas
que lhe escreviam.
  Os maldizentes - homens e mulheres despeitados - comentavam: "Os
artistas de cinema passam, mas a Gioconda fica. J era mocinha nos
tempos da Nordisk e da Cines,  quando escrevia cartas apaixonadas ao W.
Psilander e ao Emlio Ghione. Passou pelo Thomas Meighan e pelo Wallace
Reid. Agora est no Rodolfo Vaselina. Que resistncia!"
  Quando passaram no Cine Recreio A dama das camlias em verso
modernizada, com a Nazimova no papel de Margarida Gautier e Valentino no
de Armando Duval, o cinema  teve uma enchente to grande que a empresa
foi obrigada a exibir de novo o filme no dia seguinte, coisa que
raramente acontecia.
  Nos sermes dominicais o vigrio pregava contra o cinema americano. "Por
que no nos mandam mais fitas egzemplares como o Honrars tua mame?"'E
insinuava que toda  a imoralidade que se irradiava da Amrica do Norte
naquelas pelculas era o resultado
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  duma maquinao protestante com a finalidade de solapar os alicerces da
sociedade catlica do resto do mundo. E o reverendo Robert E. Dobson de
seu plpito replicava,  negando que Hollywood fosse o porta-voz do
protestantismo dos Estados Unidos. E ele prprio deblaterava,  sua
maneira vaga de palha e cinza, contra os excessos  e imoralidades da
vida moderna, invocando a trgica lio de Sodoma e Gomorra.
  O ltimo carnaval oferecera boa oportunidade para quem quisesse observar
at que ponto tinham mudado os costumes de Santa F. Durante o dia,
apareceram nas ruas  mascarados tristes e desenxabidos, como de costume.
Ao entardecer surgiram de todos os quadrantes da cidade os ranchos, uns
de "gente branca" e outros de "gente  de cor". Os primeiros eram em
geral sem graa nem ritmo. Os segundos exibiam as melhores balizas, as
melhores orquestras, canes e fantasias. Para no quebrar a  tradio,
o alfaiate Padilha travestiu-se de mulher, e saiu a passear pelas ruas
centrais num automvel de tolda arriada.
  A "melhor sociedade" se reservava para o baile  do Comercial. O da
Tera-Feira Gorda foi o mais memorvel de todos. Houve como sempre uma
competio nas fantasias  entre as moas das famlias mais ricas. Chamou
logo a ateno uma madame de Pompadour decotadssima (forasteira). Havia
odaliscas, baiaderas, hngaras, damas antigas;  apaches, tiroleses,
caipiras, ndios, domins de vrias cores; e os eternos pierrs. Um
funcionrio de banco ostentava um turbante de seda branca. Como Valentino em
O jovem raj. Um caixeiro de loja suava sob um albornoz. Como Valentino em
O sheik. Esmeralda - a quem um maldizente chamara "a adltera oficial
da cidade" - estava  fantasiada de baralho, e mostrava os joelhos, to
curta era a sua saia. Passou a noite a puxar dum lado para outro, como a
um boneco de pano, o manzanza do Pinto,  seu marido.
  A orquestra do Meio-Quilo desde o incio do baile foi repudiada pela
maioria, de sorte que o Jazz Mim berrou a noite inteira marchinhas,
sambas e choros nacionais,  para a alegria da velha guarda. A forasteira
(contou-se mais tarde num murmrio de escndalo) chegara a dar alguns
passos de shimmy ali em pleno salo do 
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  Comercial, sacudindo os peitos. Vrios rapazes tomaram bebedeiras de ter
e caram no soalho, em coma. Outros tomaram porres de champanha ou
chope. Travaram-se tambm  entre os homens as costumeiras e ferozes
batalhas de lana-perfume, em que cada qual procurava alvejar com o
esguicho de ter os olhos do adversrio, at tir-lo  fora de combate.
Houve entreveres, atracaes a sopapos, e um filho do Cervi teve o pulso
cortado pelos cacos dum tubo de lana-perfume que se partira no auge da
refrega.
  Mariquinhas Matos, porm, manteve a linha. Fantasiada de castel
medieval, danou de "par efetivo" com o novo fiscal de imposto de
consumo recm-chegado  terra.  Era um moo muito correto, de Belm do
Par. Trajava smoking e semi-escondia o rosto sob a meia-mscara preta.
Gioconda procurou exibir cultura. Assenava Para  Todos, deliciava-se
com os "almofadinhas" e as "melindrosas" desenhados por J. Carlos e
adorava as crnicas de lvaro Moreyra. Seu poeta predileto era Olegrio
Mariano  - declarou ela ao fiscal. J leu as Ultimas cigarras? O moo
no tinha lido.
  - Prefiro a poesia moderna, senhorita.
  - Ora, nem diga!
  O fiscal era exmio no passo de camelo. A propsito dum pierr
cor-de-rosa, que fazia piruetas no meio do salo, a Gioconda recitou ao
ouvido do par:
  Sob a pele de alvaiade Pierr tem alma tambm No compreende o que 
saudade Mas tem saudade de algum.
  Enlaando com a mo direita a cintura de Mariquinhas e com a esquerda
segurando o lana-perfume e irrigando com heliotrpio o longo pescoo da
moa, o paraense atacou  Olegrio Mariano e os outros poetas
passadistas. Eram os homens dum mundo que morria - disse. -
Convencionais, acadmicos, artificiais. A srta. Maria devia voltar-se
para as vozes novas e originais que se erguiam no Brasil e no resto do
mundo, na era dinmica e vertiginosa do rdio, do automvel e do avio!
  626
  A Gioconda sorria, encolhia-se, de olhos cerrados. Quando a msica parou
por um instante, o fiscal arrastou sua castel para a rea aberta do
clube, sentou-se com  ela a uma mesa, pediu cerveja e depois, com bolhas
de espuma no bigode de gal, recitou-lhe em meio do pandemnio um poema
de Oswald de Andrade.
  - Mas isso  loucura! - exclamou Mariquinhas Matos. - No tem metro, no
tem rima, no tem nexo!
  - Qual!  muito boa poesia - sorriu o moo, -  questo da gente se
habituar e nos desintoxicarmos do nosso olavobilaquismo.
  No fim da semana seguinte A Voz da Serra publicou um artigo do fiscal em
que ele tentava explicar o sentido do Modernismo. O promotor pblico, um
velhote natural  de So Paulo, e que dizia ter freqentado "a roda do
Bilac", tomou as dores do "passadismo" e respondeu ao artigo, num tom
entre irnico e agressivo. O paraense  treplicou no mesmo tom. Alguns
jovens da cidade que tinham o hbito da leitura solidarizaram-se com o
fiscal, ao passo que a maioria ficava do lado do promotor.
  O melhor comentrio sobre a polmica veio do Liroca. Quando lhe
explicaram do que se tratava, exclamou: "X gua!"
  "Santa F civiliza-se" - escreveu Amintas Camacho num de seus
editoriais. Falou nas modas, nas danas "deste nosso sculo dinmico e
trepidante", nos automveis  de modelo novo que chegavam  cidade.
"Ningum pode deter o carro do Progresso" - concluiu.
  - Fresco progresso - resmungou Stein. - Enquanto essas meninas ricas
botam dinheiro fora em vestidos, pinturas e automveis, os pobres do
Barro Preto, do Purgatrio  e da Sibria continuam na misria crnica. A
mortalidade infantil aumenta. A tuberculose se alastra.
  -  a vida - filosofou tio Bicho.
  - No - replicou Stein. -  a morte.
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  25
  Fazia mais de seis meses que Rodrigo no recebia notcias, quer diretas
quer indiretas do irmo. Assaltavam-no agora com freqncia acessos de
melancolia. Vinham-lhe  pensamentos ttricos. Imaginava Bio morto no
meio da selva, o rosto coberto de moscas, como o do cadver insepulto
que ele encontrara um dia abandonado no campo,  durante a campanha de
23. Uma noite sonhou que andava com o corpo de Bio nas costas, no meio
dum matagal,  procura dum lugar para enterr-lo, o que no conseguia,
porque o cho daquela selva escura era de pedra. No entanto, a marcha
tinha de continuar, o cheiro do morto se fazia cada vez mais ativo, as
moscas lhe enxameavam  ao redor do corpo, mas ele, Rodrigo, continuava a
andar e a buscar, porque se sentia no dever de sepultar o irmo que
misteriosamente era ao mesmo tempo seu pai  e seu filho...
  Acordou impressionado e passou o dia com aquela sensao de desastre.
  Havia momentos em que identificava Torbio com Alicinha e vinham-lhe
fantasias que em vo procurava esconjurar. Via o irmo cruzando o mato a
cavalo, levando a menina  na garupa... Ou ento ambos cados lado a
lado, apodrecendo na boca duma picada, devorados pelos urubus. Eram
imagens que com maior ou menor intensidade lhe ensombreciam  horas
inteiras.
  Duma feita lhe veio com tanta fora a certeza de que Torbio estava
morto, que, no podendo reprimir as lgrimas, saiu de casa
precipitadamente para que Flora e  Maria Valria no o vissem chorar.
Saiu a caminhar pelas ruas menos movimentadas, procurando evitar
conhecidos. Encontrou quem menos desejava: o sargento Sucupira.  Depois
de saud-lo com cordialidade patriarcal, o mdium olhou fixamente para
ele e murmurou:
  - O senhor est sendo seguido por algum...
  - No me diga nada! - gritou Rodrigo.
  E precipitou-se rua abaixo, em ritmo de fuga. As vezes, porm, passava
longos perodos de otimismo e at de entusiasmo. Pensava em Torbio,
imaginava-o na vanguarda  da
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  Coluna ao lado de Joo Alberto, barbudo e seminu, abrindo picadas a
faco... Sorria e murmurava: "Esse Bio  das arbias..." No raro lhe
vinha um vago sentimento  de culpa por no estar ao lado dele. Podia
parecer aos outros uma covardia ficar em casa, abrigado de agruras e
perigos, enquanto o outro Cambar macho arriscava  a vida naquela
marcha, que j agora comeava a assumir cores lendrias.
  Em vo procurava nos jornais notcias da Coluna Revolucionria. No
encontrava quase nada. O Correio do Povo, sob o ttulo morno de "O
movimento sedicioso", dedicava-lhe  quando muito quinze ou vinte linhas:
movimento de tropas no Estado, dissoluo de corpos auxiliares, e l de
quando em quando uma notcia direta da Coluna. A ltima  informava que,
depois de ter invadido o Paraguai em fins de agosto, os sediciosos
haviam tornado a entrar no Brasil pelo Mato Grosso, encetando uma marcha
na direo  de Gois, sempre perseguidos por tropas legalistas dez vezes
mais numerosas.
  Naquele princpio de primavera chegaram notcias a Rodrigo por
intermdio de amigos que simpatizavam com o movimento. Isidoro Dias
Lopes, por causa da idade avanada,  emigrara para a Argentina, de onde
continuaria trabalhando pela Revoluo. Comissionado em general, Miguel
Costa comandava a Coluna. Lus Carlos Prestes, agora coronel,  era chefe
do Estado-Maior. Mesmo de longe Rodrigo sentia, como milhares de outros
brasileiros, a personalidade magntica do capito-engenheiro do batalho
de Santo  ngelo. Ningum dizia ou escrevia "a Coluna Miguel Costa", mas
sim "a Coluna Prestes".
  Um dia algum perguntou a Rodrigo:
  - Que  que quer essa gente?
  A resposta veio pronta e inflamada:
  - Manter aceso o facho da Revoluo. Galvanizar a opinio pblica.
Esbofetear com essa marcha pica a cara desavergonhada desta nao de
eunucos!
  Irritava-se ao saber que os revolucionrios eram recebidos a bala pelas
populaes das vilas e cidades de Mato Grosso por onde passavam.
  629
  -  o cmulo! - vociferava. - Essa gente ento no compreende que a
Coluna Prestes est lutando por ela,  a sua nica esperana de
libertao? Pobre pas!
  - O povo no merece o sacrifcio - sentenciou Liroca, que estava num de
seus dias de descrena cvica.
  Em princpios de outubro Rodrigo jogava pquer uma noite no Comercial
com o Calgembrino, o Juquinha Macedo e o promotor pblico, quando o
Quica Ventura, que vinha  do telgrafo, lhes deu a notcia de que o
general Honrio Lemes, que tinha invadido o Estado havia poucos dias com
um grupo de revolucionrios, fora derrotado e  aprisionado com toda a
sua oficialidade pelas foras do deputado Flores da Cunha.
  Rodrigo atirou as cartas na mesa, ergueu os olhos para o Quica e pediu
pormenores.
  - A coisa se deu no Passo da Conceio. Da gente do Honrio, quem no
morreu a bala se atirou no rio e morreu afogado. Eu sabia que isso tinha
de acontecer. O velho,  desde que voltou do Uruguai, quando no andava
correndo, se enfurnava no Ca-
  vera...
  Rodrigo soltou um suspiro. Mexeu com calma aparente o caf que o
empregado do bufete acabava de lhe servir, e tomou um gole com ar
distrado.
  - Mais um dolo que se vai... - murmurou o promotor. Rodrigo sacudiu
lentamente a cabea, penalizado.
  - Que necessidade tinha o general Honrio de se meter nessa histria, se
no estava preparado? Que esperava fazer com seu grupinho? Com que apoio
contava?  uma  lstima...
  O promotor referiu-se ento, em tom apocalptico, aos desastres
nacionais dos ltimos meses. A Coluna Prestes embrenhada no interior de
Mato Grosso... ou Gois,  no se sabia ao certo - sempre perseguida
pelos legalistas e hostilizada pelas populaes civis das zonas que
cruzava. Em setembro a Conveno Nacional escolhera  como candidato
oficial  presidncia da Repblica o dr. Washington Lus, homem do
agrado de Bernardes.
  630
  Rodrigo rapou com a colherinha o acar que ficara no fundo da xcara e
lambeu-a.
  - Somos todos uns capados - disse o Calgembrino, apertando o cigarro
entre os dentinhos enegrecidos. - O Bernardes montou a cavalo no pas,
governou com estado de  stio, fez gato e sapato do Exrcito, no se
afrouxou prs revolucionrios, vai terminar o quatrinio de cabea
erguida e ainda por cima nos impinge um candidato!
  - Pior que isso - aduziu o promotor, brincando com o baralho. - Vai
conseguir reformar a Constituio de 1891 a seu bel-prazer, dando mais
fora ao governo da Unio  para oprimir os Estados e restringir as
garantias individuais, e tirando da alada do jri o julgamento de
crimes polticos. Vocs j imaginaram o poder com que,  daqui por
diante, ficar o chefe da nao? Estive lendo o projeto de reforma. O
presidente ter a faculdade de rever, aceitar ou rejeitar em parte ou no
todo o oramento  da Repblica!
  - E a reforma vai ser aprovada... - vaticinou Rodrigo. - Na Cmara e no
Senado, com pouqussimas excees, so todos uns sabujos... O pas est
ablico. A oposio  nem vai apresentar candidato.  o fim de tudo.
  O promotor continuou a enumerao dos horrores do bernardismo. Conhecia
muito bem o assunto, conversara no Rio com pessoa muito ligada  polcia
celerada do marechal  Fontoura. Bernardes enchera todos os presdios com
seus inimigos polticos: a ilha Rasa, a ilha Grande, a ilha da Trindade
estavam superlotadas. E o supremo requinte  era mandar os "criminosos
polticos" para as regies desertas e insalubres da Clevelndia - nome
que adquirira uma conotao sinistra - e l nesse fim de mundo o  menor
dos males que podiam acontecer ao prisioneiro era ser atacado de
impaludismo.
  O promotor olhou para os lados, inclinou-se sobre a mesa na direo de
Rodrigo e, baixando a voz, disse:
  - Vocs naturalmente leram nos jornais a verso do "suicdio" do Conrado
Niemeyer... Suicdio coisa nenhuma! Assassnio. Sei de fonte segura que
o homem foi atirado  pela janela pelos esbirros do chefe de polcia.
Agora me digam, aonde vamos parar?
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  Rodrigo ergueu-se. Era preciso fazer alguma coisa para sacudir o pas.
Mas com que recursos humanos? Em torno de quem? Onde? Como?
  - Mais uma mo de pquer? - convidou o Calgembrino.
  - No. Vou-me embora. Boa noite.
  26
  s vezes parava diante do espelho, buscava cabelos brancos, arrancava
com uma pina os poucos que encontrava, examinava os olhos, punha a
lngua de fora, passava  a ponta dos dedos pelas faces, tirava
concluses, dava-se conselhos, fazia-se promessas.
  Olhos injetados... cara de bbedo ou de bandido. Lngua saburrosa, gosto
amargo... Fgado. Hesitava entre as plulas que Camerino lhe receitava e
os chs de sabugueirinho-do-campo  da Dinda.
  Preciso deixar de beber. Tenho de fazer uma dieta rigorosa. (Comeo na
segunda-feira.) Estou j com excesso de peso.
  Traava um rgido programa de vida. Levantaria da cama s sete da manh,
faria ginstica de acordo com O meu sistema, de Miiller, uma brochura
que o tenente Rubim  lhe dera em priscas eras. (Por onde andaria aquela
alma napolenica?) Aboliria a sesta. E as massas. E as sobremesas.
  Era tambm com alguma freqncia que se plantava na frente do prprio
retrato, na sala de visitas, admirando-se como num espelho mgico que
lhe refletisse no a  imagem daquele momento, mas a de 1910.
  Andava agora preocupado com o problema da idade. "Ano que vem, entro nos
quarenta: o princpio do declive..." A idia lhe causava uma sensao
desagradvel.
  Sentia necessidade de encher a vida com algo de belo e grande e no
apenas com aquelas satisfaezinhas e glorolas cotidianas e municipais.
Vivia num burgo parado  e triste. O diabo era que no havia descoberto
ainda o que queria. Talvez necessitasse mesmo
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  dum grande amor, desses que fazem um homem consumir-se como uma sara
ardente.
  Um dia, quando se abandonava a esses devaneios, ouviu a voz de Eduardo,
vinda do andar superior, e de repente tomou conscincia, dolorosamente,
da alienao em que  nos ltimos tempos vivia com relao aos prprios
filhos. Entregava a Flora e Maria Valria a tarefa no s de educ-los
como tambm de conviver com eles. Como resultado  disso, estava
adquirindo a condio de "hspede" dentro de sua prpria casa.
  Veio-lhe ento nesse dia um acesso de ternura temperado de remorso. Saiu
para a rua, entrou na Casa Schultz, comprou brinquedos mecnicos para
Jango, Eduardo, Bibi,  Zeca e Slvia, voltou para casa carregado de
pacotes e projetos paternais, distribuiu presentes, com abraos e
beijos, chamou Jango para um canto e puxou conversa  sobre o Angico.
  - Por que o vov Babalo vendeu o zaino-perneira que era da Alicinha? -
perguntou o menino.
  Rodrigo ficou surpreendido e sensibilizado. No sabia de nada. Vov
Aderbal tinha feito mal em vender o animal de estimao da falecida sem
consult-lo. Jango fez  outras perguntas. Por que no inventavam uma
marca mais bonita "para o nosso gado"? Por exemplo, um estribo com uma
cruz no meio...
  - Vou pensar nisso - respondeu Rodrigo, srio.
  - Papai, por que  que no temos um banheiro de carrapaticida mais
grande? - tornou a indagar o menino.
  - Maior - corrigiu-o o pai.
  Agora lhe ocorria que andava alienado tambm dos assuntos da estncia.
Atirara toda a responsabilidade da administrao do Angico para as
costas do sogro e para  isso lhe dera carta branca. Achava a situao a
um tempo conveniente e constrangedora. Fosse como fosse, o velho, que
administrara to mal seus prprios negcios,  a ponto de ir  bancarrota
total, agora se revelava competentssimo na capatazia do Angico.
  Rodrigo dedicou os minutos que se seguiram a Eduardo que, ento com
quase oito anos, tinha perdido o aspecto de touro xucro. Havia crescido,
estava enxuto de carnes,  desdentado e muito 
  633
  palrador. Sua amizade com Zeca continuava, mas tomara um rumo diferente. As
lutas corporais eram menos constantes, embora as discrepncias de
opinio continuassem.  Viviam discutindo: futebol, fitas de Tom Mix,
histrias do Tico-Tico, tipos de automvel... Quando a polmica
esquentava, Edu procurava suplementar o discurso com  o gesto - e as
palavras como que se lhe amontoavam na boca, atropelando-se, cada qual
querendo sair primeiro, e como resultado disso o menino gaguejava,
furioso  por no poder exprimir-se melhor. Como ltimo recurso, voltava
as costas ao interlocutor e afastava-se, pisando duro.
  - Venha c, meu filho.
  Eduardo aproximou-se. Rodrigo f-lo montar no prprio joelho, e, movendo
a perna para dar a impresso de um cavalo a corcovear, exclamou:
  - Upa, upa, cavalinho!
  O menino teve uma reao inesperada. Deixou-se ficar de corpo rgido, as
mos cadas, e lanou para o pai um olhar, misto de estranheza e
censura. Rodrigo, desconcertado,  fez cessar o movimento da perna.
Criou-se entre ambos uma atmosfera de gelo. Era como se a criana
estivesse a pensar: "Que negcio  esse? Por que duma hora pra  outra
descobriu que sou seu filho?"
  Rodrigo fez Eduardo "apear do cavalo", deu-lhe uma palmada leve nas
ndegas e disse:
  - V brincar. - Voltou-se para Bibi, que sentada no soalho lidava com um
macaquinho mecnico:
  - Quem  a filha mais querida do papai?
  Nesse momento percebeu que o olhar crtico de Maria Valria estava
focado nele. Teve a desagradvel impresso de ter sido apanhado numa
mentira. Quem salvou a situao  foi Slvia, que se acercou dele,
enlaou-lhe o pescoo com os bracinhos magros e beijou-lhe as faces.
  Rodrigo andava tambm preocupado com suas relaes com Flora. Havia
entre ambos algo que o intrigava e que ele no saberia definir com
preciso. Duma coisa tinha  certeza absoluta. Flora no demonstrava mais
para com ele o carinho de outrora.
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  Ao casar-se, era pouco mais que uma menina, tanto de corpo como de
esprito. Adquirira, ao entrar na casa dos trinta, uma esplndida
maturidade fsica, mas (essa  era a impresso de Rodrigo) fora a morte
da filha que lhe dera uma completa maturidade espiritual.
  Era hoje uma criatura de aparncia repousada. Depois dum prolongado
luto, interessava-se de novo por vestidos. Havia pouco chegara a pedir
ao marido permisso para  cortar o cabelo. Rodrigo - sinceramente
chocado pelo inesperado pedido - debatera-se ento entre o desejo de
mostrar-se simptico e dizer sim, e o impulsq de gritar:  "Minha mulher
de cabelos cortados como qualquer dessas piguanchas modernas? Ah! Isso 
que no!" Dera uma resposta evasiva: "Pois tu  que resolves, meu bem,
os  cabelos so teus". Flora sorrira, dera de ombros, e conservara os
cabelos compridos.
  A idia de que a esposa o adorava sempre lhe fizera um grande bem. A
suspeita de que agora ela pudesse ter deixado de am-lo inquietava-o e
chegava quase a exasper-lo.
  Flora j no era a mulher de antes, mesmo tendo-se em vista que jamais
fora uma amante ardente. Alm do velho pudor, da relutncia em
desnudar-se ou mesmo em demonstrar  que fazia aquilo por prazer - agora
ela tomava uma atitude que Rodrigo no podia nem queria compreender.
Ficava numa imobilidade de esttua, no fazia um gesto voluntrio,  no
dizia uma palavra. Obedecia apenas, mas como quem cumpre uma obrigao a
um tempo grotesca e srdida.
  E Rodrigo, que jamais estivera com outra mulher sem ouvir dela um elogio
 sua virilidade e  sua habilidade como amante, exasperava-se.
  Mais de uma vez tentara discutir claramente o assunto, mas Flora
gelava-o sempre com um olhar ou uma palavra, fugindo a qualquer
verbalizao do problema.
  No mais, era a esposa perfeita. Solcita, sensata, boa companheira e - o
que era raro nas pessoas dum modo geral - dotada de um humor
inaltervel, dum comportamento  regular.
  Via-se que os filhos a amavam. As criadas a respeitavam. Maria Valria,
que no princpio a hostilizara, fizera com ela, j havia anos,
  635
  uma enterite cordiais que - apesar da diferena de idade entre ambas -
aos poucos se transformara numa dessas amizades em que o entendimento
mtuo  de tal modo  completo, que s vezes dispensa o uso de palavras.
  Por mais que buscasse uma explicao para a atitude da mulher, Rodrigo
s encontrava uma: ela sabia de suas aventuras amorosas.
  O bom senso realista da mulher era outra coisa que de certo modo o
irritava. Flora encarava a vida e o mundo com o esprito prtico de dona
Laurentina. Por outro  lado, tinha para com as pessoas, os animais e as
coisas uma ternura que no devia ter herdado da me, mas do velho
Aderbal.
  Mais duma vez,  hora das refeies, quando ele fazia uma observao
qualquer, percebia uma troca de olhares entre a mulher e a tia, como se
ambas se dissessem:  "Conhecemos bem essa bisca". Isso no o agradava. A
verdade, porm, era que naqueles anos de vida matrimonial Flora, com sua
intuio feminina, aprendera a conhec-lo  de tal modo, que era como se
ele fosse transparente. Sabia quando ele mentia ou quando escondia
pensamentos ou sentimentos. O que Rodrigo sentia ao ver-se "descoberto"
no era nada lisonjeiro para seu amor-prprio. Procurava ento
justificar-se perante si mesmo, dizendo-se: "Est bem. Sou como uma casa
de vidro.  o que a gente  ganha por no ser hipcrita ou dissimulador
como tantos que andam por a". Mas a sensao de inferioridade diante de
Flora e Maria Valria continuava, e era tanto  mais forte quanto mais
ele pensava na sua superioridade cultural sobre ambas as mulheres.
  Um dia em que o sogro lhe veio falar sobre umas reformas que introduzira
no sistema de trabalho do Angico - alterando uns "modernismos"
institudos pelo Bio - Rodrigo,  que no andava de muito boa veia,
refletiu: "No mando mais nada na minha estncia". E como visse Flora e
Maria Valria a moverem-se no Sobrado como rainhas, mandando  e
desmandando, sem dependerem de sua aprovao ou de seu conselho, pensou:
Tambm no mando nada na minha casa. E meio em tom de brincadeira e meio
a srio, num  amuo que achava pueril mas nem por isso menos legtimo,
  636
  chegou  concluso que secretamente desejava: "No h mais lugar para
mim nem aqui nem no Angico. Logo, posso me ausentar numa longa viagem".
  E de novo pensou em ir a Paris. Mas no foi. Porque o sogro, interpelado
sobre se havia dinheiro disponvel no momento, respondeu que "a coisa no
anda l pra que  se diga".
  27
  Floriano escrevia todas as semanas. Rodrigo notara, despeitado, que o
rapaz quase sempre dirigia suas cartas  me ou  Dinda, raramente a
ele. Isso o levou a reflexes  amargas. Seria que o velho Licurgo tinha
razo quando afirmava que os filhos deviam ser educados  maneira
antiga, mais no temor que no amor dos pais? "Trato meu  filho como se
fosse meu irmo e no entanto ele no me estima."
  Lembrou-se da cena do capo... Mesmo assim no compreendia a atitude do
rapaz para com ele. "No amei menos o meu pai por saber que ele era
amante da Ismlia Car."
  Um dia, porm, chegou uma carta de Floriano dirigida a ele: "Estimado
Pai..."Por que no querido pai? O rapaz comeava ordinariamente suas
cartas com um "Minha muito  querida Me". Bom. A coisa era assim desde
que o mundo era mundo. Os filhos sempre foram mais apegados s mes.
  Rodrigo assumiu perante si mesmo (e ao mesmo tempo se considerou um
pouco farsante por isso) a atitude de mrtir.  o que mereo. Bem feito!
  Dentro dele, porm, vozes gritavam que no! que no! Ele no merecia
aquele tratamento. Adorava os filhos. Era capaz de todos os sacrifcios
por eles!
  A carta encheu-o de orgulho. O estilo do rapaz melhorava dia a dia,
tomando uma colorao literria cada vez mais acentuada. Floriano
contava incidentes da vida  colegial e era com um certo humor  Dickens
que descrevia os professores, seus cacoetes, indumentria, cheiros e tom
de voz.
  637
  Rodrigo levou a carta  casa de dona Revocata Assuno, que a leu,
sorrindo.
  - Eu no lhe disse que o rapaz tem veia literria? Uma bela carta. Mas
quando escrever a ele, diga-lhe que "vem de aparecer"  galicismo. E
como vo as notas?
  - Excelentes. Nos primeiros meses, a senhora se lembra, o Floriano me
tirou o terceiro e o quarto lugar na classe. Mandei dizer: "Precisas
honrar o nome dos Cambars.  Quero que daqui por diante tires sempre o
primeiro lugar, custe o que custar". Ele prometeu e tem cumprido. Uma
pena  que as notas de matemtica no sejam to altas  como as outras...
  - Faa-o advogado - disse a mestra.
  -  uma boa sugesto.
  Ao despedir-se, dona Revocata manifestou sua indignao ante o caso
noticiado pelos jornais de que um professor norte-americano fora
processado e levado a jri pelo  governo de seu Estado por ter ensinado
a evoluo em sua escola, numa pequena cidade do sul dos Estados Unidos.
  - Como v - concluiu ela - os protestantes no so mais tolerantes nem
mais avanados que os catlicos.  o eterno cr ou morre. Imagine -
disse em voz alta, como  que falando para uma classe - mentir a essas
pobres crianas que Deus fez o mundo e tudo quanto nele h em seis dias
e descansou no stimo, tendo tirado Eva duma  costela de Ado!
  Rodrigo sorriu.
  - Cuidado, dona Revocata. Se a senhora ensinar aos seus alunos que o
homem descende dos macacos, vamos ter barulho.
  O pince-nezda professora relampejou a um movimento brusco de sua cabea.
  - Se se meterem com a minha vida, arraso-os.
  Floriano voltou para casa em meados de dezembro. Tinha feito excelentes
exames. Rodrigo achou-o no s mais alto, e j com um jeito de homem,
como tambm um pouco  mais desembaraado. Maria Valria examinou-o da
cabea aos ps, fazendo perguntas. Gente direita no internato? Boa
comida? Por que tanta
  638
  brilhantina no cabelo? E que idia tinha sido aquela de viajar de trem
com roupa domingueira, tomando toda a poeira da estrada?
  Pegou uma escova e comeou a escovar o rapaz com uma eficincia
agressiva. Flora olhava para o filho e sorria. Achava-o engraadssimo
naquelas calas compridas.  Parecia mesmo um "pinto caludo", como
dissera a Dinda. Que idade ingrata! Havia naquele menino de quinze anos,
de cara pintada de espinhas e buo cerrado, um desengonamento  a um
tempo cmico e comovedor. Uma permanente expresso de acanhamento
tocava-lhe os olhos, que jamais se fixavam frontalmente no interlocutor.
E a voz, Santo Deus!  Agora bartono, segundos depois tenor ou contralto
- parecia uma torneira da qual jorrasse alternadamente gua quente,
morna e gelada.
  Floriano no sabia onde botar as mos, apoiava todo o peso do corpo ora
numa perna ora noutra. Parecia no saber como tratar os irmos. No
primeiro momento procedeu  como se fosse um estranho, um visitante de
cerimnia naquela casa. Eduardo e Jango o miravam como a um bicho raro,
pois o mano mais velho tinha vindo sozinho de  trem, de Porto Alegre e,
alm disso, falava ingls. E quando o rapaz, s para fazer alguma coisa,
passou a mo pela cabea de Bibi, numa tmida carcia, a menina
encolheu-se e comeou a choramingar.
  Floriano saiu a andar por toda a casa, olhando sala por sala, como quem
mata saudades. Flora notou, sensibilizada, que o rapaz parava diante da
porta do quarto da  irm morta, hesitava por um instante e depois
continuava seu caminho, sem entrar. Subiu mais tarde para a gua-furtada
e l ficou fechado um tempo.
  Tiveram um Natal festivo. Rodrigo mandou armar no centro do quintal um
pinheiro da altura dos pessegueiros maiores. Pendurou nele uma
quantidade de rtilos enfeites  de estanhol e vidro - esferas, cones,
estrelas, flores... Para iluminar a rvore, em vez de velas empregou
lmpadas eltricas de muitas cores.
  Convidou meio mundo para a festa. Alm do peru recheado da Laurinda e
duma grande quantidade de empadas, pastis e doces, havia sobre as
mesas, no quintal, travessas  cheias de passas de figo,
  639
  de uva e de pssego, nozes, castanhas, amndoas e avels. E como se tudo
isso no bastasse, o anfitrio encarregou o Bento de preparar um
churrasco de carne de ovelha.
  Era uma noite morna e estrelada, de ar parado. Os jasminsdo-cabo
temperavam o ar com a sacarina de sua fragrncia. Vagalumes piscavam por
entre as rvores. Um deles  pousou na cabea da mulher do pastor
metodista e ali ficou a brilhar como um diamante num diadema. O
reverendo Dobson sorriu, contou  esposa o que se passava, e
acrescentou: "Don't move, dear. You look like a queen". E ambos
continuaram a beber a sua limonada.
  Um gaiteiro trazido do Angico tocava toadas campeiras. Maria Valria,
como um almirante na ponte de comando da nau capitania, fiscalizava o
quintal, da janela dos  fundos do casaro, dando ordens s negras e
chinocas que serviam os convidados.
  Sentada a uma mesa na companhia do juiz de comarca, dona Revocata comeu
com muita dignidade uma costela de ovelha. Respingos de farinha
pontilhavam o narigo do  Liroca, que no afastava o olhar de Maria
Valria.
  Jlio Schnitzler surgiu, na sua fantasia de Papai Noel, mas no fez o
sucesso dos anos anteriores. Jango nem mesmo sorriu ao v-lo entrar pelo
porto, com o saco  de brinquedos s costas, e soltando as suas
gargalhadas estentreas. Eduardo e Zeca trocaram cochichos: sabiam j da
grande mistificao e nem sequer procuravam  disfarar. S Bibi e Slvia
ainda se impressionaram um pouco com o espetculo.
  Chiru Mena desafiou o gaiteiro para trovar e, cercados de convivas,
ficaram ambos uma hora inteira a improvisar, sob aplausos e risadas.
  Stein passeava inquieto sob os pessegueiros. Tio Bicho no se afastou um
minuto do barril de chope. Carbone trinchou o peru com habilidade
cirrgica e Santuzza serviu-o  com sabedoria administrativa.
  O Gabriel da farmcia excedeu-se na cerveja, ficou sentimental, abraou
Rodrigo, choramingando que queria voltar a ser empregado dele, porque a
farmcia j no era  a mesma dos velhos tempos... "Est bem, Gabriel,
est bem..." - murmurava o ex-
  640
  patro, batendo nas costas do prtico, que desatou a chorar, suplicando:
"Doutor, no me abandone. Eu sou seu filho!"
  Um caf forte sem acar pr Gabriel - pediu Rodrigo
  a Flora, que passava naquele momento. E entregou o rapaz aos cuidados da
mulher.
  28
  Rodrigo passou janeiro, fevereiro e parte de maro no Angico com toda a
famlia. Foram meses de bom tempo excepcional, com amplos cus, lmpidos
e rtilos. Um calor  seco que comeava por volta das dez da manh
atingia seu auge entre meio-dia e trs da tarde, mas depois se ia
atenuando at esvair-se em noites frescas ou tpidas,  pontilhadas de
estrelas, grilos e vaga-lumes.
  Tornou a encontrar um certo prazer na vida do campo. Saa para as
invernadas em companhia do sogro, antes de nascer o sol, laava, dirigia
a peonada no aparte do  gado e mais de uma vez teve discusses - rpidas
e cordiais - com o velho Aderbal, a propsito de assuntos de trabalho.
Dormia sestas mais curtas, comia moderadamente,  lia muito e conseguira
at terminar dois artigos polticos que tencionava mandar para o Correio
do Povo.
  A Antoninha Car, que se casara, havia pouco, com um posteiro da
estncia dos Fagundes, tinha abandonado definitivamente o Angico.
Rodrigo fez mais de uma visita  nostlgica ao capo da Jacutinga.
Deitava-se ao p da rvore onde a cabocla costumava esper-lo e ali se
quedava a ruminar os muitos prazeres que ela lhe dera, e  a esperar vaga
e absurdamente o aparecimento duma outra mulher... Com as mos tranadas
contra a nuca, ficava a escutar o canto dos pssaros e a gritaria dos
bugios.  Observava, divertido, as piruetas que estes faziam, saltando de
galho em galho nas altas rvores.
  E como as outras chinocas da estncia, por sujas ou feias, lhe fossem
intragveis, Rodrigo pde dar-se ao luxo da monogamia. Retemperava-se ao
sol do Angico, limpava  os pulmes e a mente - achava ele - respirando
aquele ar puro e verde. Tostava a pele,
  641
  afinava a cintura, perdia a papada incipiente, recuperava a confiana em
si mesmo. Era outro homem.
   tardinha levava as crianas para o banho na sanga. Era nessas horas
que sentia mais que em qualquer outra a falta do irmo. Tinha, s vezes,
a impresso perfeita  de ouvir a voz do Bio ou os bufidos que ele
costumava soltar quando emergia dum mergulho no poo. Curioso: o mundo
sem Bio no s lhe parecia menos divertido como  tambm menos seguro.
  Por onde andaria aquela alma? Por que sertes, canhadas, desertos ou
serras? Ferido? Prisioneiro? Vivo? Morto? Lanava essas perguntas mudas
para o cu da tardinha.  As crianas espadanavam na gua ou gritavam sob
a cascatinha. Os cavalos e petios que os haviam trazido at ali
pastavam em calma  beira da sanga.
  Os jornais mais recentes que haviam chegado ao Angico noticiavam que a
Coluna estava agora no Piau, e que Prestes tinha sido promovido a
general. Mais de mil e  duzentas lguas de marcha! Era incrvel...
  Quando os Cambars voltaram para a cidade, os jornais davam como certa a
vitria de Washington Lus.
  - O pas est narcotizado! - disse Rodrigo a Roque Bandeira e Aro
Stein, que haviam almoado no Sobrado aquele dia. - A oposio nem
sequer apresentou candidato.  Enrolou a bandeira. Ensarilhou as armas.
Entregou-se ao mineiro!
  Eram quase duas da tarde e os trs amigos conversavam na praa,  sombra
da figueira.
  - E o pior - observou tio Bicho -  que ningum est interessado em
votar. Dizem que houve uma absteno enorme em todo o territrio
nacional.
  Rodrigo abriu os jornais que Bento trouxera, havia pouco, da estao.
Correu os olhos por todas as pginas e por fim exclamou:
  - Nenhuma notcia sobre a Coluna Prestes! Que  que vocs me dizem a
isso?
  Roque Bandeira sorriu. Estava em mangas de camisa, sem gravata, e de
colarinho aberto. Respirava com dificuldade, dando uma impresso de
empanturramento.
  642
  - Digo que essa  uma maneira mgica de destruir os revolucionrios:
ignorar a existncia deles.
  - Atitude tpica da burguesia -- interveio Stein, mordendo um talo de
grama. - Mete a cabea na areia para no ver o perigo, para no
enfrentar a realidade.
  Rodrigo contou que estava pensando em escrever um artigo sobre Lus
Carlos Prestes, intitulado "A gnese dum heri".
  - Vejam esse fenmeno milagroso. Os jornais se calam mas existe neste
imenso pas uma vasta, misteriosa rede de comunicaes que veicula as
notcias.  por meio  dessa rede que se divulgam as proezas do general
Prestes e de sua "Coluna fantasma". E uma espcie de jornal contra -o
qual nada pode a lei de imprensa do Bernardes.  E vocs sabem que o povo
nunca se engana...
  Tio Bicho sacudiu a cabeorra:
  - Isso  poesia, dr. Rodrigo. No h quem se engane mais que o povo.
Essa histria de vox populi, vox Dei  uma peta.
  Rodrigo voltou-se para Stein:
  -  impossvel que neste ponto no concordes comigo, Aro! O povo
conhece instintivamente o que  verdadeiro e bom.
  A fronte alta e branca do judeu pregueava-se em rugas de preocupao.
  - O povo pode enganar-se a curto prazo - disse ele, depois de breve
reflexo. - Mas a longo prazo sempre acerta.
  - Ests ouvindo? - exclamou Rodrigo, voltando-se para Bandeira, que
estava agora escarrapachado no banco. -  isso que eu quero dizer. E o
povo j pressentiu que  o Prestes  um novo heri que surge.  por isso
que lhe deram o cognome de "Cavaleiro da Esperana".
  - Novo heri? - repetiu Stein. - O senhor quer dizer "novo mito".
  - No me interessa a palavra. Mito, heri, lenda, seja o que for...
  Rodrigo encontrava-se de p diante do banco em que os dois rapazes
estavam sentados. Um sol intenso iluminava a praa, as sombras eram
manchas dum azul violceo  sobre o cho cor de sangue de boi.
  643
  - O Brasil  um pas sem heris. Esta  a tese do meu artigo. Os que
temos esto mortos fisiolgica e psicologicamente, vocs compreendem? Na
histria da humanidade  vemos heris que funcionam e heris que no
funcionam. Como exemplo dos que funcionam, para no sair do continente
americano, mencionarei Lincoln, Jurez e Zapata.  H neles uma seiva
vital que a morte e o tempo no conseguiram destruir. So citados,
queridos e imitados como se ainda estivessem vivos...
  Tio Bicho coava o peito, olhando sempre para Rodrigo com seus olhos
empapuados e sonolentos.
  - Agora vejam os nossos heris - continuou o senhor do Sobrado. -
Tiradentes... No passa dum tema escolar. A monotonia, a falta de
colorido dramtico de nossos  livros didticos mataram a figura do
inconfidente, empanaram o smbolo. Tomem o duque de Caxias... era um
homem austero, um ilustre militar, um estadista, etctera  e tal... Mas
como  possvel admirar ou amar um heri "fabricado"? A est! Nossos
heris so construdos, feitos sob medida, quando o verdadeiro heri tem
que brotar  espontaneamente do cho nativo, compreendem? Deste solo
prodigioso que  a alma do povo... do... da... vocs sabem o que eu
quero dizer... Tem de ser a consubstanciao,  a personificao dum
anseio popular. - Sorriu e perguntou: - Estou j em tom de discurso, no
estou? De vez em quando o deputado ressurge dentro de mim.
  - Devem ser as energias adquiridas no Angico - observou Bandeira,
sorridente.
  E Stein, muito srio:
  - Num sistema socialista como o da Rssia sovitica, o heri no 
necessariamente o guerreiro e muito menos o general ou o fazedor de
discursos. O heri  no s  o homem do povo que morreu pela Causa, como
tambm o que se distingue dia a dia no trabalho das fbricas ou das
granjas coletivas.
  - Besteira! - replicou tio Bicho. - Queiram ou no queiram, o heri de
vocs comunistas  o Lnin.
  - Mas deixemos a Rssia - pediu Rodrigo, erguendo o brao. - Vamos falar
de homens e coisas que esto mais perto de ns. Este pobre pas
desmoralizado estava precisando  dum heri.
  644
  No podemos continuar falando nas glrias da Guerra do Paraguai. 
ridculo. Vivemos numa mediocracia. Temos tido homens de coragem, de
caracu, como o Epitcio e  o prprio Bernardes, no nego. Mas no Brasil
ningum pode ser heri e ao mesmo tempo inquilino do Palcio do Catete.
Faltou a esses dois homens a aura romntica  da oposio ou a aurola do
martrio...
  - Lincoln foi presidente dos Estados Unidos... - lembrou Bandeira.
  - Sim, mas Lincoln de certa maneira era da oposio. Opunha-se 
escravatura e  secesso. No te esqueas de que ele foi assassinado. E,
que eu saiba, no mandou  ningum para a Clevelndia. ,
  - H outra coisa que agora me ocorre - aduziu Rodrigo. - Um povo
anglo-saxnico como o dos Estados Unidos no podia deixar de ter um
dolo que fosse uma mistura  de sbio, pastor protestante e humorista.
J essa castelhanada do resto da Amrica precisa de heris a cavalo,
como Bolvar, San Martin e outros. Creio que  muito  difcil encontrar
nessas republiquetas hispano-americanas esttuas de heris que no sejam
eqestres...
  - Conhecem a histria do cavalo de Zapata? - perguntou Bandeira. -
Contam que quando o caudilho mexicano foi assassinado, seu cavalo branco
conseguiu fugir para  as montanhas, transformando-se num mito, numa
espcie de smbolo imortal da idia revolucionria.
  - A est! Cada povo tem o heri que merece. O nosso tem de ser como
Prestes, uma mescla de guerreiro e taumaturgo. Um dia um peo do Angico
me perguntou: "Doutor,   verdade que esse tal de Prestes fura
montanha?" Ouvi gente do povo dizer que o homenzinho tem o corpo fechado
pra bala. J se contam dele histrias fantsticas  e absurdas, mas que
do uma medida de sua popularidade, que dia a dia aumenta...
  - E a barba que ele deixou crescer, de certo modo ajuda a lenda... -
observou tio Bicho.
  - Mas a coisa no pra a. Se para as massas Prestes oferece, talvez
involuntariamente, essa face de taumaturgo (o devorador de distncias, o
furador de montanhas,  o homem que est em cinco
  645
  lugares ao mesmo tempo), para as elites ele apresenta outra face
igualmente portentosa: a do homem de coragem e carter, o matemtico, o
lgico, o incorruptvel.
  - E o que comove e impressiona muita gente - diz Bandeira -  o carter
de "causa perdida" que tem a sua revoluo.
  - Isso! - exclamou Rodrigo. - E o prestgio do martrio. Vocs conhecem
pgina mais bela que essa da nossa histria? Uma coluna de mil homens
escassos, maltrapilhos  e mal-armados, tenta acordar o gigante
adormecido!
  - Mas o gigante continua deitado em bero esplndido... - observou
Bandeira.
  - Esplndido? Os soldados da Coluna esto sentindo na prpria carne que
o bero tem muitos pontos em que no  nada esplndido: serras e
boqueires e matagais medonhos,  zonas em que imperam a seca, o
impaludismo, o mal de Chagas, a fome, o banditismo... Prestes  o novo
Pedro lvares Cabral: est descobrindo o Brasil, meninos! Que  grande
aprendizado para todos esses bravos tenentes que esto com ele: o Joo
Alberto, o Juarez Tvora, o Cordeiro de Farias, o Siqueira Campos!...
Deus queira que  nenhum morra. Porque um dia espero v-los anistiados e
de volta s suas unidades. Podero ainda fazer muita coisa por este povo
desgraado!
  Tio Bicho abafou um bocejo.
  - Vai dormir, vagabundo! - exclamou Rodrigo. - Porque eu tambm vou.
  Stein, que ficara todo o tempo calado e pensativo, fez uma observao
atrasada.
  - Sim, cada povo tem o heri que merece. A Itlia s podia ter um heri
de pera.
  - pera-bufa - acrescentou Bandeira.
  - No me falem no Mussolini! - bradou Rodrigo. - No princpio simpatizei
com o gringo, mas desde que esse canalha mandou matar o Matteotti e
dissolveu os partidos  polticos cortei relaes com ele.
  Tio Bicho ergueu-se.
  - Eu gosto da maneira como o dr. Rodrigo fala no Mussolini - disse -
como se o Duce fosse um chefe poltico de Palmeira.
  646
  - Pois olha, Roque. Se o Mussolini fosse intendente de Palmeira ou
Soledade, a esta hora j tinham passado a faca nesse patife. E era bem
feito! At logo. Vou sestear.
  E saiu num marche-marche na direo do Sobrado.
  29
  Aquele - 1926 - foi um ano significativo na vida de Rodrigo Cambar. "O
nosso amigo voltou a ser o que era" - observou um dia o velho Jos
Lrio. "E o Sobrado est  de novo como nos velhos tempos." Tinha razo.
No havia quem no considerasse um privilgio entrar no casaro dos
Cambars, privar com seus moradores, beber os vinhos  de sua adega e
provar os quitutes de sua cozinha. Sempre que um forasteiro de certa
importncia chegava a Sanca F, a primeira pergunta que se fazia sobre
ele era:  "J foi ao Sobrado?"
  Rodrigo andava eufrico, cheio de belos projetos. Seus artigos apareciam
no Correio do Povo. Lia muitos livros, em geral de maneira incompleta,
mas apesar disso  discutia-os com os amigos como se tivesse penetrado
neles profundamente. Apanhava no ar as coisas que outros diziam e
depois, com imaginao e audcia, dava-lhes  novas roupagens e usava-as
como suas na primeira oportunidade. Roque Bandeira, que observava o
amigo com olho terno mas lcido, costumava dizer em segredo a Stein  que
Rodrigo possua a melhor "cultura de oitiva" de que ele tinha notcia.
De resto, no seria esse um hbito bem brasileiro? O que havia entre
nossos escritores,  artistas e polticos - afirmava - no era
propriamente cultura, mas um tnue verniz de ilustrao. O brasileiro
jamais tinha coragem de dizer "no sei". Em caso  de dvida, respondia
com um "depende", que no s o livrava da necessidade de confessar a
prpria ignorncia como tambm lhe dava tempo para achar uma sada.
  Foi tambm naquele ano que Rodrigo se sentiu tomado do desejo de
realizar grandes coisas. Um dia, da janela da gua-furtada do Sobrado,
contemplou as ruas e telhados  de Santa F e murmurou para si mesmo:
"Preciso ajudar minha terra e minha gente". E
  647
  uma voz apagada dentro dele ciciou, maliciosa: "E a mim mesmo". Mas de
que modo? No se sentia com disposio de entrar na Intendncia, subir
ao gabinete de Zeca  Prates e dizer: "Meu amigo, tenho umas idias sobre
o nosso municpio e quero colaborar contigo". Sua inteno podia ser mal
interpretada. E, de resto, seria um  gesto intil. Depois de eleito, o
irmo de Terncio cara na rotina. Murmurava-se - e devia ser verdade -
que era manobrado pelo Lao Madruga, como um ttere. As  finanas
municipais viviam num estado crnico de insolvncia. Por esse lado,
portanto, nada se podia fazer.
  s vezes Rodrigo perguntava-se a si mesmo se o melhor no seria atirar
mais longe a lana da ambio, fazendo-a passar as fronteiras do
municpio e do Estado. Conclua  que a maneira mais eficaz de melhorar
Santa F era melhorar o Brasil. Pensava ento numa deputao federal.
Mas por que partido? Sentia-se no ar, sem ligaes polticas.
  Vinham-lhe ento impacincias. A revoluo estava perdida. Washington
Lus eleito e reconhecido. O pas teria provavelmente de agentar mais
quatro anos de estado  de stio, com a imprensa amordaada, os presdios
cheios de prisioneiros polticos e o povo acovardado ou indiferente.
  Em princpios de junho daquele ano, Washington Lus visitou Porto
Alegre, onde recebeu as homenagens do governo do Estado. O trem especial
que o levou de volta a  So Paulo parou por meia hora na estao de
Santa F, onde a oficialidade da guarnio federal, o intendente
municipal e o que A Voz da Serra costumava chamar de  "outras pessoas
gradas" esperavam o presidente eleito. A plataforma estava atestada de
curiosos. Ouviram-se alguns vivas um pouco frios. Liroca, Neco e Chiru
l  estavam no meio da multido, ostentando provocadoramente seus lenos
vermelhos. A banda de msica do Regimento de Infantaria tocava dobrados
marciais com tamanho  vigor, que se tinha a impresso que a coberta de
zinco da plataforma ia voar pelos ares daquele tpido meio-dia de fins
de outono.
  648
  Ladeado pelo intendente e pelo comandante da guarnio, Washington Lus
sentou-se no banco traseiro dum automvel de tolda arriada, e foi levado
a passear pela cidade  em marcha lenta.
  Da janela de sua casa, Rodrigo viu-os passar. E como Zeca Prates lhe
tivesse feito um aceno cordial e o comandante da guarnio uma
continncia, o presidente eleito  voltou a cabea para o Sobrado e tirou
solenemente o chapu. Rodrigo correspondeu efusivamente ao cumprimento.
"Simptico, o filho da me!" E o auto no havia dobrado  ainda a prxima
esquina e ele j estava cheio duma alvoroada esperana. Fosse como
fosse, o Brasil ia ter um presidente que era um verdadeiro tipo de
gentleman.  A pra grisalha, a estatura, a discreta elegncia, a postura
digna, tudo isso lhe conferia um physique du role. Que diabo! Era
impossvel que um homem civilizado  como aquele fosse continuar a
poltica srdida e desptica de Artur Bernardes. "Abro-lhe um crdito" -
decidiu Rodrigo, como se o futuro do prximo quatrinio dependesse
exclusivamente de sua benevolncia.
  30
  Aquele inverno o Sobrado entrou numa fase intensamente musical. Rodrigo,
que no dizer de Maria Valria vivia com "o comprador assanhado", mandou
buscar em Porto  Alegre uma radiola RCA que vira anunciada no Correio do
Povo, e instalou-a no escritrio. Uma noite, depois de tentativas
infrutferas - descargas, assobios e roncos  - para apanhar alguma
estao de Montevidu ou Buenos Aires, perdeu a pacincia e decidiu
devolver o aparelho. Foi quando Roque Bandeira teve a lembrana de
trazer  ao Sobrado o Ervino Kunz, curioso em coisas de mecnica e
eletricidade, e o primeiro representante em Santa F duma nova espcie
de gente que se estava formando  no mundo: "o radiomanaco". O
alemozinho corrigiu a antena, mexeu uns botes e de sbito conseguiu o
milagre. Ouviu-se uma voz de homem, clara, grave, cheia, falando
espanhol. Pouco depois os acordes dum tango arrastavam-se, gemebundos,
na sala.
  649
  O rosto de Rodrigo iluminou-se. Mas as reaes entre os que o cercavam
naquela noite foram as mais diversas. Para as crianas a coisa toda
positivamente cheirava  a magia. Segundo Chiru, tudo aquilo era apenas
"mais uma tramia dos americanos para tirar o nosso dinheiro". Liroca
olhava o "bicho" com preveno, vagamente desconfiado  - como confessou
depois - de que o negcio no passava dum truque, e que devia haver um
disco de gramofone escondido dentro do aparelho.
  Rodrigo achava que com a radiola o Sobrado ganhava dimenses novas.
  - De tempo e espao - sorriu tio Bicho.
  - Exatamente. Novas geografias me entram agora pela casa. O Sobrado se
universaliza. H tambm um progresso dentro do tempo. Antes, vrios dias
de viagem nos separavam  dessas vozes e msicas platinas. Agora apenas
segundos. Segundos? Qual!
  Explicou aos amigos que eles ali no Sobrado ouviam a msica daquela
orquestra ao mesmo, ao mesmssimo tempo que as pessoas que se
encontravam no estdio da broadcasting  em Buenos Aires.
  - X gua! - resmungou o Liroca.
  Rodrigo no cessava de mexer nos botes. L vinha de novo a esttica, os
assobios que - como disse o Bandeira - davam a impresso de que demnios
alucinados andavam  pelo espao a vaiar a terra e a humanidade. Mas de
sbito, contra o fundo catico e cacofnico, desenhou-se ntida e
cristalina a voz duma soprano".
  - A "ria da loucura" - exclamou Rodrigo, excitado.
  Olhou orgulhoso para os outros. Depois recostou-se no respaldo da
poltrona e cerrou os olhos. No era maravilhoso - pensou - que no
casaro onde outrora sua av  Luzia dedilhara sua ctara estivessem
agora ouvindo aquela voz e aquela melodia?
  Stein sacudiu a cabea. Sim, era tudo muito bonito. Santa F recebia
aquelas expresses do progresso mecnico, mas havia ainda seres humanos
que morriam de frio  e de fome no Barro Preto, no Purgatrio e na
Sibria.
  - Todo o mundo sabe - observou tio Bicho - que o progresso no 
uniforme... e que no tem corao.
  - Silncio! - exigiu Rodrigo.
  650
  Durante aquele inverno, em que a radiola lhe tornou possvel ouvir a
temporada lrica do Teatro Coln de Buenos Aires, Rodrigo tornou a
descobrir o quanto gostava  de pera. Como podia ter adormecido nele to
completamente aquela paixo?
  Deixou de ir ao clube  noite, como fora seu hbito naqueles dois
ltimos anos. Agora, mal terminava o jantar, acendia um charuto,
sentava-se na frente do rdio  e ficava tentando captar as vozes e
melodias que andavam pelo espao.
  Trazia amigos para casa, acomodava-os no escritrio, dava-lhes vinhos e
licores e, segundo a expresso de Flora, "queria obrig-los a gostar de
pera a gritos e  sopapos".
  Uma noite, no conseguindo conter a impacincia diante daquela
"cantoria", que no podia entender nem amar, Chiru Mena puxou conversa
com Neco Rosa.
  - Cala essa boca, animal! - explodiu Rodrigo. - Se no gostas de boa
msica, vai l pra cozinha conversar com a negrada.
  Chiru saiu, vermelho de indignao e vergonha. (Estavam presenes
pessoas com quem no tinha intimidade.) Neco seguiu-o pouco depois. Por
fim o velho Liroca tambm  se esgueirou para fora do escritrio, na
ponta dos ps.
  Desapontado, Rodrigo verificou um dia que "a rodinha da pera" ficara
reduzida apenas aos Carbones, que assim mesmo comeavam a criar-lhe
problemas. Como soubessem  de cor a maioria dos trechos lricos, nunca
se limitavam a ouvir, mas cantavam junto com os intrpretes. Quando
chegava o momento de algum dueto importante, Santuzza  e o marido
erguiam-se de suas cadeiras e vocalizavam e representavam cenas
inteiras.
  Na noite em que levaram no Coln La boheme, a pera favorita de Rodrigo,
o sacrilgio chegou ao auge. Quando Mimi e Rodolfo, no palco do teatro
municipal portenho,  e Cario e Santuzza, no escritrio da casa dos
Cambars, cantavam simultaneamente o apaixonado dueto do final do
primeiro ato, Rodrigo no se conteve, apagou bruscamente  a radiola e
exclamou:
  - Me desculpem! Ou vocs ou eles. O Coln ou o Sobrado. As duas coisas
ao mesmo tempo  que no pode ser!
  651
  Foi tambm naquele inverno que a voga da "vitrola ortofnica" e do disco
tomou conta de Santa F. Jos Kern, que havia pouco abrira a sua Casa
Edison, foi o responsvel  ou, melhor, um dos instrumentos da nova
mania. Vendeu dezenas de vitrolas e centenas de discos  maioria dos
fazendeiros de Santa F, gente que em geral s pagava  suas contas uma
vez por ano, na poca da safra. E, inaugurando na cidade e no interior
do municpio o sistema de vendas a prestaes (que o velho Babalo achou
imoral),  permitiu que funcionrios pblicos, comerciantes menores e at
empregados do comrcio pudessem adquirir aquelas mquinas que iam aos
poucos lanando no olvido ou  no ridculo os gramofones de modelo
antigo.
  Stein comentou o fenmeno com uma ira de profeta bblico. Era o cmulo
do absurdo! Pessoas que viviam sem nenhum dos confortos mais elementares
da existncia, em  casas sem gua corrente, em que as latrinas ou eram
de cubos ou no passavam de ftidas fossas abertas no solo - compravam
aqueles aparelhos entre cujos preos e  suas rendas havia uma
desproporo colossal.
  -  assim que vai se fazendo sentir a garra do imperialismo ianque -
dizia ele. - So os automveis, os rdios, a gasolina, os gramofones...
Aos poucos vamos nos  transformando numa colnia dos Estados Unidos!
  "Nossa urbe agora vive cheia de msica - escreveu o cronista d'A Voz da
Serra. - O disco, que havia morrido entre ns, ressuscita."
  As vitrolas da Casa Edison atiravam para a rua os dobrados marciais da
Sousa's Band. E a voz de Cludia Muzzio, a morrer tuberculosa no ltimo
ato de La traviata,  mais de uma vez chegou aos ouvidos indiferentes de
muito caboclo que passava na rua a cavalo, pitando o seu crioulo.
Mariquinhas Matos ficava em xtase ouvindo Miguel  Fleta cantar o
Ay-ay-ay! O Quica Ventura sentia-se insultado quando ouvia os guinchos,
roncos e batidas dum jazzband. Pensava em reunir gente para empastelar a
Casa  Edison e dar uma sova no Kern. As meninas do coronel Prates eram
loucas pelo Tito Schipa. E muita gente agora cantarolava ou assobiava a
  652
  Valncia, inclusive Rodrigo Cambar, que se tomara de amores pela
melodia, que lhe evocava a clida e luminosa Espanha que ele encontrara
e amara nos romances de  Blasco Ibnez. Contava-se que o prprio dr.
Cario Carbone fizera recentemente a ablao do rim dum paciente
cantarolando durante toda a operao o Garibaldi, pum!
  Nas reunies do Comercial, agora animadas como nunca, o Jazz Mim tocava
as msicas da moda. E jovens pares, sob o olhar escandalizado das
comadres - as meninas com  as saias pelos joelhos, os rapazes com seus
"casaquinhos de pular cerca", e suas calas de boca-de-sino -, danavam
furiosamente o charleston.
  Rodrigo comprou a maior vitrola que o Kern tinha  venda: uma Credenza
de aspecto monumental, em estilo Renascimento. Levou-a para casa com
algumas dezenas de discos  e duma feita tocou vinte vezes seguidas a
Valncia; e como a Leocdia continuasse a cantarolar a msica na
cozinha, com sua voz estrdula, Rodrigo, tomado dum sbito  enjo da
melodia, quebrou o disco e atirou os cacos pela janela.
  Por uma semana o rdio ficou esquecido no escritrio, enquanto o dono da
casa e os amigos davam toda ateno  Credenza, que fora entronizada na
sala de visitas,  e que durante horas ("Prestem ateno aos graves...
No  um colosso? Parece que os cantores esto a dentro") tocou discos
de Chaliapin, Titta Ruffo, Galli-Curci,  Tetrazzini...
  Tio Bicho um dia confessou seu desamor  pera.
  - E um ignorante - disse Rodrigo. - De que gostas ento?
  - Ora, de Beethoven, para comear...
  Rodrigo foi  Casa Edison e voltou de l com uma pilha de discos com
msicas de Beethoven, e uma noite quase os atirou na cara do Bandeira.
  - Toma! Empanturra-te de Beethoven. Eu fico com o bel canto. - Voltou
para junto da radiola.
  Stein considerava a pera uma expresso musical da burguesia. De resto
achava que a msica, como a religio, era uma espcie de pio.
  653
  Maria Valria olhava para todas aquelas mquinas, danas, msicas e
modas com um olho antigo e moralista. Por aqueles dias vieram  tona em
Santa F alguns fatos  escandalosos. Quinota, a nica filha solteira do
finado coronel Cacique Fagundes, fugira de casa com um homem casado. Um
empregado dos Spielvogel dera um desfalque  na firma e emigrara para a
Argentina. No Barro Preto uma mocinha, abandonada pelo homem que a
seduzira, prendera fogo nas vestes e morrera queimada.
  Contava-se tambm que no Comercial os rapazes danavam praticamente
grudados aos corpos das moas, fazendo movimentos indecentes. Maria
Valria atribua todas essas  poucas-vergonhas s influncias malficas
do gramofone, do rdio e do cinema, s quais Aderbal Quadros, igualmente
alarmado ante a dissoluo dos costumes, ajuntava  as do automvel, do
aeroplano e do futebol.
  Foi tambm em fins daquele triste e frio agosto que chegou a Santa F a
notcia da morte de Rodolfo Valentino. O clube de suas admiradoras
mandou rezar uma missa  de stimo dia em inteno  alma do patrono. A
Gioconda saiu da igreja com os olhos vermelhos de tanto chorar. Uma de
suas conscias desmaiou na calada,  frente  da matriz. Alguns rapazes
despeitados, que esperavam na rua o fim da cerimnia, romperam numa vaia
s "viuvinhas do Vaselina".
  Maria Valria assistia  cena de uma das janelas do Sobrado, achando
tudo aquilo uma pouca-vergonha. E quando viu dona Vanja sair tambm da
igreja, de mantilha preta  na cabea, a enxugar os olhos com seu
lencinho de renda, murmurou: "O desfrute!" E fechou bruscamente a
janela.
  31
  No dia em que completou quarenta anos, Rodrigo acordou sombrio como o
cu daquela ventosa manh de outubro. Recebeu sem entusiasmo os abraos
e presentes dos membros  de sua famlia e, durante todo o dia,
plantou-se muitas vezes na frente do espelho, a examinar o rosto com um
interesse cheio de apreenso.
  654
  Quando Flora lhe perguntou se ia convidar os amigos para virem  noite
ao Sobrado, respondeu:
  - No convidei ningum. No h motivo para festa.
  Os amigos, porm, vieram e encheram a casa. O aniversariante a princpio
permaneceu calado e de cara amarrada, mas no tardou a entrar num "porre
suave" de champanha,  que o tornou loquaz e cordial como de costume.
Discutiu sociologia e poltica com Terncio Prates que, recm-chegado de
Paris, estava cheio de idias e projetos.  E como Chiru Mena, em dado
momento da conversao, manifestasse suas simpatias pela Liga Cvica
Rio-Grandense, fundada havia pouco em Porto Alegre, "para fomentar  os
ideais separatistas", Rodrigo ergueu um dedo acusador e bradou-lhe na
cara:
  - O separatismo  um crime de lesa-ptria!
  Chiru apelou para o dr. Terncio. No achava ele que o Rio Grande sempre
fora preterido no cenrio poltico nacional em que a ltima palavra
ficava sempre com o  bloco formado por So Paulo e Minas Gerais? No lhe
parecia tambm que desde o Imprio se fazia tudo pelo caf e pouco ou
nada pela pecuria? O charque fora a gaita  no sculo passado, e agora
estava ameaado da mesma sorte. A m vontade do resto do pas para com o
Rio Grande era to evidente que, quando se tratava de descobrir  o
desenho para um escudo dfo Estado, um jornalista "no-gacho" oferecera
uma sugesto maldosa:
  Nuvens negras no horizonte De cima a baixo um corisco O busto de Augusto
Comte E a faca do Joo Francisco.
  - Mas  perfeito! - exclamou tio Bicho, soltando uma risada.
  Terncio estava srio. No era homem que brincasse com aqueles assuntos.
Rodrigo chegou  concluso de que o amigo no tinha o menor senso de
humor. O estancieiro-socilogo  concordava em que o Rio Grande
constitua uma cultura  parte do resto do
  655
  Brasil, mas na sua opinio a idia separatista oferecia graves
inconvenientes e perigos...
  Do solene ventre da Credenza saa o vozeiro de Boris Chaliapin,
cantando a cena da morte de dom Quixote. Ali na sala de visitas as
mulheres estavam caladas, a escutar  aquela voz que parecia doer dentro
delas. Lgrimas escorriam pelas faces de boneca de dona Vanja. Sem
conseguir esconder a comoo, Flora fungava, levava o leno  ao nariz,
assoava-se. Santuzza, essa estava desfeita em pranto. Dom Quixote
soluava: "Ma mre! Ma mre!" A esposa de Terncio Prates inclinou a
cabea para a dama  que tinha a seu lado, e cochichou: "Ele est
chamando a me". - "Coitado!" - disse a outra. Os seios da esposa do
juiz de comarca arfavam de comoo. S dois rostos  se mantinham
impassveis, os olhos enxutos a fitarem meio agressivos a Cresenza o de
Laurentina Quadros e o de Maria Valria. Se as tristezas e incomodaes
da  vida no conseguiam abat-las, a troco de que santo haviam de
comover-se com aqueles gritos e choros "em estrangeiro" que saam do
gramofone?
  Dante Camerino apareceu mais tarde em companhia da noiva, a filha mais
velha do Juquinha Macedo, ambos devidamente escoltados por uma tia
solteirona da moa. Ningum  ignorava que os Macedos no faziam muito
gosto naquele casamento, por causa da origem humilde do mdico. "Afinal
de contas, comadre, o rapaz foi engraxate, o pai  dele  funileiro, e
ainda por cima, calabrs... Tudo tem o seu limite, a senhora no acha?"
  Fosse como fosse, o contrato de casamento se fizera, e agora ali estavam
os noivos a um canto, de mos dadas, encantados um no outro. Liroca, que
os observava com  olho terno, segurou o brao de Rodrigo e murmurou-lhe
ao ouvido: "Os rodeios se misturam no Rio Grande: italiano casa com
brasileiro. Alemo, com caboclo. Nas estncias,  nossos bois franqueiros
e de chifre duro tambm esto se cruzando com gado indiano e europeu.
Quero s ver no que vai dar tudo isso..."
  Rodrigo, porm, no lhe prestou ateno, pois continuava a discutir com
os amigos as relaes do Rio Grande com o resto do Brasil:
  656
  - H um grande equvoco de nossos patrcios l de cima com relao a
ns, um equvoco que precisamos desfazer duma vez por todas. - Tornou a
encher a taa de champanha.  -- Admiro o Euclides da Cunha e li Os
sertes dez vezes - inventou, acreditando na prpria mentira. - Mas no
posso aceitar o paralelo que ele faz entre o sertanejo  e o gacho,
apresentando-nos como homens da primeira arrancada, que se acovardam
quando encontram resistncia. O Euclides esqueceu que os Farrapos
brigaram sozinhos  contra o resto do pas durante dez anos!
  Tio Bicho, que at ento permanecera calado, interveio:
  - Temos sempre vivido num isolacionismo psicolgico com relao ao resto
do Brasil, e isso se deve em grande parte a Jlio de Castilhos e  Carta
de 14 de Julho.
  - Carta essa - completou Rodrigo - que hoje est morta, enterrada e
putrefata.
  Terncio brincava com a corrente do relgio, pensativo.
  - Pois eu acho - disse - que o Tratado de Pedras Altas foi um erro pelo
qual todos ns, republicanos e maragatos, ainda iremos pagar muito caro.
  - No diga isso! - protestou Chiru.
  - Castilhos - prosseguiu o estancieiro - foi o nico estadista def
verdade que este pas jamais produziu. Reconhecia a tese do
presidencialismo como sistema constitucional,  admitia o poder
presidencial a coexistir com o legislativo, mas, notem bem, no concedia
a este uma s partcula de sua autoridade executiva...
  Rodrigo escutava com o ar de quem no d crdito aos prprios ouvidos.
  O outro acrescentou:
  -- O que o dr. Borges de Medeiros devia ter feito em 23 era renunciar e
no permitir que nossa Carta fosse mutilada como foi.
  Rodrigo no se conteve:
  - Mas meu caro, depois de quase quatro anos de Paris tu ainda me vens
com essas idias retardatrias?!
  Terncio Prates sacudiu lentamente a cabea:
  - Toda a fora e todo o prestgio do Rio Grande repousavam no esprito
do castilhismo. A reforma da Constituio que vocs
  657
  assisistas conseguiram (e. eu, que sou republicano, reconheo nisso uma
grande vitria) vai afrouxar nossa disciplina partidria, vai talvez com
o tempo desintegrar  o partido que ajudou a fazer e a manter a
Repblica.
  Rodrigo pousou a mo no ombro do conviva:
  - Falas como um velho republicano para quem s existe um partido, um s
chefe, um s esprito, um s objetivo.
  Liroca olhava enviesado para Terncio, como se este fosse uma cobra
venenosa que de repente se lhe atravessasse no caminho. Rodrigo foi at
a sala de visitas e mudou  o disco. Quando voltou ao escritrio, o
socilogo falava sobre a plataforma de governo de Washington Lus.
  - O novo presidente est bem orientado. Em Paris estudou o plano
Poincar. Veio disposto a instituir e levar a cabo uma nova reforma
financeira...
  - O homem do cavanhaque - interrompeu-o Chiru - declarou que governar 
construir estradas. Para o Epitcio era fazer audes. Para o Bernardes
prender gente, amordaar  a imprensa...
  Sem tomar conhecimento da interrupo, Terncio olhou para Rodrigo (pois
era evidente que s a ele se dirigia) e disse:
  - O plano do dr. Washington  conseguir o equilbrio oramentrio,
cortando as despesas suprfluas, regularizando a dvida externa,
consolidando a flutuante, e evitando  os abusos de crdito. Ele acha (e
nisso tem toda a razo) que as causas do nosso caos financeiro, da nossa
fraqueza econmica e da carestia da vida so as variaes  bruscas do
valor da nossa moeda.
  Rodrigo bebeu um gole de champanha, estralou os lbios e perguntou:
  - Mas tu acreditas, Terncio, que podemos fazer essa reforma financeira
com o Getlio Vargas no Ministrio da Fazenda?
  - E por que no?
  - Vocs tm a memria muito fraca. No faz muito, ofereceram ao
Getulinho um lugar na Comisso de Finanas da Cmara e ele o recusou,
alegando que no entendia patavina  do assunto.
  Cerca das onze horas, quando o ltimo conviva se retirou, Rodrigo
fechou-se no escritrio com Neco e Chiru.
  658
  - Vamos fazer uma farrinha, hein? Que  que vocs acham?
  - Hoje? - estranhou o Chiru.
  - Hoje mais que nunca.
  - Tu mandas, eu obedeo.
  - E tu, Neco?
  O barbeiro hesitou.
  - E que  que vais dizer a dona Flora?
  - No te preocupes com o que vou dizer  minha mulher. O problema  meu.
  - Pois ento vamos.
  Saram quando o relgio grande batia as primeiras badaladas da
meia-noite. Chuviscava e havia no vento uma qualidade mordente. Rodrigo,
que caminhava entre os dois  amigos, levantou a gola do impermevel.
  - Quarenta anos - murmurou. - Parece mentira. Estou comeando a descer
pelo outro lado da coxilha.
  - No sejas bobo! - interrompeu-o Chiru. - Agora  que entramos numa
idade bonita!
  - Aonde  que vamos? Vocs sabem de alguma mulher nova na terra?
  - Sugiro a Penso da Virgnia - disse o barbeiro. - Tem "material" novo
l.
  Foram. E aquela noite Rodrigo Cambar teve na sua cama duas raparigas
cujas idades, somadas, mal davam a sua.
  32
  Nos primeiros dias de novembro, foi procurado por um chefe maragato de
Palmeira, que entrou no Sobrado com ares de conspirador, pedindo-lhe "um
particular". Foram  para o escritrio, sentaram-se, o visitante puxou um
pigarro e murmurou:
  - O "leiceno" vem a furo por estes dias, doutor.
  - Que leiceno?
  - U... Ento o coronel Macedo no lhe disse nada? A revoluo.
  659
  No entendeu a irritao que o visitante lhe causara. E o fato de estar irritado por uma situao que era
menos grave que grotesca exasperava-o ainda mais.
  S depois que voltou para o escritrio  que compreendeu por que aquela
visita o deixara to perturbado.
   que o caboclo, sem querer nem saber, lhe evocara os aspectos negativos
da campanha de 23: a frustrao das marchas e contramarchas, que na
maioria das vezes nada  mais eram que fugas; a desorganizao das
colunas, a imprevidncia dos comandantes, a indisciplina dos comandados:
a sujeira, o desconforto, o desperdcio de vidas...  Sim, o homem de
Palmeira recendia a revoluo. Sua presena enchera a sala com um fartum
de suor humano muitas vezes dormido, misturado com cheiro de couro
curtido,  poeira e sarro de cigarro de palha... E esses odores se haviam
transformado no esprito de Rodrigo em imagens que ele preferia
esquecer. Miguel Ruas agonizante no  saguo da Intendncia, a morte a
passar-lhe no rosto o ltimo p-de-arroz... O cadver de Cantdio, os
olhos exorbitados, o peito esmagado...
  Rodrigo acendeu um cigarro, sentou-se, soltou uma baforada de fumaa
como para esconder a mais terrvel de todas as lembranas: seu pai
lvido e arquejante, a afogar-se  no prprio sangue. De olhos fechados,
com uma fria que lhe vinha do prprio terror, precipitou-se ao encontro
do perigo, recordou frio aquela hora, minuciosamente.  Tomou a sentir a
mornido do sangue do Velho no prprio peito, viu aqueles olhos que aos
poucos se embaciavam, ouviu o pan-pan ritmado do moinho d'gua...
ruminou,  enfim, a angstia daquela hora trgica.
  Agora estava tudo claro. Quem na realidade recebera o maragato havia
poucos minutos no fora ele, Rodrigo, mas Licurgo Cambar. O Velho
falara pela sua boca. Mais  ainda: o filho reagira ao convite do
revolucionrio com as idiossincrasias, os nervos, o corpo do pai. Por um
instante pelo menos conseguira ressuscitar um morto.
  Dias depois, Chiru entrou no Sobrado como uma ventania.
  - A procisso est na rua, menino! - gritou. - O Leonel Rocha j anda
tiroteando pras bandas da Vacaria. O velho Zeca Neto entrou por
Uruguaiana...
  662
  Rodrigo escutou-o sem entusiasmo. Tirou do bolso um charuto, mordeu-lhe
a ponta, prendeu-o entre os dentes e ficou a acend-lo com uma lentido
deliberada.
  - Senta, Chiru. Te acalma. Bebe um copo d'gua. Tua revoluo j morreu
na casca.
  - Morreu coisa nenhuma! Espera-se um levante na guarnio federal de
Santa Maria e outro na de So Gabriel.
  Minutos depois apareceu o velho Liroca, que se sentou a um canto do
escritrio e ficou a olhar para Rodrigo com uma ternura canina.
  - Sabes quem  o chefe civil do movimento? - perguntou Chiru. - O dr.
Assis Brasil. Ele e o general Isidoro esto dirigindo a coisa de
Montevidu.
  Rodrigo atirou a cabea para trs e soltou a fumaa que retivera na boca
por alguns segundos.
  - Ento? - perguntou com um sorriso sardnico - o nosso egrgio chefe
est dirigindo a revoluo a distncia, no? Provavelmente do quarto do
melhor hotel de Montevidu,  perfumadinho, barbeadinho, metido num robe
de chambre Ac seda... Pois se  assim, amigo Chiru, no tenhamos dvida,
o movimento est vitorioso.
  Chiru estava espantado.
  - Homem, que bicho te mordeu?
  Nesse momento entrou o Neco Rosa, olhou para o dono da casa e disse,
grave:
  - Estamos esperando as tuas ordens.
  - No sejam bobos - respondeu Rodrigo. - No tenho ordens.
  De seu canto, Liroca murmurou:
  - Sou soldado disciplinado. Se me mandam pegar na espingarda e ir pra
coxilha, obedeo.
  Rodrigo lanou-lhe um olhar oblquo e pensou: Obedeces e depois te borras
na hora do combate... Mas no disse nada. Havia algo de pattico naquele
velho asmtico  e frgil, que ainda sonhava com revolues.
  Naquele dia os trs amigos retiraram-se juntos do Sobrado: Neco calado e
digno, Chiru vermelho e a resmungar queixas, Liroca
  663
  cabisbaixo, o peito sacudido de suspiros. Rodrigo ficou a acompanh-los
com o olhar, debruado numa das janelas do casaro, j com a vaga
sensao de hav-los abandonado  e trado. E se eles estivessem com a
razo? - perguntou a si mesmo, vendo-os desaparecer entre as rvores da
praa. - E se aquela revoluo tivesse estatura para  vencer?
  Sua dvida, porm, foi de curta durao. Dias depois, leu nos jornais a
notcia de que a coluna de Leonel Rocha tinha sido derrotada num combate
em Bom Jesus pelas  tropas legalistas e que Zeca Neto e seus homens
haviam tornado a transpor a fronteira, internando-se na Argentina. Era o
fim.
  Esperou a visita dos amigos para lanar-lhes em rosto o clssico "Eu no
disse?" No teve, porm, oportunidade para isso, pois o Chiru uma tarde
embarafustou Sobrado  adentro, exclamando:
  - Aposto a minha fortuna como o Washington Lus no toma posse!
  Fez uma pausa dramtica e encarou o amigo, esperando que ele perguntasse
por qu, mas como Rodrigo se tivesse limitado a encolher os ombros, sem
curiosidade, Chiru  despejou a notcia:
  - Revoltou-se a guarnio federal de Santa Maria, sob o comando de dois
tenentes, os irmos Etchegoyen! Esto combatendo na cidade, pois o
regimento da Brigada Militar  no aderiu ao movimento. E h barulho
tambm em So Gabriel. -- Segurou com fora o brao do amigo. - Tu sabes
o que isso significa, na vspera da posse do Cavanhaque?
  No dia seguinte verificaram que a coisa significava muito pouco ou nada.
O boletim de notcias do rdio comunicava que a posse do presidente da
Repblica se processara  normalmente, e sob aclamaes populares.
  33
  Na soalheira daquele bochornoso 1 de janeiro de 1927, a prpria cidade
de Santa F- de ruas quase desertas, as casas duma palidez cansada, sob
a luz branquicenta  da manh - parecia curtir
  a ressaca das bebedeiras e comilanas a que boa parte de sua populao
se havia entregue na noite anterior.
  Foi com malcontida irritao que Rodrigo Cambar desceu do quarto com a
boca amarga (champanha, caviar e maionese de lagosta) para receber a
visita do coronel Afonso  Borralho, veterano da Guerra do Paraguai. Como
costumava fazer todos os anos, no mesmo dia e  mesmssima hora, o
octogenrio vinha ao Sobrado para apresentar aos  Cambars seus votos
dum "prspero e feliz ano-novo". Fazia isso desde 1896, com uma
pontualidade impecvel, como uma espcie de funcionrio exemplar do
Tempo. Quem  sempre o recebia, num misto de reconhecimento e
impacincia, era o velho Licurgo. Agora cabia a Rodrigo fazer as honras
da casa.
  Acolheu o veterano com a amabilidade que seu mal-estar lhe permitia,
tomou-lhe do brao, levou-o para a sala de visitas, f-lo sentar-se.
  - O senhor sempre forte e rijo, hein, coronel?
  - Qual nada, doutor! Acho que este vai ser o meu ltimo ano-novo.
  Dizia sempre isso. Tinha uma voz rouca e cava. Barbas dum branco
amarelado cobriam-lhe as faces angulosas, duma cor de marfim antigo. A
fronte era alta, o nariz  em sela, os cabelos, ainda abundantes e duma
finura frouxa de retrs. Metido no seu terno de casimira preta, parecia
um profeta bblico vestido por um alfaiate de  1900.
  Era o coronel Borralho uma das "relquias vivas" de Santa F, como dizia
e repetia a folha local. Dona Revocata costumava apresent-lo aos alunos
como um exemplo  vivo de patriotismo e dignidade humana. No se concebia
cerimnia cvica sem sua presena. Rodrigo admirava o ancio, mas achava
que ele se estava compenetrando  demais de sua condio de monumento
municipal. Jamais sorria ou pilheriava, dava-se ares de orculo, e ali
estava agora numa postura de esttua.
  Enquanto o visitante falava, Rodrigo sentia a cabea latejar de dor. O
calor era tanto, que ele tinha a impresso de que uma boca de fornalha
acesa, do tamanho da  abbada celeste, respirava em cima de Santa F. O
casaro tambm parecia pulsar sob o olho
  664
  665
  implacvel do sol, como se um sangue grosso e quente corresse, surdo,
por dentro das paredes, fazendo-as inchar.
  E aquele homem vestido de casimira -- trajo completo, com colete e
colarinho duro - a falar, a falar: o tempo, a revoluo, a crise da
pecuria, velhos amigos mortos...
  Eu no agento! - pensava Rodrigo, lavado em suor, a viso perturbada,
nauseadamente consciente como nunca de ter um estmago. Por fim o
coronel Borralho se retirou,  depois de pronunciar todas as frases de
praxe. Rodrigo ficou com a impresso nada animadora de que o veterano
era um comissionado que a Morte mandava todos os anos  bater  sua porta
para cobrar-lhe mais uma prestao de vida. Essa idia no lhe melhorou
em nada o estado de esprito, como a dose de sal de frutas, tomada ao
despertar,  no lhe resolvera a situao gstrica.
  Era tudo uma choldra. Os levantes no Estado haviam fracassado. No se
tinha notcia certa do paradeiro da Coluna Prestes. Washington Lus
governava sem oposio,  recusando-se a conceder anistia geral. E l
estava o Getulinho aboletado no Ministrio da Fazenda, como um dos
grandes da Repblica. E j se falava dele como sucessor  de Borges de
Medeiros. Sim senhor! O maroto havia feito sua carreirinha na maciota...
"E eu aqui de mos abanando... E por qu?" Olhou para o prprio retrato,
como  se sua imagem pintada pudesse responder  pergunta. "Por qu? O
Getlio no  mais inteligente nem mais culto que eu. Somos quase da
mesma idade. Fomos colegas na  Assembleia. So Borja no  mais
importante que Santa F. Ento, como se explica que ele esteja no Rio
feito ministro e eu esquecido aqui nesta bosta?"
  Pensou no vero que tinha pela frente e atirou-se desanimado numa
poltrona, com uma sbita, mas passageira, vontade de morrer.
  S pde ir para o Angico em princpios de fevereiro. Levou toda a
famlia e fechou o Sobrado. Encontrou Aderbal Quadros como sempre
contente da vida e cheio de planos  para a estncia. Apenas uma
preocupao - e Rodrigo riu-se dela - toldava o esprito do velho.
Estava apreensivo ante a notcia que lera no ltimo nmero do Correio
do Povo chegado a suas mos. O hidravio
  666
  Atlntico, do Kondor Syndikat, fizera sua primeira viagem de Porto
Alegre  cidade do Rio Grande, levando passageiros e cento e sessenta e
dois quilos de bagagem.  Apesar do forte vento contrrio, o percurso
durara apenas duas horas e quarenta e cinco minutos. O velho sentia-se
afrontado. Era uma imoralidade - disse ele ao  genro - um despautrio,
que aquelas engenhocas de voar, fabricadas no estrangeiro, estivessem
cortando e sujando os cus do Rio Grande, que de direito pertenciam  s
aves e nuvens, isso para no falar no sol, na lua e nas estrelas, que
eram de todo o mundo. Aquele progresso - continuou - estava aos poucos
mudando a boa vida  antiga do gacho, pois assim como as mquinas
registradoras haviam trazido a imoralidade para as casas de comrcio, o
aeroplano, como o automvel, constitua um  insulto ao cavalo, 
diligncia e  carreta.
  - O governo federal j deu licena ao Kondor Syndikat para estabelecer
uma linha area entre Porto Alegre e o Rio de Janeiro - contou Rodrigo,
para escandalizar  o sogro. - E lhe digo mais, seu Aderbal, a primeira
vez que eu tiver de viajar para o Rio, vou de avio.
  Babalo nada respondeu. Montou a cavalo, saiu sem rumo pelas verdes
invernadas, agitando macegas e espantando quero-queros, respirou a
plenos pulmes o ar do campo,  limpou o esprito de cuidados e
irritaes, voltou para casa assobiando, e no tocou mais
  no assunto.
  Foi em princpios de maro que, ainda no Angico, Rodrigo recebeu a
notcia de que Lus Carlos Prestes e os seiscentos e poucos homens que
restavam de sua Coluna  se haviam internado na Bolvia, depondo as
armas.
  Passaram-se duas semanas e Rodrigo comeou a inquietar-se seriamente com
a sorte do irmo. Se Bio estava vivo - refletia - por que no se
comunicava com ele? Escreveu  uma carta ao embaixador do Brasil na
Bolvia, perguntando-lhe se por acaso sabia do paradeiro dum certo major
Torbio Cambar, membro da Coluna Prestes.
  667
  Voltou no fim daquele ms para Santa F, onde o aguardava a pior das
notcias. O Veiga, da Casa Sol, depois de muitos rodeios, pigarros e
hesitaes, revelou-lhe  que um tropeiro de Santa Brbara ouvira dizer
que um conhecido seu de Passo Fundo abrigara uma noite em sua casa um
ex-soldado da Coluna Prestes, que lhe contara  ter visto Torbio Cambar
cair morto num combate, no interior do Cear.
  Rodrigo entregou-se a uma crise de choro.
  - No acredito - disse Maria Valria. Roque Bandeira chamou o amigo 
razo:
  - Tudo isso  muito vago - argumentou. - Veja bem, doutor. O Veiga no
se lembra do nome nem do endereo do tropeiro que lhe contou a histria
que teria ouvido da  boca duma terceira personagem ainda mais improvvel
que a primeira e a segunda.
  No dia 1 de abril chegou ao Sobrado um telegrama. Num mau
pressentimento, Rodrigo meteu-o no bolso, sem abri-lo. Saiu a andar pela
casa, agoniado, com a quase certeza  de que aquele papel lhe trazia a
notificao oficial da morte do irmo. Subiu para a gua-furtada, tirou
o despacho do bolso, virou-o dum lado e de outro, atirou-o  em cima da
mesinha de vime e ficou a mir-lo de longe... De repente uma onda de
esperana o envolveu. E se a mensagem fosse do prprio Torbio? Claro.
Podia ser.  Era! Era!
  Agarrou o telegrama e abriu-o com tal aodamento, que quase o rasgou ao
meio. Estonteado, teve de ler o texto trs vezes para compreend-lo:
  COMUNICO ILUSTRE AMIGO DESCOBRI
  ENTRE DETENTOS POLTICOS RIO SEU
  IRMO TORBIO APRISIONADO FINS ANO
  PASSADO INTERIOR BAHIA E AGORA SUJEITO SER
  TRANSFERIDO ILHA TRINDADE PT
  MANDE INSTRUES URGENTE PT
  CORDIAIS SAUDAES
  TTE.-CEL. RUBIM VELOSO
  668
  Rodrigo desceu precipitadamente e foi dar a grande notcia a Flora,
Maria Valria e Laurinda. Torbio estava vivo! Torbio estava vivo! Era
isso o que importava.  Mas sua alegria em estado puro no durou mais que
uns escassos cinco minutos, porque em sua mente a idia de Torbio vivo
foi dominada pela de Torbio preso. Um  Cambar na cadeia, como um reles
criminoso. Torbio degredado na ilha da Trindade! A idia deixava-o de
tal maneira indignado, que os amigos a quem mais tarde mostrou  o
telegrama tiveram a impresso ntida que ele queria fazer outra
revoluo, organizar uma expedio punitiva contra o Rio de Janeiro,
apear Washington Lus do poder  e incendiar o Catete.
  - Sossegue o pito - disse Maria Valria. -- Mas ele vai morrer, Dinda!
  - No morre. Tudo acostuma. At cadeia.
  - Mas fica louco.
  A Dinda quase sorriu quando disse:
  - Bem bom do juzo seu irmo nunca foi...
  Rodrigo resolveu embarcar no dia seguinte para Porto Alegre, onde
tomaria o primeiro vapor para o Rio. Era uma pena que a linha area do
Kondor Syndikat no estivesse  ainda funcionando!
  Antes de partir redigiu um telegrama endereado ao tenentecoronel Rubim.
Mostrou-o a Flora e Maria Valria.
  - Que  que vocs acham? Est muito forte?
  GRATSSIMO TUA COMUNICAO MAS DESOLADO NOTCIA PT POBRE PAS EM QUE OS
HOMENS DE BEM ESTO NA CADEIA E OS LADRES E BANDIDOS NO PODER PT
  EMBARCO RIO HOJE MESMO PT AFETUOSO ABRAO
  
  De lbios apertados, a velha ouviu em silncio a leitura do
  despacho.
  - Que tal, Dinda?
  669
  - No carece ofender ningum. Isso pode at dificultar a sada do Bio da
cadeia. Por que no diz s que vai embarcar?
  Flora foi da mesma opinio, mas Rodrigo, enamorado da prpria violncia,
mandou expedir o telegrama tal como o havia redigido.
  Embarcou no dia seguinte, to carregado de malas que a tia perguntou:
  - U? Vai se mudar pra Corte?
  34
  Duas semanas depois, telegrafava do Rio contando  sua gente que
conseguira falar com Torbio; que, contra sua expectativa, o encontrara
de muito boa sade; que  havia contratado um grande advogado para tratar
da libertao do irmo; e que esperava ter uma entrevista com Getlio
Vargas no dia seguinte. As ltimas linhas do  telegrama prometiam para
breve uma longa carta.
  Esta chegou duas semanas depois. Flora leu aos amigos a parte em que
Rodrigo narrava as circunstncias romanescas da priso de Torbio:
  A coisa se passou nos sertes da Bahia. O Bio e o seu piquete de
vanguarda caram numa emboscada. Alguns morreram, outros fugiram, e
quatro, entre os quais estava  o nosso heri, foram feitos prisioneiros.
"S me pegaram" - contou o Bio - "porque meu cavalo recebeu um balao na
cabea, caiu e eu fiquei com uma perna apertada  debaixo dele. Os
milicos se atiraram em cima de mim. Eram trs. Me ergueram do cho e
pensaram, os inocentes, que eu ia me entregar sem mais aquela. Consegui
derrubar  dois deles a socos e pontaps, mas vieram mais dois, me
subjugaram e me levaram amarrado." Assim o nosso major e mais trs
companheiros foram conduzidos para o acampamento  duma companhia da
fora legalista e amarrados a troncos de rvores para serem fuzilados ao
amanhecer. Quando o dia clareou, comearam as execues. Antes de passar
cada prisioneiro pelas armas, o capito que comandava o peloto de
fuzilamento interrogava-o, 
  670
  pedindo o nome e o lugar do nascimento. Anotava tudo isso numa caderneta,
voltava pra junto dos soldados e dava ordem de fogo. Pouco antes de
morrer, um dos revolucionrios  gritou meio rindo: "At  vista, major
Torbio!" Diz o Bio que nessa hora no conseguiu conter o pranto, e
ficou fungando, sem poder enxugar os olhos, pois estava  de mos
amarradas. O segundo a ser fuzilado recusou-se a dar o nome. Disse uma
barbaridade que envolveu no s a me do capito como a de todos os
soldados do peloto.  Antes da ordem de fogo soltou um viva a Lus
Carlos Prestes e  liberdade. Nosso major me confessou que naquela hora
ele no sabia o que era mais forte: se a sua  pena de ver aqueles bravos
morrerem de mos e ps amarrados ou se a raiva, "no o medo", de saber
que sua hora tinha chegado. Pensou assim: "Ora, um dia todos morrem,  os
bons e os maus, os valentes e os covardes, os santos e os bandidos. De
bala, de doena ou de velhice". Mas no fundo ainda contava com algum
acontecimento inesperado  que o salvasse. Comeou ento a dizer,
baixinho: "Ainda no fizeram a bala... ainda no fizeram a bala". O
terceiro condenado, poucos segundos antes de receber a  descarga,
gritou: "Atirem, covardes!" E soltou uma gargalhada. Quando chegou a
hora do Bio, o sol j tinha aparecido. O capito aproximou-se do major.
Era um homem  com cara de moo-famlia, estava plido, de voz engasgada
e mos trmulas. O Bio viu logo que o rapaz no dava para aquelas
coisas... "Como  o seu nome?" O Bio,  que tinha deixado crescer a
barba, teve vontade de responder. "Antnio Conselheiro". Mas achou
melhor dizer direito como se chamava e de onde era. "E por falar em  Rio
Grande, moo, l na minha terra no estamos acostumados a morrer de mos
amarradas. Gacho macho prefere morrer peleando. Se algum favor lhe
peo,  que me deixe  morrer de arma na mo." O outro se fez de
desentendido. "De que cidade do Rio Grande voc ?" Quando o Bio disse
Santa F, a cara do milico se iluminou. E agora  pasmem todos! O capito
em seguida perguntou: " parente do dr. Rodrigo Cambar?" Respondeu o
nosso caudilho: "Acho que sou! Somos filhos do mesmo pai e da mesma
me". O oficial gritou para os soldados: "Desamarrem este homem!" Pegou
o Bio pelo brao, levou-o para sua barraca, deu-lhe um bom caf com
bolachas e contou: "Sou  o Antigenes Coutinho. Estive na sua casa,
  671
  conheci a sua famlia. E se hoje estou aqui  graas ao seu irmo, que
me salvou a vida". E repetiu a histria que todos vocs conhecem.
  Assim, o Bio escapou de ser fuzilado no serto da Bahia, foi levado para
Salvador, onde durante mais de um ms quase apodreceu num calabouo
infecto, com vinte ou  trinta outros prisioneiros polticos. Um dia
meteram toda essa gente no poro dum navio de carga, que zarpou para o
Sul. Bio me contou com pormenores os horrores  dessa viagem. Para
principiar, passaram todo o tempo com gua a meia canela. Parecia um
navio negreiro. O fedor do poro era medonho, pois todos faziam suas
necessidades  ali mesmo. Quanto ao que se dava aos prisioneiros para
comer, nem  bom falar, vocs podem imaginar. Um deles morreu durante a
travessia e os outros s deram pela  coisa quando o cadver comeou a
cheirar mal.
  Chegadas ao Rio, essas pobres criaturas tiveram destinos diversos. O Bio
foi atirado numa das famigeradas geladeiras da polcia. Como trazia um
bom poncho, um caboclo  alto e forte que, pela sua truculncia e sua
fora fsica, era uma espcie de chefe dos prisioneiros da cela,
atirou-se em cima do nosso major com a inteno de  tirar-lhe o poncho,
pois l dentro o frio e a umidade eram de dar pneumonia at em pedra.
Para resumir o caso: o Bio deu uma surra to tremenda no sujeito, que o
deixou estirado no cho. Como resultado, no s conservou o poncho como
tambm da por diante ficou sendo o chefe do grupo.
  Semanas depois, foi transferido para uma cadeia mais decente (mas no
muito) e mantido incomunicvel por dois meses. Foi ali que um dia o
tenente-coronel Rubim o  descobriu por puro acaso.
  No me foi fcil conseguir licena para ver o meu irmo. Eu no saberia
descrever nosso encontro. No tenho vergonha de dizer que chorei como
uma criana ao abra-lo.  O Bio, esse s ria, mas ria s gargalhadas
como se aquilo tudo fosse a coisa mais engraada do mundo. Continua
barbudo, est com o corpo todo escalavrado, mas forte  e so de lombo.
Para aguentar as geladeiras da polcia, s os pulmes do Bio!
  Agora pasmem de novo! Esse gaucho de dedos grossos e desajeitados
durante o tempo de cadeia aprendeu com um companheiro de cela afazer
trabalhos de pacincia. Construiu  um navio com pauzinhos coloridos
dentro duma garrafa. Quando ele me mostrou a sua obra,
  672
  fiquei com um n na garganta e lgrimas de novo me brotaram nos olhos.
  E assim, como vocs podem ver, a vida, para alegria de dona Vanja, s
vezes imita os folhetins de capa e espada.
  A segunda carta, chegada dias depois, dizia:
  Tenho feito o barulho que posso na imprensa do Rio em tomo do caso do
Torbio. Conversei tambm com o dr. Getlio, que me recebeu muito bem,
todo sorridente, mas  nada prometeu de positivo. "No vai ser fcil" -
disse ele - "trata-se dum assunto poltico fora da competncia do meu
ministrio." Ora bolas! Todo o mundo sabe  como se fazem as coisas neste
pas de opereta. E depois, no se trata de competncias de ministrios,
mas da sade, da vida e da liberdade dum gacho corajoso e  digno.
Fiquei com vontade de mandar o ministro da Fazenda quela parte. Mas foi
bom que eu tivesse me contido, porque no dia seguinte o Getlio me
comunicou, por  intermdio de um de seus oficiais-de-gabinete, que,
depois de confabular com o ministro da Justia, achava que havia
esperanas...
  No mesmo dia Flora recebeu um telegrama urgente:
  BIO LIBERADO PT EMBARCAREMOS
  IMEDIATAMENTE PT CARINHOS RODRIGO
  35
  No dia seguinte ao da sua chegada a Santa F, Rodrigo reuniu amigos no
Sobrado, para comemorar com uma ceia o que ele chamava de "a volta do
filho prdigo". Fascinado  pela analogia, mandou matar um "bezerro
cevado".
  Maio findava, o outono andava a enevoar os cus e a desbotar as folhas
dos cinamomos e dos pltanos. O inverno j mandava pelo vento discretos
avisos de que no  tardaria a pr-se a caminho.
  673
  Maria Valria, sempre atenta s coisas da natureza e do calendrio,
achou que j era tempo de abrir a despensa e entregar ao consumo
domstico as primeiras caixetas  das pessegadas e marmeladas feitas em
fevereiro.
  Tio Bicho cultivava seus peixes, lia seus filsofos e engordava. Aro
Stein, apaixonado pelo caso de Sacco e Vanzetti, escrevia artigos
incendirios para jornais  semiclandestinos, procurando provar que a
justia dos Estados Unidos condenava esses dois mrtires  cadeira
eltrica no pelo assassnio do pagador duma companhia  de calados
(pois nada de irrefutvel ficara provado contra os rus), mas sim por
serem ambos anarquistas. No se tratava, portanto, dum ato de justia e
sim duma  cruel, indigna, clamorosa vingana poltica.
  Mas alguns santa-fezenses, para os quais Hollywood se havia tornado mais
importante que Washington, pareciam concentrar seu interesse na
guerrinha local que agora  se travava, por motivos bvios, entre as
"vivas do Valentino" e o novo clube das fs de John Gilbert.
  Noticiavam ento os jornais que a Warner Brothers acabava de produzir o
primeiro filme sonoro da histria: The jazz singer. Uns quatro ou cinco
rapazes intelectualizados  de Santa F, que costumavam referir-se ao
cinema como "a stima arte", e eram adoradores de Charlie Chaplin,
achavam que dar voz s figuras da tela seria a mais  grosseira e
ridcula das heresias. Entrevistado por A Voz da Serra, o Calgembrino,
do Cinema Recreio, foi franco: "Fita falada? Aposto como esse negcio
no pega".
  Tambm por aquela poca andava o mundo inteiro (inclusive e
principalmente o reverendo Robert E. Dobson) entusiasmado com a faanha
de Charles Lindbergh, um americano  de vinte e seis anos que, no seu
pequeno aeroplano, The Spirit of St. Louis, atravessara o Atlntico, dos
Estados Unidos  Europa, num vo ininterrupto.
  Para Liroca, porm, heri mesmo, heri de verdade, era Torbio Cambar.
Na reunio no Sobrado, passou quase a noite inteira a mir-lo com olhos
afetuosos e cheios  de admirao. Ficou furioso com o dr. Terncio
Prates que, por mais de meia hora, procurou
  674
  chamar para a sua pessoa as atenes gerais, comentando o ltimo livro
que recebera de Paris: La vie de Disraeli, de Andr Maurois.
  - Como , major? - perguntou Neco Rosa. - Que tal foi a campanha?
Torbio, que estava escarrapachado numa poltrona, ao lado de tio Bicho,
consumindo com ele garrafa  sobre garrafa de cerveja preta, respondeu:
  - Divertida.
  E tratou de mudar de assunto. Mais tarde outros tentaram, mas em vo,
fazer o vanguardeiro da Coluna Prestes contar suas proezas.
  Rodrigo andava dum lado para outro, radiante por ter o irmo de volta 
querncia, so e salvo, mas um nadinha enciumado por v-lo como figura
central da reunio.  Houve um instante em que, continuando a pardia da
parbola bblica, representou dois papis ao mesmo tempo: o do pai do
filho prdigo e o do irmo despeitado.
  Depois que a maioria dos convidados se retirou - fechado no escritrio
com o irmo, Chiru Mena, Neco Rosa, Jos Lrio e Roque Bandeira -
Torbio soltou a lngua.
  Foi Jos Lrio quem deu o mote:
  - Uma marcha linda, major!
  - Linda? Nem sempre, amigo Liroca.
  Fez-se um silncio de expectativa. Todos os olhares se focaram no major
Torbio, que a essa altura da festa tinha abandonado a cerveja em favor
da caninha. Com seu  jeito lerdo e pesado de boi manso, os olhinhos
entrefechados, ele sorria para algum pensamento gaiato.
  - Pois aqui onde vocs me vem, amigos, j invadi o Paraguai.
  - Como foi a coisa? - perguntou Neco Rosa, mostrando os dentes num riso
de antecipado gozo.
  - Depois da queda de Catanduvas, o negcio ficou feio pr nosso lado. O
melhor jeito da gente chegar ao Mato Grosso era cortar pelo Paraguai. Eu
fazia a vanguarda  do 2 Destacamento. At brinquei com o Joo Alberto:
"J que estamos aqui, 
  675
  comandante, por que no aproveitamos a ocasio pra derrubar o governo
paraguaio?"
  - Esse Bio... - sorriu Liroca, sacudindo a cabea. O guerrilheiro
remexeu-se na poltrona:
  - Estou me lembrando dum baile que arranjamos em territrio paraguaio,
na fronteira com o Mato Grosso...
  As caras de Chiru e Neco reluziram de malcia. Liroca osculava o heri
com seu olhar canino.
  - A vila se chamava Pedro Juan Caballero. Pequenita. Uma porcaria. Quero
dizer, porcaria no tamanho, mas muito mais divertida que Santa F. Tinha
vrios cabars  que funcionavam todas as noites.
  - Mas em que tipo de casa? - quis saber Rodrigo.
  - Ranchos de taipa, com cho de terra batida.
  - Msica de gaita, naturalmente...
  - No. Violas, violinos, umas flautas e harpas de bugre. Me cheguei pra
uma china paraguaia, delgadita, mas de boas ancas, e convidei a bichinha
pra danar uma polca.  Estavam comigo uns dez revolucionrios. Tambm se
serviram das chinas. Comecei a ver pelos cantos uns muchachos meio
trombudos e farejei barulho. Mas tomamos conta  do baile. O Joo Alberto
tinha me recomendado que tivesse muito cuidado, no queria encrenca com
governo estrangeiro, nossa briga era s contra o do Bernardes...
Proibiu a venda de bebidas, mas qual!... vocs sabem, sempre se d um
jeito de conseguir uma branquinha por baixo do poncho. Mas o que eu sei
 que l pelas tantas  o pessoal foi se esquentando, se excedendo, e
aqueles paraguaios mal-encarados acabaram virando bicho. No me lembro
como foi que a coisa comeou. S sei que de  repente um ndio cor de
cuia cresceu pra cima de mim de faca em punho. Nem pisquei. Apliquei-lhe
um pontap nos bagos e ele largou a faca e se dobrou todo, gritando  de
dor. Quando vi que estavam sangrando a facadas um companheiro nosso no
meio da sala (a msica nem tinha parado!), saquei do revlver e o
tiroteio comeou. Nossas  patrulhas entraram em ao e foi uma confuso
danada. Imaginem vocs um entrevero dentro dum rancho pequeno...
  676
  Calou-se. Liroca, para quem as palavras do guerrilheiro eram um vinho
capitoso, perguntou:
  - Morreu muita gente?
  - Nem tanto. Dois nossos e um paraguaio. Mas uns dez ou doze se
lastimaram...
  Torbio fez nova pausa para beber um trago de caninha. De novo o sorriso
malicioso lhe encrespou os lbios.
  - No outro dia tornamos a entrar no Brasil - prosseguiu - e tocamos pras
cabeceiras do rio Apa. E vocs querem saber da melhor? Umas duas dzias
de paraguaias se  vestiram de homem pra acompanhar o destacamento... -
Soltou um suspiro. - Mas o Joo Alberto no quis saber da brincadeira.
Guerra era guerra. Mandou elas voltarem  para a fronteira. E a p. Dez
quilmetros! Foi uma pena. Eu j tinha a minha bugra marcada na paleta.
  O relgio grande comeou a bater meia-noite.
  - E depois? - perguntou o Neco, que estava montado numa cadeira, ambos
os braos pousados no respaldo.
  Rodrigo tirou da gaveta da escrivaninha um mapa do Brasil e estendeu-o
em cima da mesinha, diante da poltrona que o irmo ocupava. Torbio
inclinou-se para a frente,  franziu o cenho:
  - Sou ruim pra mapas.. Quem entende bem deste negcio  o Prestes... Ah!
- A ponta de seu dedo grosso e tosco resvalou sobre a carta geogrfica e
parou num ponto.  - Aqui neste lugar atacamos o inimigo com uma carga de
cavalaria. Eu tinha comigo gente do Rio Grande e boa cavalhada. Me
lembrei muito de 23...
  - Que efetivo tinha a Coluna? - indagou Rodrigo.
  - Quatro destacamentos num total de pouco mais de mil e quinhentos
homens.
  - Mal armados? Torbio deu de ombros:
  - Ningum se queixava. Tnhamos at metralhadoras pesadas. Mas l por
fins de junho... deixe ver... Eu me perco nesse negcio de datas... Sim?
Em junho de 1925,  entramos em Gois.
  - Mas qual era o plano de vocs?
  677
  - Cruzar o Brasil central, ir arrebanhando pelo caminho cavalos e gado,
requisitando munio de guerra e de boca, recrutando gente...
voluntrios, naturalmente.
  - Que tal o Joo Alberto? - perguntou Chiru.
  -  um bicho que eu estimo e respeito. Tem a cabea fria. Mesmo na hora
do maior perigo no perde as estribeiras. Pensa claro, faz o que 
certo. Uma vez, na retranca  duma metralhadora pesada, ele e mais uns
poucos companheiros agentaram um ataque violento da cavalaria inimiga
em nmero muito superior. Quem socorreu o pernambucano  foi um gacho
muito amigo dele, o major Nestor Verssimo que, com seu piquete, fez uma
contracarga que obrigou os atacantes a recuarem.
  Torbio sorriu, com ar evocativo.
  - O Joo Alberto achava o Nestor to parecido comigo que s vezes, assim
um pouco de longe, at me confundia com ele. Quando queria se referir ao
Verssimo, ele  me dizia "o teu irmo gmeo". Pois esse gacho de Cruz
Alta tinha boas. Uma vez na linha de fogo, no meio das balas, resolveu
descansar porque fazia duas noites  e dois dias que no dormia. Disse
pra um companheiro: "Se a coisa piorar, me acordem". Deitou-se, fechou
os olhos e pegou logo no sono.  um brbaro.
  - Fala o roto do esfarrapado... - sorriu o Neco.
  - H uns tipos que no vou esquecer mais - prossegue Torbio - nem que
eu viva mil anos. - Calou-se por alguns instantes, sorrindo decerto para
as suas memrias.  - Um deles  o coronel Lus Carreteiro, caboclo alto,
reforado, morenao, de barba e bigode, a cabeleira j meio querendo
branquear. Andava mais enfeitado que mulher  de gringo. No gostei nada
da fantasia dele. Umas bornbachas largonas cheias de bordados e botes
de madreprola. Chapelo de abas anchas, com barbicacho. Leno  colorado
no pescoo. Peito cheio de medalhas e penduricalhos. Chilenas de prata
que faziam barulho de libra esterlina quando ele caminhava. Dois
revlveres na cintura.  Parecia mais um cowboy de cinema que um gacho
de verdade. A gente tinha a impresso que ele tinha se preparado no pra
marchar com a Coluna, mas pra tirar o retrato.  Na fita do chapu lia-se
um letreiro, numa mistura
  678
  de castelhano e portugus: "No dou nem pido ventaja". Contou que era do
Rio Grande do Sul e que, muito moo, tinha feito a Revoluo de 93.
Botei o homem de quarentena,  mas no primeiro combate vi que tinha
valor. Era macho mesmo. Da por diante desculpei todo aquele carnaval.
  - O bicho agentou at o fim da marcha? - perguntou Liroca.
  - At o fim da vida dele.
  - Morreu de bala ou de arma branca? - tornou a perguntar Jos Lrio.
Esses pormenores tinham para o veterano uma importncia mgica.
  - Parece mentira. O coronel Carreteiro tomou parte em muitos combates, e
nunca foi ferido. Morreu na cama, de uremia.
  - Que injustia!
  Rodrigo ergueu-se para se servir de conhaque.
  - Que homens como tu, o Nestor e outros gachos "duros pr frio" tenham
agentado a marcha eu compreendo - disse. - Mas nunca pensei que esses
"tenentinhos" tivessem  caracu...
  - Pois  pra ver como so as coisas. Eu tambm me enganei com muitos
deles. Quem fazia a nossa retaguarda era o Cordeiro de Farias, um moo
simptico, muito bem-educado,  e de fala macia. Olhei para ele e pensei:
Xii, este menino bonito no vai agentar o repuxo. Mas qual! Agentou. E
lindo. Uma ocasio o Cordeiro e seu destacamento  ficaram tiroteando com
a vanguarda legalista do Bertoldo Klinger. Queimaram at o ltimo
cartucho, contiveram o inimigo e assim deram tempo pr resto da Coluna
escolher  uma posio mais conveniente pr combate.
  - E o Siqueira Campos? - indagou Neco, ao mesmo tempo que Chiru
perguntava: - E o Juarez Tvora?
  - Desses nem preciso contar nada, porque vocs conhecem bem... Os
jornais sempre falavam neles. Flor de gente. Coragem sem fanfarronada.
  - O que prova - interveio Roque Bandeira - que valentia no  privilgio
de gacho.
  Liroca lanou um olhar de reprovao para o lado de tio Bicho. Como
ousava dar "palpites" aquele gordo sedentrio, aquele
  679
  gacho renegado que jamais vira de perto uma s revoluo  pela vida?
  
  36
  Rodrigo, agora sentado num dos braos da poltrona do irmo, bateu no
ombro deste:
  - E o chefo? O Prestes?
  Torbio ergueu o copo, que Chiru se apressou a encher de caninha.
  - No princpio foi um caro custo convencer a minha gente a acreditar no
homem como nosso comandante. Vocs sabem... O pessoal implicava com a
vestimenta dele, uns  culotes esquisitos, e com aquelas latas cheias de
mapas que o homem sempre carregava no cavalo... Depois, a barba no
iludia ningum. Por trs dela estava um menino.  Nossa tropa era muito
misturada, tinha de tudo: gente desligada do Exrcito, revolucionrios
de 22 e 23, pees de estncia, doutores, estancieiros, comerciantes,
caixeiros de lojas, ndios vagos, tudo... Olhavam para o Prestes com
desconfiana. Mas o homem se imps. Acabou mandando mais que o Miguel
Costa. Depois da queda  de Catanduvas, a Coluna estava desmoralizada,
alguns falavam at em emigrar. Mas o Prestes bateu p e disse que fosse
embora quem quisesse, porque ele ia continuar.  Da por diante ningum
teve mais dvida quanto  chefia da Coluna.
  - E o Miguel Costa?
  - A est outro sujeito de fibra. Um pouco difcil de entender. Falava
pouco. Mas macho. Caiu ferido mais tarde, quando eu j estava preso, e a
Coluna rumbeava de  novo para Mato Grosso. Uma bala no peito, ferimento
feio. Foi um companheiro de cadeia no Rio que me contou a histria. Quem
socorreu o Miguel Costa foi o Joo Alberto.  Diz que o coitado botava
sangue pela boca (me lembrei do velho Licurgo). O rombo era enorme,
quase se podia ver o corao batendo... Pois o homem agentava tudo  sem
gemer. Fizeram-lhe um curativo ligeiro, botaram iodo na ferida, tudo
isso no meio do combate. E o homem ali a botar sangue pela boca. Todos
achavam que ele  estava perdido, mas conseguiram costurar
  680
  o talho e dois meses depois o Miguel Costa j andava de p; pronto pra
outra.
  Rodrigo de novo caminhava dum lado para outro. Todas aquelas histrias o
deixavam numa excitao febril: mescla de entusiasmada admirao e
inveja, pois ele no  tinha participado da marcha herica. Intrigava-o
saber que "tenentinhos" que no haviam passado da casa dos vinte se
tivessem atirado naquela grande aventura, indo  at o fim. Que fora os
animaria? Com que misteriosas reservas morais contariam? Que iria
acontecer-lhes, agora que estavam exilados ou presos? Haveria alguma
esperana  de que um dia fossem reincorporados  vida nacional?
  Tio Bicho abafou um bocejo, mas seus olhos interessados no se afastavam
do rosto de Torbio, que prosseguiu:
  - Mas chega de falar nos grados, nos graduados, nesses que sempre
tiveram os nomes nos jornais. Vamos falar nos outros, na soldadesca.
Havia uns tipos macanudos.  Alguns conheci de perto, brigaram a meu
lado. Outros vi de longe. E de outros s ouvi falar, pois no eram do
meu destacamento. Davam um romance. E que romance!
  O Z Bigode, guarda do arquivo da Coluna, um misto de funcionrio e
revolucionrio, defendia sua carga como um tesouro. Vadeava rios com ela
nas costas, sem molhar  um papel. Contava-se que um dia, no pior dum
combate, em vez de abrigar-se atrs dos peuelos que continham o
arquivo, preferira proteger este com o prprio corpo.
  O P de Anjo era especialista em assaltar trincheiras a peito
descoberto, e tivera o corpo quatro vezes furado por balas.
  E o Z Vivo? Esse era um voluntrio maranhense, e ficara aleijado em
conseqncia dum ferimento recebido na linha de fogo. Tambm no quis
ficar para trs, e por  algum tempo foi carregado em padiola pelos
companheiros. Por fim ele mesmo improvisou umas muletas, com galhos de
rvores, e continuou a marchar "por conta prpria".  Dizia-se que era
uma coisa portentosa ver aquele homem na hora do combate, a atirar de p
com sua carabina, o corpo sustentado pelas muletas.
  O caso do negro Ermelindo era dos mais comoventes. Juntara-se  Coluna
para acompanhar um jovem que ele ajudara a criar,
  681
  filho dum estancieiro do Rio Grande do Sul do qual o crioulo fora peo
durante quase quarenta anos. Ermelindo servia seu amo como um fiel
escudeiro, cuidando-lhe  da roupa, da comida e das armas. Sua dedicao
era tamanha que os companheiros de destacamento lhe chamavam "Anjo da
Guarda". Duma feita, numa escaramua de patrulhas,  seu protegido, que
era tenente, ficou para trs e um piquete de cavalaria inimigo
precipitou-se na direo dele. Ermelindo sentou o joelho em terra e
comeou a atirar  com sua Mauser, ao mesmo tempo que gritava: "Vai-te
embora, guri! Vai-te embora! Tenho pouca munio e quando as bala se
acabar tenho de entreverar com a chimangada".  Como era maragato, para
ele o inimigo s podia ser "chimango". O tenente safou-se. Depois de
disparar o ltimo tiro, Ermelindo puxou da espada e esperou a carga.
Morreu varado de balas.
  - Havia um sargento protestante - continuou Torbio - um tal de Joo
Baiano, que no perdia oportunidade pra fazer sermes e ler trechos da
Bblia que carregava  num embornal, de mistura com balas de revlver.
Conheci tambm um catlico beato, o tenente Belchior, melenudo e
mal-encarado. Ajudava a rezar missa onde encontrasse  igreja e padre,
botava uma daquelas vestimentas de sacristo por cima da adaga e da
pistola e l ficava a tocar campainha e a alcanar coisas pr vigrio.
Um espetculo!
  Era espantosa a coragem e a capacidade de resistncia daquela gente. A
Coluna no tinha servio mdico organizado. Torbio lembrava-se do caso
dum companheiro cujo  peito fora varado por uma bala, e que se curara no
mato, mastigando as ervas que os sertanejos lhe recomendavam. Um outro
recebera um tiro que lhe entrara na boca  e lhe sara na nuca. O homem
sobreviveu e continuou a seguir a Coluna.
  37
  O relgio bateu uma badalada. Nenhum daqueles homens ali no escritrio
teve conscincia disso. Pareciam estar todos dentro duma dimenso pica
e intemporal.
  682
  - Isso  melhor que fita de cinema - comentou o Chiru, dando uma palmada
no ombro de Torbio, que perguntou:
  - Ser que sobrou alguma coisa do jantar?
  Rodrigo foi at a cozinha, de onde voltou com uma travessa cheia de
pedaos de galinha e peru com farofa, sarrabulho e fatias de po.
Torbio e tio Bicho foram os  primeiros a se servirem. Ningum reclamou
pratos e talheres. Usaram os dedos, como que contagiados pelo esprito
da marcha.
  - Agora precisamos dum bom vinho tinto! - exclamou o anfitrio. Foi
buscar duas garrafas de Borgonha e novos copos.
  - Sim, havia mulheres seguindo a Coluna - disse o guerrilheiro, aps um
silncio, satisfazendo a curiosidade do Neco. - Eram casadas ou
amasiadas com soldados ou  oficiais. Na minha opinio a Santa Rosa era a
mais extraordinria de todas.
  Contou, enternecido, a histria da mulher. O marido era soldado do
destacamento de Cordeiro de Farias e ambos seguiam a Coluna desde o Rio
Grande do Sul. Ficou grvida  e seu ventre foi crescendo durante a
marcha. "Ento, Santa Rosa, pra quando  a festa?" A mulher sorria: "Pra
qualquer dia destes, se Deus quiser". Nos ltimos tempos  recusava-se a
andar a cavalo, seguia os soldados a p "pra fazer a criana baixar e
nascer mais ligeiro". Uma noite vieram as dores. O inimigo andava por
perto.  Algum se arriscou a sugerir que deixassem Santa Rosa pra trs.
Houve protestos gerais. Todo o mundo queria bem quela mulher destemida
e dedicada, que acompanhava  o marido atravs de perigos e durezas.
  - E vocs sabem o que fez o Joo Alberto? - disse Torbio. - Pois esse
pernambucano com cara de pau no fundo  um sentimental. Retardou a
retirada por algumas horas,  pra Santa Rosa ter a criana. Fizeram um
fogo, aquentaram gua numa lata, meteram dentro dela uns trapos, e a
funo comeou. Mas o grosso do destacamento no pde  esperar muito
tempo. Deixamos a mulher pra trs, com um pequeno grupo de voluntrios,
e seguimos nosso caminho.
  Torbio ficou um instante pensativo, como quem sente saudade de alguma
coisa.
  683
  - Somos todos umas vacas - murmurou, sacudindo a cabea e mastigando um
bom naco de galinha, os lbios lustrosos de banha. -- Marchei com os
outros pra obedecer  ordens, mas fiquei com um remorso danado. O inimigo
podia agarrar e liquidar a Santa Rosa e os companheiros. Depois de
algumas horas de marcha, notei que o Nestor  estava com uma cara
engraada, assim como quem quer dizer alguma coisa e no encontra jeito.
Sabem o que era? O major Verssimo estava preocupado com o que pudesse
acontecer a Santa Rosa e  sua guarda. Por fim falou franco com o Joo
Alberto, que no teve outro remdio seno permitir que o major e mais
trinta homens voltassem  para escoltar a mulher at onde estvamos
acampados. No outro dia, de manhzinha, um dos nossos soldados veio a
todo o galope anunciar que a criana tinha nascido  sem novidade. Era
macho e ia se chamar Jos. Nesse mesmo dia apareceu a Santa Rosa montada
a cavalo, com o filho nos braos, rodeada pela sua escolta. Para resumir
a histria, a criana cresceu durante a marcha, andava escanchada nas
cadeiras da me e s vezes pendurada no pescoo dum que outro soldado.
  Lgrimas escorriam pelas faces do velho Liroca. Rodrigo no podia nem
tentava esconder sua emoo. Tio Bicho soltou um arroto e disse:
  -  uma pena que mulheres como essa jamais passem para a histria. Para
principiar, nem sabem que existe tal coisa...
  Torbio ergueu-se, espreguiou-se, tornou a encher o copo de vinho,
ficou um instante a olhar para a bebida e depois:
  -- Mas havia outras - disse. - Umas horrorosas, verdadeiras megeras. De
vez em quando aparecia uma bonitinha. Das feias a pior era a Cara de
Macaca. Andava sempre  com gibo e chapu de couro. - Soltou uma risada.
- Agora estou me lembrando duma boa histria. Um dia o amsio da
cangaceira tomou um porre monstro e resolveu acabar  com a vida dela.
Ergueu o revlver na fua da mulher, puxou no gatilho mas a arma negou
fogo. A sertaneja tirou a arma da mo do companheiro, agarrou ele pelo
gasnete,  levou o bicho ao comandante do destacamento, contou toda
  684
  a histria mas suplicou pelo amor de Deus que no castigassem "o
coitado".
  Outra figura popular entre os soldados era a tia Maria. Tinha o hbito
de festejar as vitrias da Coluna com tremendas bebedeiras. Duma feita,
num lugar chamado  Pianc, bebeu tanto que acabou ficando para trs. O
inimigo trucidou-a.
  A enfermeira Hermnia costumava ir buscar os feridos na linha de fogo. A
Chininha, gordssima, apesar das longas marchas a p, no conseguia
emagrecer. E a Joana  era to pequena, que na travessia dos rios quase
se afogava, quando a gua dava apenas pelo peito dos soldados. Houve
quem fizesse versos contando a odissia da  Albertina, flor de moa, que
um dia deixou a Coluna para ficar cuidando dum tenente que, alm de
tuberculoso, tinha sido ferido em combate. Foi presa e degolada  por um
batalho de civis.
  Fez-se um silncio. Rodrigo sentou-se e ficou de olhos cerrados,
pensando nas coisas que o irmo acabara de contar. Neco acendeu um
cigarro de palha. Torbio e Chiru  o imitaram.
  Quando o relgio bateu as duas da madrugada, os seis amigos estavam
ainda no mesmo lugar. Torbio, mais desperto que antes, ainda falava.
  - Aconteciam coisas engraadas. Uma vez passamos a noite num convento de
dominicanos, em Porto Nacional, nas margens do Tocantins. - Aproximou-se
da mesa e apontou  para um lugar no mapa. - Aqui. E pela primeira vez na
minha vida dormi com um padre.
  - Opa! - exclamou Chiru.
  - Quero dizer, dormi no mesmo quarto. Os padres nos trataram  vela de
libra. Mas no resisti... roubei um livro do meu companheiro de
quarto... Eu andava sem nada  pra ler...
  - No me diga que era o Livro de horas - brincou tio Bicho.
  - Era o Rocambole, uma brochura esbeiada e sebosa. O livro me
acompanhou por vrios meses. Muitas noites,  luz das fogueiras, eu me
distra com ele... Depois perdi  o volume. No. Desconfio que o Nestor
me roubou. - Soltou uma risada.
  685
  Liroca olhava atentamente para o mapa. Queria saber exatamente qual
tinha sido o trajeto da Coluna.
  - O nosso plano, depois de sair de Ponta Por, era cruzar o Brasil
central e depois rumbear pr Nordeste. Invadimos Minas Gerais porque
esse era o caminho mais fcil  para chegar ao corao de Gois. Foi
ento que vi uma coisa que nunca esperava ver na vida: o rio So
Francisco. Continuamos a marchar pr Norte e, quando estvamos  perto da
Bahia, quebramos  esquerda, entramos em Gois e tocamos pr vale do
Tocantins.
  - E tu sempre foste fraco em geografia do Brasil! - exclamou Rodrigo.
  - A marcha atravs de Gois foi divertida, fcil. O Estado  bonito, o
clima, bom. O Joo Alberto me dizia, olhando o planalto: "Seu Bio, aqui
 que est o futuro  do Brasil. Quando  que esses governos de borra vo
compreender?"
  - Quanto tempo levaram para atravessar Gois? - indagou Liroca.
  - Sei l! Eu no carregava calendrio. Nem relgio. Quem sabia dessas
coisas era o Prestes e o Joo Alberto. Eu no. Mas... o que sei dizer 
que era primavera e  comeavam as chuvas. A tropa estava agora bem
montada, bem alimentada, comendo boa carne. Foi assim que chegamos ao
Maranho.
  - Minha nossa! - exclamou o Liroca, olhando para o mapa. - Como vocs
foram longe, major!
  - Depois descemos pr Sul e fizemos um estrupido danado no Nordeste -
continuou Torbio. - Muito vilarejo invadi com o meu piquete de
vanguarda. Quase tomamos a  capital do Piau. Chegamos a fazer o cerco e
travar combate. Espervamos um levante dentro de Teresina, mas a coisa
gorou. Perdemos nesse ataque uns cem homens,  dos bons.
  Fez um silncio. Rodrigo afrouxou o lao da gravata, desabotoou o
colarinho e o colete: estava agora mais deitado que sentado na poltrona.
Seus olhos continuavam  fitos no rosto do irmo, que prosseguiu:
  - Foi l que prenderam o Juarez Tvora. Assim, tivemos de entrar no
Cear sem o nosso cearense, com quem a gente contava
  686
  pra fazer uns contatos e animar o povo. Atravessamos o Rio Grande do
Norte e entramos na Paraba. Marcha forada. O passeio tinha acabado.
Agora no s as foras  do governo andavam nos nossos calcanhares como
tambm batalhes de jagunos. Fomos encontrando surpresas pelo caminho.
Gente que devia estar do nosso lado atirava  em ns. Nossos soldados,
mais de metade, estavam atacados de malria. Havia horas que dava no
pessoal uma tremedeira danada, que era triste e ao mesmo tempo engraado
de ver. Torbio apanhou a ltima coxa de galinha, meteu-lhe os dentes e,
com a boca cheia, retomou a narrativa:
  - No limite de Paraba com Pernambuco me aconteceu outra coisa
engraada. Como disse h pouco, nunca tinha dormido com padre. Outra
coisa que eu nunca tinha feito  com padre era brigar. Pois no Pianc fui
obrigado a dar uns tirinhos no padre Aristides, que na minha opinio era
mais cangaceiro que sacerdote. Primeiro nos armou  uma cilada, veio de
bandeira branca... depois abriu fogo. Pois o diabo do homem defendeu a
cidade com seus paroquianos e capangas. Era valente com as armas. Morreu
em ao. Por causa do raio desse padre quase nos perdemos do resto da
Coluna. S nos juntamos com ela em terras de Pernambuco. Da por diante
tudo piorou. Tnhamos  sido bem recebidos em todos os Estados que
cruzamos, at o Piau. Depois a coisa mudou de figura. Corria por toda a
parte a notcia da morte do padre Aristides,  e em cada lugarejo onde a
gente chegava nos recebiam a bala. Uma vez me acerquei dum rancho,
gritei: " de casa", pedi um copo d'gua e o que me deram foi uma
descarga  de chumbo. Depois foi o deserto, o calor e no queiram saber o
que  passar sede. Mil vezes pior que fome. Nunca senti tanta saudade
dos campos e das aguadas do  Angico!
  Tornou a rir:
  - Me lembrei muito do Euclides da Cunha. Me parecia que eu tinha entrado
dentro do livro dele. Tu sabes, Rodrigo, li Os sertes muitas vezes,
principalmente a parte  da campanha de Canudos. O diabo queira brigar
com jaguno! Onde a gente menos esperava, l estavam eles de tocaia. A
gauchada que me acompanhava andava louca da  vida. Queriam cargas de
cavalaria (o terreno
  687
  no se prestava), entrevero em campo aberto... Essa histria de ficar
esperando o inimigo atrs dum toco de pau no era com eles. Depois,
quando se metiam pelas  caatingas, se feriam nos espinhos e saam
furiosos. - Encolheu os ombros. - Mas que era que se ia fazer? Dana-se
de acordo com o par. Tocamos pra diante. E como  se os jagunos no
bastassem, tnhamos outros inimigos: bichos pequenos e grandes e outras
calamidades.. Uma ocasio o 2 Destacamento pegou uma sarna braba, e
mesmo  na hora do combate os soldados tinham de parar pra se coarem.
  Torbio limpou as mos lambuzadas de banha nos lados das calas. Deu
alguns passos no escritrio, sentou-se na escrivaninha e tornou a falar:
  - A situao melhorou um pouco quando entramos em Minas Gerais. Os
legalistas tinham uma concentrao nas margens do So Francisco e ns
fomos informados que mais  tropas iam ser enviadas do Sul para nos
atacar. O remdio era voltar para trs.
  - O movimento  a vitria - murmurou Liroca, repetindo sua citao
napolenica favorita.
  - Tornamos a entrar na Bahia. Foi l que me pegaram. Vocs conhecem a
histria. Mas a Coluna continuou, cruzou Pernambuco, Piau, meteu-se de
novo naqueles campos  sem fim de Gois, atravessou o Mato Grosso e se
internou na Bolvia.
  - Quantos quilmetros ao todo, major? - perguntou Chiru.
  - No contei. Pra mim distncia  movimento. Tempo tambm  ao. O que
eu queria era cancha. J disse que no carregava no bolso nem folhinha
nem relgio. O sol  me dizia quando era dia e as estrelas, quando era
noite. Quando no havia estrela, a escurido tinha a palavra. Mas ouvi
dizer que a marcha da Coluna Prestes cobriu  quase trinta mil
quilmetros.
  - A Ia putcha! - exclamou Liroca.
  38
  O relgio bateu mais uma badalada. Chiru abriu a boca, num bocejo
musical. Rodrigo olhou para o relgio-pulseira. Mas Neco
  688
  e Liroca estavam ainda a escutar, interessados, as palavras do
vanguardeiro de Prestes, que, com a voz agora amolentada pelo sono,
ainda falava.
  - Inventavam cobras e lagartos da Coluna. Diziam em todo o serto que
ns levvamos feiticeiras e que de noite elas danavam na frente das
metralhadoras, e essa  dana fazia os soldados ficarem com o corpo
fechado. - Torbio escancara a boca num bocejo. - Essa histria de
flauta e msica tem o seu fundamento. Sempre que a  gente acampava, o
Joo Alberto, que  louco por msica, fazia funcionar uma vitrola que
andava sempre com ele, e tocava os seus discos com uma agulha que com o
uso  ficou rombuda. Acho que algum espio inimigo ouviu a msica e viu
as nossas vivandeiras na luz da fogueira dos acampamentos...
  - Atribuam ao Prestes poderes sobrenaturais - disse Rodrigo, que estava
quase morto de sono e ao mesmo tempo fascinado pela narrativa do irmo.
  - . Diziam que o homem era adivinho. Inventaram at que, com aquelas
suas barbas, o Prestes era uma nova encarnao de dom Pedro II que
voltava para tomar conta  do Brasil. Outros garantiam que at a princesa
Isabel andava com a gente.
  Fez-se um silncio. Os olhos de Neco aos poucos se apequenavam de sono.
Liroca soltou um suspiro:
  - Que epopia!
  Torbio tirou o casaco e a camisa e ficou com o dorso completamente nu.
  - Fiz a maior parte da travessia assim... S botava camisa e casaco de
noite, quando a temperatura caa... e quando eu tinha camisa e casaco.
Perdi as botas em Pernambuco.  Andei de p no cho durante vrios dias.
  - Teu peito parece um mapa - sorriu Rodrigo.
  Na pele queimada de sol viam-se cicatrizes, lanhos, manchas. Torbio,
sorridente, mostrava as marcas uma a uma com o dedo.
  -- Chumbo... chumbo... chumbo... - contou doze delas. - Esta aqui foi
duma bala que me pegou de raspo. Esta outra no sei bem... um bicho
qualquer me mordeu de  noite, a ferida apostemou, tive febre.
  689
  - Escorpio - sugeriu Liroca, novelesco.
  - Quem sabe! E esta aqui, perto da mamica, foi um talho de faca, num
corpo-a-corpo. E o resto, amigos, so arranhes dos espinhos das
caatingas, talhos de ponta  de pedra... e recuerdos da priso do Rio. O
filho da me do carcereiro me queimou a mo com a chama duma vela...
esto vendo a marca? S de implicncia. Quebrei-lhe  todos os dentes.
Da por diante ficou que nem doce de coco, muito meu amigo, me trazia
comidinhas especiais...
  Tornou a atirar-se na poltrona e abriu a boca num prolongado bocejo.
Bateu no brao do irmo:
  - E tu, patife, que no querias que eu fosse pra revoluo! Te lembras?
V s quanta coisa eu ia perder se tivesse ficado...
  Eram quase trs da madrugada quando Liroca, Chiru e Neco se retiraram do
Sobrado, arrastando consigo tio Bicho, que a todo transe queria ficar
para continuar a beber.
  Torbio e Rodrigo permaneceram ainda alguns instantes no escritrio, num
duelo de bocejos, ambos sonolentos mas sem muito nimo para subirem a
seus quartos.
  - Como vai o Zeca? - perguntou o guerrilheiro.
  - Muito bem. Foi o primeiro da classe este semestre. Os maristas esto
muito orgulhosos dele.
  - No puxou por mim...
  Torbio sorriu, e uma ternurinha lhe brilhou nos olhos mal abertos.
Depois ficou a mirar sua "obra-prima" - o navio de paus de fsforos que
na cadeia ele armara  dentro duma garrafa - e que estava agora em cima
da escrivaninha.
  - Vou dar esse negcio pr meu guri - murmurou ele.
  Ergueu-se, acercou-se da mesa, ficou a olhar por alguns segundos para o
retrato do velho Licurgo, que ali estava. Depois, tornou a aproximar-se
do irmo.
  - Nunca duvidaste do meu juzo..
  - U, Bio? Nunca.
  - Sabes que nunca fui de ter vises.
  - Claro.
  - Nem um mentiroso...
  - Homem, que negcio  esse?
  690
  Torbio coou a cabea.
  - Desde o nosso encontro no Rio estou pra te contar uma coisa que me
aconteceu, mas ainda no tive coragem...
  Rodrigo ergueu-se, picado pela curiosidade.
  - Fala, rapaz! Tens algum problema? Desembucha.
  - s a primeira pessoa a quem vou contar a histria. A primeira e a
ltima. E te peo que no repitas a ningum.
  - Vamos, homem.
  - A coisa aconteceu pouco depois do combate do Pianc. Eu e uns oito
companheiros estvamos perdidos no mato. Chegamos a uma clareira e vimos
dois caminhos: um que  ia pra direita e outro pra esquerda. Qual deles
nos podia levar de volta ao grosso do destacamento? No havia tempo a
perder. O inimigo andava por perto. Cinco dos  companheiros no tiveram
dvidas: atiraram-se para a direita e se sumiram no mato. Esporeei o
cavalo para ir atrs deles quando, de repente, o animal se assustou  de
qualquer coisa. Pensei que era ona. Olhei pra frente e vi um vulto
atravessado no meio das rvores. Agora no vs me chamar de doido. O dia
estava claro e eu  vi, mas vi mesmo o velho Licurgo a cavalo, de leno
branco no pescoo, bem como no dia em que foi morto. Fiquei gelado.
Papai me fazia sinais com a cabea e com  a mo, dando a entender que eu
no devia seguir por aquele caminho. Dei de rdeas e me toquei pela
estradinha da esquerda, sem olhar para trs. Os trs homens que  estavam
comigo me seguiram. No tnhamos andado nem cinco minutos quando ouvimos
um tiroteio. Compreendemos que os outros companheiros tinham cado numa
emboscada.  Nunca mais soubemos notcias deles...
  Rodrigo, arrepiado, olhava para o irmo sem dizer palavra. Torbio pegou
a. garrafa com o navio e ergueu-a contra a luz. Um galo cantou longe na
madrugada.
  691
  O AUTOR E SUA OBRA
  rico Verssimo desprezava os valores do gacho tpico: o machismo
obsessivo, o descaso pela msica, o gosto pelo jogo de cartas, ou o
saber desfrutar to bem de  uma arma quanto de uma mulher. Do cdigo
gacho, herdou a franqueza, a lealdade, o empenho da palavra dada, o
arrojo das decises destemidas. E de dentro de sua  aparente timidez
erguia-se um grito de revolta quando sentia a liberdade, a dignidade do
ser humano ameaadas em qualquer sentido. Assim foi em 1940, quando da
aproximao  do Brasil com o nazismo, e em 1970, quando da instituio
da censura prvia no pas.
  Nascido em Cruz Alta, em 17 de dezembro de 1905, sentiu de perto a
decadncia de sua famlia, que se arruinou no comeo do sculo. Ainda
jovem, exerceu diversas  profisses, ajudante de comrcio, atendente de
farmcia e bancrio. A esse tempo foi atrado pelas obras melanclicas e
irnicas de Machado de Assis, Jonathan Swift  e Bernard Shaw.
  Em 1930, em razo da separao dos pais, por incompatibilidade de
gnios, deixa a regio agrcola das serras do Rio Grande do Sul e vai
para uma cidade grande, Porto  Alegre, onde conhece Augusto Meyer, o
grande nome do modernismo gacho, que o encaminha para o jornalismo
literrio. Erico ento se destaca, firmando seu nome com  alguns contos
que reuniria, em 1932, na coletnea "Fantoches", editada pela Globo,
cuja revista secretariava.
  Seus primeiros romances, "Clarissa" (1933) e "Msica ao Longe" (1935),
foram escritos com grande sacrifcio, aos sbados
  693
  e domingos, quando devia descansar do estafante trabalho dirio no
escritrio da livraria e das tradues noturnas. A esses se seguiram
"Olhai os Lrios do Campo"  (1938), "Saga" (2940), "O Tempo e o Vento"
("O Continente", 1949; "O Retrato" 1951; "O Arquiplago", 1954), "O
Ataque" (1959), "O Senhor Embaixador" (1965), "Incidente em
Antares"(1970). Sua obra inclui ainda as memrias de viagens, um sonho
prometido e cumprido pelas vrias partes do mundo: "Gato Preto em Campo
de Neve" (1941), "A Volta do Gato Preto" (1946), recordaes da sua ida
aos Estados Unidos,  "Mxico, Histria de uma Viagem" (1967), "Israel em
Abril" (1969).
  Erico Verssimo faleceu em 1975, s vsperas da publicao do segundo
volume de "Solo de Clarineta ", seu livro de memrias, que traduz a vida
de um homem de inquestionveis coerncia e coragem pessoal.
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